Perfil

Uma guia para os pequenos

Infância. Diretora do CEI do Morro do Meio completa 28 anos de atuação específica na educação infantil
Fabrício Porto/ND
No parque e jardim. Sidnei Ross Comper sente orgulho da escola bem cuidada, fruto da sua dedicação e carinho que tem pelos alunos

 

 

Esta segunda, 20 de maio, é uma data especial par a professora Sidnei Ross Comper.  Ela comemora 28 anos de envolvimento com a educação de crianças de até 5 anos de idade. Diretora desde 2001 do CEI (Centro de Educação Infantil) do bairro Morro do Meio, seus olhos brilham intensamente quando ela fala sobre sua trajetória de educadora infantil.  “É uma atividade apaixonante, não trocaria os meus pequenos por alunos de outras faixas etárias por nada deste mundo. Para mim, ensino infantil é tudo. É nessa fase que se pavimenta a base dos adultos do amanhã”, assinala. Sid, como é chamada pelas colegas de trabalho, acrescenta que trabalhar com crianças é fabuloso por elas serem puras, de uma transparência angelical. “Conviver com elas me revigora e me ajuda a praticar diariamente a benquerença e o altruísmo”, sintetiza.

Nascida em Barra Velha, professora Sid pode se considerar joinvilense da gema por ter sido trazida para a Cidade pelos pais quando tinha apenas três meses de vida. Sua história no universo da educação infantil começou em 1985, um ano de se formar na área do magistério. Ela começou como auxiliar de educadora num dos antigos Ceris (Centros de Educação e Recreação Infantil), administrados pela Secretaria do Bem-estar Social.

Em menos de dois anos foi efetivada professora, atividade na qual foi mantida no momento que os Ceris foram transformados em CEIs (Centros  de Educação Infantil) e passaram a ser tocados pela Secretaria de Educação.

Depois de se formar em 1995 na faculdade de pedagogia,  professora Sid acabou diretora da rede de ensino infantil de Joinville, com passagens por alguns CEIs até ser nomeada para tomar conta da unidade do bairro Morro do Meio. Instalado na rua do Campo, lateral da rua Pitaguaras, o CEI dirigido por Sid conta com uma estrutura de se tirar o chapéu. Com pintura impecável em todas as dependências do prédio, as 104 crianças que freqüentam o local são recebidas em quatro salas climatizadas.

A diretora conta como consegue manter o ambiente sempre bem cuidado.  “A climatização das salas foi conseguida por meio de um projeto enviado ao Instituto Cau Hansen, que nos atendeu de pronto. Já a manutenção do prédio é possível com recursos bem administrados que o CEI recebe da Prefeitura”, resume bem humorada.

Casada com Mauri Carvalho, mãe de uma moça de 32 e um rapaz de 27 anos, professores como ela, Sid não consegue segurar a risada quando fala da filha caçula, de 15. “Ela vive dizendo para não me preocupar, pois não será mais uma professora na família. Vamos esperar para ver se a fruta realmente vai cair longe do pé”, comenta espirituosa.

 

 “Para mim, ensino infantil é tudo. É nessa fase que se pavimenta a base dos adultos do amanhã.”

 

Ginásio de esportes
Moradora do conjunto habitacional Irineu Bornhausen, no bairro Vila Nova, do qual é presidente da Associação de Moradores, professora Sid aguarda com ansiedade a inauguração de um ginásio de esportes que o Sesc (Serviço Social do Comércio), que está erguendo no local - a inauguração está prevista para esta quarta (22). Ela conta que o projeto foi viabilizado com o apoio dos moradores do conjunto habitacional e pelo então vereador Jucélio Girardi. “O ginásio ocupa um terreno que devolvemos à Prefeitura, que por sua vez o repassou ao Sesc para construir o complexo.  Fico feliz por ter levado o projeto a bom cabo; um ginásio de esportes ao lado do Irineu Bornhausen valoriza o conjunto habitacional e todo o bairro Vila Nova, enfatiza a veterana educadora da área infantil.  (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


A pioneira do carrinho de cachorro-quente

Lembranças. Cida começou nas calçadas, até se tornar administradora
Rogério Souza Jr/ND
Sucesso. Há 12 anos Maria Aparecia comanda a recreativa do sindicato dos comerciários

 

 

Os joinvilenses mais antigos se lembram: antes de 1987, para comer cachorro-quente na cidade, as opções eram as lanchonetes ou comprar os ingredientes e fazer em casa. Foi naquele ano que apareceu a primeira barraquinha de hot dog, na esquina das ruas 15 e do Príncipe. A pioneira, Maria Aparecia Gomes Tofano, a Cida, criou moda, os carrinhos proliferaram e hoje são encontrados pela cidade toda. Muitos deles acabaram virando lanchonetes e até restaurantes. Cida seguiu outro caminho, tornou-se administradora e hoje é a responsável pela recreativa do Sindicato dos Comerciários. “Aquele foi um tempo difícil. A Prefeitura não dava alvará e a gente precisava trabalhar com um olho na freguesia, outro na fiscalização.”

O DNA do serviço de alimentação já estava no sangue de Maria Aparecida quando ela nasceu, há 55 anos, na pequena Santa Isabel do Ivaí, no Noroeste paranaense. “Meu pai era dono de um hotel e restaurante, e o ambiente era corriqueiro para os 12 filhos” conta ela, quinta da escadinha. Um de seus irmãos, Cícero, foi goleiro do Londrina, do Pinheiros e do Atlético Paranaense, e luta contra um tumor no cérebro. Para ajudar a custear o tratamento, o Londrina promove um amistoso do seu time máster, neste sábado, contra um selecionado paranaense (que terá no gol o joinvilense Jairo).

Cida tinha 10 anos quando a família mudou-se para Londrina, e ainda adolescente começou a trabalhar, como empregada e babá. Casou-se aos 23 e peregrinou alguns anos por cidades nordestinas, por força do trabalho do marido. “Quando morávamos em Londrina eu costumava vir a Joinville comprar roupas na Centauro, para revender lá.”

 

 

 

Arquivo pessoal/ND
Relíquia. O carrinho de pipoca e algodão-doce

 

 

“Aquele foi um tempo difícil. A Prefeitura não dava alvará e a gente precisava trabalhar com um olho na freguesia, outro na fiscalização.”

 

Panelada no fiscal
Em 1987, com a transferência do marido para Santa Catarina, a família, já com três filhos – duas londrinenses e um paraibano –, estabeleceu-se em Joinville. Cida, em busca de alguma forma de ajudar no orçamento doméstico, percebeu que não havia uma barraquinha sequer de cachorro-quente na cidade. Investiu num carrinho e nos equipamentos e foi à luta, instalando-se todos os dias, das 6 da tarde à meia-noite, na esquina da Príncipe com a 15 de Novembro, num recuo da calçada em frente ao Koerich e perto da saudosa Confeitaria Dietrich.

Sua luta diária era driblar a fiscalização: “A Prefeitura, na época comandada pelo Lula, não liberava alvarás para ambulantes. O jeito era trabalhar à noite. Mesmo assim, muitas vezes era preciso escapar. Uma vez precisei jogar a panela de salsichas num fiscal, enquanto minha filha dava no pinote com o carrinho”. Quando o equipamento foi apreendido, Cida já tinha mais um, utilizado principalmente em festas de aniversário. Três anos depois do início, transferiu-se para um ponto melhor, em frente ao Ginástico – local do episódio da panelada. Cansada de ser clandestina, Cida aceitou uma proposta do Strip Center Americanas, o primeiro shopping da cidade, e lá instalou um carrinho de pipoca e algodão-doce. “Só fiquei quatro meses, até ser convidada a assumir a lanchonete do Sesc, no tempo da rua Aubé. Aí começou uma fase boa, de estabilidade. Passei depois para a nova unidade da rua Itaiópolis e só saí em 2001, quando o Mazinho me convenceu a assumir a recreativa do sindicato.”

Desde então, Cida incrementou o restaurante, instalou cinco churrasqueiras e centraliza a administração da sede, auxiliada pela filha Cláudia. Além dos comerciários – que têm desconto – a recreativa está aberta à comunidade, para eventos.

Cida se emociona ao relembrar os tempos duros da barraquinha, quando tinha no apoio o filho mais novo, Carlos Henrique. “Eu não tinha onde deixá-lo, precisava levar junto. Mais tarde, ele me ajudou no Sesc. Hoje, é gerente da Caixa em Gaspar”, conta, com lágrimas de orgulho.

Perfil sugerido pelo leitor Nelson Eisenhut, o Mima.


Quando o Cachoeira tinha congestionamento

História. Ingo Hertenstein lembra os bons tempos do remo joinvilense
Fabrício Porto/ND
Recordação. Ingo guarda o brasão vermelho e branco do Clube Náutico Cachoeira

 

 

“Praticar remo, nos anos 60, era um prazer muito grande, proporcionava muitas amizades e era bom pra saúde. Mas também exigia muito sacrifício, como conciliar os treinos com o emprego e enfrentar os percalços das raias no rio Cachoeira. Um deles era desviar do intenso tráfego das chatas que traziam trigo para o Moinho Santista.” O relato, carregado de saudade, é do empresário Ingo Hertenstein, 72 anos, um dos remanescentes da era de ouro do remo joinvilense. Valoroso defensor do brasão vermelho e branco do Clube Náutico Cachoeira, guarda vivas na memória tantas regatas disputadas ao longo do rio, contra o grande rival Atlântico, assim como das competições estaduais e nacionais.

A ligação de Ingo com o remo começou logo que chegou a Joinville, com 16 anos, trocando a lavoura da família em Corupá por um emprego na Tigre.Tal como outros remadores, ele admite: “Eu era ruim de bola, então nem adiantava querer jogar futebol. Um colega me convidou para praticar remo no Clube Náutico Cachoeira, fui, gostei e fiquei quase vinte anos nas regatas”. Totalmente amador, o esporte exigia dedicação dos aficionados, que só podiam treinar e competir fora do horário de expediente ou nos fins de semana. Ingo, além da Tigre, onde aprendeu o ofício de ferramenteiro, passou pela Consul e pela Cipla, até se juntar aos fundadores da Akros, em 1977. Mais tarde, quando a empresa foi adquirida pelo grupo Amanco, Ingo assumiu a ferramentaria Fred Jung, posteriormente transformada na Herten Engenharia de Moldes, que administra com os filhos Edson e Jackson.

 

 

 

Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
Comemoração. Guarnição do Cachoeira cruza em segundo lugar na Regata Internacional de Florianópolis, em 1961: o timoneiro Frederico Hempel, Orival Ferreira, Rolf Fischer, Ingo Hertenstein e Herbert Theilacker

 

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
No Rio. Time joinvilense em frente à sede do Vasco, onde guardava suas embarcações no Campeonato Brasileiro de 1965: Theilacker, Orival, Balduíno, Deglmann, Rolf e Ingo; agachado, Luiz Gastão Diniz, presidente do Cachoeira

 

 

Treinar sem ver o sol
Ingo passou a disputar regatas pelo Cachoeira a partir de 1958, no início limitando-se aos duelos domésticos contra o Atlântico. Ele conta: “Os treinos precisavam ser feitos antes e depois do expediente. Com o Carioca, com quem mantive uma boa dupla, treinava o dois-com de manhã, antes de o sol nascer, e o dois-sem depois do trabalho, já anoitecendo”. Carioca era o apelido de Orival Ferreira (perfil em março passado); dois-com e dois-sem eram as modalidades com dois remadores, com e sem timoneiro.

O batismo de fogo de Ingo Hertenstein fora de Joinville se deu na Regata Internacional de Florianópolis, em maio de 1961, no quatro-com. “Lá sempre dava tremedeira. Nosso técnico, o Botafogo, me chamou e desafiou: ‘Novato, não vá jogar o páreo fora’. Pois chegamos em segundo lugar, só perdendo para os gaúchos.” Em novembro do mesmo ano, novamente na ilha, o primeiro título catarinense, com Orival Ferreira, no dois-com; no mesmo dia, o Cachoeira ficou em segundo no quatro-com. Para derrotar os remadores da capital em seus domínios, onde eram acostumados com as marolas do ambiente marítimo, Ingo e Orival treinavam na lagoa do Saguaçu em dias de vento, com ondas.

No currículo, Ingo contabiliza três títulos catarinenses, dois vices brasileiros e um vice nos Jogos Abertos de Santa Catarina, em 1969. Ainda foi três vezes campeão catarinense do interior, antes de encerrar a carreira, em 1970. “Como muitos dos companheiros, tinha pouco estudo, e o desenvolvimento da indústria em Joinville exigiu que voltássemos a estudar. Aí não havia mais como conciliar os horários”, justifica, lamentando que sua geração não tenha deixado seguidores. Mas o balanço é positivo: “Foi um tempo de muita dedicação, de treinar no escuro, sacrificar férias para competir, carregar o barco pela rua nos pontos onde o Cachoeira já estava assoreado, enfrentar a força política da capital... Mas o esporte trouxe saúde, muitas amizades e lições que aproveitávamos no dia a dia”.


Pela memória da mãe

Vitória. Ferramenteiro aposentado faz manifesto e impede a troca do nome de uma servidão do bairro Aventureiro
Rogério Souza Jr/ND

Um marco. Fabiano Weinrich na servidão Cemiramez Weinrich, no Aventureiro, que traz o nome da mãe

 

 

Morador do bairro Saguaçu, Fabiano Weinrich é dono de uma biografia singular. Nascido há 70 anos em Taió, no Alto Vale do Itajaí, ele trabalhou na agricultura até servir o Exército e por isso só estudou até o quarto ano primário. Mesmo assim é um fluente na oratória e na elaboração de textos. Ele conta que o dom da oratória é herança do pai, Antônio. “Apesar de ele ser um simples agricultor, sabia discursar muito bem em português, alemão, italiano e polonês. Puxei dele o gosto de falar ao microfone”, assinala.

Escrever textos diretos, bem ao estilo do bom jornalismo, é fácil para Fabiano. “Aprendi a escrever dessa forma depois de ler centenas de livros e estudar por conta própria; hoje coloco a oratória e a escrita a serviço da Igreja Católica, da qual sou ministro há muitos anos”, esclarece.

Fabiano deixou as lavouras após servir o Exército. Em busca de um futuro melhor teve passagens pelas cidades de São Paulo e Porto Alegre, onde até se deu bem no trabalho. Mas como o salário não era lá essas coisas, retornou a Taió e ao cabo da enxada. Em 1971 veio para Joinville atraído pela oferta de muitos empregos. Depois de fazer um curso técnico virou então torneiro de produção na Fundição Tupy.  Em seguida foi torneiro de ferramentaria na Metalúrgica Schulz, onde galgou o posto de supervisor de usinagem, no qual ficou até se aposentar.

Casado com dona Judita, pai de dois casais de filhos e avô quatro vezes, Fabiano se orgulha da família. “Eu não tive oportunidade de estudar, mas meus filhos, graças ao incentivo e o apoio que lhe demos, conseguiram diplomas universitários e por isso estão todos bem encaminhados na vida e só me dão alegria”, enfatiza.

Fabiano demonstrou as qualidades de bom redator durante um episódio ocorrido em 2006. Moradores da Servidão Cemiramez Weinrich (homenagem à sua mãe) lotaram o plenarinho da Câmara de Vereadores para pressionar o Poder Legislativo. Queriam que os vereadores trocassem o nome da via, alegando que era difícil de escrever e pronunciar Cemiramez Weinrich.

Indignado com a falta de respeito à memória de sua mãe, ele publicou na imprensa uma carta lapidar em defesa da manutenção do nome da servidão. Com uma argumentação de clareza linear, frisou que se o nome fosse trocado estaria sendo aberto um precedente para que centenas de outras ruas com denominações incomuns passassem pelo mesmo processo. “Teria sido um desatino se a proposta tivesse se concretizado. A troca do nome de uma rua, além de ser um flagrante desrespeito ao homenageado, acaba mexendo com todos os moradores. É preciso refazer tudo, desde alteração na escritura do imóvel até o cadastro bancário. Felizmente meu posicionamento acabou com a estapafúrdia proposta e assim o ovo da serpente morreu no ninho”, comenta aliviado por ter evitado que o nome de sua mãe fosse jogado na lata do esquecimento.

 

“A troca do nome de uma rua, além de ser um flagrante desrespeito ao homenageado, acaba mexendo com todos os moradores. É preciso refazer tudo, desde alteração na escritura do imóvel até o cadastro bancário.”

 

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Quem era. Dona Cemiramez em maio de 1983, nas Bodas de ouro

 

 

O musse da família Weirich
No tempo que Fabiano morou em Taió sua família ficou conhecida por produzir o melhor musse de laranja da comunidade de Ribeirão da Vargem, onde anos mais tarde foi construída a barragem Oeste para controlar enchentes do rio Itajaí.

Ao ser perguntado se havia um segredo para garantir qualidade diferenciada do produto, Fabiano esclarece que na verdade o principal ingrediente do musse de laranja era caldo de cana de açúcar.  “Tirávamos na moenda 16 latas de garapa, às quais acrescentávamos duas latas e meia de laranja. Depois era só cozinhar ao longo de seis horas para ficar uma delícia. Paciência e carinho era o segredo do musse dos Weinrich”, salienta bem humorado. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)

 

Nota do editor: A grafia está incorreta na faixa de identificação fixada no poste.

 

 

 

 

 


De bicicleta pra todo lado

Tradição. Dona Glorinha ainda faz parte da legião de ciclistas de Joinville

Rogério Souza Jr/ND

Transporte rápido. Dona Glorinha não se separa da sua zica, a bicicleta com que vai ao trabalho, faz compras e visita os filhos

 

Ir ao trabalho, no mercadinho, ao banco, passear, visitar os filhos... São atribuições da agenda diária de milhares de pessoas, em todos os cantos, seja de Joinville, Garuva, Araquari, Guaramirim ou qualquer cidade da região. Cada uma executa as tarefas da sua maneira, de acordo com seus horários e recursos. Lá para os lados do Espinheiros, Maria da Glória Jacinto Luz, mais conhecida como Glorinha, também faz tudo isso, mas sempre do mesmo jeito: pedalando sua bicicleta. Até tem carro na garagem, mas ele é pouco utilizado. “Pra falar a verdade, nunca aprendi a dirigir. Não precisa, a bicicleta me leva a todo lugar que eu quero ir. Se for longe, pego o ônibus”, afirma com convicção dona Glorinha, uma ciclista apaixonada. Aos 68 anos, mesmo aposentada há 15, ela continua ocupando sua função na Tupy, misturando-se aos tantos operários que colorem de azul os horários de trocas de turnos, naquela que continua sendo a maior concentração de ciclistas do cotidiano joinvilense.

A história de Glorinha, assim como a de tantos funcionários da Tupy, começa longe de Joinville. “Nasci em Tijucas. Sou a caçula de 19 filhos”, conta, ainda mantendo, e carregando, o característico sotaque da cidade do Vale do Rio Tijucas. O pai de Glorinha tinha uma processadora de café, onde quase todos os filhos trabalharam. Aos 18 anos, Maria da Glória casou-se com Saul da Luz: “Foi meu primeiro e único namorado. Comemoramos Bodas de Ouro em dezembro do ano passado”, conta Glorinha, hoje ainda mais dedicada ao marido, aposentado devido a problemas de saúde.

Há quatro décadas, veio a mudança para Joinville, graças a uma transferência de Saul, então funcionário da Empresul (concessionária de energia elétrica que antecedeu a Celesc). Junto, vieram os quatro filhos nascidos em Tijucas; a prole se completou com um joinvilense.

 

“Pra falar a verdade, nunca aprendi a dirigir. Não precisa, a bicicleta me leva a todo lugar que eu quero ir. Se for longe, pego o ônibus.”

 

A Tupy, um segundo lar
Glorinha conseguiu um emprego na então chamada Fundição Zero da Tupy (atual Fundição 1), no setor de macharia. Algum tempo depois, também o marido virou colega de empresa; como eletricitário experiente, foi trabalhar na subestação de energia. Quatro dos filhos também já passaram por lá, justificando o fato de Glorinha considerar a Tupy seu segundo lar. “Sempre foi bom trabalhar lá. Lembro-me bem do tempo do seu Raul Schmidt, uma pessoa muito boa, que se preocupava com os funcionários. Ganhamos muita cesta básica dele. Gostava também do seu Dieter. Acho que ele ainda ia ser governador”, aposta a veterana, referindo-se a Dieter Schmidt, morto em acidente aéreo em 1981, logo após deixar a presidência da Tupy e assumir a Secretaria Estadual de Indústria e Comércio.

Foi na Tupy que Glorinha tornou a bicicleta quase uma extensão do corpo. “Eu gostava de bicicleta desde criança, e me acostumei a fazer tudo com ela. Já tive quatro, duas foram roubadas”, conta. Além de se deslocar em duas rodas para fazer tudo, desde o trajeto de ida e volta ao trabalho até visitar os filhos, quase todos morando nas proximidades, Glorinha é participante assídua dos passeios ciclísticos promovidos pela Tupy anualmente. “No passeio do ano passado – acrescenta – fui sorteada e ganhei uma bicicleta e capacete. Só que não me adaptei ao modelo com marchas e freio de mão. Prefiro as antigas, com freio contra-pedal.”

Residindo há uns 30 anos no Espinheiros, Glorinha também tem boas recordações de quando o bairro era praticamente o lar de funcionários da Tupy. Por ali ela se sente à vontade, pode trazer os nove netos para brincar na rua, fez amizades entre a vizinhança e pode continuar pedalando todo dia para o trabalho, como faz há 37 anos. Ah, sim, um detalhe importante: “Nunca sofri um acidente!”.


Garimpeiro de talentos

Realização. Alfredinho concretiza sonho comandando escolinha da Veterana
Fabrício Porto/ND
Com a bola na mão. Alfredinho comanda a garotada da escolinha da Veterana, do bairro Iririú

 

 

Alfredinho até chegou a calçar chuteiras e entrar em campo, pela escolinha do JEC. Mas a posição que ele mais admirava não estava no ataque, tampouco na defesa ou no meio-de-campo. Ele ficava de olho era no único adulto em campo, o treinador. Era com aquela função que ele sonhava: “Desde criança eu tinha na cabeça que seria treinador, tanto que eu preferia pedir autógrafo de técnicos em vez dos jogadores. Fernando Ferreti foi meu primeiro grande ídolo”. Meta traçada,foi correr atrás da realização e hoje Alfredinho é o treinador da escolinha da Veterana, tradicional clube do Iririú, onde comanda a gurizada e exercita o olho de lince à procura de novos talentos – como Toró e Lucas, que estão em testes no Santos.

José Alfredo Silva nasceu em São Francisco do Sul em 1965, uma época em que o Santos dominava o cenário futebolístico brasileiro e Pelé vivia o seu auge. Tinha 6 anos quando o pai, ferroviário, foi transferido para Joinville, trazendo a família. Moraram um bom tempo na estação, e foi por ali que se criou Alfredinho, caçula de cinco irmãos. “No meu tempo de guri – lembra – o que não faltava por ali era lugar pra jogar bola. Logo surgiu o JEC, e o sonho da gurizada era vestir a camisa tricolor. Até cheguei a jogar na escolinha, mas ser técnico era meu verdadeiro sonho.” Alfredinho também torceu pelo futsal da Tigre, no tempo de Biro-Biro e Banana, entre outros craques, mas sua atenção se concentrava no banco, onde Fernando Ferreti iniciava a carreira que o levou à consagração. “Ferreti era meu modelo, era assim que eu queria ser. Eu ia aos jogos para vê-lo trabalhar.”

 

“Desde criança eu tinha na cabeça que seria treinador, tanto que eu preferia pedir autógrafo de técnicos em vez dos jogadores. Fernando Ferreti foi meu primeiro grande ídolo”.

 

Início na Cohab
Decidido a ser técnico, preferencialmente de crianças, Alfredinho foi a campo. Literalmente. Começou pela formação de garotos na Cohab Castelo Branco, participando da extinta Copa Big. Trabalhou na Amanco, onde foi campeão no campo e no salão treinando os times da empresa, e desde 2005 vem se dedicando profissionalmente ao esporte. Foi naquele ano que Alfredinho assumiu a escolinha da Veterana. “Meu sustento vem do esporte, das mensalidades pagas pelas famílias dos garotos. A Veterana cede os campos, de grama e sintético, e os uniformes para as competições”, explica Alfredinho, que também costuma emprestar jogadores para outras equipes que disputam campeonatos na cidade. Seu próprio time sub-12 compete representando São Francisco do Sul.

Alfredinho já treinou a escolinha do América e trabalhou no Projeto Jovem Cidadão. “Infelizmente  a administração anterior interrompeu o projeto.” Hoje, toda a atenção se concentra na escolinha da Veterana, onde Alfredinho comanda 110 crianças de 4 a 14 anos. “A maioria é daqui do bairro mesmo, e quase todos estudam no colégio Padre Valente Simioni. Estar na escola é condição imprescindível para participar do futebol, e também acompanho o desempenho escolar de cada um, o que acaba sendo um suporte para os pais.” Alfredinho conta, no dia a dia, com o auxílio da policial civil Clarice, outra aficionada pelas escolinhas.

Outro projeto que vem sendo desenvolvido na Veterana é uma escolinha de informática. Com sete computadores alugados, Alfredo e Clarice passam aos garotos as primeiras noções de informática ou um reforço para os já iniciados. “Logo vamos ter mais espaço e reforçar o equipamento”, anima-se o técnico-professor, anunciando as reformas que a Veterana vem fazendo em sua sede.

É no computador que Alfredinho mostra, orgulhoso, as fotos de sua recente passagem pelo Santos, onde foi acompanhar Toró e Lucas, de 12 e 13 anos, em testes no clube. “Além de conseguir vagas para os guris, ganhei duas semanas de estágio no Santos”, anuncia Alfredinho, ansioso para aprender mais no clube que dominava o cenário quando ele nasceu.

 

Perfil sugerido pelo jornalista Luiz Veríssimo.


Conquistado pelo mar

Artesão naval. Quando o ofício da pesca se revelou um equívoco, Mauro Gonzales descobriu o talento para a construção de barcos
Rogério Souza Jr/ND
Persistente. Gonzales junto às embarcações que constrói no estaleiro de Balneário Barra do Sul

 

 

Corria o ano de 1981quando Mauro Gonzales meteu os pés pela primeira vez na cidade de Balneário Barra do Sul, então ainda uma distrito de Araquari. Com 14 anos de idade ele chegou ao local em companhia de Sérgio Gonzales, seu pai, com a finalidade de conhecer alguma coisa do litoral catarinense. Um detalhe mudou par sempre a vida dos Gonzales. Ao comprar alguns quilos de camarões, o pai de Mauro notou que o valor do fruto do mar custava ali dez vezes menos do que nas peixarias de São Paulo.

Empolgado, o patriarca dos Gonzales deixou Mauá, no interior paulista, e se estabeleceu em Balneário Barra do Sul com a família para colocar em prática o projeto de comprar camarões para vender na cidade de São Paulo. A iniciativa, no entanto, acabou não dando certo. Mas isso não foi motivo para a família paulista desistir da pequena cidade do litoral Norte. Sérgio e seus filhos Mauro e Jaime viraram então pescadores artesanais para garantir o sustento da ramada dos Gonzales.

Ao relembrar aquele tempo, Mauro conta que ele, o pai e o irmão trabalharam na pesca artesanal ao longo de 15 anos. Foi aí que a vida deu uma nova reviravolta. Como o barco de pesca da família estava apresentando precárias condições, Mauro resolveu fabricar uma nova embarcação com as próprias mãos, apesar de não ter os mais rudimentares conhecimentos de carpintaria para colocar a empreitada em prática.

Mesmo assim aventurou-se no projeto depois de sucessivas e prolongadas observações em estaleiros artesanais para ver de perto como o trabalho era executado. Feito isso construiu o novo barco da família, revelando-se um excelente carpinteiro. De tão boa que a embarcação ficou, Mauro recebeu em poucos dias uma verdadeira penca de pedidos para construir barcos para a pesca artesanal.  Pronto, acabou-se assim a fase de pescador artesanal para virar carpinteiro naval.

Com o aumento progressivo de pedidos, Mauro obrigou-se a convencer o irmão Jaime a ajudá-lo no estaleiro instalado perto da boca da barra do canal do Linguado.  Passados 17 anos do ingresso no ramo, Mauro informa que com a ajuda do irmão construiu mais de 200 barcos e perdeu a conta que quantos já foram reformados em seu estaleiro.

Além de barcos pequenos para a pesca artesanal, o paulista de Mauá já fabricou embarcações de tamanho grande, como uma para transporte de passageiros em Paranaguá, com capacidade para 92 pessoas. “Foi a maior embarcações de todas. Trabalho é que não falta, tenho fregueses de todo o litoral norte catarinense e também em Paranaguá, Curitiba e Santos”,  revela.

 

“Trabalho é que não falta, tenho fregueses de todo o litoral Norte catarinense e também em Paranaguá, Curitiba e Santos.”

 

E as pescarias continuam
Casado com dona Elisangela, pai e uma filha, apesar de sempre atolado no serviço, Mauro leva a vida de bom humor, admitindo que construir barcos rende mais que pilotá-los em pescarias profissionais. Mas se apressa em dizer que continua gostando da antiga profissão e que por isso não deu as costas para o mar. “Meu freezer é abastecido com frutos do mar e peixes que eu mesmo continuo pegando. Sempre que o estoque começa a ficar baixo arrumo um tempinho para ir ao mar onde me reabasteço”, assinala o requisitado construtor de barcos artesanais.  (Herculano Vicenzi,especial para o Notícias do Dia)


Uma vez professor...

Carreira. João Pascoal passou a maior parte da vida na Escola Técnica Tupy
Luciano Moraes/ND
Estudar, sempre. Livros, artigos e protótipos ainda fazem parte da vida do professor Pascoal que se dedica agora a escrever uma cartilha sobre prevenção de acidentes

 

 

 

...sempre professor. Depois de passar 38 anos em sala de aula, ensinando desenho técnico a adolescentes, na Escola Técnica Tupy, João Pascoal de França dedica o tempo de aposentado para continuar ensinando, agora voltado a disseminar noções de prevenção de acidentes entre o público infantil. “A prevenção de acidentes deveria ser uma disciplina no currículo escolar fundamental”, diz Pascoal, que também gostaria de ver o xadrez sendo praticado nas escolas, assim como sonha em resgatar o civismo, com ações como a execução do Hino Nacional pelo menos uma vez por semana nos colégios. “Também gostaria muito – acrescenta, puxando a brasa para sua sardinha – que o desenho geométrico voltasse a fazer parte do currículo escolar.”

Nascido há 63 anos, Pascoal se criou no bairro do Paulas, em São Francisco do Sul, de onde saiu adolescente, para fazer o curso de mecânica na Escola Técnica Tupy. Na mesma instituição fez o técnico metalúrgico e formou-se em segurança no trabalho; é graduado no curso superior de formação de professores, especializado em desenho técnico mecânico e ensino de segundo grau. “A ETT – reconhece Pascoal – foi um marco na minha vida profissional e de centenas de jovens de famílias humildes que não podiam custear o ensino médio. O processo de seleção era rigoroso, o que só valorizava mais quem se formava lá.” Naquele tempo, também na ETT era comum o trote, quando os veteranos raspavam a cabeça dos calouros. Para Pascoal, porém, até isso tinha seu lado bom: “Era um orgulho sair pela cidade de cabeça raspada e usando o boné amarelo da Escola Técnica Tupy. Bom para a autoestima”. Durante o curso, Pascoal morou nos alojamentos da própria escola, como tantos alunos que vinham de outras cidades. Boas lembranças não faltam: “A limpeza era fiscalizada pelo mestre Bub, e o café da manhã ficava a cargo da dona Maria. Foi um tempo de muito café com chineque, principalmente nos fins de semana, quando as refeições ficavam por conta de cada um”.

 

 

Arquivo pessoal/divulgação/ND
Memória. Na formatura do então segundo grau, Pascoal recebeu o diploma das mãos do diretor da Tupy, Raul Shmidt, observado pelo mestre Silvio Sniecikovski

 

 

Professor Pascoal
Antes de assumir a cátedra, em 1971, Pascoal estagiou na função de monitor, assistindo por um ano as aulas de desenho técnico do professor Vitor Zimmermann Junior, e foi substituto do professor Mariano Costa. Ministrando desenho técnico mecânico, construiu uma fama de rigidez. Tal rigor lhe custou até um puxão de orelhas: “Em 1975 fui chamado o gabinete do diretor Theo Fernando Bub, que pediu esclarecimentos sobre minha tese a respeito de notas. Eu dizia, em sala, que nota dez era para Deus, nove para o professor e de oito para baixo para os alunos. Por mais que eu argumentasse, o diretor não se convenceu, e me deu um sermão. Só 25 anos depois, numa confraternização de ex-alunos, eu soube quem havia me denunciado”.

João Pascoal de França permaneceu 38 anos dando aulas na ETT, sigla que garante levar no coração. “Estudo, Trabalho e Técnica é a marca consolidada que move o espírito desta conceituada instituição. De todos que marcaram minha passagem pela escola, faço uma homenagem especial ao grande comandante Silvio Sniecikovski.”

Amante da pesca de garoupas nos parcéis (pedras submersas) de São Francisco, Pascoal lamenta a devastação da vida marinha em sua ilha, devido à pesca predatória e à falta de fiscalização. Quando não está pescando, debruça-se sobre artigos, estudos e anotações sobre prevenção de acidentes, preparando uma cartilha que sonha ver entre o material escolar de alunos dos ensinos fundamental e médio – assim como os livros de desenho geométrico.


O chapeiro de gravata

Dedicação. Rodrigues alcançou a realização graças ao esforço e à família
Carlos Junior/ND
Lanche saboroso. Ademar dá o exemplo: só trabalha de gravata

 

 

Se há algo de que Ademar Rodrigues tem absoluta certeza é de que o trabalho traz resultados e sentido para a vida. Essa constatação ele pode fazer ao avaliar como sua vida mudou desde que resolveu investir todo o esforço num negócio próprio. Hoje, pode comemorar o sucesso do seu empreendimento, Rodrigues Lanches, que em março completou 15 anos conquistando a freguesia na rua Max Colin, depois de rodar por diversos endereços. “Eu comecei a trabalhar ainda criança, na roça, e posso garantir que aquilo nunca me fez mal; pelo contrário, o trabalho duro na lavoura só me educou e me preparou para a vida.”

Rodrigues mal conheceu sua cidade-natal, Indaial, no Médio Vale do Itajaí, de onde a família saiu quando ele tinha apenas 6 anos. Da parada seguinte, Biguaçu, partiu após outra meia dúzia de anos, agora com destino a Jaraguá do Sul. Ajudou a família na roça, estudou somente até completar o ensino primário e aos 17 anos iniciou a fase decisiva, ao sair sozinho de casa em busca de novas perspectivas na vida. O destino: Joinville; a meta: trabalhar na indústria.

“Foi ali que minha vida começou pra valer. Saí de Jaraguá de litorina, com uma sacola e duas mudas de roupa. Desci na Estação Ferroviária de Joinville num domingo à noite, com muita chuva. Fui a pé até o terminal central e peguei um ônibus para o Boa Vista, onde sabia que ficava a Tupy. Achei uma pensão para ficar alguns dias, fiado, e no dia seguinte fui pedir emprego na fundição. Não consegui, porque era menor de idade.”

De volta à pensão, Rodrigues ouviu um fio de conversa, em que alguém reclamava de ter serviço, mas faltar mão-de-obra. Ali, conseguiu seu primeiro emprego, como servente, cavando valetas. Três meses depois, pagou o que devia na pensão, comprou roupas e topou nova empreitada, agora em São Francisco do Sul. Oito meses e muitas valetas depois, retornou a Joinville. E conseguiu o tão sonhado emprego na Tupy. Mas sua meta já era outra: “Eu queria ser dono do meu próprio negócio”.

 

“Eu mesmo construí a lanchonete, e divido o expediente diário com minha esposa, ela no atendimento, eu na chapa.”

 

O empresário Rodrigues

A primeira tentativa como autônomo foi a revenda de roupas compradas em atacadistas de São Paulo. “Até que ia bem, mas torrava todo o lucro na farra”, admite. Voltou para uma fábrica e recomeçou a guardar dinheiro. Os dias de farra terminaram quando conheceu a jovem Maristela, num baile dos comerciários, em 1980. Primeira namorada pra valer, tornou-se sua esposa dois anos depois.

Foi autônomo de novo ao comprar uma Kombi para buscar verduras em Curitiba. Outro golpe de azar: bateu o carro e perdeu tudo. Trabalhou como motorista de um mercado até o estabelecimento falir. Foi peão na obra da nova sede do Banco do Brasil, empregou-se na Ambalit e guardou mais dinheiro, o suficiente para comprar um terreno na rua João Pessoa e montar um carrinho de lanches. Contou com uma ajuda do cunhado, que lhe deu três caixas de cerveja, e começou a aprender os segredos da chapa. Na verdade, foi o que de melhor tirou do negócio, pois o ponto era péssimo. Passou por outros quatro locais, até chegar, em 1998, à esquina das ruas Max Colin e Marquês de Olinda.

Há cinco anos mudou-se para o endereço atual, na mesma Max Colin, ao lado da academia de tênis Hoppe. “Eu mesmo construí a lanchonete, e divido o expediente diário com minha esposa, ela no atendimento, eu na chapa”, conta Rodrigues, garantindo ser o único chapeiro da cidade que usa gravata. “Assim, já dou o exemplo, desencorajando quem chega mal vestido ou sem camisa”, justifica.

Toda essa trajetória de muito suor, dedicação e algumas trombadas é motivo de orgulho para Rodrigues. “Graças ao trabalho, pude dar estudo para os filhos, ter minha casa própria e um terreno na praia. Agora, só falta formar o filho caçula, ficar mais uns anos por aqui, me aposentar e ir trabalhar com construção civil na Enseada”, planeja. Grato à esposa, por tudo que representou em sua vida, conclui: “Minha grande empresa é a família”.

Perfil sugerido pela leitora Letícia Diefenthaeler.


Chegadas e partidas

Rodoviária. Ex-administrador da estação de Joinville exerceu várias funções dentro de companhia até chegar a motorista, um sonho de menino
Fabrício Porto/ND
Vai e vem dos ônibus. Carlos Alberto deixou de ser motorista de linhas para Curitiba ao assumir a administração do terminal de Joinville, função que exerceu durante 16anos

 

 

Em qualquer cidade grande ou pequena, a estação rodoviária se constitui em ponto de referência conhecido pela maioria da população. É comum encontrar nesses espaços de chegadas e saídas de passageiros, pessoas que se identificam com o local. Na história da Estação Rodoviária Harold Nielson um bom representante dessa estirpe chama-se Carlos Alberto de Almeida, o Carlinhos. Depois de se aposentar ele vai pouco à rodoviária, mas mesmo assim continua sendo lembrado por velhos companheiros de trabalho.

Nascido há 55 anos em Blumenau, Carlinhos começou cedo a se envolver com passageiros de ônibus. Com 14 anos de idade arrumou emprego de cobrador na Auto Viação Catarinense em sua cidade natal. Posteriormente, já agenciador de passagens, trabalhou em Florianópolis e Curitiba. Ato seguinte, a pedido da diretoria da empresa, foi comissário de bordo da linha Florianópolis-Curitiba.

Mas o sonho de Carlinhos era outro: queria ser motorista de ônibus. Por isso, às escondidas, vivia manobrando pesados veículos na garagem da Catarinense, em Florianópolis. Ao ser flagrado na boléia pelo inspetor José Vilas Boas por pouco não perdeu o emprego. “Envergonhado ao ser pego fazendo arte, pedi mil desculpas e ao mesmo tempo confessei a Vilas Boas que meu grande sonho era ser motorista. Além de não me despedir, nem me dar um gancho, ele acabou me ensinando os macetes para virar um bom profissional ao volante de um ônibus”, conta sem segurar a risada.

Algum tempo depois ao ser efetivado motorista, Carlinhos fez então a linha Florianópolis-Curitiba por quatro anos. Corria o ano de 1977 quando ele se desligou da Catarinense para trabalhar no setor administrativo da rodoviária de Joinville.

Passados alguns anos, Carlinhos foi surpreendido pelo prefeito Luiz Gomes, o Lula, ao receber convite para ser administrador da rodoviária.  Após a gestão de Lula ele foi mantido no cargo por Wittich Freitag e Luiz Henrique da Silveira. “Foram 16 anos como administrador, função que só deixei ao me aposentar”, destaca com uma pontinha de orgulho.

Casado com dona Teresinha, que conheceu dentro da rodoviária, Carlinhos é pai de três moças e avô de uma menininha. Extrovertido, sempre que ele bota os pés na rodoviária é recebido com festa por velhos companheiros de trabalho, que sentem falta de suas tiradas espirituosas, especialmente quando a conversa envereda para os lados da política e do futebol, seus assuntos preferidos  

 

Boas lembranças

Do tempo como administrador, Carlinhos tem saudades dos papos nas áreas gastronômicas na rodoviária e no bar de Florzino Borba onde, entre outros, reunia-se constantemente com Gerson Hoffmann, gerente da Catarinense; Sílvio Piazza, do Deter; Luiz Antônio Vilas Boas, também do Deter; José Bittencourt, o Bita, funcionário de um restaurante e Sebastião Benedito, do DNER. “Deixei na rodoviária uma penca de amigos. Se fosse para citar todos por certo tantos nomes não caberiam na página”, assinala bem humorado.  

Carlinhos é um apaixonado por uma rodada de dominó regada a cerveja e muita conversa solta. Da rodoviária sente saudade dos amigos, mas não do movimento atual. “No meu tempo o comércio local, especialmente nas lanchonetes, era muito mais forte. Quando tiraram a área gastronômica do piso térreo, colocando-as na parte superior do prédio, as coisas ficaram mornas. Hoje, comparado ao meu tempo, a rodoviária de Joinville é um local tristonho”, enfatiza o popular Carlinhos. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Saudades do jardim de lírios

Nova Brasília. Seu José cuidava das flores que eram o cartão-postal do bairro
Fabrício Porto/ND
No mesmo lugar. José passa todos os dias no seu antigo jardim, hoje local tomado pelo mato rasteiro

 



Há cinco anos a rua Minas Gerais destacava-se pela presença de milhares de lírios em ambas as margens. O espetáculo se estendia do viaduto da BR-101, na entrada do bairro Nova Brasília,  até cerca de um quilômetro adiante. O imenso jardim, orgulho da população do bairro, era cuidado por José Miranda, chefe de uma equipe da Prefeitura que instalava tubulação que ao ficar adoentado foi deslocado para o setor de jardinagem por ser um serviço menos pesado.
Com a aposentadoria de José Miranda, os lírios foram desaparecendo até sumir por completo. Em seu lugar hoje sobra lixo e muito mato habitado por ratos, cobras e outros bichos.
“Ao olhar para os dois lados da rua me dá vontade de chorar. Aquilo era tão lindo que um dia um turista de São Paulo chegou a pedir licença a Raul Bosse (primeiro goleiro da história do JEC) para subir no seu prédio a fim de tirar fotografias dos meus lírios”, recorda seu José.
Para matar a saudade do tempo que cuidava dos lírios, o ex-jardineiro guarda uma série de fotografias nas quais ele aparece em meio a cenário colorido de amarelo.
Querido por todos, seu José é, aos 75 anos de idade, um homem de admirável disposição. Seu passatempo preferido é caminhar. “Tem dia que vou do Nova Brasília até o centro da cidade até duas vezes para pagar umas continhas dos meus filhos. Caminhar é um santo remédio para conservar a saúde”, garante.
Casado com dona Deolinda, com a qual tem sete filhos (dois homens e cinco mulheres), seu José e avô 18 vezes e bisavô outras 13. De bem com a vida e irrequieto, além de caminhar ele gosta de trabalhar no bar do filho Toninho, instalado na rua das Missões. “No balcão não gosto de atender, mas lavar copos e varrer o chão é comigo mesmo. Gosto de trabalhar e desprezo sujeito vadio”, assinala franco e direto.

 

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Colorido. Seu José guarda as fotos que mostravam as margens da estrada de ferro cobertas por hemerocalis

 

 

Das lavouras de tabaco às flores
Seu José chegou em Joinville em 1976. Cansado de ser arrendatário para produzir tabaco no município de Rio do Sul, largou as lavouras e escolheu a maior cidade do Estado para morar. “Moço, acertei na mosca, todos os filhos estão bem encaminhados; posso me despedir desse mundo em paz, mas pretendo ficar por aqui ainda um bom tempo”, diz bem humorado.
Antes de entrar na Prefeitura, seu José trabalhou cinco anos na Cia. Hansen e mais algum tempo no Sindicato dos Arrumadores de Joinville. Na Prefeitura foram 14 anos, cinco deles no setor de jardinagem quando embelezou a entrada do bairro onde mora desde 1976. Ele ainda acalenta a esperança de ver o matagal da rua Minas Gerais eliminado para que outro jardineiro refaça os canteiros de lírios. “Seria maravilhoso ver novamente a entrada do bairro com flores”, enfatiza o popular José. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Atento ao mais belo

Plumagem. Joinvilense do Bucarein integra seleto grupo de juízes da ordem e federação brasileira de ornitologia
Fabrício Porto/ND
Em casa. Alexandre Dopke é respeitado pela criação de aves exóticas, como os agapornes

 

O quadro de juízes da OBJO (Ordem Brasileira de Juízes Ornitológicos) e da FOB (Federação Ornitológica do Brasil) é preenchido somente pelos mais renomados especialistas nacionais no segmento de criação de aves exóticas. O único joinvilense a integrar as duas entidades é Alexandre Dopke, 33 anos. Ele entrou para o seleto grupo há cinco anos ao passar por rigorosa prova de avaliação técnica.

Conhecido e respeitado pelos mais destacados criadores de aves exóticas no Brasil, Alexandre nasceu no bairro Bucarein, onde começou a se envolver com a ornitologia aos 5 anos de idade, quando ganhou do pai um casal de periquitos australianos.

Seu envolvimento definitivo com a atividade aconteceu ao conhecer Marcos Baumer, um dos mais antigos criadores de aves exóticas em Joinville. Por influência do velho criador, Alexandre se filiou a AJO (Associação de Ornitologia de Joinville), entidade da qual já foi presidente em duas gestões apesar de ainda ser um de seus mais jovens integrantes.

Com o objetivo de se destacar no universo ornitológico brasileiro,  Alexandre tornou-se em 2002 um criador exigente consigo. “Só com disciplina se consegue criar passarinhos de apurado padrão genético e por isso acabei virando meu próprio cobrador de bons resultados”, conta bem humorado.

A meta começou a aparecer em 2005, quando Alexandre conseguiu conquistar o troféu de campeão Sul Brasileiro na categoria agapornes. Posteriormente conquistou outros títulos em âmbito regional e estadual. Na sua galeria de prêmios aparece também um troféu de vice-campeão brasileiro. Apaixonado e estudioso de aves exóticas, ele enfatiza que seu ingresso no quadro de juízes foi fruto da dedicação. “Sem mergulhar fundo nas técnicas e nos macetes da ornitologia não se consegue chegar à condição de juiz”, resume.

De bem com a vida, Alexandre salienta que a ornitologia é coisa só para apaixonados. “Quem entra na atividade de olho no lucro, logo larga tudo, pois financeiramente não compensa. Muito ao contrário, criar passarinhos significa tirar dinheiro do bolso para ir tocando o hobby”, garante sem conter uma boa risada.

 

Combustível da paixão
O jovem juiz atualmente mora no bairro Vila Nova, onde ganha a vida como representante comercial em Joinville e em cidades da região do Litoral Norte catarinense. E a participação como juiz em campeonatos estaduais e de âmbito nacional quanto rende?  “Nada, os juízes só recebem o equivalente aos gastos com a viagem para fazer os julgamentos. Ornitologia é impulsionada pelo combustível da paixão”, reforça Alexandre.

Atualmente os filiados da Associação Joinvilense de Ornitologia criam cerca de 30 espécies de aves. Em âmbito nacional são criadas mais de 500, originárias de todos os continentes. “A ornitologia é uma atividade que está ganhando espaço e principalmente padrão genético em todo o Brasil”,  comemora Alexandre. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Mãos de muitos ofícios

Atiradores. Werner Willy Rosskamp foi agricultor, mecânico e até pintor mas sem deixar a tradição do tiro nas sociedades
Fabrício Porto/ND
Aposentado.  Werner em sua casa localizada nas imediações da rodoviária, onde mora desde criança

 

 

Na adolescência plantou arroz onde hoje está a estação rodoviária de Joinville; antes de servir o Exército, aprendeu o ofício de mecânico numa oficina onde hoje está o hotel Colon; com pouco mais de 20 anos foi eleito o primeiro presidente da Sociedade Esportiva e Cultural Cruzeiro Joinvilense; já homem maduro, pintou faixas de sinalização no solo de rodovias estratégicas como a BR-101 e a Via Dutra.

Essas são algumas passagens marcantes da biografia de Werner Willy Rosskamp, joinvilense de 85 anos de idade nascido, criado e morador até hoje nas imediações da estação rodoviária. Dono de uma memória extraordinária, se lhe desse a veneta de escrever sua história por certo o relato não caberia em um livro com menos de 200 páginas.

Moderado no consumo, mas apreciador de cerveja desde a juventude, seu Werner gosta de virar uns copos aos sábados quando sai de casa para conversar com velhos companheiros. Nessas horas ele encanta pessoas ao redor de sua mesa, relembrando belas histórias do tempo que as ruas centrais da Cidade eram ainda revestidas apenas com macadame.

É também do seu tempo de juventude o auge de memoráveis bailes perto do viaduto da rua Ottokar Doerfell, onde estava instalado o antigo Salão Reiss. “O salão era tão importante que emprestava seu nome a toda a área onde hoje estão os bairros Atiradores e São Marcos”, descreve.

Com saudade daquele tempo, ele conta que no Salão Reiss funcionavam dois clubes: o Cruzeiro do Sul, de tiro ao alvo real (balas de verdade) e o Tiro ao Alvo Joinvilense, que usava espingardas de pressão para disparar setas.  “As festas acabaram em 1942 quando o Brasil entrou na Segunda Guerra contra o eixo liderado pela Alemanha. Os dois clubes foram fechados juntamente outras agremiações que preservaram tradições germânicas”, assinala.

Terminada a guerra, os nomes dois clubes foram trocados (Cruzeiro do Sul virou Sociedade Serra Azul; Tiro ao Alvo Joinvilense virou a Sociedade de Tiro ao Alvo Joinvilense) e os sócios voltaram a fazer festas no Salão Reiss. Com havia muita amizade entre os membros das duas sociedades, surgiu então a ideia de fundi-las numa só. Surgiu então a Sociedade Esportiva e Cultural Cruzeiro Joinvilense, a única de Joinville a praticar tiro ao alvo real até hoje.

À custa de muitas festas a nova sociedade conseguiu erguer sede própria na rua Sehrwald, no bairro Atiradores. Seu Werner, que participou da comissão elaboradora dos estatutos da nova agremiação foi eleito o primeiro presidente apesar de ser muito novo.  “Até me assuntei quando a assembléia geral optou por meu nome”, diz sem conter uma boa risada.

Um detalhe da inauguração da sede é guardado com carinho por seu Werner. “A banda do 13º Batalhão de Caçadores animou o desfile no qual levamos do Salão Reiss para a rua Sehrwald os troféus e os estandartes dos dois clubes que deram origem à sociedade; foi uma coisa muito linda” , descreve.

 

“A banda do 13º Batalhão de Caçadores animou o desfile no qual levamos do Salão Reiss para a rua Sehrwald os troféus e os estandartes dos dois clubes que deram origem à sociedade; foi uma coisa muito linda”.

 

Fôlego para eleição a vereador
Casado com dona Alida, pai de três filhas e avô outras tantas vezes, seu Werner foi mecânico de automóveis, funcionário do DNER (Departamento Nacional de Estradas de Rodagem), de onde saiu ao se aposentar depois de fazer história como pintor de fixas de sinalização no solo de algumas das principais rodovias brasileiras.

Já um pouco entrado na idade ele teve pique para disputar uma eleição a vereador ficando na suplência. Com a morte de Curt Alvino Monich ocupou uma cadeira no legislativo de Joinville por oito meses.

Depois aposentado, seu Werner voltou à ativa ao ser convidado por Osni Piske, gerente regional da Casan, para cuidar do almoxarifado da empresa. Paralelamente ao trabalho de almoxarife-chefe ele ajudou na construção da sede recreativa dos funcionários da Casan em Joinville. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


A preferida das noivas

Moda. Ivone Buse mantém a tradição da alta costura, desde os anos 60
Fabrício Porto/ND
Paixão. Ivone pede até 12 meses de antecedência para fazer um vestido de noiva para ter certeza de que tudo vai ficar perfeito

 

 

Na galeria dos nomes que marcam a história da moda joinvilense, com certeza está Ivone Voigt Buse, a costureira preferida das noivas e de quem quisesse mostrar elegância nos eventos, desde os anos 60. Ainda hoje, aos 70 anos, Ivone continua produzindo vestidos de noivas e trajes femininos para a sociedade: “Não dá mais para costurar no mesmo ritmo de antes; mas também não dá pra parar, pois as encomendas continuam, e eu gosto disso”, afirma a costureira, acrescentando que precisa dividir o tempo entre o ateliê, o coral e as atividades no grupo da terceira idade que coordena na paróquia luterana São Lucas.
Ivone morou até os 18 anos na região do Rio da Prata, onde nasceu e aprendeu a costurar. Caçula de cinco irmãos, conheceu a dura rotina da roça, atividade principal da família. “Plantávamos cana, aipim e outras variedades, para subsistência e como atividade econômica. Todos na família precisavam ajudar na roça”, conta Ivone, que já naquele tempo começou a cantar no coral da igreja Cristo Salvador. A vocação profissional também já despontava: “Minha brincadeira preferida era costurar vestidos de bonecas. Com minha irmã mais velha aprendi a fazer roupas adultas; ela costurava e eu alinhavava. Fazíamos belos vestidos de 12 panos”.
Aos 18, trocou a lavoura pelo comércio, trabalhando na mercearia de um irmão, na rua Jaguaruna. Passou pela Coopertupy, antes de se empregar na Malharia Arp. “Trabalhei na modelagem, o que serviu para me aperfeiçoar. Aprendi muito na Arp.”

 

 “Minha brincadeira preferida era costurar vestidos de bonecas. Com minha irmã mais velha aprendi a fazer roupas adultas; ela costurava e eu alinhavava. Fazíamos belos vestidos de 12 panos”

 

Grife própria
Ivone ainda passou rapidamente pela Malharia Aracy, antes de criar sua própria grife, a Grão de Mostarda. A essa altura, já estava casada com Dário Buse, a quem conhecera num baile no saudoso Salão Russo. “Na Grão de Mostarda, que abri em sociedade com minha filha Janine, entre outras coisas produzíamos camisas com versículos bíblicos, que faziam muito sucesso.” A empresa foi vendida algum tempo depois, já que Ivone era muito requisitada para confeccionar trajes de noivas e de festas.
Além da Arp, onde também aprendeu a tricotar em máquina, Ivone é grata a Zuzu, a “costureira das madames”, com quem fez um curso de corte e costura (Auzuria Cunha, falecida no ano passado, aos 90 anos; Zuzu foi perfil em fevereiro de 2010). Ivone parou há pouco tempo com o tricô, e algumas de suas criações ainda podem ser vistas em sua casa no bairro Guanabara, como um blusão feito para a filha Jane.
Durante algum tempo, Ivone também produziu ternos, mas sua especialidade são mesmo os trajes femininos. “Algumas freguesas trazem o desenho do que desejam, outras dão apenas uma ideia e deixam por minha conta. Não gosto de modinha, que deixa todo mundo meio parecido. Quem usa um vestido produzido por mim pode ter a certeza de que não vai cruzar com alguém usando algo semelhante. Garanto a exclusividade!”
Como atual vice-presidente da Oase (Ordem Auxiliadora das Senhoras Evangélicas) da sua paróquia, Ivone também confeccionou as roupas para as integrantes do coral. “E também já fiz alguns talares para pastores”, acrescenta, referindo-se às vestimentas dos pastores luteranos.
Se você, jovem leitora, está planejando se casar, ligue para a Ivone no 3436-3177 e encomende seu vestido. Mas não deixe para muito em cima da hora: “Gosto de elaborar um vestido um ano antes, para garantir o capricho”.

O grão de mostarda
A passagem do grão de mostarda, considerada a mais curta parábola de Jesus, é assim contada no evangelho de Lucas (13: 18-19): “Disse, pois: A que é semelhante o reino de Deus, e a que o compararei? É semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e plantou na sua horta, e que cresceu e fez-se árvore; e as aves do céu pousaram nos seus ramos.”

Perfil sugerido pela leitora Carmen Silvia Effting


Desafio a serviço da vida

Dedicação. Maria Marlene superou uma doença e se dedicou ao voluntariado
Rogério Souza Jr/ND
Missão. Marlene na casa que abriga a Comunidade Terapêutica Rosa de Sarom

 

Iniciar um novo ciclo na vida logo após superar uma adversidade. Quantas pessoas já não passaram por essa situação? Marlene foi uma delas, e se reergueu depois de vencer uma luta pela própria vida. “Há vinte anos, um câncer estava consumindo meu organismo, com poucas chances de sobrevivência. Cheguei a ouvir uma voz dizendo que eu estava acabada. Mas ainda não era a hora, tinha uma missão a cumprir. Roguei a Deus, fui curada e estou realizando a missão.” É com os olhos marejados pela emoção que Maria Marlene Duarte Ritzmann relembra o período de sofrimento infligido pela doença, sua vontade de viver e a fé inabalável que lhe proporcionou a volta por cima. A missão começou a ser cumprida no dia 3 de março de 1993, quando ela fundou a Comunidade Terapêutica Rosa de Sarom, dedicada à reabilitação de meninas adolescentes dependentes químicas, restituindo-lhes a integridade física, moral e espiritual. Seu esforço teve uma retribuição da sociedade em março, quando foi homenageada com a Medalha de Mérito Mulher Cidadã Joinvilense, concedida pela Câmara de Vereadores.

A história de Marlene, neta de portugueses, começa em 1948, quando ela nasceu, em Joinville. Caçula de 14 irmãos, criou-se no Nova Brasília, com alguns sonhos de criança: “Minha família era da Assembleia de Deus, e eu sonhava ser pastora, tocar acordeon e aprender costura”. Depois de se casar, acabou virando empresária lojista, fundando com o marido Norberto o Magazine Ritzmann, durante muitos anos um ponto de referência em trajes de festa na cidade.

 

Divulgação/ND
Homenagem. Marlene com os vereadores Dorval Prtti e Levi Rioschi na sessão onde recebeu a Medalha de Mérito Mulher Cidadã Joinvilense

 

Voluntária pela vida
O primeiro chamado para o voluntarismo veio em 1982, quando Marlene foi visitar um jovem conhecido, cumprindo pena na prisão, na época em que o presídio ficava no complexo do Boa Vista. “Fiquei durante três anos realizando visitas ao presídio, levando a palavra de Deus. Foi quando senti a necessidade de criar uma instituição para ajudar as pessoas.” Da percepção para a ação, em 1984 Marlene fundou o Centro de Recuperação Shalon. Em 1992, desligada do Shalon, teve diagnosticado um câncer, que já se alastrava pelo organismo. “Fui desenganada, mas fiz um voto a Deus pela minha cura. Ele me ouviu, e ali surgiu a inspiração para criar uma nova instituição.” Com a ajuda da família, de amigos e de ex-presidiários, Marlene utilizou sua própria casa, vendeu a loja e fundou a Comunidade Terapêutica Rosa de Sarom, voltada à recuperação de jovens viciadas. Uma nova loja, dedicada à locação de trajes, foi aberta na avenida Getúlio Vargas, sob o comando de Norberto.

O início foi na residência dos Ritzmann, na rua Antônio Carlos, no mesmo Nova Brasília que viu Marlene crescer. Há alguns anos, graças ao esforço da própria família, de voluntários e de uma subvenção municipal, foi erguida uma nova sede num aprazível recanto na rua Wally Vollmann, no mesmo bairro. Com capacidade para receber até trinta adolescentes, a instituição oferece todo o apoio na recuperação de dependência química. A equipe, composta por vinte pessoas, tem médico, psicólogo (Antônio Siqueira, genro de Marlene), fisioterapeuta, professores e assistente social. Três funcionárias são pagas pela instituição, enquanto os demais são voluntários. A antiga casa onde tudo começou foi reservada para receber dependentes químicas adultas. Hoje, vendo o resultado de sua dedicação e contabilizando tantas jovens recuperadas, Maria Marlene tem uma certeza: “Meu sonho se realizou”.

 

Para ajudar
A assistente social Leila Regina Pereira, uma das voluntárias, faz um apelo para a comunidade: “Iniciamos uma campanha de arrecadação de donativos para montar uma brinquedoteca. Quem quiser abrir o coração, traga brinquedos e jogos educativos adequados para adolescentes”. Além desta campanha, que vai até outubro, a Rosa de Sarom sempre necessita de alimentos e material de higiene e limpeza.
O endereço: rua Wally Vollmann, 191, Nova Brasília
Telefone: 3426-2721

 

Com a palavra
“Passar pela casa fez toda a diferença na minha vida. Deixei para trás 15 anos de vício e hoje estou recuperada, vivendo feliz com meu filho. Marlene foi uma verdadeira mãe pra mim.”
Rosemari dos Santos, 40 anos, mãe de três filhos, que ficou um ano e cinco meses nas duas casas e hoje é um exemplo de recuperação


A segunda era do basquete

Cestinha. Claudinho foi campeão pelo JEC, pelo Sírio e por Joinville
Fabrício Porto/ND
Galeria. No dia do aniversário, Claudinho é só sorrisos junto aos troféus que colecionou

 

 

Nos últimos dois anos, o ND tem veiculado perfis de antigos jogadores de basquete de Joinville, dos dourados anos 50, 60 e 70. Por essas páginas passaram craques como Mima, Buba, Indaial, Ivo e tantos outros. Após aquela geração se aposentar, a história registra um lapso, quando Blumenau, Florianópolis e Lages dominaram a modalidade no estado. Uma nova era de conquistas veio nos anos 80, quando o principal time da cidade vestia a camisa do JEC, precedendo a criação da Abaj (Associação de Basquete de Joinville). Foi naquele tempo que despontou o talento do ala-armador Claudinho que, além do tricolor, defendeu União Palmeiras, o paulistano Sírio e as seleções joinvilense e catarinense. “Era uma fase de semiprofissionalismo, de transição. Aqui em Joinville tínhamos salário para jogar, mas não dava para sobreviver apenas do esporte, todos tinham empregos”, conta Claudinho, também um grande vencedor da Olimpíada Sesiana com a camisa da Embraco.

Cláudio Roberto da Costa Junior nasceu no dia 15 de abril de 1966, em Joinville. “Minha infância passei na rua Jaguaruna. Gostava de todo tipo de esporte, mas acabei optando pelo basquete aos 8 ou 9 anos, influenciado por um amigo, que me levou para a escolinha do Cruzeirinho, do professor Coutinho”, recorda Claudinho, referindo-se a Paulo César Coutinho, professor de educação física, que chegou a ser preparador e técnico do JEC, e hoje é comentarista esportivo em Criciúma, onde se radicou.

 

“Era uma fase de semiprofissionalismo, de transição. Aqui em Joinville tínhamos salário para jogar, mas não dava para sobreviver apenas do esporte, todos tinham empregos.”

 

Aprendizado no Sírio
Com o fim do Cruzeiro, Cláudio passou para o mirim do União Palmeiras. Ali, encontrou uma encruzilhada: “Eu também jogava tênis de campo, até que um técnico me desafiou a escolher, pois não dava para me dedicar aos dois esportes”. Claudinho – apelido que traz de casa, para diferenciar do pai Cláudio, também ex-jogador de basquete – optou pelo basquete. Fez bem: com 14 anos já integrava o time adulto de Joinville. “Nos Jasc de Itajaí, em 1982, Coutinho peitou todo mundo e me colocou no time titular”, orgulha-se. Um ano depois, Claudinho era titular também da seleção catarinense.

Aos 16 anos, já precocemente formado no ensino médio, arrumou as malas e foi morar em São Paulo, convidado a jogar no Sírio-Libanês, uma das principais forças da época no basquete brasileiro. “Fui morar num apartamento com mais dois jogadores. A estrutura do Sírio era fantástica, contrastando com a realidade de Joinville, com apenas dois ginásios.” Claudinho ficou três anos em São Paulo, jogando ao lado de craques como Marquinhos, Marcel, Mauri e Paulinho Villas-Boas. “Lá eu era o ‘Catarina’. Foi um grande aprendizado”, agradece hoje.

Ciente da carreira curta de atleta e disposto a estudar, em 1986 Cláudio retornou a Joinville. Jogou os Jasc daquele ano por São Bento e no ano seguinte vestia a camisa do JEC, onde ficou até 1994.

Formado em processamento de dados, sua paixão, trabalhou na Consul e na Embraco, passando depois pela Logocenter e pela Datasul. Desde 2003 é sócio da Euax (“bravo” em latim), empresa de consultoria empresarial na área de gestão.

No tempo de Embraco, Claudinho defendia o JEC no campeonato nacional e a empresa na Olisesi, a Olimpíada Sesiana, tradicional e acirrada competição. No balanço da carreira, Claudinho se mostra satisfeito: “Fui cestinha estadual duas vezes pelo JEC, campeão brasileiro juvenil pelo Sírio, quatro vezes campeão dos Jasc e muitas da Olisesi”. Hoje, continua jogando pelo menos uma vez por mês, com a velha turma, torce pelo time da cidade e pelo Los Angeles Lakers. E desfez a encruzilhada da juventude, jogando também tênis, só pra se divertir.


Nascida para evangelizar

Missão. Juliana Zopellaro dedica-se à disseminação da palavra de Deus
Rogério Souza JR/ND

 

Comunicação. Juliana é locutora e executiva na Rádio Arca da Aliança

 

Ela poderia se vangloriar de ser prima distante do papa, caso o cardeal brasileiro dom Odilo Scherer fosse o preferido no conclave do mês passado. Mas teve o privilégio de ganhar uma bênção particular de Joseph Ratzinger, quando ele era o papa Bento 16. A foto, exibida com orgulho em sua sala na Rádio Arca da Aliança, é como um símbolo do sentido da vida de Juliana Scherer Zopellaro. “Eu nasci para evangelizar”, afirma com convicção, honrada também com a Medalha do Mérito Mulher Joinvilense, concedida pela Câmara de Vereadores em março.

Ainda que tenha nascido em Rio do Sul, em 1972, Juliana se considera genuinamente joinvilense: “Com oito meses de idade eu já morava no Anita Garibaldi. Fiz toda a carreira escolar nos colégios do bairro, passei a infância por ali, fiz amigos e até a faculdade fiz no bairro”. Com vocação para ser professora, Juliana formou-se em pedagogia pela ACE. Seus ensinamentos, porém, não foram disseminados em sala de aula, estendendo-se a variadas formas de apostolado em torno da comunidade Arca da Aliança, onde ela mora há 22 anos. “Foi na comunidade que conheci meu marido, Miro, casamo-nos na capela e lá moramos com os filhos João Pedro, Maria Elisa, Beatriz e Luiz Augusto.”

 

 

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Audiência. Juliana recebeu a bênção do papa Bento 16, com o filho no colo

 

 

Divulgação/ND
Homenagem. Juliana com os vereadores Cláudio Aragão e Maurício Peixer quando recebeu a Medalha do Mérito Mulher Joinvilense

 

 

Ação do Espírito Santo
Juliana dedica seu trabalho voluntário a “uma ação do Espírito Santo, que me levou a exercitar o sentimento do coletivo”. Na Arca, entre outras atividades, Juliana participa do Centro de Espiritualidade, evangelização da juventude, artes sacras, promoção humana, orientação e direção espiritual, missões populares, centros educacionais, escolas de formação, pregação em retiros – o mais concorrido é o que ocorre durante o Carnaval, quando milhares de pessoas acorrem à Arca – e integração da juventude a partir de eventos esportivos. A Casa Marta e Maria, mantida pela Arca, acolhe pessoas ou famílias com vínculos rompidos, moradores de rua, migrantes em trânsito, e ex-apenados que não morem em Joinville.

Outra ferramenta importante no esforço de evangelização é a Rádio Arca da Aliança. Juliana já era locutora desde que a Arca apenas locava espaços na antiga Rádio Difusora, e atualmente responde pela direção executiva da emissora. O marido, Miro, é coordenador, músico e locutor. A própria Juliana divide as tarefas executivas com o estúdio, apresentando o programa “Crescendo na Graça”, dedicado à família; ela está no ar às quartas e domingos, às 16h30. “A rádio é um aliado forte no processo de evangelização, e eu me sinto à vontade diante do microfone”, diz a diretora-locutora. Juliana também é cofundadora e editora do jornal Arca em Movimento, já com 19 anos de circulação.

Um dos momentos mais emocionantes, para Juliana, foi o encontro com Bento 16. Ela conta: “Foi em 2005, logo que o papa foi nomeado. Viajei junto com o fundador da Arca da Aliança, diácono Elias, acompanhando o nosso bispo na época, dom Orlando Brandes. Fomos recebidos em audiência particular pelo papa. Eu pretendia me comunicar em italiano, mas o papa logo começou a falar conosco em português. Quando fui me ajoelhar para pedir a bênção, ele segurou meu rosto e me disse para ficar em pé mesmo. Foi emocionante demais, principalmente porque eu estava com meu filho no colo”.


Artista da palavra

Lançamento. Luiz Carlos Amorim lança sua 28ª obra na Feira do Livro
Mauro Schlieck/ND
Obra. “O Rio da Minha Cidade” é uma coletânea de crônicas

 

 

 

Cronista, contista, poeta, articulista... As múltiplas facetas fazem com que o escritor Luiz Carlos Amorim se defina como um artista da palavra. “Percebi que a escrita seria o vetor da minha carreira desde criança, quando venci um concurso de redação no colégio, com o tema ‘Portugal, meu avozinho’. Até então, sonhava em ser padre ou professor de português”, diz Amorim, que lança seu 28º livro nesta sexta-feira (12) na Feira do Livro de Joinville. “O Rio da Minha Cidade” (Edições A Ilha) é mais uma coletânea de crônicas: “São textos que dão mais a conhecer minha maneira de pensar como pessoa, como indivíduo, simplesmente”, define.

Nascido em Corupá em 1953, primogênito de nove irmãos, foi na cidade-natal que Amorim começou a carreira nas letras, escrevendo para o jornal local Hansa Humboldt (antigo nome do município). Na mesma época da adolescência, mantinha um espaço no “Correio do Povo”, da vizinha Jaraguá. Aos 18 anos, mudava-se para Joinville, em busca de oportunidades de trabalho e novos horizontes. Encontrou, trabalhando na Consul e no Bradesco e escrevendo colunas de música e literatura no “Jornal de Joinville” e depois em “A Notícia”.

Alguns anos depois, com a transferência da mãe para São Francisco do Sul, também o filho pediu ao Bradesco uma vaga na vizinha cidade. E lá foi Luiz Carlos Amorim iniciar uma nova fase na vida – a começar pelo emprego, ao ser aprovado em concurso do Banco do Brasil.

 

“Percebi que a escrita seria o vetor da minha carreira desde criança, quando venci um concurso de redação no colégio, com o tema ‘Portugal, meu avozinho’. Até então, sonhava em ser padre ou professor de português”

 

A Ilha, um sonho concretizado
Amorim fazia a ponte rodoviária com Joinville todos os dias, para comparecer às aulas na Faculdade de Letras da Furj (atual Univille). Foi naquela época que publicou seu primeiro livro, “Velhas Histórias Jovens”, de contos. Após mais três incursões como contista, experimentou a poesia. “Quem me convenceu a colocar meus poemas em livro foi o também poeta Alcides Buss, meu professor na Furj”, conta Amorim, que já contabiliza 28 livros, entre contos, poemas e crônicas. Em 1982 o escritor retornou a Joinville, e há 12 anos estabeleceu-se em Florianópolis, onde continua editando o suplemento literário A Ilha, que chega aos 33 anos.

O suplemento, por sinal, ocupa a maior parte do coração de Luiz Carlos Amorim. “Inúmeros escritores, de vários estados e de outros países, passaram pelas páginas do nosso suplemento”, comemora o fundador do Grupo Literário A Ilha. O grupo marcou presença durante muitos anos na Feira de Arte e Artesanato de Joinville, expondo seus poemas no Varal Literário.

Na crônica “O rio da minha cidade”, que dá título ao livro lançado na Feira (menção honrosa no prêmio literário Cidade de Manaus em 2011), Amorim escreve: “No poema ‘O Rio da Minha Cidade’, do livro ‘Meu Pé de Jacatirão’, publicado no início dos anos 90, eu já lamentava a morte do rio Cachoeira. (...) O rio está morto porque o veneno maior que é jogado nele é o desprezo, o descaso, a irresponsabilidade”.

Este livro e mais dois, “Nação Poesia” e “Borboletas nos Jacatirões”, serão lançados no 27º Salão do Livro de Genebra, na Suíça, em maio. Amorim vai aproveitar a viagem à Europa para visitar a filha Daniela, em Lisboa, onde cursa mestrado em dança; a outra filha, Fernanda, fisioterapeuta, mora em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Ambas são frutos das duas décadas que Luiz Carlos Amorim viveu em Joinville. Finalizando, ele antecipa: “Já está saindo do forno meu 29º livro, ‘Natal de Sempre’, com contos natalinos”.


Administrador em quadra

Campeão. Aldo fez carreira como executivo e ganhou títulos no basquete
Rogério Souza Jr/ND

 

Para recordar. Aldo exige troféus que colecionou ao longo da carreira

 

A biografia de Aldo Luiz Marquardt pode ser dividida em dois grandes capítulos: o executivo que fez carreira em diversa empresas de Santa Catarina, São Paulo e Paraná e o jogador de basquete integrante da primeira geração de ouro deste esporte em Joinville. “Defendi várias camisas, mas a primeira e que vesti mais tempo foi a do Palmeiras, com a qual alcancei as maiores conquistas”, conta Aldo, hoje aposentado e morando num tranquilo condomínio no bairro Vila Nova.

Nascido em Joinville em março de 1945, Aldo Luiz passou a infância no Bucarein, onde se encontravam as ruas São Paulo e São Pedro (atual Ministro Calógeras). Caxiense de terceira geração, também jogou bola pelos campinhos hoje existentes apenas na memória. Mas foi atraído pelo basquete e com 12 anos já integrava a equipe infantil do União Palmeiras, sob o comando do técnico – e jogador do time principal – Mima (que o leitor conheceu na edição do dia 1).

A carreira profissional de Aldo Luiz Marquardt começou aos 19 anos, em São Paulo, no extinto Banco Lar Brasileiro. “Formei-me em administração de empresas e iniciei a de direito, mas não concluí, pois meu avô e meu pai queriam que eu voltasse a Joinville para trabalhar na empresa da família.” Assim, em 1968 o jovem Aldo Luiz entrava na empresa de tecelagem Martric – Tricotagem Alfredo Marquardt. Dois anos depois, transferia-se para a Confecções Almar, empreendimento criado pelo pai. Passou ainda pela Embraco, Wetzel, a fabricante paulista de porcas e parafusos Arno Bernardes, a paranaense Batavo e a catarinense Wiest, até se aposentar e dedicar-se a serviços de consultoria.

 

“Tive o privilégio de ser treinado por meu pai e de jogar ao lado de feras como Buba, Strohmeyer e Mima. Além de Cruzeiro e Ginástico, deixamos para trás Vasto Verde e Ipiranga de Blumenau, Doze de Agosto e Lira de Florianópolis e o Diocesano de Lages.”

 

Talento com a bola
Já na primeira competição de que participou, o campeonato citadino infantil de 1958, Aldo foi campeão. “Jogamos contra Cruzeiro, Guarani e Glória. Neste último jogava Ivo Krelling, que depois veio para o Palmeiras”, informa. Quando morava em São Paulo, Aldo jogou pelo infantil do Instituto Mackenzie, onde estudava. No tempo da faculdade de administração, na Universidade Federal do Paraná, defendeu o Clube Curitibano. Como juvenil, foi campeão dos Jogos do Interior do Paraná pela seleção de Curitiba. “Participei também de diversas competições universitárias em São Paulo, antes de retornar a Joinville e ao União Palmeiras.”

Com a camisa verde-e-branca, foi campeão catarinense adulto em 1968, sob o comando do próprio pai, também chamado Aldo. “Tive o privilégio de ser treinado por meu pai e de jogar ao lado de feras como Buba, Strohmeyer e Mima. Além de Cruzeiro e Ginástico, deixamos para trás Vasto Verde e Ipiranga de Blumenau, Doze de Agosto e Lira de Florianópolis e o Diocesano de Lages.” No mesmo ano, Aldo jogou pela Seleção de Joinville, campeã dos Jasc disputados em Mafra.

Em 1970, Aldo e Ivo foram convocados para a seleção catarinense, para a disputa do campeonato nacional, no Rio Grande do Sul. “Um dos nossos companheiros era Aldo Kuerten, pai do Guga. O time de São Paulo era praticamente a base da seleção brasileira, com Vlamir Marques, Rosa Branca, Ubiratã e outras feras. Não era fácil ganhar deles.”

Aldo colecionou os títulos do citadino adulto, pelo União Palmeiras, de 1968 a 72. Seu último caneco foi pela Seleção de Joinville, nos Jogos Abertos de 1975, em Chapecó. “Atualmente  jogo todas as quintas-feiras, na Tigre, só para manter a forma e me divertir.”

 


Crochê sem óculos

História. Dona Wally vê, da varanda, o passado do seu bairro Glória
Luciano Moraes/ND
Moldura em amarelo. Wally passa tardes entre fios e agulhas, tecendo toalhas ou fazendo bainhas de crochê

 

 

A expressão é séria, compenetrada; a um passante desavisado, pode até parecer sisudez, mas é a atenção toda voltada ao rápido movimento das mãos, dando os pontos precisos em mais uma toalhinha ou outro enfeite de crochê. É o que ela mais faz nos dias atuais, para passar o tempo na varanda. Detalhe: ela não usa óculos, por mais delicado que seja o trabalho. E daí? O que há de mais em fazer crochê sem óculos? – poderia perguntar o exigente leitor. Detalhe número dois: no dia 1º de maio Wally Giffort Bibow vai completar bem vividos 94 anos. “Vierundneuzig jahre”, frisa, no alemão cada vez mais frequente em suas conversas, como numa volta ao passado, quando o idioma era o mais comum ali no Glória onde ela nasceu e passou toda a vida.

Durante a entrevista, é imprescindível a colaboração do filho Kurt, 71 anos, dando as informações e traduzindo as respostas de frau Bibow, quando só ela se lembra de alguns fatos. “De uns tempos para cá – reforça a nora Helena – ela só fala em alemão, e o pior é que eu também não entendo.” Tirando esta peculiaridade e a natural dificuldade para se locomover, dona Wally sempre gozou de boa saúde. “Acho que eu tomo mais remédios que ela”, brinca Kurt, irmão mais velho de Mário, únicos filhos de Ricardo e Wally Bibow, algo incomum numa época em que as proles generosas eram a regra – o pai de Kurt, por exemplo, tinha seis irmãos.

Kurt tem boas lembranças da infância, passada na casa ao lado de onde mora hoje, na esquina das ruas Marechal Hermes e Jaú, no coração do Glória, um dos bairros mais tradicionais de Joinville. “Por aqui – relembra – tinha a nossa casa e mais algumas, além da olaria do meu avô, onde eu e meu irmão costumávamos brincar. A família era dona de uma grande área por aqui, que foi sendo desmembrada aos poucos.”

 

 

Deutsche Schulle e coral da igreja

Wally estudou na Deutsche Schulle, que se transformou no Colégio Bom Jesus após a Segunda Guerra, quando o governo mandou eliminar qualquer referência à Alemanha. Nesse ponto, ela conta alguns detalhes, mas ressalta que a família Giffort não enfrentou tantos problemas, por causa do dialeto: “Falávamos o plattdeutsch, e a polícia não incomodava” (o baixo-alemão, niederdeutschplattdeutsch ou plattdüütsch, é um idioma regional falado no Norte da Alemanha e no Leste dos Países Baixos. É parecido com o inglês, o que confundia as autoridades na época da campanha de nacionalização). Em compensação, para os Bibow a situação ficou difícil: “Meu pai chegou a ser preso, só por falar alemão”, conta Kurt.

No processo de desmembramento das terras, o avô de Kurt, Frederico, doou o terreno onde se ergue a igreja luterana Cristo Redentor, no outro lado da rua. “Toda a família ajudou na construção da igreja, e até dois anos atrás, minha mãe ainda participava do coral. Atualmente, ela só vai aos cultos em alemão”, acrescenta Kurt.

Os dois filhos deram a Wally e Ricardo Bibow (falecido há 27 anos) quatro netos e cinco bisnetos. A família só lamenta ter que deixar, em breve, o local ocupado há cinco gerações, quando as obras de prolongamento da Max Colin passarem por ali. Restarão as boas lembranças da velha olaria e de uma Joinville que fica no coração. Enquanto isso, dona Wally vai tecendo seu crochê e deixando que sua mente volte ao passado – in deutscher sprache (em alemão).

Perfil sugerido pela leitora Marlene Seiler.


