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Emanuelle Gomes @Emanuelle_ND Florianópolis |
“Essa rua era só areia e muito turistas vinham e atolavam o carro aqui. Foi assim que as rendas de bilro começaram a serem conhecidas, já que eles paravam e se interessavam pela cultura.”, Silvia Maria Vieira, 60, rendeira.
Passando pelo centrinho da Lagoa da Conceição, pela praça, pela avenida da Rendeiras, nem sempre é possível perceber a riqueza cultural que o bairro reserva. “É preciso pegar o carro e entrar em cada rua, passear por aí para achar coisas que você não sabe que existem”, diz Vera da Silva, que fugiu do Centro de Florianópolis com a amiga para relaxar na frente de uma casa em ruínas situada atrás da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição.
Até mesmo coisas que estão na nossa frente passam despercebidas muitas vezes. Quem passa pela avenida das Rendeiras, por exemplo, não imagina as histórias que ela guarda. A rendeira Silvia Maria Vieira, 60, nasceu no local e vende rendas de bilro há 46 anos. Ela conhece bem a trajetória daquela que é a principal rua da Lagoa, e das mulheres que deram o nome à via.
“Essa rua era só areia e muito turistas vinham e atolavam o carro aqui. Foi assim que as rendas de bilro começaram a serem conhecidas, já que eles paravam e se interessavam pela cultura. Começamos a vender então aqui, porque antes disso tínhamos que ir para o Centro a pé”, conta. Mas, para ela, a melhoria da estrada trouxe caos ao bairro e diminuiu, com o passar dos anos, as vendas.
“A Lagoa era linda, tinha de tudo, peixe, siri. Hoje está poluída. Perdeu bastante do encanto. O movimento baixou, porque os turistas não têm paciência para ficar na fila. Eram 33 lojas de renda, hoje são oito”, comenta. Apesar do descontentamento dos antigos moradores, muitos turistas ainda se encantam com a natureza, cultura e gastronomia local. É o caso de Ali Pirie, escocês que veio conhecer Florianópolis pela primeira vez.
Para ele, olhar a Lagoa é ver um lugar lindo, com pessoas bonitas e felizes. “Elas não têm preocupações. É muito diferente da Escócia. Lá as pessoas são mais velhas e é mais silencioso”, explica. Porém, ele concorda com Silvia quanto ao trânsito. “Aqui se leva muito tempo para chegar a algum lugar”, complementa.
Grafites e arquitetura açoriana
A Lagoa é muito mais do que as belezas naturais, a tradição das rendas de bilro e o centrinho badalado que se enche no período da noite. Na praça da Lagoa, nos muros em diversas ruas, na quadra de esportes do Escola Básica Municipal Henrique Veras, o grafite toma formas inéditas. Na rua João Pacheco da Costa, uma casa histórica guarda passado, arte e tecnologia. Além disso, a arquitetura açoriana é presença constante em residências e restaurantes.
Lá de cima do Mirante da Lagoa, principal ponto de encontro de turistas do mundo inteiro, pouco se percebe da magia do bairro. E mesmo quem mora perto ainda sente a necessidade de explorar incansavelmente esse mundo escondido nas ruas estreitas da Lagoa. “Sempre venho, mas nunca tinha passeado de barco pela Costa da Lagoa”, conta Ana Paula Vieira Bruggemann, moradora de São José.
Um pouco da Lagoa
A região do bairro Lagoa da Conceição foi habitada primeiramente pelos Carijós, índios Tupi Guarani. Em 1750, com a vinda da Corte Portuguesa, o local passou a ser denominado Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Lagoa, a mais antiga freguesia de Florianópolis. Serviu de moradia para os habitantes da Ilha do Açores que vieram para cá entre 1748 e 1756.

Rosane Lima/ND
GIOVANA KINDLEIN - Especial para o Notícias do Dia
“A forma simetricamente perfeita que os colonizadores erigiram aqui, com três quadras acima do mar e duas à direita da Igreja Nossa Senhora das Necessidades é a nossa maior expressão”. Edenaldo Lisboa da Cunha, o Feijão, líder comunitário.
