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Adriana Baldissarelli @ABaldissarelli Florianópolis |
Ao apresentar debate sobre desindustrialização, o presidente da Fiesc, Glauco José Côrte, disse que, depois de conversar 10 minutos com o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros, havia jogado fora seus papéis e julgado prudente ouvir primeiro. Fez bem. Com a franqueza dos que “não tem nada a provar”, o engenheiro, doutor em Economia pela Unicamp, sócio fundador e estrategista da Quest Investimentos, desancou argumentos recorrentes no setor industrial, como a culpa do câmbio, e recomendou refletir melhor sobre as oportunidades que se abriram ao consumidor brasileiro.

Nome difícil
Esta crise porque passa a indústria brasileira, que ganhou esse nome difícil de se repetir, que é a desindustrialização, está muito associada a uma mudança do que eu chamo do metabolismo do mercado brasileiro. O Brasil durante muito tempo _ e eu pertenci a uma geração que participou disso tanto no setor privado como no setor público _ viveu um metabolismo inerente a uma economia fechada, com parcas relações com o exterior. No governo militar, havia legislação que tornava crime as relações econômicas financeiras ou produtivas com o exterior. Depois da democratização, esse quadro legal foi substituído por uma restrição provocada pela instabilidade da taxa de câmbio.
Sem alternativa
Eu trabalhei no Bndes, em 1985, e lembro do ministro Dilson Funaro, industrial paulista, da Troll, explicando como era feito o preço dos produtos industriais naquela época: custo, mais uma margem de lucro e estava feito o preço final, porque ao consumidor não era dado nenhum direito de comparar com o produto de outros países.
Mudança
Isso começou a mudar por volta de 2001, quando a demanda chinesa ganha uma dimensão que afeta os preços das commodities agrícolas e minerais brasileiras. Houve uma mudança bastante sensível no que os economistas chamam de termo de troca, a relação entre preço médio de exportação e preço médio de importação. Para cada US$ 100 dólares que o Brasil exportava com seus produtos primários, conseguia comprar US$ 70 a US$ 80 de produtos industriais. Havia uma perda nessa troca com o exterior. A China provoca uma subida continuada desse termo de troca, hoje cada US$ 100 de exportação dá poder ao Brasil para comprar US$ 130 dólares de produtos importados, sejam elementos intermediários ou produtos industriais. Evidente que há discussão se isso vai continuar, mas é um fato.
Abertura
O Brasil passa de um país de moeda fraca para um país de moeda forte. Isso muda toda nossa relação com o exterior. Do ponto de vista da desindustrialização é esta a mudança que interessa.
São os próprios industriais, numa perspectiva de racionalidade, que começam a abrir as suas cadeias produtivas para produtos importados. Evidente que o mesmo acontece com o comércio, que começa a perceber que tem automóvel no exterior custando 30% a 40% menos que o carro nacional. E para o consumidor brasileiro, que é um povo caracterizadamente amante do consumo, se abre uma janela de oportunidades para comprar produtos estrangeiros de menor preço e maior qualidade.
Maior renda
As classes A, B e C, que estão no mercado, têm relação formal e crédito, passaram de 60% da população. Evidente que acaba tendo um efeito importante na cesta de consumo dessa sociedade. É quando a corrente de serviços no PIB aumenta, sem que isso seja um sinal de uma desindustrialização ou de uma perda de espaço da indústria. É legítimo, acontece em todos os países, não podemos lutar contra.
Competitividade
A componente destrutiva nesse processo é caracterizada pela perda de competitividade sistêmica da indústria por condições internas do Brasil. O sistema tributário brasileiro foi construído com uma economia fechada. Era muito fácil cobrar imposto na energia elétrica, então tacava imposto na energia elétrica, porque não vazava para o exterior, porque o mercado interno estava defendido ou pela legislação nos governos militares ou pela instabilidade cambial.
O setor industrial não sentiu isso porque estava fechado, repassava esses custos.
Tributos
Com o sistema de impostos que temos hoje, o caminhão brasileiro custa 2,8 vezes o que custa um caminhão na Coreia, na Austrália, em qualquer país que compete conosco. O carro o consumidor paga, agora o caminhão é um bem de produção, o frete vai custar três vezes mais, e, se andar nas estradas que temos aqui, vai custar mais e, se chegar no porto de Paranaguá e ficar quatro, cinco, sete dias parados,vai custar muito mais.
Erro
Eleger o câmbio como o grande problema da indústria foi um erro estratégico brutal, porque tirou a pressão do governo daquilo que ele tem de culpa e responsabilidade. O problema é que temos uma estrutura de custo generalizado na indústria incompatível com uma economia aberta e que tem de competir lá fora. E temos de trabalhar nisso. Fazer um programa sério de devolução de competitividade da indústria por vários segmentos, não é desoneração, é redução de impostos, é devolver o ICMS da exportação que governo rouba e não devolve. Não pode a energia elétrica custar no Brasil quatro vezes o que custa nos Estados Unidos. A Petrobras não pode cobrar US$ 12 o bilhão de BTU do gás natural, que nos Estados Unidos custa US$ 2. Temos que devolver à indústria as condições de poder competir com o exterior. Mas tudo isso implica em redução de receita do governo.
Lula X Dilma
No período do Lula tivemos forças empurrando a economia. Por exemplo, o crédito passou de 25% para 50% do PIB, aquele pessoal que saiu das classes De E, em dois ou três anos. Esses foguetes adicionais agora estão parando ou funcionando ao contrário. Por exemplo, o crédito acima de R$ 5 mil foi estendido de 5 milhões para 24 milhões de brasileiros, mas o custo para rolar a dívida do brasileiro é hoje 22% da sua renda. Coisa que no passado era 3% a 5%. É muito mais difícil para Dilma levar o crescimento entre 4% e 5% ao ano, eu diria até impossível. Como ela quer repetir essa perfomance do passado, começa a ficar nervosa e a mexer em coisas que não se deve mexer com essa violência. O protecionismo é uma delas. Eu confesso o meu desespero se, em vez de tomar um vinho chileno ou argentino, tiver de tomar um vinho de Caxias do Sul. Deus me livre.