Jogada com vitória certa

Bom exemplo. Empresário empresta sua habilidade em favor de clube, do futebol amador e programa social para garotos
Carlos Junior/ND
Recompensa.  Pedro Medeiros exibe a bandeira do time do coração, o Pirabeiraba

 

 

Líder de um conglomerado empresarial caracterizado pelo mais autêntico regime familiar, Pedro Medeiros de Farias é bem visto em Pirabeiraba e outras partes de Joinville por sua habilidade nos negócios e por seu envolvimento com causas sociais e esportivas. Atual presidente da Sociedade Guarani e do Pirabeiraba Futebol Clube, ele consegue desempenhar as funções nas duas entidades sem atrapalhar os negócios da família. “Os negócios também não atrapalham meu desempenho como presidente do Guarani e do Pirabeiraba. O segredo para não prejudicar nenhuma das partes é trabalhar organizado e profissionalismo”, ressalta.

Envolvido há 22 anos com o futebol amador, Pedro admite já ter colocado mais de uma vez dinheiro do próprio bolso para ajudar o Pirabeiraba Futebol Clube. “Futebol amador é uma opção de lazer sadia e por isso me sinto gratificado em poder ajudar”, assinala bem humorado.

Ao assumir a presidência da Sociedade Guarani, em cujo campo o Pirabeiraba disputa seus jogos quando mandante, Pedro criou uma escolinha de futebol para garotos com idade entre 7 e 14 anos. “Precisamos afastar os meninos das ruas, onde o perigo das drogas é constante. Revelar novos jogadores é bom mas, o mais importante é ajudar a encaminhar nossos garotos  para a vida por meio do esporte”, enfatiza.

Empresário dinâmico, Pedro cunhou sua marca na Sociedade Guarani ao imprimir novo ritmo à agremiação. Com campo de futebol de tamanho oficial, dois campos de futebol suíço, duas piscinas (adulto e infantil), cancha de bochas, hidroginástica, natação e salão de bailes, de quebra no Guarani, de segunda-feira a sábado, é servido almoço com cardápio da cozinha colonial que tanto distingue a gastronomia de Pirabeiraba.  Em breve a agremiação vai oferecer sessões de hidroterapia - conjunto de exercícios na água essenciais em determinados casos para a recuperação física de pessoas de qualquer idade.

 

 “Futebol amador é uma opção de lazer sadia e por isso me sinto gratificado em poder ajudar”

 

Olaria edificou os negócios da família
A ramada dos Medeiros de Farias se estabeleceu em Joinville em 1968 quando patriarca Delfino Antônio Francisco, ou o Major, como era conhecido, trouxe a família de Tubarão para trabalhar em uma olaria que acabara de alugar na localidade de Morro Cortado, na rua Dona Francisca.  Com toda a família trabalhando junto, dois anos mais tarde Major conseguiu comprar a olaria.

Passados alguns anos Major e os filhos começaram a diversificar as atividades ao abrir a Terraplenagem Medeiros. Mais um pouco de tempo a olaria foi fechada, para em seu lugar entrar em funcionamento uma fábrica de artefatos de cimento. Hoje, além da terraplenagem e dos artefatos, os Medeiros de Farias contam com mais duas empresas: a Farias Administradora de Bens e uma fábrica de reciclagem do sólido da construção. “Foram cinco anos para conseguir todas as licenças ambientais, mas compensou o esforço; reciclar é sempre bom para melhorar o meio ambiente”, ressalta Pedro.

Para tocar os quatro empreendimentos Pedro trabalha em parceria com três irmãos e uma cunhada, cada um ocupando uma função estratégica no conglomerado familiar.   

Casado com dona Denise, pai de dois rapazes e duas moças e por enquanto avô de um menino, Pedro é, aos 57 anos de idade, um senhor que esbanja vitalidade. Por isso, quando na Sociedade Guarani o movimento fica mais apertado é comum encontrá-lo atrás do balcão ajudando a servir a freguesia com uma disposição de fazer inveja a muito marmanjo em pleno verdor da juventude.  (Herculano Vicenzi, Especial para o Notícias do Dia)


As mulheres do Leblon

Guerreiras. Duas gerações de mulheres comandam supermercado no Iririú
Mauro Schlieck/ND
No trabalho. Nagíbia, Valíria e a mãe, Noêmia trabalham juntas e dedicam ao empreendimento o mesmo amor de família, por isso, conhecem clientes pelo nome

 

 

Não, elas não são as meninas do Leblon, que não olham mais pra mim porque eu uso óculos, como reclamavam os Paralamas do Sucesso na canção “Óculos”. Estas mulheres enxergam todas as pessoas da mesma forma, usem óculos ou não. Elas são Noêmia Fortunato Rosa, 56 anos, e suas filhas Valíria e Nagíbia. Ou simplesmente Noema, Val e Nagi, as mulheres que comandam o Supermercado Leblon, um ponto de referência no bairro Iririú, pertinho da Sociedade Alvorada. “Nós temos amor pelo negócio que meu marido iniciou, e formamos uma equipe em família”, diz Noêmia, envergando, como as filhas, a camisa verde com detalhes em azul que identifica todos que trabalham no mercado.

A história dessas guerreiras começa na cidade de Armazém, no Sul do Estado, onde nasceu Manoel da Silva Rosa. Em 1975, já casado com Noêmia Fortunato, Manoel decidiu iniciar nova vida em Joinville. “Aqui – explica Noema, como era carinhosamente chamada pelo marido – havia melhores perspectivas de trabalho, diferente da nossa cidade, limitada à agricultura.” Em Joinville, Manoel logo arranjou emprego, primeiro no setor de verduras e no açougue do antigo Supermercado Riachuelo. Depois, trabalhou na quitanda de João Sell – ainda hoje em plena atividade na rua São Paulo (Sell foi Perfil em maio do ano passado).

Com a experiência adquirida nos dois estabelecimentos, Manoel decidiu partir para o negócio próprio, adquirindo o mercado Audi, pertencente à rede do Riachuelo e que operava no segmento mais popular. “O mercado ficava perto de onde morávamos, no Itaum, ao lado da Farmácia Coradelli. Demos o nome de Mercado Joinvilense. Depois tocamos um bar e lanchonete na rua Santa Catarina, perto da praça Tiradentes”, conta Noêmia. A essa altura, as novas raízes do casal se fortaleciam com as joinvilenses Valíria, nascida em 1976, Zulair, um ano mais nova, e a caçula Nagíbia, de 1985.

 

“Nós temos amor pelo negócio que meu marido iniciou, e formamos uma equipe em família”
Noêmia Fortunato Rosa

 

Rumo ao Iririú
Há 13 anos, a família dava um salto mais alto, montando um supermercado na movimentada rua Iririú, 1218, bem no coração do bairro. E por que o nome Leblon? Val explica: “Na verdade, meu pai queria um nome que juntasse sílabas dos nomes das minhas filhas, Bruna e Larissa. Mas Brular não soava bem. Então ele se decidiu por Leblon, por causa de uma novela que passava na época e era ambientada naquele bairro”.

Há cinco anos, a família sofria o abalo de perder o patriarca e empreendedor, vitimado por complicações cardíacas. Longe de se abater, porém, Noêmia, Val e Nagi, que já trabalhavam no mercado, decidiram seguir em frente – Zulair já seguia outro rumo profissional. “Mamãe ficou com a administração e nós duas nos revezamos entre escritório e caixas”, detalha Val. Seu marido Jerônimo divide o atendimento no açougue, com mais um funcionário; outras cinco mulheres completam o time de dez pessoas que torna o Leblon um dos mercados preferidos das famílias do Iririú. Nos finais de semana, a equipe recebe o reforço de Bruna, hoje com 16 anos, terceira geração de mulheres do Leblon. Larissa, com 7, e Victoria Noemi, de 5, filha de Nagi, por enquanto só se dedicam a ficar por perto quando não estão na escola – ocasionalmente, cuidam do controle de qualidade das guloseimas.

O Leblon é o típico mercado familiar de bairro, onde os clientes são conhecidos pelos nomes. “Temos até fregueses de caderneta”, complementa Val, atestando a fidelidade da clientela. O Leblon atende todos os dias da semana, das 8 às 20h (domingos até o meio-dia). E, como tradicional mercado de bairro, fecha das 12 às 14h, horário sagrado do almoço e do descanso das guerreiras.

Perfil sugerido pelo leitor Nelson Eisenhut.


Da avenida Cuba para o Sesc

Carreira. Adriano Pessoa completa vinte anos de atuação no Sesc Joinville
Luciano Moraes/ND
Segundo lar. Professor de educação física, Adriano chegou a gerente geral da unidade do Sesc de Joinville

 

 

Adriano poderia ser jogador de futebol profissional, já que talento e vontade não lhe faltavam. Desde criança, sempre correu atrás da bola, seja nos inúmeros campinhos que existiam na região do Bucarein onde se criou – especialmente os da “avenida Cuba” –, seja defendendo o São Luís ou o juvenil do JEC. Ainda hoje, já quarentão, joga futsal pelo menos duas vezes por semana, com grupos de amigos. “Chegou uma hora – conta o atual gerente da unidade joinvilense do Sesc – que eu precisava escolher entre a bola e a continuidade dos estudos.” Resultado: enquanto os campos perdiam um lateral-direito promissor, a faculdade de educação física da Univille ganhava mais um aluno.

Adriano Koenig Pessoa nasceu em 1969 e criou-se no Bucarein, onde os pais se estabeleceram ao deixar Tubarão. “Nem cheguei a conhecer meu pai, que morreu num acidente de trânsito quando eu ainda era bebê. Fui criado pela minha mãe e pela avó.” Filho único, considerava como irmãos os primos e os muitos amigos que angariou, tanto nos campinhos, quanto no Colégio Elias Moreira, onde fez toda a carreira escolar. Uma das primeiras camisas que Adriano envergou foi a do São Luís, clube que tinha seu campo ao lado do colégio. Adolescente, jogou nas categorias de base do JEC, no tempo de Pingo e Everaldo, companheiros de peladas na avenida Cuba (um prolongamento da rua Coronel Francisco Gomes). “Jogar no JEC foi a realização de um sonho, pois era o meu time do coração. Eu tinha 7 anos quando o clube foi fundado, e testemunhei parte da história, pois morava nas proximidades do Ernestão e era amigo do Roger, filho do Alcino Simas, o primeiro técnico tricolor”, relembra Adriano.

A carreira futebolística, porém, passou para segundo plano quando Adriano chegou à idade de escolher uma profissão que lhe garantisse o futuro. E este futuro não usava a camisa 2.

 

 “O mais prazeroso, para um professor, é ser reconhecido pelos antigos alunos.”

 

No Sesc, um novo lar
Numa época em que os computadores começavam a ser ferramenta comum de trabalho, processamento de dados parecia ser a carreira mais promissora. “Realmente – conta Adriano – eu pensava em aprender informática. Ao mesmo tempo, queria continuar ligado ao esporte.” Ele acabou optando por fisioterapia; passou no vestibular, mas nem chegou a iniciar o curso. Os acontecimentos se precipitaram: “Em 1993 comecei a trabalhar no Sesc, como auxiliar administrativo, responsável pelo ginásio, ainda no tempo da rua Aubé. Casei-me no ano seguinte e fui fazer educação física”.

Formado em 1999, Adriano deu aulas em alguns colégios, mas sem deixar as funções no ginásio do Sesc. “Acompanhei toda a construção da unidade nova, na rua Itaiópolis. Foi uma emoção mudar das acanhadas instalações da Aubé para este novo espaço, amplo e mais completo.” Na mudança, em 1997, Adriano assumiu a coordenação da parte esportiva. Em 2010, enfim, ocupou a sala de gerente geral da unidade. “Devo muito ao antigo supervisor, Manoel Goudinho, que me ensinou o trabalho e por quem sempre tive amizade e respeito.” Goudinho, figura conhecida nos meios esportivos da cidade, faleceu em 2009.

Satisfeito com o rumo da carreira, Adriano guarda boas recordações dos velhos tempos da rua Aubé e de quando dava aula. “O mais prazeroso, para um professor, é ser reconhecido pelos antigos alunos”, garante. Hoje, além de administrar o complexo do Sesc, Adriano também é usuário, batendo bola todas as sextas-feiras com o Grupo dos 16; às terças, joga com a turma do Saideira. Um dos companheiros de futsal é o filho Junior, de 15 anos. “O garoto é muito bom de bola!”, exalta o pai. Experiência para avaliar não lhe falta.

 

Recado
Adriano Pessoa avisa: o Sesc tem vagas no PES (Programa Esportivo Social), que mantém escolinhas de esportes para crianças de famílias carentes. E a unidade Joinville abre as portas para a comunidade aos domingos, com todas as atividades à disposição, de graça. Informações pelo 3433-3100.


O sentido da vida cristã nas ações

Religiosidade. Moradora do Vila Nova ensina que são nas atitudes que se mantem a paz e a harmonia
Luciano Moraes/ND
Altar em casa. Dona Lúcia é devota de Nossa Senhora de Lourdes, a padroeira de uma gruta, no Sul do Estado, onde participou de missa horas antes de se casar

 

 

Dois jovens de Treviso, cidade do Sul do Estado colonizada por imigrantes italianos, já estavam com as vestes de noivos algumas horas antes do casamento ocorrido no dia 11 de fevereiro de 1960. Movidos por fervorosa fé no cristianismo, antes de sacramentar a união, eles foram a uma gruta consagrada a Nossa Senhora de Lourdes onde participaram de uma missa. Terminada a celebração, dirigiram-se à igreja matriz, onde ao lado de outros dez casais de noivos ocorreu a cerimônia do enlace matrimonial.  Essa história é contada com saudade e bom humor por dona Lúcia Possenti Tasca, a noiva que foi à gruta de véu e grinalda ao lado do noivo, Olavio Tasca.  

Viúva de Olavio há nove meses, com o qual teve sete filhos, dona Lúcia conta que transmitiu à família os valores do cristianismo dando exemplos na prática. “Só da boca para fora não vale nada. O verdadeiro cristão pratica os ensinamentos do Evangelho com ações”, enfatiza.   Cristã da linha que preserva tradições como abstinência de carne vermelha na Sexta-Feira Santa, para ela a Páscoa é uma data tão importante quanto o Natal. “No Natal, celebra-se o nascimento de Jesus, enquanto que a Páscoa, sua ressurreição. Por isso, para mim são duas datas que se misturam e merecem muito respeito”, salienta.

Franca e direta, dona Lúcia ressalta que na atualidade os verdadeiros valores da Páscoa, assim como acontece com o Natal, são trocados pelos mais jovens por festas recheadas de exageros. “Boa parte da perda desses valores é culpa dos pais, que não estão sabendo transmitir aos seus filhos o que aprenderam quando eram moços”, assinala.

Dona Lúcia lembra que, quando seus filhos eram pequenos ,na Páscoa, preparava cestas com cascas de ovos recheadas de amendoim e comprava alguns coelhinhos de chocolate. “Mas meu Olavio e eu sempre ensinamos que o mais importante da Páscoa é rezar e agradecer a Jesus Cristo por ter vindo ao mundo para salvar a humanidade. Graças a esses ensinamentos tenho uma boa família, o que me deixa extremamente feliz”.

 

“Sempre ensinamos que o mais importante da Páscoa é rezar e agradecer a Jesus Cristo por ter vindo ao mundo para salvar a humanidade. Graças a esses ensinamentos tenho uma boa família, o que me deixa extremamente feliz”

 

Fé e disposição
Dona Lúcia e o marido se estabeleceram no bairro Vila Nova há 16 anos para ficar perto de cinco filhos já residentes em Joinville. Em breve uma filha, que mora em Porto Alegre também chegará a cidade. “Ela até comprou um apartamento aqui e por isso não vejo a hora de ela chegar para então ter todos os filhos por perto novamente”, comemora toda faceira.

Diabética e com um histórico de quatro fraturas no fêmur direito, dona Lúcia não se entrega. Embora caminhe com um pouco de dificuldade, ela não é de perder a missa dominical e muito menos as celebrações da Páscoa e do Natal.

De uma disposição invejável, aos 70 anos de idade ela continua cultivando uma horta de temperos para garantir deliciosas refeições da cozinha típica italiana. “Estar com os filhos na igreja e ao redor de uma mesa são coisas que me dão vontade de continuar vivendo com alegria”, diz a disposta nona do bairro Vila Nova.  (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Compromisso com a criança

Homenagem. Medalha coroa uma carreira de trinta anos a serviço do ensino
Luciano Moraes/ND
Educação. No CEI Dia Feliz, que fundou com o marido e hoje administrado pelas filahs, Olívia presta uma espécie de consultoria 

 

 

“Aqui temos dois compromissos importantes, que norteiam todo o nosso trabalho: educar e cuidar das crianças que os pais nos confiam, sendo um complemento do que elas recebem em casa.” É dessa forma que Olívia Michels de Souza define a filosofia de trabalho do Centro de Educação Infantil Dia Feliz, empreendimento criado por ela há quase 13 anos no bairro Paranaguamirim. No ano passado, Olívia aposentou-se do serviço público, depois de três décadas como professora e diretora de CEIs municipais. Tal dedicação lhe rendeu o respeito da comunidade e, no mês passado, a Medalha de Mérito Mulher Joinvilense indicada pela bancada do PT.

Natural de Salete, no Alto Vale do Itajaí, 51 anos, Olívia Michels de Souza não imaginava, quando criança, ser professora. Mas sempre cultivou o desejo de ser útil: “Todos os filhos ajudavam a mãe no trabalho da lavoura de subsistência, e os mais velhos cuidavam dos mais novos”. Oitava de 11 irmãos, também ela enfrentou estes desafios: “Foi uma infância de muito trabalho, mas também de diversão e responsabilidade”.

Adolescente, em 1979 Olívia chegava em Joinville, onde já morava uma irmã. Fez o então segundo grau no Colégio Bom Jesus, local de outra importante etapa da vida: “No colégio conheci um colega de classe, por quem me apaixonei. Foi meu primeiro namorado. Alguns anos depois, nos casamos”. Formada, Olívia fez um curso de telefonista e trabalhou algum tempo na recepção do Hospital Dona Helena. Mas o desejo da infância ainda ecoava: “Eu queria fazer algo que me tornasse mais útil perante a sociedade, que pudesse beneficiar as pessoas”. Decidida, fez a faculdade de pedagogia na ACE e foi dar aulas para as séries iniciais.

 

 

Divulgação/ND
Sessão especial. A professora Olívia quando recebeu a Medalha de Mérito Mulher Joinvilense, com os vereadores Lioilson Correia (E) e Manoel Bento

 

 

Sonhos realizados
Aprovada em concurso público da Prefeitura, Olívia fez sua estreia como professora na EM Ada Santanna da Silveira, no mesmo Paranaguamirim em que residia. Sete anos depois, foi para o Ceri (antiga denominação dos Centros de Educação Infantil) do Jarivatuba. Em pouco tempo, era promovida a diretora, inaugurando e assumindo o CEI do Paranaguamirim. Ali permaneceu vinte anos, até se aposentar, em janeiro de 2012.

Um passo decisivo na carreira foi dado em 2008, quando Olívia e o marido Acir Caetano fundaram o CEI Dia Feliz. Falecido há seis anos, em decorrência de um câncer, foi Acir quem escolheu o nome do estabelecimento. “Ele queria simbolizar no nome aquilo que as crianças deveriam ter sempre, dias felizes”, lembra Olívia.

Pós-graduada em psicopedagogia e especializada em psicanálise, Olívia hoje é uma espécie de consultora do CEI, administrado pelas filhas – e ex-alunas – Caroline, encarregada da secretaria, e Priscila, diretora (no dia da entrevista, Priscila estava numa reunião do Núcleo de Educação Infantil da Ajorpeme, que ela preside). “Assim como minhas filhas – diz Olívia –, há outras ex-alunas que hoje trabalham comigo. É um prazer imenso quando sou reconhecida na rua por pessoas que passaram pelas minhas salas de aula.”

A medalha concedida pela Câmara, para a professora, é “um reconhecimento ao trabalho de uma vida, um motivo a mais para me sentir valorizada profissionalmente”. Hoje, Olívia Michels de Souza e sua equipe de 15 pessoas recebem 93 crianças, a quem procura oferecer educação e ensino, tornando seus dias felizes.


Um homem de muitas funções

Experiência. Das lavouras para a construção e à enfermaria do Bethesda, e agora de volta ao campo, Marcos Letzner tem história para contar
Rogério Souza Jr/ND
Consideração. Marcos orgulha-se de todas as profissões que exerceu, mas tem carinho especial pelo Bethesda

 

 

Morador da margem esquerda da BR-101 no sentido Norte, Marcos Letzner é, aos 78 anos de idade, um disposto cidadão de uma biografia marcada por diversas profissões. Nascido na comunidade de Estrada Anaburgo, na região do bairro Vila Nova, no tempo em que o lugar era essencialmente agrícola, na adolescência ele foi produtor de arroz irrigado.

Ao sair das lavouras, aprendeu o ofício de pedreiro e trabalhou por algum tempo na cidade. Ao se casar, mudou-se para a Estrada Cubatão Raabe, em Pirabeiraba, onde pouco tempo depois largou o trabalho de pedreiro para retornar às lavouras, dedicando-se ao cultivo de cana-de-açúcar e corte de lenha.

Além de produzir, ele levava de carroça a cana-de-açúcar até a usina de Pirabeiraba. Nessa mesma época, picava a transportava lenha para abastecer fogões caseiros na região central de Joinville.

Foi na época de transporte de cana-de-açúcar e lenha que, ao ser solicitado pelos construtores do Hospital Bethesda , Marcos cortou e forneceu a madeira dos andaimes que possibilitaram o levantamento das paredes do prédio.

Bom de memória, ele lembra que, após o termino da cobertura, a construção ficou parada por algum tempo devido à falta de recursos. “Quando veio da Alemanha uma boa ajuda, as obras foram reiniciadas e, aí, fui convidado pelo amigo Leopoldo Kunde para ajudar na conclusão do hospital. Voltei à profissão de pedreiro e trabalhei durante um ano e meio até tudo ficar pronto, em 1969. Minha principal participação na obra foi a instalação do sistema hidráulico, inclusive com torneiras de água quente e fria”, descreve.

O Hospital Bethesda foi inaugurado em 1970. Passados alguns dias, Marcos foi surpreendido por Gisela Burger, irmã do pastor Hans Burger, ao convidá-lo para trabalhar no setor de enfermaria. Após um curso intensivo de treinamento, trabalhou por quatro anos e meio na área. Paralelamente, terminado o expediente na enfermaria, ele continuava mais algumas horas no hospital para fazer a manutenção das instalações.

Com tanto trabalho, acabou se sentindo estressado. Por sugestão de Gisela Burger, saiu da enfermaria para ficar na manutenção as instalações e, paralelamente acumular trabalhos burocráticos, como percorrer a rede bancária para receber e fazer pagamentos.  Ele se manteve em ambos os serviços até se aposentar há oito anos. 

 

“O Bethesda é minha segunda casa”
Dono de uma saúde de ferro, Marcos não quis saber de ficar parado após a aposentadoria. Desde então, administra uma granja se suíno pertence ao seu filho Romildo, veterano farmacêutico de Pirabeiraba. “Temos um plantel médio de 500 animais de boa linhagem genética, que vendemos a particulares e a abatedouros quando eles  atingem peso de 90 quilos. É porco de qualidade para ninguém botar defeito”, garante bem humorado. 

Casado com dona Angélica, pai de um casal de filhos, avô três vezes e bisavô outras tantas, Marcos se orgulha de todas as profissões já exercidas.  Mas gosta em particular de falar sobre sua trajetória no hospital. “O hospital  transformou-se em referência no cuidado carinhoso dos nossos doentes. Por ter trabalhado na sua construção, na enfermaria, na manutenção e na parte administrativa, para mim o Bethesda é  minha segunda casa”, assinala. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Seja agricultor, pedreiro, enfermeiro ou administrador, Marcos Letzner tem é história para contar


Rogério Souza Jr./ND
Marcos administra uma granja com plantel de 500 animais de boa linhagem

Morador da margem esquerda da BR-101 no sentido Norte, Marcos Letzner é, aos 78 anos de idade, um disposto cidadão de uma biografia marcada por diversas profissões. Nascido na comunidade de Estrada Anaburgo, na região do bairro Vila Nova, no tempo em que o lugar era essencialmente agrícola, na adolescência ele foi produtor de arroz irrigado.
Ao sair das lavouras, aprendeu o ofício de pedreiro e trabalhou por algum tempo na cidade. Ao se casar, mudou-se para a Estrada Cubatão Raabe, em Pirabeiraba, onde pouco tempo depois largou o trabalho de pedreiro para retornar às lavouras, dedicando-se ao cultivo de cana-de-açúcar e corte de lenha.
Além de produzir, ele levava de carroça a cana-de-açúcar até a usina de Pirabeiraba. Nessa mesma época, picava e transportava lenha para abastecer fogões caseiros na região central de Joinville.
Foi na época de transporte de cana-de-açúcar e lenha que, ao ser solicitado pelos construtores do Hospital Bethesda, Marcos cortou e forneceu a madeira dos andaimes que possibilitaram o levantamento das paredes do prédio.
Bom de memória, ele lembra que, após o termino da cobertura, a construção ficou parada por algum tempo devido à falta de recursos. “Quando veio da Alemanha uma boa ajuda, as obras foram reiniciadas e aí, fui convidado pelo amigo Leopoldo Kunde para ajudar na conclusão do hospital. Voltei à profissão de pedreiro e trabalhei durante um ano e meio até tudo ficar pronto, em 1969. Minha principal participação na obra foi a instalação do sistema hidráulico, inclusive com torneiras de água quente e fria”, descreve.
O Hospital Bethesda foi inaugurado em 1970. Passados alguns dias, Marcos foi surpreendido por Gisela Burger, irmã do pastor Hans Burger, ao convidá-lo para trabalhar no setor de enfermaria. Após um curso intensivo de treinamento, trabalhou por quatro anos e meio na área. Paralelamente, terminado o expediente na enfermaria, ele continuava mais algumas horas no hospital para fazer a manutenção das instalações.
Com tanto trabalho, acabou se sentindo estressado. Por sugestão de Gisela Burger, saiu da enfermaria para ficar na manutenção das instalações e, paralelamente, acumular trabalhos burocráticos, como percorrer a rede bancária para receber e fazer pagamentos.  Ele se manteve em ambos os serviços até se aposentar, há oito anos.

“O Bethesda é minha segunda casa”

Dono de uma saúde de ferro, Marcos não quis saber de ficar parado após a aposentadoria. Desde então, administra uma granja de suínos pertencente ao seu filho Romildo, veterano farmacêutico de Pirabeiraba. “Temos um plantel médio de 500 animais de boa linhagem genética, que vendemos a particulares e a abatedouros quando eles atingem peso de 90 quilos. É porco de qualidade para ninguém botar defeito”, garante. 
Casado com dona Angélica, pai de um casal de filhos, avô três vezes e bisavô outras tantas, Marcos se orgulha de todas as profissões já exercidas. Mas gosta mesmo de falar sobre sua trajetória no hospital. “Transformou-se em referência. Por ter trabalhado na sua construção, na enfermaria, na manutenção e na parte administrativa, para mim, o Bethesda é minha segunda casa”, assinala.


Um “bairro” que desapareceu

Memória. Jackson Edir Becker guarda lembranças de quando o Atiradores e o São Marcos absorveram a área do Salão Reiss

Rogério Souza Jr/ND

Marco. Jackson junto a Sociedade Cruzeiro Joinvilense, que no passado foi palco para os antigos freqüentadores do salão que deu origem ao nome da antiga localidade

 

Nascido perto do viaduto da rua Ottokar Doerffel, no tempo que a região hoje ocupada pelos bairros Atiradores e São Marcos se chamava Salão Reiss, Jackson Edir Becker é uma boa fonte de consulta para interessados em conhecer detalhes da história daquela parte de Joinville. Criado atrás do balcão de um bar e mercearia da família, Jackson cresceu vivenciando a evolução do lugar. “Com a criação dos bairros Atiradores e São Marcos, no papel o Salão Reiss desapareceu oficialmente; mas não na memória da população, nem nos ônibus circulares que depois da criação dos bairros transitaram por décadas com a identificação ‘Salão Reiss’”, descreve.

Jackson acrescenta que o antigo nome do lugar originou-se do Salão Reiss, espaço de memoráveis bailes na rua Ottolkar Doerffel onde hoje fica o acesso a uma das unidades da empresa Buschle & Lepper. “Aquele salão foi alugado por muitos anos por duas sociedades, a Serra Azul e a Sociedade Joinvilense,  que mais tarde se fundiram , surgindo desse modo a Sociedade Cruzeiro Joinvilense, que hoje com sede na rua Doutor Sehrwald, no bairro Atiradores, se destaca por ser única da cidade onde é praticado tiro ao alvo modalidade seta e o tiro ao alvo com balas  de verdade”, detalha Jackson, bom conhecedor  da história da agremiação, da qual foi inclusive presidente no biênio 2006/07.

Sempre de bom humor, ele recorda que aos 14 anos de idade deixou o comércio dos pais para ir trabalhar no setor de expedição da Ciser. Mais tarde formou-se contador no colégio Elias Moreira e exerceu a profissão por algum tempo da Contábil Elmo. Foi nesse tempo que Jackson descobriu que sua vocação: vendas. Há mais de 20 anos na atividade, começou a trajetória no ramo de transportes de cargas, onde se mantém até agora. “Comecei na Transville e hoje estou na Transportadora Plimor”, assinala.

Por ser cria da região do antigo Salão Reiss, Jackson desfruta de grande popularidade entre as famílias tradicionais dos bairros Atiradores e do São Marcos. Na atualidade, são raras as pessoas que não o conhecem devido seu envolvimento com a Sociedade Cruzeiro Joinvilense e com a igreja luterana Castelo Forte, da rua Bagé. No caso da igreja, ele é o coordenador há mais de 25 anos dos famosos churrascos servidos em festas populares daquela comunidade.

 

Motivo especial para comemorar
Casado com dona Élia, pai de um casal de filhos, Jackson tem um motivo especial para comemorar. Por questões genéticas e de alimentação errada, ele enfrentou problemas de sobrepeso desde a adolescência, chegando a pesar 158 quilos. Há um ano e três meses ele se submeteu a uma cirurgia de redução do estomago e hoje está com 90 quilos. “Já tirei das costas 68 quilos e me sinto leve e solto como um passarinho. O excelente resultado, que fique bem claro, não é nenhuma mágica. É fruto de rigorosa obediência às orientações de uma equipe multidisciplinar do hospital regional Hans Dieter Schmidt, que dá assistências a portadores de obesidade mórbida, uma doença que não tem cura, mas que pode ser controlada”, enfatiza.

Jackson faz um alerta às pessoas que estão pensando em se submeter a cirurgia de redução de estômago. “É preciso se preparar psicologicamente e seguir as orientações médicas. Sabe-se que algumas pessoas que não levaram isso em conta acabaram descambando para a rede das drogas devido problemas de depressão. A cirurgia opera o estômago, não a mente, que deve estar bem preparada para se obter bons resultados como venho colhendo”,  ressalta o popular Jackson.  (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


A superação pela fé

Renascimento. Marlene Frade deu a volta por cima e hoje é uma vencedora

Carlos Junior/ND

Novo caminho. Hoje Marle coordena o escritório do Curso Bíblico Internacional Encontro com a Palavra e faz a leitura e triagem das cartas enviadas aos programas da rádio FM 107,5, emissora mantida pela Assembleia de Deus

 

Muitas pessoas encontram dificuldades na vida, sucumbem ao fracassar ante obstáculos aparentemente intransponíveis e chegam ao fundo do poço. Mas há muitos que, ao encontrar o fundo, utilizam-no como impulso para subir novamente; ou escalam as paredes e saem do poço. Marlene Frade pertence ao segundo grupo, dos que voltaram à superfície e reiniciaram a vida após uma série de reveses. Na escalada, ela se valeu da fé. “O vício do álcool levou à destruição da família e a uma vida sem sentido”, admite Marlene, que chegou a minar a própria resistência do organismo a ponto de ser hospitalizada. Amparada por fiéis da Assembleia de Deus, reavaliou hábitos e crenças e descobriu um novo sentido na vida. Hoje, coordena o escritório do Curso Bíblico Internacional Encontro com a Palavra e faz a leitura e triagem das cartas enviadas aos programas da rádio FM 107,5, emissora mantida pela Assembleia de Deus. Seu esforço de superação foi reconhecido no início de março, quando Marlene ganhou a Medalha de Mérito Mulher Cidadã Joinvilense edição 2013, concedida pela Câmara de Vereadores, indicada pela bancada do PSC.

Descendente de portugueses e italianos, Marlene Frade nasceu em Presidente Prudente, interior de São Paulo, em 1951. “Eu tinha 2 anos quando meu pai, que era comerciante, decidiu mudar-se para a capital”, conta Marlene, criada entre os bairros Tatuapé e Pompeia. Trabalhou algum tempo em escritório, até se casar. A essa altura, o vício já atrapalhava sua vida. Ela admite: “Eu era católica, mas relaxada, não frequentava a Igreja, não enxergava a palavra de Deus. O alcoolismo destruiu meu casamento, impediu que fosse mãe e estava acabando com a saúde”. Separada, mudou-se para uma pequena chácara que havia adquirido em Itajubinha, município de Barra Velha. Mas a queda para o fundo do poço era cada vez mais rápida.

Um renascimento
Hospitalizada, Marlene foi visitada por um grupo da Assembleia de Deus. “Foi Deus quem mandou aquelas pessoas me descobrirem”, afirma com certeza. Ali começou o renascimento: em 1998 Marlene vendeu a chácara, comprou uma casa no Fátima, em Joinville, e quatro anos depois conheceu uma pessoa que faria muita diferença em sua vida. “Fui apresentada ao pastor Pedro Paulo, que me mostrou um novo caminho na vida”, conta, referindo-se a Pedro Paulo Fernandes, pastor da Assembleia de Deus que atuou quase três décadas em Santa Catarina e hoje dá nome a um instituto.

Com o pastor, Marlene iniciou seu trabalho evangelizador, participando de grupos de visitas a hospitais e, principalmente, pregando entre os apenados na penitenciária industrial de Joinville. “Foi um período de grande aprendizado o tempo que passei levando a palavra de Deus aos presos. Muitos saíram de lá e iniciaram uma nova vida, como eu”, salienta. Com a morte de Pedro Paulo, em 2006, Marlene, que era sua “segunda”, assumiu funções de coordenação e o escritório da escola bíblica, na avenida Procópio Gomes. “No final do ano passado – acrescenta – precisei deixar os trabalhos de visitas, pois as funções no escritório absorvem a maior parte do tempo.” Ali, Marlene supervisiona a montagem e distribuição de Bíblias e lê as cartas encaminhadas à rádio. Já com os longos cabelos que caracterizam as mulheres da Assembleia de Deus, Marlene é grata aos “irmãos” que a acolheram e deram um novo significado a sua vida. “Foi o encontro com a palavra de Deus que fez a grande diferença na minha vida”, conclui Marlene, ainda emocionada e orgulhosa com a medalha ganha na solenidade do Dia Internacional da Mulher.


Folha de mamão vira chapéu

Homenagem. Dona Jóve ganha medalha pelas conquistas na escola da vida
Mauro Schlieck/ND
Devota. Dona Jove na capela da igreja São João Batista

 

 

“Trabalhar na roça não é fácil, meu filho. Na minha casa, todos precisaram engraxar o cabo da enxada. E se não tinha chapéu pra todo mundo, cobríamos a cabeça com folha de mamão.” É assim, com muito bom humor, que dona Jovercina Miranda da Silva Lopes relembra a dura infância trabalhando a terra em Barbacena, interior de Minas Gerais, onde nasceu há 91 anos. Os últimos 34 ela vem passando em Joinville, sempre no Jardim Iririú, onde angariou respeito da comunidade pela dedicação às causas sociais, especialmente na pastoral da família da paróquia São João Batista e na cozinha comunitária. Tanto empenho rendeu a dona Jóve, como é mais conhecida, a Medalha de Mérito Mulher Cidadã Joinvilense edição 2013, concedida pela Câmara de Vereadores.

Jovercina foi a terceira filha da prole do casal Miranda da Silva, que se dedicava ao cultivo agrícola em Barbacena; depois dela, ainda vieram mais cinco, completando o time de 11 irmãos (seis mulheres e cinco homens). “Meus pais – relembra dona Jóve – sempre foram arrendatários, trabalhando nas terras de outros. Éramos pobres, mas ninguém tinha medo do trabalho.” A necessidade de mão-de-obra familiar acabou impedindo que Jovercina pudesse sequer completar o estudo primário, mas forjou um caráter honesto e solidário, além de uma fibra invejável.

Quando ela tinha 24 anos, a família foi tentar a sorte nos cafezais do Paraná, estabelecendo-se em Sertaneja, cidade próxima de Londrina. “Lá o trabalho era melhor, rendia mais. Eu subia no pé de café e cantava”, lembra Jovercina. A lavoura cafeeira proporcionou melhores rendimentos à família, que alguns anos depois pôde comprar um sítio na cidade de Francisco Alves. Foi lá que Jóve se casou com Otávio Vicente Lopes, também filho de agricultores.

 

Da lavoura para a Tupy
Em 1979, o casal fez o mesmo caminho de tantos migrantes, trocando as plantações pela linha de produção de uma fábrica – a Tupy, como era comum naquele tempo de grande expansão industrial. Além da pouca bagagem, vinham seis filhos e alguns genros e noras. Uma das filhas, Maria Justine, já morava em Joinville com o marido Alexandrinho Comandolli. “Além de sogra muito querida, dona Jóve é minha comadre, pois é madrinha do meu filho Ademir”, acrescenta Alexandrinho, que visitava a sogra no dia da entrevista.

Os sete filhos deram a Otávio e Jovercina 17 netos e nove bisnetos, a maioria morando por perto da casa construída há 33 anos. Otávio morreu há 13 anos, e desde então dona Jóve mora com uma filha.

Católica devota, a mineira de Barbacena se integrou à comunidade do Iririú logo que chegou. Em 1995, o loteamento em que moravam se tornou o bairro Jardim Iririú. “Fiz parte da pastoral da família, chamada Canaã, desde que a paróquia São João Batista estava na igreja velha”, conta Jovercina, acrescentando que a família, obviamente, ajudou na construção do novo templo. Foi na paróquia, também, que ela se envolveu na instalação da cozinha comunitária da Fundação Pauli Madi.

Sobre a Medalha de Mérito Mulher Cidadã, dona Jóve se mostra grata pela lembrança do seu nome, pela bancada do PMDB, e tem uma certeza: “Foi a primeira que ganhei, e considero uma medalha ganha na escola da vida”.

 

Com a palavra
“A medalha é uma justa homenagem à dedicação solidária da dona Jovercina, tanto à própria família quanto sendo mãe e avó de tantas crianças atendidas na cozinha comunitária.”
Padre Luiz Facchini, criador e gestor da Fundação Pauli Madi


O Brasil de ponta a ponta

Bagagem. Como vendedor e promotor de publicidade, joinvilense percorreu cidades de 25 Estados
Mauro Schlieck/ND
Desfez as malas. Com o fim das viagens pelo país, Geraldo Furtado dedica-se a agência de publicidade Toolbox

 

 

Debruçada por sobre as margens do rio Araguaia, Babaçulândia é uma cidade com menos de três mil habitantes distante 400 quilômetros de Palmas, a capital do Estado de Tocantins. Mais detalhes sobre aquela cidade do Planalto Central podem ser obtidos com o joinvilense Geraldo Furtado. Dono da agência de publicidade Toolbox e construtor de imóveis, Geraldo é o que se pode chamar de especialista em singularidades que caracterizam grandes e pequenas cidades brasileiras. Com 30 anos de bagagem nas áreas de vendedor e promotor de publicidade, ele só não conhece um Estado do Brasil, Roraima, a terra dos ianomâmis.

Curioso e bom de memória, Geraldo é capaz de falar horas seguidas sem se repetir, descrevendo particularidades de riquezas naturais e culturais desconhecidas pela maioria dos brasileiros. Do rio Araguaia ele conta, por exemplo, que na época de estiagem o nível da água abaixa vários metros, formando-se então inúmeras ilhas, onde são montadas estruturas para explorar o ramo turístico. “São erguidos complexos onde se destacam restaurantes, bares e até espaços para shows musicais. Quando começa a temporada da chuva, tudo é recolhido para ser remontado no ano seguinte; é desse jeito que muita gente, ao longo do Araguaia, garante o sustento e prospera”, descreve Geraldo.

O experiente conhecedor de singularidades relembra que há muito tempo perdeu a conta de quantas cidades visitou pelo Brasil afora. E acrescenta que nunca se interessou muito em conhecer locais badalados pela mídia. “Sempre preferi conhecer particularidades pouco divulgadas, como um show de músicas típicas numa praça publica de São Luís, no Maranhão. Os tocadores de bumbo acendem no local pequenas fogueiras para secar o couro dos instrumentos a fim de lhes garantir melhor sonoridade. Acho aquilo fantástico, até parece  um ritual religioso”, narra  sem conter o riso.

Leitor voraz de livros clássicos, Geraldo aproveitava as viagens de trabalho para se deliciar também com o linguajar regionalista.  “É uma riqueza de se tirar o chapéu. Só para melhor explicar, palavras que são comuns no Rio Grande do Sul, soam estranhas no Pará. Em contrapartida, expressões corriqueiras no Pará, são completamente desconhecidas pelos gaúchos. Isso se chama diversidade lingüística, uma riqueza da qual o Brasil é um verdadeiro campeão por suas dimensões continentais e por ter recebido gente do mundo inteiro,” observa.

 

“Sempre preferi conhecer particularidades pouco divulgadas, como um show de músicas típicas numa praça publica de São Luís, no Maranhão.”

 

Revista 4 Rodas era o GPS
Geraldo destaca que em 30 anos de corre-corre pelo Brasil chegou a fazer 15 voos em pequenos e grandes aviões em apenas 17 dias. “Mas, o mais difícil era o deslocamento por terra. Naquele tempo o GPS dos viajantes era a revista 4 Rodas”,  relata sem conseguir segurar uma boa gargalhada.

Aos 56 anos de idade, Geraldo é casado com dona Sandra, pai de dois filhos e avô três vezes (dois pequerruchos e uma menininha).  Espirituoso e de conversa cativante, para ele viajar continua sendo um de seus passatempos preferidos “Viajo todos os fins de semana de Joinville até Barra Velha para aproveitar a praia em companhia dos familiares,” esclarece muito do divertido. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


De volta aos tempos do gasogênio

Sem lixo. Inventor de Joinville desenvolveu equipamento que transforma resíduos em combustível para automóvel
Rogério Souza Jr/ND
Engenhoca. Arno Streit ao lado da sua velha F-75 Ford Willys, onde está adaptado o processador de lixo que transforma lixo em gás

 

 

Sem destino para os sapatos velhos? Que tal abastecer o carro com eles e sair rodando por aí? Melhor: que tal encher o tanque com o lixo da cozinha? No filme “De Volta para o Futuro”, que fez um sucesso estrondoso nos anos 90, o ator Christopher Lloyd interpreta o doutor Emmet Brown, que impressiona o jovem Marty McFly, personagem de Michael J. Fox, quando põe cascas de banana numa turbina para gerar energia ao DeLorean, uma máquina do tempo em forma de automóvel. À época a cena parecia espetacular demais para ser verdade. Não para o inventor joinvilense Arno Streit, 80 intensos anos de idade.

De certa forma, ele e o doutor Brown têm muito em comum. Além da disposição, raciocínio rápido e inúmeros inventos, como um abridor de portas, há 30 anos ou mais seu Arno dedica os dias a aperfeiçoar o gasogênio instalado em sua velha F-75 Ford Willys, que vive guardada num galpão aos fundos de sua casa, na silenciosa rua Capinzal, bairro Saguaçu. Na engenhoca, bastante rudimentar mas eficiente, tudo vira combustível, com exceção de lixo molhado. Desde sapatos até sabugo de milho, semente de sombreiro, pneus e borracha, cavacos de madeira ou lixo seco, tudo se transforma em gás após dois minutos de combustão.

A invenção do dispositivo remonta aos anos 20, mas se popularizou na 2ª Guerra Mundial, quando houve escassez de combustível líquido, principalmente gasolina. Até os ônibus e carros de corrida usavam o esdrúxulo equipamento para rodar. Com o fim da guerra, o jovem Arno, então com 12 anos, plantou a idéia de construir seu próprio gasogênio, o que começou a fazer aos 50 anos. “Eu não inventei, modifiquei”, resigna-se.

Agora, três décadas depois, ele pensa na queima como a melhor alternativa para eliminar o lixo no futuro. “Pelo alto calor, que chega a 1000ºC, até a cinza vira gás. Lixo só serve para juntar mosca, barata, rato. É um criatório de doenças. Por isso aperfeiçôo o gasogênio, para ajudar a humanidade”, argumenta.

 

 

"Quero mostrar para o mundo e para o Brasil que é possível transformar todo tipo de material sólido em combustível, em gás, sem causar danos à natureza.”

 

De olho no futuro

Arno Streit prevê que o petróleo irá acabar e a mesma escassez vivida durante a guerra poderá causar transtornos novamente. “O futuro é a eletricidade. Já pensei em fazer um carro elétrico”, diz ele, que por enquanto se contenta com suas pesquisas e aperfeiçoamentos, principalmente para reduzir ainda mais a taxa de monóxido de carbono liberada pelo invento na atmosfera. Segundo ele, a emissão do gás poluente é baixíssima: 0,033%, conforme laudo da Universidade Federal de Santa Catarina.

Além de estudantes catarinenses, universitários da Flórida (EUA), também já teriam visitado a casa do inventor joinvilense para conhecer o gasogênio, que foi tema de documentário em um programa especializado sobre veículos. “Quero mostrar para o mundo e para o Brasil que é possível transformar todo tipo de material sólido em combustível, em gás, sem causar danos à natureza”, aponta, informando que a única desvantagem da combustão da lenha, por exemplo, é a geração de alcatrão. A cada 100 quilômetros é preciso “sangrar” a turbina.

 

Eureka

Quando sua mulher morreu, há três anos, seu Arno deixou o gasogênio de lado. Passou por depressão, solidão brava. De repente ... eureka, a luz se acendeu e ele voltou à vida novamente. Agora dança nos bailes, três vezes por semana. Sempre com a namorada, 21 anos mais nova. Por hobby, dedica-se à pesquisa do biogás e, principalmente do gasogênio. “Hoje tenho a energia dos meus 20 anos”, comenta, cheio de gás para “despoluir” o planeta.

Além das invenções, seu Arno também foi caminhoneiro por 30 anos e mecânico. Já curou um câncer de pele e foi o quarto brasileiro a implantar partes de osso do quadril na coluna, com fixação feita por grampos de platina, uma cirurgia cara, bancada do próprio bolso. Isso sem falar na cirurgia de catarata que também lhe consumiu recursos consideráveis.   

Ah, só para citar, seu Arno jura de pés juntos que sua F-75 é o único carro do Brasil com documentação para rodar com o gasogênio. Só não conseguiu patentear suas modificações para poder engarrafar o gás, o que está em seus planos para o futuro.


No rastro dos irmãos

Rádio. Operador de som se encantou e aprendeu o ofício ainda criança em uma emissora de São Francisco do Sul
Rogério Souza Jr/ND
Controles. Gelson Pedro nos estúdios da FM 105,1, que funciona junto ao Centreventos Cau Hansen

 

 

Algumas pessoas descobrem a profissão ainda na infância. Foi o caso de Gelson Pedro de Oliveira, o Negretin, operador de som de rádio há 41 anos. Nascido na cidade de São Francisco do Sul, ele se encantou com as cabines de rádio aos 10 anos e conta como isso ocorreu. “Meus irmãos Érico e Elisa eram os operadores da rádio Difusora, de São Chico, onde eu costumava ir constantemente para dar uma espiada no trabalho dos dois. Foi assim que me apaixonei pela profissão”, relata bem humorado.

Hoje com 53 anos de idade, Negretin lembra que sua estréia em cabine de som aconteceu de forma inesperada aos 12 anos de idade quando a irmã Elisa fraturou uma das clavículas e ficou impossibilitada de mexer com a aparelhagem. Para não ficar temporariamente afastada do serviço ela então confiou a Negretin a tarefa de manejar os equipamentos. “Ela mandava que eu fosse fazendo as coisas, como abrir o microfone, botar o disco e mais isso e mais aquilo. Atendo, eu fazia tudo direitinho e assim, bem antes de ela se recuperar do acidente, aprendi os macetes da profissão”, relembra entre risadas.

Já experiente operador de som, em 1975 Negretin mudou-se para Joinville ao ser contratado pela Rádio Cultura por indicação de seu irmão Érico, que estava na emissora já a um bom tempo. Depois da fase na Cultura, Negretin teve passagens pelas rádios Difusora e Colon. Em seguida trabalhou na Rossi Locadora de Som e na Pop Band. Na fase da Rossi e da Pop Band, paralelamente fez som para a Prefeitura de Joinville. Atualmente ele está nos estúdios da FM 105,1, onde trabalha ao lado de Paulo Martini, Rui Ferrari, Jeferson Correia e Adriana Freitas entre outros colegas. “São bem mais novos que eu, mas me dou muito bem com todos eles”, garante alegre como uma criança sapeca.

 

 

Do tempo dos transmissores a válvula

Do início de sua trajetória em cabines de rádio em Joinville, Negretin se sente orgulhoso por ter participado de uma das melhores fases da história radiofônica de Joinville. Ele trabalhou ao lado de profissionais da estirpe de Ildo Campello, Vilson França, José Eli Francisco, Ismael Pieper, Manduca, Jota Montês e por aí afora. Temeroso de se esquecer de algum colega daquele tempo, Negretin prefere não citar nomes para não cometer injustiças, mas ressalta que foi um privilégio trabalhar com tanta gente competente.  “Naquele tempo locutor era locutor, comentarista era comentarista. Hoje são obrigados a fazer isso e ainda sair pela rua a fim de vender espaços e fazer cobranças; esse é um dos motivos do rádio não ter a mesma qualidade daquele tempo”, compara.

Negretin lembra que no começo de sua carreira os transmissores eram a válvula, que mais tarde foram substituídos por equipamentos transistorizados. “Hoje está tudo digitalizado, o que facilita o trabalho, mas se não houver paixão, isso de pouco vale”, assegura o velho operador.

Casado com dona Conceição há 36 anos, Negretin tem com ela três filhos (duas mulheres e um homem). Avô de um casal de pequerrucho, ele conta que encontrou sua cara metade no Colégio Conselheiro Mafra onde ambos estudavam.

 

 

O apelido e momentos históricos

O apelido de Gelson Pedro de Oliveira foi obra do radialista Vilson França. Por achá-lo parecido com um menino escurinho e esguio, que num quadro do humorista Chico Anísio era chamado de Negretin, França não perdeu a oportunidade de pregar o apelido no amigo. “Sou grato ao França, o apelido virou marca registrada da qual tenho orgulho”, assinala sem conter o riso.

Negretin cita dois momentos históricos de sua carreira: “Fui o operador de som que colocou pela primeira vez no ar, em caráter experimental, a rádio Cultura FM, a pioneira do segmento em Joinville. Tive igualmente o prazer de ter sido o operador de som do primeiro Festival de Dança de Joinville, realizado na Sociedade Harmonia Lyra e no Ginásio Ivan Rodrigues”, relata o operador de som de muitas histórias divertidas para se ouvir em qualquer lugar. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Da música uma missão

Sonoridade. Instrumento encontrado ao lado de lixeira levou menino ao universo do sopro, cordas e canto
Carlos Junior/ND
Música. No momento Sergio Paulo se dedica ao violão, instrumento com o qual faz parceria com o gaiteiro Genésio Catafesta nas apresentações do coral Cavalieri Cantanti

 

 

Ao avistar uma gaitinha de boca atirada ao lado de uma lixeira, menino nascido e criado em Florianópolis pegou o pequeno objeto e o enfiou no bolso. Horas depois, ao se encontrar com o pai, ele disse que haveria de aprender a tocar aquele instrumento. O pai, cantador de Ternos de Rei, sensibilizado o incentivou comprando-lhe uma gaitinha de boca nova e com mais recursos daquela encontrada por acaso.

Foi assim que teve início a trajetória musical de Sergio Paulo Araújo, hoje fiscal da Companhia Águas de Joinville. Paralelamente às andanças por toda a cidade para desempenhar as funções profissionais, Sergio Paulo se desdobra para dar conta de compromissos na área musical, que não são poucos.

Formado em teoria musical pela Casa da Cultura, ele é regente de três corais da cidade: o Cavalieri Cantanti (de músicas folclóricas italianas), o Voz da Água, da Companhia Águas de Joinville, e o Vozes de Moriá, da Igreja Presbiteriana Independente.

Sergio Paulo garante que apesar de atarefado o dia inteiro com o trabalho de fiscal não tem dificuldade de arrumar tempo para reger os ensaios dos três corais, dos quais é também o arranjador.  Bem humorado, enfatiza que com organização é possível levar a cabo todos os compromissos sem a necessidade de sacrificar momentos de lazer com a família.

Além de tocador de gaita de boca, Sérgio Paulo tem igualmente intimidade com outros três instrumentos: violão, saxofone e flauta transversa. “E dizer que tudo começou ao achar aquela gaitinha ao lado de uma lixeira, do incentivo do meu pai e, posteriormente de apoio de um amigo, que me deu de presente um violão”, assinala desatando uma boa risada.

No momento Sergio Paulo se dedica mais ao violão, instrumento com o qual faz parceria com o gaiteiro Genésio Catafesta nas apresentações do coral Cavalieri Cantanti.  Além de violeiro, regente e arranjador do grupo, e de quebra ele é cantor da ala dos segundos tenores.

Morador de Joinville desde 1976, quando trocou Florianópolis por Joinville para fazer o curso de cabo do Exército no 62º BI, Sérgio Paulo ficou pouco tempo na caserna. Técnico eletrônico, ele optou por um emprego na Telesc, onde ficou durante alguns anos.

Casado com dona Marisa Rosa, pai de três filhas e avô de três netas,  Sérgio Paulo se diz um bem aventurado. “Tenho sete mulheres ao meu redor, que se preocupam comigo, me dão todo o apoio para ir tocando a vida, o trabalho, a música e a religiosidade com muita alegria”, salienta.

 

 

Influência da bisavó

Manezinho da gema, como gosta de se apresentar, Sergio Paulo integrou-se ao grupo Cavalieri Cantanti por gostar de músicas folclóricas italianas desde o tempo de menino.  “Uma das minhas bisavós veio da Itália. Foi dela que herdei o gosto pela música e pela gastronomia da terra dos maiores gênios do berço da Renascença”, ressalta o experiente e disposto regente de 56 anos de idade. (Herculano Vicenzi, Especial para o Notícias do Dia)

 

 

 

 


Da lagoa Rodrigo de Freitas para o rio Cachoeira

Remo. Orival trouxe a experiência dos clubes de regatas do Rio de Janeiro
Carlos Junior/ND
Rato de rampa. Orival se orgulha da convocação para a Seleção Brasileira, com apenas 17 anos

 

 

Há algum tempo, após uma das tantas chuvaradas com vento que castigam Joinville, Orival Izidoro Ferreira soube que alguns barcos foram vistos boiando na lagoa Saguaçu, à deriva. Ele não hesitou em sair em disparada rumo ao Joinville Iate Clube, já temendo um desastre. Chegou a tempo, porém, de recolher e guardar novamente as embarcações que tanto levou ao longo do rio Cachoeira nos tempos em que compunha as guarnições de remadores do clube que tinha o mesmo nome do rio. “A tempestade acabou afetando o galpão onde os barcos estão guardados, e quase que Joinville perde uma parte importante de sua história esportiva”, conta Orival, hoje um bem sucedido empresário, mantendo vivo na memória o tempo em que o remo rivalizava com o futebol e com o basquete entre as modalidades preferidas dos joinvilenses. “Não perco a esperança de ver aqueles barcos ainda participando de competições”, diz, cioso de um capítulo importante nos anais do esporte joinvilense.

Nascido em Corupá em 1941, Orival queria ir além da perspectiva de se tornar agricultor, atividade mais comum na cidade. Adolescente, acabou se mudando para o Rio de Janeiro, então capital do Brasil. “Eu tinha 14 anos quando fui morar com parentes no Rio. Lá fiz um curso técnico mecânico na Fábrica Nacional de Motores, mais conhecida como ‘Fenemê’, que fabricava caminhões.”

 

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Memória. Em registro dos anos 50, os remadores (da esquerda para a direita) Frederico Hempel, Ingo Hertenstein, Rolf Fischer, Reynaldo Deglmann e Orival

 

 

“Não perco a esperança de ver aqueles barcos ainda participando de competições.”


O mais novo na Seleção
Logo que se ambientou à Cidade Maravilhosa, Orival conheceu e começou a praticar o remo, pelo Clube de Regatas Guanabara (já extinto). “Na época – conta – o remo era tão popular quanto o futebol, tanto que os principais clubes do Rio, como Botafogo, Flamengo e Vasco começaram como agremiações de remo e mantêm até hoje o nome ‘regatas’.” Pelo Guanabara, Orival disputou acirradas competições contra os outros grandes clubes, tendo ganhado fama de “rato de rampa”. Seu grande orgulho, além dos diversos títulos cariocas e brasileiros, foi a convocação para a Seleção Brasileira, com apenas 17 anos. “Eu era o atleta mais novo da Seleção!”

Em 1963, já desgostoso com o agito do Rio de Janeiro, Orival decidiu retornar a Santa Catarina. Como funcionário da antiga estatal Cobal – Cia. Brasileira de Alimentos –, acabou transferido para Joinville. Logo de cara, uma constatação feliz: por aqui também o remo era disputado! Não demorou para que Orival arrumasse uma vaga no Clube Náutico Cachoeira, que se revezava nas conquistas com o rival Atlântico. “Claro que era bom ganhar do Atlântico, mas nosso grande objetivo era bater os clubes de Florianópolis”, admite.

Colega de guarnição de Rolf Fischer (Perfil em agosto de 2012), Orival lamenta que o remo tenha sucumbido à falta de apoio. “Ninguém era remador profissional, todos tinham seus empregos, e poucos tinham a disposição de levantar-se às 4 da manhã, para treinar antes do expediente.”

Orival remou até o final dos anos 60, quando o esporte definhou e sumiu das águas de Joinville – até porque o rio Cachoeira já está longe de ser uma boa raia, assoreado e poluído. Ainda teve tempo de passar o amor – e preciosos ensinamentos – do esporte aos filhos Marcel e Jefferson. Hoje, porém, em vez de remos, eles empunham manches de aviões, um dos produtos da linha de montagem da Strauhs Tecnologia em Equipamentos, onde Orival trabalha há 45 anos e exerce a presidência.


O orgulho de ser Baptista

Origem ilustre. Bisneto de Abdon Baptista cultua a memória do ex-prefeito
Rogério Souza Jr/ND

 

Retrato de família. Alfredo junto a fotografia do bisavô, Abdon Baptista

 

Alfredo já está aposentado, pode curtir a vida sossegado, depois de muitos anos de trabalho. Os cuidados com a saúde exigem, além de outras precauções, evitar tomar sol em excesso; por isso, mesmo morando ao lado da Arena, prefere ver os jogos do JEC na casa do filho, na TV por assinatura. Mas de um detalhe ele não se descuida: demonstrar o orgulho de ser o único joinvilense a ostentar o sobrenome Baptista, descendente direto do médico, jornalista e ex-prefeito Abdon Baptista. “Claro que tenho irmãs, mas todas se casaram e adotaram os sobrenomes dos maridos. Baptista como meu bisavô, só eu, meus filhos e netos.”

Fernandes por parte da mãe Nelly, Alfredo nasceu em 1941, na mesma Joinville que seu bisavô escolhera na juventude, vindo de Salvador. “Nasci e me criei no centro da cidade. Nossa casa tinha o mesmo estilo do palacete episcopal, que depois abrigou o Hotel Anthurium, e era motivo de admiração pela beleza.” A casa, situada nas imediações de onde hoje se ergue o Hotel Germânia, foi demolida quando por ali passaram as obras de abertura da avenida Juscelino Kubitschek.

Por pouco o sobrenome Baptista não se encerrou com o próprio Abdon, pai de um homem e oito mulheres. Do avô Eudoro, Alfredo tem boas lembranças: “Eu passava muito tempo com meu avô, a quem eu estimava”. Para a família, porém, Eudoro Baptista deixou também algumas decepções: “Ele era um jogador inveterado, e perdeu quase todos os bens nas mesas de carteado, inclusive o sobrado onde ficava o Clube Joinville, hoje sede da Casa Sofia”. Felizmente, o pai de Alfredo, Antenor Douat Baptista, conseguiu preservar ao menos o palacete onde a família morou.

Segundo dos quatro filhos de Antenor e Nelly, Alfredo foi criado segundo rígidos preceitos católicos, e até hoje frequenta as missas na catedral. O moderno templo, por sinal, é outro motivo de orgulho: “Meu pai fez parte da comissão, liderada pelo doutor Sadalla Amin, de construção da catedral, substituindo a antiga, de madeira”.

Alfredo dividiu a vida profissional entre a Consul – onde se tornou amigo dos irmãos Eggon e Wittich Freitag – e sua firma de representação comercial.Vindo de uma longa linhagem de torcedores do América, adotou as cores do JEC, chegando a ser diretor de promoções do clube. Também atuou durante sete anos como funcionário do Lar Abdon Baptista, entidade que ainda procura ajudar, da forma que puder. Hoje, a maior parte do tempo pode ser dedicada aos cinco filhos e oito netos. E a colecionar memórias do ilustre bisavô.

 

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Álbum de família. Alfredo no colo da mãe Nelly (a irmã mais velha no colo do pai) e com o avô, Eudoro (embaixo)

 

“Nasci e me criei no centro da cidade. Nossa casa tinha o mesmo estilo do palacete episcopal, que depois abrigou o Hotel Anthurium, e era motivo de admiração pela beleza.”

 

Quem foi Abdon Baptista
Nascido em Salvador em 30 de julho de 1851, o jovem médico e jornalista Abdon Baptista escolheu para trabalhar a cidade de Joinville – que nascera apenas quatro meses antes dele próprio. Em Santa Catarina, iniciou a carreira política, tendo sido deputado estadual, deputado federal e senador – além, claro, de prefeito de Joinville duas vezes, de 1892 a 94 e de 1915 a 21. Foi 1º vice-presidente da província de Santa Catarina, nomeado por carta imperial de 22 de junho de 1889, tendo presidido a província interinamente de 26 de junho a 19 de julho de 1889. Foi também vice-governador do Estado de Santa Catarina, assumindo o governo de 28 de setembro a 21 de novembro de 1906, na ocasião em que o governador Lauro Müller ocupava o Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas no governo Rodrigues Alves.

Em sua homenagem foi batizado o município de Abdon Batista, situado na microrregião de Curitibanos, Meio-Oeste catarinense. Morreu no dia 15 de março de 1922.


A magia dos vitrais

Luz e cor. Judith Creutzberg transforma o vidro em telas luminosas
Mauro Schlieck/ND
Dom artístico. Judith no vitral que representa a passagem narrada no evangelhos de Lucas (18: 15,16)

 

 

Quem entra numa igreja ou numa capela, com as janelas ornamentadas com coloridos vitrais, às vezes não imagina a complexidade da arte de produzir aqueles vidros coloridos. Mais do que decorar, a função dos vitrais é comunicar, contar algo. “Quando produzimos um vitral, partimos de um tema, de uma ideia central, a partir da qual contamos uma história”, explica a vitralista Judith Schurt Creutzberg, exemplificando com a ilustração do trecho bíblico conhecido como “Vinde a Mim as criancinhas, pois delas será o reino dos Céus”. Citada nos evangelhos de Lucas (18: 15,16) e Mateus (19: 13,14), a passagem ganha forma e cor num dos belos vitrais que ornamentam a capela do Hospital Dona Helena. Aquele é um dos muitos trabalhos executados por Judith, em parceria com o marido Leonardo Creutzberg, pastor luterano aposentado, com quem mantém o Atelier Arte Múltipla, no Bucarein. Além da exposição de trabalhos, ali Judith também dá cursos.

Nascida em Rio do Sul em 1939, Judith começou a aperfeiçoar o dom artístico quando era aluna do internato salesiano Dom Bosco. “Mesmo sendo de uma família luterana, passei quase toda a vida escolar num colégio de freiras, onde cheguei a usar véu e ensinar  catecismo, como uma autêntica mariana”, conta Judith, creditando grande parte do seu desenvolvimento artístico a uma freira italiana que foi sua professora. Neta de um farmacêutico prático, Judith pensava em seguir na área da medicina ou da farmácia após concluir o ensino médio, em Blumenau. Mas os planos mudaram totalmente quando ela conheceu o jovem pastor Leonardo, que fazia estágio em Rio do Sul. Casaram-se em fevereiro de 1960. O trabalho como pastor os levou a Lages – onde nasceram três filhos –, Blumenau – o quarto da prole –, Assis e Campinas. “Foi em Assis que conheci a arte do vitralismo”, lembra Judith.

 

Carreira em Joinville
Desde 1978 morando em Joinville, somente a partir do ano 2000 Judith e o marido efetivamente iniciaram a carreira de vitralistas, ela criando e ele auxiliando no corte do vidro. “Comecei com peças pequenas, como abajures e lustres. O primeiro vitral fiz numa capela no interior de Rodeio”, recapitula Judith. A partir dali, sua fama foi se espalhando e os trabalhos aumentando, incluindo igrejas e capelas em Corupá, Pomerode, Jaraguá e Joinville, entre outras cidades. O portfólio elenca lustres, abajures, enfeites natalinos, fruteiras, peças decorativas e, claro, os vitrais, não só para templos religiosos, mas também residenciais. “No ano passado fiz vitrais para decorar o ambiente de uma piscina, numa residência em Joinville.”

Judith utiliza duas técnicas de vitralismo: a pintura diretamente no vidro, que substitui a tela, mais adequada para ambientes internos; e a chamada gemmail, uma justaposição de fragmentos de vidro coloridos, colados uns aos outros, formando composições translúcidas, técnica na qual ela é pioneira no Estado. O resultado de ambas as técnicas pode ser conferido na capela do Hospital Dona Helena: enquanto os vidros pintados ficam na parede interna, os mosaicos decoram as janelas externas, reluzindo aos raios do sol.

 

Serviço | Onde encontrar
Atelier Arte Múltipla
Rua Roberto Schmidlin, 71, Bucarein
Telefone 3422-2032
Email leo@creutzberg.org

 

Através dos tempos
Os vitrais originam-se entre os séculos 10 e 11, no Oriente, onde o vidro começou a ser utilizado para a confecção de peças para embelezar ambientes que, além da proteção, ainda providenciavam luz. Mas foi no Ocidente que a arte se firmou. Na idade média eram usados para reforçar a espiritualidade, utilizados na ornamentação de igrejas, uma vez que o efeito da luz solar conferia imponência e espiritualidade ao ambiente. A partir do século 19 o vitral se desvinculou do caráter temático exclusivamente religioso, para também se tornar uma opção decorativa.

 


Só do fundo do baú

Toca aquela... Grupo se dedica a resgatar as músicas brasileiras de raiz
Divulgação/ND
No ritmo. Os integrantes do grupo Getúlio (a esq. para a dir., em pé), Joaquim, Pelé, Carlinhos, Irineu (sentado) e Danilo

 

 

Carlinhos, Joaquim e Paulista gostavam de se reunir para tocar e cantar aquelas músicas tradicionais, tiradas, como se diz popularmente, “do fundo do baú”. Há cerca de 14 anos, num dos tantos encontros promovidos na escola de samba Majorca, em São Francisco do Sul, Carlinhos sugeriu: “Que tal montarmos um grupo para tocar em bares e animar bailes?” Ideia aceita, nem foi preciso matutar muito para batizar o conjunto. Do Fundo do Baú foi o óbvio nome escolhido. Desde a estreia, num baile na Sociedade Acaraí, passaram a animar bares e restaurantes com sua música brasileira de raiz, além de proporcionar embalo a casais em bailes pelos salões das redondezas – o mais recente foi no final de fevereiro, no baile de eleição da rainha da escola de samba Acadêmicos do Serrinha.

Os componentes são os mesmos desde o início: Carlos Miguel da Silva, o Carlinhos; Irineu Rodrigues, o Paulista; Joaquim Bertolino Ribeiro; os irmãos Getúlio e Danilo João Afonso; Roseleno Ribeiro, o Pelé; e Agnaldo Silva. Todos quarentões e cinquentões, profundos conhecedores e admiradores do estilo musical que adotaram. “Só tocamos música brasileira de raiz mesmo, no estilo dos Demônios da Garoa, tiradas lá do fundo do baú”, garante Paulista, radicado em Joinville desde 1996. Trazendo a experiência de sambista da escola paulistana Nenê da Vila Matilde, Paulista foi intérprete da francisquense Unidos do Paulas antes de chegar à Príncipes do Samba. Junto com ele, estão Carlinhos e Joaquim; os três, mais o sambista Odair da Conceição, assinam o samba-enredo que a Príncipes levou para a avenida neste ano, “Na Cidade dos Príncipes, das Flores ou dos Nossos Avós – Salve a Sociedade Kênia Clube,” um tributo à tradicional agremiação da rua Botafogo. Afinidade não falta: Paulista é casado com Lúcia Nara, a presidente da Príncipes do Samba.

 

O sonho do primeiro CD
O Fundo do Baú se encontra para ensaios na casa de algum dos integrantes, normalmente na residência do próprio Paulista, no Adhemar Garcia. “Com o tempo, conseguimos adquirir instrumentos e aparelhagem próprios”, informa Paulista, que revela o próximo grande sonho do grupo: gravar o primeiro disco. “Já temos dez músicas próprias, compostas pelo Getúlio em parceria com Odair da Conceição, além de algumas do Vicente de Aruanda”, completa. A gravação, claro, depende de patrocínio, pois o processo costuma ser caro. Parte dos recursos vai sendo levantada com as apresentações em bares, restaurantes e bailes.

 

Para conhecer
A próxima apresentação do Fundo do Baú será na festa de lançamento do DVD do amigo Zico, domingo (10), ao meio-dia, na SER Tigre

 

Para cantar
Veja um trecho de “Vou Buscar Você”, uma das obras próprias do Fundo do Baú

Vou buscar você
Esteja aonde estiver você vem comigo
Se não arranjo outra mulher
Vou buscar....
vou morar na lapa
lá no alto da favela
Vou batucar com os crioulos
e fazer versos pra Portela
Vou buscar....
você vai ter conforto
comer da minha panela
o meu barraco vai ser bom
com você na minha janela
Vou buscar
...

 


As boas vindas ao mundo

Nascimentos. Monica Cercal é remanescente do tempo das parteiras práticas da Maternidade Darcy Vargas
Mauro Artur Schlieck/ND
Prestes a se aposentar. Depois de 30 anos nas salas de parto, Mônica está prestes e pendurar seu avental de enfermeira



Ela ouviu o primeiro chorinho de mais de dois mil bebês em 30 anos de trabalho no hospital Dona Helena, na Maternidade Darcy Vargas e no Hospital Unimed. O detalhe dos chorinhos é um dos bons ângulos para sintetizar a biografia de Monica Cercal, a última parteira prática da história da maternidade Darcy Vargas, ponto de referência do Brasil na missão de garantir boa chegada aos bebês que há 65 anos nascem naquele local.
Joinvilense da gema, Monica nasceu na maternidade Darcy Vargas e começou a carreira na área da obstetrícia (parte da medicina que se ocupa da gestação e dos partos) no Hospital Dona Helena, ao ser contratada para desempenhar as funções de atendente de enfermagem e auxiliar nas salas de partos. Dedicada, em cinco anos virou parteira de mão cheia. “Aprendi com colegas mais antigas e com a equipe médica”, assinala agradecida. 
Do Hospital Dona Helena, ao passar em concurso público ela foi para a Maternidade Darcy Vargas, onde recentemente completou 25 anos de trabalho.  De quebra, durante dois anos e dois meses Monica desdobrou-se em dupla jornada de trabalho. De dia atendia na Maternidade Darcy Vargas e, à noite, no Hospital Unimed.
Ao completar 30 anos em salas de parto ela requereu recentemente a aposentadoria. Enquanto aguarda a publicação da portaria que vai oficializar o merecido descanso, Monica aproveita licença prêmio para ir à praia e para viajar, seus passatempos preferidos.
Atenciosa e de conversa cativante, Monica assinala que com sua aposentadoria se encerra o ciclo de parteiras práticas na Maternidade Darcy Vargas. “Hoje o exercício da profissão só pode ser feito por pessoas com faculdade de enfermagem e pós graduação em obstetrícia. Sou, por isso, a última representante de uma estirpe”, diz bem humorada.
Casada com Ivo Cercal, conhecido estofador do bairro Floresta, Monica é mãe de três filhos. “Um, nós o perdemos quando ele tinha dois anos e meio de idade. Foi uma das vítimas de um surto de meningite que em 1973 enlutou diversas famílias em Joinville”, conta ainda sentida com a irreparável perda.
Monica não se esquece de elogiar o esforço que a equipe da Maternidade Darcy Vargas fez nos últimos anos para humanizar o atendimento às parturientes. “Foi um trabalho fantástico, no qual me incluo humildemente. Quero registrar a liderança e o entusiasmo da médica Raquel Pereira nessa luta que rendeu à maternidade reconhecimento em âmbito nacional”, destaca.

 


“Hoje o exercício da profissão só pode ser feito por pessoas com faculdade de enfermagem e pós graduação em obstetrícia. Sou, por isso, a última representante de uma estirpe.”



Muitas histórias para contar
Com tantos anos em salas de parto sobram histórias para Monica contar. Algumas engraçadas, outras dramáticas, como essa: uma parturiente estava para dar à luz de parto natural quando o marido resolveu levá-la para outro hospital porque queria que fosse feita cesariana seguida de laqueadura. De nada adiantou o médico lhe explicar que não havia necessidade de fazer a cesariana, que a laqueadura seria feita mais tarde e que a criança estava para nascer a qualquer momento. Nervoso, o homem ia tirando a mulher da sala de parto  quando Monica interveio com jeitinho e o demoveu de levar a cabo tamanho desatino. “Ainda bem que ele ouviu meus apelos, caso contrário aquela criança teria nascido dentro do carro a caminho de outro hospital, pois acabou chegando minutinhos depois que ele desistiu de tirar sua mulher da sala de partos,” lembra a veterana parteira prática. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Fé e amor ao próximo

Vocação. Capelã do Hospital Dona Helena, Mayke se realiza como pastora
Rogério Souza Jr/ND
Apoio espiritual. Mayke agora tem dedicação integral na capela do hospital

 

 


“Tenho orgulho de ser uma pessoa de fé, no serviço de amor ao próximo.” É desta forma que a pastora luterana Mayke Marliese Kegel resume sua filosofia de vida e os vários trabalhos a que vem se dedicando desde que se formou, há 23 anos. A missão mais recente foi iniciada em janeiro, quando assumiu a capelania do Hospital Dona Helena – onde já atuava, assim como no São José, na assistência espiritual. No ano passado, Mayke foi uma das homenageadas com a Medalha de Mérito Mulher Cidadã de Joinville. “Partilho essa medalha com todas as mulheres luteranas que atuam em nossas comunidades, passando sobre seus limites, se esmerando em atender, acolher e amenizar a dor de quem nos procura”, diz, a respeito da homenagem.
Mayke nasceu em Timbó, no Médio Vale do Itajaí, há 49 anos, e cuidar de outras pessoas foi uma tarefa à qual se dedicou desde cedo: “Sou a irmã do meio de cinco filhos, e cresci num contexto em que cada irmão cuidava dos mais novos, para os pais poderem trabalhar. Além de cuidar de duas irmãs, ajudei na criação de filhas das vizinhas”. A vizinhança, por sinal, era bem ecumênica, integrando descendentes de alemães e de italianos, luteranos e católicos. Mayke é um exemplo dessa mistura: “Minha família era luterana, mas em casa falávamos italiano.”
Espelhando-se na mãe, muito religiosa e solidária, Mayke via seu caminho na área diaconal. Só que seguiu outro rumo, formando-se técnica em construção civil, com a intenção de ser arquiteta. No último ano do curso, pensou em fazer teologia, mas foi dissuadida por um pastor: “Ele alegou que havia muita disputa de linhas teológicas na faculdade, o que levaria a um desgaste emocional desnecessário”. Sem encontrar trabalho na área de arquitetura, foi admitida como recepcionista no hospital da Oase (Ordem Auxiliadora das Senhoras Evangélicas), de Timbó. “Só viviam me chamando a atenção, pois eu passava mais tempo visitando os pacientes nos quartos do que no meu setor.”

 

“Podemos viver em pequenas ilhas, como as comunidades paroquiais, mas não podemos viver isolados, sem contato com quem vive fora delas. Igreja é vida em comunhão, onde emergem todas as nossas igualdades e diferenças”.

 

 

Arquivo pessoal/ND
História. Em 1994, a pastora Mayke na paróquia Bom Samaritano, que ajudou a criar no Profipo


 

 


A vocação chama
Um dia, brincando com um pastor, dizendo que poderia ter sido sua colega, Mayke foi provocada: “Ele me falou que se eu não tentasse, nunca saberia se aquele era meu chamado”. Seis meses depois, ela ingressava na faculdade de teologia em São Leopoldo (RS). Formada em 1990, em fevereiro do ano seguinte foi trabalhar como assistente paroquial na Missão Roselândia, em Novo Hamburgo. Em agosto de 1991 o destino era Joinville, para atuar na Missão Profipo. “Um dos meus orgulhos foi ter participado da criação da comunidade Bom Samaritano.” Em 1999, passou para o departamento de diaconia da Comunidade Evangélica de Joinville. Já fez estágio na Alemanha, participa de movimentos populares e de pastorais, mas é no apoio aos doentes que Mayke se realiza. Só no Dona Helena, já é uma década de ativa participação, tanto visitando e levando assistência espiritual aos enfermos, como capacitando outras pessoas para a mesma função. Faz parte do comitê de estudos e pesquisa de bioética da Maternidade Darcy Vargas e da Associação Cristã de Assistência Espiritual Hospitalar do Brasil.
Mãe de dois joinvilenses e, desde janeiro, capelã em tempo integral do Dona Helena, a ex-futura arquiteta é, acima de tudo, uma pessoa realizada e feliz por ter seguido a vocação: “Podemos viver em pequenas ilhas, como as comunidades paroquiais, mas não podemos viver isolados, sem contato com quem vive fora delas. Igreja é vida em comunhão, onde emergem todas as nossas igualdades e diferenças”.


No clube das centenárias

Cem velinhas. Dona Tina comemora 100 anos, amanhã, com lucidez e disposição
Fabrício Porto/ND
Sorridente. Dona Albertina mora na mesma casa, construída há mais de 40 anos e que já passou por várias reformas, no bairro Itaum

 

 

Os números do último censo confirmaram, mais uma vez, a predominância da população feminina sobre a masculina em Joinville e nos municípios da região. Em média, são 52% de mulheres, ante 48% de homens. Uma coisa é certa, a julgar por este perfil, desde que o espaço foi criado, há pouco mais de cinco anos: todas as pessoas que chegaram aos 100 anos de idade, aqui entrevistadas, são mulheres. Neste dia 1º de março, mais uma se junta ao seleto clube das centenárias: Albertina Pereira Souza. “A receita para viver bastante é trabalhar enquanto o corpo aguentar, cuidar da saúde e ter harmonia familiar”, diz dona Tina.

Incrivelmente lúcida e antenada, ela pouco precisa da assessoria da filha Lauzimar durante a entrevista. Sentada pertinho do repórter, ouve praticamente tudo, pouco pedindo para repetir. A audição prejudicada e a dificuldade de locomoção, por sinal, são os únicos sinais evidentes da idade avançada e dos problemas normais por ela provocados. “A saúde é tão boa que só há alguns anos, num exame de ultrassom, foi constatado que mamãe tem só um rim”, diz a filha, garantindo que isso nunca trouxe qualquer complicação.

Dona Tina nasceu em Medeiros, no interior de Barra Velha. Primogênita de 14 filhos do casal Anastácio e Maria Alexandrina, aprendeu cedo a trabalhar para ajudar no sustento da família. “Meu pai tinha uma serraria e um engenho de farinha e açúcar, e todos os filhos trabalhavam, de acordo com o que as forças permitiam.”
A necessidade de trabalhar prejudicou a sequência dos estudos, limitados ao ensino básico, e retardou o casamento de Albertina, que tinha 35 anos quando se uniu em matrimônio a Fermino Souza, cinco anos mais novo. “Moramos durante vinte anos em Medeirinhos, que na época pertencia a Penha, e lá nasceram nossos seis filhos, quatro mulheres e dois homens”, continua relembrando dona Tina, que cuidava de um pequeno comércio, enquanto o marido se dedicava à principal atividade econômica da família, o engenho. “Era uma venda típica do interior, com um lado dedicado ao comércio de necessidades do lar, e a outra ponta do balcão para os homens tomar a pinguinha de todos os dias”, descreve.

 

“A receita para viver bastante é trabalhar enquanto o corpo aguentar, cuidar da saúde e ter harmonia familiar.”