O cineasta americano Francis Ford Coppola passou uma semana procurando um lugar em Florianópolis para investir. Conheceu Canasvieiras, Jurerê, Santinho e se encantou por Santo Antônio de Lisboa. Era manhã de terça-feira, 28 de agosto de 2007. De bermuda, camisa, chinelo e chapéu de palha, na companhia de uma corretora de imóveis, ele parou em frente ao bar Gambarzeira, na Rua Cônego Serpa, no centro histórico do distrito, e pediu informação, como qualquer turista, a Edenaldo Lisboa da Cunha, o Feijão. Foi um assombro. A conversa só não foi adiante porque Feijão não sabia falar inglês. “Tenho os meus pés atolados em Santo Antônio de Lisboa... Não preciso sair daqui para conhecer o mundo, porque o mundo passa por aqui”, diz.
O charme que atrai tanta gente a Santo Antônio de Lisboa está na beleza arquitetônica de vila oitocentista aliada a uma idílica paisagem do mar. Parece cenário de novela romântica. “A forma simetricamente perfeita que os colonizadores erigiram aqui, com três quadras acima do mar e duas à direita da Igreja Nossa Senhora das Necessidades é a nossa maior expressão”, considera Feijão.
Popular líder comunitário no distrito, Feijão está no quarto mandato consecutivo à frente da Associação Recreativa Cultural Esportiva Avante, de 2004 a 2012. Há 32 anos ajuda a organizar o Carnaval e há 12 comanda a saída do bloco de rua Baiacu de Alguém. Simpático, defende a vivência em comunidade. “Quanto mais comunitária é a vida, mais prazeroso é viver”, deduz o proprietário do Gambarzeira, que mantém a vista uma placa com os dizeres: “Aberto diariamente/ Das zóra cô quero/ até às zóra cô quizé/ Assinado: o dono”.
Visível nas paredes dos bares, restaurantes e também nas vitrines das lojas é o intenso sentimento de religiosidade, herdado dos portugueses e açorianos. Tanto é que o distrito tem dois padroeiros: o próprio Santo Antônio de Lisboa e Nossa Senhora das Necessidades. Esta espiritualidade pode ser sentida de perto em setembro durante o cortejo imperial ao Divino Espírito Santo, que sai da Igreja de Nossa Senhora das Necessidades e segue à noite pelas ruas do distrito. Os cristãos acreditam que o Espírito Santo concede dons de longanimidade, amor, alegria, paz, benignidade, bondade, fé, mansidão e temperança.
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Edson Rosa Florianópolis |
Até 1940, as atividades da tradicional Conselheiro Mafra giravam em torno do cais, extinto nos anos 1980.
Galeano Chaves, 50 anos, é do tempo em que lojas fechavam para o almoço, carros transitavam pela pista estreita de paralelepípedos e prostitutas tinham clientes de sobra dia e noite. Há três décadas trabalhando na Conselheiro Mafra, a primeira como empregado da extinta Eletrogas e as duas últimas como empresário do ramo de consertos e venda de peças de fogão, o lageano simpático é testemunha de poucas transformações na rua mais antiga da cidade. “Na verdade, houve algumas mudanças no visual, mas a Conselheiro mantém resquícios do passado, a essência é quase a mesma”, resume.
Estabelecido exatamente na esquina com a Bento Gonçalves, no antigo beco do Segredo (acesso ao porto de Florianópolis), mais da metade da vida de Chaves está ligada à Conselheiro Mafra. Os primeiros anos foram difíceis. Jovem e sonhador, morava no sótão de um sobrado, ainda existente no número 579.
Nas horas de folga, circulava sem pressa entre o extinto clube 15 de Outubro e a praça XV de Novembro, com paradas estratégicas no Mercado Público e no largo da Alfândega, “para botar a prosa em dia”. Mas, foi dali, onde até a década de 1940 a vida fervia em torno do antigo cais, que, a partir de 1980, ele acompanhou a modernização do comércio e do centro urbano de Florianópolis.
O comércio sempre foi forte, variado e popular, com destaque para armazéns de secos e molhados, casas de ferragens, tecidos, roupas e calçados. Aos domingos, conta Chaves, o silêncio tomava conta da rua. “Parecia um cemitério. Era quando eu aproveitava para me divertir com as garotas que ficavam sem clientes”, diz, apontando o porão onde teve a iniciação e adquiriu experiência sexual. “Na juventude, não faltou mulher. E nunca precisei pagar”, completa, com sorriso maroto.
O lado clandestino da rua é preservado por bares “pés-sujos” e casas de prostituição barata, que, apesar do aspecto pouco convidativo, mantêm a altíssima rotatividade dos velhos dormitórios e seus quartos abafados que dividem com tapumes os corredores estreitos dos belos casarões do século 19. “Nestes anos todos presenciei muita coisa, vi assaltos e, principalmente, muita gente descer correndo, com as calças na mão, para fugir da mulherada mais violenta”, sorri.
