Um mercado que se recicla #ponto_de_vista com Márcio Almeida

img Adriana Baldissarelli
@ABaldissarelli
Florianópolis

Há quase três décadas no mercado, a Almeida Reciclagem de Papel, instalada em São José, processa 2,5 mil toneladas por mês e está entre as duas maiores do setor em Santa Catarina. Noventa por cento do papel e papelão que retira da Grande Florianópolis e de municípios como Criciúma, Tubarão e Joinville recoloca na indústria catarinense. O Estado, informa o sócio-proprietário, Márcio Almeida, é o quarto consumidor de aparas de papel no Brasil, num mercado que se divide entre a linha higiênica, de embalagem e misto. Com um preço médio mundial de US$ 90 a tonelada, a produção nacional de papel reciclado não é competitiva e o mercado dá sinais de saturação.

 

Pós-crise

Depois de 2007, com programas de incentivo à reciclagem e com a própria lei de resíduos sólidos, houve um aumento na oferta de resíduos, mas o mercado não está absorvendo estes materiais. Há seis anos não surge nenhuma fábrica nova. Além disso, até a crise de 2008, produtos feitos com madeira de reflorestamento eram destinados ao mercado externo. Hoje, servem para produzir materiais virgens para o mercado interno como folhas A4, papeis higiênicos de boa qualidade, cadernos, inclusive algumas embalagens em papelão que precisam de fibra de qualidade e resistência. Diminuíram as exportações de praticamente tudo e aumentou a oferta interna de materiais, o resultado é que o preço do reciclado caiu. É uma corrida do rabo e do cachorro e, às vezes, o rabo fica muito curto.

Novo consumo

Com a melhoria da qualidade de vida, o consumo das classes populares está mudando. Há 20 anos, as pessoas consumiam papel higiênico de jornal e revista. Hoje compram papel branco feito de material reciclado. E, como o poder aquisitivo está melhorando ainda mais, o consumo vai migrar para o papel higiênico feito de material virgem.

Opção pelo preço

Consumir material reciclado não é só uma questão cultural, está relacionado diretamente a custo. As pessoas optam pelo preço. A partir do momento que um resíduo é triado, passa a ser um produto, entra no mercado e o que determina seu valor é a demanda. Se não houver uma regulamentação, exigindo, por exemplo, que até 2015 as caixas de papelão sejam produzidas com 5% de reciclado, até 2020, com 15% e a partir de 2030, com 50%, não se terá uma estratégia para absorção desse material.

Mudança de lógica

Antes eu pagava pelo material que buscava. Hoje, troco pelo custo do meu serviço de coletar e, se continuar nesse ritmo, em 10 anos quem fornece o resíduo vai ter que pagar para que eu o retire. Mas no Brasil, estamos atacando o foco errado. Vamos aumentar a triagem de materiais reciclados para quê? Nos primeiros cinco meses de 2010, a Associação de Coletores de Materiais Recicláveis (ACMR) me entregou 1.069 toneladas dos três papeis, o que representou R$ 242 mil. Entre janeiro e maio de 2011, entregou 1.226 toneladas e recebeu R$ 282 mil. Esse ano, no mesmo período, entregou 1.247 toneladas e recebeu R$ 225 mil. Aumentou a entrega e perdeu receita. Essa linha vai ser cada vez mais descendente, por uma questão de mercado.

Limite de produção

Entre 70 e 75% do papelão que está circulando no mercado brasileiro são recolocados na cadeia de reciclagem. É um bom índice. Se hoje se desviasse 25% do papel que vai para o aterro sanitário no Brasil, se ofereceria à indústria o dobro do material que ela tem capacidade de absorver. Aí a equação de valor do reciclado vai a zero.

Destino caro

Há 20 anos, por exemplo, a conta de água era rateada, havia um hidrômetro só em cada prédio, o padrão de consumo das famílias era parecido e a conta ficava justa. Hoje, por força de lei, mas também por questão de mercado, o hidrômetro é individual e a família paga pelo que consome. Também será preciso mudar a forma de ratear os serviços na área de resíduos, de forma que pague mais quem produza mais.

Principal desafio

Somos uma sociedade de cultura americana. Desde os anos 70, compramos o sonho de vida americano, de consumir. Agora estamos, ingenuamente, sonhando que esse novo grupo de pessoas que está entrando no mercado, seja convencido a não consumir exageradamente. É até injusto pensar que essas pessoas vão deixar de consumir porque, agora, estamos preocupados com a poluição dum mundo que nós, antes, destruíamos. Temos que perder essas fantasias e pensar no prático: vamos ter aumento de resíduos, de um quilo para dois quilos por pessoa nos próximos 10 anos e alguém vai pagar essa conta.

Planejamento

No modelo alemão, não é a tecnologia que faz a diferença, mas um planejamento estratégico de 40 anos. Eles perceberam que o resíduo pode virar uma commodity mundial. Hoje, por incrível que pareça, corre-se o risco de ver uma dona de casa em Florianópolis comprar um saco de lixo feito por chineses com plástico reciclado da Europa. 

Publicado em 02/06/12-06:30 por: Adriana Baldissarelli.