 

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Imagem rara. Primeira foto de dona Albertina, já depois de casada

 

 

Nova vida em Joinville
A necessidade de aumentar a renda e de dar mais oportunidade de estudos para os filhos trouxe a família para Joinville, em 1968. “Sempre moramos aqui no Itaum, e nossa casa foi a segunda construída na rua Guarujá”, conta a centenária senhora, recordando os tempos de “televizinha” na única residência da rua que tinha um televisor. A casa ainda é a mesma, já várias vezes reformada e ampliada; dona Tina mora na frente, com a filha Lauzimar, enquanto outra filha reside nos fundos.

A televisão continua sendo uma de suas distrações preferidas, como conta a filha: “Mamãe tem preferência pelos programas jornalísticos e gosta muito de ler tudo que aparece pela frente”. Viúva há quase 25 anos, preferiu prosseguir sozinha, concentrando atenção e amor na meia dúzia de filhos, 11 netos e 11 bisnetos. De toda essa prole, mais os agregados e os amigos, cerca de duzentas pessoas são esperadas para a festa dos 100 anos, marcada para este sábado, na igreja de Medeiros. Lá, com certeza, entre os convidados estará a amiga Antônia, que Albertina reencontrou recentemente, depois de muitos anos; lembranças não vão faltar, já que a amiga tem 98 anos. Mais uma que logo entra no clube.
Parabéns, dona Tina, e vida longa!


Encantados pelas flores

Jardim. Casal da Vila Dona Francisca cultiva 15 mil metros quadrados exclusivamente para deleite próprio
Fabrício Porto/ND
Moldura. Geni e Norberto Seefeldt moram na mesma casa há 40 anos, desde que se casaram

 

Cercada de árvores por todos os lados, uma casa de linhas sóbrias da Vila Dona Francisca é visitada por turistas do Brasil e do exterior por conta de uma singularidade de rara beleza: centenas de espécies de flores originárias de diversas partes do mundo emolduram o local, enfeitiçando o olhar de qualquer pessoa sintonizada com os encantos da natureza.

O espetáculo se estende por uma área de 15 mil metros quadrados, onde é possível deparar-se com preciosidades como tulipas negras. O soberbo jardim pertence  a Geni e Norberto Seefeldt, casal perdidamente apaixonado por flores desde o verdor da juventude.

Dona Geni e seu Norberto moram no local desde que se casaram há 40 anos. Pais de três filhos (dois homens e uma mulher) e avós de um pequerrucho, os dois fazem o cultivo sem nenhum interesse comercial. “Nunca vendemos nada, fazemos tudo para deliciar nossos olhos”, diz dona Geni com singeleza cativante.

A incansável cultivadora de flores conta que bem antes do casamento ela já era apaixonada por esse tipo de hobby. “Quando começamos a namorar, o meu Norberto se dedicava ao cultivo de orquídeas, detalhe que ajudou a fortalecer nosso amor”, assinala sem conter o riso.

O casal informa que no começo da vida a dois o jardim era um tiquinho de nada, que com o passar do tempo foi sendo ampliado atá ganhar as dimensões atuais.  E os dois garantem que até gostariam de aumentar a área, mas não o farão devido a idade. “Somos dois setentões, está na hora de sossegar o pito”, brinca seu Norberto.

Percorrer o jardim dos Seefeldt é um privilégio de se fazer um agradável passeio por um cenário de cores e matizes de variedade impressionante. Só para ilustrar, além de flores, o jardim se caracteriza também pela presença de plantas ornamentais raras, como bananeira-laranja e gengibrinas de diversas espécies.

Sem maiores conhecimentos sobre botânica, dona Geni se diverte quando lhe perguntam o nome científico de alguma das centenas de flores. “Nós só conhecemos pelo nome popular, mas o que interessa é que sabemos os segredinhos de como se cultiva cada uma dessas belezas”, responde bem humorada.

Contramestre de tecelagem aposentado, seu Norberto se engajou definitivamente no jardim ao deixar de bater o cartão ponto. Ele reconhece que mesmo assim é dona Geni a responsável pela maior parte do trabalho. “De minha parte fico mais no orquidário, enquanto que ela nunca trabalha menos de quatro horas por dia para deixar tudo nos conformes”, diz em tom elogioso.

 

 “Quando começamos a namorar, o meu Norberto se dedicava ao cultivo de orquídeas, detalhe que ajudou a fortalecer nosso amor.”

 

Para além das fronteiras
Descobertos por um senhor joinvilense que mantém contato com pessoas do mundo inteiro aficionadas por flores e plantas ornamentais, dona Geni e seu Norberto já estão acostumados a receber visitantes da Alemanha, Itália, Suiça, Estados Unidos, Uruguai, Chile, Japão, Canadá e por aí afora. “Todos esses estrangeiros elogiam a diversidade do nosso jardim e saem daqui com a máquina carregada de fotos. Isso nos anima a continuar nesse tipo de trabalho enquanto a saúde estiver boa”, avisa dona Geni. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)    


O corpo como moldura

Marcas. Luiz Felipe Ribas encara a tatuagem como parte da história de cada pessoa
Mauro Schlieck/ND
Na própria pele. Luiz Felipe tem mais de 50 tatuagens no corpo

 

 

Mais que um meio de sustento, um estilo de vida, uma forma de transgredir certos padrões da sociedade e seguir um caminho oposto ao de boa parte das pessoas. É dessa forma que o tatuador joinvilense Luiz Felipe Ribas, 24 anos, encara a tatuagem, que conheceu aos 18 anos. Junto com o sócio Nalvan Pereira, que cuida da área administrativa, ele abriu o próprio estúdio há quatro anos, a Corpo Fechado Tattoo Shop. “A tatuagem mudou totalmente a minha vida”, afirma Ribas. Ele lembra que quando teve o primeiro contato queria fazer parte daquilo tudo porque considerava algo diferente, enigmático. No entanto, conta que não entendia o mundo da tatuagem. “Não é só um desenho na pele, tem toda a história por trás, de porque fez isso, o simbolismo”, justifica. A partir daí, Ribas fez contatos e conheceu pessoas do mundo todo.
Mas nem tudo funciona tão bem, pois o preconceito e o estigma que cerca que os tatuadores ainda persiste. “Eu sinto que ando nos lugares e as pessoas pensam que não trabalho, bebo muito ou uso drogas,” lamenta. Ao contrário disso, Ribas é adepto do straight edge, estilo de vida que defende a abstinência de entorpecentes (tabaco, álcool e drogas ilícitas). “Muita gente se surpreende quando eu falo que não bebo e não fumo, porque as pessoas ainda esperam isso, olham e acham que tu és uma coisa,” relata.
Ao mesmo tempo, Ribas defende que a tatuagem não perca a mística e o romantismo. “O legal é olhar para a pessoa e se perguntar o motivo pelo qual fez aquele desenho, o que significa,” comenta.  “Isso que é tatuagem, ver e ficar curioso. Se desmitificar muito, perde a graça,” completa. Até por isso o tatuador acredita que a pessoa precisa estar preparada e pensar bem antes de fazer. “Muita gente vê como estética, mas acho que é muito mais profundo que isso,” alerta.

 

Descoberta de um mundo novo

Quando optou pela profissão de tatuador, Ribas começou a se especializar, fez um curso de desenho e tatuagem em estúdio. Não demorou também para que tivesse o próprio desenho marcado no corpo. Hoje, ele já não sabe mais ao certo quantas tatuagens tem, mas estima que passem de 50. “Quero continuar até não ter mais espaço, mas não tenho pressa,” observa.
Como tinha envolvimento com movimento punk e um estilo de arte mais underground, achou que tatuagem tinha muito a ver com aquele mundo com o qual já estava habituado. “Enquanto me tatuavam pela primeira vez, fiquei pensando: isso é uma coisa legal porque envolve a arte, envolve um trabalho manual,” relembra.
No começo, trabalhava em casa mesmo, tatuando no quarto, até que resolveu abriu a Corpo Fechado. O principal motivo pelo qual Ribas resolveu abrir o próprio estúdio era que ele enxergava uma forma de fazer tatuagem diferente dos outros lugares. “O negócio é de criação, fazer um desenho único e exclusivo para cada cliente que aparece na loja, essa é a minha proposta,” explica. Ele se orgulha de que a Corpo Fechado é a única da cidade a não usar uma pasta-padrão de desenhos. (Alexandre Perger, especial para o Notícias do Dia)


No tempo do cérebro eletrônico

História. Tupy comemora 50 anos da implantação do sistema de informática
Rogério Souza Jr/ND
Pós-aposentadoria. Mário reúne memórias em 11 volumes que abrangem sua história de vida, a trajetória na Tupy, a história da informática em Joinville e a disseminação do conhecimento

 

 

Há cinquenta anos, quando o Brasil ainda engatinhava na era da informática, os gigantescos “cérebros eletrônicos”, como eram chamados os computadores, ocupavam um espaço impensável para quem está habituado aos atuais micros, notebooks e tablets. Em Joinville, a Tupy instalava os primeiros computadores, no que se chamou de “seção IBM”, já que a marca era fornecedora de todos os equipamentos. “Fomos a primeira empresa da cidade a instalar um centro de processamento de dados”, orgulha-se Mário Karsten, hoje aposentado, responsável pela implantação da informática na Tupy, marco que completa 50 anos neste dia 26 de fevereiro.

Nascido em Jaraguá do Sul em 1940, aos 3 anos Mário estava em Rio do Sul, já órfão de pai. Passou por Guaramirim e tinha 10 anos quando sua mãe se estabeleceu em Joinville para trabalhar no Palácio Hotel. “Estudei no Santos Anjos e no Bom Jesus, além de jogar muita bola no campinho velho do Caxias”, relembra, justificando sua paixão pelo alvinegro da zona Sul. Decidido a trabalhar em alguma área administrativa, formou-se técnico contábil e foi trabalhar na Tupy, onde ficou 35 anos. Mais tarde, fez a faculdade de ciências econômicas e pós em administração de empresas. Outro motivo de orgulho é jamais ter faltado um dia sequer ao trabalho. “Na verdade, faltei só no primeiro dia, pois fui registrado em 1º de abril de 1958, um domingo”, brinca.

 

 

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Memória. Na inauguração da seção de informática da Tupy, dia 26 de fevereiro de 1963, aparecem dirigentes da empresa e autoridades, entre eles Raul Schmidt, Gustavo Karmann, João Victor Meinert, Mário Karsten, o advogado Francisco Mascarenhas, Nilson Bender, Heinrich Berg, Wolfgang Voigt e Hermann Metz

 

 

“Fomos a primeira empresa da cidade a instalar um centro de processamento de dados.”

 

De estafeta a diretor
Mário Karsten construiu uma brilhante carreira na Tupy, onde começou como estafeta, o equivalente ao atual office-boy ou contínuo. Três anos depois, embarcava pela primeira vez num avião rumo a São Paulo, para fazer um curso de processamento de dados na IBM, maior marca mundial de computadores na época. “Foi Nilson Bender, então diretor, que demonstrou interesse em implantar um sistema de processamento de dados na Tupy”, dá o crédito.

Depois de dois anos de aperfeiçoamento, no dia 26 de fevereiro de 1963 era inaugurado o CPD da Tupy, sob a coordenação do ex-estafeta, que cita um dos avanços: “No equipamento, todo fornecido pela IBM, destacava-se a impressora, que trabalhava a uma ‘supervelocidade’ de 150 linhas por minuto!” A equipe pioneira liderada por Mário, era composta por Leônidas Jung, Orlando Rosskamp, Lourdes Bolduan, Lucy Krueger e Renate Kreutzer.

Em 1968, com a compra do primeiro computador próprio, a “seção IBM” virou departamento de Processamento de Dados, depois divisão de Sistemas de Processos e, em 1984, divisão de Informática, adaptando a nomenclatura à evolução da informatização. Em 1988, quando Mário Karsten era diretor-gerente, a Tupy terceirizou o serviço, assumido pela Logocenter.

Em 1992, já aposentado, Mário abriu sua própria empresa, a Kamic (iniciais de Karsten, Adriana, Mário, Ivone e Cláudia) Administração, Consultoria e Serviços, encerrada há sete anos. No tempo de Tupy, chegou a presidir a Sucesu-SC (Sociedade dos Usuários de Computadores), organizou a Tecninfo 1990 e participou da criação da Softville e da Assespro (Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação). Foi também professor na Furj (atual Univille) de 1979 a 84.

Hoje, o tempo disponível é dedicado à família, ao tênis (tem até uma quadra ao lado de casa) e à compilação das memórias, que já chegam a 11 alentados volumes, abrangendo sua história de vida, a trajetória na Tupy, a história da informática em Joinville e a disseminação do conhecimento. Além de textos, os volumes reúnem fotos, documentos e recortes de jornais. “Conhecimento = informação + experiência”, resume Mário Karsten, num das tantas frases que fecham cada capítulo.

Perfil sugerido pela leitora Carla Lavina


O teatro como ganha-pão

Ator. Desde 2009, Norberto Deschamps decidiu abandonar o trabalho na indústria para viver apenas da arte
Mauro Schlieck/ND
Trajetória. Norberto ajudou na criação e atua em dois grupos da cidade, o Navegantes da Utopia e o Canto do Povo

 

 

A paixão do ator e diretor Norberto Deschamps é o teatro. Mas, ainda assim, dá para dizer que ele é um homem de muitas profissões. Foi torneiro mecânico, professor e até barman, quase sempre em paralelo com a arte. No entanto, desde 2009 o grande objetivo é conseguir tirar do trabalho nos palcos o sustento, ou seja, viver de teatro. Hoje Norberto atua em dois grupos que ajudou a fundar na cidade: Navegantes da Utopia e o Canto do Povo. Ele atua também como professor, ministrando oficinas no Espaço Cultural da Casa do Iririú e aulas de teatro em escolas. Há ainda os projetos aprovados no Simdec (Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura). Mas ele mesmo afirma que no momento ainda está tentando encontrar o caminho certo para alcançar o principal objetivo e também conseguir uma estabilidade financeira, o que ainda não ocorreu. “Estou tentando encontrar uma forma melhor de garantir a subsistência.”

Depois que se formou em letras pela Univille, Norberto foi professor durante dois anos, mas não se adaptou. A partir daí ele decidiu viver de teatro. A primeira tentativa foi montar algumas peças didáticas e apresentar em escolas públicas e particulares. Como a ideia não teve a adesão necessária, Norberto acabou deixando o projeto um pouco de lado. Mas ele garante que não desistiu, pretende tentar ainda no futuro.

Apesar das dificuldades encontradas pelo caminho, Norberto não se arrepende da escolha que fez e sabe que é isso que quer fazer. “Teatro é algo que eu escolhi, então tenho que arcar com as consequências, mas aparecem muitas coisas boas”, explica. Para ele, o teatro proporciona mais liberdade e aflora a criatividade. “A recompensa é o espírito de liberdade para a criação”, afirma.

Mas, para além dos palcos, Norberto sempre se encantou por vários tipos de arte. Atualmente, participa do projeto “Poesia ao pé da lua”, do Sesc (Serviço Social do Comércio). “Gosto muito de pintura, música, dança e de ler bastante,” observa.

 

“Teatro é algo que eu escolhi, então tenho que arcar com as consequências, mas aparecem muitas coisas boas.”

 

Do interior para os palcos de Joinville
Norberto teve o primeiro contato com as artes cênicas quando participava de um grupo de jovens e atuava em algumas dramatizações. “Quando era mais novo nunca imaginei que um dia eu iria trabalhar com teatro, até porque morava no interior, não tinha quase contato com arte,” recorda Norberto.

Foi a partir do primeiro curso, na Casa da Cultura, que o diretor pegou gosto e não abandonou os palcos, apesar de precisar conciliar com o trabalho na indústria. Uma das primeiras experiências foi com dramatizações infantis, depois montou algumas peças e ajudou a fundar o grupo Navegantes da Utopia. Em 2002, entrou na faculdade de Letras e voltou fazer o curso da Companhia de Teatro de Repertório da Univille. (Alexandre Perger, especial para o Notícias do Dia)


A Dinha tem tempo para tudo

Fórmula. Ao completar 75 anos, Bernardina Aguiar da Cunha conta como encontrou tempo para criar nove filhos, administrar a casa e estudar
Rogério Souza Jr./ND
Alto astral. Dinha mostra foto que reúne a família

 

 

“Aqui tem gente feliz.” O pequeno quadro na parede revela o espírito que reina no sobrado cor-de-rosa de Bernardina Aguiar da Cunha. Felicidade que se renova hoje, quando a Dinha, como é carinhosamente chamada, cheia de saúde e energia, recebe a numerosa família e amigos para brindar os seus 75 anos.

Nascida em Guaramirim, Dinha é a décima entre os 13 filhos do bananicultor Perfeito Manoel de Aguiar – o pai de nome peculiar vem de uma família que tem vários “Perfeito” e até “Prefeito” e emprestou seu nome ao extinto Parque Agropecuário daquele município, demolido no ano passado para dar lugar ao futuro Cedup (Centro de Educação Profissionalizante), que está em obras. Em tempo, os dois sobrinhos dela, batizados de Prefeito, foram realmente prefeitos de Guaramirim.

Dinha mora desde 1971 na mesma região do bairro Boa Vista, em Joinville, onde se instalou com o marido já falecido, José Nilo da Cunha, e os nove filhos. Quem a visita hoje na rua Franklin Roosevelt, no movimentado bairro, precisa de boa dose de imaginação para voltar ao tempo em que a rua era apenas uma picada e a própria avenida Albano Schmidt, uma estrada de barro. Da ponte do Trabalhador, então, não havia sequer projeto. Foi neste cenário de isolamento que Dinha e Nilo, com muita disposição e nenhum dinheiro, abriram o primeiro estabelecimento comercial da região, uma mercearia, e deram sequência à luta pelo sonho de dar melhores oportunidades de estudo e um futuro para os filhos.

A experiência com comércio, eles já traziam da terra natal, onde depois do casamento, em 1958, enquanto José Nilo trabalhava como pedreiro, ela cuidava de uma mercearia, enquanto a prole crescia. Ela mesma ri quando lembra que num período de oito anos teve sete filhos. Depois de uma pausa de uns quatro anos, encerrou com dose dupla – um casal de gêmeos.

Os nomes dos filhos merecem um capítulo à parte. Todos são duplos. E a mãe tem uma explicação. O padre Mathias Stein, que hoje empresta seu nome ao hospital de Guaramirim, só aceitava batizar as crianças se elas tivessem nome de santo. E a católica Dinha não se fez de rogada. Uniu o nome que escolheu para os filhos a um de santo, e aí surgiram: Nair Terezinha, 53 anos; Maria Salete, 52; Rosilene Inês, 51; Sônia Regina, 50; Eliane Bernadete, 48; Carmem Lúcia, 47; José Roberto, 46; e o casal de gêmeos Márcio José e Márcia Maria, 42.

Aos nove filhos, hoje são acrescentados 20 netos e cinco bisnetos. Todos orbitam em torno de Dinha. Uma mulher classificada pelo filho José Roberto como enérgica, brigona, exigente, impaciente e muito, mas muito,agregadora e alto astral. E é esta energia que impressionaem Dinha. Além de educar os nove filhos e tocar a mercearia, ela ainda ajudou o marido José Nilo a abrir a Empreiteira Cunha, que como terceirizada da Construtora Stein, ergueu a rodoviária de Joinville, a Embraco e parte da Tupy, entre outros grandes empreendimentos.

 

A união da fé e do saber

Seu perfil religioso fez com que entre os anos de 1976 e 2002 atuasse como catequista na Igreja São Sebastião, do Iririú, e por muitos anos também assumisse a função de coordenadora diocesana e depois da Pastoral da Terceira Idade. Dinha também encontrou tempo para integrar, em 1993, a primeira turma da 3ª Idade da Univille, um divertido grupo que se encontra mensalmente até para bons bate-papos.

Viúva desde março de 1985, quando José Nilo morreu precocemente de um ataque cardíaco, por mais um tempo ela ainda assumiu a direção da empreiteira, comandando mais 27 empregados. Com o tempo, acabou fechando. E arrumou mais tempo ainda para outras atividades, incluindo a ginástica, que faz há 19 anos. À ela, atribui a boa saúde e o controle da hipertensão.

Sempre bem-disposta, Dinha ainda arruma tempo para congregar as famílias Aguiar, dela, e Cunha, do marido, em encontros anuais realizados pela região. Como lazer, não dispensa rodadas semanais de canastra com dois grupos distintos, também adora ir à missa, viajar e ir à praia.

Planos para o futuro? Chegar aos 80, aos 85, e aproveitar intensamente todos os momentos da vida, dirigindo seu próprio carro – ela aprendeu a dirigir aos 40 - e seus passos.  “Só que ela gosta de afundar o pé”, entrega o filho, que é fiscal de trânsito. (Rosana Ritta, especial para o Notícias do Dia)


A inquietação de um pioneiro

Agricultor da Estrada Quiriri que iniciou o plantio da espécie pupunha também foi um dos primeiros a optar pela industrialização do palmito
Fabrício Porto/ND
Roça. Wigando Voigt percorre a plantação de pupunha que mantém na propriedade localizada em Pirabeiraba

 

 

Morador do começo da Estrada Quiriri, onde nasceu há 75 anos, Wigando Voigt é dono de uma biografia marcante no contexto da história daquela bucólica comunidade do distrito de Pirabeiraba. Agricultor a vida inteira, até completar 60 anos ele se dedicou à produção de bananas e verduras, tendo sempre ao seu lado a esposa Agnes, com a qual tem um casal de filhos, dos quais vieram quatro netos.

Em 1997 ele desativou as lavouras tradicionais para se tornar o pioneiro em Joinville do cultivo de palmeira pupunha, espécie nativa da Amazônia. Hoje, além de produtor de pupunha, Wigando é também um dos pioneiros do processo de industrialização da espécie. Em parceria com o neto Eduardo Voitg Camargo, ele abriu a Voigt Alimentos, onde os palmitos são beneficiados para abastecer o mercado de Joinville e outras cidades da região.

Homem de grande popularidade, Wigando foi, ao lado da mulher Agnes, um dos fundadores do grupo de danças folclóricas Silberfluss, pelo qual posteriormente os filhos também tiveram passagem como dançarinos. De quebra, na juventude Wigando foi um dos mais conhecidos armeiros do Quiriri e arredores. Especialista no conserto de espingardas de qualquer calibre, ele conta que se manteve na atividade por mais de duas décadas.

O curioso dessa história de armeiro é que Wigando aprendeu o ofício sozinho e explica em poucas palavras como isso aconteceu. “Na época da minha juventude, caçar no inverno era a diversão da maioria dos colonos. Como na nossa região não existia nenhum armeiro, cada vez que uma espingarda enguiçava dava um trabalho danado para ir fazer o conserto na cidade. Aí, curioso comecei a mexer em armas escangalhadas e aprendi a fazer a recuperação”, recorda bem humorado.

Além de fazer consertos, Wigando foi mais longe no ofício de armeiro: fabricava agulhas, entalhas coronhas e com o uso de ácidos oxidava espingarda para resguardá-las da ação de ferrugens. “As espingardas saiam das fábricas sem tratamento preventivo contra ferrugem e por isso estragavam facilmente. Com a oxidação, resolvi o problema da maioria das espingardas da região,” diz com uma pontinha de orgulho.

 

“As espingardas saiam das fábricas sem tratamento preventivo contra ferrugem e por isso estragavam facilmente. Com a oxidação, resolvi o problema.”

 

Consciência coletiva
Wigando recorda que a caça era praticada somente entre 15 de maio até o começo de agosto. “Assim que os passarinhos começaram a piar para se acasalar, as espingardas eram guardas e só voltavam para o mato no inverno seguinte; havia uma conscientização geral sobre a importância de se respeitar o ciclo da procriação a fim de não acabar com a fauna,” enfatiza.

No tempo que Wigando foi armeiro, a caça era inteiramente livre, bem como a compra de munição. A única exigência das autoridades era fazer o registro na delegacia quando se comprava uma arma nova. Como a caça era livre, nos fins de semana era comum encontrar nas vendas do meio rural de Joinville caçadores com a espingarda às costas e passarinhos pendurados na cintura. “Os caçadores entravam nas vendas com a desculpa de beber um trago; na verdade queriam mostrar seus troféus de caça,” lembra o espirituoso Wigando. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Perfil: Hênia Locks, pedagoga que há mais de 20 anos ensina e luta pelos direitos dos professores


Rogério Souza Jr./ND
Sonho de ser professora começou desde quando Hênia era criança, em Tubarão, onde nasceu

 

 

Com pouco mais de 25 anos de carreira e 50 de idade, a pedagoga Hênia Locks já fez praticamente de tudo na área da educação. Passou pela sala de aula, pelo movimento sindical, comandou greves e hoje é diretora da escola estadual Monsenhor Sebastião Scarzello. Ela também conheceu o marido, Mauri Matos de Freitas, no sindicato e hoje as duas filhas trabalham com educação.

Mesmo fora do movimento sindical desde 2010, Hênia não esquece dos aprendizados dos anos de luta. “Essa experiência foi muito importante para mim por vários motivos, um deles é a questão da justiça, sempre procuro ser justa e hoje passo isso para os professores”, conta. Além disso, o sindicato acrescentou muito em conteúdo sobre legislação e também a conhecer outras realidades, já que visitou muitas escolas durante o período em que foi dirigente sindical. “Foi muito rico, porque é uma oportunidade de conhecer as escolas de todo o Estado e a cultura desses lugares”, lembra.

Enquanto dirigente do sindicato, Hênia subiu algumas vezes em caminhões para liderar greves e boa parte do espírito de liderança que adquiriu durante o tempo, ela afirma que aprendeu com o marido, que também participou de muitas lutas pela educação. “Nós aprendemos que o indivíduo tem o perfil de líder ou constrói e meu marido me ensinou muita coisa no movimento sindical”, diz.

Toda a bagagem do sindicato e de outras experiências, Hênia procura levar para a vida, o que ajuda em outras atividades, como na gestão de uma escola. “Tudo isso que eu já fiz sempre me acrescentou, tanto que como diretora, nos problemas da escola eu procurei chamei o professor e conversar”, ressalta.

Após ter assumido a gestão da escola, Hênia conta que foi muito questionada do motivo pelo qual saiu do sindicato e foi para a direção. “Indiferente ao lugar que ocupa, sempre pode fazer muito pelo outro, sempre trabalhando dentro dos princípios e da legalidade”, declara. Ela faz questão de afirmar que “não é gestora, mas está gestora.”

 

Sonho de criança e luta sindical

 

O sonho de ser professora nasceu ainda quando criança, em Tubarão, cidade natal de Hênia. Quando adolescente, fez o ensino médio no magistério e começou a dar aulas. Em 1991, fez concurso, se efetivou como professora do Estado e foi para Caçador, onde trabalhou durante dois anos. Foi no Oeste do Estado que ela teve uma das experiências mais marcantes da carreira, dando aula para uma turma multisseriada em comunidade rural. “Foi incrível, aprendi muito com eles, com a cultura”, lembra. De lá, Hênia voltou para Tubarão, onde ficou até 1998.

A história da pedagoga com o Sinte (Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Santa Catarina) começou em 1995, ainda no Sul do Estado, em Tubarão. Três anos depois, ela concorreu a uma das chapas indicada como liderança regional, venceu e foi morar em Florianópolis. Nesse período, Hênia conheceu o marido, que é de Joinville e também atuava como líder sindical e estava na mesma chapa. Os dois ficaram na capital até 2001, quando terminou o mandato.

Com isso, o casal veio para Joinville, onde logo em seguida começaram a militar no Sinte regional. Em 2004, Hênia concorreu à presidência da entidade e venceu, permanecendo no cargo até 2010.

Atualmente, ela está terminando a faculdade de psicologia, depois de ter se formado em dois cursos de pedagogia, feito uma pós-graduação e mestrado em psicopedagogia. A psicologia virou a paixão de Hênia, porque ela também utilizado muito no trabalho com educação.

A educação está no sangue da família. Uma das filhas, Ana Paula Locks Fernandes, 31 anos, também é pedagoga e trabalhou com a mãe em sala de aula. A outra, Marília Locks Fernandes, 28 anos, é naturóloga e professora universitária.


Conheça Marilene, a manicure e corredora que começou no esporte aos 11 anos e não quer mais parar


Rogério Souza Jr./ND
Na sala de casa, com vários trofeus, Marilene mostra o da 4ª Maratona Cidade de Pomerode, conquistado em 2011

 

As prateleiras de casa estão repletas de troféus. São aproximadamente 500, conquistados ao longo de 30 anos dedicados à corrida de rua. A manicure Marilene Koball, aos 39 anos de idade, não se imagina longe do esporte que adotou para competir, manter a forma e deixar a saúde em dia. É uma paixão inspirada no irmão mais velho e que contagia o resto da família, passando pela mãe, Zedir Koball, 62 anos, e filha, Débora Koball, 22 anos.
Os treinamentos ocorrem diariamente, pela manhã, durando cerca de uma hora. A distância percorrida varia entre 12 e 15 quilômetros, sempre junto com a mãe, a grande companheira nas corridas. “Nós sempre estamos juntas, sempre vão me ver com ela correndo”, conta. Geralmente, os trajetos incluem as ruas vizinhas, no loteamento Jardim Franciele, no bairro Aventureiro. Mas, às vezes, as duas ousam um pouco mais e vão até a praia da Vigorelli correndo. O marido, o tecelão Ismael Vicente Amorim, 42 anos, não corre, mas incentiva a esposa e sempre a leva nos lugares quando necessário.
Há cerca de quatro anos, Marilene descobriu que estava com câncer de mama e precisou parar de correr. A pausa completa durou um ano, o período mais intenso do tratamento. Logo depois, já agoniada e ansiosa para voltar ao esporte, começou a correr novamente. Segundo ela, isso a ajudou muito na cura, tanto que o próprio médico reconheceu. A corrida também ajudou a manicure a eliminar os 20 quilos que ela ganhou durante o tratamento. Daqui para frente, pretende correr até quando puder e tiver forças para isso.
Depois que se curou do câncer, Marilene corre apenas para manter o físico e a saúde, não entra mais nas competições como antes. Além disso, ela acompanha a mãe pelo Estado. Já estiveram em cidades como Pomerode e Blumenau. Agora, estão se preparando para ir a Mafra no dia 17 de fevereiro. O irmão da manicure, Gilialdo Koball, 27 anos, é corredor de elite e vive do esporte, serve como incentivo à família.

Chegada em Joinville

Nascida em Rio do Sul, Marilene veio para Joinville há cerca de 30 anos. Primeiro, ela correu dos 11 aos 14 anos, participou dos joguinhos escolares. A inspiração veio do irmão mais velho, Gilberto Koball, 45. Ela voltou ao esporte aos 30 anos e só parou mesmo por causa da doença. Como manicure, trabalha há 16 anos no mesmo salão de beleza, perto de casa, dividindo o trabalho com o esporte. A mãe começou a correr aos 50 anos de idade, para ajudar a tratar um problema de saúde. Desde então não parou mais. Já participou de 12 maratonas e também corre todos os dias.


Macedônio Goce Veljanoski está há um ano em Joinville e já abriu um café na Rua das Palmeiras


Fabrício Porto/ND
Além de se familiarizar com o idioma e abrir o Frankfurt Espresso Bar, Goce Veljanoski procurou conhecer mais sobre a cidade e a sua história

 

 

Há um ano, após se casar com a brasileira Luciane Rodrigues Alves, 27 anos, o economista macedônio Goce Veljanoski, 25, precisou tomar uma decisão. Eram três as opções: voltar para a Macedônia (na Europa), ficar no Canadá, onde estudou inglês, ou vir para o Brasil, terra natal da esposa. Ele escolheu a terceira opção e, desde então, mora em Joinville, perto dos sogros. Apaixonado por café, abriu o Frankfurt Espresso Bar, localizado em um dos principais pontos turísticos de Joinville, a Rua das Palmeiras.
Na nova cidade, o principal problema encontrado foi o idioma. Sem falar praticamente nada em português, precisou aprender no dia a dia. “Acompanhei as obras da cafeteria e tinha que conversar com as pessoas”, lembra Goce. Além disso, ele procurou livros, dicionários e estudou bastante para chegar ao nível em que está hoje, praticamente fluente, sem esconder o sotaque e tropeçando ainda em algumas palavras.
Passada a dificuldade com o idioma, Goce pretende conhecer ainda mais Joinville, o povo, a cultura local, o modo de viver e a história. Para isso, andou pesquisando sobre a Rua das Palmeiras, visitou o Museu de Imigração e saiu para conhecer a cidade, principalmente restaurantes e outras cafeterias. Fez alguns amigos e está cada vez melhor adaptado à nova realidade. “Os pais da minha esposa ajudaram bastante, deram muito suporte”, conta Veljanoski.
Em relação à cultura, o empresário diz não ter tido dificuldades, pois vê muitas semelhanças entre o povo brasileiro e o macedônio. “No Brasil, as pessoas são mais receptivas e na Macedônia também é assim, por isso foi mais fácil eu me adaptar aqui do que no Canadá, onde o povo é mais frio”, compara.

Após três meses, muita expectativa

A cafeteria surgiu porque Goce sentiu que precisava trabalhar. Como sempre gostou de café e, no começo, não encontrou nenhum bom espresso, resolveu abrir o próprio espaço. “Pensei em abrir uma cafeteria para vender o bom café, o espresso. Mas depois, eu descobri outros lugares que fazem bom café”, relembra. Desde o começo, a esposa sempre ajudou, cuidando da parte administrativa.
O empreendimento funciona há três meses, mas Goce afirma que está crescendo, as pessoas estão conhecendo e a expectativa é de que nos próximos meses aumente a clientela. A maior preocupação do empresário é oferecer um produto de qualidade e ajudar a desenvolver ainda mais a cultura do café espresso em Joinville, para que as pessoas conheçam e saibam diferenciar.
Segundo ele, na Macedônia é comum encontrar cafeterias e o café espresso é um produto bastante popular. “Muitos aqui vendem como se fosse um café especial, mas para mim é normal, é como se fosse café comum”, diz.

Preocupação dos pais

Em Gostivar, na Macedônia, onde morava, estudou economia por quatro anos e logo foi para o Canadá estudar inglês e rever alguns parentes, principalmente o irmão. Goce conheceu a esposa porque ela é amiga da cunhada e assim os dois foram apresentados. Com isso, fez algumas visitas ao Brasil, conhecendo o Rio de Janeiro. No começo, quando o empresário veio para Joinville, os pais ficaram um pouco preocupados, pois não conheciam o Brasil e temiam a distância de 12 mil quilômetros que os separariam. Mas, depois, eles o apoiaram.


Em Guamiranga, há meio século, tocar o sino da igreja é missão de Harry Klemz


Fabrício Porto/ND
 O cuidado de Harry e Ema com a igreja luterana rendeu a ele até placa em homenagem aos 40 anos de trabalho voluntário

Nos dias de hoje, com os anos pesando sobre o corpo, a melhor distração é sentar-se à generosa sombra da frondosa árvore, uma das tantas que cresceram em torno da casa e da igreja tão zelosamente cuidada. O cenário campestre é típico da pequena localidade de Guamiranga, no interior da igualmente aconchegante Guaramirim. Lá no alto da colina, durante 50 anos Harry Klemz cumpriu sua missão como zelador da igreja luterana, mantendo-a sempre pronta para receber os fiéis e puxando a corda para tocar o sino, seja chamando alegremente para os cultos, seja dobrando tristes lamentos por alguém que partiu desta vida. “Durante 50 anos, dei minha colaboração tocando o sino, mas agora a idade está pesando e a tarefa fica para os mais novos”, diz o opa Harry, sempre demonstrando a satisfação pelo dever cumprido.
Mas quem disse que é fácil deixar antigos hábitos? Na hora de fazer algumas fotos, onde está a chave da igreja? No bolso da calça, onde passou a maior parte do último meio século. O motivo é simples: “Neste mês, já toquei o sino para dois velórios”, arremata o eterno zelador, sem demonstrar a menor contrariedade, mas satisfeito em poder continuar sendo útil.Como reconhecimento à sua dedicação, no ano passado a comunidade luterana presenteou Harry Klemz com uma placa lembrando os 50 anos de trabalho voluntário.
Primogênito de oito irmãos, Harry nasceu em 1929, na localidade de Bananal do Sul, quando o próprio município de Guaramirim se chamava Bananal e era distrito de Joinville. Plantando arroz, milho e aipim, entre outras culturas, passou a vida na roça, morando algum tempo em Benjamin Constant, localidade do vizinho município de Massaranduba.
Neto de alemães, Harry manteve as tradições ancestrais, dedicando-se ao trabalho duro no campo e à fé religiosa, na igreja luterana.

Vizinho da igreja

Há 53 anos, Harry construiu sua casa lá no alto do morro, ao lado da igreja luterana de Guamiranga. Foi quando ele se casou com Ema Schuchardt, 12 anos mais nova, também vinda de uma tradicional família de agricultores de Guaramirim (um dos seus irmãos, Ari Schuchardt, manteve durante muitos anos uma quitanda na avenida Getúlio Vargas, em Joinville). Dona Ema, assim como a neta Pricila, auxilia durante a entrevista, pois a audição do opa não ajuda muito. “Ele entende melhor se a gente fala em alemão”, explica a oma, executando o papel de “intérprete” em alguns momentos.
A velha casa foi substituída por outra, mais moderna e confortável. Os vizinhos são alguns dos oito filhos, 23 netos e três bisnetos que formam a prole. A própria Ema, por sinal, foi zeladora da igreja por 40 anos e admite: “Tá difícil arranjar outro zelador, por isso o Harry continua tocando o sino.”
Talvez, logo a comunidade luterana arranje um substituto. De qualquer maneira, os moradores de Guamiranga – sejam ou não luteranos – sempre vão se lembrar do opa Harry quando ouvirem os sinos tocando, chamando os fiéis para o culto, anunciando mais um casamento ou chorando por alguém que se foi. Um trabalho feito com muita satisfação – ou, como diria em alemão o opa Harry, “mit viel befriedigung.”


Ex-goleiro, Alcides Cristofolini faz parte da história do futebol amador de Joinville


Fabrício Porto/ND
Dos campos e quadras, Alcides hoje presta serviço de instrutor de trânsito

Até os anos de 1960, a história da maioria dos goleiros, profissionais ou amadores, começava quase sempre do mesmo jeito. Considerados pernas-de-pau, eles eram simplesmente empurrados pelos companheiros para debaixo das traves.
Este não foi o caso de Alcides Cristofolini. Nascido há 65 anos em Rodeio, uma das cidades mais italianas de Santa Catarina, ele descobriu o gosto pela posição, considerada a mais ingrata do futebol, em 1962, quando estudava no seminário de Taió.
 “Belo dia, faltou goleiro num treino e eu, voluntariamente, fui para a posição e descobri que levava jeito para a coisa”, conta Alcides, ao se lembrar de defesas (espetaculares, na opinião dos colegas de internato) que fez naquele inesquecível treino.
 Semanas mais tarde, Alcides foi efetivado titular do time principal do seminário, posição na qual se garantiu até meados de 1965, quando desistiu da carreira eclesiástica e se mudou para Joinville.
Nos primeiros anos na cidade, embora com saudade das traves, ele ficou longe do futebol. “Em 1966, servi o Exército, de onde saí como terceiro sargento, e tive pouco tempo para jogar. Depois, de 1967 a 1969,  trabalhei na Drogaria e Farmácia Catarinense, onde não tinha time de futebol, e por isso continuei longe da bola”, esclarece.
O retorno ao esporte ocorreu em 1969, quando Alcides foi trabalhar na Cia Hansen Industrial, onde virou o titular de um dos times de futebol de salão que disputavam o torneio interno da empresa.
Sempre titular, em 1974, ele foi transferido para a Transportadora Rodotigre, do mesmo grupo da Cia Hansen Industrial, onde foi recebido com abraços e a camisa número 1 do time de futebol de salão. “Defendi, então, o time da Rodotigre de 1974 até o começo de 1990, quando os torneios internos começaram a perder força. Mas, mesmo assim, posteriormente continuei debaixo das traves, defendendo um time de amigos até completar 55 anos de idade, quando então pendurei as luvas”, relata o veterano goleiro.
Simpático e comunicativo, Alcides ressalta que nunca ganhou um centavo para jogar futebol e futsal.  “Mas ganhei mais que dinheiro, consegui fazer grandes amigos, com os quais me relaciono muito bem até hoje”, destaca.

Trabalho voluntário

Depois de aposentado, Alcides foi diretor-secretário do Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville pelo período de quatro anos. Com longa experiência na Rodotigre como agente operacional da equipe de motoristas, paralelamente, acumulou o trabalho de recrutador de novos motoristas para a corporação. “Foi um trabalho voluntário gratificante, do qual sinto saudade até hoje”, assinala.
Casado com dona Maria há 42 anos, pai de dois rapazes e uma moça e avô de dois pequerruchos, Alcides não se  acomodou com a aposentadoria. Na condição de autônomo, hoje ele presta serviço de instrutor de trânsito para o Setracajo (Sindicato das Empresas de Transporte de Joinville). “A experiência acumulada no tempo da Transportadora Rodotigre me permite continuar na ativa”, comemora o ex-goleiro do futebol autenticamente amador.


Edson Maffezzolli uniu a pediatria a outras especialidades médicas, sempre se aperfeiçoando


Carlos Junior/ND
Uma contaminação no organismo levou o médico a se aprimorar em outras especialidades

Prestes a completar 40 anos de trabalho em Joinville, conceituado como pediatra, o médico Edson Maffezzolli estendeu sua atuação a outros segmentos da medicina, movido por uma necessidade própria e pela sede de conhecimento. “Hoje, atendo desde bebês até idosos, sempre visando o alvo principal, que é a prevenção. É melhor não ter a doença do que tratá-la”, diz o médico, estampando na fachada de sua clínica as especialidades de pediatria, nutrologia e medicina ortomolecular.
Pode até soar espantoso, mas a medicina não era a vocação deste corupaense nascido em 1948, orgulhoso das raízes: “Meu avô, que veio da Itália, era um conceituado escultor em madeira. Ele fez, por exemplo, todas as imagens do santuário de Azambuja, em Brusque.”
Filho único de um comerciante de frutas, Edson com certeza seria funcionário ou sócio do pai: “Ele queria que eu dirigisse o caminhão da quitanda.”
Só que o então guri colocou outro objetivo na cabeça: morar em Joinville. Ele explica: “Eu queria ser escoteiro, mas, como era muito novo e o grupo de Corupá não tinha lobinhos, virei mascote. Num encontro de escoteiros em Joinville, conheci a Rua das Palmeiras e me apaixonei pela cidade.”
Seu destino, porém, poderia ser Jaraguá do Sul, onde fez o ginásio, ou Curitiba, sua moradia por uma década, do segundo grau à faculdade. “Fiz o ensino médio num colégio marista de Curitiba, que oferecia duas turmas: medicina e engenharia. Escolhi medicina”, conta Maffezzolli, que passou logo no primeiro vestibular para a faculdade de medicina da Universidade Federal do Paraná, concluída em 1972.

Opção pela pediatria

“Na faculdade, fiz todas as especializações possíveis, mas optei pela pediatria influenciado por colegas do círculo mais próximo, aqueles com quem sempre estudava e fazia os trabalhos em equipe. Durante a residência, eu era conhecido como ‘rato de hospital’, pois me metia em todos os setores do Hospital das Clínicas.”
Formado e já casado, seu primeiro emprego foi no então recém-inaugurado Hospital Bom Jesus, em Araquari. Poucos meses depois, já clinicava em Joinville, num espaço cedido pelo médico Gerd Baggenstoss, a quem não se cansa de mostrar gratidão. Mais tarde, associou-se a outros médicos na primeira clínica pediátrica de Joinville, na rua Itajaí. “Na época, houve uma séria crise de meningite na cidade, exigindo muito dos pediatras.”
Finalmente, em 1980, Maffezzolli abriu sua Clínica da Criança, na rua Professora Laura Andrade, a travessa que liga as ruas Abdon Batista e Ministro Calógeras. Uma surpresa foi a quantidade de pessoas que vinham de longe, como Pirabeiraba e Rio Bonito, em busca de seus serviços. “Descobri que o Marco Antonio falava da minha clínica no programa de rádio dele”, conta, referindo-se ao radialista Marco Antonio Peixer, também nascido em Corupá.
A busca por novas especialidades surgiu quando Maffezzolli começou a sentir uma fraqueza inexplicável. “Depois de cair na rua, fui em busca de respostas para o problema e descobri que meu organismo estava envenenado por mercúrio-cromo, devido aos muitos anos manipulando a substância, antes que fosse praticamente banida. Meu interesse levou-me a buscar novas especializações e fiz cursos de medicina ortomolecular, nutrologia, fitomedicina e medicina quântica.”
Tudo isso exigiu a abertura de um novo consultório, no outro lado da mesma rua Laura Andrade. Um dos fundadores das Sociedades Joinvilense e Catarinense de Pediatria, com participações como palestrante em simpósios e congressos, Edson Maffezzolli faz questão de destacar o balanço favorável destas quatro décadas de carreira. Outra satisfação é ver o filho Pietro na faculdade de medicina. Tudo para que, nos finais de semana, monte em sua possante motocicleta e saia por aí, culminando com uma grande viagem que faz anualmente.


Casal completa 75 anos de casamento em Joinville

Bodas de Diamante. Herbert e Ilse Schmalz mostram o quanto pode ser simples a convivência baseada no amor e no respeito mútuos
Carlos Junior/ND
Carlos Junior/ND
Aos 98 anos, Herbert renovou recentemente sua carteira de motorista e Ilse continua deixando a casa "um brinco"

Neste sábado tem fes­ta familiar das boas em Pirabeiraba. Para comemorar os 75 anos de enlace matrimonial, que ocorre na terça-feira (29), o casal Herbert e Ilse Schmalz vai recepcionar, no Restaurante Rud­nick, cerca de uma centena de pes­soas, entre parentes e amigos.

Simpáticos, lúcidos e cheios de saúde, Herbert e Ilse têm mo­tivos de sobra para comemorar as Bodas de Diamante. Ele, aos 98 anos de idade, renovou recen­temente a carteira de motorista para continuar a fazer passeios em Pirabeiraba e cercanias, sem­pre ao lado de sua amada. Ela, aos 92 anos, toma conta da casa com uma disposição de fazer in­veja a muita mulher com menos da metade de sua idade.

Herbert e Ilse contam que se casaram no dia 29 de janeiro de 1938, após um namoro que teve início numa festa da comunidade luterana para arrecadar fundos destinados à construção da antiga sede do Ansionato Bethesda.

Quando se casaram, Herbert era mecânico de automóveis e dona Ilse, do lar. Pouco tempo depois, o jovem casal entrou para o ramo do comércio ao abrir um secos e molhados na vila de Rio Bonito. Depois de dez anos, eles transferiram as instalações para a Estrada do Oeste, onde ficaram 15 anos. Ato seguinte, sempre no ramo comercial, trabalharam mais dez anos em Guaratuba, onde mo­raram por quase três décadas.

De retorno ao distrito de Pira­beiraba há mais de 20 anos, Her­bert e Ilse se estabeleceram na rua Conselheiro Pedreira, onde, ape­sar de entrados na idade, levam a vida totalmente independentes.

“Temos três filhas e um filho, sete netos e sete bisnetos e todos estão prontos para ajudar. Mas, por enquanto, graças a Deus, te­mos saúde para ir tocando as coi­sas sem precisar incomodar nin­guém”, comenta dona Ilse.

O casal atribui à genética de suas famílias e à moderação a lon­gevidade de ambos. “Nunca fomos de fazer extravagâncias na mesa e no copo”, ressalta seu Herbert, de­satando uma boa risada.

 Amor e paciência

Essas são as bases indispensáveis para um longo e harmonioso relacionamento, afirma dona Ilse. “Tem muito casal que sobe ao altar movido pelo mais puro amor. Mas aí, falta paciência dos dois lados e tudo acaba rápido, como fogo de palha. A falta de paciência é o principal motivo de tantas separações”, reforça a veneranda senhora de Pirabeiraba.

Amor é o que nunca faltou entre o casal Schmalz. Já a paciência, eles souberam cultivá-la com sabedoria. “O meu Herbert era de sair muito e eu, ao contrário, bem caseira. Fazer o quê? Amarrá-lo dentro de casa é que não dava, então, comecei a acompanhá-lo em suas saídas. Ele, por sua vez, entendeu meu jeito e tratou de diminuir as saídas. Foi assim que nosso amor cresceu e continua muito do vivo até hoje”, garante a disposta e espirituosa Ilse.


Solidariedade sem fronteiras

Voluntário. Joinvilense trabalha pela educação em Angola e no sertão do Piauí
Fabrício Porto/ND
Uma boa causa. Pascoal vende camisetas para ajudar nos projetos que desenvolve no Nordeste do país

 

 

Ao iniciar o seu ano sabático, um período em que o indivíduo se dedica a aprofundar o relacionamento consigo próprio, Roberto Pascoal de França sequer imaginava que passaria longe da visada introspecção a que se propunha. Pelo contrário: foi então que ele percebeu o verdadeiro sentido da palavra “solidariedade”, ao conhecer a difícil realidade do povo angolano e sua longa jornada rumo à reconstrução de uma nação, após anos de penosa guerra civil. “Quando conheci a fundo o sofrimento dos angolanos, mudei completamente meu planejamento de vida, colocando-me como uma espécie de missionário a serviço da educação”, conta Pascoal, atualmente em férias em Joinville, antes de reiniciar seu trabalho voluntário.

Roberto Pascoal viu sua vida dar muitas guinadas desde que nasceu, há 32 anos, no bairro Guanabara. “Se dependesse do desejo do meu pai, eu hoje certamente seria engenheiro em alguma grande empresa da cidade. Cheguei até a iniciar o curso técnico em materiais na Escola Técnica Tupy, mas desisti quando tive a certeza de que minha vocação estava no caminho das ciências humanas e não das exatas.” Esta opção o levou a fazer a faculdade de publicidade e propaganda e construir uma carreira na área comercial em emissoras de TV e rádio de Joinville. Estava na Jovem Pan FM quando decidiu, em 2009, partir para o tal ano sabático, disposto a conhecer mais o próprio Roberto Pascoal, além do que o espelho mostrava diariamente.

“Em 2007”, conta, “já havia peregrinado pelo caminho de Santiago de Compostela, retornando à Europa no ano seguinte. Em 2009 escolhi Angola, onde o objetivo era ficar seis meses. Estou lá até hoje.” Experiência em voluntariado não faltava: “Em Joinville, colaborei com os Lares Emanuel e Mãe Abigail e ajudei a organizar o Yakisoba dos Bombeiros Mirins, quando atuava na Acij Jovem. Em Angola, porém, a extrema pobreza me comoveu”. Pascoal passou a atuar como representante comercial e ofereceu-se como voluntário numa missão católica coordenada pela Ordem dos Frades Menores, uma congregação franciscana. “Foquei meu trabalho na evangelização e na educação”, conta Pascoal, grato ao amigo Fábio Rivero, ex-presidente da Acij Jovem que o ajudou no início, e à Univille, que manda um professor e um aluno periodicamente para dar aulas a crianças das cidades de Luanda e Viana. Outro projeto, chamado Bola da Paz, beneficia 300 crianças, que frequentam uma escolinha de futebol quando não estão em aula.

 

Quando conheci a fundo o sofrimento dos angolanos, mudei completamente meu planejamento de vida, colocando-me como uma espécie de missionário a serviço da educação.”

 

Escolas para o sertão
Em setembro do ano passado, Pascoal foi surpreendido com uma ligação do interior do Piauí, pedindo para levar sua experiência de educação ao sertão. E lá foi ele, para o interior do estado mais pobre do Brasil, onde criou o projeto Escolas do Sertão. “O projeto levou uma escola à cidade de Amarante e uma biblioteca a Betânia do Piauí.” Para custear este trabalho, além de seus recursos próprios, Pascoal conta com a arrecadação da venda de camisetas com dizeres motivacionais. Soma-se uma rede de colaboradores, entre amigos, empresários e outros abnegados. Os sonhos, porém, não se esgotam por aí: “Ainda pretendo montar bibliotecas em Angola, Moçambique e Guiné Bissau, países africanos de língua portuguesa e todos muito necessitados.”

 

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Jornada. Voluntário em missão católica coordenada pela Ordem dos Frades Menores na Angola e em uma escola na cidade de Amarante, no Piauí (embaixo)

 

 

 

Contatos | Onde encontrar

Você pode colaborar com o esforço de Roberto Pascoal, adquirindo camisetas ou doando livros.

Email: rp@robertopascoal.com
Telefones: 8816-6199 ou 9684-3000
Blog: www.robertopascoal.com
Site do projeto: www.escolasdosertao.com.br
Facebook: Roberto Pascoal
MSN: r.pascoal@hotmail.com
Skype: r.pascoal1
Twitter: @Roberto_Pascoal


Caminhos cruzados

Migrantes. Casal se conheceu no Anita Garibaldi e foi ali que montaram comércio de alimentos, hoje referência no bairro
Fabrizio Motta/ND
Capricho do destino. Nara e Vilmar trabalham juntos no Cantinho dos Amigos, restaurante montado em charmosa casa enxaimel; no quadro, reprodução da construção original

 

 

Quis o acaso ou o destino que Vilmar Lovison e Nara Zimermann tivessem seus caminhos entrecruzados no bairro Anita Garibaldi, onde os dois tinham se estabelecido vindo de cidades pequenas e distantes de Joinville. Vilmar é de Abelardo Luz, no Extremo-oeste catarinense; Nara é de Pouso Redondo, no Alto Vale do Itajaí. O encontro casual aconteceu no balcão do Keunecke, antigo comércio da rua Anita Garibaldi. Da conversa brotou afinidade, que evoluiu para o namoro e acabou em casamento. Foi assim que há 17 anos Vilmar e Nara começaram a vida a dois. Na época ele era garçom e, ela, caixa no Keunecke, para onde tinha se mudado ao desistir do ofício de artesã de capas e estofados para bancos de automóveis. Um ano após o casamento a dupla largou os empregos para abrir o Cantinho dos Amigos, hoje um dos pontos mais concorridos de Joinville no comércio de carnes assadas.

Instalados há 16 anos numa casa enxaimel na esquina da rua Anita Garibaldi com a Caxias do Sul, Vilmar e Nara desfrutam de grande popularidade por conta da competência profissional e o invariável bom humor que recebem fregueses de perto e de longe. Pais de uma adolescente e de um menino, os dois abrem as portas da velha e charmosa casa enxaimel de quarta-feira a domingo e se obrigam a aprontar uma verdadeira correria diária para atender a numerosa freguesia. Além de vender carnes assadas que são levadas para casa, eles servem refeições no local. Nos fins de semana, como complemento às carnes, vendem cem quilos de maionese caseira. “Não usamos ovos, que são proibidos por lei, mas temos um segredinho para substituí-los por outro ingrediente sem comprometer o sabor. É por isso o volume das nossas vendas se mantém alto e estável há anos”, conta dona Nara.

No período da tarde, o Cantinho dos Amigos fica sombreada por uma barreira de palmeirinhas, detalhe que no verão aumenta o número de apreciadores de cerveja atraídos pelo ambiente refrescante. Para não infringir a lei, Vilmar e Nara providenciaram recentemente um espaço sem cobertura. É ali que se reúnem os fregueses fumantes. Mas, sem cobertura, quando chove, como fica? “Que tomem água na cabeça. Mesmo em dia de inverno brabo a água fria prejudica menos que o cigarro,” responde de bate pronto a espirituosa Nara.

 

Figura folclórica
Os donos do Cantinho dos Amigos contam há anos com os serviços do garçom Manoel Nunes, o Kiko. Figura de grande popularidade no bairro Anita Garibaldi e arredores, ele diverte os clientes devido constantes patacoadas cometidas por pura distração. Entre tantas Kiko já queimou a mão numa panela de água fervente e sapecou o pé ao metê-lo dentro de uma bacia cheia de gordura de frango ainda fumegante.

Mas o caso mais desastrado aconteceu no dia que ele escorregou e caiu dentro de um freezer com capacidade para dois mil litros. “Se eu não o tivesse puxado lá de dentro, o coitado teria ficado mais congelado que os frangos e os marrecos onde bateu com os costados,” comenta o irreverente Vilmar. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Refúgio na música

Composições. Joinvilense do Rio Bonito divulga suas canções nas rádios com esperança de despertar interesse de gravadora
Fabrício Porto/ND
Pop rock. No recato da Estrada Palmeira, Luana tem o violão, e nos avós, companheiros da sua arte

 

 

É em uma fazenda localizada na distante e bucólica Estrada Palmeira, bairro Rio bonito, no meio do verde da natureza que a joinvilense Luana Costa, 21 anos, compõe suas músicas e sonha com o dia em que poderá viver da arte. A inspiração vem do silêncio e da beleza da localidade. Com 11 músicas prontas, todas de própria autoria e num ritmo que mistura pop e rock, Luana corre atrás dos objetivos e espera conseguir alcançar o primeiro deles em breve: gravar um CD. Para isso, ela mesma já visitou duas rádios de Joinville levando a canção “Teu sorriso” – principal hit do futuro disco – para tentar emplacar e conquistar os ouvidos do público e chamar a atenção de uma gravadora. Além disso, Luana ainda pretende montar uma banda. Já há alguns músicos convidados, a maioria amigos.

Quando o disco estiver pronto, o plano de Luana é partir para uma cidade grande, como Curitiba, para divulgar o trabalho e alavancar a tão sonhada carreira artística. A mudança de cidade só não ocorreu ainda porque ela não teria como se sustentar na capital paranaense e por isso prefere ir só com alguma certeza. Formada na faculdade de eventos, a jovem compositora trabalha no Instituto Festival de Dança de Joinville, dividindo o tempo com a música. “Hoje, componho e canto porque gosto mesmo, ainda não ganho dinheiro com isso”, declara. Cantar as próprias composições é o principal objetivo da artista joinvilense.

Os ensaios ocorrem sempre depois do expediente e nos fins de semana, geralmente em casa, onde mora com os avós. Mas Luana garante que os dois não se importam com o som e dão todo o apoio para a neta. “Minha vó escuta minhas músicas e meu avô não se importa com o ensaio enquanto tira o sono da tarde”, brinca. Em Joinville, segundo Luana, a principal dificuldade dos músicos que sonham em fazer carreira é de chamar a atenção do público local, que ainda não dá muito valor ao que é produzido por aqui. “Isso é muito difícil ainda, o que é de fora chama mais atenção”, desabafa.

 

“O violão é um divã”
O desejo e a vontade de cantar despertaram desde sempre em Luana. “Cantava desde pequena, sempre quis isso,” lembra. O primeiro contato com a teoria musical ocorreu aos 12 anos em um curso de teclado. O violão apareceu três anos depois, quando ela saiu do Itinga e foi morar na área rural. “Era um lugar muito diferente, eu não estava acostumada,” conta. A mudança brusca de ambiente combinada com a idade acabou gerando uma crise de adolescente. “Na época, eu não gostava de morar aqui e acabava desabafando na música, compondo e colocando meus sentimentos nas canções,” explica. “O violão é um divã”, completa.

No começo, as composições eram mais brincadeiras. As letras não costumavam ser terminadas. A música começou a ser levada mais a sério quando Luana se apresentou para  alguns amigos e eles foram gostando, o que a entusiasmou. Assim como muitos adolescentes, Luana se encantava com as letras e melodias da Legião Urbana. O comportamento e relação da banda com a música se tornaram referência. (Alexandre Perger, especial para o Notícias do Dia)


O descanso merecido

Tempos antigos. Quando menino, Orlando Pfützenreuter entregava leite produzido na propriedade da Estrada Parati, parte da pista da BR-101

Fabrício Porto/ND

Passatempo. Além de bom cozinheiro, Orlando faz pescarias com amigos no Pantanal e no norte do Estado

 

 

Parte do traçado da BR-101 na região Sul de Joinville passa pelo leito do antigo caminho da Estrada Parati. Foi ali que há 63 anos nasceu Orlando Pfützenreuter, hoje morador da rua Bagé, no bairro Atiradores. Orlando, ou Fiti, como é conhecido, conta que dos 7 aos 14 anos trabalhou com o pai na produção de leite, que era entregue de casa em casa para uma fiel freguesia. “Nossa propriedade ficava onde hoje é o Km 44 da BR-101. De lá eu vinha para a cidade fazer a entrega do leite transportado em litros de vidro.  Apesar do cuidado para não quebrar o vasilhame, o serviço até que era bem divertido”, lembra Fiti.

De entregador de leite, aos 14 anos virou contínuo da S.A. Moinhos Riograndense (hoje Moinho Santista), de onde saiu aos 18 anos para servir o exército. Ao dar baixa arrumou emprego na Hansen Industrial, onde permaneceu até 1970, quando seduzido por uma proposta de bom emprego e um curso profissionalizante foi para a Alemanha. “Era para ficar por lá três anos, mas agüentei só seis meses. O emprego era de terceira categoria e não honraram o compromisso de me matricular numa escola profissionalizante. Decepcionado, arrumei a mala e voltei para Brasil,” relata Fiti aliviado por ter se livrado cedo da desventura européia.

De volta a Joinville ele trabalhou algum tempo na Wetzel Industrial, para em seguida abrir em sociedade com dois companheiros uma fábrica de material de limpeza. Passados três anos o trio fechou o empreendimento e então Fiti trabalhou por 14 anos na Malharia Iracema, de onde saiu ao se aposentar.

Pai de um casal de filhos e avô de um menino, o irreverente morador da rua Bagé aproveita a aposentadoria para jogar conversa fora com os amigos e participar de pescarias, de preferência no Pantanal e no rio Timbó, no município de Porto União.

Apontado pelos companheiros como bom cozinheiro, Fiti desconversa com humildade. “Sei misturar algumas coisas na panela, que acabam agradando o paladar dos amigos, só isso,” diz desatando uma boa risada.

 

“Nossa propriedade ficava onde hoje é o Km 44 da BR-101. De lá eu vinha para a cidade fazer a entrega do leite transportado em litros de vidro." 

 

O caso da araponga
Dono de invariável veia espirituosa, Fiti diverte as rodas de amigos que com seu jeito fácil de florear a conversa. Só para ilustrar, belo dia como quem não quer nada ele lembrou que o canto de algumas aves reproduz a pronúncia de determinada palavra da nossa língua. Citou o tico-tico, o bem-te-vi e o quero-quero. “De tão perfeito, o som onomatopaico emitido por essas espécies acabou gerando o nome popular pelo qual são conhecidas,” disse com ares didáticos.

 Ato seguinte emendou: “Poucos notam, mas a araponga quando abre o bico para cantar  pronuncia dois sobrenomes alemães muito conhecidos em Joinville. É só prestar atenção. Ela grita Colin! Colin! Colin!,  faz uma pequena pausa e completa com um estridente Stein!”, sapecou Fiti. É, faz sentido, concordaram às gargalhadas os companheiros do ex-entregador de leite da Estrada Parati. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)

  

 

  


Da feira de arte para o Brasil

Reciclagem. Artesã-empresária transforma alumínio em peças decorativas

Luciano Moraes/ND

Produção. Ana Lúcia mostra os abajures que faz com material reciclável

 

 

No princípio, Ana Lúcia produzia em casa suas peças de artesanato, utilizando arame e outras sucatas, e as vendia numa barraquinha na feira de arte, na rua do Príncipe. Hoje, belos enfeites, a maior parte utilizando alumínio, são produzidos em série e revendidos em lojas do país inteiro. Esse é um resumo da trajetória de Ana Lúcia Camargo Giacomini, de artesã a empresária, dona da marca Ana Alumínio, hoje atendendo mais de duzentas lojas em diversos Estados.

“Sempre gostei de trabalhos manuais, tinha jeito para isso desde criança,” conta Ana Lúcia, nascida há 49 anos no bairro paulistano da Mooca e criada em Santo Amaro. Mas, ainda que a via artística aflorasse desde cedo, foi na área administrativa que ela iniciou a vida profissional.

Em 1991 trocou a capital paulista pela catarinense, onde o marido, representante comercial, vira melhores perspectivas de trabalho. Cinco anos depois, nova mudança, agora para Joinville. “Eu passava pela cidade, conta Ana Lúcia, só de ônibus, nas viagens entre Floripa e São Paulo. Conhecia apenas o trecho entre a BR e a rodoviária, mas já gostava de Joinville. Apesar do calor, a cidade me conquistou, aqui meus três filhos se encaminharam na vida, criei raízes e não pretendo sair mais.” Ana mora numa ponta da rua São Carlos, no Saguaçu, enquanto sua mãe mora na outra extremidade. “Joinville, ainda que tenha assunto para o noticiário policial, ainda é um lugar tranquilo, com boa qualidade de vida,” garante.

 

“A palavra-chave é inovação. Fazemos novas leituras do ramo e procuramos competir em originalidade.”

 

Uma nova carreira
Ana Lúcia fazia suas peças artesanais em casa, como hobby, quando uma vizinha que tinha barraca na feira de arte e artesanato a incentivou a expor algumas peças. Foi em 1996: “Eu não tinha qualquer formação em artes plásticas, fazia tudo a partir da minha imaginação e utilizando a habilidade natural”. Eram peças decorativas, como esculturas, castiçais e guirlandas, confeccionadas com pedaços de alumínio, cobre e latão. O resultado financeiro era pequeno, mas o trabalho começou a despertar interesse nas pessoas. “Um motivo de orgulho foi quando um casal de turistas europeus comprou algumas peças e elogiou muito”, recorda-se a artista. Mas o pulo do gato se deu quando uma amiga levou algumas peças para a loja que mantinha em Florianópolis, da franquia Imaginarium. “Ela conseguiu, conta Ana, referindo-se à amiga Sophy, colocar uma peça, um porta-bilhete de alumínio, na revista Casa Claudia, o que deu uma boa visibilidade.”

Em busca de algum material para o pedestal do porta-bilhetes, Ana Lúcia descobriu o alumínio fundido. E foi a vez de retomar a carreira administrativa, fundando a Ana Alumínio Artigos Decorativos. “Descobri uma fundição de alumínio em Lages, que me fornece a matéria-prima, passei a participar de tudo que é feira de presentes e decorações e o negócio progrediu.” Hoje a empresa tem cerca de vinte funcionários, entre eles o marido de Ana, o engenheiro mecânico Luiz Renato, que cuida da parte produtiva, e a mãe, Vera, que aos 76 anos gerencia o setor financeiro. Ana Lúcia é responsável pela criação, sempre pesquisando e acompanhando tendências. Além das peças decorativas, fabrica objetos funcionais, como cabides, luminárias e material de escritório. “A palavra-chave é inovação. Fazemos novas leituras do ramo e procuramos competir em originalidade.”

Mesmo tendo um fornecedor de alumínio já fundido, Ana não descuida da questão ambiental: “Mantemos uma parceria com o colégio Oswaldo Aranha, que ganha material esportivo em troca de latinhas que os alunos coletam em casa e na comunidade.”

Hoje, toda a produção de cerca de 4 mil peças/mês é comercializada em lojas espalhadas pelo Brasil. Mas, a partir de 2013, a comercialização será feita também pelo site www.analuminio.com.br. Uma mostra dos produtos já pode ser conferida lá.


O motor do Festival de Dança

Satisfação. Karim Coletti trabalha com a organização, planejamento e execução do maior evento cultural de Joinville

Fabrício Porto/ND

Nos bastidores do palco. Karin dedicou o que aprendeu ao evento de dança e hoje coordena todos os setores do Intituto

 

Todos os anos, em julho, o Festival de Dança de Joinville encanta a cidade e atrai gente de todo o Brasil e do exterior. Desde 2006, o planejamento e a produção deste grande evento passam pelas mãos de Karim Coletti, 33 anos, responsável por coordenar os preparativos e as equipes que trabalham durante 11 dias execução do maior festival de dança do planeta.

Mas o envolvimento de Karim com o festival começou antes, em 2002. Após o início do d a faculdade de eventos, junto com a de turismo, ela decidiu que queria trabalhar na área. Com o desejo em mente, começou a pesquisar os grandes eventos do Estado e descobriu o Festival de Dança. Depois de mandar vários currículos, contando com a ajuda da sogra, que mora em Joinville, Karim foi chamada para trabalhar na secretaria, onde conheceu boa parte do evento.

No ano seguinte, voltou a ser chamada e nunca mais se afastou do Festival de Dança. Karim coordenou o setor de bilheteria, atuou na divulgação por meio de uma agência de comunicação até ser contratada pelo Instituto Festival de Dança como assistente de direção. Logo depois passou a coordenadora executiva, cargo que exerce até hoje. “Coordeno tudo o que acontece no Festival, desde o planejamento e depois ajudo toda a equipe na execução,” explica.

O envolvimento é tão grande que ela não sabe mais mensurar: “não sei se eu faço parte da vida do Festival ou se o Festival faz parte da minha vida.” Comparando o tempo de trabalho no evento com a própria idade, Karim chega constatação de que passou um terço da vida no festival. “Namorei, casei, tive filho, tudo dentro do Festival, é mais que um trabalho, faz parte do meu dia a dia.”

 

“Não sei se eu faço parte da vida do Festival ou se o Festival faz parte da minha vida.”

 

Lições para a organização pessoal
O trabalho com o Festival de Dança acabou passando muitos ensinamentos e Karim garante que aprendeu muito sobre organização, planejamento e paciência. “Isso tudo me ajuda na vida pessoal a saber onde eu quero chegar e o que eu precisar fazer para alcançar os objetivos”, observa. Além disso, o evento foi seu único emprego. Apesar de tudo, ela não se considera uma especialista em dança, mas garante que sabe distinguir o que é bom do que é ruim.

O momento mais emocionante para a coordenadora é o início, quando a música e as cortinas são abertas. É a satisfação e o reconhecimento de ver que tudo está funcionando. O que a coordenadora sempre tenta passar para a equipe é o sentimento de estar trabalhando com o sonho de muitos bailarinos. “As pessoas se programam o ano inteiro para estar aqui, às vezes mais que isso, então temos que fazer direito, atender muito bem.”

Natural de Chapecó, Karim passou um tempo em Balneário Camboriu para estudar. Mas é em Joinville que a coordenadora fez a vida e hoje mora com o filho e marido. “Quando você chega aqui, Joinville é meio distante, mas depois acabe sendo uma cidade acolhedora, que te aceita e recebe bem.” (Alexandre Perger, especial para o Notícias do Dia)

 

 


Na saúde e no socorro

Bom exemplo. Enfermeira do Vila Nova é bombeira voluntária na corporação de Araquari
Luciano Moraes/ND
Orgulho. Regiane Roberta Cercal trabalha nos bombeiros nos fins de semana

 

 

Com formação técnica em enfermagem, Regiane Roberta Cercal trabalha de segunda a sexta-feira, das 10 às 20h, no setor de ressonância magnética da Clínica São Marcos, uma das mais conhecidas de Joinville na especialidade de diagnóstico por imagens. Dona de espírito solidário, nos fins de semana Regiane é bombeira voluntária na cidade de Araquari. Para fazer o trabalho, quando não é buscada no bairro Vila Nova, onde mora ao lado dos pais, ela se desloca por conta própria pilotando uma pequena motocicleta. 

Aos 29 anos de idade, mãe de uma menina de 11 primaveras, Regiane enfatiza que para ela exercer a função de bombeira voluntária é sinônimo de prazer.  “Nos fins de semana trabalho alternadamente no sábado e no domingo e me sinto realizada em abrir mão de algumas horas de lazer para ajudar pessoas em apuros”, assinala. A disposta jovem do bairro Vila Nova conta que sua jornada como bombeira voluntária se concentra no atendimento a vítimas de acidentes na BR-280. “Já enfrentei muitas situações de grande sofrimento provocado por múltiplas fraturas. Nessas horas o jeito é manter a calma, prestar os primeiros socorros com eficiência para que a vítima tenha a chance de chegar ao hospital com vida.”

Regiane conta que a enfermagem entrou em sua vida quando ele conseguiu vaga para trabalhar de agente comunitária de saúde na Prefeitura de Joinville. “Gostei do trabalho e isso me levou a fazer o curso de técnica em enfermagem. Quero me dedicar à missão de ajudar as pessoas pelo restante da vida”, garante determinada.

Além de bombeira em Araquari, Regiane faz trabalho voluntário em hospitais e casas em Joinville. Nessa empreitada ela conta que uma de suas melhores recompensas foi cuidar de um senhor que estava há seis meses entrevado em uma UTI (Unidade de Tratamento Intensivo). “Hoje ele está caminhando e até veio me visitar no bairro Vila Nova. Pode haver melhor recompensa do que ver um homem que esteve nessas condições caminhando?” pergunta, desatando uma risada que dispensa resposta.

 

“Me sinto realizada em abrir mão de algumas horas de lazer para ajudar pessoas em apuros.”

 

Tratamento carinhoso
Simpática, Regiane informa que sua conduta de voluntária é regida por um princípio simples: “Quanto mais debilitado está o paciente, no momento que consigo fazer alguma coisa para reabilitá-lo, maior é meu prêmio”, define.

Carinhosa no trato com as pessoas, a jovem enfermeira usa de boa conversa até na hora de uma simples conferência de pressão arterial. “É indispensável deixar a pessoa tranqüila, bem à vontade, para a medição não apontar um diagnóstico falso. Se a pessoa está tensa, a pressão sobe repentinamente. Por isso, antes de botar o aparelho no braço jogo uma conversinha descontraída para obter um diagnóstico real”, revela a disposta Regiane. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Unindo quem precisa a quem ajuda

Solidariedade. Como presidente da Cooperativa Fios e Flores, Estela Luci faz uma ponte entre a comunidade e as entidades assistenciais
 Rogério Souza Jr/ND
Dedicação. Estela Luci aprendeu a forma correta de abordar as pessoas

 

 

Aos 63 anos, quase aposentada, Estela Luci Ferreira poderia estar em casa cuidando das plantas, viajando com a filha ou curtindo os netos. Mas ela escolheu viver de outra forma, ajudando as pessoas no bairro Jardim Iririú, nem que seja pegando a bicicleta e saindo pela comunidade, realizando visitas ou resolvendo problemas da Cooperativa Fios e Flores, da qual é presidente.

Estela define o trabalho social que realiza como uma ponte entre as pessoas que precisam e as autoridades ou órgãos competentes. Com isso, ela ajuda desde pessoas com câncer, levando as entidades até o bairro, a portadores de deficiência que possuem alguns direitos e sozinhos não conseguem encontrar advogados. “Muitas vezes, eles se encabulam ou não sabem o caminho”, conta.

No dia 21 de dezembro passado, ela e as cooperadas realizaram uma ação entregando 100 cestas básicas na comunidade com o objetivo de proporcionar um Natal melhor e aproximar mais pessoas da cooperativa. Os alimentos foram arrecadados por funcionários do Banco do Brasil, que ajuda no projeto com as costureiras.

A dedicação a este trabalho acaba sendo em tempo integral. Somente na cooperativa, a demanda é muito grande, pois a entidade acolhe pessoas com problemas diversos, fazendo com que Estela se obrigue a buscar ajuda e encaminhar o que for preciso. “Temos que absorver tudo isso e tentar direcionar”, descreve. Na cooperativa, mulheres que estão fora do mercado de trabalho aprendem a costurar para que possam novamente ser inseridas o obter renda.

Uma das formas com a qual Estela descobre as pessoas que estão com problema é passando nas casas e cumprimentando, dando “oi” e parando para conversar. Além disso, uma enfermeira do posto de saúde do bairro também contribuiu informando quais pessoas estão com algum problema. “O que eu mais amo é que não usamos o eu, é sempre nós. Para nós, então, é muito mais fácil quando você consegue juntar forças e fazer com que a coisa melhore.”

Mas Estela quer fazer ainda mais, tem o grande sonho de transformar a comunidade, pintando todas as casas e deixando o bairro mais colorido. “Meu sonho ainda é esse. Se eu ganhasse na loto, eu faria isso, daria uma boa melhorada em tudo,” sonha.

Depois de ter ajudado tantas pessoas, a maior recompensa é pesar pelos lugares, encontrar os novos amigos e “ver que alguma coisa pôde fazer por elas”. Apesar de que nem sempre as consegue reconhecer, principalmente as crianças que já se tornaram adolescentes, o vínculo com todas é para sempre e surge uma amizade.

O trabalho só deve parar quando Estela não tiver mais forças para ajudar o próximo. Prova disso é que ela sobreviveu a um acidente vascular cerebral e a recuperação ocorreu por meio de uma doação pessoal maior ainda. “Se eu parasse, poderia piorar, porque aí poderia entrar em depressão,” argumenta

 

“O que eu mais amo é que não usamos o eu, é sempre nós. Para nós, então, é muito mais fácil quando você consegue juntar forças e fazer com que a coisa melhore.”

 

Sensibilidade
Natural de Guaratuba (PR), Estela Luci sempre procurou ajudar as pessoas, olhando o lado do outro e nunca o próprio bem estar. Em Joinville o trabalho voluntário começou quando conheceu a realidade de pessoas que moravam no Jardim Iririú, muitas sem casas, abrigadas em barracos. Ela ainda contou com a ajuda de uma assistente social que ensinou como realizar este trabalho e abordar as pessoas. (Alexandre Perger, especial para o Notícias do Dia)


Formando e desenvolvendo o teatro

Ensino. Daniele Pamplona decidiu voltar para Joinville com o objetivo de contribuir para as artes cênicas
Fabrício Porto/ND
Carreira. Atriz e professora, Daniele Pamplona também é fundadora e coordenadora pedagógica da Casa Teatral

 

 

Não basta viver do teatro, é preciso ir além, pensar na formação de mais profissionais e ajudar no crescimento e no desenvolvimento da arte na cidade. Essa é a filosofia de Daniele Pamplona, 27 anos, fundadora e coordenadora pedagógica da Casa Teatral, atriz e professora, com formação acadêmica em artes cênicas pela Faculdade de Artes do Paraná. Foi buscando a própria identidade como artista que em 2009 Daniele transformou a Faunos Cia Teatral em Casa Teatral. O parceiro na nova empreitada foi o marido, Odirlei Soares. Os dois resolveram investir na formação. “Com a minha experiência, percebi que a nossa dificuldade é formar pessoas e elas ficarem aqui, criando um mercado para elas trabalharem,” relata.

Em parceria com três escolas públicas, que cedem o espaço para ensaios, a Casa Teatral conta com quase 200 alunos. Em contrapartida, algumas melhorias são realizadas nas instituições. O método de ensino é baseado nas fases de desenvolvimento do aluno, com grupos por faixa etária. Os jovens com mais de 14 anos que se destacam são convidados para participar do Nupet (Núcleo Permanente de Pesquisas e Estudos Teatrais), onde recebem formação semiprofissional e são encaminhados para fazer o registro profissional.

Com a aprovação de um projeto no Mecenato, a parceria será ampliada para oito escolas, duas de cada região da cidade, e serão oferecidas bolas de estudo para jovens carentes. “Aí estão muitos talentos. Um dos meus maiores prazeres como profissional é poder garimpar esses talentos”, afirma.

 

 “Aí estão muitos talentos. Um dos meus maiores prazeres como profissional é poder garimpar esses talentos.”

 

A menina precoce
Daniele sempre foi precoce, no bom sentido da palavra. Aos 8 anos se mudou para Rio do Sul. Sem muitos amigos na nova cidade, a mãe resolveu colocar a pequena para fazer alguma atividade e conhecer outras crianças. O teatro acabou sendo escolhido. Como não havia turma para sua idade, teve de fazer aulas com os mais velhos, de 13 a 14 anos. “Desde que eu comecei, foi paixão avassaladora e em pouco tempo era o que eu queria fazer da minha vida”, conta.

Foram seis anos de aulas na Fundação Cultural de Rio do Sul até ser convidada, aos 14 anos, a fazer parte de uma companhia profissional. Começou a fazer cursos e um ano depois voltou para Joinville. Sem querer largar o teatro, conheceu alguns profissionais da Univille e resolveu fazer o teste e passou. Mais uma vez, ela foi precoce, já que o grupo era para maiores de 18 anos e Daniele tinha 15.

A partir da experiência adquirida na companhia da Univille, montou a Faunos, junto com Cristiano Nagel, começando com contação de histórias. Em meio ao trabalho com o grupo, cursou a faculdade de artes cênicas no Paraná. Ao término do curso, surgiu a grande questão: partir para um grande centro ou voltar para Joinville? Nesse momento, ela optou por voltar para a cidade natal. “Acredito que o nosso cenário cultural só vai crescer se as pessoas que são daqui buscarem conhecimento e trouxerem para cá,” diz. (Alexandre Perger, especial para o Notícias do Dia)


Em forma e na moda

Visão. Das roupinhas de boneca, Cláudia fez sucesso na moda fitness
Rogério Souza Jr/ND
Diferentes e coloridas. Cláudia está à frente do processo de criação dos modelos usados nas academias e atividades ao ar livre

 

 

São muito comuns, neste espaço, histórias de empreendedorismo que começaram a partir de hobbies ou de atividades fora do expediente. Trajetórias de pessoas que colocaram habilidades inatas a serviço do autodesenvolvimento e da busca por melhor qualidade de vida. Histórias como a de Cláudia Helena Gastaldi, que uniu habilidade manual, criatividade e tino empresarial para criar uma marca que vai ganhando espaço no mercado da moda voltada às academias e à atividade física em Joinville, a Montfler Fitness. “Quando criança, uma das minhas brincadeiras favoritas era fazer as roupinhas das minhas bonecas. Aperfeiçoei essa habilidade, aprendi a costurar, nunca fiz cursos e as coisas foram acontecendo normalmente”, conta esta joinvilense nascida há 42 anos e criada no Itaum, aluna dos colégios João Colin e Elias Moreira.