Forasteiros incorporam a alma da rua
Ele tem a voz de locutor de rádio do interior e ganha a vida anunciando ofertas das maiores lojas da rua, sem deixar de ficar atento a quase tudo o que acontece a sua volta. Há 18 anos na Ilha, o paranaense Tony Duarte, 50, de Pato Branco, compara a Conselheiro Mafra às ruas dos Farrapos, em Porto Alegre, e Marechal Deodoro, em Curitiba.
A Conselheiro, na visão dele, nunca perdeu o aspecto de beira de cais, espaço escolhido pela colônia turca para suas lojas de tecidos e roupas populares. “Tem muita gente séria, trabalhadores e comerciantes, mas é a rua da contravenção. Aqui tudo pode, acabou o cheiro da maresia, mas a ficou malandragem”, diz.
Tony aproveita rápido intervalo no microfone e resume: “Para conviver bem aqui, é preciso ser um pouco cego, surdo e mudo, fazer média com polícia, malandros e prostitutas”. O metro quadrado na região é um dos mais caros da cidade. “Qualquer ponto fica em torno de R$ 300 mil, e o aluguel varia de R$ 8 mil a R$ 30 mil, valores altos para a estrutura e o status da rua”, avalia.
Museu a céu aberto
No olhar da historiadora Marilange Nonnenmacher, que em 2007 “penetrou na alma profana da rua” para defender dissertação na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), a Conselheiro Mafra tornou-se uma espécie de museu a céu aberto que vem se deteriorando como a memória de moradores e comerciantes mais antigos. É ali que estão o prédio da antiga Anfândega, o Mercado Público e o maior conjunto arquitetônico do patrimônio histórico da Ilha, com casarões tipicamente açorianos do século 18.
Em sua pesquisa, ela constatou que a proximidade com o mar deu identidade própria à rua. “Esta parte da cidade abrigou variados grupos da população que subsistiam da intensa circulação de pessoas, produtos e informações que faziam parte da rotina do cais. “Trata-se, portanto, de entreposto de sobrevivência.”
Nomes oficiais
1888 - Rua do Príncipe
1889 - Rua do Comércio
1900 – Altino Corrêa
1910 – Conselheiro Mafra
Nome popular
Rua da Figueira
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Paulo Clóvis Schmitz @pc_ND Florianópolis |
Passar duas horas no Mercado Público é tomar contato com cheiros, sons e sensações que só uma babel desse tipo, eclética e democrática, é capaz de oferecer. O contraste da ala sul, com seu burburinho tradicional, e a ala norte, mais asséptica e comportada, também é patente. A separação entre os dois prédios cabe às mesas e cadeiras do vão central, território neutro no qual o mosaico humano é o mais diversificado possível – do homem do morro, sempre despojado, ao turista que senta para um chope ou um salgado feito na hora.
A rua Conselheiro Mafra também faz o papel de separar o Mercado, com seu público sem luxos, da parte onde a cidade começa a ganhar ares de ostentação, a partir do centro comercial ARS. Lá dentro, o povo da ala dos calçados, verdadeiro camelódromo institucionalizado, em tudo se diferencia do extremo oeste da ala dos peixes, onde madames e jovens bem nascidos provam um petisco caro e, quem sabe, uma taça de champanhe importada.
O que salta aos olhos é a diversidade, a convivência harmoniosa do nativo sem pressa com o forasteiro curioso e disciplinado, ou de quem tapa o nariz ao passar pelas peixarias com o sujeito que especula o preço do camarão. Ou, ainda, o contraste entre o cliente que bebe uma cachacinha, com ar de boêmio, e a mulher que se encanta com as panelas de alumínio – objeto hoje quase expurgado das prateleiras da cidade.
Os odores remetem a alguma sensação do passado, mas a falta de referências da cultura local forçam uma comparação com o artesanato oferecido nos mercados de Maceió, Belém e São Luís, para não falar no Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Churrasquinho de gato tem, cocada tem, amendoim tem também, mas “cadê a sardinha frita e as loucinhas de barro?”, reclama o homem encostado na parede, enquanto observa as moças passando apressadas rumo ao Ticen.
Personagens x figurantes
Entre habituês e passantes desatentos, o Mercado Público de Florianópolis faz a alegria de quem se conforma com o que vê e mesmo daqueles que acham absurdo pagar R$ 5 por uma tulipa de 300 ml. E há o disparate estético entre o exterior, com as cores já incorporadas na retina dos passantes, e a desordem interna, o teto à vista e o formigueiro humano das horas mais agitadas.