Na juventude, Cláudia gostava de manter a forma esbelta frequentando academias. Numa época em que nem se falava em moda fitness, ela criava suas próprias roupas, fugindo do tradicional conjunto short-camiseta comum naqueles ambientes. “Não havia uma moda específica para as mulheres frequentarem academia. Elas improvisavam com o que estivesse mais à mão,” lembra Cláudia.

 

 “Faço exatamente aquilo de que gosto, e me envolvo no trabalho de forma total”.

 

Produção artesanal
Há dez anos, enfim, Cláudia transformou sua habilidade em meio de vida, abrindo em princípio uma confecção de biquínis. Mas foi por pouco tempo, e logo percebeu o nicho que havia na moda fitness, já dominada por grandes marcas. Começou a bolar e costurar peças, a irmã Eliana colaborou sugerindo o nome, a partir de uma localidade que conheceu na França, e surgiu a Montfler Fitness Indústria e Comércio de Confecções, com ateliê e loja na rua Voluntários da Pátria, no mesmo Itaum que viu Cláudia nascer.

O principal diferencial da marca é a originalidade. Ainda que pesquise muito para acompanhar as tendências da moda, Cláudia tira tudo da imaginação. “Faço questão, esclarece, de manter a característica artesanal de minhas roupas. Como a produção é pequena, posso garantir que uma cliente não vai encontrar outra pessoa com o mesmo traje.” Facilita muito o fato de Cláudia conhecer quase todas as freguesas e saber qual academia cada uma frequenta, além dos roteiros das caminhadas nas ruas.

Além da própria empresária, que cria, talha e costura as roupas, o enxutíssimo quadro da Montfler tem mais uma costureira e uma encarregada do balcão. Todas as roupas podem ser conferidas ali mesmo, entre shorts, calças legging e camisetas, nos tamanhos que vão do PP ao GG, com muita cor e criatividade.

Outro item importante da receita de sucesso de Cláudia é o foco. “Faço exatamente aquilo de que gosto, e me envolvo no trabalho de forma total”. Tanto que, admite, às vezes se esquece de ir embora e se surpreende sozinha na loja, ainda criando alguma novidade.

Perfil sugerido pela leitora Fernanda Ourique

Serviço | Onde encontrar
O quê: Montfler Fitness
Onde: rua Voluntários da Pátria, 445, Itaum
Contato: 3426-4895 ou fitness@montfler.com.br


Uma festa para o santo rei

Tradição lusitana. André Possamai, apesar de descendente de italianos, se destacou como reieiro
Fabrizio Motta/ND
Cantoria de fé. Com a redução dos grupo de Terno de Reis, André entoa cantigas de raiz sertaneja na companhia da família

 

 

A cantoria de Terno de Reis é uma manifestação cultural-religiosa surgida em Portugal na Idade Média. Nela é festejada a visita que menino Jesus recebeu de Malchior, Baltazar e Gaspar, os três reis magos. Com o objetivo de celebrar o acontecimento bíblico, os portugueses inventaram de sair de casa em casa para cantar músicas alegres em louvor a Jesus e aos próprios reis magos.

A tradição foi trazida para o Brasil no século 16 pelos Jesuítas e se mantém viva até hoje em diversos Estados, entre eles Santa Catarina. Com o passar do tempo, as reiadas portuguesas, cujo auge das apresentações ocorre no dia 6 de janeiro, data consagrada aos Santos Reis, foram absorvidas por brasileiros de outras etnias.

Em Joinville, um dos “intrusos” da bela tradição lusitana é André Possamai, violeiro e cantador do bairro Vila Nova.  Descendente de imigrantes do Norte da Itália, ele nasceu há 68 anos em Taió, no Alto Vale do Itajaí, e chegou em Joinville no verdor da juventude onde, por conta própria, estudou música e aprendeu a tocar viola e violão, tirando das cordas bem afinadas modas de diferentes gêneros, nos quais de destacam canções caipiras da melhor vertente.

Como violeiro, André fez história na cidade no tempo que a Rádio Difusora abria espaço para apresentações ao vivo de músicos amadores. Em companhia de muitos parceiros, como o gaiteiro Eliseu Coelho, ele chegou a afundar o caminho de tantas apresentações que realizou na mais antiga rádio de Joinville.

A descoberta das reiadas, conta André, deu-se graças à amizade com Eliseu Coelho. “Ele, já reieiro calejado, me encaminhou para essa gostosa brincadeira. Foi fácil aprender os macetes desse tipo de música, que é alegre e sempre dentro da mesma toada,” assinala bem humorado.

Hoje Eliseu Coelho não mora mais na cidade, as apresentações ao vivo de músicos na Difusora fazem parte do passado e os grupos informais de Terno de Reis diminuíram drasticamente. Mesmo assim, na viola ou no violão, quando chega a época natalina , André celebra em família a chegada dos reis magos à manjedoura onde o menino Jesus foi colocado para repousar. Na opinião do veterano violeiro, as reiadas representam um valor cultural-religioso que deveria merecer mais estímulo pelo seu conteúdo. “Além de espalhar alegria nas visitas de casa em casa, as reiadas valorizam o verdadeiro sentido do Natal, que é o nascimento de Jesus”, enfatiza.

 

 “Além de espalhar alegria nas visitas de casa em casa, as reiadas valorizam o verdadeiro sentido do Natal, que é o nascimento de Jesus.”

 

Homem ativo e religioso
Morador há 51 anos no bairro Vila Nova, André é casado com dona Salvelina, pai de três filhos homens e avô duas vezes. Além de violeiro de modas caipiras e reiadas, há 36 anos ele toca deus inseparáveis instrumentos em celebrações religiosas e em visitas a enfermos.

Aposentado, André continua levando uma vida bem ativa. “Arrumei até uns calos, como nos velhos tempos da roça,” diz apontando para pequenas lavouras de subsistência cultivadas por ele em amplo terreno ao redor de casa, onde faz da varanda o local preferido para soltar a voz e dedilhar a viola e o violão. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Um dom a favor da vida

Poder da mente. Terapeuta coloca sua experiência sensorial em prol das pessoas
Fabrizio Motta/ND
Contribuições. Além do trabalho como terapeuta e palestrante, Sírley prepara o lançamento do segundo livro, para este ano ainda

 

 

Durante a maior parte de sua existência, o maior esforço da gaúcha Sírley González tem sido direcionado a tornar um dom, a premonição, em uma ferramenta em favor das pessoas e da vida. “Desde os 12 anos de idade eu tinha ‘visões’, mas não sabia interpretá-las. O fato mais marcante foi ter ‘visto’ a morte do meu irmão mais velho num acidente. Aquilo me assustava, não sabia como administrar. Com o tempo, fui me habituando e aprendi como transformar uma suposta maldição em dom”, conta Sírley, hoje uma psicoterapeuta de prestígio, mentora do Instituto de Comunicação e Comportamento que leva seu nome, e onde atende clientes individualmente e ministra palestras e cursos.

Muito do que se tornou, Sírley deve à formação familiar, iniciada quando nasceu, em 1957, na fronteiriça Uruguaiana, no cantinho Sudoeste do Rio Grande, com a Argentina de um lado e o Uruguai do outro. “Nasci em uma família pobre, mas com grandes valores, a quarta filha de cinco irmãos. Meus pais não tinham muito estudo, porém deram prioridade à formação dos filhos. Pelo exemplo mostraram um grande amor e respeito pelo conhecimento. Todos os meus irmãos cursaram escola superior, com mérito.” Neta de espanhóis, aprendeu o idioma dos avós antes mesmo do português.

Já no nascimento de Sírley, sua mãe precisou dividir a dor do parto com a preocupação pela filha mais velha, que sofrera um acidente no mesmo dia. “Minha irmã havia enfiado a mão numa bomba d´água, machucando-se seriamente, e minha mãe ouvia seu choro mesmo sem saber o que havia acontecido.” Alguns anos mais tarde, a própria Sírley passou pela experiência da percepção extrassensorial, ao ter certeza de que o irmão morrera num acidente, por mais que as pessoas insistissem em negar a gravidade do fato.

 

“O meu trabalho é voltado ao despertar do ser humano, compartilhando conhecimentos e reconhecendo em cada ser sua luz interior, dando a cada um o meu melhor. Amo acima de tudo o meu trabalho, dedico meu tempo a estudar e aprimorar-me, busco sempre me atualizar.”

 

Uma nova carreira
Ainda desconhecendo seu verdadeiro potencial, Sírley seguiu outra carreira: formou-se bioquímica, trabalhou em laboratório e chegou a ter sua própria farmácia. Mas as visões insistiam em acompanhá-la...

Decidida a enfim aceitar seu dom, sem o antigo sentimento de culpa por achar que “provocava” os acontecimentos, Sírley especializou-se em psicanálise e psicopedagogia. Estudou várias religiões em busca de mais bases e iniciou seu trabalho como terapeuta e palestrante, fundando o Instituto Sírley González de Comunicação e Comportamento, atualmente estabelecido no bairro América, em Joinville, cidade onde percebeu – sem qualquer premonição, neste caso – boas oportunidades de levar a mais gente sua experiência.

“O meu trabalho é voltado ao despertar do ser humano, compartilhando conhecimentos e reconhecendo em cada ser sua luz interior, dando a cada um o meu melhor. Amo acima de tudo o meu trabalho, dedico meu tempo a estudar e aprimorar-me, busco sempre me atualizar.” 

As premonições ainda a acompanham, mas Sírley aprendeu a utilizá-las em benefício de seu trabalho e dos clientes. “O trabalho do terapeuta sempre é voltado para que o paciente possa encontrar um meio de sair da dor, da dor emocional que pode ser provocada por inúmeros fatores. Podemos buscar os fatores que provocaram essas dores e encontrar uma forma de fazer com que eles, que no passado provocaram essa dor emocional, hoje não tenham mais o mesmo efeito. Nisto se resume a terapia, não importa qual linha o terapeuta siga, estamos ali para diminuir a dor.”

Toda essa experiência é contada no segundo livro de Sírley González, em fase final de edição, a ser lançado nesta ano – a primeira obra foi “A Difícil Arte de Criar os Filhos.”

 

Serviço | Onde encontrar
O quê: Instituto Sírley González de Comunicação e Comportamento
Onde: rua Nações Unidas, 525-E, América
Informações: fone 3025-6690 e site www.sirleygonzalez.com.br


Uma guinada rumo a escola

Da roça. Ainda adolescente, técnico agrícola resolver mudar o rumo da vida por meio dos estudos, mas se manteve na atividade agrícola

 

 

Fabrício Porto/ND
Comércio. No bairro Vila Nova, Vital mantém a agropecuária Casa do Adubo

 

 

Uma provocação mudou o destino de Vital Tontini, conhecido comerciante do ramo agropecuário no bairro Vila Nova. Aos 16 anos de idade ele foi flagrado por um técnico em extensão rural no momento em que limpava uma vala de arrozeira debaixo de um sol abrasador. “Você, com o curso ginasial pronto, está aí sofrendo desse jeito por que quer. É só continuar a estudar para mudar o destino,” cutucou o visitante. Depois, falando sério, o homem da extensão rural sugeriu que Vital fizesse o curso de técnico agrícola no colégio de Camboriú, um dos mais conceituados do Estado. Foi assim que o jovem agricultor encerrou a carreira no cabo da enxada. Semanas mais tarde passou no teste de admissão ao curso de técnico agrícola. Três anos mais tarde, no dia 12 de dezembro de 1981, saiu de Comboriú com o diploma na mão.

Vital conta que alguns dias antes da diplomação havia recebido dois convites para trabalhar na extensão rural. Podia escolher entre a Cidasc e a Acaresc (hoje Epagri). Ao optar pela Acaresc, logo foi enviado a Joinville para trabalhar no Provárzeas, programa de recuperação de áreas alagadiças para fins agricultáveis. Três anos mais tarde deixou a Acaresc para ser representante de produtos agrícolas da multinacional Rhodia. Cansado de tantas andanças por quase todo o Estado, oito anos mais tarde pediu a conta e virou sócio de uma agropecuária em Garuva.  Ao encerrar a sociedade em Garuva, no dia primeiro de agosto de 1993,Vital voltou a Joinville, onde abriu no bairro Vila Nova a agropecuária Casa do Adubo, na qual está à frente até hoje em companhia da mulher, Nivalda Albretcht.

Nascido na comunidade de Paleta, em Pouso Redondo, Vital conta que o episódio que mudou o rumo de sua vida aconteceu em Biguaçu, onde estava trabalhando no arrozal de um irmão. De bem com os negócios, ele revela que um dos seus passatempos é visitar uma chácara na Estrada Arataca, onde mora sua mãe Paulina, de 94 anos de idade. “Apesar de entradinha na idade, ela continua fazendo a melhor polenta e o melhor queijo colonial que conheço,” garante, sem conter a risada.

 

“Quando se é organizado sobra tempo para tudo.”

 

No movimento italiano
Vital revela que cresceu falando com os pais e irmãos o idioma da província de Trento, no Norte da Itália. Por conta disso, desde que se fixou no bairro Vila Nova, ele é assíduo participante do Circolo Italiano di Joinville.

Na confraria dos oriundi, ele fez parte do coral Mazzolin di Fiori. Assim que o coral foi desativado, Vital foi um dos líderes na formação do grupo vocal Cavalieri Cantati, formado por seis vozes e um gaiteiro. O grupo já lançou um CD e outro está a caminho.

Vital enfatiza que apesar de estar atolado de serviço, sempre consegue encontrar tempo para saborear a comida da mama na Estrada Arataca, comparecer nas festas do Circolo Italiano e botar os pés na estrada para as apresentações do Cavalieri Cantanti.  “Quando se é organizado sobra tempo para tudo,” receita bem humorado.(Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Uma referência na Dona Francisca

No pé da serra. Nascido e criado na vila de Pirabeiraba, Ilario Schroeder segue no comércio fundado pelo pai e na prática do tiro
Rogério Souza Jr/ND
Para exibir. Ilário se orgulha das faixas de rei e príncipe do tiro na Sociedade Dona Francisca, além da placa em agradecimento aos seus serviços

 

 

Bom de conversa, porém econômico nas palavras até quando está entre os amigos mais próximos, mesmo assim Ilario Schroeder é um dos moradores mais populares da Vila Dona Francisca, único núcleo urbano de Joinville situado aos pés da Serra do Mar, em Pirabeiraba.  Discreto e atencioso, sua popularidade é fruto de longo contato com a população da vila onde nasceu e se criou. A convivência diária com pessoas de todas as idades ocorre tanto na condição de comerciante quanto de líder da Sociedade Dona Francisca.

Bem humorado, Ilario conta que aos 48 anos de idade é um veterano no comércio da família e na sociedade que reúne e diverte os moradores da Vila Dona Francisca. “Na Comercial Schroeder, fundada por meu pai Werner em 1968, trabalho desde o tempo de menino e por isso estou atrás deste balcão há 37 anos”, contabiliza.  Sua participação na Sociedade Dona Francisca também é longa. “Comecei a freqüentá-la aos 18 anos. Só não entrei antes por que aqui se respeita o que determina a lei: menor de idade não deve circular em locais dessa natureza sem estar acompanhado por um responsável. Por isso meu ingresso aconteceu ao atingir a maior idade e mesmo assim lá se vão 30 anos de envolvimento com a sociedade,” comenta desatando uma risada.

Com 37 anos de experiência na Comercial Schroeder, da qual nos últimos tempos é o administrador do negócio, Ilário conta que seu pai Werner continua na ativa, mas lhe passou a responsabilidade de tocar as coisas, como fazer as compras, controlar o estoque e destrinchar problemas burocráticos. Casado com dona Eliete, seu braço direito de todas as horas, Ilário é pai de dois filhos. Evandro, o primogênito segue seus passos trabalhando no comércio da família. O mais novo, Anderson, prefere a carreira de industriário. “O que seria do verde se todos gostassem do azul?” pergunta Ilário em tom filosófico ao apoiar a opção profissional do filho caçula.  

De bem com os negócios, Ilario observa que a Comercial Schroeder começou as atividades com serviço de bar, uma pequena mercearia e um depósito de banana para vendas no atacado. Hoje o bar continua reunido velhos fregueses, enquanto que a mercearia evoluiu transformando-se no principal supermercado da Vila Dona Francisca. O depósito de banana também está em atividade, mas é controlado por Paulo Schulze, cunhado de Ilário.

 

 “Atiramos e nos divertimos juntos e por isso vamos continuar nessa brincadeira que tanto ajuda a unir a população do nosso lugar.”

 

Bom no gatilho
Com três décadas de participação na Sociedade Dona Francisca, Ilário tem uma folha de serviço respeitável. Atualmente ele é conselheiro da entidade, mas já exerceu todos os cargos diretivos, inclusive de presidente por dois mandatos.

Integrante do clube de tiro ao alvo, ele se destaca igualmente na alça de mira. Entre outras conquistas, já foi três vezes rei e mais algumas vezes primeiro príncipe. Ainda firme no gatilho, Ilário tem na mulher Eliete e nos filhos parceiros inseparáveis nesse tipo de esporte. “Atiramos e nos divertimos juntos e por isso vamos continuar nessa brincadeira que tanto ajuda a unir a população do nosso lugar”, enfatiza o discreto, mas divertido comerciante dos pés da serra do Mar. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Ações comunitárias ganham o mundo

Destaque. Joinville assume o comando da JCI com meta principal bem definida: o combate à corrupção
Rogério Souza Jr/ND
Nova missão. Fernando Paulo Martins vai organizar o próximo congresso mundial da Junior Chamber, que ocorre em novembro no Rio de Janeiro

 

 

Este Réveillon terá um sabor especial na família de Fernando Paulo Martins, em Joinville: na virada de ano ele assume a presidência nacional da JCI (Junior Chamber International), a antiga Câmara Júnior. “É o coroamento de um trabalho desenvolvido há uma década, desde que entrei na organização. É um grande orgulho fazer parte de uma entidade reconhecida mundialmente por suas ações comunitárias, e uma satisfação maior ainda por ver Joinville em posição de destaque”, diz Fernando, que já assume com a grande responsabilidade de organizar o próximo congresso mundial da Junior Chamber, marcado para novembro de 2013, no Rio de Janeiro.

Fernando nem imaginava encabeçar uma entidade deste porte, quando se divertia como qualquer criança, em meio à natureza na região do Cubatão, onde se criou. Nascido em Canoinhas em 1977, tinha 1 ano quando a família mudou-se para Jaraguá do Sul. Aos 7, iniciava carreira escolar em Joinville. “Meu pai veio trabalhar na Mineração Fock, tirando areia do rio Cubatão. E foi por ali, no porto de areia e nos pastos que a criançada brincava. Havia muito risco, mas a diversão compensava”, conta. Alguns anos depois a família mudou-se para o Iririú, desalojada pela enchente de 1995. Foi por ali, no bairro da zona Leste, que Fernando se tornou adulto, começou a trabalhar e constituiu família.

Com vocação para a advocacia, formou-se pela Univali e especializou-se em direito empresarial. Trabalhou na Hacasa, braço da H. Carlos Schneider dedicado a empreendimentos imobiliários, especialmente centros comerciais. Fez pós-graduação, MBA e mestrado em São Paulo, quando morou naquela cidade, entre 2005 e 2009, a serviço da construtora Almeida Junior. Enviado a Joinville para comandar a instalação do Garten Shopping Center, acabou voltando para a cidade. Abriu uma franquia da marca Arezzo no mesmo shopping que ajudou a erguer e tornou-se consultor jurídico na área empresarial, tendo entre seus principais clientes o Hospital de Olhos Sadala Amin. Também é sócio num empreendimento comercial em Lages.

 

“É um grande orgulho fazer parte de uma entidade reconhecida mundialmente por suas ações comunitárias, e uma satisfação maior ainda por ver Joinville em posição de destaque.”


Trabalho pela comunidade
Em 2002, Fernando conheceu o trabalho da JCI, quando a organização ainda era conhecida como Câmara Junior. Acabou se associando, apadrinhado pelo amigo Rogers Pereira – que acaba de se sagrar vice-campeão mundial de oratória, no concurso realizado em novembro, em Taiwan. “Coincidentemente  fui padrinho da Lena Souza, campeã mundial na Áustria há cinco anos. Aliás, o Brasil é o único país, até agora, a ter colocado dois finalistas no concurso mundial de oratória.”

A JCI, esclarece Fernando Martins, não é uma entidade assistencialista. Ela prega o estímulo às ações comunitárias. É a velha história de ensinar a pescar em vez de simplesmente dar o peixe. Como exemplos destas ações comunitárias, o futuro presidente da JCI Brasil cita o projeto Oratória nas Escolas e o apoio à campanha O que Você Tem a Ver Com a Corrupção?, promovida pelo Ministério Público.

Antes de chegar à presidência nacional, Fernando foi presidente do capítulo Joinville da JCI, vice-presidente para a região de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, vice-presidente comunitário nacional e assessor das Américas junto à ONU. Foi eleito presidente depois de um ano de árdua campanha e tomou posse em outubro, no congresso mundial em Taiwan – no mesmo evento, recebeu a bandeira do próximo congresso. Sua gestão, de um ano, começa em janeiro, focada nos projetos em andamento, com destaque para a campanha anticorrupção.


Remanescente da atividade leiteira

Persistente. O agricultor Germano Müller é o único na Estrada Palmeira a viver do leite
Rogério Souza Jr/ND
Cuidado com o rebanho.Germano, descendente de imigrantes suíços, conta com a ajuda do filho para manter a propriedade e quer investir na modernização da produção

 


Acordar às 9h, buscar as vacas, fazer a ordenha, cortar capim e ainda realizar outros serviços na propriedade. Essa é uma rotina cansativa e que vem perdendo cada vez mais adeptos. São poucos os que continuam a trabalhar com produção de leite. Na Estrada Palmeira, em Rio Bonito, o único remanescente é o agricultor Germano Müller, 57 anos. Há mais de 20 anos na atividade, Germano lembra com saudade dos tempos em que eram realizados exposições com os diversos produtores da região. “Minha maior frustração é não ter nenhuma companheiro, alguém que também faça isso,” lamenta. O principal fator para o abandono das atividades rurais, segundo Germano, é o alto custo de produção e a pouca rentabilidade do negócio. Ainda há a concorrência com as indústrias instaladas na região.

O que mantém Germano ainda na produção de leite é o gosto pela atividade e amor pelos animais. “A gente gosta do que faz e tem muito carinho pelos bichos,” afirma. O dinheiro vem como consequência, pois é necessário “trabalhar para sobreviver”. Também é difícil trocar de atividade, por isso, o agricultor afirma que “enquanto puder ficar na propriedade e se manter, vai tentar”. Para ele, a satisfação “é tratar os bichos, ver eles sempre bonitos e ter bons animais.”

Por dia, as 28 vacas produzem entre 350 e 400 litros de leite, vendido a uma empresa de Garuva, que transforma o produto em queijo. O filho, Paulo Roberto Müller, 34 anos, que recentemente saiu da indústria, ajuda nos trabalhos. “É difícil, mas ainda bem que ele está aqui,” pondera Germano, já que mão de obra é quase impossível de conseguir. A mulher, Eliete Müller, se aposentou na indústria e hoje se ocupa dos serviços domésticos, apesar de contribuir com a atividade do marido, mesmo que pouco.

O projeto de Germano é modernizar a produção, montando uma sala de ordenha, para não precisar mais carregar o leite em baldes como é feito atualmente. O galpão foi ampliado recentemente e deve receber outras melhorias no futuro. A dificuldade do agricultor foi na hora de conseguir créditos bancário. Como havia muita burocracia e os juros seriam muito altos, acabou desistindo.

 

  “Minha maior frustração é não ter nenhuma companheiro, alguém que também faça isso.”


Quase uma vida no campo

Germano só não trabalhou com agricultura durante sete anos, na década de 1970, período em que esteve na indústria de plásticos. Saiu porque a empresa passou por uma recessão e não podia mais mandar ônibus para buscar os trabalhadores em lugares mais afastados, como Rio Bonito. Sem ter como ir trabalho, por falta de transporte coletivo na Estrada Palmeira, Germano voltou para o campo, junto com o pai, Lauro Müller.

Os trabalhos na roça começaram ainda aos 12 anos de idade, com pequenas contribuições. O plano é se aposentar aos 60 anos, mas continuar trabalhando. “Enquanto Deus me der forçar, vou continuar na minha atividade”, garante.

Germano afirma ter visto o Rio Bonito se desenvolver e lembra da época em que o trânsito de Joinville para Curitiba passavam pelo bairro. “Boa parte dessas casas que têm lá, antigamente não existiam”, conta. O avô, Hermann Müller, veio da Suíça, fez a vida na localidade e hoje é homenageado com o nome de uma escola. (Alexandre Perger, especial para o Notícias do Dia)


A vitória do perseguidor

Ciclismo. Atleta de Joinville, hoje na categoria masters, se destacou em posição de resistência nas provas por equipe
Fotos Fabrício Porto/ND
Treino constante. Nas ruas em aclive, Osni treina para voltar às competições no próximo ano

 

 

A formação de qualquer atleta demanda tempo. Dependendo do esporte, alguns são preparados mediante a sua constituição física e resistência para vencer, chegar na ponta; outros, não menos importantes, são os que darão suporte, a prepararão da vitória de um dos integrantes da equipe. Na gíria do ciclismo esse atleta extremamente forte e resistente é o perseguidor. Sua missão no grupo é não permitir o descolamento do pelotão principal da equipe e, no momento apropriado, destacar o esprintador para cruzar a linha de chegada.

Osni Silveira, 65 anos, barravelhence, foi durante longo tempo esse profissional nas grandes equipes da cidade. Ele saiu de Barra Velha aos 12 anos de idade para morar e estudar em Joinville. “Barra Velha era bem pequena e só tinha o primário por lá. Fiquei na casa de um casal amigo da família. Tinha que trabalhar e estudar até concluir o segundo grau.” Aos 16 anos comprou sua primeira bicicleta, uma Monark aro 28, e trabalhava como entregador na Gusse & Cia, um armazém de secos e molhados na rua João Colin, onde permaneceu até a idade do alistamento militar.

Ele recorda que em 1962 assistiu a primeira edição da prova Circuito da Boa Vista e que ficara emocionado com a presença do público e a velocidade dos competidores. “Na semana depois da prova eu e mais oito amigos começamos a treinar. A gente se reunia na frente do Cemitério Municipal e treinávamos pela região, que era muito calma.” Em 1964 ocorreu a sua primeira participação no Circuito Prosdócimo de Ciclismo, na categoria “estreantes", com a participação dos clubes locais (CA Pinguim, Vera Cruz, Tupy o União Palmeiras), obtendo o sexto lugar na prova.

O ano que foi marcado pela revolução que instaurou o regime militar no país foi, para Osni, o início de sua carreira profissional. Primeiro, convidado para ingressar na equipe da Tupy na condição de perseguidor e ali ficou por três anos; depois, também convidado pelo amigo e conhecido ciclista joinvilense Uno Teilacker, fez parte da equipe de ciclismo da Tigre de 1969 a 1972. Engajado a vida militar, servindo no 62° BI, participou das Olimpíadas do Exército Brasileiro representando a 3° Região Militar formada pelos Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

 

“Serra Dona Francisca, Serra do Rio do Rastro, Serra de Corupá, ganhei todas elas”

 

Em sua casa no Bairro do Iririú uma galeria de troféus de todos os tipos e tamanhos enfeitam uma das paredes de sua sala de visitas. Um pouco mais abaixo, três cabides sustentam mais de uma centena de medalhas e condecorações, registros vivos de sua carreira exitosa. Sobre um guarda-roupa uma caixa com mais medalhas aguardam catalogação. Aos 65 anos sua consistência física e disposição são impressionantes. “Não deu para aguentar e voltei em 1991 para correr na categoria masters, acima de 30 anos,” observa (atualmente ela é dividida em masters A, acima de 30 anos; B, acima de 40 anos; e C, acima de 50 anos).

Osni é, até o momento, imbatível na categoria dos veteranos nas provas de subida de montanha, corrida seletiva que exige muita força e resistência física. “Serra Dona Francisca, Serra do Rio do Rastro, Serra de Corupá, ganhei todas elas,” fala com um sorriso de moleque travesso estampado no rosto. Sobre a possibilidade de abandonar as corridas, ele nem parou para pensar: “Ainda quero brincar mais um pouquinho o ano que vem.”

Na sua oficina estão impecavelmente pendurados e ajustados os “brinquedos” para o próximo ano: uma bicicleta Kinessis 2011 específica para provas de conta-relógio (velocidade) e uma Vicini – Corsa SL 2 em fibra de carbono, treino e competição. Torneiro mecânico por hobby, nas horas vagas ele confecciona rolos de treinamento estático, feitos em alumínio e nylon, joias confeccionadas por um mestre competente e gabaritado. (Valter F. Bustos, especial para o Notícias do Dia)


Pioneiro dos parques aquáticos

Turismo rural. Há 28 anos Norberto Davet desativou a produção agrícola na propriedade da Estrada do Pico para abrir espaço de lazer
Rogério Souza Jr/ND
Sucesso. Graças aos recursos naturais da propriedade, Norberto transformou o recanto em um cartão-postal da área rural

 

 

No turismo rural de Joinville se destacam belos e bem estruturados parques aquáticos instalados à beira de mananciais de águas cristalinas onde milhares de pessoas aproveitam para se refrescar na temporada de verão. O pioneiro dessa modalidade de lazer é Norberto Davet, morador da Estrada do Pico, em Pirabeiraba, onde é dono de uma bucólica área de 165 mil metros quadrados na margem direita do rio Cubatão. Nascido e criado no local, Norberto trabalhou em parceria com a mãe Edith na produção de banana, tomate e aipim até o ano de 1986, quando a dupla desativou as lavouras para abrir o Recanto Davet.

Norberto conta que lhe deu o estalo de investir no turismo rural devido o expressivo número de pessoas que pediam licença para acampar em sua propriedade para fazer churrasco e tomar banho no Cubatão.  “Ao expor a idéia à minha mãe, ela ficou entusiasmada. Começamos então a desativar as lavouras para dar lugar ao recanto. Com o tempo o negócio virou o meio de sustento da família,” relata.

O Recanto Davet começou de forma bem modesta. A estrutura toda se limitava a uma pequena cabana de chão batido e um campinho de futebol. Mesmo assim, o movimentou mostrou-se intenso desde que as porteiras foram abertas ao público. “A bela paisagem do lugar, somada aos rasos e aos poços existentes no trecho que o Cubatão cruza a propriedade ajudaram a divulgar o empreendimento,”, assinala Norberto.

Com a aplicação do lucro obtido no negócio, Norberto conseguiu transformar o Recanto Davet num soberbo cartão-postal do interior de Joinville. Hoje a estrutura do local conta com um campo de futebol (de tamanho oficial e com iluminação), seis tobogãs, duas lanchonetes, salão de festas (capacidade para 500 pessoas), três piscinas, 90 quiosques, 30 banheiros e estacionamento para mais de 800 carros de passeio. “Foram anos de aplicação de cada real que entrava no caixa para erguer esta estrutura”, enfatiza.

No Recanto Davet são cobrados R$ 10 pela entrada, por pessoa, em dias úteis e R$ 13 aos sábados, domingos e feriados. Em contrapartida, o visitante tem acesso a todos os equipamentos e conta com o atendimento de uma equipe de mais de 30 pessoas, entre as quais figuram salva-vidas.

Norberto observa que a base administrativa do empreendimento é familiar. “Minha mãe continua ajudando, enquanto que a mulher, Carmelita, e quatro dos meus sete filhos se constituem em peças chave para o bom andamento das coisas,” assinala.

 

“Ao expor a idéia à minha mãe, ela ficou entusiasmada. Começamos então a desativar as lavouras para dar lugar ao recanto. Com o tempo o negócio virou o meio de sustento da família.”

 

Concorrência é coisa boa
Estampa de bonachão, o dono do Recanto Davet vê com bons olhos o surgimento de concorrentes em seu nicho de mercado. “Uma andorinha só não faz verão. Se outros empreendimentos do gênero não tivessem surgido, duvido que o negócio tivesse prosperado tanto. Concorrência é coisa boa, que obriga a pessoa a se mexer constantemente para não ficar ultrapassada,” ressalta.

Corpulento e bem humorado, Norberto jura que no verão não tem refresco para ele. “É tanta correria que acabo perdendo uns bons quilinhos sem precisar malhar ou fazer regime,” deixa escapar. De bem com os negócios, o pioneiro dos parques aquáticos em beira de rios informa que pretende introduzir outras melhorias no complexo turístico da Estrada do Pico. “É preciso inovar continuamente para não cair na mesmice,” diz o veterano empresário do turismo rural joinvilense. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


A multiplicação dos feijões

Gastronomia. Dono de restaurante de Pirabeiraba fez o “pé de meia” com a venda de 40 sacas do grão, colhido antes de deixar a roça no Oeste
Fabrício Porto/ND

Da sorte.  Evandro trabalhou muito e prosperou em Pirabeiraba

 

 

Inconformado com a reduzida margem de lucro obtida em lavouras de milho e feijão, Evandro José Desordi saiu em 1992 de Palmitos, no Oeste catarinense, para se estabelecer pela segunda vez em Pirabeiraba, onde anteriormente, de 1984 a 1988, tinha trabalhado de garçom no Restaurante Rudnick. Além da mulher Dirce e da mudança, trouxe num caminhão fretado 40 sacas de feijão colhidas por ele uma semana antes da viagem. “Dei sorte ao trazer a carga de grãos para Joinville. Vendi a mercadoria ao Restaurante Rudnick por preço muito acima da oferta recebida em Palmitos,” lembra Evandro.

A pequena carga de feijão acabou decidindo o futuro de Evandro como comerciante do ramo gastronômico em Pirabeiraba. Dias depois da venda dos grãos, ele investiu todo o dinheiro na compra de 50% da Lanchonete Tropical, pertencente ao seu irmão Vanderlei Desordi. Já com experiência de garçom, Evandro transformou a Lanchonete Tropical num dos pontos mais concorridos da rua Olavo Bilac, artéria da malha viária de Pirabeiraba que faz a ligação com o viaduto da BR-101. “A vontade de vencer e a localização estratégica ajudaram a deslanchar o negócio,” assinala Evandro.

Três anos depois, Evandro conseguiu comprar a outra parte da Tropical, tornando-se então o único dono do estabelecimento. Decididos a ficar para sempre no ramo gastronômico, Evandro e Dirce arregaçaram de vez as mangas, atraindo mais fregueses com a oferta de novas opções de lanches e pizzas. A determinação rendeu bons frutos. Em 1998 os Desordi mudaram para um espaço mais amplo o outro lado da rua Olavo Bilac onde, além do serviço de lanchonete, a Tropical virou restaurante especializado no preparo de comida de sabor caseiro, bem ao estilo colonial que de Pirabeiraba.

Com seis funcionários permanentes, Evandro admite que o negócio vai de vento em popa. “Temos boa freguesia em toda a região de Pirabeiraba, em Garuva e até da parte mais central de Joinville. Seria até um pecado reclamar de alguma coisa,” assinala. Bem humorado, Evandro não consegue parar de rir quando se lembra dos tempos difíceis nas lavouras em Palmitos. “Foi uma época de muito trabalho e pouco dinheiro no bolso. Mas, no final da contas, foi da roça e daqueles benditos 40 sacos de feijão que consegui chegar onde estou,” reconhece agradecido, batendo com os nós dos dedos na mesa.

 

“Foi uma época de muito trabalho e pouco dinheiro no bolso. Mas, no final da contas, foi da roça e daqueles benditos 40 sacos de feijão que consegui chegar onde estou.”

 

Festas em família
Evandro conta que ao escolher Pirabeiraba para morar, um dos fatores que mais influenciou foi a presença de familiares no lugar. “Quando cheguei aqui já estavam cinco irmãos e duas irmãs. Somando a isso, o sossego do lugar e a boa índole do povo, não poderia ter escolhido melhor local para criar raízes e prosperar,” enfatiza.

Com tantos irmãos nos arredores, Evandro conta que por coincidência todos trabalham no ramo comercial. Nas horas de folga, um dos passatempos dos Desordi é promover encontros familiares. “Nada como uma boa conversa entre irmãos ao redor de uma mesa farta, tudo regado a um bom vinho colonial,” receita o bem sucedido comerciante do ramo gastronômico. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Um feliz presente de Natal

Bodas. Casal comemora 50 anos de união celebrada após a Missa do Galo no interior de Calmon
Carlos Junior/ND
Harmonia.Dorico e Traudi moram na comunidade de no Rio Bonito, perto de todos os filhos

 

 

“Mataram o padre que ia fazer os casamentos na nossa comunidade. Aí, outro padre avisou que faria todas as cerimônias após a missa de Natal. Foram cinco casórios de uma vez; precisamos catar testemunhas no laço.
Traudi Berbeki

 

 

Todos os anos, a véspera de Natal tem um sabor a mais no lar de Dorico e Traudi Berbeki, no Rio Bonito: além de reunir a família para mais um Natal, eles comemoram aniversário de casamento neste dia. Desta vez, porém, a celebração das bodas tem tudo para ser mais efusiva até que o Natal, pois são 50 anos de união. A festa, marcada para um salão de eventos na estrada Pirabeiraba, tem na programação uma missa pelas Bodas de Ouro, às 10h30, seguida de almoço, café da tarde e já emendando com troca de presentes e ceia de Natal, tudo no mesmo lugar. “Esperamos, como todos os anos, reunir a família toda”, diz Dorico. “Uma data como essa é pra ficar marcada, afinal são cinquenta anos de união, com muito amor e harmonia”, completa Traudi.

Flordorico Berbeki nasceu na localidade de Felipe Schmidt, no interior de Canoinhas, em maio de 1938. Lá viveu até os 18 anos, quando prestou serviço militar em Rio Negro, no Paraná. Terceiro de uma prole de 16 irmãos (seis morreram precocemente), desde cedo Dorico precisou trabalhar, ajudando no sustento da família: “Comecei cortando imbuia em Clevelândia, no Paraná. Depois fui para Calmon, onde trabalhei cortando pinheiro para a Companhia São Roque, numa época em que a indústria madeireira era muito forte.” Dorico mostra algumas fotografias dos velhos tempos, em que aparece ao lado do seu fiel caminhão, com o qual transportava madeira para o porto de Itajaí. “Levava até uma semana de viagem, por estradas precárias, sem um quilômetro sequer de asfalto de Calmon até Itajaí.”

Foi em Calmon que ele conheceu Waltraud Reimer, filha de um empreiteiro para o qual o próprio Dorico trabalhou. Ela nasceu em Braço do Trombudo, município do Alto Vale do Itajaí, na época uma localidade do município de Trombudo Central, em janeiro de 1943. Segunda de cinco irmãos, aos 7 meses de idade já morava em Calmon, para onde a família se transferira em busca de novas oportunidades. “Fui professora durante 18 anos”, conta Waltraud.

 

 

 

Arquivo pessoal/ND
Álbum. O registro do casamento no religioso, em 1962

 

 

“Uma data como essa é pra ficar marcada, afinal são cinquenta anos de união, com muito amor e harmonia.”
Traudi Berbeki

 

Testemunhas no laço
Flordorico e Waltraud começaram a namorar durante uma domingueira, que era um baile realizado nas tardes de domingo. “Começamos o namoro depois de dançar algumas marcas,” lembra Dorico (marcas era como se denominavam as músicas que se sucediam durante um baile; era comum os rapazes apostarem “quantas marcas” seriam necessárias para conquistar uma moça).

Casaram-se em 1961, inicialmente apenas no civil. “É que lá no interior – conta Dorico – o padre só ia de vez em quando.” Além disso, o fato de ele ser católico e, ela, luterana, também interferiu, até que as famílias chegaram num acordo e celebraram o casamento religioso. Mas por que só no Natal de 1962? Waltraud explica: “Mataram o padre que ia fazer os casamentos na nossa comunidade. Aí, outro padre avisou que faria todas as cerimônias após a missa de Natal. Foram cinco casórios de uma vez; precisamos catar testemunhas no laço.”

O casal ainda morou em Curitibanos e Ibirama antes de se estabelecer em Joinville. “Foi no dia 13 de maio de 1976, às 19h”, recorda-se com precisão Waltraud, que no Rio Bonito virou Traudi. Aposentada como professora, passou a se dedicar ao trabalho voluntário na paróquia Nossa Senhora Auxiliadora (local da missa de Bodas de Ouro, neste sábado). Já Dorico passa o tempo recebendo a freguesia fiel no barzinho que montou em frente de casa. Os seis filhos (mais dois que morreram cedo) moram por perto, além dos 14 netos e um bisneto (mais um que deve nascer em maio próximo).Parabéns ao casal e feliz Natal para toda a família.


Apitos para ganhar o mundo

Esporte. Profissional de basquete de Joinville integra os quadros nacionais e internacionais de arbitragem
Fabrício Porto/ND
No coração da cidade. Eduardo morou no Abel Schulz quando o pai era funcinário da Prefeitura e encarregado da manutenção do ginásio

 

 

O esporte costuma entrar na vida das pessoas de formas variadas. Mas a história de Eduardo Albano, 31 anos, é especialmente singular. Ele nasceu e foi criado embaixo das arquibancadas do ginásio Abel Schulz e lá morou com a família até 2007. Em constante contato com diversas modalidades, escolheu o basquete. Jogou até os 16 anos e passou a se dedicar à carreira de árbitro. A aposta deu certo e este ano Eduardo passou a integrar o quadro internacional de arbitragem, o primeiro de joinvilense e um dos três de Santa Catarina.
Mas a experiência de Eduardo é ainda maior. Formado em educação física desde 2006, se tornou árbitro nacional em 2010. Desde lá, já rodou o Brasil comando jogos em três temporadas do Novo Basquete Brasil, principal competição da modalidade no país. No entanto, assim como no futebol e outros esportes, ainda não é possível viver do apito. Para se manter e tirar o sustento, Eduardo segue um dos ofícios do pai, trabalhando com demarcação de quadras. Além disso, já trabalhou como professor, mas precisou parar porque não conseguiu conciliar com a arbitragem. “Atua como árbitro de basquete hoje quem gosta; se não gostar, não aguenta”, afirma Eduardo. Entre as principais dificuldades, ele enumera a parte financeira e o tempo de dedicação necessário. “A arbitragem é mais pela paixão pelo basquete”, declara.
Mesmo com os problemas, Eduardo tentar driblar as dificuldades encontradas dentro e fora de quadra para tirar de cada jogo um novo aprendizado para a vida. “Se eu entrar na partida e acontecer tudo o que já aconteceu em todas as outras é porque eu não aprendi nada”, descreve. Mas, para a felicidade do árbitro joinvilense, isso nunca ocorreu, pois cada jogo é algo diferente e obriga uma adaptação. “A vida é assim: aparecem coisas que você não está prevendo e precisa se adaptar e evoluir sempre,” analisa.
Para que o próprio exemplo possa ser seguido por outras pessoas, Eduardo tem o plano de abrir uma escola de árbitro de basquete em Joinville. A intenção é iniciar o trabalho com jovens e no futuro atender alunos. Segundo Eduardo, esta iniciativa ainda não existe no Brasil. “O que ocorre são as escolas que acontecem em paralelo a algum evento esportivo,” explica.

 

 “Atua como árbitro de basquete hoje quem gosta;  se não gostar, não agüenta.”

 

Desde pequeno no meio do esporte
Eduardo morou no Abel Schulz porque o pai, Antônio Albano, 63 anos, era funcionário da Prefeitura e cuidava da parte elétrica do ginásio, entre outros serviços, como deixar o local pronto para receber todos os eventos. Com a aposentadoria do pai, em 2007, Eduardo e a família deixaram o ginásio. “Foi um grande privilégio ter morado lá, não consigo me imaginar fora de tudo isso,” diz. Quando criança, a rotina era sair chegar da escola e ir para a quadra jogar. “Eu tinha contato com o pessoal de todos os esportes,” lembra. O grande sonho de Eduardo é apitar a final de uma Olimpíada e de um Campeonato Mundial.(Alexandre Perger, especial para o Notícias do Dia)


O trabalho social que mudou uma vida

Solidariedade. Jamil Chati conheceu o Lar Emanuel há 12 anos e desde lá contribui de forma voluntária
Fabrizio Motta/ND
Sem hora para estar lá. Na administração da casa, ou em contato com os clientes, Jamil consegue ajuda para o Lar

 

 

Há 13 anos, quando a violência e as condições de vida fizeram o representante comercial Jamil Chati, 53 anos, trocar Campinas (SP) por Joinville, ele não sabia que essa mudança daria outro rumo para sua vida. Isso porque em 2000 ele conheceu o projeto Lar Emanuel, se apaixonou pelo trabalho desenvolvido com as crianças e até hoje trabalha como voluntário, atuando na parte administrativa.
Atualmente, a entidade acolhe 12 crianças de 2 a 17 anos e fornece toda a estrutura familiar necessária, com acompanhamento psicológico, médico e de um casal social, que passa 24 horas na casa. Os menores são enviados ao Lar Emanuel pela Justiça e lá permanecem até serem adotados ou que os pais consigam a guarda novamente.
Essas histórias de vida e os dramas enfrentados pelos pequenos fizeram o representante comercial repensar a forma como vê o mundo e encara os problemas do cotidiano. “A gente vê como é pequeno, não temos noção do que uma criança de 2 anos já passou e que eu na minha vida inteira não vou passar”, conta. Um dos aprendizados tirados no convívio com as crianças é que elas superam qualquer dificuldade quando recebem o amor e carinho que sempre faltaram. “Às vezes, nós, com um problema infinitamente menor, já choramos ou entramos em depressão”, considera.
A identificação de Jamil com o trabalho foi tanta que ele não cogita a possibilidade de sair. “Eu seria uma pessoa infeliz sem o Lar Emanuel”, declara tio Jamil, como é chamado pelas crianças. O envolvimento tornou a entidade parte da vida do representante. “Começou a fazer parte do meu dia a dia, das minhas decisões”, reconhece.
Não há expediente para estar no Lar, mas isso não impede que Jamil dedique 80% do tempo ao trabalho de administrar a entidade, mesmo estando longe. A profissão o aproxima de uma série de contatos, principalmente com empresários. “Quando eu visito um cliente, já falo do Lar, então eu faço o meu trabalho e ajudo a entidade,” explica. Ainda assim, Jamil garante que 100% do seu tempo está a disposição do Lar Emanuel. “As coisas acontecem na parte da manhã, à noite ou durante o dia,” descreve.
No primeiro contato com o Lar, Jamil conta que a entidade passava por uma série de dificuldades, como falta de comida. “Não existia uma estrutura, existiam pessoas com vontade de ajudar essas crianças e isso tocou meu coração, no sentido de que não custa ajudar”, lembra. O primeiro trabalho foi o de terminar a estrutura da nova sede, no Jarivatuba.

 

 “A gente vê como é pequeno, não temos noção do que uma criança de 2 anos já passou e que eu na minha vida inteira não vou passar.”

 

 O sonho de ajudar mais crianças
Mas Jamil ainda tem um sonho: abrir um Lar Emanuel voltado para crianças com dependência química. “Não existe no estado de Santa Catarina nenhum lugar que ampare essas crianças como crianças, não como marginal ou doente,” constata. O objetivo do representante comercial é montar uma chácara onde os menores possam brincar, pois, segundo ele, as crianças nessa situação precisam de amor e não de remédio. “Eu tenho certeza que isso vai acontecer um dia,” projeta. (Alexandre Perger, especial para o Notícias do Dia)


Uma vida em cena

Dramaturgia. Hélio Muniz é exemplo de que é possível sonhar em viver do teatro em Joinville
Rogerio da Silva/ND
Representar.  Hélio encena no palco da Casa do Iririú, espaço administrado pelo grupo Canto do Povo

 

 

 

“Quando nasci, entrei em cena. Quando morrer, vou sair de cena.” É assim que o paulista erradicado em Joinville, Hélio Muniz, 66 anos, define sua ligação com o teatro, atividade que o proporcionou “todas as alegrias da vida” e da qual tira o sustento. Hélio trabalha como diretor em alguns grupos da cidade, além de outros projetos. Sem interesse pelo grande teatro comercial e com vocação para o independente, voltado para a comunidade, também contribui com os trabalhos na Casa do Iririú. O espaço é administrado pelo grupo Canto do Povo e oferece cursos, oficinas e realiza apresentações gratuitas para toda a comunidade.
Por mais difícil que seja, Hélio consegue tirar o sustento apenas do teatro, com a ajuda de projetos, editais e do trabalho como professor. Mas o diretor ressalta que ainda não é possível viver de bilheteria. “Mas essa dificuldade existe em todos os lugares do mundo,” observa. Na mesma Casa do Iririú, Hélio pretende colocar em prática um projeto que tem há muito tempo, a criação de uma Universidade Livre. A ideia principal é promover cursos sem graduação, em que pessoas de todas áreas e classes sociais possam estar no mesmo local discutindo diversos temas e aprendendo de forma conjunta.
A relação de Hélio com o teatro joinvilense começou em 1993, quando ele decidiu sair de São Paulo. Assim que chegou a Joinville, encontrou a cidade em meio a um festival teatral. De início, a primeira impressão foi a melhor possível: “Quando vi, pensei: a cidade é muito boa.” Mas logo depois, percebeu que a realidade não era bem aquela. Foi aí que decidiu ajudar a transformar o cenário da época.
No começo, junto com outros nomes da cultura joinvilense, montou o grupo de teatro Navegantes da Utopia. Dessa forma, foi ficando e se estabelecendo de vez em Joinville. Em 2001, ajudou a fundar a Associação Joinvilense de Teatro, momento que Hélio considera um marco para o teatro na cidade. “Nosso grande avanço foi a criação da Ajote”, afirma.

 

Primeiro contato foi com o cinema
Apesar da vida dedicada ao teatro, o primeiro desejo de Hélio, ainda criança, aos 5 anos de idade, foi fazer cinema. O interesse nasceu junto com o primeiro filme que viu na grande tela. “Sai da fascinado da sala, disse ao meu pai que queria fazer isso da minha vida”, lembra. Mas, com o tempo, ele descobriu que “brincadeira do cinema é cara” e desistiu da ideia.
O teatro foi descoberto aos 10 anos de idade, pois havia um grupo instalado na fazendo do avô. “Comecei a assistir, a gostar e decidi que era isso que queria fazer de verdade,” conta. A partir daí, fez teatro na escola, se ligou a outros grupos e fez teatro amador durante muito tempo.
No fim da década de 1960, entrou para a primeira e única turma do teatro de arena, em São Paulo, que até hoje é referência na área, por abrigado grandes nomes das artes cênicas. Depois, participou de outros projetos e chegou a ficar dez anos longe do teatro profissional, retornando em Joinville. Como gosta de falar, o teatro lhe procurou. (Alexandre Perger, especial para o Notícias do Dia)


Acertou no alvo

Sucesso. Ao deixar o serviço no exército, Erico Volles trocou o Vale do Rio do Júlio pela cidade e se destacou no tiro seta
 Rogério Souza Jr/ND
Bom de mira. Érico exibe medalha de xerife, de segundo príncipe, de primeiro príncipe, de príncipe dos príncipes e de rei do tiro em campeonatos na cidade, além de rei regional numa competição entre atiradores de Joinville, Jaraguá e São Bento do Sul

 

 

Nascido e criado no encantador Vale do Rio do Júlio, até completar 18 anos trabalhou na roça e se divertiu participando de caçadas nas densas matas que encobrem o lugar. Ao ser selecionado pelo Exército, desceu então a serra para servir no antigo 13º Batalhão de Caçadores (hoje 62º Batalhão de Infantaria). Esse é o resumo do começo da biografia de Erico Volles, disposto cidadão de 68 anos de idade que fez história na cidade após ter deixado a farda verde-oliva.
Sem perspectivas de um futuro financeiro promissor, ao deixar a caserna Erico não retornou a Rio do Julio. Ficou na cidade, onde conseguiu emprego na companhia Hansen, na qual permaneceu no chão de fábrica por nove anos. Da Hansen foi para a Consul, onde progrediu profissionalmente ao se formar ferramenteiro. Com o diploma na mão, foi remanejado para o setor de mestres em ferramentaria, de onde só saiu ao se aposentar.
Paralelamente à bem sucedida carreira profissional, em 1983 Erico começou a escrever outra, igualmente brilhante, jornada. Com 39 anos de idade ele aceitou convite para participar da equipe de tiro ao alvo da Consul. “Aceitei no impulso, pois não tinha experiência nenhuma em tiro ao alvo com espingardas que disparam setas. Até então sabia manobrar só armas chumbeiras, dessas para caçar. Mesmo assim, logo me adaptei e comecei a colher bons resultados. Foi determinante para estar nesse esporte até hoje,” conta bem humorado.
Já com boa bagagem em tiro seta, em 1991, Erico tornou-se membro da Sociedade Esmeralda e no mesmo dia foi integrado à equipe de atiradores da agremiação. Cinco anos mais tarde, ele foi efetivado no posto de coordenador técnico da equipe esmeraldina, no qual permanece até hoje. Os resultados obtidos por Erico como coordenador são admirados até pelas equipes adversárias. Ao todo, incluindo o pentacampeonato conquistado neste ano, a equipe orientada tecnicamente por ele tem nove títulos do Campeonato Citadino de Tiro ao Alvo de Joinville. 
Humilde, Erico transfere o mérito do bom desempenho aos atiradores da equipe. “Todos são importantes nessa conquista. Em nenhum esporte de equipe se consegue alguma coisa positiva se não houver união e camaradagem como acontece como na Sociedade Esmeralda,” destaca.

Além de coordenador, Erico é atirador, e dos bons. Individualmente já conquistou uma medalha de xerife, uma de segundo príncipe, duas de primeiro príncipe, uma de príncipe dos príncipes e duas de rei. Para coroar a coleção, em 2003 ele foi rei regional numa competição entre atiradores de Joinville, Jaraguá e São Bento do Sul.

 

“Todos são importantes nessa conquista. Em nenhum esporte de equipe se consegue alguma coisa positiva se não houver união e camaradagem como acontece como na Sociedade Esmeralda.”

 

“Essa modalidade merece mais apoio”
Ao comentar os bons resultados, Erico olha carinhosamente para a mulher, Olga, com a qual tem um filho que lhe deu dois netos. “A Olga é minha grande incentivadora, me acompanha e apóia em tudo. Sem ela eu não teria conseguido chegar onde estou,” enfatiza.
Para completar, o veterano atirador destaca que o tiro ao alvo de Joinville hoje envolve mais de 600 famílias. “Os treinos e as competições tem a participação de avós, pais, filhos e netos, detalhe que ajuda a promover a união familiar. Melhor que isso é o fato que não conheço nenhum praticante de tiro ao alvo que tenha descambado para a marginalidade. Por isso vivo dizendo que essa modalidade esportiva merece mais apoio das autoridades”, salienta o veterano atirador. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


O coração no Piraí

Tradição. Vilson Zoller nasceu na região da Estrada Salto 1 e sempre participou das 38 edições da Festa do Colono
Rogério Souza Jr/ND
Reduto. Há três anos Zoller preside a Sociedade Piraí, que tem sede no Salão Jacob, no interior do Vila Nova

 

 

 

Em Joinville são encontradas líderes comunitários comprometidas há décadas com a preservação de valores culturais germânicos. Um deles é Vilson Zoller, presidente da Sociedade Piraí, cuja sede é o famoso Salão Jacob, na Estrada Comprida, região do bairro Vila Nova. Nascido há 60 anos na bucólica Estrada Salto 1, onde está instalada a usina que em 1909 deu início à iluminação elétrica de Joinville, Vilson cresceu na roça cultivando bananais e criando gado leiteiro. Paralelamente ele freqüentava desde criança a Sociedade Piraí, inaugurada dois anos do seu nascimento.
Interessantes são os detalhes que ele fornece a respeito de como a agremiação surgiu. “Os colonos da região do Piraí fundaram a sociedade em 1950 para se divertir praticando tiro ao alvo. No começo, a ‘sede’ era a varanda da casa do meu avô, Ludwig Zoller, e uns três anos depois as atividades foram transferidas para o Salão Jacob, pertencente a Francisco e Amandus Jacob (pai e filho, respectivamente), onde funcionava um comércio de secos e molhados e um açougue,” relata Vilson ao resgatar a história guardada com nitidez em sua memória privilegiada.
Vilson acrescenta que a Sociedade Piraí pagou aluguel até meados da década de 1990, quando então adquiriu o imóvel de Amandus Jacob por um precinho bem camarada, facilitando o negócio. A Sociedade Piraí se firmou no Salão Jacob, despontando já nos primeiros anos de funcionamento no local como um dos ícones da preservação da cultura germânica no interior de Joinville. Dentre as promoções da Sociedade Piraí, a mais conhecida é a Festa do Colono, que é realizada há 38 anos. Desde a primeira edição o evento se destaca pela valorização da culinária típica (marreco assado em forno a lenha e schwartzsauer), além dos bailes sempre animados por bandinhas de repertório musical germânico.
Com uma pontinha de orgulho, Vilson informa ter participado de todas as festas do colono, ora trabalhando atrás do balcão, ora na organização do desfile típico ou na contratação dos músicos. “Fiz e ainda faço um pouco de tudo para a festa continuar,” resume o veterano preservador da cultura germânica.
A partir de 1985, além de trabalhar nos eventos, Vilson passou a fazer parte da diretoria da Sociedade Piraí. Começou como no cargo de vice-tesoureiro e depois foi o tesoureiro por muitos anos.  Há três anos ele é o presidente da sociedade, mas continua como sempre: trabalhando em diferentes setores onde sua presença se faz necessária.

 

“As festas no Salão Jacob representam uma trincheira onde é preservada a cultura germânica.”

 

Engajamento da família
Casado com dona Lourdes, com a qual tem um filho e duas filhas, Vilson se diz grato à família por acompanhá-lo em seu trabalho na sociedade. “A Lourdes foi chefe da cozinha por nove anos seguidos, enquanto que meu filho Gerson é meu parceiro para o que der e vier há muitos anos. O engajamento da família me anima a continuar trabalhando”, enfatiza.
Há 15 anos o presidente da Sociedade Piraí mora na rua Pelotas, no bairro Glória. Aposentado, continua trabalhando na propriedade de Salto 1, onde cultiva aipim. De quebra, faz serviços e roçadas e jardinagem no bairro Glória.
Apesar de ter mudado para a cidade, Vilson garante que nunca lhe passou pela cabeça se afastar da Sociedade Piraí. “As festas no Salão Jacob representam uma trincheira onde é preservada a cultura germânica. Outro motivo que me estimula a continuar firme nessa jornada é o fato que meu coração mora na região onde nasci,” salienta bem humorado. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Excelência no esporte dos rajás

Xeque-mate. Campeão estadual por duas vezes e com dezenas de medalhas, Freddy Guimarães se desliga do mundo diante do tabuleiro de xadrez
Carlos Junior/ND
Programa das quartas. Freddy (de azul) e o amigo Irineu Silvério Butzke se reúnem toda a semana para jogar

 

Olhos fixos no tabuleiro, a atenção toda voltada à movimentação das peças, o pensamento buscando nas complexas estratégias possíveis a solução para capturar o rei e liquidar o oponente. Nesse momento, o mundo parece deixar de existir. De repente, ouve-se a sentença: xeque-mate. Um derradeiro instante de silêncio... e as gargalhadas ecoam na garagem da casa de Freddy Pedrotti Guimarães, dando por encerrada mais uma partida de xadrez.
A cena se repete muitas vezes, todas as quartas-feiras, quando Freddy e o amigo Irineu Silvério Butzke se refugiam na garagem de casa, longe do barulho e das conversas, para jogar xadrez. Aos 90 anos de idade, Freddy joga desde a adolescência e ao longo da vida acumulou dois títulos de campeão estadual nos anos 60 e 70 e mais de 40 medalhas – resultados de um conhecimento obtido sozinho, com a ajuda dos livros e de muita concentração e observação. Hoje, apesar de longe das competições, não dispensa a tarde de jogos com o amigo, que geralmente começa às 14h e não termina antes das 17h30, com um pequeno intervalo para um lanche. Pequeno, pois é preciso aproveitar cada momento para exercitar o xadrez.
Gaúcho, de Pelotas, Freddy mudou-se  para Joinville há 70 anos, com apenas 20 anos de idade. Recém-aprovado em um concurso do Banco do Brasil, ele veio para trabalhar na agência local. Ao chegar, se encantou pela jovem Odete Lopes – e não quis mais voltar. Aos 23 anos casou-se com Odete que hoje, aos 87 anos, guarda com carinho as medalhas conquistadas pelo marido ao longo das décadas.
A paixão pelo xadrez é mais antiga. “Começou quando era novo, com uns 15 anos”, revela, brincando que “xadrez é para gente nova.” Os livros foram seus aliados na busca pelas técnicas e estratégias que o levariam a se destacar no Clube de Xadrez de Joinville e nos campeonatos realizados por todo o Estado. “Lendo livros é muito mais fácil”, garante. Depois, já adulto, conciliava o trabalho no Banco do Brasil com os estudos para se aprimorar no hobby. “No banco são seis horas de serviço. Sobrava muito tempo. Depois, tinha sábado e domingo,” explica.

 

Adversários de muito talento
Nos torneios costumava liquidar rapidamente os adversários, com jogadas rápidas e certeiras abreviando as partidas longas quer podiam se estender por mais de duas horas. “Quando era campeão, em 20 minutos acertava a jogada,” conta enquanto o amigo Irineu acena com a cabeça, concordando.
Do tempo em que costumava percorrer o Estado jogando xadrez, ele lembra dos embates com grandes jogadores locais da época, como Henrique da Costa Mecking, o Mekinho (“um grande mestre do xadrez”), Hélio Balsted, Osmar Soter Correia, Guido Hofmann entre muitos outros. E é capaz de descrever em detalhes algumas das partidas ou jogadas decisivas realizadas há décadas.
Hoje, Freddy olha as medalhas colecionadas com o tempo, resultado de sua paixão pelo esporte, e se espanta com quantidade. “Tudo isto é meu?”, brinca. Mas não se detém nelas por muito tempo. É hora de voltar para o tabuleiro, arrumar as peças e iniciar uma nova partida.


É Falcon, mas poderia ser MacGyver

Multiprofissional. Falcon é marceneiro, afiador, serigrafista, músico, eletricista...
Fabrício Porto/ND
Tudo rápido e em domicílio. Juscemar Andrade, o Falcon, afia alicates e tesouras em equipamento instalado em sua motocicleta

 

 

 

Quem já passou dos 40 anos tem vivas na memória as cenas do agente Angus MacGyver, protagonista da série “Profissão perigo”, criando as mais diversas traquitanas para se safar de situações delicadas. Com elástico, munição, uns clipes e muita criatividade ele era capaz de fabricar até poderosos explosivos, graças aos conhecimentos em física, química e outras ciências. Guardadas as devidas proporções – e tirando as cenas de perigo –, pode-se dizer que Juscemar Andrade é o MacGyver dos dias atuais.
Joinvilense, 41 anos, pode ser visto pelas ruas da cidade pilotando sua moto em busca de alicates de unha para afiar, nos salões de beleza da cidade. Mas afiar alicate exige tanta criatividade? Exige, quando o equipamento foi todo desenvolvido em casa, com sucata e conhecimento de vários ofícios. “Desde criança – conta Juscemar, mais conhecido como Falcon – eu gostava de desmontar os brinquedos para ver como funcionavam. E sempre conseguia montar de novo.” Isso quando algum mecanismo não ia parar num brinquedo novo, criado a partir dos blocos de Lego presenteados pelo padrinho. Da criação de brinquedos, o garoto foi para a marcenaria, aprendida com o pai, profissional dos bons.
Hoje, Falcon é o típico homem dos mil instrumentos: às habilidades já citadas podem-se citar conhecimentos de eletricidade, mecânica, tornearia e até construção civil. Ele está construindo sozinho um puxado nos fundos da casa onde mora, na rua Florianópolis, onde vai instalar seu estúdio e dar aulas de violão, teclado e sax. “Hoje tá meio improvisado num quartinho, mas o estúdio vai ter mais espaço e isolamento acústico”, explica Falcon, mostrando a construção com paredes duplas – que também vai isolar o som da bateria do filho Jonathan, 15. Ah, sim: Falcon aprendeu música sozinho, inclusive a ler partitura. Além das aulas, é o consultor musical e técnico da igreja O Brasil para Cristo, que frequenta com a família. “Eu ensino o pessoal a tocar e também estamos preparando a gravação de um CD.” Em qual estúdio? “No meu, claro!”

 

“Aprendi a nunca jogar nada fora. Dá pra aproveitar sucata em muita coisa.”

 

Nunca jogar nada fora
E o apelido? Algo a ver com o Falcon, aquele personagem dos Comandos em Ação dos anos 70? “Ah, não. Esse foi dado por um amigo, que achava Juscemar pouco comercial. Falcon era uma marca de relógio. Acabei adotando e pegou”, conta o multiprofissional, usando um guarda-pó verde com o logotipo “Falcon Informática”. Desnecessário explicar que ele também sabe consertar computadores – outro ofício aprendido autodidaticamente, claro.
O primeiro trabalho foi como vendedor, ajudando o pai. “Quando não estava fabricando móveis, eu ia buscar mercadorias no Paraguai e em São Paulo para revender. A prática em vendas sempre me ajudou nas outras atividades.” Depois, passou para a propaganda, fazendo serviços de serigrafia. Ainda faz, como se vê pelo ferramental em sua oficina, onde se misturam ferramentas, máquinas e bugigangas de todos os tipos. “Aprendi a nunca jogar nada fora. Dá pra aproveitar sucata em muita coisa.” A prova está no equipamento de afiação acoplado à moto, onde quase tudo é resultado de garimpagem, do motorzinho com regulagem de velocidade à pedra de amolar.
Curioso, Falcon descobre muita coisa fuçando na internet – exemplos: fundição de alumínio, tornearia, mecânica... Ao lado da casa, carro e moto são protegidos sob um toldo de lona – produzido adivinhe por quem?  A única atividade em que ele não se envolve é a loja de variedades, administrada pela esposa Luciane. Um dos projetos imediatos de Falcon é instalar uma nova caixa na moto, ampliando o mix para afiar facas variadas e acrescentando cobertura e luz, para trabalhar sob quaisquer condições. “A imaginação não tem limite”, garante Falcon, o MacGyver de Joinville.

Serviço | Onde encontrar
O que: Falcon ensina música em sua casa
Onde: rua Florianópolis, 1435, no Guanabara
Informações: para afiar alicates de unha em qualquer lugar da cidade, atendendo pelo telefone 9902-6222


Realização na área da saúde

Ofício. De copeiro no Hospital Bethesda, Romildo Marcos Letzner passou a cuidar de doentes até se graduar em farmácia e fisioterapia
Rogério Souza Jr/ND
Portas abertas. Hoje Romildo está estabelecido com uma farmácia na SC-301, na região do Rio da Prata

 

 

Egresso do colégio estadual Olavo Bilac, no centro de Pirabeiraba, aos 13 anos de idade Romildo Marcos Letzner arrumou emprego de copeiro na cozinha do Hospital Bethesda, cujas instalações seu pai Marcos tinha ajudado a erguer alguns anos antes. Foi nesse trabalho singelo que Romildo descobriu sua vocação: dedicaria a vida à nobre e abnegada tarefa de cuidar de doentes. Opção profissional definida, ele fez então curso técnico de enfermagem no colégio Bom Jesus. Ao se graduar foi colocar em prática seus conhecimentos no hospital onde tinha sido copeiro. Em seguida deu prosseguimento ao trabalho de enfermeiro no Hospital Cruzeiro, da cidade de Rio do Sul.
Do Alto Vale do Itajaí, Romildo retornou a Pirabeiraba há 25 anos para abrir a farmácia Letzner. Ao iniciar seu próprio negócio ele não se acomodou atrás do balcão, preferindo buscar mais conhecimentos. Por conta disso fez a faculdade de farmácia no campus de Canoinhas da Universidade do Contestado. Ato seguinte fez a faculdade de fisioterapia na ACE (Associação Catarinense de Ensino).
Hoje Romildo está estabelecido com uma farmácia na SC-301, na região do Rio da Prata. Ele se orgulha de outros três estabelecimentos do gênero abertos por ele, que atualmente são controlados por outras pessoas.  “São farmácias que funcionam na sede de Pirabeiraba, em Rio Bonito e no bairro Vila Nova, todos vão indo bem”, destaca.
Aos 54 anos de idade, Romildo é obrigado a se desdobrar para dar conta de um conjunto de compromissos. Para começar, ele divide o tempo entre o balcão da farmácia e sessões de fisioterapia com pacientes vítimas de AVC (acidente vascular cerebral). “Faço fisioterapia em domicílios e hospitais, mediante agendamento. Nessas horas a Neusa, a esposa, é quem segura as pontas no balcão,” assinala. Romildo é também dono de uma granja de suínos com plantel médio de 800 cabeças. Instalada no km 30 da BR-101, a granja é gerenciada pelo pai e por uma irmã. A dupla, além de criar os suínos, aproveita os dejetos dos mesmos para a produção de adubo orgânico. “De minha, parte faço alguma coisa de manhã bem cedo antes do corre-corre entre a farmácia e a fisioterapia,” diz desatando uma boa risada.
Ao emendar outra risada, Romildo enfatiza que a granja surgiu em decorrência de suas origens rurais. “Meu pai, antes de ser pedreiro, foi agricultor e por isso sempre me senti atraído pelas atividades rurais e, aí, caí na boa tentação de abrir a granja.”

 

“Só os desocupados estão sempre atarefados, sem hora disponível para nada.”

 

Homem de espírito participativo
Com tantas coisa para fazer, Romildo ainda encontra tempo para exercer a presidência do Sindicato do Comércio Farmacêutico do Norte de Santa Catarina, a vice-presidência da Federação do Comércio de Santa Catarina e a vice-presidência da Associação Brasileira do Comércio Farmacêutico, com sede em São Paulo. De quebra é conselheiro do Sesc e da Federação Nacional do Comércio, cuja sede está no Rio. Ele justifica tamanho envolvimento dizendo que quem se organiza encontra tempo para tudo. “Só os desocupados estão sempre atarefados, sem hora disponível para nada,” salienta o disposto e espirituoso farmacêutico do Rio da Prata. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Basta ter esperança

Bom exemplo. Alberto da Silva Ferreira Filho superou a dependência de droga, obteve sucesso hoje se dedica também aos livros
Luciano Moraes/ND
Na Estrada do Pico. Alberto mantém um espaço para reflexão e leitura na propriedade do casal às margens do rio Cubatão

 

 

A vida de Alberto da Silva Ferreira Filho, 43, historiador e graduando em psicologia transpessoal foi marcada por várias mudanças e um episódio de grande superação pessoal: uma luta solitária contra o mal do século, as drogas. “Eu nasci em Araguari, no Estado de Minas Gerais. O meu pai foi militar do exército e serviu no Batalhão de Engenharia, razão das muitas mudanças que a família fez,” justifica. Ele recorda que essas mudanças foram frequentes até a transferência para Porto Alegre (RS), quando a família pode fixar residência definitiva.
Os estudos até o segundo ano do colegial foram cursados no Colégio Militar. Num caso pouco comum, Alberto foi expulso da instituição sem que houvesse motivo de gravidade maior. Ele recorda que no dia fazia muito calor. Antes de sair de casa pegou sua roupa de banho, toalha e algo para beber. “Subi no telhado da escola, tipo varandão, e fui tomar banho de sol. Um capitão me viu e não gostou. Fui expulso” (risos). Sem magoa pelo acontecimento, ele entendeu que o seu lazer não seria um bom exemplo aos demais colegas. O lado positivo foi que seu pai orientou-lhe a fazer um curso com possibilidades de emprego imediato e tocar a vida.
A década de 80 foi marcada no Brasil pelo surgimento de cursos de computação e digitalização devido às necessidades de informatização nos variados segmentos de atividade econômica. Com simpatia pela área, Alberto iniciou e avançou muito na programação. Como havia enorme demanda para esses novos profissionais, no início dos anos 90 ele mudou-se para Curitiba onde exerceu a profissão. Aquela que seria sua grande oportunidade de emancipação profissional, intelectual e financeira surgiu por meio de um convite para uma ação pioneira no país: a informatização do aeroporto de Porto Seguro, na Bahia, em 1994. “Eu era muito jovem, disposto e ganhava muito dinheiro. A Bahia te seduz com festas, mulheres e badalação. Em pouco tempo conheci a cocaína.” Ele conta que aos poucos seus clientes foram se desligando de sua assessoria, enquanto ele já não tinha noção de sua vida e de coisa alguma. “Um dia acordei e lembrei carinhosamente dos meus pais, dos bons momentos, paciência e apoio incondicional. Veio à lembrança um momento no centro espírita que eles me levavam e de uma bela imagem do Cristo Jesus. Chorei copiosamente e orei com tamanha emoção e aos poucos fui tomado por uma maravilhosa sensação. Abri a janela de meu quarto e a luz que entrou intensa e forte. Compreendi como o momento de uma nova chance que me fora dada. Na manhã seguinte, deixei tudo o que tinha: carro, moto e outros pertences e retornei para Tramandaí na casa de meus pais. Dormi durante alguns dias.”
Tempo depois trabalhava numa distribuidora de leite e aos poucos foi notado pela sua capacidade com a informática. Em seguida estava na matriz e buscava atualização aprendendo novos programas e linguagens.  No dia 2 de outubro de 2002 estava trabalhando em Joinville como analista na TAN (Tecnologia Aplicada a Negócios), na rua Princesa Isabel. “Minha vida mudou com essa oportunidade que o Aldo Jacques me ofereceu, hoje um grande amigo e companheiro de trabalho.” 

 

Produção de artigos sobre a história
Empolgado, ele narra a importância do acolhimento que teve na cidade e das oportunidades transformadas em conquistas. Espírita, dedica-se à doutrina onde é dirigente e palestrante nas casas da região Norte, sempre que convidado. Ele conheceu a namorada, e hoje mulher, a joinvilense Gisele Becker, durante o período da faculdade. Há um ano nasceu Ana Paula, que complementa a alegria do casal, residente na Estrada do Pico. Gisele também é formada em história pela Univille. Incentivado pela professora e orientadora Sandra Guedes, Alberto, pesquisador e leitor assíduo, iniciou e publicou importantes pesquisas referentes à história da cidade.
Com sua produção intelectual muito ativa, ele esta organizando o pré-lançamento de seu livro de contos “O Catador de Memórias”, que deve ocorrer nesta sexta (14). Joinvilense de coração, ele se sente gratificado em poder contribuir com a história e fazer parte dela. Fala fácil e agradável ele conclui: “Não me vejo em outra cidade, eu amo Joinville.” (Valter F. Bustos, especial para o Notícias do Dia)

 

Para saber mais
Publicações assinadas por Alberto

“Mercado Municipal de Joinville: Um espelho da cidade”
Projeto de pesquisa sobre a história e a memória do Mercado Municipal de Joinville. Publicado nos anais do Caderno de Iniciação à Pesquisa da Univille, 2006.

“É tudo fresquinho, dona”
Artigo sobre o Mercado Municipal de Joinville. Publicado no caderno Anexo do jornal “A Notícia” em 25/11/2007.

 “De Obere Hafenstrasse à Princesa Isabel: A história nas ruas de Joinville”
Projeto sobre os nomes das ruas da cidade. Publicado nos anais do Caderno de Iniciação à Pesquisa da Univille, 2007.

“Vamos chegar freguesia: compra um peixe e leva um quilo de música popular brasileira”
Artigo sobre o Mercado Municipal de Joinville. Publicado na edição número 5 da revista “Joinville Ontem e Hoje”, março de 2008.

 “Mármores e pensamentos”
Artigo sobre os monumentos da cidade de Joinville. Publicado no caderno Anexo do jornal “A Notícia” em 02/03/2008.

 “Granitos, Bronzes, Mármores e Pensamentos: Um diálogo entre os monumentos e a memória”
Projeto sobre os monumentos da cidade de Joinville. Publicado nos anais do Caderno de Iniciação à Pesquisa da Univille, 2008.


Paixões de um metalúrgico

Carro antigo e rock. Wanderlei Cordeiro de Souza coleciona Maverick e guarda com carinho os discos antigos
Carlos Junior/ND
Encantamento. Na oficina mecânica, Wanderlei exibe os carros fabricados pela Ford

 

 

Fanático torcedor do Joinville Esporte Clube, Wanderlei Cordeiro de Souza é conhecido nas arquibancadas da Arena. Mas o JEC não é a única paixão deste metalúrgico de 39 anos. O coração tricolor divide espaço com uma coleção de sete carros antigos e vários discos de rock devidamente acomodados em um quarto especial. A casa, no bairro Costa e Silva, divide espaço com a oficina onde Wanderlei passa boa parte do tempo livre consertando os próprios carros e os de alguns amigos que costumam pedir favores. Como o esquema é de “camaradagem”, o metalúrgico chama o espaço de cooperativa.
Serviços de terceiros são aceitos, mas ainda não dão lucro e 80% dos trabalhos são os consertos próprios e dos amigos. “Esses carros dão muito problema, então todo final de semana tem alguém arrumando,” brinca Wanderlei. Como ainda não vive de arrumar carros, o trabalho é considerado um hobby e uma forma de encontrar os amigos.
Na indústria, Wanderlei trabalha como caldeireiro e é daí que ele tira a experiência para consertar os carros. “Mecânica não é meu forte, sou chapeador de automóveis, faço a parte de lataria,” explica. Sem ter feito nenhum curso, o metalúrgico foi aprendendo ao mexer e acompanhando o trabalho dos amigos. Dessa “cooperativa” nasceu o Rusty Brothers Car Club, que reúne um grupo de 11 amigos apaixonados por carros antigos. Eles se reúnem frequentemente para conversar e confraternizar. Um dos dois pontos de encontro é, justamente, a oficina de Wanderlei.
Mas, no futuro, daqui a uns oito anos, quando sair da indústria, o sonho dele é viver da oficina. O empreendimento já tem até nome: União Car, em homenagem à torcida organizada do Joinville. “Eu quero trabalhar com restauração de carro, aliar prazer ao trabalho,” projeta. O local também está definido, é o galpão onde fica guardada a maioria dos carros.
A paixão de Wanderlei por carros foi à primeira vista. Bastou sentar na frente de um Maverick, quando ainda tinha 9 anos de idade, para saber que um dia teria um igual. “Quando entrei naquele carro fiquei maravilhado, cresci com aquela magia na cabeça,” relembra. O desejo de criança se realizou e hoje ele possui seis Maverick. O primeiro foi comprado por R$ 300 de um presidiário. A transação foi feita pela mulher do ex-proprietário. Mas o carro não funcionou e, logo em seguida, Wanderlei comprou outro, que utiliza até hoje.

 

“Eu quero trabalhar com restauração de carro, aliar prazer ao trabalho.”

 

A influência da música
Em 1985, o primeiro Rock in Rio encantava o Brasil com bandas internacionais e influenciava uma geração, inclusive, um menino de 9 anos que acompanhava os shows pela televisão para ver se encontrava o vizinho que foi ao evento. Foi assim que Wanderlei se encantou pelo estilo musical que mudaria sua forma de pensar, “abrindo a cabeça para a política.” “O rock tem conteúdo, te deixa politizado e eu vejo a música como um grande sinal de mudança”, ressalta.
Passado os tempos de criança, foi na escola que Wanderlei descobriu ainda mais o rock e começou a prestar atenção em letras de música de banda como Legião Urbana e Plebe Rude, “que faziam críticas”. O aficionado chega a dizer que nasceu na década errada, pois “preferia ter curtido a década de 1970.” (Alexandre Perger, especial para o Notícias do Dia)

 


Fábrica de aromas

Aromaterapia. Ivaldo Mund extrai artesanalmente o óleo essencial das plantas e revela o cheiro e o poder curativo das espécies da região
Foto Rogério Souza JR/ND
As poções. No seu “laboratório”, Ivaldo estudo e testa e separa as essências e produtos vegetais

 

 

Quase às margens do rio Motucas, uma casa enxaimel erguida em meio a muito verde exala uma mistura de cheiros que pega de surpresa o visitante desavisado. Dentro dela, Ivaldo Mund brinca de alquimista e extrai pacientemente, de forma artesanal, o óleo essencial das plantas da região, revelando os aromas e concentrando as propriedades curativas de cada uma delas. “É uma fábrica de aromas”, diverte-se.
Engenheiro mecânico de formação, Ivaldo despertou para a aromaterapia há cerca de 25 anos quando a mulher teve um problema de saúde que a medicina tradicional não resolveu. Em busca de uma solução, ele foi estudar outras possibilidades de cura e se deparou com um mundo novo, cheio de possibilidades. Quando se aposentou, não teve dúvidas. Mudou-se para o sítio na área rural de Joinville e começou a se dedicar à atividade. “Dizem que quem trabalha com isso vicia e não quer mais parar. E é verdade,” comenta , lembrando que a produção é em pequena escala e que a parte comercial nunca foi muito desenvolvida, embora as pessoas que trabalhem com aromaterapia já tenham descoberto o caminho de seu sítio. “É vendido em 'ml'. É mais um hobby que uma indústria,” analisa.
Hoje ele usa a técnica da destilação para extrair óleo de 20 a 30 espécies diferentes da região, entre elas alfavacas, pínus, eucaliptus, citronela entre outras. Mas ressalta que qualquer planta aromática tem óleos que podem ser extraídos. A preocupação em fazer um óleo puro, sem nenhum resquício de produto químico, é grande. Por isso todos os insumos usados no sítio são produzidos no próprio local, usando conceitos como os de permacultura e agro-floresta no manejo da propriedade e sem produção extensiva. “Aqui não usamos veneno de jeito nenhum. Evito trazer insumos e matéria-prima de fora porque não sei como é produzido”, explica, enquanto as gotinhas de pachouli minam lentamente do decantador e perfumam o ambiente.
Integrante do FitoJoinvile, ele também cultiva ervas medicinais e mel. E faz parte do Viva Ciranda, um projeto de turismo pedagógico que aproxima estudantes das propriedades rurais e contribui para despertar a preocupação com o meio ambiente.