Quem conheceu o Mercado em outros tempos sente que ele está mais impessoal, menos agregador, porque já não tem a função de encontro, de confraternização, do passado. Um profissional da fotografia que circula sempre por ali lamenta o fim do romantismo, da poesia, do tempo em que todos eram personagens, não apenas figurantes, como hoje em dia.
Em outras palavras, por conta do progresso, os trapiches e as ondas batendo ali atrás deram lugar a um ruidoso ir e vir e a uma ânsia por lucros e permanência que prejudicou a velha aura do edifício centenário. “Grande caleidoscópio de pessoas”, define um jornalista que conhece a área desde o tempo do Miramar. “Virou coisa de elite”, diz um transeunte que costuma passar ao largo, mesmo reconhecendo o valor histórico do prédio.
São os contrastes de uma edificação que resume, em suas contradições, a confusão de tipos e o lado multicultural da cidade.
São freqüentadores do Mercado Público tanto o empresário quanto o homem do morro, mais despojado
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ND Floripa @ND_Online Florianópolis |
Conhecer e desvendar Florianópolis é sempre fascinante. A Capital não se compara a qualquer outra cidade brasileira dominada pelo concreto. Aqui, passamos por grandes áreas verdes, mangues, dunas e morros para ir de um bairro a outro. É como se Florianópolis não fosse uma única cidade, mas várias cidadezinhas independentes e autônomas: as ilhas da Ilha. A cada nova reportagem nos surpreendemos com as histórias de sonhos de várias gerações e nos encantamos com as belezas naturais ainda pouco exploradas.
Para conhecer Florianópolis é preciso ter olhos vagarosos. Olhos que gastem tempo para admirar a magnitude e, ao mesmo tempo, a simplicidade da paisagem do Ribeirão da Ilha, o romantismo e o charme de Santo Antônio de Lisboa, o refinamento de Jurerê e a intrigante calmaria de Itaguaçu. Não o tempo da contemporaneidade que nos para no trâfego, que nos chama ao celular ou que nos assalta na multidão. Mas sim o tempo certo de nossa alma. E o tempo certo do outro também.
Esta forma de ver o tempo foi compartilhada na série de reportagens do aniversário da cidade por legítimos apaixonados por Florianópolis. Sao eles: Reginaldo Osvaldo da Silva, o Regi; Alexandro Heidenreich, o Kalunga; João Batista Rodrigues Júnior, o Zó; Marcos Leandro Gonçalves da Silva, o Marquinhos; Edenaldo Lisboa da Cunha, o Feijão; e Piero Giacomini. A eles, nossos agradecimentos.
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Giovana Kindlein
Formada pelo curso de jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina em 1985, trabalhou 23 anos como repórter e editora em jornais de Santa Catarina e Paraná. Atualmente presta serviços como freelancer para mídia impressa.
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Letícia Kapper da Silva @kapper_ND Florianópolis |

O texto tem como posposta levar o leitor para um passeio imaginário e instigá-lo a ir até a praça XV. Provar o gosto da descoberta de um espaço conhecido, mas desconhecido. Paradoxal e simples assim.
Ir até lá foi presenciar arte popular nordestina manifestada por meio de prosa e verso. Foi conquistar seu Egídio Luiz Pinto, 72 anos, que não queria falar por vergonha, mas viu a chance de uma boa conversa. Ele mora no Campeche e vem ao Centro fazer compras. “No Sul da Ilha é tudo muito caro”, diz. E não posso esquecer de contar a vocês: ele é paulistano, corintiano e figueirense roxo. “Não falo com avaiano”, deixou bem claro devido e repetição continua da afirmação, que era seguida de “não se mete com paulista, paulista é fogo, é tudo brincalhão”.
E a dona Maria Pereira, 55 anos, que mora nos Ingleses e quando vai com o marido Antoninho Ademar, 68 anos, para o Centro pagar contas fica a espera do marido na Praça XV, onde contempla a Figueira. “Quando estou na praça, fico tranqüila, esqueço do barulho lá fora”, conta.
Estar na praça XV de corpo e alma também faz os jornalistas autores do trabalho refletirem sobre a vida, sobre o passado, sobre as relações humanas, sobre a relações profissionais. O casamento do texto com a fotografia só é possível quando o olhar sensível de ambos profissionais recai um sobre o outro e sobre o foco da reportagem. Um obrigado ao colega Daniel Queiroz e a Praça XV, nossa querida personagem.