 

“Dizem que quem trabalha com isso vicia e não quer mais parar. E é verdade.”

 

“Me defino como um leitor”
Assim como existe o “rato de livraria”, aquele ser ávido por informação que vasculha as prateleiras em busca de bons títulos, existe uma categoria igualmente singular, que vasculha as lojas de livros usados, de preferência aquelas antigas, com cheiro de pó e papel velho, que nos transportam na mesma hora para um mundo a parte. “Sou um 'rato de sebo'. Me defino como um leitor”, explica ele que,  autodidata, foi buscar nos livros a base para o conhecimento teórico e prático que usa em seu laboratório.
Ao conhecimento, somou-se a experiência e a observação. Tentar, observar, errar, observar de novo, tentar mais uma vez – aprender com os erros, repetir os acertos, buscar novas formas... Ações muitas vezes repetidas por Ivaldo na busca pela melhor forma de extrair o óleo das plantas, um processo que começa ainda no campo, na hora da colheita (a época e a hora influem, sim, no resultado final), passa pela limpeza metódica, pela trituração e pelo processo de decantação que dará origem ao óleo tão desejado.


Prêmio para o diálogo

Ensino. Professora joinvilense ganha reconhecimento nacional com projeto de educação infantil
Fabrizio Motta/ND
Ferramenta. Joseane manuseia os móbiles do “portal” que foi montado no quintal do Centro de Educação Infantil Raio de Sol para ensinar  geometria, tridimensionalidade e outros conceitos matemáticos

 

 

Você, leitor, talvez se lembre de eventuais dificuldades que teve, na escola, para aprender noções de geometria, tridimensionalidade e outros conceitos matemáticos. O que dizer, então, de uma criança de 4 anos de idade? Imagine a cena: papai e mamãe assistem à TV quando o pimpolho começa a distinguir cubos, esferas e pirâmides! Pois isso não é muito espantoso para os pequenos alunos do Centro de Educação Infantil Raio de Sol, do bairro Vila Nova.
Esse aprendizado é resultado de um projeto desenvolvido pela professora Joseane Helena Schulz. Com o nome “Arte em movimento: os móbiles como suporte de diálogo das crianças com a tridimensionalidade do planeta”, o trabalho rendeu à educadora o Prêmio Professores do Brasil, promovido pelo Ministério da Educação. “Essa premiação é um reconhecimento a um trabalho que procuramos desenvolver da forma correta, passando para as crianças noções de geometria e sustentabilidade a partir de elementos que fazem parte do seu dia a dia”, diz a professora Jose, exibindo orgulhosa o móbile feito com sucata e muita criatividade, dependurado no “portal” que dá acesso à horta do CEI.
“É importante destacar – continua a atual auxiliar de direção, cargo que assumiu em outubro – a participação dos pais em todas as fases do projeto.” A diretora do colégio, Marlene Malschitzky, reforça: “Mesmo que o bairro tenha crescido e aumentado a diversidade étnica, a comunidade sempre se mostra participativa, comparecendo sempre que é chamada”. O maior exemplo está no próprio móbile, onde os elementos vão de tampinhas de garrafa pet a embalagens de kinder ovo, passando por formas geométricas recortadas em madeirite por um pai de aluno.
A diretora e sua auxiliar preparam as malas para viajar, na próxima semana, a Brasília, onde vão receber o prêmio. Para o CEI Raio de Sol, por sinal, premiações não são novidade, como conta Marlene: “Já ganhamos o Prêmio Embraco de Ecologia duas vezes, um prêmio da Fundema e, há dois anos, uma distinção nacional em gestão escolar”. Hoje, o CEI conta com um corpo docente de 14 profissionais, atendendo 320 alunos, todos de famílias do Vila Nova.

 

“Essa premiação é um reconhecimento a um trabalho que procuramos desenvolver da forma correta, passando para as crianças noções de geometria e sustentabilidade a partir de elementos que fazem parte do seu dia a dia.”

 

Vocação para ensinar
Joseane garante que seu caminho profissional estava traçado desde que nasceu, há 32 anos, ali mesmo no Vila Nova: “Sempre quis ser professora, estudei para isso e foi uma grande vitória quando passei a dar aulas aqui”. Detalhe: a mãe de Jose era merendeira no próprio Raio de Sol. Formada em Pedagogia pela ACE, Jose foi admitida, como contratada temporária, em 2006. No ano seguinte, especializada em educação infantil e séries iniciais e já aprovada em concurso público, foi efetivada. “Confesso que passei momentos de agonia esperando ser efetivada aqui mesmo. Torcia para que ninguém passasse à frente”, admite, com a satisfação evidente no brilho dos olhos.
Na época em que desenvolveu o projeto, no início deste ano, Jose era responsável por uma turma de 48 crianças de 4 anos. Muito da metodologia pedagógica do CEI pode ser conferido em todas as áreas comuns do colégio, com sua pracinha da leitura, jardim e a já citada horta, tudo colorido com manifestações artísticas – de fora e produzidas pelos próprios alunos.


Um sorriso e um pandeiro

Bem viver. Morador do conjunto habitacional Irineu Bornhausen é reconhecido pela habilidade com instrumento musical
Luciano Moraes/ND
No ritmo. Incentivado pelo pai, que era músico, Adecir Fidelis Román, o Saddam, espalha alegria com as batucadas no pandeiro

 

 

Com o total de 320 apartamentos, caso no conjunto habitacional Irineu Bornhausen fosse feita pesquisa para apontar os dez moradores mais populares, Adecir Fidelis Román, o Saddam, certamente figuraria entre os primeiros da lista tamanha é sua facilidade em cativar a pessoas com seu jeito divertido de florear qualquer bate-papo descompromissado.
Nascido há 47 anos no bairro Nova Brasília, Saddam cresceu nos arredores dos trilhos ferroviários e jogando bola num campinho onde hoje estão instalados o Ceri e o postinho de saúde. Do campinho ele guarda divertidas lembranças, como a corrida que ele e os amigos levaram de um enxame de abelhas que um vizinho soltou no local a fim de acabar com a brincadeira. “Ele não suportava a barulheira que fazíamos e por isso teve o capricho de levar abelhas presas numa caixa para soltá-las bem nas nossas fuças. Quase morremos de tanto correr e, mesmo, assim levamos umas ferroadas,” lembra Saddam.
Casado com dona Lúcia Kamdardt Román (consultora de moda), pai de Lucas (eletromecânico), Saddam é técnico em logística e trabalha a mais de duas décadas na área de segurança empresarial. Sempre de bom humor, além de mestre extrovertido, Saddam é exímio tocador de pandeiro, tendo já tocado profissionalmente; hoje se contenta participando rodas de amigos pagodeiras.
Saddam conta que o padeiro entrou em sua vida numa festa em homenagem ao Senhor Bom Jesus de Araquari, quando tinha 11 anos de idade. “No momento que alguém botou o instrumento em minhas mãos, para surpresa de todos, comecei a tamborilar direitinho. Aí meu pai, o violeiro Nicolau Román, que por muitos anos tocou em programas de rádio do Manduca e do Mario Hüttl, me incentivou a ir em frente e não parei mais, nem quero, por ter no pandeiro um ótimo companheiro,” diz desatando uma boa risada.

 

“No momento que alguém botou o instrumento em minhas mãos, para surpresa de todos, comecei a tamborilar direitinho. Aí meu pai, o violeiro Nicolau Román, me incentivou a ir em frente e não parei mais.”

 

Boas lembranças da festa em Araquari
Divertido é ouvir Saddam contar outras passagens vividas por ele no tempo que a família ia todos os anos à festa de Senhor Bom Jesus de Araquri. Na maioria das vezes ele seguia de trem e em duas oportunidades foi a pé. Numa das caminhadas, já mocinho, foi em companhia de dois amigos. No trajeto encontraram uma amoreira carregada de frutas e o trio comeu até “dizer chega”. Meia hora depois um dos companheiros teve um ligeiro mal estar intestinal, que o brigou a correr para o mato umas dez vezes. “Quando chegamos a Araquari a missa havia acabado fazia tempo e da churrascada não havia sobrado nada. O jeito foi comer umas bolachas, daquelas chamadas ‘mata fome,’” recorda.
Nas missas em louvor ao Senhor Bom Jesus, o menino Saddam costumava ser vestido de anjo por sua mãe Isabel. Numa dessas ocasiões ela o vestiu de Senhor Bom Jesus. As coisas foram bem até ele receber a capa e a coroa. Mas no momento que lhe amarraram as mãos, agoniado, saiu de dentro da igreja numa disparada e só foi alcançado perto da estação ferroviária. A mãe, muito desesperada gritava “pega o Jesus, pega o Jesus,” fazendo o povo rolar de tanto rir com a cena cômica provocada pelo filhote.
Quanto ao apelido, ele conta que o dito surgiu em 1990 ao estourar a guerra no Golfo Pérsico. Um motorista achou Adecir parecido com o líder dos iraquianos e começou a chamá-lo de Saddam. “Não contente, o abusado espalhou que carrego nas veias sangue árabe. Mentira da grossa, minhas origens são espanholas, mas o apelido acabou colando mais que casco no lombo de tartaruga,” conforma-se divertido. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


A beleza da flor

Vitória. Em sua estreia, James Hasselmann é campeão na74ª Festa das Flores com sua orquídea
Carlos Junior/ND
Orquidófilo. Apaixonado pela  natureza, o cultivo de orquídeas é uma atividade recente para James, que divide o tempo entre o comércio e um sítio

 

 

 

Foi por ser um verdadeiro apreciador das coisas belas da natureza que James Hasselmann chegou à conquista que todo orquidófilo almeja: ter sua flor eleita a mais bela entre as belas. “Eu já considerava uma vitória ter classificado minha orquídea entre as 22 finalistas. Quando ela foi eleita a campeã das campeãs, vibrei muito, vendo a coroação de cinco anos de dedicação”, diz James, ainda guardando a emoção que demonstrou no encerramento da 74 ª Festa das Flores, em novembro, quando o júri anunciou a vitória de sua orquídea híbrida LC Excelsior. E não era para menos tanta alegria, pois foi a primeira participação do comerciante em uma competição.
O amor pelos encantos da natureza acompanha este joinvilense desde que nasceu, há 45 anos. “Eu sempre ia com minha mãe às exposições da Festa das Flores, e ali aprendi a dar valor às coisas belas da natureza.” Além disso, James podia apreciar também em casa as belas orquídeas e antúrios que frau Hasselmann cultivava.
James podia ter sido engenheiro, até iniciou a faculdade, mas desistiu ao sentir que não era sua vocação. Também poderia ter prosseguido no negócio do pai, Guilherme, afamado com suas empadas – a Empadaria Hasselmann chegou a rivalizar com as empadas Jerke, onde o seu Willy aprendeu a técnica que depois aprimorou. “Eu aprendi a fazer empadas com meu pai, e cheguei a trabalhar com ele algum tempo”, conta James. Mas também não foi o caminho escolhido. O esporte foi outro caminho que trilhou, nos ares, voando de asa delta, e na terra poeirenta ou coberta de lama, correndo de moto. “Peguei uma época de ouro do motociclismo joinvilense, e acho que poderia ter sido um grande campeão se tivesse insistido.” James diz ser “pós-graduado em fraturas”, ostentando as marcas de umas 15 pelo corpo.

 

“Eu sempre ia com minha mãe às exposições da Festa das Flores, e ali aprendi a dar valor às coisas belas da natureza.”

 

 

Marcelo Caetano/Divulgação/ND
Branco e lilás. A espécie híbrida LC Excelsior venceu 22 finalistas

 

 

Comerciante e orquidófilo
O rumo profissional, enfim, foi definido há 22 anos, quando James Hasselmann abriu a quitanda Feirãoville, na esquina das ruas Max Colin e Campos Sales, no Glória. Em abril deste ano, inaugurou a primeira filial, na rua Expedicionário Holz, e hoje se divide entre as duas unidades e a busca pelos melhores produtos, numa agenda carregada. “Ontem – relatava, no dia da entrevista – levantei à uma da madrugada e logo estava com o caminhão na estrada, para buscar mercadoria.”
Se não estiver nas quitandas ou nos fornecedores, pode ser encontrado com certeza em sua chácara na região do Piraí, onde cultiva frutas, verduras e legumes, cria algum gado, peixes e galinhas e dá vazão ao amor pela natureza. Mas nada que é cultivado lá vai para as prateleiras das quitandas. “Das frutas, uns 95% eu divido com a passarada; o resto é para consumo próprio e dos amigos.” É mais fácil, por sinal, alguns produtos fazerem o caminho inverso, da quitanda para o sítio: “Nada é jogado fora. Tudo que sobra do negócio vira fertilizante ou comida para os animais”. Comprovando suas palavras, James mostra um dos vasos de orquídeas que mantém no escritório, onde restos de pinhão ajudam a sustentar as flores. Outro destino certo das sobras é a compostagem para o minhocário montado no sítio, mais um dos ingredientes utilizados no cultivo de orquídeas.
A orquidofilia é uma atividade recente na vida de James Hasselmann, e surgiu mais como uma forma de passar o tempo e tentar esquecer uma contrariedade ocorrida em família, há alguns anos, e que ainda hoje emociona o comerciante. Sua dedicação às orquídeas deve muito ao incentivo do veterano orquidófilo Rodrigo Nessler. “É meu padrinho”, reconhece. Com um brilho nos olhos sempre que se lembra da vitória na Festa das Flores, James Hasselmann conclui: “Ver uma orquídea no auge da florescência é uma coisa divina!”


Remédio para o corpo e para a alma

Plantas. Izabel fez do cultivo das ervas medicinais um reencontro com o saber prático de seus antepassados
Fotos Rogério Souza Jr/ND
Verde e saudável. No quintal da propriedade, na Estrada Motucas, Isabel encontra essências para desenvolver seu projeto de fitoterapia

 

 

Açafrão para combater o colesterol. Boldo para os males do estômago e do fígado. Guaco para acalmar a tosse. Melhoral para aliviar a febre. Maria Izabel Pacheco passeia pelo quintal identificando as ervas que curam e seus efeitos. Há cerca de três anos ela participa do grupo Fitoterápicos de Joinville, estuda estes medicamentos, recolhe mudas e planta as espécies. E ao mesmo tempo resgata um conhecimento que sua mãe já utilizava no dia a dia quando ela era menina e que por muito tempo ficou adormecido na sua vida adulta.
O começo – ou será recomeço? - ocorreu quase por acaso. Há 11 anos Izabel mudou-se para a Estrada Motucas, no bairroVila Nova. Deixou a vida na cidade e foi morar em um sítio, cercada pela floresta atlântica, em um recanto de onde nem dá vontade de sair. Mas um dia ela saiu. A filha lhe falou de um curso do Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural), na Fundação 25 de Julho.  Foi, sem  nada esperar ou sem saber o que a esperava. Fazer novas amizades já seria muito bom. “Fui ao curso e descobri que era sobre ervas medicinais. Aquilo veio em uma hora de mudanças,”, revela.
A sua mente foi tomada pelas lembranças de infância quando a mãe, Maria Klug Pacheco, buscava nas plantas e nos ensinamentos passados pela mãe e pela mãe da mãe, a saída para os males que afligiam os seis filhos e para manter a própria saúde. Lembrou de uma vez quando tinha quatro ou cinco anos e estava prostrada, sem conseguir se levantar, e dona Maria passou a noite matutando o que fazer. “Amanheceu o dia e ela foi catar erva de São Simão, broto de goiaba e pitanga. Fez o chá e comecei a tomar. Por volta das 10h eu já queria me levantar”, conta.

 

“Comecei a ver com outros olhos o que tinha em meu quintal.”

 

Cultivar com o que a natureza dá
Izabel cresceu, casou e guardou em algum canto dentro de si este conhecimento. Quase não o usou para criar os três filhos. “Eu dava chás, mas me preocupava. A gente queria algo imediato,” constata hoje, com os filhos criados. Olhou em volta e viu que muitas daquelas ervas que falaram no curso ela tinha no sítio sem sequer ter plantado. Brotavam sozinhas, com sementes trazidas pelo vento e pelos pássaros – aliás, um encantamento a parte. Quando se deparava com algo que não conhecia, abria os livros (sim, foi comprar um monte deles) e levava as plantas para o curso, onde os amigos a ajudavam a identificar espécies e propriedades. “Comecei a ver com outros olhos o que tinha em meu quintal”, explica ela que também fez outros cursos, em busca do selo orgânico necessário para quem quer legitimar a produção baseada em princípios ecológicos.
Hoje, aos 60 anos, trilha devagar este novo caminho. Cultiva suas ervas com a ajuda do que a própria natureza fornece – nada de agrotóxicos ou produção em massa. Pensa em fazer uma estufa e um forno para secagem e desidratação das plantas e de frutas como maçãs e laranjas. “Algo simples e que funcione.” E sonha em, no futuro, trabalhar em conjunto com os demais integrantes do grupo de fitoterapia, com cada um produzindo e contribuindo com o que sabe fazer de melhor. “Estou engatinhando ainda, mas a minha parte, eu penso, é cultivar.”


Artesanato ganha destaque no Brasil

Feito em casa. Trabalho manual deixou de ser apenas um hobby e se tornou a principal fonte de renda para Karollynne Pereira
Carlos Junior/ND
Criação. Bonecos e bichinhos confeccionados pela artesã Karollynne

 

 

No começo, lá nos tempos de quinta série do ginásio, eram apenas cadernetas e outros pequenos objetos. Em 2010, depois de aprender a fazer uma peça nova, o negócio começou a ficar sério, com algumas encomendas aparecendo. Mas, este ano, artesanato deixou de ser um hobby e se tornou a principal fonte de renda para a psicóloga Karollynne Pereira, 25 anos. As primeiras encomendas eram de amigos e conhecidos, surgiam da propaganda boca a boca e ocupavam o tempo livre de Karollynne.
O negócio começou a crescer no começo deste ano, depois do lançamento de um blog e da página no Facebook, que está com quase 1,2 mil curtidas. Com isso, os pedidos extrapolaram os limites de Joinville e a maioria vem de outras cidades e Estados do Brasil. Hoje, as ferramentas de internet são fundamentais para o negócio da artesã, pois a grande maioria dos clientes conhece os produtos pelo blog ou Facebook. Até final do ano, Karollynne tem dez encomendas para terminar e a expectativa é de que apareçam muitas outras.
As peças são confeccionadas na parte da tarde, à noite, às vezes na madrugada e nos fins de semana, com a ajuda da mãe. Na parte da manhã, Karollynne trabalha como recepcionista na ACE (Associação Catarinense de Ensino). Embora não seja sua principal fonte de renda, o emprego dá a artesã uma maior segurança, já que os ganhos no artesanato ainda são variáveis. “Tem vezes que eu tiro mais que o meu salário, mas eu não posso contar com esse dinheiro, porque não dá para saber quanto vai render,” explica Karollynne.
A jovem artesã pode ser considerada uma autoditada, nunca fez cursos, aprendeu sozinha todas as técnicas que utiliza durante a confecção das peças. A evolução veio com cada nova encomenda e o desafio de atender o que o cliente queria. “As pessoas te desafiam com alguns pedidos e isso vai ajudando no aprendizado, porque precisa correr atrás para conseguir fazer,” observa.
Para o futuro, o grande sonho de Karollynne é unir artesanato e psicologia para poder trabalhar com pessoas com deficiência, outro objetivo da artesã. Para isso, ela deve começar a cursar a faculdade de terapia ocupacional em 2013. “Ainda não sei bem como vou fazer isso, mas vou pensar em um projeto para realizar esse sonho,” diz. Esse desejo não nasceu agora. No trabalho de conclusão de curso para a faculdade de psicologia, Karollynne pesquisou o envolvimento de pessoas com deficiência com a arte.

 

“As pessoas te desafiam com alguns pedidos e isso vai ajudando no aprendizado, porque precisa correr atrás para conseguir fazer.”

 

Arte e fonte de renda para os mais jovens
Ao contrário do que se imagina, o artesanato não é mais atividade exclusiva de senhoras aposentadas ou de idosas. Segundo Karollynne, a maioria das artesãs de Joinville está na faixa dos 30 anos de idade. “Isso tá mudando. Não é mais aquela coisa do crochê da vovó,” brinca. Isso ocorre porque tem muitas pessoas começando ainda novas, pois muitas vão vendo os trabalhos de outros artesãos, começam a fazer e se empolgam. “Muita gente se descobre com o exemplo dos outros,” comenta.
Ainda assim, Karollynne conta que a maioria não consegue viver do artesanato, muito em decorrência da falta de valorização por parte do público, que nem sempre reconhece o trabalho do artesanato. “Não se valoriza uma peça artesanal, as pessoas não veem o tempo que se gasta com o trabalho,” lamenta.(Alexandre Perger, especial para o Notícias do Dia)

 

 


Entre o belo e o antigo

Artes. Melina Mosimann divide seu tempo entre a loja de antiguidades Ares do Tempo e a viabilizar o Instituto Internacional Juarez Machado

Luciano Moraes/ND
Decoração. Melina na sua loja Ares do Tempo, onde também tem obras do companheiro

 

Melina Mosimann, 45anos, nascida blumenauense e joinvilense apaixonada desde os seus 3 anos de idade quando seus pais, Ayrton e Marina Mosimann, chegaram na cidade, é uma contadora, fazedora e recuperadora de histórias, sejam elas orais por meio da recuperação de objetos antigos. Segundo a própria Melina, ela se encontra numa excelente fase de sua vida como profissional, mãe de Vitória e companheira de Juarez Machado, com o qual convive há oito anos. “O nosso relacionamento é muito bom e respeitoso, pois entendemos que somos pessoas e profissionais. Cada um com seu trabalho e atividades que são inerentes ao que cada um faz e produz. A agenda de compromissos do Juarez é intensa - ele passa seis meses na França e seis meses no Brasil - e resolvemos com tranquilidade esse pequeno lapso de tempo.”
Como a boa formação dos filhos (educacional e profissional) era uma preocupação dos Mosimann, trataram de matricular a filha na creche Padre Carlos logo após a chegada da família à cidade. O antigo primário, ginasial e o científico foram divididos entre os colégios Conselheiro Mafra, Bom Jesus e Elias Moreira. Uma grande parte da vida de Melina esteve atrelada à Galeria de Arte Lascaux, fundada pelos seus pais, localizada na época na rua Marechal Teodoro. Por essa razão, chegado o momento de decidir qual o curso superior a fazer, ela prestou vestibular para graduação em educação artística na Furb, Blumenau. A finalidade era agregar valor junto ao seu trabalho na galeria. “A Lascaux foi uma visão corajosa e de sucesso dos meus pais. Eles criaram um público e um mercado de artes na cidade.”
Melina recorda dos leilões que a galeria promovia em várias cidades, especialmente em Balneário Camboriú, Rio do Sul, Itajaí, Criciúma e São Bento do Sul. Ela conta que seus pais colocavam no carro 50 quadros ou mais de artistas já conhecidos. Nas cidades aonde chegavam, promoviam exposições, palestras e encontros sempre voltados à formação e ao conhecimento. Com essas ações vieram inúmeras amizades e clientes cativos. Mais do que um nome conceituado, a Lascaux foi ponto de referência e local de encontros de artistas e de pessoas interessantes e formadoras de opinião.
A facilidade em conversar e fazer amizades rapidamente, uma das características marcantes de Melina, chamou a atenção de Sérgio Silva, dono da TV Cidade que, no Festival de Dança de 1999, iria transmitir diretamente do Centreventos entrevistas com bailarinos, diretores, produtores e cenógrafos. Sabedor do potencial “guardado” de Melina, Sérgio fez o convite para que ela assumisse o desafio, tirado de letra pela comunicadora que nascera naquela oportunidade. “Lidar com o público é muito bom e requer atenção. Eu sempre tive muito cuidado e respeito pelos meus entrevistados. Estudava e lia tudo a respeito para não deixar furo.”
Como todas as coisas acontecem numa sequência, Melina fez outros programas na televisão, entre eles “Mundo Mulher” , “Stúdio 36 - Agenda Cultural” e TV.Com, até dezembro de 2001. De volta à TV Cidade, onde ficou até setembro de 2004, ela assumiu a direção administrativa e de produção, junto com as colegas Fernanda Marquez e Bianca Mazzon. “Nada é fácil e tudo nesta vida se consegue com muito esforço e trabalho,” reflete.

 

 “A Lascaux foi uma visão corajosa e de sucesso dos meus pais. Eles criaram um público e um mercado de artes na cidade.”

 

Um local para abrigar o acervo de Juarez
Hoje, a promoter, marchand e comunicadora dedica-se exclusivamente a duas atividades em Joinville. Uma delas é a loja Ares do Tempo, que divide em sociedade com a irmã Haydée (também professora de educação física e designer de interiores), localizada no Parco Perini. O espaço mantém objetos de decoração refinados, envoltos em suaves nuances retrô, que encantam o ambiente. E outra parte do seu tempo dedica-se ao projeto de viabilizar o Instituto Internacional Juarez Machado, ação que desenvolve junto com o irmão de Juarez, Edson Busch Machado, e o especialista Germano Busch, encarregado da tramitação legal.
A sede do Instituto será na rua Lages, 994, casa da matriarca da família, imóvel que vem sendo restaurado e modificado para receber o acervo. Uma segunda construção, ao lado da casa, foi adquirida por Juarez para ser incorporada ao espaço cultural, de lazer e entretenimento a ser inaugurado, segundo Melina Mosimann, no segundo semestre do próximo ano. Melina, Edson e Germano se reúnem uma vez por mês para traçar os planos com vistas a realizar esse sonho de Juarez Machado, que é retribuir toda a emoção e o carinho dos joinvilenses pela sua pessoa. “Eu fico impressionada de ver o amor que o Juarez tem por Santa Catarina e Joinville, é emocionante,” conclui. (Valter F. Bustos, especial para o Notícias do Dia)


Investindo na imagem

Pioneirismo. Wanessa Rengel foi a primeira a trabalhar como consultora de visagismo em Joinville
Rogério Souza Jr/ND
Composição. Cores, roupas e até corte de cabelo são redefinidos por Wanessa de acordo com as necessidades de cada pessoa

 

 

 

As técnicas do visagismo, que consistem em adaptar a imagem das pessoas conforme suas necessidades por meio de análise dos traços do rosto, ainda são pouco difundidas e conhecidas em Joinville. Mas, ainda assim, Wanessa Rengel, 27 anos, resolveu investir em formação na área e hoje colhe os frutos. Ela presta consultoria, dá aulas e planeja ampliar a atuação para atender o público masculino.
Wanessa explica que o visagismo não cuida apenas da aparência externa, mas busca resgatar a autoestima das pessoas, ressaltando o que elas têm de bom no comportamento e no temperamento. “Por meio do estudo do rosto, consigo traçar um perfil da pessoa,” conta. No trabalho de consultoria, além da análise dos traços, ainda é realizada uma entrevista para saber alguns detalhes da vida pessoal que possam contribuir com o trabalho. “É bom saber quais são as necessidades de cada um,” diz.
Segundo a visagista, as linhas do rosto passam impressões e isso é adequado ao que o cliente precisa. Alguns sentem dificuldade, por exemplo, de passar a imagem adequada no local de trabalho, como a advogada tratada como menina. “As pessoas reagem às imagens,” justifica. As adequações podem ser feitas com um corte de cabelo ou até mesmo com um penteado que ressaltam determinados traços e temperamentos. Os atendimentos duram 15 dias e a pessoa leva um relatório com o que precisa ser aplicado na própria imagem.
Para Wanessa, é fascinante ver as pessoas se descobrindo e bom saber que percebem algumas coisas e melhoram. Um dos objetivos do visagismo é fazer com as pessoas se sintam bem com a própria imagem. “Promover o autoconhecimento é o lema da consultoria.”

 

“Quebrei um paradigma, entendi que imagem abre portas e, depois disso, muitas oportunidades apareceram.”

 

Início complicado
Formada em psicologia, Wanessa atuou durante um ano, mas desistiu e mudou de área. Ela conheceu o visagismo por intermédio da proprietária do salão de beleza no qual presta consultoria hoje. “Ela foi me mostrando como funcionava e me incentivando a conhecer,” lembra. Os conselhos a levaram a fazer um curso com Philip Hallawell, em São Paulo, no ano de 2010.
Wanessa gostou do que aprendeu e começou a aplicar as técnicas do visagismo em abril de 2011. Como era a única a trabalhar nessa área em Joinville, teve de abrir os espaços e quebrar os preconceitos. “A cidade parecia não precisar desse trabalho,” relembra. O negócio começou a engrenar em setembro de 2011, mas começaram a aparecer mais clientes só no início deste ano. “Trabalhei muito de graça,” conta.
Ainda hoje, uma das dificuldades enfrentadas pela profissional é a ideia que muitas pessoas têm de que ela vai exigir uma mudança radical, mas Wanessa garante que o visagismo não funciona dessa forma.
Mas não é somente com os clientes que as técnicas funcionam. A própria Wanessa afirma que passou por uma transformação. “Antes, eu não usava maquiagem e não escovava o cabelo,” recorda. A imagem da consultora era bem diferente do que é agora, pois os cabelos eram compridos e “passavam uma impressão de melancolia.”
Além disso, Wanessa sentia que não passava muita confiança para as pessoas. “Quebrei um paradigma, entendi que imagem abre portas e, depois disso, muitas oportunidades apareceram,” ressalta. (Alexandre Perger, especial para o Notícias do Dia)


De um sonho a “ás” das bikes

Ciclismo. Menino,Valcemar Justino da Silva admirava o ritmo dos atletas; adolescente, aderiu ao esporte e, adulto, realizou uma façanha
Rogério Souza Jr/ND
Comércio. Fora das pistas, Valcemar representa a marca de Cannondale para a região Sul do país

 

 

Valcemar Justino da Silva, 44 anos, natural da cidade de Marau (RS), recorda que sua distração de adolescente nos fins de semana era ficar numa das margens da rodovia que ligava Marau a Passo Fundo para observar uma equipe de ciclismo que passava em grande velocidade pela região. “Eu devia ter uns 13 anos mais ou menos e vibrava com a rapidez e a coesão da equipe, pedalando todos juntos.” Certa vez eles fizeram uma parada num restaurante nas imediações, ocasião em que ele e os amigos aproveitaram para olhar as bicicletas bem de perto. Recebidos com atenção pelo grupo, foram convidados a assistirem uma corrida em Passo Fundo e conhecer o restante da equipe.
Uma vontade acalentada há tempos no anonimato dos pensamentos tornou-se realidade tempos depois. Aos 16 anos ele iniciou a carreira no ciclismo sul-riograndense de base como “estreante”. Em 1984 tornou-se campeão municipal de sua categoria, conquistando o seu primeiro título no ciclismo. Pouco tempo depois, pelo Grêmio Náutico Gaúcho, sua carreira foi impulsionada ampliando suas participações e adquirindo experiência por meio das primeiras provas como “avulso” no Estadual de Ciclismo de 1985. No ano seguinte integrou a equipe da União de Ciclistas de Porto Alegre, patrocinada pela Arduin, uma empresa forte do setor que comercializava bicicletas e acessórios, obtendo o 3° lugar ao final da temporada.
E, a partir daí, de ano em ano, ele foi acumulando conquistas no ciclismo. A partir de 1987 competiu pela Pirelli,de Gravataí, uma equipe de ponta, e sagrou-se campeão gaúcho de 1988/91. Com a dissolução prematura da equipe da Pirelli, Valcemar retornou para a União de Ciclistas e passou a competir em provas fora de seu Estado natal. Em 1991 fez sua primeira Volta à Santa Catarina, ocasião em que conheceu o técnico da equipe da Metalciclo, Pedro Medina, que o convidou para ingressar na equipe catarinense.
Os resultados surgiram logo em seguida com a conquista do Estadual de Ciclismo de 1994 e 1995. Na Volta de Santa Catarina de 94, conquistou um honroso quarto lugar. A cada participação, aumentava o número de troféus e medalhas conquistadas. No Jasc de 1995 foi campeão por equipes e levou o segundo lugar na prova de resistência. Nos Jogos Abertos de 1996, em Blumenau, foi campeão na prova de resistência e segundo colocado no contra-relógio (ou quilômetro individual).
Na maior e mais importante competição do ciclismo nacional, a Prova 9 de Julho, edição de 1998, obteve o terceiro lugar. No estadual do mesmo ano, ficou em terceiro lugar na geral e foi vice-campeão brasileiro daquele ano. E as suas pedaladas atravessaram a fronteira do país. No seu currículo constam cinco provas internacionais pela Fundação de Esportes de Blumenau ocorridas entre 1997 e 2000 (Uruguai, Perú, Portugal, Argentina e Chile). No Chile, pedalou na condição de integrante da Seleção Brasileira de Ciclismo no Campeonato Sulamericano.

 

“Eu acredito que não conseguiria fazer outra coisa, a bicicleta faz parte de minha vida.”

 

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Deu capa. Valcemar chegou em primeiro lugar no Campeonato Brasileiro da Elite de 2008 aos 40 anos de idade

 

 

Um “coroa” sobre duas rodas
Histórias e muitas conquistas fazem parte da vida deste joinvilense de coração, casado com Fabiana Hoerning, sua maior incentivadora e companheira, também conhecida no meio dos velozes do pedal pela sua atuação junto a Federação Catarinense de Ciclismo. Até pouco tempo competindo na categoria “elite”, rindo bastante, Valcemar considera sua maior façanha a conquista do Campeonato Brasileiro da Elite de 2008 aos 40 anos de idade. “Eu fui o ciclista profissional mais velho a conquistar esse campeonato, aos 40 anos de idade. É um marco; passei para a história.” O ditado popular “prata da casa não faz milagre” não se aplica a esse reconhecidamente “ás” do pedal. Em 1998, 2000 e 2002 venceu por três vezes o Circuito do Boa Vista, a segunda prova de ciclismo mais antiga do Brasil, um feito para poucos.
Afastado das competições, mas não da bicicleta, Valcemar pedala com muita regularidade junto com um grupo seleto de ciclistas da cidade. Profissionalmente, ele é representante de vendas da marca de Cannondale para a região Sul. “Eu acredito que não conseguiria fazer outra coisa, a bicicleta faz parte de minha vida,” completa. (Valter F. Bustos, especial para o Notícias do Dia)


Um alvo para as mulheres

Esporte. Norma Heidorn Lindner incentivou a criação de grupos femininos de tiro nas sociedades de Joinville
Rogério Souza JR/ND
Sociedade Esmeralda. Presidente do clube, Norma também exibe medalhas como rainha e princesa do tiro

 

 

Até o final da década de 1980, em Joinville, o tiro ao alvo era um esporte só para homens. As mulheres se limitavam a acompanhar os maridos nos treinos, nos quais, vez por outra, apertavam o gatilho de brincadeira.  As coisas começaram a mudar em 1989, quando foi realizado o primeiro Fenatiro - Festival Nacional do Tiro. Dona Norma Heidorn Lindner, esposa de Adolar Lindner, conhecido atirador da Sociedade Esmeralda, sugeriu ao companheiro que as mulheres deveriam formar equipes para participar da festa. Adolar gostou da sugestão e dias depois o casal expôs a idéia na Sociedade Esmeralda a outras agremiações de tiro ao alvo. A proposta foi encampada por cinco sociedades e as mulheres fizeram o maior sucesso no festival levando à competição alegria e beleza.
Animadas, as participantes do Fenatiro começaram então a organizar equipes para competir entre elas. Hoje, graças à idéia de dona Norma, o tiro ao alvo feminino está presente e forte em todas as 15 sociedades que disputam o campeonato citadino. Feliz pela sua idéia ter vingado, dona Normal se diz realizada. “Com a entrada das mulheres nas competições o tiro ao alvo ficou mais animado e virou um esporte bem familiar. Elas costumam levar filhos e até netos aos treinos e, por isso, esse tipo de esporte garante diversão para famílias inteiras,” comemora.
Nascida na cidade de Schroeder, a mentora do tiro ao alvo feminino chegou em Joinville em 1972 ao se casar com Adolar Lidner, seu conterrâneo, que já se encontrava por aqui. Nos primeiros tempos ela trabalhou no jardim de infância Peter Pan e em seguida foi zeladora na Sociedade Esmeralda. “O Adolar tinha assumido a presidência da Esmerlda e as coisas estavam meio caídas, por isso resolvi ajudá-lo. Calejei as mãos nesse tipo de trabalho, mas valeu o esforço,” assinala.
Desde a fase de zeladora, dona Norma começou a participar de todas as decisões da diretoria da Sociedade Esmeralda. Seu trabalho foi reconhecido definitivamente em 2008, quando ela foi eleita presidente da entidade. Hoje, no terceiro mandato consecutivo, ela é respeitada e querida por seu dinamismo. Um de seus feitos marcantes foi a construção da nova fachada frontal da sede. “Era um projeto antigo que levamos a cabo no dia 9 de junho de 2009,” lembra a presidente.

 

“Com a entrada das mulheres nas competições o tiro ao alvo ficou mais animado e virou um esporte bem familiar. Elas costumam levar filhos e até netos aos treinos e, por isso, esse tipo de esporte garante diversão para famílias inteiras.”

 

Família boa no gatilho
Sorriso fácil e cativante caracteriza a personalidade da pioneira do tiro ao alvo feminino em Joinville. Ela desata uma boa risada quando fala do desempenho de sua família no gatilho. “O Adolar já foi rei, eu rainha e princesa e nossos filhos, Emerson e Fábio, já conquistaram importantes medalhas,” comemora.
De bem com a vida e a alça de mira, a disposta presidente da Sociedade Esmeralda faz trabalho de incentivo com esposas de atiradores que ainda não aderiram ao esporte. “É um passatempo que ajuda a unir a família em um ambiente agradável e de muito companheirismo,” argumenta em sua incansável pregação em prol do fortalecimento do tiro ao alvo feminino. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Correndo pela superação

Exemplo. Mesmo sem os rins, Mauro segue firme no trabalho e nas corridas
Luciano Moraes/ND
Pertinho do Caieira. Mauro faz treinos nas ruas, algumas vezes no Adhemar Garcia, sempre vergando a camisa com patrocínio da empresa

 

 

Exemplos de superação há de sobra, para que qualquer pessoa possa se espelhar e utilizar em sua vida. Sempre que alguém se queixa de alguma dor ou uma contrariedade, basta trazer à memória um caso de que tenha conhecimento, para amenizar seu próprio pesar. Essa é mais uma história de como a força de vontade supera a dor. É a saga de Mauro Murara. Mesmo vivendo sem as funções renais, não abandona seus ideais e o gosto pela atividade física, correndo pelas ruas do Adhemar Garcia ou em eventos pela cidade, envergando a camisa da Tupy, onde trabalha há quase três décadas. “A gente nunca imagina que algo assim possa acontecer; mas é preciso saber superar a dor e as limitações, sempre com a esperança de que tudo pode melhorar,” filosofa Mauro, sem perder o bom humor mesmo com as inevitáveis – e às vezes dolorosas – sessões de hemodiálise a que se submete periodicamente.
Natural de Jaraguá do Sul, Mauro passou a maior parte de seus quarenta anos de vida em Joinville, para onde veio quando o pai conseguiu um emprego na Fundição Tupy, em 1967. “Era uma época em que sobravam vagas e a Tupy era uma das principais empregadoras da região,” acrescenta Mauro, que há 28 anos seguiu os passos do pai. Hoje ocupa um cargo de liderança na fundição de blocos.

 

“É preciso saber superar a dor e as limitações, sempre com a esperança de que tudo pode melhorar.”

 

O início do drama
Trabalhador dedicado e atleta de todas as horas, Mauro batia sua bolinha e gostava de corrida, até o dia em que começou a sentir alguma coisa diferente no organismo. Foi em 2005 que apareceram edemas e inchaços anormais nas pernas. “Eu já não conseguia praticar atividades físicas normalmente e tinha sintomas que não conhecia.” Sem qualquer histórico familiar, submeteu-se a exames de todos os tipos, até ter a insuficiência renal diagnosticada pelo médico Anderson Roman Gonçalves, da Clínica de Nefrologia de Joinville. “Foi um trauma, mas continuei trabalhando e iniciei tratamento,” conta Mauro. Também não deixou de correr, esporte que começou a praticar influenciado pelo maratonista Wilson Madeira, colega de Tupy.
Em junho de 2010 Mauro começou a rotina das sessões de hemodiálise, pois os rins perdiam rapidamente suas funções. Uma esperança acendeu-se quando chegou sua vez na fila do transplante, em maio deste ano. A doadora era sua irmã. “Infelizmente tive uma rejeição vascular e o transplante não deu certo.” Novamente à espera de um transplante, Mauro enfrenta com determinação a agenda de três sessões semanais de hemodiálise, de quatro horas por vez. Apesar da adversidade, mantém o pique e o bom humor. “Ontem – contava ao repórter – logo após a hemodiálise fui bater uma bola.” No dia da entrevista, também após retornar da clínica, vestiu seu uniforme de atleta e foi correr na rua onde mora, pertinho do Parque Caieiras, para as fotos.
Incentivo não falta: a mulher, Luciane, também passou a correr e tornou-se maratonista, já tendo duas São Silvestre no currículo. Mauro, devido às limitações físicas, limita-se a disputar provas de no máximo sete mil metros. “Corridas mais longas exigem reidratação constante, e eu não posso ficar tomando água o tempo todo, pela falta dos rins.” Conformado, mas não resignado, Mauro Murara continua vivendo, adaptado às limitações. “Sou grato a todos que me apoiam nessa luta, especialmente ao dr. Anderson, minha esposa e meus filhos.”


Uma mestra atrás do balcão

Homenagem. Tereza comemora 25 anos de sucesso e se torna comendadora
Rogério Souza Jr/ND
Prosperidade. Tereza na sua loja localizada no bairro Boa Vista

 

 

 

Tereza Teixeira Teza tem sangue de negociante correndo nas veias, o que justifica ser hoje uma referência em empreendedorismo no comércio joinvilense, com sua rede de lojas Vanessa Modas. Mas não é só por isso que ela pode ser considerada uma mestra. A verdadeira acepção do termo vai além da habilidade como vendedora, remetendo à sua vocação primordial, que é dar aulas. “Se a atividade como lojista não tomasse todo o meu tempo, acho que até ainda poderia estar em sala de aula, alfabetizando crianças ou dando aulas de biologia”, diz Tereza, atualmente mais dedicada à administração de sua rede do que ao atendimento, tarefa delegada às funcionárias de suas lojas, espalhadas por cinco bairros de Joinville.
Seu sucesso na carreira e o zelo profissional, aliados à dedicação pela comunidade, lhe renderam uma comenda, concedida pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina, “por ações relevantes de destaque no campo de suas atividades”.
A vida exigiu muito desta criciumense de 61 anos, terceira de uma prole de meia dúzia de filhos de um mineiro e de uma lavadeira. “Nossa família não tinha posses e com 7 anos eu já ajudava em casa, vendendo pães de milho e roscas que minha mãe fazia.” Nas horas de folga, a principal diversão era brincar de dar aulas para as amiguinhas. Pronto, aí está a origem das duas futuras ocupações de Tereza, comerciante e professora.
Como tudo em sua vida começou cedo, aos 14 anos já dava aulas de alfabetização para os pequenos, no colégio Heriberto Hülse. Formada professora, assumiu numa escola na localidade de Garapuvu, no interior do município de Ermo, no Sul do Estado. “Um dia ainda quero voltar até lá, para matar a saudade,” suspira Tereza.

 

 

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Distinção. O deputado Nilson Gonçalves, autor da proposição, entregou a comenda a Tereza em sessão solene no último dia 19

 

 

“Fui a primeira professora de biologia com licenciatura plena de Joinville.”

 

Nova carreira em Joinville
Em 1978, casada com o alfaiate Juenil Teza, urussanguense estabelecido em Joinville, Tereza assinava a carteira como professora no colégio Presidente Médici. Até hoje ostenta uma marca que a deixa orgulhosa. “Fui a primeira professora de biologia com licenciatura plena de Joinville.”
Ainda no tempo de magistério, Tereza retomou a carreira de comerciante iniciada como vendedora de pães e roscas, revendendo roupas de fabricantes de Criciúma. “Graças ao trabalho como professora, não faltavam clientes,” lembra ela, que estendeu sua rede de fornecedores às lojas do comércio paulistano e via o negócio navegar de vento em popa.
Quando se aposentou do magistério, em 1987, Tereza decidiu-se de vez pelo segmento do comércio: moradora de um sobrado na rua Albano Schmidt, instalou-se com a família no andar de cima e em baixo abriu sua primeira loja, batizada Vanessa Modas em homenagem à filha. O empreendimento prosperou, as instalações foram sendo ampliadas, chegaram ao andar de cima e logo o casal Teza vai se mudar, pois o comércio vai ocupar os dois andares integralmente.
Vanessa, hoje com 34 anos, está sendo preparada para a sucessão. Outro filho, Diego André, 29, é formado em direito e também trabalha no setor administrativo da empresa familiar. A expansão começou em 1997, com a abertura da primeira filial, no Fátima; seguiram-se as lojas do Paranaguamirim em 2001, Floresta em 2005 e Costa e Silva, aberta há dois anos. Esta amplitude é uma das marcas que Tereza procura imprimir com clareza. “Acho muito importante valorizar o comércio do bairro, onde as pessoas vivem.”
A agenda diária de Tereza é completada na CDL, onde é vice-diretora de treinamento, e o trabalho voluntário na recuperação de dependentes químicos, na Fazenda da Esperança. Devotada à família, em seu escritório anexo à loja do Boa Vista uma parede é preenchida com fotos dos filhos e do neto – que pode vir a ser a terceira geração à frente dos negócios, para alegria da vovó.


Humor à italiana

Bom exemplo. Morador do Guanabara superou o fechamento de abatedouro de aves e depois grave doença sem deixar de provocar risos
Fabrício Porto/ND
Boa sombra. Arcelino Bazzo, o Ino, reúne amigos para conversas e boas tirada sob uma cerejeira frondosa que cuida junto a um estacionamento de carros

 

 

Bisneto de imigrante italiano que participou do plantio as primeiras parreiras do Rio Grande do Sul, onde se concentra a maior produção de vinhos no Brasil, Arcelino Bazzo é considerado o mais divertido morador da rua General Rondon, no bairro Guanabara, onde está instalado com a família há 30 anos. Dono de uma desabrida veia humorística trazida de berço, Arcelino, ou Ino, como é chamado desde criança, consegue com facilidade desconcertante tirar do sério qualquer sisudo. “Desde o tempo de menino levo jeito para provocar risadas sem fazer nenhuma força,” admite bem humorado.
Gaúcho nascido há 65 anos em Serafina Correa, na época distrito da cidade de Guaporé, Ino acabou de se criar em Palmitos, no Oeste catarinense, onde cresceu trabalhando no cabo da enxada. De Palmitos migrou para Medianeira, no Paraná, onde não alterou a rotina nas lavouras. Cansado do pequeno rendimento obtido na agricultura, em 1979 mudou-se para Itajaí, onde arrumou emprego de motorista de caminhão e foi para a estrada transportar galinhas vivas. Na mesma profissão, em 1980 chegou em  Joinville e se estabeleceu no bairro Guanabara.
Passados dois anos largou o emprego, mas não se afastou as galinhas. Já morador da rua General Rondon, começou então a comprar galinhas vivas em grandes agroindústrias como Sadia e Perdigão para abater nos fundos da casa e distribuir em Joinville e região. Com média de mil aves abatidas por semana, Ivo se manteve no negócio até 1995.
Com uma pontinha de orgulho, ele conta que o abatedouro lhe deu condições de dar um curso superior aos quatro filhos. “Bato no peito agradecido por ter conseguido isso para os filhos à base da degola de galinhas”, diz sem conter a risada. Irreverente, Ivo conta que o que era doce acabou-se em 1995. “Meu abatedouro era bem simples, mas muito limpinho. Mas de nada adiantou quando a Vigilância Sanitária atravessou meu caminho, exigindo uma estrutura inviável para minhas condições. O jeito foi fechar as portas e partir para nova empreitada.”
Meses após o fim do abate de aves, Ino abriu o Restaurante do Italiano, casa especializada em comida caseira e pizzas, tudo regado a bom vinho do estado do vento minuano, onde a família Bazzo faz parte da história da vitivinicultura. Com os filhos já formados e com bons empregos fora do restaurante, em 2002 Ino arrendou o estabelecimento.
Homem madrugador, desde então ele é encontrado no clarear do dia no pátio de estacionamento, que é emoldurado por uma cerejeira gigante.  De vassoura em punho, ele recolhe as folhas que caem da frondosa árvore. Sempre que aparece alguém, ele interrompe o serviço para conversar animadamente. E não são poucas as visitas devido sua verve humorística. “Falo com ele a toda hora por ser um papo que garante boas risadas,” assinala Ivo Belli, amigo de Ino há três décadas.

 

 “Desde o tempo de menino levo jeito para provocar risadas sem fazer nenhuma força.”

 

Chimarrão, vinho e ovelha
Apreciador de vinho seco, chimarrão bem cevado e churrasco de ovelha, Ino é casado com dona Therezinha, com a qual teve os quatro filhos que já lhe deram seis netos. Nada consegue tirar o sorriso fácil que lhe ilumina o cotidiano. Foi desse jeito, alegre como um passarinho, que Ino superou um câncer na medula. “De nada teria adiantado ficar emburricado pelos cantos. Continuei a levar a vinda com alegria e isso me ajudou a recuperar a saúde,” enfatiza enquanto bate com os nós dos dedos numa velha mesa de madeira maciça fabricada por ele mesmo. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)

 

Perfil sugerido pelo leitor Ivo Belli.


Muito cedo para parar

Estrada Bonita. Aposentado aos 37 anos de idade, servidor do INSS voltou a trabalhar e arrendou o Restaurante Tia Martha
Rogério Souza Jr/ND
Estrutura. Ivan Celso mantem as portas abertas do Tia Martha de quarta a domingo

 

 

Corria o ano de 1997 quando, ao somar 22 anos de serviço e mais o adicional por insalubridade, Ivan Celso Malon saiu da agência do INSS de Joinville aposentado. Até hoje ele não se esquece de um comentário feito pela funcionária que o atendeu na ocasião. Segundo ela, Ivan Celso era naquele momento o mais jovem aposentado do Brasil por tempo de serviço. De fato ele era bem jovem, tinha apenas 37 anos de vida e por se sentir no verdor da produtividade tratou de não se entregar à tentação do ócio. Semanas mais tarde buscou novas empreitadas, dedicando-se então por mais de dez anos à área de gestão de pessoas. Mas não era bem isso que ele almejava. Desde os tempos que batia cartão ponto na antiga Consul, Ivan acalentava a idéia de um dia ter um espaço gastronômico para receber amigos e conhecidos.
A oportunidade finalmente surgiu há um ano e meio quando ele soube que o restaurante Tia Martha, tradicional referência gastronômica do final da Estrada Bonita, em Pirabeiraba, estava sendo arrendado. Depois de analisar bem as coisas resolveu entrar no negócio mesmo sabendo que o desafio seria grande.  “O Tia Martha foi aberto em 1977 pelo casal Tercílio e Dolores Bilau, que o transformou no restaurante pioneiro da rede que forma a estrutura do turismo rural de Joinville. Pelo seu histórico e pela boa culinária, para mim, alugá-lo, representava o risco de não conseguir dar boa continuidade ao negócio da família Bilau. Mesmo assim me atirei no projeto e felizmente as coisas estão indo muito bem,” comemora Ivan.
Para contrabalançar a pouca experiência no ramo, que se limitava ao preparo de almoços e jantares para amigos, Ivan tratou de buscar apoio em pessoas com bom lastro no segmento gastronômico. Para comandar e cozinha contratou Tânia Bilau, a Dé, filha dos fundadores do Tia Martha. Para o atendimento da freguesia nas mesas recorreu aos serviços do garçom João Vanderlei de Lara, veterano profissional da área muito popular em Pirabeiraba. “Além de me cercar de pessoas competentes, inclui na equipe toda a família e assim as coisas se encaminharam melhor do que meu costumeiro otimismo tinha projetado,” admite Ivan.
Com expediente de quarta-feira a domingo, no Tia Martha as portas estão abertas para almoço, enquanto que à noite o atendimento só é feito mediante agendamento antecipado.

 

 “Além de me cercar de pessoas competentes, inclui na equipe toda a família e assim as coisas se encaminharam melhor do que meu costumeiro otimismo tinha projetado.”


Visitas ilustres
A comida bem temperada e o ambiente paradisíaco que cerca o restaurante Tia Martha motivam a afluência de fregueses de perto e de longe, alguns bem famosos, como o caso de Beto Carrero, referência nacional no setor turístico.  Em 2002, ao almoçar no local, ele escreveu na parede do estabelecimento uma mensagem de louvor à família Bilau pela qualidade da comida e do atendimento.  “O elogio de Beto Carrero espelha bem a qualidade do Tia Martha e por isso tenho de me desdobrar para manter o padrão culinário que garante boa freguesia,” ressalta Ivan. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Paixão sobre rodinhas

Arte e esporte. Técnica lidera a retomada da patinação artística em Joinville
Luciano Moraes/ND
Conquistas. A patinação entrou na vida de Fernanda quando ela tinha dez anos. Hoje, ela trabalha para retomar o espaço que o esporte já teve em Joinville

 

 

É notável o fascínio que a patinação artística ou esportiva exerce, tanto sobre os praticantes quanto em quem assiste a uma apresentação. Seja o tradicional patim sobre quatro rodinhas, o modelo in line ou a lâmina sobre o gelo, equilíbrio e graciosidade são atributos indispensáveis para quem quer fazer bonito num rinque.
“A patinação já teve seu auge em Joinville, passou um tempo esquecida e agora estamos num esforço de retomada, já colhendo frutos”, exulta Fernanda Gomes Pereira, ex-atleta e hoje professora da única escola de patinação da cidade, instalada na academia Team Nogueira, no Saguaçu. Entre os bons frutos de sua escola, Fernanda se orgulha de destacar a filha Gabriela, campeã brasileira aos 11 anos de idade.
Fernanda começou a praticar a patinação quando tinha dez anos, em 1987, no Colégio Bom Jesus, onde fez a carreira escolar. “Fiz também dança, mas foi nos patins que me realizei, num tempo em que o Bonja se destacava na modalidade, sob a liderança da professora Ju Melara”, conta a discípula da conceituada mestra.
Fernanda foi uma das primeiras professoras de patinação no próprio Bom Jesus, e uma das últimas, quando precisou se afastar para fazer a Faculdade. de Educação Física, supõe o leitor. “Na verdade, eu não sentia exatamente qualquer tipo de vocação, a patinação era um hobby. Acabei fazendo a Faculdade de Direito, mais por influência do meu pai”, conta, referindo-se ao advogado Fernando Gomes Pereira. E foi na advocacia que ela vinha fazendo carreira, até voltar à patinação. “Hoje, ainda dedico uns 10% do tempo à advocacia, mas o grande esforço está na patinação.”

 

Formando campeãs
Fernanda ainda se recorda bem de sua primeira competição, disputada em Curitiba, com 14 anos: “Fui muito mal. Mas, graças à técnica Ju Melara, comecei a assimilar a importância da superação, de dar a volta por cima e recomeçar. Cair e levantar é o que mais acontece neste esporte”.
Esse mesmo espírito Fernanda procura passar para as alunas: “Sou um misto de técnica, mãe, psicóloga... Como a maioria das meninas está na adolescência, muitas pedem conselhos e acabam revelando segredos e ansiedades. Tenho duas filhas, o que acaba ajudando na hora de ouvir e tentar dar a melhor orientação possível”.
Com o fim da patinação no Bom Jesus e sua entrada na faculdade, Fernanda ficou alguns anos afastada do esporte. Retornou em 2007, ensinando alunas do Colégio Oficina, no Costa e Silva, onde a filha Gabriela estudava. “Como o interesse foi aumentando e o espaço no colégio ficou pequeno – relata –, foi preciso buscar uma alternativa. Eu já conhecia o Paulinho, que dava aulas de judô no Oficina, e propus a parceria. Ele topou e em 2009 montamos a Equilibri Patinação Artística, no tempo da academia Casebre.”
Hoje, Fernanda já conta com cerca de 150 alunas na academia Team Nogueira, onde Paulo Sérgio da Silva, o Paulinho, dá aulas de judô (ele foi perfilado em junho de 2010). “Assim – completa Fernanda –, acabamos trazendo a família. Enquanto os meninos praticam artes marciais, suas irmãs vêm pra patinação.”
Além de Gabriela, campeã brasileira em sua categoria e presença constante nas convocações da Seleção, Fernanda é mãe – e professora, claro – de Manuela, 6 anos. Atual presidente da Federação Catarinense de Patinação Artística, prevê boas fornadas de campeãs: “Hoje, Joinville é respeitada e temida nas competições”.
Uma amostra dessa arte poderá ser conferida pelo público joinvilense no dia 8 de dezembro, no ginásio da SER Tigre, quando a Equilibri apresenta o espetáculo Mundo Pop.

 

Serviço
Equilibri Patinação Artística
Rua Dona Francisca, 1587, Saguaçu
Contato: 3472-1331 / 9662-4740

 

Perfil sugerido pela leitora Fernanda Ourique.


Família boa de mira

Atiradores. Pai, mãe e filhos descobrem no tiro uma nova experiência de vida
Rogério Souza Jr/ND
Pontaria. Rodinei, Maria José, Luisa e Mateus contribuem para a galeria de troféus e medalhas da família

 

 

A pesada sacola cheia de medalhas comprova: ali está uma família com boa pontaria. Pai, mãe, filho e filha formam uma bem afiada equipe familiar, ajudando a aumentar a rica galeria de troféus de tiro ao alvo da Associação Atlética Tupy. “Eu fui o primeiro a começar, por influência de colegas de trabalho que fazem parte da equipe de tiro da empresa. Aí trouxe a esposa e os filhos, e descobrimos que a família toda leva jeito para o esporte”, conta Rodinei Chrispim José, 48 anos.
Tubaronense, Chrispim veio para Joinville logo após a grande enchente de 1974. “A família foi duramente atingida, aí meu pai decidiu vir embora e recomeçar a vida em Joinville. Logo arranjou emprego na Tupy, onde ficou por 15 anos”, relata Chrispim, que decidiu seguir os passos do pai. Formou-se técnico mecânico pela Escola Técnica Tupy em 1985 e logo foi para a fundição, como estagiário. Efetivado, trabalhou durante uma década na engenharia industrial, até o setor ser terceirizado. Há uns cinco anos retornou à Tupy, agora como projetista na engenharia de fábrica – o mesmo setor de antes, reformulado.
Mas seu planejamento pessoal prevê voos mais altos: “No ano que vem me formo tecnólogo em gestão de processos industriais pela Sociesc. O processo de aprendizagem não pode parar nunca, devemos estar sempre de olho nas oportunidades.” Ao lado, a esposa, a corupaense Maria José, concorda, também ela trazendo a experiência de voltar aos estudos após os 40. “Nessa idade a gente até aprende mais,” garante ela, formada há cinco anos em pedagogia.

 

 

“Quando servi o exército, era o melhor atirador de canhão do 62º BI. Acertava um coqueiro a mais de 50 metros. Também descobri que meu avô tinha sido caçador.”
Rodinei Chrispim

 

 

Coleção de medalhas
Foi em 2010 que Chrispim cedeu às sugestões dos colegas de trabalho e resolveu experimentar o tiro ao alvo. “Eu já era ligado ao esporte, como diretor de futebol da AAT, mas nunca tinha pensado em atirar”, conta Chrispim, que logo percebeu ser bom de mira e se apaixonou pela nova modalidade. Hoje, analisando melhor, percebe que em suas veias já corria o sangue de atirador: “Quando servi o exército, era o melhor atirador de canhão do 62º BI. Acertava um coqueiro a mais de 50 metros. Também descobri que meu avô tinha sido caçador.”
Logo após pegar jeito, Chrispim tratou de levar a família para o estande de tiro da AAT, onde disputam as modalidades tiro-seta e carabina a ar. E começou a coleção de medalhas. Além de Maria José, lá estão a filha Luisa, 19, e o filho Mateus, 15 – só a pequena Rafaela, de 7, ainda não tem força para segurar uma carabina, o que deve acontecer dentro de dois ou três anos, como esperam os pais e irmãos.
Luisa e Mateus, além dos diversos títulos conquistados com a camisa amarela e azul da AAT, também vêm empilhando vitórias a serviço das seleções joinvilense e brasileira.Ambos acabam de retornar dos Jasc, realizados em Caçador, e treinam pesado para a final do campeonato brasileiro, marcado para 22 a 25 deste mês, no Rio de Janeiro.
Luisa, atual recordista catarinense junior da carabina a ar, garante: “Descobri o esporte da minha vida, e tenho como meta a próxima Olimpíada”. O irmão, recordista brasileiro juvenil, é também bicampeão sul-brasileiro e líder do ranking nacional em sua categoria. “O esporte está fazendo bem para toda a família. Meus filhos não têm nenhum vício e até nos estudos melhoraram muito, graças à disciplina e ao empenho nos treinos e nas competições,” conclui a mãe.

 

“Descobri o esporte da minha vida, e tenho como meta a próxima Olimpíada.”
Luisa Chrispim


Dez voltas ao redor da Terra, na linha do Equador

De bike. Ciclista registrou tudo o que usou e a quilometragem feita em 38 anos de pedaladas
Rogério Souza Jr/ND
Em forma. Geraldo também pedala ao longo da avenida Beira-rio

 

 

São 410.900 quilômetros pedalados. Não era intenção começar esta reportagem com a referência numérica, mas ela impressiona. A quantidade de pneus, câmaras de ar, sapatas de freios, correntes e engrenagens gastas também assustam. Geraldo Bandoch, 53 anos, é um atleta de ciclismo completo. Mais do que isso: dedicado, ciente e organizado. Ele estreou no ciclismo no dia 17 de junho de junho de 1974, mesmo dia em que completou 15 anos de idade. Nessa data, ele começou a trabalhar na Cia. Hansen, de onde saiu 32 anos depois. Foram 22 anos trabalhando com registro em carteira e outros dez como prestador de serviços. “Eu tinha uma bicicleta Monark para trabalhar. Era desses modelos bem comuns, comprada no crediário em quatro prestações. Ia ocorrer a Festa do Trabalhador e o meu chefe pediu para que eu participasse, no dia 4 e maio de 1975. Eu tirei os paralamas da bicicleta, virei o guidão ao contrário e fui com a cara e a coragem. Tirei o primeiro lugar e fiquei marcado para sempre com essa primeira vitória.”
Em agosto do mesmo ano, Geraldo participou da segunda edição dos Jogos Abertos de Joinville, obtendo o segundo lugar na classificação geral. Outro fato interessante é que na primeira gestão do prefeito Luis Henrique da Silveira era comum, na entrega de uma rua ou avenida asfaltada, haver corrida de bicicleta para marcar o evento. Em algumas delas a presença do público era tão grande que era repetida no ano seguinte. Assim foi com a rua Piratuba. No dia 26 de agosto de 1979, Bandoch venceu de ponta a ponta, a 2ª Prova Ciclística da Rua Piratuba, além de outras participações do gênero.
A equipe de ciclismo da Tigre foi amadurecendo, crescendo e evoluindo a cada ano ao ponto de no triênio de1986-88 ser considerada a mais organizada e com melhores resultados do Brasil. “Nós atingimos um nível surpreendente de profissionalismo. Infelizmente, a equipe nascida na década de 1970 terminou em 1989 devido a conjuntura da globalização da economia que começava,” relembra Geraldo. Com o advento da “nova visão de mundo”, a Pirelli, que tinha uma das mais fortes equipes de ciclismo do país, acabou com tudo de forma repentina. No resto do país, assustados com a insegurança econômica, uma a uma as equipes foram acabando, inclusive a da Tigre.
A preparação da equipe era outra façanha, sempre depois do horário de trabalho. “Eles cediam uma Kombi. Colocávamos as bicicletas nela e tocávamos para o Itinga. Como estava sempre escuro, o motorista ascendia os faróis para iluminar o caminho e a equipe ia e voltava a partir daquele ponto, passando pela Enseada e São Francisco do Sul.” Ele recorda que uma vez atiraram uma pedra que quebrou o vidro de um dos faróis da Kombi. Eles retornaram para Joinville sob chuva e com apenas um farol iluminando o caminho.
Além das participações na tradicional Prova 9 de julho em São Paulo e dos Jogos Abertos de Santa Catarina (Jasc), Bandoch é um recordista nas provas estaduais. Das muitas e boas lembranças de seu curriculo desportivo, destaca a corrida na inauguração da Sidersul, em Imbituba, no dia 24 de agosto de 1981. “Eu estava confiante. Tinha ficado no alojamento do Figueira, dormido bem e estava descansado. Eu sempre procurava andar na roda (colado) do pelotão principal. O Hans Fischer, da Hering, era o favorito para vencer e o pelotão sempre dando cobertura nas suas escapadas. Nos momentos finais da prova percebi que ele ajustou rapidamente os seus firma-pés,” conta referindo-se às tiras de couro com fivelas que travam as sapatilhas ou tênis sobre os pedais, evitando assim que mesmos escorreguem durante muito esforço nas pedaladas. “Eu não tive nenhuma dúvida: pulei na lateral do pelotão pedalando forte e fui levando todo mundo. Venci a prova, foi maravilhoso!”
Na Tigre, Geraldo atuava na área de compras e comércio exterior. Para crescer na empresa, ele cursou economia, comércio exterior e fez pós-graduação. Depois de lecionar sistemática de comércio exterior durante três anos na Univille, hoje ele e os filhos Geraldo Jr., Marcos e Eduardo atuam numa empresa de logística.

 

“Ia ocorrer a Festa do Trabalhador e o meu chefe pediu para que eu participasse, no dia 4 e maio de 1975. Eu tirei os paralamas da bicicleta, virei o guidão ao contrário e fui com a cara e a coragem. Tirei o primeiro lugar e fiquei marcado para sempre com essa primeira vitória.

 

Este ano é a vez da Itália
Federado, Geraldo compete na categoria masters  B (acima dos 50 anos), sagrou-se campeão brasileiro em 2010 e campeão catarinense em 2011. Em agosto deste ano, ele participou da mais tradicional prova de masters do mundo, na Áustria. Lá, obteve um honroso quinto lugar para o Brasil no Masters Cycling Classic. Para chegar lá, teve que encarar duas seletivas. Uma no Rio de Janeiro, no dia 26 de agosto, quando chegou em segundo lugar entre os 1.500 atletas participantes. Outra foi em Joanesburgo, maior cidade da África do Sul, quando obteve o 27° lugar numa prova com subida de montanha e o passaporte para sua classificação.
Tem mais? Seguindo um programa de treinamento montado pelo especialista e professor José Luiz Dantas, da Universidade de Londrina (UEL), Geraldo Bandoch tem calendário definido: em 2013 na Itália e, em 2014, na Eslovênia. Ele e seus amigos pedalam todos os dias pela cidade. Se por um acaso você se deparar com um grupo de ciclistas formados por senhores com idade acima dos 50 anos, e pedalando forte bicicletas especiais, nem pense em acompanhá-los. Vai perder feio. (Valter F. Bustos, especial para o Notícias do Dia)


Um desbravador de Garuva

História. Norberto Weber deixa a carreira política como o vereador mais idoso de Santa Catarina
Fabrício Porto/ND
Moldura. Norberto passa parte do tempo na pousada Maré Mansa que construiu no caminho para Itapoá

 

 

“Quando eu cheguei por aqui, há 41 anos, só tinha mato por esses lados. Aqui onde estão o posto e a pousada tem uns 3 metros de aterro. E ainda por cima precisei doar todo o material para a Celesc trazer a energia elétrica pra cá.” Gestos largos ilustram o relato de Norberto Weber, gaúcho criado em Porto União e garuvense de coração, ao relembrar do já distante ano de 1971, quando se estabeleceu com a família no município do qual se orgulha de ser cidadão. Prestes a encerrar mais um mandato como vereador – o mais idoso de Santa Catarina, aos 80 anos –, agora pretende se dedicar mais às atividades empresariais. “Já dei minha colaboração como vereador, deixo espaço para os mais novos.”
Natural de Carazinho, município do Noroeste gaúcho, Norberto tinha 5 anos quando a família mudou-se para Porto União, no Planalto Norte catarinense. Foi interno do Colégio São José dos 8 aos 10 anos, nutrindo o desejo de ser padre, inspirado numa irmã mais velha, freira da congregação do Divino Espírito Santo. Desistiu, porém, quando ainda jovem precisou trabalhar para colaborar no orçamento da família. “Meu primeiro serviço foi fazendo torinhas de madeira numa fábrica de pasta mecânica”, lembra. Prestou o serviço militar no 5º Batalhão de Engenharia, onde ganhou o apelido de Chuteirinha. “Eu jogava no gol, e era muito fominha de bola, nunca largava a chuteira”, esclarece.
Casou-se em 1953 e quatro anos depois iniciava a carreira política, elegendo-se vereador pelo PSD. Completou apenas uma legislatura, pois em 1963 inaugurava seu próprio empreendimento, uma fábrica de esquadrias para portas e janelas, dando início a uma longa atuação no segmento da construção civil. O primeiro grande revés viria pouco tempo depois, quando um incêndio destruiu a fábrica. “Perdi tudo, mas foi aí que vi a importância de ter bons relacionamentos, pois os amigos me ajudaram a me reerguer. Pude comprar equipamentos novos na Máquinas Raimann, em Joinville, e recomecei.” Até enfrentar mais um incêndio. A essa altura, porém, Norberto já se mudara para Curitiba e sua empresa tinha cinco unidades.

 

“Sou o vereador mais velho do Estado e já dei minha parcela de contribuição.”

 

Reinício da carreira política
Em 1971 Norberto Weber transferiu a matriz de sua empresa para a capital paranaense e abriu mais duas filiais – uma delas em Garuva, onde costumava veranear, tendo construído casa em Itapoá. Mesmo mantendo residência em Curitiba – ainda hoje sobe a serra nos finais de semana –, Weber passava a maior parte do tempo em Garuva. A fábrica de esquadrias durou até 1994, quando ele decidiu abrir o posto de combustíveis e a pousada Maré Mansa, na saída para Itapoá.
Fundador do PFL no município, Weber retomou a carreira política em 1982, quando perdeu a corrida para a Prefeitura por 111 votos. Candidato a vereador, pegou duas vezes a suplência, até finalmente se eleger. Agora pelo PR, decidiu abrir mão de uma praticamente certa reeleição. “Sou o vereador mais velho do Estado e já dei minha parcela de contribuição”, diz, listando uma série de benefícios que ajudou a trazer pra o município que adotou há quarenta anos. “Ajudei a trazer a agência do Besc, onde tinha a conta número 1”, cita. Em seguida, faz questão de exibir parecer favorável do TCE (Tribunal de Contas do Estado) referente a sua gestão como presidente da Câmara, em 2006, do qual tirou várias cópias, colocadas sobre o balcão do caixa, no posto de gasolina. A carreira política teve continuidade no filho Luiz Carlos, que já foi vice-prefeito. Com quatro filhos, 12 netos e um bisneto, Weber agora pretende se concentrar mais nos encontros anuais da família e na fiscalização do que considera o maior bem de sua Garuva: “É o município com a maior área verde do Estado e queremos conservá-lo assim”.

Perfil sugerido pelo radialista J. Montes.


Pedalar é preciso

De zica. Ciclista mantém em alta a participação de Joinville nas provas da categoria masters e se prepara para competir na Áustria
Rogerio Souza Jr/ND
Condicionamento. Em casa, Almir pedala sobre rolos (equipamento estático) para manter o ritmo e a boa forma para enfrentar as competições

 

 

 

É muito provável que a grande diferença entre qualquer modalidade esportiva com relação ao futebol, por exemplo, seja a paixão pela prática de modalidade solitária em busca da realização pessoal. O futebol leva ao sucesso meteórico, fama e dinheiro ao atleta bem sucedido. As demais modalidades, incluindo o ciclismo, precisam de anos de trabalho, muito treinamento e renúncia. Logo, caso essa paixão não seja intensa e verdadeira, não haverá sucesso na empreita. Quanto à fama, quase sempre será irrelevante.
Sentado próximo a sua mesa de trabalho na Krein Contabilidade e Assessoria S/S Ltda., Almir Krein conta pausadamente e com entusiasmo sobre seu flerte antigo com a bicicleta. “Nossa família era pobre e meu pai não tinha condições de comprar uma bicicleta, mesmo sendo usada, e a vontade de ter uma ficou.” Natural de Marcelino Ramos (RS), em 1987 Krein chegou a Joinville com o objetivo de estudar e trabalhar. Na ocasião, sem perda de tempo, conseguiu uma vaga no setor de mecânica da Cia Hansen.
Em pouco tempo sua habilidade com a bola foi notada pelos colegas. Meiocampista, Almir teve atuações junto ao Toledo Esporte Clube (PR) e nos Juniores do Atlético Paranaense. Em Joinville jogou pelo América, em 1988. Enfrentou  adversários famosos como o Nardela e Plínio, dois ícones do futebol joinvilense. “Lembro que certa vez quando Dr. Plínio (médico da Tigre) perguntou se eu gostaria de jogar pelo JEC, e disse que faria uma forcinha para me colocar no selecionado. Aconteceu que eu já estava em outra.” A Tigre, é de conhecimento geral, possuía equipe de ciclismo muito boa e o desejo era estar lá. Trocou a bola pelos pedais.
Com a equipe participou da primeira edição da Volta de Santa Catarina, em 1987, em Criciúma. Na sequência vieram as provas 9 de Julho, em São Paulo; Circuito do Boa Vista em 1989, 90 e 91; e o vice-campeonato no Catarinense de Ciclismo, em 1989. Pedalar era preciso e estudar também. Em 1992, decidido pelo curso de ciências contábeis, ingressou na Univille, de onde saiu quatro anos depois. Nesse meio tempo casou-se com a carioca Maria Julia Alves Coimbra e vieram os filhos: Marcela e Luis Antonio.

 

“A vitória deve ser uma consequência sem riscos ao trabalho, à integridade física e emocional.”

 

Dezoito anos depois, retorno no masters
Transcorrida uma ausência de quase 18 anos, Almir retornou para o ciclismo na categoria masters. Essa categoria privilegiada do ciclismo é composta por ex-atletas, portanto, com muita experiência. Como se costuma dizer entre os aficcionados, é prova de “cachorro grande”, ninguém deseja ficar na lanterna do pelotão. Logo depois da fase de readaptação, em 2008, surgiram os primeiros resultados: venceu a primeira etapa do Brasileiro, na Rodovia do Arroz, em 2009, e conquistou a sétima colocação do Catarinense de Ciclismo, do mesmo ano. No Catarinense de 2010, repetiu a boa colocação ficando em oitavo lugar na geral; no ano seguinte conquistou o primeiro lugar no Tour de Santa Catarina, a mais importante prova de nosso calendário.
Sempre acumulando vitórias (“2012 está sendo muito bom”), Almir está na sétima colocação do Catarinense e foi o segundo colocado na importante prova de Taió. Junto com o amigo e companheiro de equipe Geraldo Bandoch, mediante um trabalho conjunto na técnica resistência X sprint, venceram os 109 quilômetros de Itapoá. “Foi muito bom. Eu consegui segurar os caras e o Geraldo disparou para a vitória.”

 

Próximo desafio, Áustria
Existe mais alguma iniciativa pela frente? “Estou prestes a realizar um sonho. Em outubro do ano que vem, eu e minha mulher vamos para a Áustria participar do Mundial de Masters da UCI, e pretendo chegar entre os dez primeiros colocados.” Detalhe: Almir já se prepara com ajuda de um profissional que orienta na alimentação, condicionamento físico e emocional.
Para manter o alto astral ele pedala junto com amigos, todas às quartas-feiras, 70 quilômetros no eixo de acesso Sul (circuito criado pelo grupo) e aos sábados entre 100 a 120 quilômetros pela BR-101. Nos domingos, mais livre, ele pega a bicicleta e vai pedalar na Dona Chica: sai de casa logo cedo e sobe a serra, dá uma paradinha no mirante e volta para almoçar com a família. E ensina: “A vitória deve ser uma consequência sem riscos ao trabalho, à integridade física e emocional. Se existe um caminho, essa é a receita.” (Valter F. Bustos, especial para o Notícias do Dia)


No acalento das memórias

Longevidade. Aos 97 anos, seu Nico conta episódios marcantes da sua vida como trabalhador e passagens por várias cidades
Rogério Souza Jr/ND
Descanso. Bruno, carinhosamente chamado de Nico, mora no bairro Guanabara, junto de uma das filhas

 

 

Nascido há 97 anos em Itapocu, comunidade do interior de Araquari, Bruno Ramos ganhou o apelido de Nico ainda no colo dos pais. Por conta disso, embora seja morador da rua Florianópolis há mais de meio século, até a maioria dos vizinhos desconhece o nome que consta na certidão de nascimento. Bom de memória e de conversa, seu Nico cativa as pessoas pelo seu jeito bem humorado de contar passagens de sua longa vida. “Se tudo fosse colocado no papel, minhas memórias renderiam um livro bem volumoso”, assinala.
Seu Nico cresceu numa comunidade onde o número de negros era bem superior ao de brancos. Ele conta que naquele tempo existiam igreja e salão de festas de negros e de brancos. “Por muito tempo, pretos e brancos espiavam as festas do outro lado, mas não participavam de nada. Apesar da aparência de divisão ferrenha, não havia clima de rixa, todo mundo se dava bem. Com o passar do tempo, pretos e brancos começaram a se divertir juntos nos bailes. Era um tempo bom, de levantar poeira do salão,” lembra dando risadas.
Acostumado a trabalhar desde criança, a estreia de seu Nico com carteira assinada aconteceu aos 15 anos de idade numa fábrica de móveis na cidade de Rio Negrinho. Com saudade da família, três anos mais tarde voltou para casa e foi ajudar o pai na boleia de uma carroça e na abertura de estradas para a Prefeitura. Ato seguinte chegou a Joinville, onde arrumou emprego de carroceiro, mas acabou ficando pouco temo na estrada. Atraído por uma boa oferta vinda de Jacarezinho desceu da carroça e foi para a divisa entre São Paulo e Paraná, onde calejou as mãos na construção de uma ferrovia.
Novamente com saudade da família, em 1936 retornou ao Estado de Santa Catarina e se estabeleceu para sempre em Joinville. Dois anos depois casou-se com Ilda da Conceição, também da comunidade do Itapocu, com a qual teve três filhos (dois homens e uma mulher), dos quais, no seu dizer, perfilharam cinco netos, quatro bisnetos e por enquanto dois trinetos. 

Em Joinville seu Nico fez história trabalhando de estivador no porto do Bucarein, de onde só saiu ao se aposentar por tempo de serviço. Com uma ponta de orgulho ele ressalta que foi o trabalho de estivador que lhe garantiu a possibilidade de dar estudo e uma casa para cada um dos filhos.
Depois de 73 anos de convívio com dona Ilda da Conceição, seu Nico ficou viúvo em fevereiro deste ano. Além da saudade a companheira de tantos anos, ele chora até hoje a perda prematura do filho José, o Zeti. “Ele tinha acabado de se formar advogado e o coitadinho nem não teve tempo de ir buscar o diploma. Mas fazer o quê? Deus é Pai, Ele sabe das coisas,” consola-se com os olhos umedecidos.

 

“Com o passar do tempo, pretos e brancos começaram a se divertir juntos nos bailes. Era um tempo bom, de levantar poeira do salão.”

 

 

Arquivo pessoal/divulgação/ND
Álbum. Seu Nico com a mulher, Ilda da Conceição

 

 

De volta ao trabalho
Em 1975, com 60 anos de idade e já aposentado, seu Nico entendeu que ainda não era hora de parar de trabalhar. E lá foi ele bater cartão-ponto como vigilante noturno no campus da Udesc. “Meu plano inicial era de trabalhar uns cinco anos no máximo; acabei ficando 12, me diverti um bocado e fiz muitos amigos,” conta rememorando as noitadas de vigilante.
Seu Nico acredita que a moderação na comida contribuiu para ele chegar a idade tão avançada sempre com boa saúde. “Como de tudo, mas como pouco e mastigo tudo direitinho, com a maior da calma.”
Atualmente seu Nico mora sozinha numa pequena edificação erguida nos fundos da casa da filha Mara, professora aposentada que continua a lecionar. “Gosto de ter um cantinho só para mim. Mas a comida é toda lá na casa da filha. Ela nem me deixa sossegado de tantos agrados que me faz,” comenta o disposto e espirituoso vovô da rua Florianópolis. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)

 


Um novo mergulho

Pet. Alexandre Pedro de Souza deixou o trabalho burocrático quando se encantou pelos peixes ornamentais
Luciano Moraes/ND
No aquário. Alexandre mostra que cuidar de peixes, graças a equipamentos mais modernos, está mais fácil e barato

 

 

Movimentos graciosos executados por criaturas multicoloridas caracterizam o ambiente da Aquática Niemeyer, loja especializada no comércio de peixes ornamentais originários de rios e oceanos. Instalada na rua Max Colin, pertinho da esquina da João Colin, a loja atraiu fregueses de perto e de longe pela variedade de espécies e pelo suporte técnico que é oferecido após a venda. O dono do estabelecimento, Alexandre Pedro de Souza, informa que além de peixes ornamentais do Brasil e do exterior criadas em cativeiros, ele disponibiliza medicamentos, rações, aquários, bombas e filtros da melhor procedência. “Temos também farta literatura que garante as melhores técnicas para obter bons resultados com esse tipo de hobby”, assinala.
Nascido em Joinville há 38 anos, Alexandre não segura a risada ao contar como virou dono da Aquática Niemeyer. “Eu era analista de garantia da DPaschoal, onde belo dia me deu na telha de montar no local de trabalho um aquário de peixes ornamentais. Ao colocar em prática o projeto, acabei conhecendo a Aquática Niemeyer, da qual me tornei dono no momento que a loja foi colocada a venda”, esclarece. De bem com o negócio, Alexandre informa que em Joinville só existem três casas do gênero que trabalham exclusivamente com peixes ornamentais. “Paralelamente, existem diversos endereços onde peixes ornamentais são vendidos em lojas pet, sinal que o segmento está ganhando espaço na cidade,” enfatiza.
Na opinião de Alexandre, o hobby de manter peixes ornamentais está ganhando espaço por ser até recomendado por médicos como meio de terapia.  Alexandre enumera outros bons motivos para a evolução do segmento. “Só para ilustrar, o custo de alimentação de um peixe é bem menor que o de um passarinho. Já os aquários, que até poucos anos precisavam ser desmontados todos os meses para fazer uma limpeza geral, hoje são higienizados com filtros modernos, o que evita trabalho e transtorno.”
Alexandre destaca que a instalação de aquários de peixes ornamentais está ao alcance de qualquer bolso.  “Aqui são vendidos peixes das espécies beta e kinguio, cujo valor da unidade é R$ 2.  Em compensação, temos peixes mais bem mais caros, como o acará-disco, originário da Amazônia. De tão raro e belo, um exemplar adulto, com cerca de 15 centímetros de comprimento, vale R$ 650.”

 

 

“O custo de alimentação de um peixe é bem menor que o de um passarinho. Já os aquários, que até poucos anos precisavam ser desmontados todos os meses para fazer uma limpeza geral, hoje são higienizados com filtros modernos, o que evita trabalho e transtorno.”

 

Longe do caniço e do samburá
Casado com dona Marilda, pai de uma menina de um ano e três meses, Alexandre deixa escapar que embora viva circulando ao redor de dezenas de espécies de peixes ornamentais, dos quais é um confesso apaixonado, nunca se deu ao trabalho de sair de casa para fazer uma pescaria. “Eu me criei longe do caniço e do samburá e continuo do mesmo jeito apesar de ter virado empresário da piscicultura ornamental,” comenta o bem humorado comerciante da rua Max Colin. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Nos bastidores das construções

Profissão. Geomensor está entre os primeiros profissionais a executar serviço em um canteiro de obras
Luciano Moraes/ND
Apostos. Adilvo de Paula Nery em uma obra para o curso de engenharia da mobilidade no futuro campus da UFSC, na Curva do Arroz

 

 

Grandes construções, seja de uma ponte, autoestrada, edifício cujo estilo e a altura sugerem um desafio à lei da gravidade; ou ainda uma grande usina hidroelétrica ou perfeita pista para o pouso e decolagens de aviões. Nos assustam e encantam ao mesmo tempo. Sob esse efeito quase hipnotizante, raramente nos detemos para pensar como esses gigantes foram construídos. Podemos até imaginar imensas máquinas e homens trabalhando num frenesi construtivo semelhante a um batalhão de formigas em movimento de um lado para o outro. Ao final, muita gente com taças de vinho nas mãos para o brinde e o descerramento de uma placa de inauguração, acompanhada de um pomposo discurso. Também é quase certo que nesse dia o nome do cidadão que fincou a primeira estaca de demarcação no solo, o geomensor, não estará no rol dos homenageados.
O geomensor é um profissional conhecido por todos. Com certeza já o vimos nas rua, praça, avenida, sobre uma ponte ou na beira da estrada quase sempre com um chapéu ou boné sobre a cabeça. Posicionada à sua frente, uma estação total (antigo teodolito) calibrada por GPS fornece todas as medidas e coordenadas obtidas através de um bastão com um prisma, empunhado pelo seu auxiliar onde, num futuro pouco distante, haverá um canteiro de obras. O assunto é tão importante que já virou uma série de televisão chamada “Grandes construções”.
Adilvo de Paula Nery, 35 anos, natural da cidade de Água Doce, no meio Oeste catarinense, é um geomensor, profissional registrado no Crea (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia ), sem o qual é impossível exercer a profissão. Outro registro importante é junto ao Incra. Ele lembra que “antes de entrar uma patrola ou retro-escavadeira em qualquer obra, são eles que dirão onde ela vai passar e o que fazer.” Caso haja uma elevação ou morro pelo caminho, o geomensor calcula os cortes, seus ângulos e a cubagem de terra a ser retirada. “Todas as informações levantadas no campo ficam armazenadas na estação. O passo seguinte é descarregar tudo no computador que, por intermédio de um programa específico, possibilita elaborar o projeto que será encaminhado para a empreiteira responsável pela obra.”
Segundo Adilvo, sempre que necessário ele retorna ao campo para eventuais atualizações ou para orientar quando solicitado. Há pouco tempo ele esteve em Gravataí (RS) fazendo o projeto de pavimentação de 60 quilômetros de ruas. Atualmente ele acompanha a fiscalização de uma pista de testes em construção para o curso de engenharia da mobilidade da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), campus em construção na Curva do Arroz, nas margens da BR-101; também o novo projeto do desvio ferroviário de Joinville, obra em andamento.

 

As histórias do trabalho em campo
Essa é uma profissão que envolve certa dose de risco porque envolve a entrada em matas, escalada de morros e a inspeção de lugares pouco acessíveis para o reconhecimento do campo. Numa dessas saídas, Adilvo e seu auxiliar trabalhavam numa grande gleba em Barra do Sul. “Estávamos num pasto quando, do nada, surgiram alguns búfalos em disparada na nossa direção. Só deu tempo de jogar o equipamento no carro e correr!” Na mesma região, no Morro Comprido, enquanto ele preparava o equipamento, Pedro, seu auxiliar que estava em outro extremo, correndo ao seu encontro. “Ele estava branco feito cal por que próximo a uma grota por onde tínhamos que passar uma jaguatirica saltou na sua frente. Nem preciso falar que o dia ficou meio azedo.”  
Adilvo também é formado em geografia pela Univille e pretende conciliar as suas atividades, enquanto prepara seu ingresso como mestrando na UFSC. Quanto abandonar a profissão de geomensor, é categórico. “Gosto muito do que faço. Tenho liberdade e posso conciliar o contato muito próximo com a natureza e a área administrativa, que é a elaboração dos projetos.” (Valter F. Bustos, especial para o Notícias do Dia)


Lição de compromisso e fé

Educação. Em quase 50 anos de magistério, Adelina Dalmônico fez do comprometimento a palavra-chave para superar os desafios do dia a dia
Fabrizio Motta/ND
Trajetória. No Santos Anjos, Adelina foi professora, coordenadora da educação infantil e depois coordenadora pedagógica e, nos últimos cinco anos, é a gestora

 

A vida de Adelina Dalmônico parecia definida ainda no berço. Filha mais velha de uma família de agricultores muito católicos de Presidente Nereu, no Alto Vale do Itajaí, ela deveria crescer, estudar e seguir a vida religiosa. Chegou a fazer os primeiros votos, mas Deus lhe reservou outra missão: educar. Hoje, com quase 50 anos de magistério e cinco anos dedicados à gestão do Colégio dos Santos Anjos, ela fez da fé um esteio e do comprometimento a palavra-chave para enfrentar e superar os desafios de todos os dias.
A fé foi cultivada desde a infância. No final dos anos 40 não havia missa diária na localidade onde a família morava. Quando o pároco chegava, era um evento. Mas, a mãe de Adelina, de origem italiana e costumes rígidos, não descuidava da formação dos nove filhos. “Quando criança, rezávamos o terço de joelhos, todos os dias. O sonho  da minha mãe era ter uma filha religiosa e um filho padre”, recorda. Quando terminou a quarta-série, aos 11 anos, os pais a matricularam no Colégio Santo Antônio, de Brusque, das irmãs da Divina Providência. Como era comum, as moças do interior trabalhavam nas atividades da escola em um período e, no outro, estudavam. Além do conteúdo convencional, aprendiam de tudo: artes, teatro, bordado, cozinha... “Estes anos foram preciosos porque me deram formação intelectual e para a vida.”
Após esta etapa, as irmãs a encaminharam para o Colégio Coração de Jesus, em Florianópolis, para fazer o curso normal, de formação de professores. Entrou para o postulantado e o noviciado. E aos 18 anos fez os primeiros votos. “Antes era um sonho da minha mãe. Depois, um sonho meu”, explica ela, que se formou, foi transferida para Tijucas e começou a lecionar e a trabalhar na paróquia local, coordenando a catequese de cinco municípios. Esta rotina durou dois anos, até que um fato imprevisto a fez seguir outro caminho. “Minha mãe adoeceu e eu senti o impulso de também ajudar a minha família,” revela, explicando que os irmãos ainda eram pequenos e ela era uma referência para eles. “Pedi licença e voltei para casa.”

 

“Quando criança, rezávamos o terço de joelhos, todos os dias. O sonho  da minha mãe era ter uma filha religiosa e um filho padre.”

 

Novos desafios
A esta altura, os pais já haviam se mudado para Joinville e Adelina começou a procurar emprego nas empresas da região. Um dia, ao sair da missa, passou em frente ao Colégio dos Santos Anjos e decidiu entrar. Encontrou a diretora e brincou: “Não tem emprego para mim?” Tinha. Era 1971 e ela começou a lecionar para crianças de apenas cinco anos. “Foi um desafio. Nunca tinha dado aulas para crianças tão pequenas”, explica ela, que depois disso assumiu muitas outras funções na escola, cursou a faculdade de pedagogia em Itajaí e durante 12 anos atuou no Ispere (Instituto Pedagógico de Reabilitação e Inclusão). Um período difícil, com um rotina pesada que começava de manhã cedo na escola, seguia  de tarde no Ispere e encerrava depois de meia-noite, quando voltava da faculdade. “E posso dizer que nunca fiquei doente, nem cheguei tarde ao trabalho. Fui abençoada por Deus.”
No final dos anos 70, um rapaz se apresentou na escola para dar aulas de matemática. Era um ex-salesiano, quase padre. Adelina o entrevistou e contratou. Um dia, no corredor, os olhares dos dois se cruzaram de forma diferente. “Ele me olhou, eu olhei para ele... Aí pensei: É este o homem da minha vida”. O professor era Geraldo Dalmônico e o ano era 1978. No ano seguinte se casaram e no início da década de 80 chegavam os dois filhos do casal.
No Santos Anjos, Adelina foi professora, coordenadora da educação infantil e depois coordenadora pedagógica – durante 30 anos atuou diretamente com a  irmã Cleofa, diretora da escola, que faleceu em 2007. Aí surgiu outro grande desafio: o convite para ser gestora do Santos Anjos, função que ocupa há cinco anos e onde exercita a arte de confiar no outro. “Confio nas pessoas, tenho uma equipe comprometida e capacitada”, explica ela, repetindo a palavra que permeou toda a sua trajetória: comprometimento.

 

Perfil sugerido pelos professores do Colégio dos Santos Anjos para marcar o Dia do Diretor de Escola, em 12 de novembro.


O basquete correndo nas veias

Destaque. Flávio Rodrigues foi um dos grandes árbitros do basquete brasileiro
Fabrizio Motta/ND
Reconhecimento. Flávio com os troféus de melhor árbitro de 1994, dado pela CBA, e mérito por serviços prestados, concedido pela Federação Catarinense em 2002

 

Desde que quicou pela primeira vez uma bola de basquete, numa praça de Porto Alegre, quando ainda era guri, Flávio Moraes Rodrigues tem o esporte da bola-ao-cesto correndo nas veias, junto com o sangue gremista que precisou virar colorado durante algum tempo – já vamos explicar por quê. Hoje aposentado, aos 70 anos ainda se mantém perto da quadra, zelando pelo ginásio de esportes Ivan Rodrigues. “Espero que terminem logo a obra de dragagem do rio aqui atrás e que o ginásio, assim como o Abel Schulz, seja reformado e volte a ser utilizado”, diz Flávio, que marcou época como um dos mais renomados árbitros de basquete do país e muito trabalhou em favor do esporte de Joinville, cidade que adotou há quase 34 anos.
Mas e quanto à história do tricolor que virou colorado? Conta aí, Flávio: “Toda a minha família era gremista. O hino do Grêmio, ‘... Até a pé nós iremos...’, foi composto por Lupicínio Rodrigues, irmão do meu pai. Eu comecei a jogar basquete, porém, pelo infantil do Internacional, onde fui treinado pelo professor Heins, que me descobriu jogando nas praças de Porto Alegre”. No Colorado, Flávio foi do infantil ao aspirante, quando começou a se interessar pela arbitragem. Decidido, fez um curso e começou a apitar. “Comecei pela terceira categoria e cheguei a ser colega do Renato Marsiglia, que começou no basquete e depois foi para o campo”, conta, referindo-se ao ex-árbitro gaúcho, hoje comentarista de TV.
Após trabalhar um tempo como bancário e servir o Exército, Flávio foi para o Rio de Janeiro, onde morou quase duas décadas. “Fiz um curso de formação de professores, a chamada licenciatura curta, e trabalhei no departamento de educação física do então Estado da Guanabara. Como morava em Niterói, também dei aulas na cidade, fazendo todos os dias a travessia de barcaça até o Rio.” Como árbitro, Flávio chegou ao quadro nacional da Confederação Brasileira de Basquetebol. Em quadra, pegou uma época de ouro do basquete, quando despontavam talentos como Carioquinha, Oscar, Marcel, Hortênsia e Magic Paula. Também viu jogar os irmãos Bial, antes de Alberto virar técnico e Pedro, astro da TV.

 

 

Arquivo pessoal/divulgação/ND
Basquete da Tigre em 1980. Em pé, a partir da esquerda, o técnico Flávio, Rose, Ronira, Cláudia, Cristiane e Caxambu; agachadas: Boneca, Raquel, Gise e Arilede

 

 

Carreira em Santa Catarina
O primeiro contato de Flávio Rodrigues com terras catarinenses foi em 1977, como árbitro dos Jogos Abertos disputados em Florianópolis. Dois anos depois, chegava a Joinville, aceitando convite do então presidente da Comissão Municipal de Esportes (atual Felej), Jair Venâncio. “O prefeito Luiz Henrique mandou me colocarem no Anthurium, logo um dos hotéis mais charmosos da cidade. Joinville foi uma paixão à primeira vista,” conta Flávio, pai de um casal de joinvilenses e vovô-coruja de uma netinha de quem não desgruda. A esposa, Maria Lúcia, aposentou-se como professora.
Em Joinville, Flávio deu continuidade à carreira de árbitro e também consagrou-se como técnico e dirigente, tendo treinado equipes da Tigre e selecionados femininos da cidade, disputando diversas edições dos Jasc. Fundou a Liga de Basquete do Norte Catarinense e apitou até 2006. Ficou uma frustração: “Em 1979, eu seria o primeiro brasileiro a integrar o quadro internacional de arbitragem, mas a Federação Internacional de Basquete estabeleceu a idade máxima de 35 anos para filiação. Eu tinha 37”.
Enquanto aguarda a sonhada reforma do ginásio, Flávio zela pelo Ivan Rodrigues, sonhando em rever ali grandes jogos de basquete.

 

Perfil sugerido pelo radialista Gabriel Fronzi.


A vida continua com união

Casamento. Os laços de Norberto e Niva já duram 72 anos mantidos com disposição e muito carinho
Carlos Junior/ND

Companheiros. Quase centenários, Norberto e Niva seguem morando sozinhos e seguem uma rotina calma e de muito companheirismo

 

 “Uma vida construída com união.” Este foi o título do perfil do casal Norberto e Niva da Silva, publicado no dia 6 de agosto de 2009. Três anos e três meses depois, ele com 97 e ela com 98 anos, a união prossegue cada vez mais forte. Aquela reportagem falava das bodas de mercúrio que o casal comemorara em julho, celebrando 69 anos de vida em comum. Depois disso, eles já celebraram as bodas de vinho, zinco e aveia, e tudo indica que vêm aí as de manjerona, no ano que vem.
Tirando alguma dificuldade de locomoção e de audição, normais para a idade, seu Norberto e dona Niva demonstram disposição e vontade de viver. E continuam morando sozinhos. “A única diferença, diz a filha Neusa, novamente assessorando os pais na entrevista, é que eles precisaram deixar a casa onde viveram tantos anos, por causa das seguidas enchentes.” A casa onde moravam há 55 anos, no bairro América, fica na rua Frederico Hübner, na região constantemente atingida pelas cheias do rio Morro Alto.
Na reportagem de três anos atrás, seu Norberto lembrava que chegaram a conhecer o comerciante que dá nome à rua. “Ele tinha um comércio na Dr. João Colin, e morreu num acidente de avião, ali onde é o campo do América,” recordava Norberto, dando mais uma demonstração da privilegiada memória. No início deste ano, quando mais uma vez a residência foi atingida pela água, Neusa alugou um apartamento térreo para os pais na rua Padre Anchieta, no Glória.

 

História de amor
Para que Norberto da Silva e Niva Siqueira iniciassem sua história de amor, foi necessária uma mãozinha do destino. Afinal, ele nasceu na Vila da Glória, em São Francisco do Sul, e Niva em Lapa, interior do Paraná. Conta Norberto: “Fui convocado para o serviço militar e comecei no 13º BC, em Joinville. Como era época de revolução, fui transferido para Ponta Grossa, e de lá para Lapa. Os soldados iam passear na praça, às vezes a gente se encontrava no teatro que tinha lá.” Encerrado o serviço militar, Norberto retornou a Joinville, onde era mecânico ajustador, e trouxe Niva junto. Norberto trabalhou a vida toda na empresa Otto Benack, depois absorvida pela Usina Metalúrgica Joinville. Também foi remador do Clube Náutico Cachoeira.
Mesmo com a audição prejudicada, seu Norberto mantém a mente aguçada. Próximo do repórter, para poder ouvir as perguntas, observa atentamente as anotações e quer saber: “Você guardou as anotações da nossa primeira entrevista?”

 

Arquivo pessoal/reprodução/ND
Recordação. A foto do casamento, em julho de 1940

 

  


A cebola foi um trampolim

Comércio. Nascido em Ituporanga, Ivo Coradelli também tentou a vida nas indústrias de Rio do Sul antes de se estabelecer em Joinville
Luciano Moraes/ND
Marca registrada. Homem de fala mansa, Ivo é lembrado com carinho pelos clientes do bairro Anita Garibladi

 

  

Contato diário com a população faz de Ivo Coradelli um dos comerciantes mais populares do bairro Anita Garibaldi, onde há 24 anos mantém abertas as portas de uma farmácia. Homem de fala mansa e estampa de bonachão, ele é conhecido e elogiado pelo seu jeito atencioso e refinado de tratar a clientela. Nascido há 53 anos em Ituporanga, município do alto vale do Itajaí que se destaca no cenário agrícola nacional por ser o maior produtor de cebola de cabeça de Santa Catarina, Ivo trabalhou em lavouras até completar 14 anos. “A carreira no cabo da enxada foi curta, mas contribui um tiquinho para a cebola de Ituporanga ganhar destaque pelo Brasil a fora”, assinala espirituoso.
Ivo conta que depois da fase de produtor de cebola mudou-se para a cidade de Rio do Sul, onde trabalhou a linha industrial até completar 19 anos. De Rio do Sul mudou-se para Joinville já com emprego garantido antes de chegar na cidade. Por dez anos seguidos Ivo trabalhou no balcão da farmácia Coradelli, o mais conhecido estabelecimento do gênero do bairro Itaum. “Foi fácil entrar por que a farmácia pertence aos meus irmãos Valdir e Gentil”, esclarece o ex-produtor de cebola. Em uma década de trabalho ao lado dos irmãos, Ivo aprendeu os macetes que como se deve tocar uma farmácia. “Foi com eles que aprendi as bases da ética profissional, como nunca empurrar remédio ao cliente ou querer dar uma de médico,” salienta.
Ivo conta que é relativamente comum a chegada de clientes em farmácias que querem resolver problemas complicados de saúde ali mesmo, direto no balcão do estabelecimento. “Dependendo do caso, sugiro que seja procurado um clínico geral. Quando o quadro se apresenta bem definido, digamos fortes dores nos rins, encaminho a pessoa diretamente a um médico especialista na área,” enfatiza.
No vai-vem atrás do balcão, Ivo conta com a ajuda de Sidnei Vieira, com formação acadêmica em farmácia. Os dois trabalham lado a lado há 14 anos.  “Formamos uma boa dupla, do tipo de cantores sertanejos bem afinados”, compara o sempre bem humorado farmacêutico.

 


“A carreira no cabo da enxada foi curta, mas contribui um tiquinho para a cebola de Ituporanga ganhar destaque pelo Brasil a fora.”

 

Um bairro especial
Casado com dona Zenir, também engajada no negócio da família, Ivo é pai três vezes (duas moças e um rapaz). Ele se diz um homem de bem com a vida e com o bairro Anita Garibaldi, ao qual não poupa elogios. “Tirando de lado o sufoco do trânsito nas horas de pico, os moradores daqui são sossegados e trabalhadores,” destaca.  Por conta disso, irreverente, ele cantarola: “daqui não saio, daqui ninguém me tira.” Pois agora, que assim seja por um prazo a perder de vista, deseja-lhe Vilmar Lovisan, vizinho de Ivo e dono do Cantinho dos Amigos, concorrido endereço de venda de carnes assadas no bairro Anita Garibaldi. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


A voz do pioneirismo

Homenagem. No Dia do Radialista, 7 de novembro, as lembranças de Ney Botto Guimarães
Rogério Souza JR/ND

Vida após o rádio. Formado em direito, Ney Boto mantém escritório de advocacia especializado na área criminal

 

 

O torcedor “de poltrona” de hoje tem uma série de comodidades, a começar pelos pacotes oferecidos pela TV por assinatura, com todos os jogos dos diversos campeonatos. Já quem gosta de ouvir transmissões pelo rádio, além das emissoras locais, pode acessar rádios de todo o mundo pela internet. Mas nem sempre foi assim. Havia um tempo em que as transmissões pelo rádio eram gravadas e transmitidas posteriormente, como o VT na televisão. Em Joinville, foi assim até 1959, quando a Rádio Cultura fez a primeira transmissão ao vivo. Quem narra o fato – e narrou o jogo pioneiro – é Ney Botto Guimarães, que há alguns anos trocou as cabinas dos estádios por um escritório de advocacia. “A Cultura estava montando sua equipe de esportes, da qual fui o primeiro narrador. Inauguramos as transmissões ao vivo com um jogo entre Ipiranga e Caxias, direto de São Francisco.”
Até chegar ao microfone da rádio, a vida deste alagoano de Penedo, nascido em 1937, seguia pelo futebol, mas dentro de campo. “Eu tinha 5 anos quando minha família trocou Alagoas por São Francisco do Sul, cidade onde de fato me criei. Tinha uns 20 anos quando, jogando pelo Ipiranga, sofri uma contusão. O diretor da Rádio São Francisco, Álvaro Dippold, me convidou então para ser comentarista, por causa da voz boa e do conhecimento do futebol.” Ney topou e alguns dias depois empunhava um microfone pela primeira vez, comentando uma partida do Ipiranga. Ele não se recorda do adversário, mas lembra-se muito bem de um comentário que marcou sua estreia: “Pênalti contra nós!”
Dois anos depois, Ney integrava a primeira equipe esportiva da Rádio Cultura, convidado por Jota Gonçalves. “Junto comigo estavam Augusto Parcias, Raciel Gonçalves, José Eli Francisco e Giovani de Lima. O Eli Francisco foi o primeiro âncora do rádio esportivo, pois naquele tempo não havia retorno, e alguém precisava avisar a hora de cada um falar.”

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Bate papo. Ney e Eli Francisco no tempo que ambos trabalhavam na Rádio Cultura

 

“Locutor narra, comentarista comenta e repórter deve dar o detalhe, aquilo que só ele viu.”

 

Criador de novidades
Consagrado como locutor, em 1963 Ney Botto fez as malas e saiu pelo país: trabalhou nas rádios Clube Paranaense (a B2), Guarujá de Florianópolis, Sociedade de Salvador, Clube de Recife e Clube de Fortaleza, antes de retornar a Joinville e passar pelos prefixos da Cultura, Colon e Difusora, até abandonar as transmissões devido a problemas de visão. Na Guarujá, transmitia a serviço da Tupi de São Paulo, nos tempos do auge da loteria esportiva. “A Tupi tinha um narrador em cada Estado, e ia alternando à medida que os gols saíam, para que o apostador pudesse acompanhar todos os jogos.” Para facilitar, em vez de dar os nomes das equipes em campo, Ney os identificava como “time da coluna 1” e “time da coluna 2”. Foi no tempo das emissoras nordestinas que ele conheceu a cidade-natal, transmitindo um jogo na vizinha Arapiraca, entre ASA e Fortaleza.
Uma das determinações de Ney Botto aos repórteres de pista é que ficassem ao lado dos fotógrafos de jornal. “Sempre achei que os fotógrafos tinham a sensibilidade de antever os melhores lances”, explica. Exigente, fazia questão que cada um cumprisse seu papel. “Locutor narra, comentarista comenta e repórter deve dar o detalhe, aquilo que só ele viu,” esclarece, deixando clara sua admiração pelo narrador Sílvio Luiz. Outro que merece palavras de carinho de Ney Botto é o radialista José Mira: “O Mira foi o grande responsável pela salvação do rádio esportivo joinvilense.”
Formado em direito quando tinha 52 anos, Ney Botto Guimarães se especializou na área criminal e montou escritório em sua São Francisco do coração. De rádio, continua sendo um bom ouvinte – de preferência se estiver sendo transmitido um jogo do Ipiranga, do JEC ou do Botafogo.

Perfil sugerido pelo radialista José Eli Francisco.

 


O contador de histórias

Perfil. Há cinco anos o jornalista Roberto Szabunia retrata com palavras a vida de pessoas que se diferenciam na comunidade
Luciano Moraes/ND
Um lugar que gosta. Roberto Szabunia na rua das Palmeiras, um espaço que aprecia tanto quanto a Arena Joinville

 

 Após procurar inutilmente pela campainha, resolveu bater palmas. Não demorou em ser notado. Bem a tempo, já que algumas gotas de chuva começavam a cair, timidamente. De dentro de casa, um senhor alto, de cabelos brancos e olhos claros, com uma feição séria e as mãos trêmulas, abre a porta para ver quem é. Após uma saudação e um “boa tarde” vem a apresentação:
- Sou Roberto Szabunia, do Notícias do Dia...
Este foi o nome que seus pais escolheram, apesar do registro na certidão de nascimento começar com Antônio. Sim, Antônio Roberto Szabunia. Culpa de um certo padre de Rio Negrinho, sua cidade natal, que há 55 anos se recusara a batizar crianças que não tivessem ao menos um nome de santo. Mal sabia o clérigo que já existia um São Roberto, padroeiro dos conselheiros, beatificado em 1923. Mas esta é outra história. O importante é que apesar de tudo, o que pegou mesmo foram os dois últimos nomes. Pessoalmente para diferenciá-lo de seu pai, e profissionalmente por uma questão de caracteres. Afinal, três nomes é muito para se assinar uma matéria do jornal.
Ainda faltam 15 minutos para o horário marcado, mas isso não parece ser incômodo para o senhor, que prontamente convida o repórter a entrar. Dentro da casa, o chão de taco, a mobília antiga e o filme “Se meu fusca falasse” passando na televisão não negam os 81 anos do entrevistado e sua esposa, uma senhora também de olhos claros e cabelos brancos, mas com um sorriso cativante. Após mais cumprimentos e breves explicações, já acomodado na sala e com a caneta em mãos, tem início uma série de perguntas baseadas numa pesquisa prévia e, principalmente, na curiosidade que move todo bom jornalista.
A entrevista é leve, informal, descontraída. Vez por outra saem umas gracinhas, tanto de um lado quanto de outro. Szabunia anota tudo que o interessa em seu caderninho com capa do Palmeiras, time do coração desde sempre. Não se preocupa com a caligrafia, já que os rabiscos interessam apenas a ele naquele momento. Teria sido bom trazer um gravador. Utiliza muito o recurso quando se programa para fazer perfis de duas páginas. Não era o caso. Tinha pensado em pouco mais de quatro mil caracteres e fora pego de surpresa pela enxurrada de histórias do casal. Ainda bem que trouxe o caderninho. Se tivesse que confiar apenas na memória, algumas datas e nomes certamente se perderiam.
O relógio de carrilhão toca, indicando que são 14h30. Dois minutos depois, um cuco dá o mesmo aviso, atrasado. Os entrevistados se entusiasmam e, por vezes, o casal fala ao mesmo tempo, sem perceber o emaranhado sonoro que se forma. Nada disso faz com que o repórter perca o foco.  Szabunia capta cada informação, desde os detalhes do local até as datas e nomes das conversas paralelas. Técnica aprendida e aperfeiçoada em seus mais de 30 anos de experiência.
Começou no ramo por acaso, em abril de 1979, após ser contratado como revisor no jornal "A Notícia". Sempre se entendera bem com a língua portuguesa o que, com certeza, o ajudou no emprego, mas nunca havia cogitado a hipótese de ser jornalista. Tanto que antes da contratação era como a maioria dos jovens, que aos vinte e poucos ainda não sabe o que fazer da vida. Cursou engenharia florestal, geologia e comunicação visual em São Paulo, cidade onde sua mãe morava após o fim do primeiro casamento. Mas como as universidades passavam muito tempo em greve e ele ficava mais na sala de cinema do que na de aula, acabou não concluindo nada.
Por fim veio para Joinville, cidade que o acolheu e ensinou o ofício. Além de revisor, foi redator de diversas editorias, inclusive das páginas policiais, onde ficou seis meses sem noticiar sequer um assassinato. Também foi editor de várias sessões e adquiriu algumas habilidades atualmente descartáveis, como diagramar no past-up (modo de produção gráfica utilizando régua, tesoura e cola), imprimir na linotipo (máquina de composição tipográfica) e pentear telex (Editar matérias de agência recebidas por um descendente pré-histórico do e-mail). Fez parte da chefia de reportagem, onde acompanhou o início de alguns focas que hoje tem experiência de sobra, como a Albertina Camilo, editora chefe do jornal Notícias do Dia, e o Anildo Jorge dos Santos, gerente da Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Joinville. Por um curto período também se aventurou nas reportagens de TV, mas não gostou muito da experiência.
A partir de 1985 Szabunia acabou se envolvendo com comunicação empresarial. Primeiro produziu materiais para divulgação, e depois foi para a área administrativa, como sócio diretor da EDM logos. Em 1999 entrou no curso de jornalismo do Bom Jesus/Ielusc, concluindo-o cinco anos depois. Da academia ele gostou. Fundamentou com teoria toda a prática adquirida e utilizada por anos. Já da administração corporativa não pode falar o mesmo. O salário era bom, mas ficar longe da produção de textos e ser obrigado a demitir pessoas não era sua praia. Por isso, em 2007, resolveu largar a sociedade e começar a fazer freelas.
O primeiro veículo a contratar seus serviços, sem compromisso, foi o ND. Queriam fazer umas matérias de resgate por conta da comemoração de um ano de jornal. Desde então já são aproximadamente cinco anos de parceria. Neste tempo, especializou-se em fazer os perfis que encerram o jornal, posto que atualmente divide principalmente com Herculano Vicenzi. Também escreveu algumas reportagens especiais, por vezes pessoalmente marcantes. Uma delas foi quando pulou de parapente, em dezembro de 2010. O primeiro salto deve ser emocionante para qualquer um, mas, para Szabunia, teve um sabor especial, já que sua acrofobia o faz sentir calafrios só de imaginar lugares altos.

 

Ao invés da redação, o conforto do escritório em casa
São pouco mais de 15h30. Ambos os relógios já deram seu aviso sonoro. As perguntas acabaram e os entrevistados se levantam para tirar algumas fotos que vão ilustrar a matéria. A entrevista foi boa, conseguiu três páginas de anotações. Normalmente não sai com tanto. Será obrigado a utilizar a "tesoura" e o "pano de prato" para redigir o perfil, quando chegar em casa. Isso mesmo, escreve quase tudo no conforto do lar, onde sempre tem um computador livre para trabalhar. Vai para a redação esporadicamente, apenas para trocar algumas informações com a editora e fazer a social com os colegas de profissão. O resto do contato com o jornal é todo realizado por meio da internet, via e-mail, inovação que ele acha indispensável atualmente.
Depois de posarem para as fotos, o casal convida seu entrevistador para conhecer o orquidário de que lhe falaram pouco antes, cultivado alguns degraus acima do nível da casa. Szabunia reluta. Explica que por conta de uma neuropatia tem um certo problema para subir escadas sem auxílio, dirigir carros e alcançar a letra A no teclado durante longos períodos de digitação. Sequela de uma diabetes, herança genética do pai e do avô. Felizmente a dele é leve e controlada, sorte que seus genitores não tiveram. Mas apesar do problema, não pensa em parar tão cedo. Ainda tem muito gás pra escrever e quer evitar ficar só com a aposentadoria.
São quase 16h. Após descer os degraus que levavam ao orquidário com o mesmo auxílio que teve para subir, o jornalista começa a se encaminhar rumo ao portão, agradecendo pela receptividade. É um sujeito de sorte. Gosta de aprender, o que acontece a cada entrevista realizada. Aliás, acredita que conheceu mais a cidade nestes últimos cinco anos perfilando do que em toda sua carreira como jornalista. Pouco antes da despedida, o senhor lhe chama no canto e diz:
- Se você quiser vir tomar um café quando o texto ficar pronto, antes de publicar, para darmos uma conferida...
- Não precisa se preocupar. Só vou escrever o que vocês me contaram! (Alex Guilherme Schneider, especial para o Notícias do Dia)

 

A entrevista acompanhada foi publicada no ND de domingo, 30 de setembro.

 

 


De batedor a mecânico

Andanças. Udo Kretzer saiu de Indaial para servir o Exércio no Rio e depois encantou-se por Pirabeiraba
Fabrício porto/ND

Trabalho. Sempre ativo, Udo mantem uma oficina mecânica na Eugênio Ernesto Kunde, em Pirabeiraba

 

 

Bem antes de ser motociclista batedor da Polícia do Exército na cidade do Rio, Udo Kretzer aprendeu o ofício de mecânico de automóveis em Indaial, cidade do Médio Vale do Itajaí, onde nasceu há 70 anos. Em 1962, ao deixar a farda verde-oliva, Udo chegou a Joinville para exercer a profissão de mecânico na Fundição Tupy, onde se ambientou rapidamente. Quis o destino que em 1966 ele fosse a Pirabeiraba para comprar um garrafão da famosa cachaça de alambique que é produzida em centenários engenhos daquela região. Encantado com a beleza do lugar e a afabilidade do povo, de estalo Udo resolveu se mudar para lá. Por conta disso, semanas depois pediu a demissão na Tupy e foi trabalhar na oficina mecânica Rudnick. Corria o ano de 1969 quando Udo se desligou da Rudnick para montar sua própria oficina, na rua Eugênio Ernesto Kunde, onde,  passados 43 anos ele continua no mesmo lugar.
Setentão cheio de saúde, Udo conta que durante quatro décadas consertou carros de todas as marcas que estacionavam em seu pátio. Nos últimos anos deixou os motores de lado e se especializou no segmento de escapamentos.  “A mudança de foco não prejudicou o fluxo de fregueses, que continua bom,” comemora o veterano mecânico. Viúvo e pai de quatro filhas, todas moradoras do bairro Vila Nova, Udo se bandeou para aquela parte da cidade há oito anos. Mas a oficina continua no mesmo lugar de sempre.  “Sou um homem feliz por trabalhar em Pirabeiraba e morar no bairro Vila Nova. Os dois lugares são ótimos para se viver,” assinala dando boas risadas.
Homem de fala mansa e apreciador de um bate-papo sossegado, Udo gosta também de pescarias à beira mar. Bem humorado, ele não perde a veia espirituosa nem quando lembra a defasagem em sua  aposentadoria. “Comecei ganhando 3,2 salários mínimos e hoje recebo só um. O jeito é continuar trabalhando para não faltar comida na mesa,” diz dando de ombros.

 

“Sou um homem feliz por trabalhar em Pirabeiraba e morar no bairro Vila Nova. Os dois lugares são ótimos para se viver.”

 

Arquivo pessoal/divulgação/ND
Recordação. Udo foi motociclista batedor da Polícia do Exército no Rio de Janeiro

 

 

Tempos de caserna
São muitas e boas as lembranças de Udo no tempo de Exército. “Tive a oportunidade de viajar de avião, navio e trem. Foi uma fase marcante da minha vida e por isso não sou de perder nenhum encontro promovido por ex-colegas da polícia do Exército.”
Torcedor do Vasco da Gama, Udo sempre que podia marcava presença no Maracanã para acompanhar seu time de coração. “O Vasco tinha um time muito bom, mas em 1962 quem mandava mesmo no futebol carioca era o Botafogo de Garrincha, Didi, Nilton Santos e outros craques que faziam parte da seleção brasileira. Por isso não tive o prazer de ver ao vivo o Vasco ganhar nenhuma partida do Botafogo,” conta sem segurar uma risada ao se lembrar dos dribles magistrais de Mané Garrincha. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Quando o trabalho se torna um prazer

Dedicação. Henrique Mazzolli transformou a profissão num hobby
Fabrizio Motta/ND
Após os 70 anos. Henrique Mazzolli abre seu consultório 12 horas por dia e atende clientes há três gerações

 

 

Dois aspectos se destacam logo nos minutos iniciais da conversa com o dentista Henrique Mazzolli: a certeza de que ele escolheu a profissão certa e o prazer que sente a cada novo dia de trabalho. “Depois que me aposentei, transformei a profissão no meu hobby. Tenho a maior satisfação em abrir o consultório todos os dias, com a convicção de estar tornando útil minha passagem por essa vida. Aqui eu me realizo a todo momento,” garante Mazzolli, mais um dos profissionais joinvilenses remidos pelo Conselho Federal de Odontologia por ter completado 70 anos de idade (fez 71 em junho passado).
Ser odontólogo foi, realmente, uma opção totalmente pessoal. Henrique poderia ser professor, como o avô, que veio a Joinville para dar aulas aos italianos que trabalhavam na usina de açúcar, em Pirabeiraba. Ou um misto de jornalista e contador como o pai, Humberto, que trabalhou nos jornais “A Notícia” e nos blumenauenses “A Nação” e “O Lume”, antes de abrir sua empresa – a Contabilidade Mazzolli, que existe até hoje. “Cheguei a me formar técnico contábil pelo colégio Bom Jesus e trabalhei como auxiliar de escritório na Granalha de Aço. Mas ainda durante o curso técnico decidi que meu caminho era a odontologia.”
Assim, em 1959 Henrique Mazzolli iniciava a faculdade em Florianópolis. Ao mesmo tempo, integrava o movimento estudantil pela federalização dos cursos superiores da capital catarinense. “O presidente Juscelino havia instalado universidades no Piauí e no Rio Grande do Norte, mas achava que Santa Catarina não precisava. Chamavam-nos de desocupados, mas nossa luta valeu a pena, tanto que me formei já pela UFSC”, lembra Mazzolli. Formado no final de 1962, no dia 2 de fevereiro do ano seguinte abria seu consultório em Joinville, na rua Abdon Batista. Em 1988 passou para o endereço atual, na rua Corupá, 170, ao lado de sua casa. Também atuou, durante três décadas, a serviço do Moinho Santista.

 

“Minha maior alegria é ajudar uma pessoa a recuperar o sorriso.”

 

Arquivo pessoal/reprodução/ND

Álbum de família. Mazzolli no primeiro consultório, há 50 anos

 

Aperfeiçoamento nos EUA
“Quando eu fazia a faculdade, Joinville tinha apenas 28 dentistas,” recorda Mazzolli, citando rapidamente uma dezena deles: Plácido Alves (falecido há alguns dias), os Neumann, Bencz, os Unger, Erasmo Soares Pereira, Baggenstoss, Schmidlin e Fonseca. De sua geração, cita os também recentemente remidos Hamilton Leimann, Heinz Kricheldorf (ambos já perfilados nesta página), Odracyr Cubas e Orlando Poffo.
Sempre em busca de aperfeiçoamento, durante uns 15 anos Henrique Mazzolli partia no final do ano rumo aos Estados Unidos, onde participava de quantos congressos fosse possível. “Posso dizer que conheço os Estados Unidos melhor que Santa Catarina, pois viajava de costa a costa atrás dos eventos da associação dentária americana.” Especializado em reabilitação oral, Mazzolli é testemunha viva dos avanços que o Brasil alcançou nessa área. “Hoje encontramos equipamentos nacionais de primeira linha. Para os dentistas, uma das melhores coisas foi a instalação da KaVo”, diz ele, garantindo ter sido o primeiro usuário do sistema de alta rotação produzido pela marca na fábrica de Joinville. Além disso, destaca os avanços ergonômicos que permitiram aos dentistas trabalhar sentados: “Não havia coluna que resistisse a trabalhar encurvado, e sempre virado para o mesmo lado.”
Como nenhum dos três filhos optou pela mesma carreira, Henrique Mazzolli segue em sua rotina diária, atendendo das 7h à 19h, já tendo clientes de terceira geração. “Minha maior alegria é ajudar uma pessoa a recuperar o sorriso.”


Da casa para a oficina

Mecânica de carros. Os quatro irmãos Niehues herdaram negócio e vocação do pai
Fabrício Porto/ND
Unidos pelo trabalho. Na São Cristóvão, os irmãos Cesar (à esq.), Carlos, João Paulo e Edson

 

 

No bairro América corre um divertido comentário a respeito dos irmãos Edson, 53 anos, Cesar, 59, Carlos, 47, e João Paulo, 33, filhos de Sílvio Niehues, fundador em 1970 da oficina São Cristóvão e pioneiro em Joinville na prestação de serviço de guincho para resgate de automóveis. Para os amigos mais espirituosos do quarteto, além do sangue, eles tem em comum outra particularidade que os une ainda mais. “Esses marmanjos são ligados também pelo cheiro do óleo, da gasolina e da graxa desde o tempo dos profetas barbudos,” brinca Martinho Meurer ao comentar a longa trajetória dos quatro filhos de Sílvio na oficina São Cristóvão.
O comentário bem humorado de Martinho e de outros moradores do América faz sentido. Os quatro irmãos estão em atividade na oficina São Cristóvão desde o verdor da puberdade e por isso, somando o tempo de serviço de cada um deles, Edson (38), Cesar (35), Carlito (32), e João Paulo (10) chega-se à marca de 115 anos debaixo do teto da empresa fundada pelo pai.
Aos 75 anos de idade, o patriarca Sílvio faleceu no dia 18 de outubro. Semanas antes, ao ser entrevistado pelo ND, ele se mostrou extremamente orgulhoso do comportamento dos filhos. “Fiz minha parte, peguei um por um pela mão e os trouxe para cá quando eles nem tinham sombra de barba na cara. Foi desse jeito que eles se acostumaram a trabalhar e a gostar da oficina e por isso hoje posso dormir tranqüilo, pois eles estão dando continuidade ao negócio da família,” assinalou o popular mecânico.
Os quatro filhos ocupam cargos estratégicos na empresa São Cristóvão, especializada em mecânica, lataria, pintura e eletricidade. Edson é o encarregado da parte mecânica; Cesar, da recepção e da supervisão da oficina; Carlito, do setor de venda de peças usadas e, João Paulo, da parte administrativa. “Filho de tigre nasce pintado. Eles aprenderam comigo e com o tempo souberam aperfeiçoar as coisas neste projeto que coloquei em prática para garantir união e progresso da família,” enfatizou Sílvio.

 

Fiz minha parte, peguei um por um pela mão e os trouxe para cá quando eles nem tinham sombra de barba na cara. Foi desse jeito que eles se acostumaram a trabalhar e a gostar da oficina e por isso hoje posso dormir tranqüilo, pois eles estão dando continuidade ao negócio da família.”
Sílvio Niehues

 

Dominó, futebol e pescaria
Todos casados e zelosos no encaminhamento dos filhos, os irmãos Niehues gostam de se reunir vez por outra fora do trabalho para um suculento churrasco em família. No mais, cada um tem sua preferência de lazer. Edson, o mais velho, não dispensa uma rodada de dominó com os amigos. Cesar e Carlito se divertem correndo atrás da bola, enquanto que João Paulo, o caçula, também dá seus dribles, mas nunca fica longe dos equipamentos de pesca, como molinetes, sua paixão número um fora do ambiente de trabalho. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)

 


Arte pelo corpo

Tatuagens. Estúdio defende a aplicação de desenhos também como forma de valorizar o corpo e resgatar a autoestima
Fabrizio Motta/ND
Adepto. Fabiano no ambiente colorido da Tendence Tattoo

 

  

Estigmatizada e relacionada a comportamento antissocial, a tatuagem emergiu para a arte, a “arte viva” como preferem os seus seguidores. Fabiano de Amorin, 40 anos, tatuador e tatuado, é um dos milhares de adeptos desse modo de ser. “Nós fazemos três tatuagens por dia, em média, cujas sessões de trabalho demandam, no mínimo, duas horas,” observa, avaliando o aumento da procura pelos joinvilenses. “Somente no Centro da cidade existem 15 estúdios, mais os localizados pelos bairros.”
Fábio fez sua primeira tatuagem em 1991 quando servia na 1ª Cia do 63° Batalhão de Infantaria de Florianópolis. “Era um Coringa, que foi recoberto.” Assim que deu baixa no serviço militar, tratou de colocar em prática sua vontade e abraçou a profissão de motorista de caminhão. Depois de percorrer boa parte do Brasil, em 1996, juntamente com a mulher Luciana, a irmã Gionava Amorin e o amigo Army (considerado o primeiro tatuador de Joinville), foi para Fortaleza, capital do Ceará, e instalou-se na praia de Iracema. Ali, a equipe abriu o estúdio Marissales Tattoo.
Logo a mulher ficou grávida e o casal decidiu retornar para Joinville e reabriu a Marissales Tattoo, na rua Henrique Meyer, onde permaneceram até o ano passado. Uma nova mudança logo se fez necessário tanto de endereço, como visual e atendimento. Surgiu, então, a Tendence Tattoo, na rua Dr. João Colin. Ali, além das famosas tatoos a equipe aplica body piercer.
Em um ambiente muito colorido desenvolvem um trabalho que ultrapassa as fronteiras da arte. “Há pouco tempo recebemos uma cliente que só usava sapatos fechados porque não gostava do tamanho de seus pés e veio até nós em busca de alguma solução. Depois de uma longa conversa, desenhamos duas tattoos exclusivas. Ela entrou aqui como cliente e saiu nossa amiga,” resume. Outro caso curioso foi o de uma cliente que precisou reconstituir, por meio da tatoo, as sombrancelhas que havia perdido em decorrência de processo químico.  “Foi emocionante ver a satisfação dessa cliente. Sua autoestima foi lá em cima.”
A irmã Giovana faz questão de ressaltar o aspecto artístico da tatuagem. “Buscamos formação e qualificação o tempo todo. Um de nossos tatuadores é formado em artes visuais pela Univille e temos um formando trabalhando com a gente.” Como os produtos e equipamentos evoluem rapidamente, principalmente as tintas, eles trabalham muito com a recobertura (cover up). “A tatuagem é irreversível. Tem gente que se arrepende do trabalho ou deseja atualizar. Por meio do processo full-collor, recobrimos e fazemos uma nova tattoo sobre a anterior. As pessoas sempre ficam satisfeitas.” Orgulhosa, Giovana vai mostrando suas tatuagens e relatando a história de cada uma. Fabiano tem 22 pelo corpo, duas delas feitas pelos filhos Haamiah e Juan Ramires. Pergunto se ele pretende fazer mais alguma. “Enquanto tiver pele branca, vou cobrindo tudo. Já estou trabalhando em cima de mais uma para logo, logo.”

 

“Enquanto tiver pele branca, vou cobrindo tudo.”

 

Uma marca individual
Tatuagem, tatouage, tattow ou tattoo, em qualquer idioma significa o ato de colorir ou pigmentar a pele: a dermopigmentação. De origem quase ancestral, os primeiros registros arqueológicos envolvendo essa prática remontam ao período de 4 mil a 2 mil a.C. no antigo Egito. Inicialmente, era uma prática relacionada à religiosidade entre os povos mais antigos. Há registros de sua existência entre os nativos da Polinésia, Filipinas e Nova Zelândia. Sua prática era bastante difundida entre os povos orientais. Elas teriam chegado ao ocidente por intermédio do capitão James Cook. Em pouco tempo os seus marinheiros adotaram a tatuagem, contribuindo para a sua propagação. Em 1879, o governo inglês passou a marcar/numerar seus presos com a técnica e seria dali que originou a “má fama” das tatuagens, taxada de “coisa de bandido”. Prática então difundida pelo mundo, foi durante a 2ª Guerra Mundial, por intermédios dos soldados americanos, que elas se popularizaram. No Brasil o fenômeno chegou de forma marcante a partir dos anos 60. (Valter F. Bustos, especial para o Notícias do Dia)


Família que trabalha unida...

Dedicação. Salvelino Pavesi construiu uma carreira de 40 anos na Tupy
Rogério Souza JR/ND
Em casa e no trabalho. Salvelino Francisco Pavesi e seus filhos Cristiano (de amarelo) e Reginaldo

 

...permanece unida. O ditado nunca foi tão adequado quanto para definir o sentimento de harmonia que une a família de Salvelino Francisco Pavesi e seus filhos Cristiano e Reginaldo. Juntos, eles somam quase 70 anos dedicados à Fundição Tupy. E mais: pai e filhos vêm construindo uma carreira no mesmo setor, a usinagem. “A Tupy é praticamente minha segunda casa. Graças à empresa, pude dar o necessário conforto à família e encaminhar bem os meus filhos na vida”, diz Salvelino, homem de poucas palavras mas orgulhoso de suas origens na roça e da dedicação ao trabalho. Ele foi um dos 14 funcionários homenageados neste ano, por completar 40 anos de trabalho na empresa.
A história de Salvelino começou há 62 anos em Vidal Ramos, no Vale do Itajaí, onde nasceu. Penúltimo de oito irmãos, passou a infância na lavoura, de onde a família tirava o sustento. “Trabalhei na roça até os 20 anos, tive só o estudo básico, mas sempre pensava em buscar algo melhor”, diz Salvelino, que não titubeou quando o irmão Eval o convidou a vir morar com ele em Joinville. Arrumou a trouxinha e se mudou para a então fervilhante Manchester Catarinense, onde a oferta de mão-de-obra era abundante, resultado de uma rápida expansão industrial. Trabalhando na Tigre, foi para lá que Eval Pavesi levou o mano. Por pouco tempo, porém. “A Hansen era uma ótima empresa, mas eu não via muita perspectiva no trabalho que fazia lá. Um ano depois, saí e fui para a Tupy. Naquele tempo, só ficava desempregado em Joinville quem quisesse, pois emprego não faltava”, garante Salvelino, que ingressava na usinagem no dia 27 de março de 1972. “O gerente era o Plínio Ribas,” acrescenta, grato ao primeiro superior e a todos que, de alguma forma, deram apoio para que ele fizesse uma longa carreira na empresa.

 

 “Trabalhei na roça até os 20 anos, tive só o estudo básico, mas sempre pensava em buscar algo melhor.”

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Na fábrica. Salvelino trabalhando no torno, nos primeiros de Tupy

 

Os filhos do Pavesi
A certeza de que encontrara um caminho sólido era tanta que apenas dois meses depois de ingressar na Tupy Salvelino já comprava um terreno no bairro Iririú, na mesma rua Deputado Lauro Carneiro de Loyola em que mora até hoje, ao lado do cemitério São Sebastião. “Aqui só tinha rua de chão, nem calçamento com paralelepípedo havia.” A proximidade com o campo santo nunca incomodou: “A gente só sabia que tinha o cemitério ali quando, à noite, alguém acendia alguma vela num despacho,” brinca.
Como o templo religioso mais próximo era da Assembleia de Deus, foi lá que Salvelino conheceu Marionete. Os dois se apaixonaram e casaram-se em outubro de 1973 – neste sábado, comemoram as bodas de mármore, 39 anos de vida a dois. Construíram a casa onde moram e da união vieram os filhos Cristiano, hoje com 38 anos, e Reginaldo, 32 – além da filha adotiva Carolina, de 13. O mais velho tem 19 anos de Tupy e, o mais novo, uma década. Todos são muito queridos na usinagem, tanto que no ano passado a área fez sua tradicional gincana da qualidade e um dos grupos participantes foi batizado de “Filhos do Pavesi”. O grupo, por sinal, ganhou a gincana.
Afastado no momento para tratamento de saúde, já aposentado por tempo de serviço, Salvelino ainda pretende voltar a trabalhar. “Que nada, já trabalhou o suficiente!”, interpelam quase em coro a mulher e os filhos. Se for voto vencido mesmo, Salvelino vai ter mais tempo para se dedicar aos três netos. Dois deles, Vinícius, 10, e Gabriel, 12, terão uma torcida especial para, quem sabe, um dia vestirem as camisas do JEC ou do Santos, outras duas paixões do vovô.


O jeito Alice de viver

A serviço da beleza. Mãe de seis filhos, cabeleireira viveu os percalços do confisco das poupanças e soube dar a volta por cima
Carlos Junior/ND
Estética. Alice aprendeu a cortar cabelos ainda menina e hoje tem boa clientela, instalada no bairro Vila Nova

 

Acentuado número de brasileiros enfrentou maus bocados financeiros a partir do momento que o governo Collor fez drástico confisco do dinheiro depositado na rede bancária, em 1990. Muitos, de tão atingidos pela medida, chegaram a falir. Foi o caso da cabeleireira Alice Gonçalves de Lima, na época dona de um salão de beleza localizado no centro de Joinville. Ela lembra que de uma hora para outra a freguesia ficou com os bolsos murchos e o salão esvaziou. “Com o movimento reduzido em mais de 80% não tive mais condições de pagar o aluguel do imóvel e acabei quebrando,” resume.
Para dar a volta por cima, Alice arrumou então serviço de camareira de hotel, onde durante seis anos trabalhou no período da manhã. “De tarde atendia algumas freguesas de cabelo e manicure na sala da minha casa e, assim, com o tempo, voltei a equilibrar as finanças entortadas pelo Collor e pela Zélia Cardoso,” recorda bem humorada, citando a então ministro da Fazenda.
Depois da fase de camareira, Alice voltou a ganhar o sustento exclusivamente como cabeleireira, atividade na qual está há 45 anos. “Comecei nesse ofício com 11 anos e nunca parei de vez, nem mesmo no tempo do Collor. É por isso que tenho tanto tempo de janela no ramo”, assinala.
Atualmente Alice é dona de um pequeno salão no prédio da Petisqueira Cercal, um dos pontos de lazer mais concorridos do bairro Vila Nova.  Ela faz o atendimento só na parte da tarde por preferir trabalhar de manhã na casa de uma filha, onde cuida dos netos e prepara o almoço da família. “Mesmo trabalhando só à tarde o movimento é bom, dá para ir levando o barco com tranqüilidade,” salienta. A cabeleireira conta que cerca de 60% da freguesia da atualidade é composta por homens que a procuram para cortar cabelo. “Aos poucos está crescendo o número de marmanjos mais vaidosos, que pedem para dar um trato em suas unhas também,” deixa escapar sem conter a risada.

 

“Comecei nesse ofício com 11 anos e nunca parei de vez, nem mesmo no tempo do Collor. É por isso que tenho tanto tempo de janela no ramo.”

 

Perdidamente apaixonada por Joinville
Nascida em Canoas, na grande Porto Alegre, Alice mudou-se para Joinville há 24 anos com seis filhos pequenos. Ela optou por Joinville por ter guardado na memória as belas imagens da Serra do Mar, na região do bairro Vila Nova, onde ela estivera alguns anos antes com o marido para entregar um carga de telhas. “Ao me lembrar daquelas imagens e do sossego do lugar, decidi vir para cá a fim de superar o drama da separação e ao mesmo tempo garantir um lugar tranqüilo para criar os filhos,” enfatiza.
Com uma ponta de orgulho, Alice conta que a profissão de cabeleireira foi fundamental para ela acabar de criar os filhos sozinha. Avó 12 vezes, ela se declara perdidamente apaixonada por Joinville. “Se alguém fala mal da cidade, está querendo encrenca comigo. Gosto de Canoas, gosto do Rio Grande do Sul, mas Joinville é Joinville, um pedaço de chão abençoado que me deu a oportunidade de criar a família com dignidade,” enfatiza a veterana cabeleireira.  (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Sempre com a mão na massa

Tradição. Tio Ba aprendeu o ofício de padeiro com 10 anos de idade
Rogerio Souza Jr/ND
Doce tradição. Oswaldo, a mulher Marlete e a filha Janaína cuidam da unidade do Glória

 

Quando se diz que Oswaldo Burini “põe a mão na massa”, a expressão pode ser entendida tanto no sentido figurado quanto no literal. Afinal, padeiro por formação, ainda hoje, quando necessário, o proprietário da Confeitaria 15 vai para a produção, ajudando a elaborar os pãezinhos que tornaram o estabelecimento uma referência em panificação e confeitaria em Joinville. “Levanto todos os dias às quatro e meia da manhã, pois preciso me certificar que a clientela vai encontrar tudo que precisa, com a qualidade da qual não abrimos mão”, diz Oswaldo.
Chamado por muitos de Tio Ba, desconhece a origem do apelido, que vem de casa, mas conhece a maioria dos clientes pelo nome. “Tenho fregueses antigos, que chegam a atravessar a cidade só para comprar nosso pão d’água”, afirma Oswaldo, garantindo que há, sim, diferença entre os pães francês e d’água. “Cada um é assado de forma própria, o que muda o sabor. É por isso que nunca deixamos de produzir o pão d’água, mesmo sendo mais elaborado.”
Joinvilense, nascido e criado no Glória, Oswaldo teve uma infância dividida entre a escola, brincadeiras ao ar livre e o trabalho. “Joguei muita bola nos campinhos por aqui, comi goiaba até me fartar, tomei banho de rio e comecei a trabalhar cedo”, conta ele, que aos 10 anos já trabalhava para a Padaria Curitibana, entregando pão de bicicleta pela cidade. Oswaldo ia a pé até a padaria, que ficava na esquina das ruas João e Max Colin, onde hoje está a Milium. À tarde, frequentava as aulas numa escola estadual. Oswaldo continuou no emprego quando a Curitibana foi adquirida pela Panificadora Kibeleza, e foi aí que aprendeu o ofício de padeiro. “O patrão levava os funcionários até Blumenau, onde havia um curso de panificação. Fiquei 15 anos na Kibeleza e ali formamos uma freguesia fiel, com pessoas como Alfredo Salfer, Wittich Freitag, João Hansen e muitos outros que recebiam as encomendas fresquinhas em casa e pagavam no fim do mês.”

 

 “Tenho fregueses antigos, que chegam a atravessar a cidade só para comprar nosso pão d’água.”

 

Enfim, o negócio próprio
Já com uma boa experiência no segmento da panificação, em 1979 Oswaldo e um amigo arrendaram a tradicional Confeitaria Dietrich, na esquina das ruas do Príncipe e Princesa Isabel. Mas a sociedade durou apenas até 1981, quando Tio Ba investiu todas as economias e comprou a Confeitaria 15, fundada em 1964 por Ingo Burchardt. “A confeitaria começou num casarão antigo da rua 15 de Novembro. Quando compramos, funcionava na 9 de Março, onde hoje está a sede da agência de turismo Olimpiatur. Depois passamos para a Visconde e tivemos uma filial na Benjamin Constant, até 1985, quando abrimos a da rua 15”, relata Oswaldo, que mora com a esposa Marlete no piso superior da filial da 15 de Novembro, próximo da rótula com as ruas Marechal Hermes e Colon. Ali, além do casal, trabalha a filha Janaína, enquanto o filho Jean fica na matriz, na rua Visconde de Taunay.No total, são 60 funcionários nas duas unidades, famosas não só pelos pães, mas também pelos bolos, tortas e strudels que a tornaram preferida de tanta gente na cidade e fora, como diz o Tio Ba: “Temos muitos fregueses de Curitiba, que quando vão à praia passam antes por aqui para pegar suas encomendas”. E logo emenda: “Primamos pela qualidade de nossos produtos, serviços e atendimento, pois nossa melhor propaganda é o freguês satisfeito.”

 

Serviço | Onde encontrar
Confeitaria 15
Para fazer encomendas: no site confeitariaxv.com.br  ou telefone 3433-1314 ou 3422-2675
As unidades dispõem de salões para quem prefere fazer seu café lá mesmo.

 

Perfil sugerido pela leitora Mila Ramos.


O bairro América como um quintal

Memória. No final da primeira metade do século passado, Esther Hoepfener brincava e trabalhava no sítio localizado onde hoje passa a Timbó

Rogerio Souza Jr/ND

Disposição. Esther ainda mora na casa que ajudou a construir, quando menina, e ocupa parte do tempo entre cultiva o jardim e alimentar os passarinhos

 

Em 1940, menina de nove anos de idade dividia o tempo entre os estudos no colégio Germano Timm e o trabalho como ajudante de pedreiro na construção de uma casa de dois pavimentos na rua Jaraguá. No começo da década de 1950, já moça esguia e formosa, ela participava de bailes no Clube Cruzeiro, de onde saia no raiar do dia para a quadra de esportes a fim de jogar basquete com um grupo de amigas dançadoras como ela. Se a maré estivesse alta, depois do jogo, de quebra, as espevitadas atletas aproveitavam para tomar banho no rio Cachoeira, na época um belo manancial de água límpida e agradável cheiro de maresia.
Esses são alguns detalhes marcantes da biografia de Esther Gisela Hoepfener, divertida senhora de 81 anos de idade. Dona de uma disposição invejável, hoje ela aproveita o tempo para cultivar flores e tratar passarinhos nos arredores da casa que ajudou a erguer com tijolos maciços rebocados com uma mistura de barro, areia e cal. “Naquela época, cimento era uma raridade pouco usada até pelos mais endinheirados,” recorda bem humorada.
Nascida pertinho do casarão que ajudou a construir, dona Esther cresceu atrás do balcão de um comércio de secos e molhados e de um salão de bailes pertencentes ao seu pai, Paulo Boehm. “O prédio ficava na esquina da rua Jaraguá com a Max Colin e era muito movimentado. No tempo que as sociedades Glória e Lírica ainda não tinham sedes próprias, alugavam o salão para realizar seus bailes,” relembra.
Com saudade daquelas memoráveis noitadas, dona Esther conta que os bailes começavam cedo e varavam a noite. “Tinha gente que jantava duas vezes e rebatia tudo com um reforçado café colonial. Eu ajudava a servir a comida e a bebida e por isso guardo tudo na memória bem vivo,” assinala entre risadas.
Paralelamente às atividades no comércio, ela cansou de tirar leite de vacas e tratar porcos numa propriedade da família localizada onde hoje passa a rua Timbó. Nesse vai-vem entre o comércio e a granja, Esther conheceu Hercílio Hoepfener, com o qual se casou e teve três filhos: Clóvis (médico cardiologista), Almir (engenheiro civil) e Hercílio Junior (médico geriatra), dos quais ganhou cinco netas e dois netos. Bisavó de um casal de pequerruchos, espirituosa, avisa que está esperando por outros rebentos.

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND

Álbum. Esther aos 16 anos

 

“O meu Hercílio foi diretor e até presidente do clube. Fizemos muitas churrascadas que garantiram o dinheiro para erguer a maior parte das muralhas que cercam o Ernestão.”

 

Torcedora fanática do Caxias
Dona Esther teve também passagem marcante no futebol da cidade. Apesar de nascida na zona Norte (reduto do América) ela torcia pelo Caxias (o manda chuva da zona Sul). “Divertidas eram as discussões com vizinhos americanos,” diz entortando-se de tanto rir.
Além de torcedora, Esther acompanhou o marido em ações em prol do fortalecimento do Caxias.  “O meu Hercílio foi diretor e até presidente do clube. Foi nesse tempo que me juntei a um grupo de torcedores, entre eles o inesquecível Airton Braga. Fizemos muitas churrascadas que garantiram o dinheiro para erguer a maior parte das muralhas que cercam o Ernestão.”

  

Maionese especial para passarinhos
Viúva há pouco mais de dois anos, dona Esther mora sozinha e costuma encantar as visitas com sua veia humorística inesgotável. Ela gosta de contar que durante a semana trata os passarinhos que moram nas ramadas das árvores que sombreiam os arredores do casarão com arroz quebrado e bananas. “Aos domingos faço um agradozinho especial. Eles ganham abacate e mamão. É a maionese dessa turminha que me deixa alegre todos os dias,” dispara sem conter uma risadinha que ilustra seu espírito deliciosamente sapeca.  (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)  


Cesta de três pontos

Atleta. Rita de Cassia Rigobelo Matta é uma vencedora dentro e fora das quadras
Fabrício Porto/ND
Só por lazer. Na quadra do Parque da Cidade, Rita recorda os tempos em que jogou basquete em São Paulo e participou dos Jogos Abertos defendendo Florianópolis e  Joinville

 

 

“Receio que tudo o que tenhamos feitos hoje foi despertar um gigante e enchê-lo de indignação.” Essas palavras foram proferidas pelo comandante-chefe da Marinha Real Japonesa, Isokuru Yamamoto, após o ataque a Pearl Harbor em 7 de dezembro de 1941. Essa contundente frase se aplica em partes à Rita de Cassia Rigobelo Matta, natural de Adamantina (SP), nascida em 14 de janeiro de 1962. Ela é a mais velha das três filhas do casal Wilson Matta e Maria do Carmo Rigobelo. Sob a influência do pai, praticante amador de várias modalidades, cada menina teve a liberdade de escolher e praticar um esporte. De estatura mediana, e esse foi o desafio, Rita escolheu o basquete, ainda muito nova. As dificuldades e a exigência de muito esforço nos treinamentos acabaram por despertar em Rita de Cassia o “gigante adormecido”.
Sempre atuando nos times de base das escolas por onde passou – e foram tantas porque seu pai trabalhava no Banespa e mudavam-se com frequência de uma cidade para outra -, aplicava-se nos estudos e ao basquete. Dos 14 aos 30 anos de idade atuou como profissional marcando passagens por vários clubes paulistas, com destaque para a Prudentina onde ingressou em 1979 juntamente com a irmã, Jussara, e logo foram convocadas para a Seleção Brasileira de juvenis em 1980.
Mas nenhuma delas vestiu o uniforme verde e amarelo; dias antes da apresentação sofreram um acidente de carro. Rita quebrou um braço e Jussara precisou de internação hospitalar. Por essa razão passram longe das quadras por algum tempo e Jussara ficou fora do mundial. Após retornarem às quadras pela Prudentina, foram campeãs ao vencerem todos os jogos do regional, estadual, jogos abertos (juvenil e adulto).  “Esse tempo foi maravilhoso e fiz muitos amigos,” recorda.
Ela se refere a uma grande amizade conquistada nas quadras com a jogadora Hortência, contratada pelo time de 1979 a 1982. “Nessa fase a Prudentina ganhava tudo e não sobrava para ninguém,” afirma Rita com satisfação. Ela recorda que depois dos treinos coletivos, Hortência treinava arremessos sozinha. “Ela pagava um menino só para pegar e devolver as bolas. Em média, ela fazia mil arremessos pela manhã e à tarde. Era impressionante.” No período de 1982 a 1990, o pai foi o diretor da Prudentina, o que aumentava a responsabilidade das meninas. “No basquete não tem moleza e você tem duas opções: é jogar e jogar.” Ela sorri ao lembrar que jogou e ficou amiga da não menos encantadora Magic Paula, da Unimep de Piracicaba, em partidas muito disputadas e sempre com a presença de grande público.
E foi jogando na liga profissional, em 1982, que Ritta de Cássia teve seu primeiro contato com Santa Catarina. Convidada pela UFSC (Universidade Federal), foi a armadora da equipe em 1983 e 84 e participou dos Jogos Abertos (Jasc). O time estava com a “taça nas mãos” naquele ano quando ocorreu a enchente do rio Itajaí-açu e provocou o maior alagamento da história de Blumenau, o que levou ao cancelamento dos jogos. Depois de um breve retorno aos times paulistas, foi convidada para jogar na equipe daTigre, pelo técnico Renato Cassou, um amigo da época da Prudentina. Ela jogou de 1987 a 1991 em Joinville, ampliando ainda mais suas conquistas e projetando o basquete da Tigre no cenário nacional. “Fomos pentacampeãs no estadual, tricampeãs  do Jasc, bicampeãs no Sulamericano de Basquete e terceiro colocado no Brasileiro de Seleções,” enumera orgulhosa.

 

“Fomos pentacampeãs no estadual, tricampeãs do Jasc, bicampeãs no Sulamericano de Basquete e terceiro colocado no Brasileiro de Seleções.”

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Recordação: no Brasileiro de Masters, entre 2007 e 2008, Rita (camisa 5) reencontrou a amiga Magic Paula (à direita)

 

Das quadras para a logística
Formada desde os 21 anos de idade em educação física pelo antigo Imesp (Instituto Municipal de Ensino Superior de Presidente Prudente), hoje Unesp, ela conta que nunca chegou exercer o magistério. Essa dedicação ao esporte teve um custo. Com três hérnias de disco, parou de jogar profissionalmente em 1992. Chegou a participar de duas edições do Brasileiro de Masters, onde reencontrou as amigas Hortência e Magic Paula, em 2007 e 2008.
Concursada, é funcionária efetiva da Secretaria Municipal de Educação desde 1987, onde atua na área de logística atendendo aos 52 CEIs (centros de educação infantil) e 89 escolas da rede de ensino. Para manter-se em forma, frequenta academia e faz caminhadas todos os dias. Sua irmã e companheira de time, Jussara, é casada com Paulo Trevisan, que dirige o “Wall Street Journal” e vive há anos nos Estados Unidos. Ao finalizar a conversa, pergunto se valeu e toparia fazer tudo novamente: “Com certeza, faria tudo do mesmo jeito, porque o basquete é parte de minha vida.” (Valter F. Bustos, especial para o Notícias do Dia)


A arte supera a dor

Renascimento. Adão Barbosa retoma a carreira depois de dois AVCs

Foto e Reprodução Luciano Moraes/ND

Reconhecido. Adão Barbosa participou da exposição “Inspirações Brasileiras: Arte para a Vida”, realizada na primeira quinzena do mês, em Brasília, parte da programação do Congresso Mundial de AVC

 

"Se o grande artista Aleijadinho se superava atando as ferramentas nas mãos, não é um derrame que vai me impedir de continuar exercendo minha arte. Mesmo que me custe algumas marteladas na mão.” É assim, inspirado no escultor baiano e maior expressão da arte barroca, que o catarinense Adão Barbosa vai superando as limitações de não apenas um, mas dois acidentes vasculares cerebrais, que o levaram, como diz, “para a fila” duas vezes.
Artista reconhecido em Joinville, onde chegou no início dos anos 70, quando o movimento artístico local fervilhava, Adão, 52 anos, enfrenta as sequelas que os dois AVCs deixaram, especialmente na mão esquerda e nas pernas, o que o obriga a utilizar uma muleta para se locomover. As dificuldades, porém, não o impediram de participar da exposição “Inspirações Brasileiras: Arte para a Vida”, realizada de 10 a 13 de outubro em Brasília.
Parte da programação do Congresso Mundial de AVC, a exposição reuniu oito artistas plásticos brasileiros e de outros países, todos tendo em comum a superação de derrames cerebrais. Entre os organizadores estava a médica joinvilense Carla Heloisa Cabral Moro, criadora da unidade de AVC do Hospital São José e responsável pelo convite a Adão Barbosa (Carla foi perfil do ND em fevereiro deste ano).
Natural de Rio do Sul, Adão Barbosa teve a vocação despertada para a arte logo cedo, ainda na escola, onde se destacava em desenho. “Em vez de prestar atenção nas aulas, eu ficava desenhando a professora”, lembra, admitindo que não era um exemplo de bom aluno. Empolgado com a escultura, estava decidido a ser artista, mas logo de cara enfrentou a contrariedade da mãe. “Ela dizia que eu jamais conseguiria sobreviver da escultura.” A negativa materna, porém, não impediu que Adão fosse buscando aperfeiçoamento na escultura, sempre de forma autodidata, trabalhando inicialmente a madeira.

 

“Fui o primeiro artista a expor em vitrinas de lojas, ao lado de manequins e peças de vestuário.”

 

Amostra. As esculturas “Cavalos” e “Aconchego” (abaixo), produzidas antes dos AVCs
 

 

Carreira em Joinville
Em meados dos anos 70, Joinville era uma referência no movimento artístico catarinense, o que acabou convencendo Adão Barbosa a mudar de ares. Conheceu os artistas locais – “Sempre fui um grande admirador do Hamilton Machado” –, integrou-se ao movimento, aprendeu novas técnicas e chegou a participar de diversas edições da Coletiva de Artistas, além de exposições individuais no país e em vizinhos sul-americanos. Também foi inovador: “Fui o primeiro artista a expor em vitrinas de lojas, ao lado de manequins e peças de vestuário.”
Enfim, contrariando a previsão da mãe, Adão Barbosa fez da escultura seu meio de vida. Deu uma parada em 2008, por motivos pessoais. Dois anos depois, porém, retomava a escultura, como receita de terapia ocupacional, após sofrer o primeiro AVC, em novembro de 2010. “Cheguei a ter 1% de expectativa de sobrevivência. Já estava na fila para o céu, quando decidi que ainda não era a hora.” Quando começava a se recuperar, novo derrame, em outubro do ano passado. Novamente, a vontade de viver foi mais forte: “Saí da fila de novo”. Quando se recuperava, Adão viu uma obra de arte adornando a ala de AVC do São José: era a escultura “Cavalos”, feita por ele alguns anos antes.
Aos problemas de saúde somou-se o fim do casamento. Hoje morando num pequeno apartamento, Adão planeja a mudança para uma casa no Itinga, onde vai montar seu ateliê, o “rancho do escultor”. O nome oficial, porém, será outro: “Vai se chamar Refúgio do Ícaro, um lugar onde o sol é ardente e não derrete a cera.”

 


Sonho se realiza aos 65 anos

Pela comunidade. Bete é um exemplo de obstinação na luta por ideais

 

 

Fabrício Porto/ND
Obstinada. Na igreja da  da Paróquia São João Batista, Bete coordenou grupo de jovens, foi catequista de crisma e primeira comunhão, além de participar do coral

 

Filha de professor, Ana Beatriz Weber Moecke também sonhava com o dia em que vestiria um guarda-pó e ensinaria crianças a ler e escrever. Porém, a necessidade de ajudar no sustento da família, trabalhando na roça, a tirou cedo dos bancos escolares, onde conseguiu chegar apenas até o 4º ano primário. Mas o sonho ficou lá no íntimo, aguardando o momento de se transformar em realidade. E isto ocorreu no dia 20 de outubro passado, quando Ana Beatriz ganhou seu certificado no curso de pedagogia, aos 65 anos de idade.
Mais conhecida em Garuva, onde mora há mais de três décadas, como Bete dos Idosos, ainda pretende voltar a dar aulas, paralelamente ao voluntariado que pratica desde a juventude. E por que Bete, em vez de Ana ou Bia? “Os irmãos me chamavam assim desde que eu era pequena, e acabou ficando.” E quanto ao complemento “dos Idosos”, a que se deve? “Aqui no bairro tem quatro Betes, então cada uma ganhou um apelido. Como um dos meus trabalhos comunitários é com um grupo da terceira idade, fiquei com esse.” E foi como Bete dos Idosos que ela se candidatou neste ano, pela primeira vez, a vereadora. A votação foi insuficiente para elegê-la, mas não para desanimá-la: “Vou continuar fazendo meu trabalho junto aos idosos, na catequese e, se tudo correr bem, dando aulas”.
Décima-primeira de uma prole de 14 filhos, Bete nasceu em 1947 em Irineópolis, na época um distrito do município de Porto União. “Criei-me na roça, na localidade de Timbozinho, e precisei trabalhar com 11 ou 12 anos, o que só permitiu estudar até a 4ª série. Logo em seguida fomos morar em Ponta Grossa, onde me casei e tive três filhos. O mais velho faleceu num acidente de trânsito aos 18 anos”, conta Bete, ainda hoje, 25 anos depois, se emocionando ao lembrar-se do filho. Das duas filhas, Adriane – também formada em Pedagogia – é sua vizinha e Jacqueline mora em Joinville.

 

 “Vou continuar fazendo meu trabalho junto aos idosos, na catequese e, se tudo correr bem, dando aulas”.

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
A conquista do diploma em pedagogia

 

Trabalho pela comunidade
Já que não havia conseguido ser professora, Bete elegeu o trabalho voluntário como forma de ser útil à sociedade. Começou em Ponta Grossa, dando aulas de religião no Instituto de Educação para turmas de 4ª e 5ª séries. Em Garuva, onde chegou em julho de 1980, logo se envolveu em atividades comunitárias, coordenando o grupo de jovens da Paróquia São João Batista, onde também foi catequista de crisma e primeira comunhão, além de participar do coral. Em 1983 teve a oportunidade de trabalhar pela sua cidade-natal, como voluntária na arrecadação de donativos e na confecção de cobertas para as vítimas da grande enchente que assolou Santa Catarina. Graças a esse esforço, a cidade de Garuva foi reconhecida como “madrinha” de Porto União.
O currículo comunitário de Bete é extenso: foi secretária da Paróquia São João Batista; presidente da Associação de Pais e Amigos do Menor; professora de dança sênior para os idosos; presidente da Associação dos Idosos - Grupo Amizade Feliz; membro dos Conselhos Municipais da Criança e do Adolescente e de Assistência Social e presidente da comissão de implantação do Conselho do Idoso.
Há 15 anos, aos 55 de idade, voltou a estudar. “Fiz os supletivos de primeiro e segundo graus e o magistério, ainda sonhando em ser professora.” O sonho, enfim, começou a se realizar quando passou a dar aulas de música e arte em escolas da rede municipal de ensino, como ACT (admitida em caráter temporário). No dia 20 de outubro, enfim, graduou-se em pedagogia pelo Centro Universitário Uninter (polo de Garuva). Agora, a meta é tentar voltar à sala de aula, como ACT, e aguardar concurso público para ser efetivada. “Quero ser conhecida como professora Bete”, conclui.


Lição de perserverança

Aprendizado. O ND voltou à Escola Ada Sant’Anna para ver como está a aluna Tereza Marinho, de 63 anos
Carlos Junior/ND
5a à 8a séries. Na turma que começou com 42 alunos, no início do ano, Tereza está entre os 20 que continuam firmes no curso

 

Aos 63 anos, a zeladora Tereza Marinho está longe da típica figura de garotinha colegial, a não ser, nota-se, pela baixa estatura, característica que a faria se confundir facilmente em meio a alunos de um 5º ano, por exemplo. A aplicação e o esforço nos estudos, porém, são dignos de um CDF, ou até mais, considerando que os CDFs não costumam ter a vivacidade, o entusiasmo e o bom humor de Tereza. Sim, Tereza é estudante e, mais que isso, um exemplo a ser seguido por aqueles que perderam o bonde da escola e se sentem inseguros (ou envergonhados) de voltar às carteiras das salas de aula.
Matriculada no curso do EJA (Educação de Jovens e Adultos), mantido pela Secretaria Municipal de Educação, Tereza é frequentadora assídua das aulas das séries finais (5ª à 8ª) na Escola Municipal Ada Sant’Anna da Silveira, no bairro Paranaguamirim. A diferença entre aluno matriculado e aluno frequentador não é mera nomenclatura. A distância entre os termos se mede com perseverança, adjetivo que a estudante temporã leva junto com seu material desde que decidiu completar os estudos, há três anos.
Na turma que começou com 42 alunos no início do ano, Tereza é um dos 20 que continuam firmes no curso. “Às vezes, penso em desistir”, confessa, sobre uma atitude que está longe de ser tomada. “É muita luta. Tem que ter força de vontade, senão ninguém aguenta”, considera. Para quem passou pela prova de fogo das séries iniciais (1ª à 4ª), fase onde se registram as maiores desistências, cumprir o cronograma para concluir o ensino fundamental é um passo mais leve, mas não menos fácil. “É sempre no esforço, não tem facilidade, mas tenho de aproveitar agora, porque não tive a oportunidade quando era jovem.”
A luta travada de segunda a quinta-feira, das 19 às 22h, já é, por si só, uma vitória. “Não é fácil a gente trabalhar o dia todo, vir estudar e chegar em casa só depois das dez horas da noite”, disse. Vitória também é o nome da cidade natal de Tereza, onde ela viveu a juventude sem ter a chance de poder estudar regularmente. Ajudar os pais na roça era a prioridade. Só depois dos 40 anos, quando já estava em São Paulo, ela frequentou pela primeira vez uma escola, derrubando a barreira do analfabetismo.
Em Joinville há sete anos, Tereza entrou no EJA para completar apenas as séries iniciais mas, como se vê, está dando um passo além. “É bem melhor ter um conhecimento a mais. É horrível quando não se sabe das coisas. Os professores também dão muito incentivo e isso nos faz continuar. É cansativo, mas tem valido a pena. Se desistir agora posso me arrepender depois”, comentou, adiantando que não tem a pretensão de fazer o ensino médio mais tarde. Ao menos, é o que ela diz, por enquanto.

 

"Tenho de aproveitar agora, porque não tive a oportunidade quando era jovem."

 

Chance pela formação estudantil
O programa EJA é destinado para pessas que não concluíram a educação regular na idade própria, permitindo que a formação escolar tenha continuidade, numa medida contra o analfabetismo e a defasagem estudantil, e a favor da inclusão social. As turmas funcionam por meio de aulas presenciais, por telessalas ou por módulos. O regime de extensão, com turmas especiais em unidades prisionais, entidades assistenciais e igrejas, completa o programa.
Na escola onde Tereza estuda, são 120 alunos do EJA, a maioria jovens. As situações de vulnerabilidade social, desestrutura familiar e o próprio receio pessoal em voltar à sala de aula, entre outras condições, favorecem as desistências. Nesse contexto, conforme avalia a coordenadora do EJA no Ada Sant’Anna, a trajetória de Tereza no curso é uma referência. “Ela é um exemplo exatamente por essa perseverança. Pessoas como ela, que levam a sério, vão adiante e terminam o curso. Infelizmente, para muitos, qualquer coisa já é motivo para faltar”, afirmou.

 


27 anos com a bandeja na mão

Garçom. Ainda menino João de Lara deixou o Oeste do Estado em busca de melhores condições de trabalho e foi acolhido em Pirabeiraba
Fabrício Porto/ND
Estrada Bonita. Há pouco mais de um ano, João presta seus serviços no Restaurante Tia Martha

 

 

Com 39 anos de idade, João Vanderlei de Lara já carrega a experiência de garçom veterano e popular no distrito de Pirabeiraba, onde aprendeu o ofício no bar do Pinguim Futebol Clube e fez aperfeiçoamento na Cabana Max-Moppi. Com 27 anos de bandeja na mão, João nasceu na cidade de Caçador, de onde veio para Pirabeiraba trazido pelo irmão Vitio e pelo amigo José Laudir de Oliveira, ambos caçadorenses como ele. “Sabedores que em Caçador emprego estava difícil, os dois me convidaram para tentar a sorte aqui, onde estavam trabalhando. Apesar da época estar só com 12 anos, topei a parada na hora e cá estou até hoje, de onde nunca pretendo sair,” resume bem humorado.
A carreira como garçom começou na mesma semana da chegada na Vila Dona Francisca, onde se estabeleceu em companhia do irmão Vitio. Convidado por Durival Lopes Pereira, João começou atender a clientela do bar Pinguim. Sem conter a risada, ele recorda que por ser um menino xucro do mato, no começo se atrapalhava até para abrir uma garrafa de cerveja. Com o passar das semanas foi pegando o jeito e então começou a se revezar entre os balcões do bar Pinguim e do restaurante Serra Verde, empreendimentos controlados por Durival Lopes Pereira, o seu padrinho. Nesse vai-vem entre os dois estabelecimentos, João trabalhou cinco anos. Em seguida transferiu-se para a Cabana Max-Moppi, de propriedade de Norberto Lütke. “Antes de ir para lá, houve um acerto entre o Durival e o Norberto, o que me deixou feliz porque estava preservando a amizade do ex-patrão e fazendo outra com o novo empregador,” observa.
Na Cabana Max-Moppiforam 20 anos de trabalho, tempo que deu a João a oportunidade de conhecer expressiva parcela da população de Pirabeiraba e de pessoas ilustres no cenário político. “Tive o prazer de servir gente como Luiz Henrique da Silveira, Esperidião Amin, Mauro Mariani, Otair Becker e muitos outros homens públicos,” conta com uma pontinha de orgulho.
Depois de duas décadas no Max-Moppi, João mudou de endereço há um ano e meio ao ir trabalhar no restaurante Tia Martha, no final da Estrada Bonita, onde se encontra até hoje. “O Ivan Celso, que é meu amigo de longa data, ao arrendar o restaurante me convidou para ajudá-lo. Eu não tinha nem como recusar a oferta e por isso estou aqui ao seu lado para o que der e vier.”

 

 “Tive o prazer de servir gente como Luiz Henrique da Silveira, Esperidião Amin, Mauro Mariani, Otair Becker e muitos outros homens públicos.”

 

O caso da piava
Discreto como convém as um bom garçom, João é ao mesmo tempo dono de boa conversa. Às segundas-feiras, ele aproveita o dia de folga para reunir colegas de profissão ao redor de uma churrasqueira ou à beira de um açude de peixes.
Foi num desses encontros que João e mais três colegas quase morreram afogados ao capotar o carro dentro de um lago. Socorridos, eles escaparam barato, apesar de terem bebido um bocado de água barrenta. Um gaiato venenoso espalhou o boato que no dia depois da capotada João vomitou uma piava vivinha da silva de tanto água que ele tinha engolido. Por conta da brincadeira, vez por outra o popular garçom não escapa de ser chamado de João Piava.  (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Um eterno brincalhão

Nos palcos. Teatro ajuda seu Edgar Schatzmann a superar traumas do tempo de preso político
Fabrício Porto/ND
Após o cárcere. Na pele dos personagens, Edgar percorre os bairros de Joinville levando teatro, também uma estratégia de superação

 

Aos 72 anos, mesmo tendo passado por momentos difíceis na vida, ele faz questão de manter o espírito brincalhão. Conta histórias utilizando a habilidade que adquiriu no teatro. Ator há 16 anos e apaixonado por artes cênicas, virou figurinha carimbada na plateia e nos principais palcos da cidade. Com pique de garoto, o Edgar Schatzmann percorre, atualmente, bairros de Joinville e roda o Estado com três apresentações: “Uma festa para Eulália”, “Meu nome é Herbert” e “Mudança”.
Comunista de carteirinha, seu Edgar, como costuma ser chamado, foi filiado ao PCB (Partido Comunista Brasileiro), militou na luta contra a ditadura militar, passou cerca de três anos como preso político e chegou a ser torturado. Hoje, atuar o ajuda a afastar as lembranças do cárcere e superar o trauma. “O teatro me salvou, poderia ter virado um alcoólatra e estar jogado por aí,” conta. Aposentado, trabalhou em algumas empresas de Joinville, teve a própria oficina e foi voluntário por 12 anos no Centro de Valorização da Vida.
O teatro entrou na vida de seu Edgar em 1996, quando o Círculo Operário começou a oferecer cursos. Superando uma série de dificuldades, como timidez e flexibilidade, Schatzmann fez um teste para o grupo de teatro da Univille e foi aprovado, depois de subir ao palco e falar o texto na frente de uma série de concorrentes mais novos. A oportunidade mudou a vida daquele senhor de quase 60 anos. “O teatro joga para fora o que nós temos de ruim, de bloqueio, de timidez, de coisa que nos impede a viver, a conviver com o outro,” constata.
Seu Edgar diz, com orgulho, ser o único a continuar atuando aos 72 anos em Joinville. Segundo ele, muitos homens não participam do teatro porque não conseguem superar os bloqueios e enfrentar as dificuldades. “Convidei os outros presos políticos, mas nenhum quis, parecia o fim do mundo,” lamenta. Por isso, quando algum aparece, “é paparicado”.
Apesar de se considerar num bom nível, para a idade, Schatzmann ainda participa junto com jovens e crianças de aulas de teatro no espaço cultural da Casa do Iririú, para o qual seu Edgar contribui financeiramente. Um dos objetivos, segundo o ator, é ajudar a incentivar os jovens a participarem do teatro. Além disso, ele está sempre no Sesc, Cidadela Cultural Antártica e outros lugares, para assistir à filmes e peças de teatro. “As pessoas brincam dizendo que daqui a pouco vou levar travesseiro para dormir lá,” relata. Ele só considera diminuir as idas ao teatro para dar mais atenção à mulher, Lucia Schnatto Schatzmann, 68, que mora em Balneário Barra do Sul.

 

“O teatro me salvou, poderia ter virado um alcoólatra e estar jogado por aí.”

 

Lembranças do interior de Pirabeiraba
Mas a cultura despertou interesse em seu Edgar quando ele era ainda criança e morava no interior de Pirabeiraba. Os olhos do garoto brilhavam quando o circo chegava à localidade. “Apareciam pessoas de carrocinha, com lona, chamando para o circo e eu gostava muito disso,” lembra. Outro evento que encantava seu Edgar eram os filmes rodados à manivela que o Sesi passava nos bairros do interior de Joinville. “O Cangaceiro” foi a película que mais chamou atenção do então menino Edgar, que ficou intrigado com o senso de justiça de Lampião, tido por muitos como bandido no Nordeste do Brasil. (Alexandre Perger, especial para o Notícias do Dia)


Compromisso com o grupo

Lembranças. Ivo Krelling integrou três gerações do basquete joinvilense
Carlos Junior/ND
Depois de aposentado, a bocha. Ivo participa dos encontros dos ex-atletas do Palmeiras, às segundas-feiras

 

  

“Responsabilidade e comprometimento com o esporte, com a agremiação e com o grupo.” Estes eram, nas palavras de Ivo Krelling, os principais valores a nortear os atletas amadores que praticavam basquete nos áureos tempos do Palmeiras, hoje curtindo a saudade e mantendo o espírito de grupo nos encontros semanais na cancha de bocha do União Palmeiras. Da mesma turma fazem parte Affonso Carlos Kielwagen, o Buba, e Aroldo Strohmeyer, já entrevistados neste espaço nos dois últimos meses.
Nascido em Blumenau em fevereiro de 1945, um mês depois Ivo Krelling se tornava joinvilense, com a mudança da família. Esportista desde criança, acabou optando pelo basquete numa época em que a habilidade era requisito mais importante que a altura. “Comecei no basquete com 11 anos, na Sociedade Ginástica, treinado pelo saudoso Roland Stuart Hoffmann. Logo passei para o Palmeiras, onde o técnico das categorias infantil e juvenil era o grande atleta Nelson Eisenhut, o Mima.” Bom de bola, mesmo ainda juvenil Ivo passou para o time adulto, que vinha de um pentacampeonato estadual. O time era formado por Buba, Birckholz, Beno, Mima, Rato, Santana, Camanga, Indaial e Ivo. “Naquela época éramos todos amadores e mantínhamos sentimentos de responsabilidade e comprometimento pelo clube e pela modalidade. Convivendo com aquele grupo ainda garoto defini meu caráter e a personalidade.”
Ivo tinha em Buba o grande ídolo. “Era o paizão de todos, tanto que eu o chamava de segundo pai, pois muitas vezes me orientou e me segurou”, conta Ivo, conhecido pelo temperamento explosivo em quadra. “Houve um tempo que até a imprensa me considerava um jogador polêmico. Em qualquer disputa, mesmo amistosa, não admitia perder. Se, por um lado, esse temperamento dava a fama de brigão, também foi responsável pelo sucesso que alcancei na carreira.”

 

 “Naquela época éramos todos amadores e mantínhamos sentimentos de responsabilidade e comprometimento pelo clube e pela modalidade.”

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Memória. Placa em homenagem a Ivo, colocada em 1980 quando o Palácio dos Esportes passou a se chamar Ginásio Abel Schulz; embaixo, seleção catarinense de 1975: em pé, Rui, Romeu, Aldinho Kuerten, Ivo e o técnico Machado; agachados, Romualdo, Capitão, André e Ivo Blumenau

 

Coleção de títulos
Entre os muitos títulos no currículo, Ivo guarda com carinho os campeonatos citadinos que costumavam lotar o ginásio Abel Schulz, na época conhecido como Palácio dos Esportes. Ivo integrou três gerações do basquete palmeirense e lamenta o fim de um ciclo áureo quando a terceira geração foi deixando as quadras, sem ser substituída. Pelo time alviverde, ele foi seis vezes campeão estadual, com outros cinco vices.
Dos Jogos Abertos de Santa Catarina, participou desde a segunda edição, em 1961, até 84, tendo amealhado 12 medalhas de ouro, seis de prata e três bronzes. Ivo também defendeu a Seleção Catarinense em 15 edições do Brasileiro, pelos times juvenil e adulto. Já veterano, esteve na Seleção Master do Estado nos torneios nacionais de 2003 e 2004, quando encerrou a carreira.
Entre os muitos momentos marcantes de sua passagem pelo basquete, Ivo lembra com emoção dos Jasc de 1964, em Porto União. “Na semifinal, perdíamos para Blumenau por 1 ponto. A 5 segundos do final, arremessei do meio da quadra e converti 2 pontos, o que nos deu a vitória. Depois, vencemos Florianópolis na final.”
Das homenagens que recebeu, destaque para uma da Consul, onde trabalhava, quando completou 25 anos de basquete. Outra é uma placa de bronze, afixada no ginásio Abel Schulz, enfatizando sua colaboração para o esporte joinvilense. “Sou mesmo um saudosista, e se pudesse faria tudo de novo, por amor ao esporte.”

 


O jeito mineiro de pedalar

De zica. A liderança de Sonia Paranhas deu nome ao hábito de um grupo de amigos que se reúne para pedalar nas noites das segundas-feiras
Fabrício Porto/ND
Persistente. Sônia, ainda se recuperando das fraturas nas costelas, anima os integrantes do Pedal da Sonia e promove ainda mais a adesão ao hábito de apreciar a cidade sobre duas rodas

 

 

Difícil, muito difícil falar das belezas e atrativos dos Estados brasileiros. A coisa piora ainda mais quando se trata de Minas Gerais com sua música; culinária; artes e paisagens naturais. Outra característica mineira é a hospitalidade e a facilidade para encetar novos relacionamentos com as pessoas. Nesse quesito, Sônia Paranhas, mineira de Ipatinga é PhD. Nenhuma dupla, exceto Sá & Guarabyra, retratou tão bem as raízes desse Estado. Por meio da composição “Cheiro Mineiro de Flor” eles imortalizaram nas estrofes da música “... o jeito mineiro de ser...”
Para entender o significado dessas palavras, basta apenas meia hora de conversa com Sônia Paranhas e sentir a abrangência desse universo. Isso explica, entre outras coisas, o sucesso do Pedal da Sonia que ocorre todas as segundas-feiras a partir das 20h, salvo em noite de chuva porque, de resto, o pedal rola leve e descontraído. A concentração ocorre por volta das 19h30, em frente ao Posto de Escapamentos Moraes, na Marquês de Olinda, proximidades do Posto Veneza. O novo local, mais tranquilo e seguro, foi definido pelo grupo após o atropelamento registrado no começo do mês.
A história dessa filha de Ipatinga é dividida em dois momentos importantes: o período que corresponde aos anos de 1999 e 2005, fase em que ela trabalhou, viveu e incorporou parte de uma cultura milenar em Turin e, depois, quando se estabeleceu em Joinville. Na Itália, ela conheceu e se casou com o engenheiro eletromecânico, Gianvittorio Toniolo. “Foi uma parte importante e de muito aprendizado para o resto da vida,” observa. Ela conta que durante o verão, quando “faz um frio danado para quem é de Minas,” ela e o então namorado Gian aproveitavam as tardes e noites para andarem de bicicleta pela cidade, onde “pedestres e ciclistas são muito respeitados em qualquer lugar.”
Depois de uma viagem ao Brasil para visitar o irmão Agnaldo, que trabalhava na Embraco, o casal amadureceu a ideia e se mudou de forma definitiva para o país em 1985. Devido ao clima mais ameno e semelhante ao europeu, a cidade escolhida foi Joinville. “Eu queria muito voltar para o Brasil e quando o Gian propôs a ideia, foi maravilhoso.” Começaram uma vida nova no bairro Costa e Silva e ambos trabalham com transporte escolar. Sônia é a monitora da van, enquanto Tio Vitor, como é chamado pela garotada, é o motorista. Acostumados com a prática de atividades físicas, caminhadas e passeios de bicicletas, resolveram chamar alguns amigos para irem nessa aventura.

 

Cada vez tinha mais pessoas com o grupo até que, por sugestão desses amigos, a Pedalada da Segunda virou o Pedal da Sônia.”

 

Bom começo de semana
Para pedalar em Joinville, a segunda-feira foi eleita. A logo, logo a idéia ganhou adeptos. “A coisa foi crescendo e cada vez tinha mais pessoas com o grupo até que, por sugestão desses amigos, a Pedalada da Segunda virou o Pedal da Sônia e que acabou pegando.” Hoje, esse pedal é mais uma referência na cidade e o espírito que permeia o grupo é de muita camaradagem e prazer em pedalar pela cidade sem grandes preocupações. E a rotina foi assim até o episódio da noite do dia 8, quando um motorista enfurecido jogou o carro sobre o grupo e atingiu alguns integrantes, entre eles Sonia e Gio.
Sobre o futuro do grupo, a mineira de fala mansa e pausada é categórica: “Imagina! Somos pessoas do bem e amigos. Nada vai mudar. Não vejo a hora de ficar boa para voltar a pedalar com esse pessoal maravilhoso. Eu não imaginava tamanho carinho e solidariedade. Gostaria muito que a Justiça seja feita e a lei aplicada, é o mínimo. Chega de tanta impunidade,” fala, referindo-se às costelas quebradas, o saldo do acidente. Enquanto ela se recupera, o Pedal da Sônia ocorre como de costume. A única diferença, por enquanto, é que o marido Gian vai puxar o passeio e Sonia aparecerá na concentração para conversar e deixar com todos um pouco de sua energia contagiante e a tradicional alegria mineira. “O ciclista ama a vida e a natureza. É também um poeta que escreve suas linhas pedalando a sua bicicleta”, cita V. Salvaterra, 1983. (Valter F. Bustos, especial para o Notícias do Dia) 


O aroma da realização

Sonho. Paixão pelas misturas levou farmacêutica a criar marca consagrada
Carlos Junior/ND
Alquimia. Maria de Lourdes Vertuan cria seus cosméticos em moderna fábrica montada em Araquari

 

Ao andar pela fábrica, os aromas se sucedem, começando pelos produtos químicos e culminando nos potes prontos para expedição, de onde exalam os mais diversos matizes olfativos, prometendo os melhores efeitos sobre a pele. Mas o principal perfume que enche o ar é o da satisfação de Maria de Lourdes Vertuan, ao constatar que toda uma vida de luta e sacrifício valeu a pena. Afinal, ali do interior de Araquari, numa tranquila estrada onde várias empresas são vizinhas, Maria de Lourdes vê seu sobrenome estampando rótulos de produtos cosméticos que conquistam mercados em quase todas as regiões do país. “Desde criança, inventando as comidinhas de brincadeira, desenvolvi a paixão pela química, misturando terra e enfeitando com ervas. Hoje, aplico essa aptidão no desenvolvimento de cosméticos”, diz a empreendedora, que em 1998 fundou a La Vertuan, grife voltada a produtos cosméticos para as áreas de massoterapia, estética facial e estética corporal.
Até chegar a esse ponto, a vida dessa paranaense de Taiúva, nascida em 1958, passou por diversas reviravoltas. Foi em Jandaia do Sul, onde viveu a infância – na mesma rua onde morava o Carlinhos que um dia seria o Ratinho da TV – que ela sentiu que o futuro estava na farmácia. A certeza veio aos 11 anos: “Fiz um curso de empreendedorismo no Senac, onde precisava apresentar, para a nota final, um modelo empresarial. Escolhi um projeto de laboratório farmacêutico”.
Escolher a opção no vestibular, portanto, já era passo dado. Veio então o primeiro revés: “Meu pai morreu alguns dias antes do vestibular”. Maria de Lourdes superou a dor da perda e foi uma das aprovadas em farmácia e bioquímica numa instituição da vizinha Maringá. Formada em 1980, ainda fez uma pós-graduação, mas não chegou a entrar no mercado, casando-se em seguida.

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND

A casa onde Lourdes morava, e onde montou seu primeiro laboratório

  

A primeira farmácia
Já com um filho, Maria de Lourdes viu a oportunidade de colocar os conhecimentos em favor da livre iniciativa quando seu marido, o escritor David Gonçalves, assumiu a diretoria do Senac em Joinville. “Resolvemos montar um negócio. Fiz um curso de homeopatia e abrimos a primeira farmácia homeopática da cidade.” A Farmácia Joinville ainda está lá, no Iririú, sob nova direção desde que Maria de Lourdes precisou vendê-la, devido a um acidente que sofrera.
Mas a chama empreendedora não se apagou. “Eu sempre era preocupada em buscar a cura para as pessoas, e nunca alguém saiu da farmácia sem alguma solução ou encaminhamento.” Lourdes manteve o estoque de sais que manipulava e continuou exercendo a profissão, em casa, vendendo os produtos de porta em porta. “Levei outro tombo com o Plano Collor, que me quebrou por causa da inadimplência da clientela”, acrescenta.
Veio o fim do casamento, mas a resistência não se quebrava. Lourdes montou outro laboratório em casa e começou a produção de uma linha profissional de cosméticos, terceirizando os processos mais complexos num laboratório de Curitiba. Fiel aos princípios ativos de origem fitoterápica, criou um conceito de “estética associada ao bem-estar”.
A primeira marca escolhida, Tess, já tinha pedido de registro, o que a levou a adotar o próprio sobrenome, acrescido de uma providencial partícula que fez surgir a La Vertuan, hoje consagrada.
Lourdes continuou investindo em conhecimento, fez um curso de cosmetologia e aplicou todas as economias na construção do moderno galpão industrial na região do Porto Grande, em Araquari, na rua com o apropriado nome de Prosperidade. Ali, Maria de Lourdes conta com uma equipe de 15 pessoas – entre elas, a filha Liane no Marketing – para fabricar e despachar os produtos para 14 Estados brasileiros.
“Temos projetos para o mercado exterior em breve”, informa. Em Joinville, os produtos podem ser encontrados na loja La Vertuan, na rua Dr. João Colin, 864. Lourdes ainda consegue reservar tempo na agenda para dar cursos e garimpar novidades em feiras de cosmetologia. Sempre de olho no futuro: “Sonho muito, e acredito nos meus sonhos. O passado serve para analisar os erros e transformá-los em acertos”.


Lembranças da Estrada do Sul

Pioneiro. Nelson Rubin é o morador mais antigo da atual Rodovia do Arroz
Rogério Souza Jr/ND
Famílias tradicionais da região. Nelson e Ruth começaram a namorar numa domingueira no salão Baumer e se casaram em 1967

 

Logo ao chegar, após um simpático “bom-dia”, perguntado sobre o tempo em que mora na Estrada do Sul, hoje mais conhecida como Rodovia do Arroz, Nelson Rubin confirma: “Moro por aqui só há setenta anos”. De fato, ele nasceu por ali em 1942 e é atualmente o morador mais antigo da região, escolhida pelo bisavô Adolf em 1886, quando chegou da Rússia a bordo do vapor Hamburg. Para confirmar, Nelson mostra uma cópia da lista de passageiros, encontrada numa pesquisa na internet. Antenado, o experiente mecânico de máquinas agrícolas se mostra atualizado e crítico em relação a temas do momento, mesmo tendo estudado apenas até o quarto ano primário, na pequena escola situada no início da Estrada Duas Mamas.
Filho de um operário do antigo Departamento de Estradas de Rodagem, Nelson viu seu pai trabalhar durante muitos anos na pedreira situada algumas dezenas de metros adiante, e de onde saiu material para o asfaltamento da rodovia. Sobre o assunto, Rubin mostra conhecimento de causa, revelando que “a Estrada do Sul está asfaltada desde 1972”, data do primeiro projeto, emperrado durante décadas por entraves burocráticos e ambientais – a SC-413 foi efetivamente asfaltada em 2007.
Criado sob a rígida disciplina das antigas famílias do interior, Nelson dá um bom exemplo de como os assuntos íntimos eram tratados com discrição: “Eu tenho uma irmã dez anos mais nova, mas só soube que ela ia nascer no dia em que a parteira chegou lá em casa.”
Bom contador de “causos”, Nelson Rubin diz que seu primeiro trabalho foi como “caçador”. A história: “Eu tinha uns 2 anos e meio de idade, e ficava sozinho em casa durante o dia, quando meu pai ia para a pedreira e minha mãe pra roça. Um dia, resolvi ir até a pedreira, mas me perdi no caminho. Fiquei o dia inteiro e passei uma noite no mato, até me encontrarem no dia seguinte, molhado mas inteirinho”. Apesar da arte, Nelson devia ser geralmente bem comportado, pois garante que só apanhou duas vezes na vida: “Uma foi do meu pai, por me recusar a trabalhar; outra da professora Olívia de Oliveira Batista, que me pegou rabiscando a carteira e me deu uma reguada tão forte na mão que chegou a quebrar a régua.”

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Orquestra. Nelson Rubin na clarineta, com Rudolfo Tank e Norberto Schramm (na bateria); ao lado, a tradicional foto do casamento

 

Mecânico e músico
Nelson não quis saber de lavoura nem da pedreira, preferindo trabalhar com mecânica agrícola, profissão na qual permaneceu até se aposentar. Ainda hoje, se precisar, conserta qualquer implemento – além de mexer nas duas relíquias que tem em casa, um Fiat 147 e um Ford Corcel de primeira geração.
Também foi músico requisitado, tendo aprendido a tocar clarineta, saxofone, bateria e acordeon. “Se precisar, ainda tiro alguma coisa na sanfona”, garante. Participante de conjuntos que animaram muitos casamentos na região da Estrada do Sul, Nelson só desfalcou o grupo no dia 17 de junho de 1967, quando se casou com Rute Schulze. “Naquele dia meus companheiros precisaram se virar sem mim.” As famílias Rubin e Schulze eram velhas conhecidas, o que não facilitou as coisas para o casal: “Começamos a namorar numa domingueira no salão Baumer, mas o namoro só ficou oficial depois que o pai dela autorizou.”  A união frutificou em cinco filhos e nove netos.

Perfil sugerido pelo leitor Nelson Holz.


As contribuições de dona Toni

Rio Bonito. Agricultora ajudou a introduzir gado de raça e transformar Joinville na mais importante bacia leiteira do Estado na década de 70
Rogério Souza Jr/ND
Paisagem. Da janela da casa comprada nos primeiros anos do casamento, em Rio Bonito, Toni contempla a propriedade onde cultiva muitas flores

 

 

Galinhas, gatos, cachorros e flores, muitas flores fazem parte do cotidiano de Toni Pries, senhora de 92 anos que esbanja disposição, bom humor e lucidez. Moradora de Rio Bonito, vila do distrito de Pirabeiraba, ela é dona de uma história que lhe garante respeito e admiração entre vizinhos de todas as idades. Nascida na comunidade agrícola de Estrada do Oeste, dona Toni se orgulha das raízes familiares. “Meu avô, João Paulo Schmalz, foi administrador da usina de açúcar que pertenceu ao duque D´Almale, irmão do Príncipe de Joinville, enquanto que meu pai, que também se chamava João Paulo, foi intendente de Pirabeiraba duas vezes no tempo do prefeito João Colin”, conta a veneranda oma.
Dona Toni cresceu na comunidade da Estrada do Oeste trabalhando num comércio da família especializado nos segmentos de secos e molhados e serviço de café. Ao se casar com o vizinho, Eugênio Pries, ela continuou no ramo do comércio. Passado algum tempo, dona Toni deixou o balcão do comércio para se estabelecer com o marido em Rio Bonito, onde ele acabara de comprar uma gleba de terra para extrair madeira e implantar um extenso bananal. “Peguei a parte que me cabia no comércio e compramos esta casa na rua 15 de Outubro. Foi desse jeito que sai do comércio para entrar na agricultura,” assinala  entre risadas.
De produtores de banana e madeira, dona Toni e seu Eugênio apostaram paralelamente no segmento de criação de gado leiteiro. A atividade secundária acabou virando o principal meio de sustento de ambos, no qual permaneceram por mais de 50 anos. 
O casal se destacou por ter sido um dos pioneiros na introdução, em Joinville, de vacas leiteiras da raça holandesa com apurada linhagem genética. Dona Toni conta que o investimento em animais de melhor estirpe foi alternativa para melhorar a produtividade que se apresentava muito baixa (média de cinco litros diários por vaca) na maioria dos plantéis leiteiros joinvilenses.
A primeira matriz da raça holandesa chegou às mãos dos Pries por intermédio de um parente de Blumenau que os surpreendeu ao presenteá-los com uma bezerrinha puro sangue. Com capricho e persistência, o plantel de vacas comuns foi substituído por animais de raça, garantindo alta produtividade. “Vinha gente de longe para conferir se era verdade que algumas das nossas vacas davam até 38 litros de leite por dia. Depois de ver que era verdade, muitos outros colonos apostaram na raça holandesa e assim Joinville transformou-se na década de 1970 na maior bacia leiteira de Santa Catarina,” assinala. 
Dona Toni lamenta que devido a políticas equivocadas hoje o setor leiteiro seja uma pálida imagem dos tempos que Joinville foi a maior bacia leiteira de Santa Catarina. “Apesar das dificuldades, meu marido e eu conseguimos driblar todas as crises e ficamos no ramo até depois de termos completado 80 anos de vida,” conta com uma pontinha de orgulho

 

Meu avô, João Paulo Schmalz, foi administrador da usina de açúcar que pertenceu ao duque D´Almale, irmão do Príncipe de Joinville, enquanto que meu pai, que também se chamava João Paulo, foi intendente de Pirabeiraba duas vezes no tempo do prefeito João Colin.”

 

Capítulo de destaque na agricultura familiar
Viúva há seis anos, dona Toni continua morando na chácara de 33 mil metros quadrados onde ela e o marido escreveram um belo capítulo da história da agricultura familiar de Joinville ao ajudar o setor leiteiro a se transformar em uma das principais fontes de renda para centenas de pequenos produtores rurais.
A pastagem de tantas lembranças agradáveis está arrendada e atualmente dona Toni aproveita o tempo para cuidar de seus animais de estimação e de seus canteiros de flores. Mãe de duas filhas (Mariana e Marina), avó quatro vezes e bisavó de sete pequerruchos, ela goza de saúde de ferro, que lhe permite ser independente, morar sozinha. “Uma das boas coisas da vida é não incomodar ninguém,” enfatiza enquanto aproveita para dar uma remexida em um dos seus bem cuidados canteiros de flores.


Entre sorrisos e flores

Caminhos. Heinz Kricheldorf divide-se entre o consultório odontológico e as orquídeas
Fabrício Porto/ND
Realizado. “Estudei muito, investi em conhecimento e hoje tenho a convicção de ter escolhido o caminho certo”

 

 

Se alguém errar de porta ao procurar o consultório do cirurgião-dentista Heinz Adolfo Kricheldorf, tem uma boa chance de sair com um belo arranjo de orquídeas, vendido pela filha Débora. A odontologia e a orquidofilia, afinal, são as duas paixões deste paranaense criado em Joinville. Já perfilado neste espaço como orquidófilo (em junho de 2009), Heinz faz parte de uma lista de dentistas remidos pelo Conselho Federal de Odontologia, por completar 70 anos de idade (em 2011).
Realizado com uma carreira de sucesso e ostentando algumas ações pioneiras na área, divide-se entre os clientes que ainda atende no consultório da rua Timbó, a coordenação do setor de cirurgia bucomaxilofacial do Hospital Dona Helena – que fundou – e, claro, o orquidário que é outra de suas paixões. “É difícil triunfar sem ter fé em Deus, por isso é gratificante ter chegado até aqui, graças aos sacrifícios e aos obstáculos vencidos”, filosofa Heinz.
Decidido desde jovem a ser dentista, já quando cursava o científico (ensino médio) no Colégio Bom Jesus fez um curso prático de protético. Formou-se em odontologia pela Universidade Federal do Paraná em 1965, voltou a Joinville e abriu consultório, primeiro na esquina da Princesa Isabel com João Colin, pertinho do Bar Sopp, depois no atual endereço da rua Timbó. “No Sopp, tomávamos chope em canecas no formato de bota”, lembra.
Para estudar, muitas vezes Heinz utilizava um abajur que ele mesmo inventou, ligado embaixo da coberta para não atrapalhar o irmão que dormia. Na faculdade, era um aluno sempre à frente dos colegas, graças à prática adquirida como auxiliar do dentista joinvilense Norberto Czernay. “Quando chegou a parte das extrações no curso, eu já havia feito umas trezentas”, contabiliza.
Participante assíduo de cursos, congressos e o que mais proporcionasse aperfeiçoamento profissional, Heinz especializou-se em cirurgia e traumatologia bucomaxilofacial em 1974, passando o ano seguinte na Alemanha, num estágio no Hospital Universitário de Bonn, de onde trouxe uma técnica inédita em sua especialização. Trabalhou durante uma década no Sesi e também na Prefeitura, paralelamente ao atendimento no consultório particular.

 

"É gratificante chegar até aqui, graças aos sacrifícios e aos obstáculos vencidos."

 

Broca movida a pedal
Heinz Kricheldorf ainda mantém, como relíquia, uma broca movida a pedal, utilizada em tempos de racionamento de energia. “Nunca cheguei a utilizar a broca na boca de algum paciente – esclarece –, mas ela era útil na confecção de próteses.” Heinz acabou herdando o consultório e a clientela do seu mestre, quando Czernay se machucou seriamente jogando basquete. Em 1967, mudou-se para a rua Timbó, onde morava, instalando o consultório na varanda. “Muitas pessoas lamentaram que um bom dentista saísse do centro para abrir um consultório tão longe”, lembra. Daquela época, guarda outro motivo de orgulho: “Fui o pioneiro a instalar som ambiente na sala de espera, com um gravador de rolo”. O consultório atual, ao lado do orquidário, foi inaugurado em 1972.
Heinz também atuou no Hospital São José e no Regional, tendo criado em ambos o setor bucomaxilofacial. Foi professor-colaborador na Faculdade de Odontologia da Univille, onde deu a primeira aula.
“Mesmo antes de escolher minha profissão, de uma coisa eu tinha certeza: não seria varredor de rua. Estudei muito, investi em conhecimento e hoje tenho a convicção de ter escolhido o caminho certo”, conclui Heinz Kricheldorf, satisfeito também por ver encaminhado na mesma profissão o filho Fábio.


Do hábito ao quimono

Mudanças. Ex-freira se realiza dando aulas de caratê para crianças
Fabrício Porto/ND
Dedicação. Elisângela coordena o projeto Lutar pela Vida, dando aulas de caratê para crianças do colégio Eladir Skibinsk na igreja Santa Terezinha, no Parque Joinville

 

 

Vai longe o tempo em que as freiras eram associadas aos pesados e sisudos hábitos, que deixavam apenas o rosto e as mãos visíveis. Atualmente suas vestimentas são mais informais e adequadas aos lugares onde vivem. Mas a irmã Elisângela Socorro Teodoro ia além, trocando ocasionalmente o traje de freira franciscana pelo quimono utilizado em artes marciais. Apaixonada pelo caratê, Elisângela deixou o convento quando percebeu que sua verdadeira vocação era ensinar. Hoje, sente-se realizada cumprindo a missão de ensinar a arte marcial a crianças: “A gente precisa estar sempre preparada para mudanças. Foi assim que, em determinado momento, percebi que poderia servir a Deus e ser útil à sociedade, ensinando caratê”, diz Elisângela, ostentando a faixa preta que contrasta com seu porte físico delicado.
A medicina, na verdade, era a aspiração desta paranaense, nascida em 1979 em Cornélio Procópio, mas criada em Curitiba. “Eu sentia que minha vocação era ser médica, pois via a necessidade de ajudar o próximo”, conta Elisângela, que fez um curso técnico de instrumentação cirúrgica e chegou a exercer a função de auxiliar na Santa Casa de Misericórdia, na capital paranaense. Aprovada no vestibular para fisioterapia, mudou de rumo abruptamente: “Acabei mudando para o curso de teologia, quando senti o chamado de Deus para servi-lo”. Formada, acabou fazendo mais duas faculdades: filosofia e administração de empresas.
A carreira religiosa foi feita no convento das irmãs franciscanas do Coração de Jesus, na capital paranaense. Como postulante, em 2003 Elisângela foi para Roma, onde ficou três anos. Na volta, fez os votos e, já como irmã Elisângela, assumiu as aulas de religião e o cargo de vice-diretora no Colégio Bom Jesus, em Rolândia, no Norte do Paraná. Algum tempo depois, nova mudança: “Comecei a enfrentar muitos conflitos internos, questionando minhas escolhas e caminhos. Sempre pronta para mudanças, decidi deixar de ser freira e seguir em outro rumo”. Foi aí, fora da congregação, que Elisângela trocou o hábito pelo quimono.

 

“A gente precisa estar sempre preparada para mudanças. Foi assim que, em determinado momento, percebi que poderia servir a Deus e ser útil à sociedade, ensinando caratê.”

 

Realização no tatame
O caratê já fazia parte da vida de Elisângela desde os 14 anos, influenciada pelos irmãos praticantes. “Depois que eu comecei, até meus pais resolveram aprender”, acrescenta Elisângela, que conquistou quatro primeiros lugares logo em sua primeira competição. Eleita melhor atleta do Paraná em sua categoria, precisou dar um tempo aos tatames quando entrou na vida religiosa. “Eu treinava sozinha, no convento, mas sentia muita falta das competições”, admite ela, que chegou a montar uma academia dentro da escola em que dava aulas.
Assim que deixou de ser freira, Elisângela voltou a se dedicar com afinco à arte marcial. Fez curso de arbitragem e alcançou a faixa preta em 2007. Em agosto do ano passado, novo desafio, quando o reitor da Católica a convidou para assumir um projeto em Joinville. “Novamente encarei uma mudança, e vim coordenar o projeto Lutar pela Vida, dando aulas de caratê para crianças.” Hoje, ensina 80 crianças de 7 a 14 anos do colégio Eladir Skibinski; as aulas são dadas na igreja Santa Terezinha, no Parque Joinville, com apoio da assistente social Meri de Souza. O projeto é mantido pela Católica e administrado pela Adipros (Associação Diocesana de Promoção Social).
Além disso, dois dias da semana são reservados para outros 50 alunos do colégio Francisco Salomon, em Jaraguá do Sul. Elisângela também dá palestras pedagógicas, de primeiros socorros, espiritualidade e prevenção bucal para alunos e pais, dá aulas na escola de Psicologia e Teologia da Mitra Diocesana e é tradutora de inglês, espanhol e italiano. A antiga vocação, de trabalhar na área de saúde, foi retomada: Elisângela faz a faculdade de fisioterapia na ACE.

 

Perfil sugerido pelo leitor Ronaldo Correa.


A realização na terapia ocupacional

Profissão. Terapeutas ocupacionais conquistam posição no mercado
Luciano Moraes/ND
Uma data especial. Lizete Antunes Jardim, presidente da Associação Catarinense de Terapeutas Ocupacionais, cumprimentando todos os profissionais pela passagem do dia

 

 

A gaúcha Lizete Antunes Jardim tinha uma vocação: “Desde a infância, eu pensava em trabalhar na medicina, para ajudar as pessoas”. Era um sentimento bem pessoal, pois na família não havia nenhum profissional desta área. Decidida, foi em frente e hoje se realiza como terapeuta ocupacional, concretizando o sonho de trabalhar em favor da saúde das pessoas. Também batalha pela classe, como fundadora e atual presidente da Associação Catarinense de Terapeutas Ocupacionais.
A infância de Lizete, nascida em Porto Alegre em 1961, se dividiu entre o agito da cosmopolita capital e a tranquilidade das interioranas Uruguaiana e Alegrete, berços do pai e da mãe, respectivamente. “Em Alegrete, meus avós moravam na mesma rua dos Fagundes, que viriam a ser autores da música que se tornou quase um hino do Rio Grande, ‘Canto Alegretense’. O Neto Fagundes morava na mesma rua”, lembra Lizete, que costumava sair com a família para “tomar um sorvete na Argentina”, dada a proximidade da fronteira com o vizinho país.
Ao se inscrever para o vestibular no Instituto Porto Alegre, na metade do terceirão, só havia os cursos de fisioterapia e terapia ocupacional. “Eu estava decidida a fazer fisioterapia. Quando vi que havia a opção para terapia ocupacional, fui pesquisar mais, para saber do que exatamente se tratava, pois não conhecia a especialidade.” A investigação convenceu Lizete que, em 1985, recebia o diploma. Fez um estágio no Centro de Recuperação Dedicada e trabalhou nos hospitais São Pedro e Espírita, especializando-se no tratamento da saúde mental. “O trabalho do terapeuta ocupacional – teoriza – envolve muito os aspectos social e de educação, e a recuperação da saúde mental é bastante exigente. Tratar de alguém com autismo, por exemplo, pode ser mais complexo do que um caso de esquizofrenia.”

 

“Hoje já somos cerca de 13 mil profissionais no país, e o mercado ainda é muito aberto.”

 

Mudança para Joinville
Florianópolis era a meta de Lizete quando decidiu buscar novos rumos, mas Joinville acabou sendo seu destino final. “Conheci a faculdade de terapia ocupacional da ACE em 2001, e consegui uma vaga para dar aulas. Fiquei uns seis ou sete anos, tempo suficiente para ser conquistada pela cidade.” Assim que deixou a sala de aula, Lizete abriu uma consultoria, prestando serviços principalmente para empresas.
Sua atuação como líder classista começou em 2006, em Lages, num evento em que foi fundada a Associação Catarinense de Terapeutas Ocupacionais. Trazendo uma experiência como vice-presidente da associação gaúcha, logo assumiu a presidência, que exerce atualmente. É vice-presidente, há três anos, do Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional. Também preside, desde 2010, a regional Norte do Conselho Estadual de TO, ligado à Associação Brasileira, por sua vez filiada à Federação Mundial, sediada no Canadá. Hoje, parte do tempo de Lizete é dedicada à organização do Congresso Brasileiro de Terapia Ocupacional, agendado para o ano que vem, em Florianópolis.
Realizada com a opção profissional escolhida, Lizete ainda comemora a regulamentação da especialidade, conquistada há um ano. “Hoje já somos cerca de 13 mil profissionais no país, e o mercado ainda é muito aberto”, garante Lizete, cumprimentando todos os profissionais pela passagem hoje, dia 13 de outubro, do Dia Nacional do Terapeuta Ocupacional – a data em nível internacional é comemorada em 27 de outubro.


Quatro décadas de voluntariado

Dedicação. Maria Luzia é um exemplo de trabalho pela comunidade e amor ao próximo
Luciano Moraes/ND
Uma missão. Só na Rede Feminina de Combate ao Câncer, Maria Luiza atuou por trinta anos

 

 

 

“Trazer a bomba de cobalto era a maior aspiração de todas as voluntárias. Após anos de luta, finalmente o prefeito Luiz Gomes voltou do Rio de Janeiro, no dia 19 de julho de 1990, anunciando a conquista.”

 

A dedicação ao trabalho voluntário é uma característica de pessoas abnegadas, que investem parte do tempo a causas humanitárias ou em ações em benefício da comunidade. Em Joinville e cidades da região, um ícone desta qualidade é o uniforme cor-de-rosa das voluntárias que compõem a Rede Feminina de Combate ao Câncer, uma referência quando se fala em voluntariado. A Rede de Joinville tem várias mulheres que são um sinônimo de amor ao próximo. Entre elas está Maria Luzia Maciel Strohmeyer, que no ano que vem comemora trinta anos de Rede. Somados aos dez anos em que já atuava na Casa da Amizade, são cerca de quatro décadas de voluntariado. Ainda que a saúde já não seja a mesma, e que necessite de uma bengala para ajudar na locomoção, Maria Luzia continua apoiando os trabalhos da Rede, especialmente na organização do bazar. “Sempre tive prazer em ser voluntária, pois sei como é importante o apoio dado às pessoas com câncer e, principalmente, o esforço pela prevenção, oferecendo às mulheres o exame preventivo.”
Nascida em Blumenau em 1940, Maria Luzia morou em Laguna e Tubarão antes que sua família se estabelecesse em Joinville, quando ela tinha 11 anos. Estudou no Colégio dos Santos Anjos e chegou a fazer o curso normal, mas sem a intenção de seguir o magistério. “Naquele tempo a filha era educada para bordar, estudar e cozinhar, preparando-se para ser uma boa esposa.” Este “aprendizado” Maria Luzia colocou em prática quando se casou com Aroldo Strohmeyer (ex-jogador de basquete, perfil do ND no dia 1º de outubro). “Nós nos conhecemos numa soirée no Ginástico, e do namoro para o casamento foi um processo natural”, conta Maria Luzia (as soirées eram bailes realizados geralmente nas tardes de domingo, terminando no início da noite). O casal tem dois filhos e três netos.

 

 “Sempre tive prazer em ser voluntária, pois sei como é importante o apoio dado às pessoas com câncer e, principalmente, o esforço pela prevenção, oferecendo às mulheres o exame preventivo.”

 

Início do voluntariado
Rotariano, Aroldo foi um dos fundadores da Casa da Amizade, entidade formada, até alguns anos atrás, apenas por esposas de associados do Rotary Clube – atualmente, qualquer pessoa que queira praticar o voluntariado pode se filiar à Casa. “Foi no início dos anos 70 que comecei a atuar como voluntária, em todas as ações promovidas pela Casa da Amizade, principalmente na triagem de gestantes a ser atendidas. Também participei do Mutirão do Amor, tricotando em casa roupinhas para bebês de famílias necessitadas”, conta Maria Luzia.
Mas foi na Rede Feminina de Combate ao Câncer, à qual se filiou em 1983, que a voluntária imprimiu sua marca de dinamismo e obstinação. Maria Luzia atuou em várias frentes da Rede, como a mastectomia, visitas a hospitais e residências, até assumir a presidência da entidade, em agosto de 1988. “A Rede  ainda era pequena, tinha só oito anos de existência, mas já contabilizava cerca de 15 mil exames preventivos gratuitos.”
A gestão de Maria Luzia Strohmeyer ficou marcada por uma grande conquista: a instalação da bomba de cobalto no Hospital São José, para o tratamento do câncer. Foi um trabalho que exigiu o máximo esforço das voluntárias: “Trazer a bomba de cobalto era a maior aspiração de todas as voluntárias. Após anos de luta, finalmente o prefeito Luiz Gomes voltou do Rio de Janeiro, no dia 19 de julho de 1990, anunciando a conquista.” O prefeito acabara de assinar um convênio com o Sistema Integrado e Regionalizado de Controle do Câncer, para a aquisição da bomba de cobalto, ferramenta vital para o tratamento de radioterapia. Quatro meses depois, o equipamento era instalado no São José. De sua gestão, Maria Luzia guarda palavras de especial carinho pelas voluntárias Lilian Gomes e Zenaide Müller. “Nas pessoas delas, quero agradecer a todas as voluntárias, que dedicam parte de sua vida ao bem do próximo.”


O hobby que virou negócio

Chope ambulante. Empresário inventou o fusca que se transforma em chopeira
Carlos Junior/ND
Um brinde. Rubens já em três Fusca adaptados para transportar três barris de chope

 

 Rubens Siedschlag era um empresário realizado, satisfeito com o rumo que vinha trilhando com sua empresa fabricante de esteiras industriais. Mas a veia de empreendedor pulsou forte quando, retornando de um passeio com a família a Treze Tílias, no Meio-Oeste catarinense, voltou-lhe à memória o sabor das cervejas artesanais que apreciara na cidade. “Decidi vender cerveja artesanal em Joinville, já enjoado do sabor das marcas tradicionais”, diz Rubens, hoje não apenas um revendedor, mas fabricante de cerveja e criador de um novo sistema de servir chope, transformando fuscas em chopeiras.
Rubens tinha 2 anos quando sua família trocou Jaraguá do Sul por Joinville, em 1967. “Eu me criei aqui na rua Bagé, jogando bola num campinho e tomando banho no rio Jaguarão. Se tivesse seguido a tradição familiar, hoje seria marceneiro, como meu bisavô, meu avô, meu pai e os irmãos dele. Com 12 anos eu ajudava meu pai, torneando peças que viriam a ser amuradas e timões de barcos, além de piões; chegávamos a fabricar cinco dúzias de piões por hora.” Porém, nem Rubens nem os cinco irmãos mais velhos seguiram o ofício do pai. Aos 14 anos, Rubens já trabalhava como auxiliar na Gráfica Águia. Pouco depois entrava no Banco do Brasil, como menor aprendiz; completados os 18 anos, foi para o Sul-Brasileiro, onde ficou até o banco sofrer intervenção pelo governo.
Já havia iniciado a faculdade de ciências contábeis quando trocou Joinville por Piracicaba. Lá ficou um ano e meio, aprendendo e trabalhando em manutenção industrial. De volta a Joinville, foi aprovado em concurso no Banco do Brasil, onde trabalhou uma década, na carteira de comércio exterior. Ainda como funcionário do BB, em 1991 Rubens aplicou os conhecimentos adquiridos em Piracicaba e abriu uma empresa de manutenção industrial, a Corema. Em 1997 deixou o banco, instalou uma linha de produção de esteiras e criou sua atual empresa, a Sistem Belt, instalada no condomínio industrial da Tigre. “Hoje somos o maior fabricante de esteiras industriais do Brasil. Temos clientes no país inteiro e no exterior, fornecendo esteiras para diversas aplicações, de embalagens de ovos até crematórios.”

 

Por uma boa cerveja
Apreciador de cerveja, em 2001 Rubens aproveitou uma viagem à Europa para degustar diversos tipos da bebida. Voltou encantado com a variedade de sabores e se tornou um pesquisador da cerveja. Em Treze Tílias experimentou a artesanal Biersbaum, no restaurante Edelweiss. Em meados de 2010 montou uma distribuidora de cervejas artesanais, no mesmo galpão onde seu pai tivera a marcenaria. Um ano depois, comprou uma minifábrica de cerveja, instalou os equipamentos em seu galpão e surgiu a Volksbier. “Minha ideia era a de fabricar uma cerveja popular, como sugere o termo ‘volks’ em alemão. Mas decidi ir além e adaptei um fusca para ser chopeira”, conta, mostrando todas as adaptações que fez no veículo, graças a seus conhecimentos industriais e ao trabalho de fornecedores parceiros. Hoje, a frota da Volksbier tem quatro fuscas, cada um com capacidade para três barris de chope.
Em princípio voltado apenas à fabricação de cerveja e chope e ao delivery, no início deste ano Rubens deu mais um passo, abrindo um bar anexo à fábrica, utilizando toda a capacidade do galpão. “Foi após uma viagem à Inglaterra, onde conheci os pubs, que tive a ideia de fazer algo semelhante. Depois de muitas adaptações, consegui proporcionar o ambiente que desejava, com ar de pub, um cardápio com culinária alemã e muita cerveja e chope, que o freguês pode ver sendo produzidas na hora”, exulta Rubens, mostrando a divisória de vidro que separa a destilaria do bar e o balcão com 13 torres, cada uma com um tipo diferente de chope. Prosit!

 

Serviço | Onde encontrar
O que: Volks Bier, bar e fábrica de cerveja artesanal
Onde: Rua Bagé, 709, bairro Anita Garibaldi
Informações: Na internet, www.volksbier.com.br


No balanço dos temperos

Culinária. Consultor de empresas divide o tempo entre o escritório e a cozinha
Fabrício Porto/ND
De bandeja. No prato decorado com ervas, arroz preparado com esmero pelo gourmet Mário

 

 

 

Mário C. Delgmann, podemos dizer, é um sujeito de “dupla cidadania”.  É paulistano da Vila Sabará, distrito de Santo Amaro, na zona Sul da capital paulista. Por direito, também é joinvilense porque seu pai, Mário Eugênio, nascera na Cidade dos Príncipes, lá no km 4, na avenida Santa Catarina, na Zona Sul. Até os seus 26 anos de idade estudou e trabalhou em São Paulo. Com o fim do casamento, seu pai retornou para Joinville e Mário passou a visitar a cidade com maior regularidade.
No ano de 1991, aproveitou um feriadão e chegou para passar o Carnaval em Joinville. Ele recorda que a festa de Momo era bem concorrida e com excelentes bailes em todos os clubes, os quais ele frequentava. Numa dessas animadas noites, conheceu sua futura mulher, Roseneide, com quem veio a se casar em 1994. Estabelecido na cidade, trabalhou na Profiplast, empresa do Grupo Tigre, enquanto cursava contabilidade na Univalle. Formado em 1999, ingressou no Sebrae como consultor nas áreas financeira, contábil e fiscal, além de concluir uma especialização em MBA pela FGV/Sociesc.
Sua vida passou por uma grande mudança quando completou 31 anos. Ele recorda que estava em casa com a mulher quando chegaram as visitas para comemorar o seu aniversário. Detalhe: eles não esperavam ninguém. Na bagagem, muita carne e o carvão para o churrasco, além da incumbência dele preparar a iguaria. “Eu gelei, porque não sabia fazer nada. No fim, a coisa saiu mais ou menos, com a ajuda da parentada”. Mário conta que depois do vexame, foi para o Senac fazer um curso de culinária. Fez vários módulos (massas, carne, pizza, pães, doces e pratos à base de arroz). Ao concluir o curso e receber o “canudo”, juntamente com os cumprimentos da mulher Roseneide, veio o presentão: “Agora a cozinha é toda sua”.
“Na verdade, isso não representou nenhum problema para mim, pois fiquei apaixonado pela culinária. As misturas, os temperos, os ingredientes, a manipulação de alimentos é uma coisa maravilhosa,” comenta Mario com muita emoção. Vez por outra, produzia um prato e convidava alguns amigos para um almoço ou jantar de confraternização. Não demorou muito para que os seus dotes culinários corressem entre os amigos. Em muito menos tempo, passou a ser chamado para preparar almoços e jantares comemorativos. Com o dinheiro ganho com esses eventos, Mario investiu na compra de utensílios para o seu trabalho. “Eu gosto muito de minhas panelas, conchas, tachos e paejeiras. Comprei tudo da melhor qualidade. Tenho tudo o que preciso para preparar qualquer prato e em qualquer quantidade”. Outra grata surpresa, segundo Mario, foi sua contratação pela rede Angeloni, onde ele dá cursos de culinária ensinando a preparação de vários pratos nas duas lojas de Joinville e na de Jaraguá do Sul.

 

(...) “Fiquei apaixonado pela culinária. As misturas, os temperos, os ingredientes, a manipulação de alimentos é uma coisa maravilhosa.”

 

Um bistrô para servir pratos diferenciados
Quando pergunto onde entra a contabilidade nisso, Mario sorri e diz que ainda não dá para sobreviver somente desse trabalho que lhe dá muito prazer. Sua principal fonte de renda vem mesmo da sua atuação como consultor. No entanto, os planos para o futuro já estão traçados: pretende adquirir um imóvel não muito grande para construir um bistrô onde possa atender os amigos e pessoas interessadas numa boa comida. “Eu imagino, um atendimento diferenciado: a pessoa me dirá que tipo de tempero ou condimento não aprecia e eu farei um prato especial somente para ela. Depois de uma breve conversa, saberei se será uma carne, um risoto, um peixe ou, simplesmente, uma salada”.
Sem dúvida, Mário pretende atingir algo de muito especial na arte de cozinhar. É possível sentir isso através de sua sinceridade e brilho intenso nos olhos. “É na cozinha que eu me sinto bem.” Conciliar assessoria contábil com arte culinária, somente o Mario é capaz dessa magia. Para os amigos, essa contabilidade não fecha. (Valter F. Bustos, especial para o Notícias do Dia)


Entre pincéis e violões

Eclético. Pintor de paredes concilia a profissão com o gosto pela música
Rogério Souza Jr/ND
Onde rola o som. Na garagem de casa, no bairro Salinas, Júlio montou um pequeno estúdio, para os ensaios da banda Mistura Retrô e as aulas de música

 

 

“Uma legítima banda barra-sulense!” É assim, com ponto de exclamação e o peito estufado de orgulho que Júlio César Peixer se refere ao Mistura Retrô, conjunto de garagem criado por ele com amigos da cidade. “Só um guitarrista é de Penha, mas a banda é de Barra do Sul.” Pintor por ofício, Júlio se dedica à música desde a infância, quando ainda morava na cidade em que nasceu há 33 anos, Ibirama, no Alto Vale do Itajaí. Atualmente, porém, os pincéis e as latas de tinta dão lugar ao trabalho administrativo na Prefeitura de Balneário Barra do Sul, onde Júlio é diretor de cultura. Mas sempre sobra tempo para as apresentações da banda e as aulas de música, outra das atividades do eclético profissional.
Júlio César viveu em Ibirama até os 14 anos, e na infância já foi influenciado pela música: “Meu pai tinha uma respeitável coleção de discos, de tudo que é gênero. Acho que foi daí que desenvolvi um gosto eclético, do clássico ao sertanejo.” Foi também com o pai que Júlio aprendeu, aos 15 anos, o ofício de pintor, que acabou se tornando sua profissão. “Pintei muita casa em Blumenau, onde morei alguns anos e me casei, em Curitiba e em Barra do Sul, onde me estabeleci há cinco anos,” conta.
Júlio aprendeu a tocar violão sozinho, graças ao ouvido musical e à facilidade em aprender. Sua primeira apresentação em público foi em Barra do Sul, quando visitava os pais, num verão. “Numa missa de Natal faltou um músico no acompanhamento do coral, e eu acabei tocando. Pra mim, foi uma fiasqueira, mas o pessoal da igreja gostou e continuo tocando lá até hoje.” Tanto a comunidade gostou que ajudou o jovem músico a comprar seu primeiro violão.

 

 

 “Eu sempre ajudava meu pai na pintura de casas quando vinha passar o verão com ele. Aí, acabei me fixando por aqui mesmo com mulher e filho, e hoje Barra do Sul é meu lar.”

 

 

Pintando casas, acabou ficando
Aquela missa de Natal acabou se tornando um divisor de águas na vida de Júlio. “Eu sempre ajudava meu pai na pintura de casas quando vinha passar o verão com ele. Aí, acabei me fixando por aqui mesmo com mulher e filho, e hoje Barra do Sul é meu lar”, diz, convicto do acerto em ter trocado a cosmopolita Curitiba pelo tranquilo balneário.
Disposto a aprender mais, Júlio buscou aperfeiçoamento no Conservatório de Belas Artes, em Joinville. Ali conheceu outro aluno, o dentista Hamilton Homero Leimann, violinista, com quem formou um duo que costuma tocar em casamentos e outros eventos (o dr. Hamilton foi perfil no dia 3 deste mês).
Júlio não omite sua preferência pelo rock, mas a velha coleção de vinis do pai ainda repercute, tanto no gosto quanto na escolha do repertório, variadíssimo. Tocando e cantando, sozinho ou com a banda Mistura Retrô, apresenta-se em festas e animando ambientes em bares de Joinville, Guaramirim e, claro, Balneário Barra do Sul.
A carreira no serviço público começou há um ano e meio. “O prefeito me viu tocando na igreja e me convidou para ser diretor de Cultura”, conta. Há uns quatro anos Júlio passou a dar aulas de música, começando voluntariamente na igreja. Hoje, tem alunos de 7 a 67 anos. Entre eles está o filho Lucas, 7. “Ele já conhece os acordes principais, tem gosto roqueiro e sabe até cantar em inglês, mesmo não sabendo o que está cantando.”
Na garagem de casa, no bairro Salinas, Júlio montou um pequeno estúdio, para os ensaios da banda e as aulas – a banda tem mais um estúdio, maior e bem equipado, em outra garagem. Há cerca de um mês a Mistura Retrô gravou seu primeiro CD. “Agora, falta prensar, para distribuir no ano que vem,” prevê.


Quem viu, ainda lembra

Para recordar. Ex-funcionário público federal, aos 87 anos Ozório Candido Ferreira conhece como poucos as histórias de Joinville
Fotos Rogerio da Silva/ND
Registros. Ozório se preocupa com a preservação da memória da cidade e coleciona moedades, como as da Cooperativa de Pirabeiraba (no detalhe), que era amplamente aceita no comércio local em meados do século 20

 

 

Se alguém ainda duvida que a leitura amplia os horizontes e pode até mudar o destino de uma pessoa, a história do funcionário público federal Ozório Candido Ferreira está aqui para demonstrar que ela pode, sim. Nascido em Joinville em 1927, filho de uma família humilde, Ozório fez da busca pelo conhecimento um hábito, um prazer, uma forma de vencer na vida. Hoje é autor de três livros de memórias e crônicas (e pelo menos mais um ainda inédito), além de inúmeros estudos filosóficos. Com sua memória privilegiada e a preocupação em preservar a história local, colabora com o Arquivo Histórico de Joinville e é reconhecido por conhecer como poucos a cidade em que nasceu.
Mas a história de Ozório poderia ter sido bem diferente. Filho de pai iletrado, o menino nasceu em uma área pobre, no final da antiga rua Conselheiro Mafra, atual rua Abdon Baptista, em um terreno que era dividido por várias famílias. O pai era pintor de paredes, fazia os desenhos que decoravam as paredes das casas na época e lutava com dificuldades para sustentar os 11 filhos. Ozório, com 12 anos, ia à escola, mas não se saía muito bem. Até que um dia, isto começou a mudar.
Ele conta que um dia a mãe pediu que ele fosse a farmácia e, ao passar em frente a antiga casa de Procópio Gomes de Oliveira, na avenida que leva seu nome, se deparou com Moacir Gomes de Oliveira, filho mais novo do ex- prefeito. Moacir tentava em vão tirar um gato de cima de uma árvore e pediu ajuda ao menino. Quando Ozório lhe entregou o gato, Moacir, que era dentista e escritor, puxou papo e perguntou como ele ia na escola. “Eu falei que não ia bem, que não assimilava muito. E ele se ofereceu para me dar instrução. Eu passei a ir lá todas as tardes e ele me dava a lição,” recorda Ozório. Moacir dizia que o menino precisava ler e o ensinou a fazer leitura dinâmica e a tomar gosto pelos estudos, o que fez a diferença na vida do menino e contribuiu para mudar seu futuro. “Isto me emociona até hoje.”
A leitura passou a fazer parte da vida do menino – e faz até hoje. Ele terminou o primário no Colégio Conselheiro Mafra e depois o ginásio e equivalente ao ensino médio no Bom Jesus. Aos 14 anos começou a trabalhar como mensageiro no Telégrafo Nacional – quem levava as mensagens até a casa das pessoas. “Era estafeta,” esclarece.
A telegrafia era o principal meio de comunicação a longa distância e fundamental para as atividades do comércio e da indústria de uma cidade em pleno desenvolvimento. Ozório se interessou pelo assunto e foi se aperfeiçoando. “Eu queria ser chefe da repartição e fui estudar telegrafia,” conta. Primeiro aprendeu o ofício na própria agência dos correios e telégrafos, localizada na praça Nereu Ramos. Depois estudou em Florianópolis e prestou concurso público federal. Aos 20 anos era telegrafista formado e logo focou-se em rádio-telegrafia, uma área promissora. “Aperfeiçoei a leitura do morse para rádio-telegrafia educando o ouvido,” conta, explicando que “educar o ouvido” era fundamental  para distinguir as letras na decodificação da mensagem.

 

Aperfeiçoei a leitura do morse para rádio-telegrafia educando o ouvido.”

 

Consultor do  Arquivo Histórico
A busca pelo conhecimento o fez estudar a vida inteira. Assinante da revista Seleções do Readers Digest desde a primeira edição nacional, em 1943, um dia se deparou com uma reportagem sobre espiritualidade e um anúncio da Ordem Rosa Cruz. Ingressou na Ordem e começou a receber as monografias em espanhol, vindas dos Estados Unidos.
Ao longo da vida, Ozório sempre se interessou por história. Colecionador de moedas, guarda entre suas relíquias uma antiga moeda da Cooperativa de Pirabeiraba, que era amplamente aceita no comércio local em meados do século 20. E colabora há décadas com o Arquivo Histórico de Joinville, identificando fotos antigas e fazendo relatos que mostram como era a cidade no passado recente.
Aos 87 anos, a leitura e a escrita continuam sendo companheiras inseparáveis. Ozório escreve todos os dias – redige à mão, depois digita o texto em seu computador, imprime e guarda. “Às vezes estou dormindo, acordo e escrevo,” revela ele que em seus escritos deixa registrado um pouco das memórias da cidade.


A menina que ama as borboletas

Natureza. Vitória e a avó Solange plantam flores e colhem uma enorme amizade
Carlos Junior/ND
Laços. Solange orienta Vitória no plantio e rega do jardim, enquanto esperam pelas flores e borboletas

 

 

 

 “O segredo é não correr atrás das borboletas... é cuidar do jardim para que elas venham até você. No final das contas, você vai achar, não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você..!"
Mário Quintana

 

As mãozinhas pequenas cravam com firmeza as sementes de girassol na terra e depois pegam o regador para molhar o terreno. Aos 5 anos, Vitória Pfiffer Duarte não para de mexer nos canteiros nem enquanto conversa. Junto com a avó Solange Baiochi, tem um objetivo para esta primavera: plantar flores, muitas flores, para colorir o jardim e atrair as borboletas. “Eu planto para vir borboletas,” explica, objetiva. E junto com as plantas, ela e avó cultivam no dia a dia uma história de amor e amizade. “Desde que ela chegou, só trouxe coisas boas,” declara-se a avó.
O fascínio de Vitória pelas borboletas é antigo. Mas aumentou há cerca de um ano quando um pé de maracujá, fixado na cerca da casa da avó, no bairro América, começou a florescer e a atrair os delicados insetos. A menina olhava a profusão de cores e se encantava. As flores viraram frutos, e os frutos transformaram-se em tortas feitas artesanalmente pela mãe da menina. A mãe descobriu um novo negócio; a filha, uma paixão, e Solange, mais um vínculo com a netinha. Mas o pé de maracujá cedeu lugar a uma nova cerca, as flores deixaram de brotar e as borboletas tomaram outros rumos. Foi aí que a proximidade da primavera inspirou Vitória e Solange a investir em uma nova empreitada: atrair as borboletas de volta.
As duas começaram a cultivar um canteiro em um cantinho do quintal. Remexeram a terra, colocaram adubo e separaram mudas do próprio jardim para enfeitá-lo. Depois compraram uma caixinha com begônias coloridas e plantaram cuidadosamente. A cada fim de semanaVitória tem um compromisso marcado: coloca suas botinhas cor-de-rosa e vai para a casa da avó cuidar de  seu canteiro. E não só dele. Também plantou um vaso de almeirão e está semeando girassóis pelo terreno. “Gosto de plantar girassol,” afirma a menina, que nestas semanas já plantou mais de setenta sementes pelo quintal. A avó, criada em sítio, a acompanha e estimula, ensinando o manejo e colocando a mão na terra junto com a neta. “Nós não usamos luvas. A criança tem que ter contato e colocar a mão na terra,” ensina.
Em meio a suas flores, Vitória comenta que gosta de ir para a casa da avó para cuidar de seu jardim e ver desenho na TV. Sonha em ser pintora e fazer quadros com gatinhos. Planta hoje para colher no futuro. E espera, paciente, as borboletas que estão para chegar. “Faz tempo que a gente não vê uma. Mas vamos ver!”, afirma, com a certeza de quem faz a sua parte.


A serviço da beleza

Estética. Há mais de 50 anos Nailda Bohn Fischer cuida dos cabelos das senhoras de Joinville
Foto Rogério Souza Jr
Disposição. Aos 80 anos, Nailda trabalha no salão todos os dias

 

 

Um corte de cabelo aqui, um penteado mais elaborado ali, uma tintura para ajudar a remoçar. Ao longo de mais de cinco décadas, Nailda Fischer exercitou seu talento como cabeleireira, contribuiu para deixar mais belas as senhoras de Joinville e também para formar muitos dos profissionais que atuam na cidade. E ainda hoje, aos 80 anos, está a frente de seu salão de belezas, sempre na avenida Getúlio Vargas. “Não me vejo parada”, justifica.
A vocação para ser cabeleireira surgiu no final da adolescência. Aos 14 anos, Nailda começou a trabalhar na antiga fábrica de velas da Wetzel, na linha de produção. Mas não era sua vocação. Na verdade, a menina gostava mesmo era de lidar com o público, de se comunicar. “Gostava de lidar com cabelos e com o público”, revela ela, que entrou como aprendiz no salão da dona Odete, um antigo estabelecimento na rua Visconde de Taunay. Lá aprendeu a prática a arte de cortar e cuidar de cabelos.
A partir daí começou a trabalhar por conta própria e a buscar cursos e mais cursos para se aperfeiçoar. Tinha pouco mais de 22 anos quando começou a atender em casa mesmo, na rua Paraíba, bairro Atiradores. Depois alugou uma salinha, atrás de um Secos e Molhados onde hoje fica a Panificadora São José. “Era uma portinha”, relembra. Mas uma pessoa passava a referência a outra e mesmo sem nenhum tipo de propaganda a clientela logo foi aumentando.
Um dia, nos anos 60, uma senhora chamada Arlete Moeller a procurou para fazer um permanente – uma técnica usada para dar mais volume aos cabelos lisos. O resultado foi tão positivo que logo as amigas também vieram. “Ela que formou a clientela. Tinha um kränzchen e ia falando para as amigas,” revela, referindo-se ao tradicional lanche das senhoras. “A elite era minha clientela”, comenta Nailda, que aos sábados começava a atender por volta das 5h (isto mesmo, cinco da manhã) e ia até depois da meia-noite – sempre com hora marcada.
Para atender a essa clientela, o primeiro diploma oficial veio em 1960. No final dos anos70 e na década de 80, a cabeleireira foi se aperfeiçoar em Paris. E ainda nos anos 80 construiu o prédio onde atua até hoje e montou o Nailda Coffeur – antes o salão se chamava Silhueta.

 

Bobs para fazer cachos e dar volume aos cabelos
Nestes anos todos de atuação, Nailda acompanhou as várias tendências em corte e penteado. Se atualmente as escovas progressivas para deixar as madeixas lisas são as campeãs no salão, há três ou quatro décadas a moda era o permanente para dar cachos a quem tinha cabelo liso. Na época, também era comum as senhoras enrolarem os cabelos com bobs em busca de mais volume no penteado. “Ainda hoje enrolo”, afirma.
Nailda Fischer já está oficialmente aposentada há tempos. Mas quem disse que quer parar? “Não tenho vontade de ficar em casa,” revela ela que chega no salão todos os dias por volta das 8h30 e não sai antes das 18h, sempre com muita disposição para fazer o que  gosta.


Acordes à beira da lagoa

Virtuose. Aposentada a broca, Hamilton Leimann dedica-se ao violino
Rogério Souza Jr/ND
Música.Hamilton dedica-se ao violino desde os 11 anos de idade

 

 

Antes, o som que Hamilton Homero Leimann mais ouvia era o da broca abrindo caminho dente adentro, eliminando mais uma cárie e preparando o espaço para a restauração. Agora, o ruído do motorzinho deu lugar aos acordes tirados no violino, diante de alguma partitura, no sossego de sua casa a alguns metros da lagoa, em Balneário Barra do Sul, para onde o dentista praticamente se mudou, aposentado após 47 anos de carreira. “Sempre me dediquei à música e aprendi a tocar violino aos 11 anos de idade, com Álvaro Borges Landmann, um músico do cinema mudo”, conta o dr. Hamilton, remido no ano passado pelo Conselho Federal de Odontologia, ao completar 71 anos de idade.
Nascido em Guaramirim em maio de 1940, aos 6 anos Hamilton se tornava joinvilense. Estudou nos colégios Germano Timm e Bom Jesus e fez a faculdade de odontologia na Universidade Federal do Paraná. “Meu pai era dentista, mas não foi o que me influenciou na escolha da carreira. Eu queria mesmo era ser astrônomo”, revela. Os altíssimos sonhos foram substituídos pela praticidade e Hamilton começou a clinicar logo que se formou, em 1965. Em seu cantinho preferido, na casa de Barra do Sul, entre centenas de livros, violinos, partituras e dezenas de certificados de cursos de aperfeiçoamento (inclusive um de hipnose, para facilitar no tratamento), Hamilton guarda uma prosaica broca movida a pedal, que seu pai chegou a utilizar.
Na estante, há espaço até para um dicionário inglês-grego. “Depois que me aposentei, decidi aprender grego para tirar dúvidas da Bíblia”, justifica, citando trechos passíveis de interpretações dúbias. “Não dá para traduzir tudo literalmente”, acrescenta.

 

“Meu pai era dentista, mas não foi o que me influenciou na escolha da carreira. Eu queria mesmo era ser astrônomo.”

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
História. Músicos da orquestra da Lyra que tocaram na inauguração de uma loja maçônica em Joinville, nos anos 60: Ademar Trinks, Leopoldo Kohlbach, Hamilton Leimann, Eugênio Trinks, Lilo Dietrich, Júlio Birckholz e o maestro Ludwig Seyer

 

 

Dom para a música
Hamilton Leimann tem o que se chama “ouvido musical”, o dom de aprender facilmente e desenvolver as habilidades sonoras. A influência vem de casa: “Meus pais tocavam e cantavam no coral da igreja batista”. Decidido a ser músico, Hamilton aprendeu a tocar violino com 11 anos e nunca mais parou.
Durante muitos anos, o dentista se dividiu entre a clínica, o aperfeiçoamento profissional, os ensaios e as apresentações como violinista da orquestra filarmônica da Sociedade Harmonia Lyra. Em seus arquivos zelosamente guardados, estão diversos programas dos incontáveis concertos de que participou, sob a regência de grandes maestros, de Ludwig Seyer a Tibor Reisner. “Em 1975 toquei num concerto regido pelo maestro Isaac Karabtchewsky”, acrescenta o violinista, brandindo orgulhoso o programa autografado pelo famoso maestro, contando detalhes dos ensaios e enaltecendo o carisma do regente.
Hamilton Leimann fez parte da orquestra da Lyra praticamente até o fim das atividades do grupo. Depois, ainda integrou a orquestra da Sociesc. Hoje, curtindo o sossego de Barra do Sul, ainda se apresenta, seja em dueto com a pianista joinvilense Miriam Luckow, seja com o violonista/guitarrista Júlio César Peixer, líder da banda barra-sulense Mistura Retrô. “Ainda que possa parecer estranho, o violino e a guitarra têm uma harmonia perfeita”, garante Hamilton, demonstrando seu virtuosismo e ecletismo ao interpretar obras variadas nas poses para as fotos.

 

Os dias do dentista
Hoje, 3 de outubro, comemora-se o Dia Mundial do Dentista, em alusão à abertura da primeira escola dentária, em 1840 em Baltimore, nos Estados Unidos. Já 25 de outubro é o Dia do Dentista Brasileiro, porque nesta data, em 1884, foi assinado o decreto que criou os primeiros cursos de graduação de odontologia do Brasil, no Rio de Janeiro e na Bahia.


GUERREIRA do cotidiano

Bom exemplo. Farmacêutica Adelaide Lins fez de sua vida um exercício de superação
Rogério Souza Jr/ND
Balcão. Além de cuidar das suas farmácias, Adelaide ainda criou a Associação de Mulheres Especiais na comunidade do bairro Morro do Meio

 

 

Uma guerreira. Se fosse possível definir um ser humano com apenas uma palavra, a farmacêutica Adelaide Lins certamente seria a guerreira. Nascida prematura, rejeitada pela mãe ainda na maternidade e com sequelas físicas causadas por uma gravidez indesejada e escondida, Adelaide foi adotada quando ainda era recém-nascida e desde cedo aprendeu que tinha que lutar para superar as adversidades. E conseguiu. Sempre com um sorriso no rosto e um abraço para acolher os que chegam, hoje ela é farmacêutica e empreendedora – acaba de inaugurar a segunda farmácia no bairro Morro do Meio -, construiu sua própria família, criou na comunidade a Associação de Mulheres Especiais para trabalhar a autoestima do grupo e está sempre pronta para ajudar quem a procura. De sua experiência de vida ficou uma lição: “Você não pode ter pena de si,” ressalta.
Adelaide conta que sua mãe biológica era empregada doméstica em uma casa de família em Massaranduba. Um dia, Ernestine Witte Lins, filha da dona da casa, foi visitar a mãe e teve a intuição de perguntar pela empregada. A moça estava grávida de seis meses, mas usava uma faixa apertada para esconder a barriga e ninguém desconfiava. Nesse dia, porém, ela passou mal e foi levada para a maternidade. Lá, Adelaide nasceu com apenas 1,2 quilo. As chances dessa história ter um final feliz eram remotas. O médico disse que ela não sobreviveria e a mãe biológica não a queria. “Ela dizia que eu era a desgraça de sua vida”, conta.
Ernestine então tomaria uma decisão que mudaria o futuro do bebê. Voltou para Florianópolis, onde morava, e comunicou ao marido que ia adotar a menina. “Ele falou que podia se desse o nome de Adelaide D'Alcanfer Lins, que era o nome da avó dele”. Assim o bebê, com 20 dias de nascido, entrou para a família, que já tinha outros três filhos.
Quando chegou a idade de começar a andar, um problema apareceu. Em decorrência do período espremido dentro da barriga da mãe biológica ela sofreu uma hipotrofia que afetou a parte motora. “Não tinha espaço para eu me desenvolver”, explica ela que andou com quase três anos de idade e aos sete passou por uma cirurgia para alongar a perna. Hoje, é preciso olhar muito atentamente para perceber o problema que a acompanhou durante toda a vida.

 

(...) “A minha mãe dizia que a gente não é uma perna ou um braço, mas uma pessoa. E que todo mundo tem defeitos e tem que superá-los.”

 

Novas provações e lições
Depois disto passou por momentos difíceis quando a avó adotiva foi morar com a família. Como era filha da empregada, a avó a fazia, com menos de sete anos, encerar a casa toda e fazer trabalhos domésticos. Em alguns momentos chegava a dizer que ela não serviria nem para trabalhar como empregada doméstica, não servia para casar e não ia ter filhos. “Eu não respondia, mas desde pequena pensava: eu consigo, você é que não sabe.”
A mãe adotiva não sabia o que a menina passava em casa e teve um papel fundamental na formação dela. “Era carinhosa e me ensinou a ser guerreira”, revela a farmacêutica. Na escola, as crianças também implicavam devido à deficiência física, mas Ernestine a ensinou a chave para superar o bullyng. “Me chamavam de mula manca, davam risada. Mas a minha mãe dizia que a gente não é uma perna ou um braço, mas uma pessoa. E que todo mundo tem defeitos e tem que superá-los.” O pai faleceu quando ela tinha nove anos, mas também deixou sua marca. “Ele dizia: Tu vais crescer, vais ser mulher e vais ser uma pessoa de bem. Isto ficou gravado.” Assim a menina foi se fortalecendo e adotando a postura que marcaria toda a sua trajetória.       
Adelaide ainda adolescente começou a trabalhar em uma farmácia homeopática em Florianópolis. Lá conheceu o futuro marido, Cláudio, e a mãe dele, dona Mari, a dona da farmácia. No dia a dia do local descobriu sua vocação e entrou na faculdade de farmácia. “Amava a farmácia. Só saí de lá quando comecei a fazer estágio”, recorda. Hoje, ela empresta um pouco da sua vivência para as pessoas que chegam ao balcão a procura de um remédio e – muitas vezes – um pouco de atenção. “A força está em o que você faz e em como você se enxerga. Para mim, na vida, só existe uma opção: dar certo”, afirma.


Diversão levada a sério

Época de ouro. Veteranos relembram os bons tempos do esporte joinvilense
Rogério Souza Jr/ND
Reconhecimento.  Aroldo Strohmeyer divide as lembranças dos anos de ouro do esporte com os amigos da mesma época nos encontros das segunda-feiras na Sociedade União Palmeiras

 

 

A cidade de Joinville ainda preserva um arquivo vivo de uma época de ouro do esporte da região, quando o profissionalismo era uma realidade distante e a diversão era o principal motivo para entrar em campo, na quadra ou numa pista de atletismo. Para abrir as gavetas desta memória, basta passar algumas horas num dos diversos stammtische que reúnem os veteranos nos clubes e outros pontos de encontro da cidade.
Um deles é a Sociedade União Palmeiras, no bairro América, onde todas as segundas-feiras um grupo de amigos bate ponto paga jogar animadas partidas de bocha, entre lembranças do passado e comentários sobre fatos atuais. Ali podem ser encontrados antigos craques do basquete, do vôlei, do remo e do atletismo, que se dedicavam ao esporte depois de encerrar mais um dia de trabalho – isso quando não vestiam o uniforme somente após a aula noturna.
Entre eles está Aroldo Strohmeyer, mais um dos polivalentes atletas do passado. Mas ele garante: “Éramos amadores, jogávamos pela diversão e pelo congraçamento, mas as competições eram levadas a sério”. Motivos para demonstrar competitividade não faltavam, pois não eram poucas as rivalidades em quadra, tanto nas competições domésticas quanto enfrentando agremiações de outras cidades.
Strohmeyer nasceu há 80 anos, quando a rua dos Ginásticos se chamava Luis Brockmann. “Nasci por ali e me criei na rua Mário Lobo. Aos 10 anos fui para São Paulo fazer o ginásio, graças à intervenção do monsenhor Sebastião Scarzello. Quando retornei, três anos depois, fiz o curso de contabilidade no Bom Jesus, aprendi a jogar basquete e comecei a trabalhar.”

 

“Fui medalha de ouro nos 100 e nos 200 metros rasos e no salto triplo nos Jogos do Centenário de Joinville, em 1951, tudo com recorde!”

 

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Nostalgia. O atleta no desfile do centenário de Joinville e o time de basquete Palmeiras, em 1950

 

Recordes nas pistas
As prioridades na vida de qualquer joinvilense daquele tempo eram as mesmas: trabalhar, estudar e praticar algum esporte – nesta ordem. Assim, Aroldo Strohmeyer teve sua carteira profissional assinada pela primeira vez ainda na adolescência, na Representações Albor, braço comercial da Drogaria Catarinense. Trabalhou também na Nevasa (Nelson Valter S/A), um misto de revenda de autopeças, oficina mecânica e posto de combustíveis, e na Otel (Organização Técnica de Eletricidade), após se formar técnico contábil.
Nas quadras de basquete, Strohmeyer defendeu unicamente as cores do Palmeiras e da Seleção de Joinville. “Fui campeão da cidade e tricampeão do Estado pelo Palmeiras. Nossos principais adversários em nível estadual eram o Caravana do Ar e Lira, de Florianópolis; Olímpico e Vasto Verde, de Blumenau; e o Diocesano, de Lages. Por aqui, jogos encrencados eram disputados contra o Náutico de São Francisco, pois eles tinham bons jogadores de fora, que serviam na Marinha.” Strohmeyer jogou até 1960, quando precisou parar devido a múltiplas contusões. “Desloquei os dois braços”, explica, acrescentando que chegou a defender Joinville nos Jogos Abertos do Interior de São Paulo.
Strohmeyer também jogou vôlei pelo Palmeiras, além de ter praticado ciclismo, “só por diversão”. Mas é das pistas de atletismo que vêm as lembranças que lhe permitem estufar o peito de orgulho: “Fui medalha de ouro nos 100 e nos 200 metros rasos e no salto triplo nos Jogos do Centenário de Joinville, em 1951, tudo com recorde!” No centenário, por sinal, além de competir, Aroldo Strohmeyer foi um dos tantos voluntários que deram todo o esforço para tornar os festejos inesquecíveis. Estas e muitas outras recordações são mais um motivo para que ele não falte aos encontros das segundas-feiras no União Palmeiras, onde reencontra os amigos, agora para jogar bocha.


Uma união escrita nas estrelas

Destino. História do casal Hansson começou quando os dois nasceram

Luciano Moraes/ND

Convivência. Wini e Herbert no orquidário do casal, onde estão pouco mais de 800 espécimes de vários tipos

 

Herbert e Wini são protagonistas de uma história de amor exemplar, predestinada a começar no “era uma vez...” e prosseguir no “felizes para sempre”. Entre orquídeas, relíquias sobre quatro rodas e muito amor à vida, os Hansson vão atravessando gerações, testemunhando as transformações da cidade onde nasceram e formaram família. Dentro de uns dois meses, uma das principais atividades do casal certamente será começar a deixar sua residência toda enfeitada – afinal, não é à toa que eles moram bem no comecinho da rua do Papai Noel.
Herbert Hansson, descendente de suecos, mas criado em família alemã, nasceu apenas dois meses antes de Wienefred Todt, no mesmo ano de 1931. “Na primeira visita que fiz à minha futura namorada, fui no colo da minha mãe”, brinca Herbert, referindo-se ao fato de ambos terem nascido no Hospital São José. Seu avô, sueco, morreu atingido por um dardo atirado por índios, numa das muitas escaramuças entre os colonos e os chamados “bugres” – geralmente por intransigência destes últimos, garante Herbert. “Meu pai, órfão, foi criado pela família Reu; por isso acabei tendo uma criação alemã,” esclarece. Quando Herbert nasceu, a família Hansson morava na rua Ipiranga, atual Plácido Olímpio de Oliveira, no Bucarein. Depois, mudou-se para a rua Particular Rech, mais tarde Braço do Norte, no Centro. Estudou no Santos Anjos, jogou bola num campinho que havia na esquina das ruas Ministro Calógeras e Valgas Neves, fez o curso complementar no Conselheiro Mafra e datilografia no João Martins Veras e, aos 13 anos, começou a trabalhar no setor de estatísticada Prefeitura, na gestão do prefeito Arnaldo Moreira Douat. De lá foi para a Tupy, onde ficou durante 46 anos, até se aposentar.

 

“Meu sogro dizia que já tinha nos reservado um para o outro quando nascemos.”
Herbert Hansson

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Bodas. O casamento em janeiro de 1954

 

Destinos cruzados
Poderia ser título de filme, mas é o enredo da vida de Herbert e Wini. Se ele nasceu dois meses antes, ela já estava no colégio João Martins Veras quando o filho dos Hansson entrou lá. “Meu sogro dizia que já tinha nos reservado um para o outro quando nascemos”, brinca Herbert. Pois é, e adivinhe quem já trabalhava na Tupy há dois meses, quando ele foi admitido? Ela mesmo, Wini, no escritório, praticando o que aprendera no Martins Veras. Resultado: no dia 19 de janeiro de 1954 a Tupy registrava o primeiro casamento entre funcionários.
O esporte também agitou a vida do casal: enquanto Wini jogava bolão pelo Glória, Herbert praticava basquete e atletismo no Palmeiras, remava pelo Atlântico e jogava bolão pela Tupy e pelo clube Blitz (o Relâmpago, perfil da edição de 11 de agosot). Hoje, continua encontrando toda semana os companheiros do Blitz, mas para jogar caneco.
Aficionado por carros, Herbert – um dos fundadores do Veteran Car – conserva algumas relíquias, como um Galaxie 74, uma Mercedes 88 e um Ford Royale 94. Filiado à Ajao (Agremiação Joinvilense de Amadores de Orquídeas), tem em casa pouco mais de 800 espécimes de vários tipos – Wini quase se tornou uma orquidófila, ajudando a cultivar as flores. Para arrematar, Herbert também foi um dos fundadores da Associação Escandinava de Joinville.
O ritmo, claro, adapta-se à idade e às condições de saúde – Herbert ainda sente os efeitos de um câncer na medula óssea que o desafiou há alguns anos. Mas o casal sempre dá um jeito de conciliar as atividades. Sobra um tempinho para Herbert se acomodar em sua poltrona preferida e assistir TV. Na parede, o quadrinho adverte em alemão: “Hier is mein platz, nicht mein sack füllen”. Em bom português, “aqui é meu lugar, não encha meu saco”.
Essa é uma história que começa com “era uma vez...” e prossegue com “felizes para sempre”. Aqui não tem a palavra “fim”.


As torres do mundo em Joinville

Cerâmica. Escultor Charles Homero Ciekalski expõe 15 obras na Aaplaj a partir do dia 24 de outubro
Carlos Junior/ND
Para o alto. No atelier da Aaplaj, Homero dedica parte do dia a obras ainda inéditas para o público, que vai apresentar somente na exposição

 

 

Charles Homero Ciekalski é uma dessas pessoas muito fáceis de serem localizadas em Joinville, basta dar uma passada na Aaplaj (Associação dos Artistas Plásticos de Joinville), lá na Cidadela Cultural Antártica. Na parte da manhã ou à tarde, ele está produzindo peças em argila, sentado sobre um banquinho tendo à frente uma base giratória, onde fica a obra em construção.  Ele carrega consigo uma parte de suas andanças por outros continentes na forma de pingentes, bottons e pequenos adornos no boné, um acessório inseparável e uma marca do artista. Charles é dono de uma sólida formação cultural, apesar de ter freqüentado os bancos escolares somente até o ensino médio, por conta do “berço”. Ele é filho de pai escritor e poeta; sua mãe é artista plástica dedicada à pintura sobre tela.
Natural de Santa Maria (RS), ainda pequeno, na companhia do primo Michel Andres, Charles viajou para a cidade de Santo Cristo, nas proximidades de Santa Rosa. Ali brincavam e retiravam de um açude uma argila azulada e macia, com a qual ele e o primo faziam enormes estátuas de dinossauros, o brinquedo preferido de sua geração. “Hoje, percebo que a gente fazia alguns dinossauros muito bons sob o aspecto estético, grandes e bem proporcionais. Pena que nossos pais e nós mesmos não guardamos nenhum.” A satisfação provocada pelo manuseio da argila úmida e lisa nunca mais abandonou esse riograndense radicado na cidade há pouco mais de dois anos. Aos 15 começou a produção de suas primeiras peças e, em 1994, aplicou as técnicas de moldagem e estruturação, cujo resultado foi uma finalização de seus trabalhos de forma mais apurada e de boa qualidade. Autodidata, iniciou o aprimoramento na técnica com professores particulares e por meio de pesquisa. Em 1998 fez sua primeira exposição independente na agência dos Correios de sua cidade.
Outra paixão foi o bonsaísmo, cuja base do projeto é uma vasilha de cerâmica de várias formas ou tamanhos. Após fundar a Aboren-RGS (Associação de Bonsaístas da Região Nordeste do RGS), realizou inúmeras exposições e, em 2006, viajou para a Alemanha onde permaneceu durante oito meses. Depois, foi para a Inglaterra na companhia de alguns primos com a finalidade de estudar, onde ficou até 2010. Lá produziu quadros em óleo e acrílico vendidos para turistas da Arábia Saudita, Paquistão, Irã, França, Itália, Alemanha, Espanha e países da América Latina. Baseado na Europa, aproveitou para realizar viagens de estudos e observação, de onde surgiu o encantamento pelos castelos medievais e suas torres. “As torres dos castelos tinham funções variadas. Próximas do chão e abaixo dele, serviam como prisão; no alton onde é mais seco, eam guardados os alimentos, a proteção da família e até o aprisionamento de seu amor,” filosofa Homero. Depois de retornar para o Brasil, se estabeleceu em Joinville e começou a fase de produção de grandes torres em cerâmica.

 

“Fiz questão de incluir a torre da Estação como uma declaração de amor a essa cidade que me recebeu de maneira tão especial.”

 

Exposição de torres
Agora, Homero está finalizando sua primeira exposição na cidade, intitulada “Torres do Mundo”, composta por 15 peças inéditas. A mostra abrirá para visitação no dia 24 do próximo mês na Aaplaj. “Essa exposição terá somente duas obras conhecida do público. Uma réplica do Big Ben e outra de uma das torres da estação Ferroviária de Joinville, que acho belíssima.” Também farão parte desse trabalho duas telas em acrílico, além de uma torre especial já projetada. Segundo o artista, a construção começou esta semana, pois ele aguardou a chegada de mais argila. “Fiz questão de incluir a torre da Estação como uma declaração de amor a essa cidade que me recebeu de maneira tão especial.” (Valter F. Bustos, especial para o Notícias do Dia)


De cipó e costaneira

Da mata. Artesão radicado em Garuva produz miniaturas e peças para decoração de jardins

Fotos Fabrício Porto/ND

O que faz. Na localidade de Três Barras, interior de Garuva, Joaquim Hélio Dias faz casinhas e outros elementos específicos para ambientes rústicos

 

 

Incentivado pelo pai, Joaquim Hélio Dias aprendeu o ofício de tecer balaios e peneiras quando tinha 13 anos de idade. Passados 45 anos do seu ingresso nesse tipo de atividade, hoje ele é um mestre artesão requisitado por consumidores de Joinville, Curitiba, São Bento do Sul, Rio Negrinho, entre outras cidades. “Escreve aí que tenho também fregueses em Garuva, onde nasci e mantenho meu atelier; santo de casa, de vez em quando, faz pequenos milagres”, assinala espirituoso.
Com tantos anos de ofício, Hélio trabalha com uma linha de mais de cem tipos de peças artesanais em madeira bruta e beneficiada. “Tenho desde miniaturas até peças grandes e por isso o preço varia de R$ 1,50 a R$ 200,” informa o calejado artesão instalado perto do assentamento Conquista no Litoral, na comunidade garuvense de Três Barras. Hélio enfatiza que a grande variedade de peças é uma necessidade ditada pelo mercado. “Algumas peças, que há dez anos era febre, hoje ninguém quer mais. Por isso preciso estar em constante evolução para atender os desejos da clientela de uma rede de floriculturas onde está concentrada a demanda de minha arte”, esclarece.
Com uma pontinha de orgulho, Hélio informa que vive exclusivamente do artesanato há mais de quatro décadas. “No começo da carreira morei em Curitiba, onde dividia o tempo entre o artesanato e a jardinagem. Ao voltar para Garuva me concentrei unicamente no artesanato, condição que não se alterou quando passei 15 anos em Rio Negrinho antes de me fixar em definitivo aqui em Três Barras, onde pretendo deixar meus ossos”, resume bem humorado.
De bem com a vida, Hélio ressalta que o artesanato não o deixou rico, mas lhe garante até hoje condições confortáveis. “Criei três filhos e hoje estou ajudando a sustentar cinco sobrinhos e de mais uma criança; tudo sai do meu trabalho de artesão”, conta sorridente. Por conta do grande volume de encomendas, Hélio atualmente trabalha com a ajuda de três parentes. O grosso da produção é vendido no próprio atelier. “Como tenho um automóvel miúdo, só faço entregas pequenas. A freguesia já se acostumou a buscar as mercadorias, o que é muito bom. Assim, sobra mais tempo para produzir”, salienta.
Na atual fase, a matéria-prima preferida por Hélio é costaneira de pinus para a produção de pocinhos, bicicletas, carrinhos de mão e triciclos, emoldurados com detalhes em cipó imbé. “Com o emprego de costaneiras, daqui sai artesanato bruto, que combina com ambientes rústicos”, define o veterano artesão.

 

“Com o emprego de costaneiras, daqui sai artesanato bruto, que combina com ambientes rústicos.”

 

Pássaros como parceiros
O atelier de Hélio fica em lugar sossegado e encoberto por floresta atlântica e muitas árvores frutíferas, em cujas galhadas jacus, aracuãs e até guachos fazem seus ninhos e quebram o silêncio da aurora com seus cantos. “A passarinhada alegra meus dias com seu trincado e ajuda a espalhar as sementes de cipó imbé, matéria prima indispensável no meu trabalho. Tenho, portanto, dois bons motivos para afugentar qualquer um que se atrever a aparecer por essas bandas com uma espingarda na mão,” avisa o divertido artesão.  (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)

 

  


O recanto dos Westarb

No meio do verde. Empresário transformou chácara, localizada no caminho Ronco D’Água, em local rústico para eventos
Fabrício Porto/ND
Paisagem. Sérgio Roberto conciliou o projeto de preservar a memória dos familiares, a natureza e negócios em um mesmo lugar

 

 

 

Ronco D’Água, caminho lateral da Estrada do Pico, é um dos mais belos lugares da área rural do distrito de Pirabeiraba. E está ficando ainda mais lindo por obra de Sérgio Roberto Westarb, conhecido empresário do segmento de prestação de serviços por ser um dos fundadores da autoelétrica DW, instalada na rua Max Colin. Apaixonado pela natureza e pela vontade de fazer alguma coisa por ela, Sérgio Roberto comprou há 23 anos uma chácara de 17 mil metros quadrados em Ronco D’Água. Posteriormente incorporou outras áreas, totalizando 135 mil metros quadrados dos quais mais de 80% estão cobertos por mata atlântica.
Ao mirar na necessidade de se manter ativo depois da aposentadoria que está se avizinhando, além de preservador, Sérgio Roberto virou também investidor no Ronco D’Água. Ele transformou a gleba de terra num centro de eventos onde se destacam dois ambientes: o Saloon Westarb, com capacidade para 250 pessoas, e o Country Bar, para 100 participantes.  Ambas as edificações foram erguidas no mais autêntico estilo rústico e ostentam rica decoração que remete ao velho oeste americano e seus legendários personagens.
Sérgio Roberto conta que para viabilizar o projeto aplicou quase todas as economias juntadas em mais de 30 anos de trabalho. Foi desse esforço que surgiu a CTA (Chácara Theodomiro e Augusta), uma homenagem que o dono do complexo turístico faz aos seus bisavós maternos. Feliz com o projeto, onde são realizadas festas de casamentos, aniversários, congraçamentos empresariais e retiros religiosos, Sérgio Roberto informa que a CTA não abre as porteiras para visitas individuais ou de grupos. “O complexo destina-se exclusivamente à realização de eventos. Fora disso não tem conversa”, reforça para não deixar dúvidas.
Ao lado dos espaços para eventos, Sérgio Roberto ergueu um chalé, também rústico, onde está exposta uma coleção de fotografias antigas, na qual estão registrados momentos históricos de Joinville e Santa Catarina. Em breve o ambiente receberá a exposição de uma motocicleta singular, a IWJ (iniciais de Irineu Westarb, de Joinville). “É uma moto com motor de fusca 1200, que meu pai Irineu Westarb construiu em 1978 e fez muito sucesso”, esclarece.

 

“Aqui os passarinhos terão espaço para voar e brincar nas ramadas das árvores.”

 

Projeto singular
O lugar é caracterizado por muito verde, onde se destacam lagoas habitadas por diversas espécies de peixes, pastagem com a presença de algumas ovelhas e um amplo pomar plantado por Sérgio Roberto. De quebra, o ambiente é emoldurado até por uma piscinas natural no leito do riacho Ronco D’Água, que passa por dentro da CTA.
No futuro, se a legislação ambiental permitir, Sérgio Roberto quer cobrir com uma tela especial um capão de mato da copada das árvores até o chão. O objetivo é oferecer um ambiente para a soltura de passarinhos de gaiolas apreendidos na região de Joinville. “Sei que o ideal é soltar esses passarinhos na natureza, mas levando em conta que no cativeiro eles perdem a capacidade de se alimentar por conta própria, quero fazer deste capão de mato uma área que ofereça um pouco mais de conforto a essas vítimas da insanidade humana. Aqui os passarinhos terão espaço para voar e brincar nas ramadas das árvores”, planeja Sérgio Roberto. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)

 

 


Uma vida pelo verde

Ambiente. Nilsa Gramkow aplica na prática o desenvolvimento sustentável
Fabrício Porto/ND
U m cesto de coisas boas. Nilsa exibe os produtos, como sucos e geleias, com a marca Via Pax Bio, produzidos na propriedade rural da rua dos Holandeses

 

 

“Acho que eu já nasci verde.” A constatação, em tom de brincadeira, mas com uma base séria e sólida, é de Nilsa Schroeder Gramkow, militante de causas ambientais e empresária do ramo de alimentos orgânicos, além de guardiã de uma extensa área verde na região rural. “Antes de morrer, meu pai me fez prometer que cuidaria das terras onde nossa família está há setenta anos”, diz Nilsa, orgulhosa do verdadeiro paraíso onde mantém extensa área de mata nativa, além de diversas espécies de árvores frutíferas, para que os pássaros tenham alimentação durante todas as estações.
Nascida em Joinville em 1952, filha de agricultores, Nilsa aprendeu desde cedo a dar valor para os frutos da terra. Primogênita de quatro irmãos, foi a primeira a aprender como se colocam sementes e mudas na terra. “Os filhos mais novos tinham a missão de ajudar na semeadura, e ali aprendi muito sobre agricultura e a importância de se cultivar alimentos frescos.” E mais: no colégio Olavo Bilac, onde estudava, Nilsa ajudava a cuidar do jardim. A família Schroeder morava na região conhecida como Estrada da Roça, que se ligava à Estrada da Ilha antes de ser interrompida e ganhar o nome atual de rua dos Holandeses, que começa na estrada Dona Francisca, no Distrito Industrial, e termina nas cavalariças do Golf Club. “Quando a rede de alta tensão precisou passar por aqui, foi necessário derrubar duas casas da nossa família, para erguer as torres. Naquele tempo, não se falava em desenvolvimento sustentável, mas desde então percebo que o progresso precisa ser compatível com outros interesses, como a tradição e a preservação ambiental.”

 

 “Fui abençoada com senso de observação razoável e adoro aprender os mistérios da terra.

 

Dedicação ao ambientalismo
Foi num baile na Sociedade Guarani, em Pirabeiraba, que Nilsa conheceu um técnico da Fundação 25 de Julho, o indaialense Ivo Gramkow. Ela conta: “Ivo e um amigo apostaram uma caixa de cerveja para ver quem ficaria com uma das moças no baile. Ele me tirou para dançar e acabou confessando que não teria como pagar a aposta, pedindo-me para dançar a última música de rosto colado. Começamos ali mesmo o namoro e algum tempo depois estávamos casados.”
Quando foi diretor da Tigre, Ivo Gramkow levou para dentro de casa a questão do saneamento básico, um dos segmentos em que a empresa atuava fortemente. “Vi o quanto a falta de políticas de saneamento prejudica a saúde pública.” À medida que os filhos cresciam, Nilsa foi se envolvendo com atividades nas APPs das escolas, participou de ações voluntárias em prol de atingidos por enchentes em Blumenau e, após um período de quatro anos morando em São Paulo, no retorno se filiou à ONG Vida Verde, além de integrar o Conselho Municipal de Meio Ambiente.
Quando o marido (falecido há pouco mais de um ano) se aposentou, o casal comprou a empresa Via Pax Bio, transferindo-a de Florianópolis para Joinville. “Adquirimos a parte dos meus irmãos na propriedade e instalamos a empresa, dedicada à produção de alimentos orgânicos, como geleias e sucos. A fábrica ocupa um terço dos 15 hectares da propriedade, ficando um terço para o manejo florestal e outro terço para uma área de preservação permanente,” explica Nilsa, demonstrando a afinação entre discurso ambiental e prática sustentável. Do ambiente fabril pouco se ouve; em compensação, o som da passarada é constante, ainda mais agora, quando se inicia a época de acasalamento. Ali, no sítio do Rio do Braço, também é desenvolvido um projeto de agricultura orgânica, na primeira unidade rural certificada em Joinville.


Buba, o multiatleta

Polivalente. Do tempo em que era preciso trabalhar e estudar antes de jogar, ele competia em remo, basquete e vôlei
Rogerio da Silva/ND
Disposição. Aos 85 anos, Buba trabalha no Hotel Colon

 

Nos anos 40 e 50 do século passado, praticar esportes era uma forma de manter o físico em dia e se divertir, encontrando os amigos; jogava-se por puro prazer, cultivando o verdadeiro espírito do amadorismo, longe da realidade do profissionalismo atual. “Era preciso trabalhar durante o dia, estudar à noite e só depois ir aos treinos, para jogar nos fins de semana”, testemunha Affonso Carlos Kielwagen, mais conhecido como Buba, um dos mais assíduos frequentadores das quadras e das raias de remo de uma época romântica do esporte joinvilense. Defendendo o Palmeiras na quadra de basquete e de vôlei, ou o Atlântico nas disputas de remo, Buba se recorda com emoção e orgulho daquele tempo.
Joinvilense nascido em 1927 na rua 15 de Novembro, quando aquela região estava longe de ser o efervescente centro comercial da cidade, Buba aproveitou uma infância ao ar livre quando Joinville oferecia muito mais espaço. E qual a origem do apelido? “Meu irmão me chamava assim, porque não conseguia pronunciar ‘bruder’, que significa irmão em alemão. Seria como chamar um irmão de ‘mano’ atualmente”, explica. O fato é que o apelido nunca desgrudou e até hoje ele é o Buba para os amigos e o seu Buba para os colegas do Hotel Colon, onde trabalha. Pois é, aos 85 anos ele mantém a disposição para trabalhar e o bom humor necessário nos encontros semanais com a velha guarda no União Palmeiras, onde a bocha e o bate-papo são os esportes preferidos.
E como o basquete entrou na vida de Buba, quando a maioria da gurizada preferia o futebol nos campinhos e pastos? “É que meu pai era ecônomo da Liga de Sociedades, onde o Guarani tinha sua sede e jogava basquete. O salão servia tanto para bailes como para treinos e jogos. Como eu estava sempre por ali, comecei a bater bola com eles e aprendi a jogar basquete. Futebol só joguei no Exército.”

 

Nos jogos do centenário de Joinville, em 1951, eu fui escolhido para acender a pira olímpica.”

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND

Da velha guarda. Buba acende a pira na cerimônia em comemoração aos 100 anos de Joinville, em 1951; embaixo, seleção catarinense de basquete em campeonato disputado em Belo Horizonte (Buba é o camisa 85) e a equipe de remo do clube náutico Atlântico (Buba é o segundo à esquerda)

 

Habilidade e raça
Se hoje um homem de 1,80 metro é considerado baixinho para os padrões de modalidades como o basquete, naquele tempo a altura não importava muito. “O que precisava era ter habilidade e muita raça para compensar a falta de altura,” garante Buba, que colocava suas virtudes na função de “guarda”, mais atento à defesa. Assim, ele passou a jogar no Guarani, começando pelo time juvenil. Mais tarde, esteve no grupo que fundou o Palmeiras (que depois se fundiu com o União, dando origem ao atual União Palmeiras).
Buba jogou até os 44 anos, defendendo as camisas do Palmeiras, de Joinville (disputou os Jasc e os Jogos Abertos do Interior de São Paulo) e da Seleção Catarinense (tem três disputas do Brasileiro no currículo). Quando parou, ainda ficou um tempo no Palmeiras como técnico. Também defendeu o clube jogando vôlei. Para completar a ficha de multiatleta, Buba remou pelo Atlântico. “Sou o mais antigo remador do Atlântico ainda vivo”, orgulha-se. Entre as boas recordações, uma deixa Buba de peito empinado: “Nos jogos do centenário de Joinville, em 1951, eu fui escolhido para acender a pira olímpica.”
Hoje, no meio do grupo que se encontra toda segunda-feira para jogar bocha mo União Palmeiras, também está Henrique, filho de Buba, que herdou a camisa do pai no mesmo clube. Eles são representantes de duas gerações de uma época gloriosa no esporte joinvilense, quando a única recompensa era o prazer de jogar e cultivar uma vida saudável.


Unidos pela linha do trem

Aniversário. Ex-ferroviário, Nérico Chaves, faz 80 anos nesse sábado e reúne a família entre recordações dos anos em que trabalhou na RFFSA

Luciano Moraes/ND

Laços de ternura. Maria e Nérico se conheceram na antiga estação de trem e construíram uma linda família, ele trabalhando como ferroviário e, ela, como costureira

 

Nesse sábado tem festa na casa da família Chaves. Seu Nérico, o patriarca, faz 80 anos de idade. Quase metade desse tempo foi dedicada à RFFSA (Rede Ferroviária Federal). Ele foi o último de uma linhagem de ferroviários. Quando começou a trabalhar na rede, em 1950, tinha como chefe o próprio pai e o compromisso de não errar, pois a cobrança era severa. “Acho que por essa razão, o pai cobrava muito de mim. Eu tinha que dar bons exemplos e fazer tudo direito.”
Ele e sua esposa, dona Maria Chaves, têm até hoje uma verdadeira paixão pela ferrovia. Aos risos, ela afirma: “foram os trilhos do trem que nos uniu”. Natural de Mafra, ela chegou em Joinville em 1942. Como o pai também era funcionário da RFFSA, todas as casas que existiam, e ainda estão lá no pátio da Estação Ferroviária de Joinville, eram destinadas exclusivamente aos trabalhadores e suas famílias. Certo dia, Maria (e faz um parênteses: “eu era uma moça muito bonita”), ouviu de uma amiga que estava “enamorada” por um rapaz muito bonito e aprumado, que sempre vinha perto de sua casa operar uma chave de linha (equipamento de mudança de trilhos). Passado algum tempo, ela retornou para uma visita e viu o tal rapaz. “Foi amor à primeira vista. Mas, se fosse preciso, eu roubava dela; gostei muito dele e, ele, de mim.” Casados desde 1955, dessa união nasceram quatro filhos. De lá para cá, a família cresceu bastante e hoje são dez netos e mais dez bisnetos. “O bisneto mais novinho, com quase dois anos, é doidinho por trens”, narra a bisa toda orgulhosa.
Trabalhando na condição de efetivo da estação de Joinville, Nérico, cuja função era auxiliar de serviços gerais, fez de tudo um pouco. Foi picotador de bilhetes na catraca de acesso à plataforma; porteiro; manobrador de trens; conferente de cargas e operador de telégrafo. Na ocasião de sua aposentaria, ele trabalhava no armazém da estação, local onde ficava o Museu da Bicicleta, hoje desativado. “Tinha de tudo lá, que vinha pelo trem para abastecer o comércio: milho, açúcar mascavo, trigo, melado, açúcar branco, frutas, madeira, cimento e todo tipo de combustível em barris (óleo diesel, querosene e gasolina).” Ele recorda que havia muitos animais e aves no pátio, inclusive cabras. Não sabia como, mas uma delas descobriu como entrar no armazém para comer milho, o que era um problema. “Fiz uma campana e peguei a danada. Uma coisa que não faltava lá era tinta. Catei a mais vermelha e pintei a boca e a cara dela todinha. Depois soltei o bicho, que nunca mais apareceu”, recorda aos risos.
Durante breve temporada a família foi morar na estação de Jaraguá do Sul num vagão residência, o que era comum naqueles tempos. Como a família estava crescendo, eles foram transferidos para uma mangueira de bois desativada e que tinha no centro uma enorme balança para pesar o gado. “Era muito grande lá. Mas, o que chovia fora, também chovia dentro e molhava as crianças. Não tivemos dúvida: saímos logo daquele lugar e voltamos para Joinville. Ajeitamos essa casinha que ajudei a pagar com o dinheiro de minhas costuras. Moramos aqui até hoje, graças a Deus”, fala emocionada dona Maria.

 

Eu tinha que dar bons exemplos e fazer tudo direito.”
Nérico Chaves

 

Arquivo da Estação da Memória/Divulgação/ND
Recordação. Seu Nérico em um dos encontros dos ex-ferroviários na Estação da Memória

 

Para recordar, lições de amor
Histórias nessa família unida e bonita não faltam. Dona Maria conta que sua terceira filha estava para nascer. Precavido, próximo à estação havia um ponto de táxi e o marido acertara uma corrida para a Maternidade Darcy Vargas. Em frente a casa deles havia um enorme trem de lastro (usado para manutenção da linha), cujo maquinista deixara de separar da máquina da composição para dar passagem à família. “Moço, quando senti que ia entrar em trabalho de parto saí de casa e vi aquele baita trem parado, e eu não podia passar. Olha, se eu não trancasse as pernas, a menina nascia ali mesmo.”
Crianças livres, obviamente, são arteiras. Todos os dias às 8h a filha Fátima levava uma garrafa de café para o seu pai. Numa dessas idas, havia um trem misto (carga e passageiros) parado na plataforma. Ela não pensou duas vezes: embarcou e ficou escondida embaixo de um banco de madeira num vagão de segunda classe. “Quando o pai viu, botou a mão na cabeça: menina, sua mãe vai morrer de preocupação”, recorda a hoje senhora Fátima. “Não teve jeito, voltei com ele de São Chico só no final da tarde. O pai nunca batia na gente, só a mãe,” conforta-se.
Sentados em volta de uma mesa, dona Maria fechou a conversa com chave de ouro: “Moço, a gente era feliz e não sabia, é o modo de dizer. Nós passamos por muita coisa e estamos aqui até hoje, porque a gente se gosta e amamos demais a ferrovia e o trem. O pouco que temos devemos à ela. Se fosse possível, fazia tudo de novo, e sem arrependimento.” (Valter F. Bustos, especial para o Notícias do Dia)

 


Um elo com o tempo da roça

Na periferia. No intervalo da jornada na Interfibra, industriário mantém criação de gansos e galinhas no Vila Nova

Rogério Souza Jr/ND

Carinho. Celso Anderle mostra um filhote de ganso; no detalhe, outras aves criadas no quintal de casa

 

 

Acompanhadas pelos pais ou pelos avós, crianças do bairro Vila Nova gostam de ir à rua Honório Benevenutti para apreciar a movimentação de gansos e galinhas ornamentais criados num terreno protegido por uma cerca alta de arame liso. A criação é um dos passatempos de Celso Anderle, industriário aposentado desde 1997, mas que continua em atividade na Interfibra.  “Como trabalho das 13h30 às 22h, me sobra a manhã inteira para fazer alguma coisa. Criar aves é muito divertido e além disso nunca precisei comprar um ovo no mercado”, assinala Celso.
Nascido na comunidade agrícola de Ribeirão da Vargem, em Taió, lugar onde foi construída a barragem Oeste para a contenção de enchentes no Vale do Itajaí, Celso trabalhou desde criança na produção de arroz irrigado.  Aos 21 anos, em função da conclusão da barragem, a família foi indenizada pelo governo federal e então se mudou para Indaial, onde Celso cultivou arroz e tabaco por mais dois anos.
Em 1974 ele deixou as lavouras e se estabeleceu em Joinville, onde inicialmente trabalhou na Tubos e Conexões Tigre e, em seguida, na Intefibra, onde se aposentou e continua empregado até hoje exercendo a função de inspetor de controle de qualidade.  “Consegui progredir profissionalmente graças ao fato de ter concluído o ensino médio quando os filhos estavam bem crescidinhos”, informa bem humorado.
Celso relembra que ao chegar ao bairro Vila Nova, a região era uma mescla de área urbana e rural. Nesse ambiente, ele aproveitou para dar continuidade a um hábito do tempo de agricultor: criar galinhas e porcos para abastecer a própria despensa. Em pouco tempo Celso ganhou fama pela habilidade de transformar as carcaças de porcos em torresmo, banha, além de lingüiça e toucinho defumados no maior capricho.
Naquele tempo, a maioria dos vizinhos também criava animais domésticos, fato que motivou o surgimento de uma confraria singular. “Nos fins de semana nos reuníamos para matar porcos a fim de transformá-los em deliciosos derivados. O trabalho virava uma divertida festa”, fala com saudade daquela época. O ex-produtor de arroz e tabaco conta que à medida que a área urbana engoliu a agricultura do bairro Vila Nova as memoráveis matanças passaram a fazer parte do passado. “Se foram os porcos, mas ficaram as galinhas e os gansos, meu elo com o tempo da roça”, assinala.

 

Consegui progredir profissionalmente graças ao fato de ter concluído o ensino médio quando os filhos estavam bem crescidinhos.”

 

Bom no jogo da mora
De bem com a vida, Celso informa que as galinhas ornamentais e os gansos pertencem a seu filho Joares. “Como ele não tem tempo de cuidar da bicharada, durante a semana eu me divirto tomando conta de tudo.” Homem metódico, Celso recolhe diariamente os dejetos das aves, destinando-os à formação de adubo orgânico para a horta doméstica. “Além de evitar a proliferação de moscas, o esterco produzido pelas aves que divertem a criançada me garantem um excelente adubo a preço praticamente zero,” enfatiza.
Casado com dona Rosa, pai de um rapaz e duas moças e avô de um casal de pequerruchos, Celso fala fluentemente o dialeto trentino e é exímio na mora, jogo típico italiano que ele aprendeu ainda na infância. “Ainda não sabia ler e escrever quando aprendi esse divertido e barulhento jogo trazido ao Brasil pelos imigrantes”, informa bem humorado. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)  

 


Ordem e sensibilidade

Balança. Oficial de Justiça equilibra seu tempo entre os filhos, casamento, carreira e os estudos para seguir na magistratura
Fabrício Porto/ND
Coragem. Eliane Pavanello , em frente ao Fórum de Justiça de Joinville

 

 

Eliane Pavanello, 38 anos, é natural de Pérola do Oeste (PR). Casada com Adalberto Silveira, é mãe de três garotos. Muito disposta e sempre com um belo sorriso estampado no rosto, ela é a doutora Eliane, conhecida pela sua militância junto aos menos favorecidos e exemplar oficial de Justiça do Fórum de Joinville. Formada em direito pela Univille em 2004, no ano seguinte foi aprovada em concurso público para o cargo de oficial de Justiça. Aplicada, já fez três cursos em nível de pós-graduação - direito processual penal, direito constitucional penal e extensão em direito eleitoral.  Atualmente freqüenta a Escola de Magistratura porque pretende, em futuro não muito distante, seguir carreira no judiciário e galgar a toga de juíza.
Determinação e competência não lhe faltam. Ela detém certo “tino” de administradora, pois não é fácil equacionar o seu tempo de mãe, esposa, estudante e profissional. Em fase de estágio da Escola de Magistratura, que cumpre no Fórum de Joinville, ela possui uma carga horária puxada. São quatro horas de estágio e mais sete horas como oficial de Justiça.
Um exemplo da dedicação e da disposição em ajudar está nas ações simples. Antes da entrevista, na sala dos oficiais, estava um senhor bastante simples esperando audiência por conta de pensão de alimentos ao filho. E ele expressava sua indignação porque contribuía com valores além dos estabelecidos em juízo através de roupas, tênis e sapatos para o filho, e que não entendia o “por que” das alegações. Conversando com a Eliane, ajudou a entender a situação: “A falta de organização pode levar à prisão nesses casos,” disse. E aconselhou: “Todo agravo (o que não é dinheiro), como botas ortopédicas, roupas, presentes etc devem ser registrados para eventual comprovação.” Pronto, mais um cidadão bem atendido.
Sua convivência com as mais inusitadas situações nos sete anos como oficial de Justiça renderam muitas histórias e também preocupações para o marido e os filhos. “Quando saio de casa, não tenho hora para chegar e os mandados precisam ser cumpridos. O celular é o meu canal com eles.” Ela conta que em 2006 foi cumprir um mandado de busca e apreensão de um veículo no bairro Vila Nova, bem depois do Batalhão da Polícia Ambiental. Como a pessoa e nem o veículo estavam na casa, ela retornava com o seu carro quando um animal, que não pode identificar, cruzou rapidamente a frente do veículo. Reação instintiva, ela pisou no freio. O carro derrapou, bateu numa pedra e em seguida começou a pegar fogo. “Saí tonta e com o cabelo chamuscado. Graças a Deus não aconteceu nada de mais grave, a não ser a perda total do meu carro. São ossos do ofício,” pondera.

 

“Nossa profissão não é fácil porque lidamos com a fragilidade das pessoas, suas histórias e seus problemas. É preciso muito esforço e equilíbrio para que você volte para casa mesma pessoa que saiu pela manhã.

 

Jogo de cintura
Em tempos de mudanças, greves e muita expectativa da população quando ao Poder Judiciário devido aos casos de corrupção que assolam o país (vejam o julgamento do Mensalão), ela padece. “Tudo o que acontece de ruim no Judiciário, eu sofro; também sou a cara do Judiciário.” Ela narra que os casos que envolvem pensão alimentícia, por exemplo, são numerosos. Certa vez, munida de mandado de prisão contra um pai na periferia da cidade, constatou que o homem muito doente também estava com a maior parte do corpo coberto por feridas. E foi ele quem a questionou: “Moça, a senhora acha que alguém vai me dar emprego nessas condições?” Muito emocionada, ela conta que relatou ao juiz, que relaxou a prisão e marcou data futura para nova audiência, até a recuperação da pessoa. “Nossa profissão não é fácil porque lidamos com a fragilidade das pessoas, suas histórias e seus problemas. É preciso muito esforço e equilíbrio para que você volte para casa a mesma pessoa que saiu pela manhã.”
Aconteceu, inúmeras vezes, dela chamar reforço policial para cumprir um mandado ou mesmo sair correndo de uma briga entre vizinhos. Dos muitos trabalhos do qual Eliane se orgulha, foi a reintegração de posse dos terrenos pertencentes a Águas de Joinville e a Prefeitura, no bairro Ulisses Guimarães. “Tinha mais de 200 pessoas entre homens, mulheres e crianças, e os ânimos estavam acirrados. Foi preciso muito diálogo e convencimento para que tudo desse certo. Eu era a oficial de Justiça responsável pelo cumprimento daquele mandado. No final deu tudo certo. Orgulho-me muito disso.” (Valter F. Bustos, especial para o Notícias do Dia)


Jardineira do conhecimento

Pedagogia. Escola do interior utiliza a natureza como apoio no aprendizado
Fabrício Porto/ND
Inspiração. O livro “Maria Sem-Vergonha”, com poesias de Mila Ramos e fotos de Rui Arsego, levou Silvane a criar o Bosque da Leitura

 

 

Aliar o prazer de ensinar com o respeito à natureza, fazendo da escola um espaço agradável. Este é o objetivo que vem sendo alcançado todos os dias pela professora Silvane Aparecida da Silva, diretora da Escola Municipal Hermann Müller, situada na Estrada Palmeira, no Rio Bonito. “Eu queria ser artista, por isso gosto tanto de poesia e da harmonia das cores, e procuro transmitir estes sentimentos para os alunos e também para a comunidade, que sempre vem prestigiar nossos eventos”, diz Silvane. Seus olhos brilham e o timbre da voz, naturalmente alto, torna-se ainda mais eloquente ao mostrar como o ensino e o cuidado com o meio ambiente caminham juntos no pequeno colégio – o Hermann Müller tem uma extensão, ainda menor, dois quilômetros antes.
Nascida há 40 anos no pequeno município paranaense de Antonio Olinto, Silvane foi criada em Canoinhas, para onde sua família se mudou quando ela ainda era bebê. Amante de teatro, dança e poesia desde criança, sonhava ser artista ou freira. Na época do ensino médio, optou pelo magistério, o que a levou a cursar pedagogia na Funplac (Fundação Universitária do Planalto Norte Catarinense). Em 1993, nova mudança, agora para Joinville, onde os pais já moravam há algum tempo. “Não aguentei de saudade”, justifica. Terminou a faculdade na ACE e logo começou a dar aulas, como professora substituta no colégio Emílio Hardt, na Estrada Canela, em Pirabeiraba. Seguiu-se a escola Maria Madalena Mazzolli, já como concursada na Prefeitura. Sua primeira experiência fora da sala de aula foi no apoio pedagógico no colégio Otto Ristow Filho, onde ficou um ano.

 

“Eu queria ser artista, por isso gosto tanto de poesia e da harmonia das cores, e procuro transmitir estes sentimentos para as alunos e também para a comunidade (...)”

 

A Escola Municipal Hermann Müller já ganhou duas vezes o Prêmio Embraco de Ecologia.

 

A natureza ensina
Há nove anos, Silvane foi nomeada para a direção da Escola Municipal Hermann Müller. “No início eu acumulava a direção com a sala de aula. Foi quando percebi que a natureza podia ser uma excelente ferramenta de apoio no ensino, pois ela fazia parte da vida dos alunos, todos moradores da área rural.” E começou a interatividade entre sala de aula e meio ambiente, com a criação de horta, jardins e espaços para diversão – tudo em meio a muita poesia. Silvane fez pós-graduação em gestão escolar no Instituto Teológico Franciscano, o que a levou a passar um período de férias em Petrópolis (RJ). “Eu diria que fui da prática à teoria, pois no curso aprendi a base daquilo que já aplicava no colégio.”
Silvane buscou inspiração no livro “Maria Sem-Vergonha”, com poesias de Mila Ramos e fotos de Rui Arsego, para criar, com os alunos, um bosque da leitura, o alfabeto das flores, um orquidário – com o apoio do orquidófilo Hans Kricheldorf – e uma pequena horta. “Os alunos e os seus pais trouxeram muitas mudas, tanto para a horta quanto para os jardins, e neste ano ainda vamos inaugurar um herbário. Poesias foram escritas pelas crianças, em placas de madeira de uma porta que meu pai desmontou e começamos a promover eventos para trazer a comunidade à escola”, enumera a diretora. Nos eventos, enquanto os alunos declamam poesias, mães e avós expõem seus dotes culinários. Em 2005 foi realizado o primeiro Café Flor e Poesia. “A oitava edição – convida Silvane – será no dia 14 de novembro, dentro da programação oficial da Festa das Flores.” Antes, na entrada da primavera, no próximo dia 22, será realizado o primeiro Piquenique Cultural, na extensão do colégio, tendo como atrações o personagem Tatuí e o musical “Era Vidro e Se Quebrou”. A comunidade já está convidada.

 

 Perfil sugerido pela leitora Albertina Ferraz Tuma.


Ferreira virou Ferreirinha

Histórias da bola. Ferreira foi campeão pelo Santos com Pelé e pelo JEC
Carlos Junior/ND
Na sala de troféus do JEC. Ferreira defendeu o JEC no ano de criação do clube e da conquista do primeiro campeonato estadual

 

 

Quando chegou em Joinville em 1974, vindo do Colorado, do Paraná, para jogar no Caxias, ele era o Ferreira. No currículo, ostentava um bicampeonato paulista pelo Santos, jogando num ataque com nada menos que Pelé, Toninho Guerreiro e Edu. No Gualicho, ganhou novo apelido. “Quando cheguei, disseram que já tinha muito Ferreira por aqui. Então, passei a ser o Ferreirinha.” Mas foi novamente como Ferreira que ele ganhou o último título da carreira, o campeonato catarinense de 1976 pelo Joinville Esporte Clube, onde ficou após a fusão.
Wilson Ferreira nasceu em 1942 em Araçatuba, na região Oeste do Estado de São Paulo. Aos 15 anos iniciava a carreira no futebol, no infanto-juvenil do Paulista de Jundiaí. Pouco tempo depois chegava ao Santos F. C. para testes. Aprovado, logo chegou ao time principal, onde ocasionalmente ganhava a camisa 7, tarefa nada fácil devido à fortíssima concorrência. Do time campeão paulista em 1968, por exemplo, Ferreira guarda nítida na memória a escalação, recitada sem tropeço: “O time tinha Cláudio, Carlos Aberto, Ramos Delgado, Joel, Rildo, Clodoaldo, Buglê, Wilson, Toninho, Pelé e Edu. Foi campeão em 1967 e 68.”
Em 1969, Ferreira tinha seu passe negociado com o Ferroviário, uma das forças do Paraná. Ali, em 1971, pela primeira vez trocou de camisa numa fusão, quando Ferroviário, Palestra e Britânia formaram o Colorado Esporte Clube. Três anos depois, Ferreira virava Ferreirinha, vestindo a camisa 7 do Caxias, num time em que brilhava o talento de Fontan. Em 76, numa história conhecida de todos os torcedores joinvilenses, uma séria crise levou à fusão dos times de América e Caxias, originando o Joinville Esporte Clube.

 

 

Arquivo blog nasceucampeao.com.br/Divulgação/ND
Gol. Ferreira (à direita) marca contra a Chapecoense, no Estadual de 1976

 

 

Arquivo Revista Placar/Divulgação/ND
Elenco campeão em 76: em pé, o diretor Cláudio Lopes, o massagista Juvêncio, Renato, Waldir, Ditão, Samara, Alberto, Fontan, Celso, Piava, Nelinho, Veiga, Djalma, Bosse, o fisicultor Paulo César e o supervisor João Lima; sentados, Ferreira, Pompeu, Joel, Jorge, Linha, Netinho, Paulinho Teta, Tuca, Zequinha, Ratinho, Ademir, Silvinho, Tonho, Italiano, Rinaldo e o técnico Alcino Simas

 

 

“Quando cheguei, disseram que já tinha muito Ferreira por aqui. Então, passei a ser o Ferreirinha.”

 

Nasceu campeão
Sob o comando do técnico Alcino Simas, o JEC estreou no dia 4 de abril de 1976 no campeonato estadual, vencendo o Marcílio Dias por 1 a 0 no estádio Olímpico, do América, com gol de Fontan. Ferreira entrou aos 30 do segundo tempo no lugar do exausto Ratinho, recém-contratado da Portuguesa.
O primeiro gol de Ferreira com a camisa tricolor veio na quinta rodada da competição, contra a Chapecoense, agora no Ernestão, que se tornaria a casa do JEC até a inauguração da Arena, em 2007.
Foi o primeiro confronto entre JEC e Chapecoense, no dia 18 de abril. O tricolor liderava o campeonato, com quatro vitórias nos primeiros quatro jogos. Já a Chapecoense, ao contrário, havia perdido todos os jogos que disputara até então. O JEC não teve dificuldade para vencer por 3 a 1, com gols de Ferreira, Tonho e Fontan
Outro jogo marcante daquele campeonato foi na nona rodada, dia 20 de junho, entre Avaí e Joinville, no estádio do Figueirense. O time da capital liderava o seu grupo, um ponto à frente do JEC. A classificação se inverteu após a vitória tricolor por 2 a 0, gols de Linha e Rinaldo. Ferreira começou jogando e deu lugar a Chico Samara no segundo tempo.
Aquele foi o último ano da carreira de Ferreirinha nos campos. Dali em diante, ele passava a ser Wilson Ferreira, funcionário da Tigre, onde trabalhou até se aposentar. Foi mais um ídolo tricolor que veio de fora e por aqui ficou. Casado com uma joinvilense, Ferreira tem quatro filhos e quatro netos nascidos na cidade, engrossando as fileiras do JEC.


O bê-a-bá da História

Educação. Mesmo aposentada, a professora Marília Graboski vai para as salas de aulas todos os dias, há 42 anos no Santos Anjos
Fabrício Porto/ND
Sossego do jardim. O ritmo das aulas diminuiu, mas a professora Marília mantém a disposição dos longos anos de magistério

 

 

O ditado popular, “a primeira namorada a gente nunca esquece”, não corresponde totalmente a verdade, pelo menos para uma grande parte das pessoas com qualquer escolaridade. Para elas, verdadeiramente, nunca esquecemos a nossa primeira professora, lembrada por todos com muita ternura e agradecimento eterno pela iniciação no infindável universo do aprendizado. Marilia Graboski de Barba, nascida na cidade de Rio Negrinho em 17 de agosto de 1952, a professora Marília tem uma legião de alunos e ex-alunos na cidade que lhe guardam um carinho e admiração profundos.
Nascida num lar de pai e mãe professores (Elias Graboski e Selma Teixeira Graboski), muito cedo foi iniciada nas letras. “Eu morava muito perto da escola e me recordo que a escola se abria para os alunos muito além do aprendizado”. Incentivada e motivada dentro do lar, Marília chegou em Jooinville para estudar, no início da década de 1970, na Faculdade de Ciências e Letras. Em pouco tempo estava empregada e iniciada sua carreira de professora na mais antiga instituição de ensino de Joinville, o Colégio dos Santos Anjos, onde leciona até hoje, mesmo aposentada há bastante tempo. E lá se vão 42 anos.
Consta de sua carteira de trabalho e previdência um único registro de vínculo empregatício. “Quando fui requerer minha aposentadoria, foi tudo muito fácil. A atendente ficou admirada por causa disso,” relata a professora Marília. Bastante ciente de suas responsabilidades, pois elas nunca foram encaradas como um fardo, em toda sua carreira procurou inovar e tornar atrativo o aprendizado. Lecionando história para os 6º anos e 6° séries (ela já trabalhou com o ensino fundamental e médio), seu método estimula a pesquisa, além de trabalhar com o imaginário de seus alunos ao falar da Grécia antiga, seus pensadores, e a polis. Histórias e episódios de vida fazem parte de sua metodologia de ensino, inclusive, muito solicitados por seus alunos, segundo a professora Marília. “O respeito é importante e saudável. Não sou ‘profe’ e muito menos ‘pro’, eu sou a professora Marília, e me orgulho muito dessa profissão.”
Mãe de quatro filhos (dois homens e duas mulheres), ela recorda que o começo foi muito difícil e profícuo, porque as conquistas de âmbito familiar e profissional sempre foram muito valorizadas por ela e pelo marido Vitor. “Minha mulher não é brincadeira não. Eu lembro que entre nós havia sempre uma pilha de livros na cama”, recorda dando boas gargalhadas.

 

“O respeito é importante e saudável. Não sou ‘profe’ e muito menos ‘pro’, eu sou a professora Marília, e me orgulho muito dessa profissão.”

 

Reencontro com ex-alunos no dia a dia
Ao longo desses 42 anos lecionando, ela coleciona histórias emocionantes de encontros com ex-alunos. “Professora, ainda guardo o meu caderno de história da época em que estudei com a senhora.” No ano passado, acometida por uma crise renal aguda, ela passou por uma cirurgia. “Foi uma emoção muito grande, pois o médico, doutor Eduardo, foi meu ex-aluno no Colégio dos Santos Anjos. A professora sempre me tratou com tanto carinho e agora tenho a oportunidade de retribuir,” ele disse, relata a professora Marília.
Sua filha mais velha, Mariela, é casada com outro ex-aluno, Fabrício Duarte, cirurgião vascular. Da grande maioria desses alunos, ela recorda, inclusive, do lugar onde eles sentavam na sala de aula. “Meu ritmo de aulas, hoje, diminuiu bastante, mas faço isso com o mesmo prazer do primeiro dia.” Muito ciente dessa enorme responsabilidade, ela faz uma importante reflexão sobre a educação. “Quando a criança ou o jovem cruza a vida do professor, a sua responsabilidade se agiganta porque sabe que vai contribuir para a formação de cidadãos. Este é o grande objetivo desta profissão: mais do que ensinar, formar.” (Valter F. Bustos, especial Notícias do Dia)


Nunca é tarde para pedalar

Esporte. Atleta de Joinville, da categoria máster, é a mais premiada em todo o Estado
Fabrício Porto/ND
Paixão e superação. Maria Salete Waltrick treina agora para o Mundial de Masters de MTB

 

 

Maria Salete Waltrick, 56 anos, divide sua vida em dois momentos: antes e depois da bicicleta. Natural da bucólica Rio do Sul, ela e o marido Roberto de Paula Rodrigues chegaram em Joinville em 1983, logo após a enchente que castigou o Vale do Itajaí. Inicialmente, instalou-se com a família no Anita Garibaldi e há 24 anos mora no Glória, um bairro que é sua paixão. Lá, Salete criou os quatro filhos, todos homens(Cristiano, Vinicius, Leonardo e Romeu). “Essa foi uma fase muito gostosa de minha vida. Desde pequenos, os meninos foram tranquilos e não deram trabalho além do esperado. Eu não sentia falta de nada, pois os afazeres preenchiam todo o meu tempo”.
Segundo Salete, esse tempo foi passando e os meninos crescendo rápido a cada dia. Próximo de sua casa fica a Sociedade Diana e, nos fins de semana, o pai pegava a garotada e todos iam jogar bola, exceto ela, claro! Um certo domingo, já perdido na memória, sozinha em casa, olhou para a bicicleta de um dos filhos. “Acho que era uma Caloi aro 26, com marchas. Nada muito especial, e não tive qualquer dúvida!” Fechou a casa a saiu pedalando sem rumo, desfrutando o sol e o vento. “Quando eu me dei conta, estava na Ponte Baixa, lá no Quiriri. Foi uma viagem de corpo e alma”.
Esse episódio transformador ocorreu há 11 anos. Salete conta que tinha um Fiat Prêmio completo e que pouco usava. Por essa razão foi vendido na semana seguinte. Do montante arrecadado, separou R$ 1.500 para investir numa bicicleta - já com algumas idéias caraminholando na cabeça. “Fui lá no Joel Bikes, que ficava ao lado do Bar Tigre, onde hoje está o Angeloni, e comprei uma bicicleta de 21 marchas, novinha.” Semanas depois estava inscrita para a prova de mountainbike em Camboriú, em 2001. De cara, obteve o 2° lugar do feminino, além do gosto pelo pódium. Em 2004 tornou-se atleta federada, o que lhe permitia participar de todo calendário catarinense de ciclismo.
Sua primeira “grande prova” foi a Volta de Santa Catarina, onde conquistou um honroso 5° lugar, na edição de 2004. Figura já bastante conhecida no meio do ciclismo em Joinville, participou de mais seis provas, hoje Tour de Santa Catarina, sempre conquistando pódium a cada nova edição. Outro importante evento do ciclismo é a Prova Márcio May - de suas quatro participações, Salete venceu todas e de forma consecutiva na categoria elite, considerada a top entre as demais categorias. Em 2010, quando participou pela primeira vez da tradicional prova joinvilense, o Circuito da Boa Vista, foi atropelada por um atleta em velocidade (sprint). A consequência do choque violento foram duas costelas e a bacia fraturadas. Ela passou três meses sem colocar os pés no chão e um mês na cadeira de rodas. Ainda assim, no segundo semestre do ano, foi até Balneário Camboriú competir no masters de MTB. “Eu estava com um pouco de medo e levei um tombo”. Ela fez um grande esforço para voltar, mas não foi possível.

 

“Apesar de sermos muitas, ainda não somos reconhecidas e valorizadas no esporte.”

 

Duas modalidades preferidas
Perguntada sobre a sua modalidade preferida, a resposta vem fácil: “Mountainbike ou speed, tanto faz, porque gosto de pedalar. No mountainbike você tem mais terra, paisagens e água fresca na bica. Já o speed é só velocidade e asfalto. Na realidade uma complementa a outra.” Atualmente ela treina para o Mundial de Masters de MTB, competição já oficial de Balneário Camboriú, prevista para acontecer neste mês, onde promete dar muito trabalho para as adversárias, pois irá com vontade de ganhar.
A competição mais marcante ocorreu em março deste ano. “A prova noturna da Serra do Rio do Rastro foi linda e emocionante. Tinha mais de 300 ciclistas inscritos. Venci a categoria feminina, primeirona. Tenho muito orgulho disso!” Marido e filhos são “tietes” de carteirinha. Afinal, não é qualquer família que possui uma mãe campeã, num esporte dominado pelos homens. “Apesar de sermos muitas, ainda não somos reconhecidas e valorizadas no esporte. Os homens sempre aparecem mais,” pondera. Sempre de bom humor ela avisa: “Eles que se cuidem porque nós pedalamos forte.” Salete é uma vencedora além de atleta catarinense mais premiada no ciclismo. (Valter F. Bustos, especial para o Notícias do Dia)


Duas voltas ao redor da Terra

Leitor de água. Em 20 anos de trabalho, Carlos Alberto Farias já percorreu 88 mil quilômetros
Fabrício Porto/ND
Caminhadas diárias. Carlos faz a leitura do medidor de água nos bairros Petrópolis, Jativoca e Vila Nova

 

 

Nascido em Jaguaruna, cidade do Sul do Estado que ostenta o título de Terra da Melancia, Carlos Alberto Farias chegou em Joinville com família em 1976. “Eu tinha acabado de completar seis anos de idade e por isso guardo na memória apenas vagas lembranças do meu torrão natal. Não me recordo de nenhuma lavoura de melancia,” assinala dando risadas. Dono de conversa bem humorada, Carlos Alberto conta que dos 16 aos 22 anos trabalhou na linha de produção do setor industrial. Dali por diante meteu literalmente os pés na estrada ao arrumar emprego de leitor de contas de água, no qual se mantém até hoje.
Em 20 anos de andanças pela cidade, Carlos Alberto conhece rua por rua de diversos bairros de Joinville. Entre outros, ele cita os bairros Petrópolis, Jativoca e Vila Nova, onde faz as leituras há 20 anos. “Vez por outra sou deslocado para outros bairros e por isso conheço quase todas as ruas da cidade”, enfatiza. Ao comparar o passado com o presente, ele afirma que o trabalho hoje é bem mais prático. “Quando comecei, a leitura era anotada manualmente e levada até a sede da empresa, onde era emitido o talão. Hoje, está tudo digitalizado e o talão é entregue ao consumidor no mesmo instante que o trabalho é executado, facilitando as coisas.”
Morador do conjunto habitacional Irineu Bornhausen, no bairro Vila Nova, Carlos Alberto é casado com dona Janete com a qual tem duas moças e um rapaz. Extrovertido, nos fins de semana ele gosta de conversar e beber cerveja em companhia dos amigos. É nesses momentos que ele diverte os companheiros contanto passagens de sua longa carreira de leitor de contas de água. “Algumas dessas passagens são engraçadas para quem as ouve, mas não para mim”, ressalta ao mostrar as cicatrizes de três mordidas de cachorros. “São ossos do ofício. Gosto do que faço e não seria qualquer vira-lata pulguento que iria me afugentar”, deixa escapar muito do espirituoso. 

 

“Como as casas ficam uma ao lado da outra, a bicicleta só atrapalharia; só saio pedalando quando o serviço é na região rural.”

 

Mais de duas voltas ao redor do planeta
Carlos Alberto aproveitou a entrevista para mostrar uma curiosa conta à reportagem. Segundo seus cálculos, descontados os sábados, domingos, feriados e férias ele trabalha cerca de 220 dias por ano há duas décadas. “Como percorro média de 20 quilômetros por dia, a soma das minhas andanças vai longe, coisa de 88 mil quilômetros, o que representa mais de duas voltas ao redor do planeta,” garante desatando uma boa risada.
Carlos Alberto acrescenta que usar bicicleta para fazer a leitura na área urbana seria contraproducente. “Como as casas ficam uma ao lado da outra, a bicicleta só atrapalharia; só saio pedalando quando o serviço é na região rural.”
Outra revelação do veterano leitor de contas de água é a debandada de colegas de serviço na época de verão. “Muito jovem não agüenta o calor e ‘entrega os pontos’. De minha parte o calor que se lixe. Uso um bom protetor solar e vou em frente,” avisa cheio de disposição para, faça sol, faça chuva, continuar suas caminhadas diárias. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Dedicação aos idosos

Administração. Juliana Minieri alia vida profissional ao convívio com a terceira idade
Fabrício Porto/ND
Local de trabalho. No Ventura, Juliana atua na área de marketing e recursos humanos

 

 

Aos 25 anos de idade, formada em relações internacionais, falando três idiomas e com uma trajetória que já inclui experiências em outros países, a joinvilense Juliana Minieri está no início de sua vida profissional e ainda tem muito o que definir para o futuro. Mas já tem a certeza de que esta trajetória será voltada à chamada terceira idade, um público cada vez maior no País e que demanda atenção e serviços bem específicos. O motivo para isso é simples: “Adoro lidar com idosos. O meu sonho é empreender nessa área”, afirma.
A empatia com as pessoas que estão nessa fase da vida vem desde a infância, mas se intensificou no período em que Juliana fez faculdade em Florianópolis e morou com os avós – na época com 75 anos. Com o convívio, ela começou a despertar para temas como a convivência, com as pessoas de mais idade, as atividades, as necessidades de quem já está na maturidade e, também, para o carinho e a motivação para criar laços com a terceira idade.
Mas a vida profissional chamava para longe e Juliana, que fazia estágio na área de representações do escritório das relações exteriores, em Florianópolis, ganhou uma bolsa de estudos para os Estados Unidos. Lá estagiou na ONG Milenium Promise, focada em ações contra a pobreza – e rumou para a Tanzânia, onde trabalhou com microcrédito. Isto, e a participação no Projeto Rondon, contribuíram para que seu olhar se voltasse para a área social. Quando voltou ao Brasil foi trabalhar em São Paulo, em uma ONG de empreendedorismo. Porém, com essas experiências, viu que seu foco era outro.  “Vi que gostaria de empreender, de colocar a mão na massa”, observa.
Em meio a essa busca, um dia, em Joinville, uma amiga a apresentou ao projeto do Ventura, o residencial de idosos criado pela Fundação 12 de Outubro. “Vim conhecer na hora e descobri que era inovador. Larguei tudo e voltei para Joinville, para o projeto”.

 

“Eu vejo a fragilidade inerente da idade, mas vejo também a história de vida, a vivência que está na fala, no que fazem.”

 

Aprendizado com a convivência
A vontade de fazer algo diferente e o gosto pelo convívio com o idoso se casaram e Juliana passou a atuar na área de marketing e recursos humanos – mas como o projeto é novo, as atividades acabam permeando várias áreas e o contato com os moradores do residencial é constante. Embora não faça parte das suas atribuições principais, este convívio já permite observar, conversar e aprender muito com eles. “Eu vejo a fragilidade inerente da idade, mas vejo também a história de vida, a vivência que está na fala, no que fazem”, explica ela, destacando que essa troca é muito rica para todos: “Eu trago leveza e muita energia para o ambiente. Eles trazem a sabedoria”.

 

 


Pé na estrada

Turismo. Depois de aposentados, Luiz Henrique e Eliana Stephan decidiram conhecer o mundo e descansar pescando na Babitonga
Luciano Moraes/ND
Parceiros. Molinetes e varas de pesca são companhias constantes no lazer do casal Luiz Henrique e Eliana

 

 

Para muita gente a aposentadoria acaba se tornando um fardo pesado devido a rotina de não ter quase nada para fazer. Esse não é o caso do casal Luiz Henrique e Eliana Stephan, moradores do bairro América. Eles sabem como poucos se divertir empreendendo viagens pelo mundo afora e pescando de molinete na baía Babitonga. Ambos aposentados (ele como administrador de empresas e ela como professora de geografia), Luiz Henrique e Eliana aproveitam o tempo também com outros passatempos, entre eles a leitura de livros da literatura clássica e revisita a películas cinematográficas da melhor vertente.
De quebra a dupla gosta de receber amigos e familiares. A recepção mais aguardada pelo círculo de amigos dos Stephan é no inverno, quando dona Eliana capricha no preparo de uma feijoada completa, bem ao estilo carioca. Nessas ocasiões, Luiz Henrique, ou o Oky, como é chamado por todos, nem se atreve a mexer no tacho de ferro.  “Além de boa cozinheira ela é ciumenta”, entrega o espirituoso Oky.
Filho de militar carioca com uma joinvilense, Oky nasceu há 60 anos, quando seu pai estava servindo no 13º BC (Batalhão de Caçadores), hoje o 62º BI. Oky acabou de ser criado no Rio para onde a família retornou quando o Exército transferiu o pai para a cidade de origem. Já formado em administração de empresas, Oky entrecruzou então o caminho com a da professora Eliana, uma carioca da gema. Os dois se uniram pelos laços do matrimônio em 1974, do qual vieram dois filhos (Úrsula, hoje advogada, e Lucky, professor de inglês).
A vida a dois teve início com Eliana nas salas de aula e Oky na área administrativa. Nessa fase ele trabalhou no “Jornal do Brasil” e no jornal “O Dia”. “Trabalhei dez anos nesse meio e não tive muitos contatos com o pessoal da redação, mas não me esqueço dos papos agradáveis que levei com o Alberto Dines em algumas ocasiões”, assinala, referindo-se ao jornalista e crítico da imprensa.

 

Destino: Joinville
Corria o ano de 1990 quando Oky e Eliana decidiram deixar o Rio.  “Os filhos precisavam sair de casa todos os dias para estudar e, como as ruas estavam perigosas, mudamos para Joinville, cidade que conhecíamos bem devido às visitas que fazíamos aos parentes do Oky”, conta dona Eliana. Aqui chegados, Oky conseguiu emprego administração da Fundição Tupy, onde permaneceu por 20 anos até de aposentar. Como professora, Eliana teve passagens nos colégios Bom Jesus e Elias Moreira até completar o tempo de requerer a aposentadoria.
Com pouca coisa para fazer, Oky e Eliana concluíram que não seriam vítimas do ócio. Dede então começaram as pescarias de molinete e muitas viagens dentro e fora do Brasil. Só nos EUA eles conhecem mais de 40 Estados. Na viagem mais recente, em agosto passado, eles visitaram o Uruguai. No momento, eles agregam mais uma deliciosa ocupação: dar carinho ao por enquanto único neto Carlos Henrique, de um ano e sete meses de idade.

 

Superação
Oky foi vítima de poliomielite quando tinha um ano de idade. A doença lhe deixou seqüelas nas duas pernas e por isso ele usa aparelho ortopédico para ter mais firmeza em suas andanças. Sem conter uma risadinha sapeca, ele ressalta que o problema só o impediu de correr atrás de uma bola. “Mas já fui motociclista e velejador e além disso me aposentei por tempo de serviço” enfatiza enquanto dá uma batidinha marota no aparelho ortopédico com o qual conseguiu superar olimpicamente as seqüelas da poliomielite. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Barbirotto deixou e levou saudade

Volta no tempo. Ex-goleiro revê Joinville e os antigos companheiros do JEC
Carlos Junior/ND
Junto da rede. Barbirotto, que participou do encontro dos ex-jogadores do Joinville, em agosto, aguarda nova oportunidade para treinar goleiros

 

 

Em 1988, em sua segunda passagem pelo Joinville E. C., o goleiro Barbirotto aceitou um convite do então presidente do Bragantino, Nabi Abi Chedid, e foi para o interior paulista. Arrepende-se até hoje. “Chorei quando fui embora, pois aqui eu tinha boa estrutura, fiz amigos, a cidade era ótima. No Bragantino foi só ilusão, tanto que saí um mês depois”, conta o ex-goleiro, que matou a saudade da camisa do JEC e de antigos companheiros no mês passado, durante o terceiro encontro de ex-jogadores. Barbirotto jogou num dos gols nas partidas disputadas na Arena, enquanto na outra trave estava Walter Diab, outro ex-ídolo da torcida tricolor (Walter foi perfil na edição de 1º de setembro).
O nome de registro do ex-goleiro é Antonio Barbeirotti (um erro de cartório) Junior, paulistano, nascido em 1959. Filho de um boxeador e irmão de um jogador de basquete, Barbirotto morava perto do estádio do Palmeiras, time do coração de quase todos os descentes de italianos, assim como de sua família. E foi no time de futsal do Palmeiras que ele iniciou a carreira, aos 12 anos. Pouco tempo depois o pai de um amigo levou-o para um teste no dente-de-leite do São Paulo. Aprovado, foi campeão paulista da categoria, pegando até pênalti na final contra a Portuguesa.
Barbirotto foi ligado ao São Paulo durante muito tempo, mas sempre vivendo à sombra de craques como Valdir Peres e Toinho. Ele se lembra de sua estreia no time principal: “Eu era o quarto goleiro do elenco. Em 1981 tive minha chance quando o Valdir Peres estava na Seleção, o Toinho sofreu um estiramento e o terceiro goleiro, Moreira, pegou caxumba. O técnico Carlos Alberto Silva me deu a camisa 1 contra o 13, na Paraíba. Empatamos em 1 x 1”.

 

 

Arquivo Gazeta Esportiva/Divulgação/ND
O São Paulo em 1984. Em pé, a partir da esquerda: Dario Pereyra, Fonseca, Oscar, Barbirotto, Nelsinho e Márcio Araújo. Agachados: Geraldo, Casagrande, Careca, Pita e Sidney. Embaixo, no juvenil do São Paulo

 

 

 

Passei a vida no campo, e quero continuar enquanto tiver saúde e disposição para formar novos goleiros.

 

Dono de muitas camisas
Como não podia esperar que os demais goleiros fossem sempre convocados ou se contundissem, Barbirotto rodou o país defendendo várias camisas. Aos 18 anos disputou a Copa São Paulo Júnior pelo Goiânia. Depois foi vice-campeão goiano pelo time principal do Goiás. Em 1980, foi vice-campeão da divisão intermediária pelo Catanduvense. De volta ao São Paulo, Barbirotto foi campeão paulista de 1981, como reserva de Valdir Peres.
Passou ainda por Ferroviário do Ceará, América de São José do Rio Preto, Joinville em duas ocasiões – sempre disputando posição com Sílvio –, Bangu, Bragantino, Ponte Preta e Caxias-RS. Neste clube sofreu uma grave contusão, em 1990. Foi uma fratura no crânio, num choque contra um companheiro do próprio Caxias. Por isso, até hoje Barbirotto tem a parede craniana mais frágil. Depois de uma parada cardíaca e uma cirurgia ano passado, recuperou-se no Juventus paulistano. Foi para o 15 de Piracicaba e ainda disputou o Paulistão de 1993 pelo Noroeste, onde pendurou as chuteiras e passou a ser treinador de goleiros. Foi treinador do juvenil do Santos, do Otsuka e do Kashiwa Reysol, ambos do Japão, Juventude-RS, futebol coreano e São Caetano. “Fui campeão paulista de 2004 pelo São Caetano, com o Muricy Ramalho”, reforça. Até o ano passado, era treinador de goleiros do Atlético Mineiro.
Barbirotto chegou a administrar um restaurante no Guarujá, litoral paulista, mas prefere ficar no futebol, e atualmente aguarda convite para ser treinador de goleiros. “Passei a vida no campo, e quero continuar enquanto tiver saúde e disposição para formar novos goleiros”, finaliza.


Uma vida como hoteleiro

Tradição. Paulo Linzmeyer consolida o nome da família no ramo da hotelaria
Fabrício Porto/ND
Fazer o que gosta. Em busca de novidade do setor hoteleiro, Paulo Roberto viaja pelo mundo, quando aproveita também para conhecer diferentes campos de golfe, também uma das suas paixões

 

 

A vida de Paulo Roberto Linzmeyer gira em torno do atendimento ao público praticamente desde criança, quando convivia com o movimento no Bar Cruzeiro, que o pai, Adolar, mantinha na esquina das ruas 15 de Novembro e João Colin. “Além de tocar o bar, meu pai alugava alguns quartos no andar de cima, para pensionistas. Como mais velho dos oito filhos que ele teve, eu precisava ajudar no que fosse possível”, conta Paulo, hoje principal executivo da rede Hotel 10, criada em sociedade com o filho Bruno e o empresário jaraguaense Martin Werninghaus. Seu trabalho o leva a todos os pontos do Brasil onde a rede tem unidades, além de outras partes do mundo, em busca de novidades. E também à procura de campos de golfe, sua paixão depois da hotelaria.
Paulo nasceu em 1951 e pegou, como conta, o tempo da carroça de pão: “O entregador se chamava Wagner, e às vezes ele podia até largar as rédeas, pois o cavalo já conhecia o caminho”. Joinville começava, na metade do século passado, a engatar os vagões que a transformariam na locomotiva industrial de Santa Catarina. Era uma época de poucos hotéis na cidade e muitas pensões. Paulo ainda era aluno do Colégio Marista quando seu pai se tornou ecônomo da Liga de Sociedades. “Como havia baile todo fim de semana, a filharada também precisava ajudar a deixar o salão brilhando. Era preciso primeiro passar o escovão, depois encerar tudo de joelhos e arrematar com a enceradeira. E o serviço só terminava quando meu pai ficava satisfeito com o próprio reflexo no assoalho”, lembra Paulo.

 

 “Meu pai foi uma referência em termos de profissionalismo, caráter e dedicação à família, valores que procuro imprimir em minha vida.”

 

O primeiro hotel
Paulo Roberto nem cogitava seguir a carreira de hoteleiro quando se formou em administração de empresas pela Furj (atual Univille), em 1976, e seu pai era dono do Hotel Real. Mas acabou seguindo esse rumo no Anthurium Park Hotel, novo empreendimento da família. “Com o sucesso do Real, meu pai decidiu comprar o antigo casarão que foi o palácio episcopal. E eu fui o primeiro gerente do novo hotel.”
Em algum período de suas vidas, todos os oito filhos de Adolar Linzmeyer passaram pela hotelaria, seja em empreendimentos da família, seja em outros hotéis. Hoje, Geraldo está à frente do Holz Hotel, enquanto Sérgio administra o Germânia. Paulo até tentou a carreira de empresário no segmento da construção civil, nos oito anos em que foi sócio da Artebloco. Mas retornou à hotelaria, como sócio da Átrio, uma incorporadora e administradora de hotéis de marca. Há 11 anos, de volta de uma viagem à Flórida, percebeu a oportunidade no nicho dos hotéis econômicos e com serviços padronizados. Nascia a rede Hotel 10, com a unidade pioneira no distrito industrial áHáa mkde Joinville. Hoje, o grupo administra cinco franquias em Curitiba, Dourados (MT), Itajaí, União da Vitória e São Leopoldo (RS), já com a previsão de abrir mais quatro hotéis ainda em 2012.
Paulo faz um balanço extremamente positivo da carreira, a partir da experiência adquirida com o pai. “Meu pai foi uma referência em termos de profissionalismo, caráter e dedicação à família, valores que procuro imprimir em minha vida”, conclui o hoteleiro, emocionado pela escolha de Adolar Linzmeyer para dar nome à pracinha construída na avenida Juscelino Kubitschek – bem em frente ao antigo palácio episcopal que foi durante muitos anos o Anthurium Park Hotel.


A argila em três dimensões

Escultora. Marli Swarowsky, discípula de Mário Avancini, também molda bronze e alumínio
Fotos Rogério Souza Jr/ND
As obras. Marli exibe pequenas amostras de peças moldado pelas duas mãos nos seus mais de 40 anos de dedicação a arte

 

 

Marli Swarowsky, 63 anos, joinvilense do bairro Anita Garaibaldi, ainda menina, com 14 anos de idade, já militava no caminho das artes. Ela trabalhava na produção da Malharia Princesa (propriedade do pai) como estilista. “Naquela época se podia fazer isso, e eu produzia os desenhos para os tecidos e langeries”. Ela conta que tinha muito interesse em buscar conhecimentos, razão pela qual fez sua matrícula na primeira turma da recém-inaugurada Casa da Cultura, em 1970. Lá, estudou desenho, pintura, cerâmica e porcelana. Ampliando conhecimentos e aplicando os saberes, em 1972 ela abriu a primeira galeria de artes em Joinville, a Galeria Bel´Art, então localizada na rua João Colin, 359, onde hoje esta localizada a loja Princesa. “Nessa galeria eu expunha e comercializava somente trabalhos de artistas catarinenses, entre os nomes estavam Willi Zumblick, Meyer Filho, Mário Avancini e Paluch.”
No mesmo ano que abriu a galeria foi convidada para dar aulas de cerâmica na Casa da Cultura, onde permaneceu até maio de 1978. Mas quatro anos antes, em 1974, ela iniciou sua fase de exposições com a Coletiva de Artistas Joinvilenses, evento no qual esteve presente em 11 edições. Também participou do Salão de Novos, Salão Paranaense de Cerâmica (cinco participações), Mostra Bordeaux (duas edições), Circuito Cultural Banco do Brasil (2004), sem falar nas inúmeras premiações de uma longa e exitosa carreira.
Casada, mãe de três filhos (duas mulheres e um homem), Marli sempre administrou bem o seu tempo e afazeres, sem que houvesse qualquer conflito com a arte. Inquieta, coisa típica dos artistas que buscam o seu melhor, por conta da sua convivência com o escultor Mário Avancini, grande expoente da escultura em pedra e uma referência de Santa Catarina, foi tomada de grande interesse pelo tridimensional. “As formas e as linhas do tridimensional chamaram minha atenção e as possibilidades de criação são quase infinitas”. A partir dessa constatação, Marli migrou em definitivo para a escultura trabalhando com vários materiais na confecção de seus trabalhos. Ela emprega o bronze, o alumínio e a argila. “Quanto à argila, descobri uma que vem do Canadá. Compro de um importador em Campinas, pois com ela as vantagens são muitas, desde a textura que permite uma boa moldagem, à coloração branca que produz um resultado final muito bom e tem agradado muito meus clientes.”

 

“As formas e as linhas do tridimensional chamaram minha atenção e as possibilidades de criação são quase infinitas.”

 

Também um troféu
Por falar em clientes, eles estão na Alemanha, Bélgica, EUA, Chile, México e Argentina. Trabalhando com intensidade e paixão, porém, num ritmo mais lento, ela desenvolveu em seu ateliê, na Marina das Garças, uma linha de troféus artísticos, cujos compradores são diversas empresas. A Tupy é uma delas e para qual fez a escultura em bronze este ano, o “Fundidor”, presenteada ao governo mexicano por ocasião da instalação do seu parque industrial naquele país. Troféus para campeonatos de golfe e brindes exclusivos são produtos que ela desenvolve. A cidade irmã de Joinville Langeenhageen, na Alemanha, também foi presenteada com uma de suas esculturas. Igualmente, a parceira Chesapeake, no Estado da Virginia (EUA), também foi agraciada. 
A qualidade de seus trabalhos e a sutileza das formas presentes em suas esculturas é cativante. Portanto, não é sem razão que uma boa parte delas decora muitas residências e sedes de governos no exterior. Para os joinvilenses interessados em conhecer um pouco mais desse trabalho, Marli Swarowsky esta com uma exposição individual na Fiesc (Federação das Indústrias), em Florianópolis, sem data definida para o encerramento. Como ela não possui nenhum agendamento de exposição para a cidade, o jeito é dar um pulo na Capital. (Valter F. Bustos, especial para o Notícias do Dia)


Na roça, na indústria e no SALÃO

Pioneiro. Manoel foi o primeiro morador e barbeiro da rua Dona Cezarina
Rogério de Souza Jr/ND
Já aposentado. Seu Manoel corta cabelos e faz barba para complementar a renda da família

 

 

 

Para quem vê o trabalho como um elemento dignificante na vida, as adaptações às vezes são necessárias para continuar sendo útil à sociedade. É o caso do seu Manoel Gonçalves Dias, que ainda criança ajudava os pais na roça, depois foi trabalhar numa fábrica e, quando um problema de saúde dificultou-lhe a mobilidade, aprendeu a cortar cabelo e abriu um salão de barbeiro. “Aprendi desde cedo a dar valor ao trabalho e não desistir diante das dificuldades, sempre com dedicação e fé em Deus”, diz Manoel, evangélico convicto.
A primeira parte de sua história começa há 66 anos, em Tijucas, onde nasceu e se criou este bisneto de portugueses. “Meu pai cultivava a terra e os filhos ajudavam. Mas o trabalho sempre foi feito em terras alheias em troca de parte da colheita. Quando eu tinha 21 anos, decidi trocar o cabo da enxada por uma oportunidade melhor na indústria”, conta. A essa altura já casado e com três filhos (“Roubei minha noiva com 19 anos”, brinca), Manoel acompanhou o irmão gêmeo, que morava em Joinville e já havia lhe arrumado uma vaga na mesma empresa em que trabalhava, a indústria de malhas Martric.
Na mudança de Tijucas para Joinville, Manoel trouxe até mesmo a casa. “Era uma casinha de madeira, de 4 por 6 metros, que desmontei e remontei, bem aqui do lado”, diz, apontando para o outro lado da esquina das ruas Dona Cezarina e São Paulo. “Quando cheguei, em 1967, não havia nenhum morador por aqui, fui o primeiro. A rua Dona Cezarina tinha um engenho de arroz lá no início, e pra cá não passava de um caminho de tatu.” Vinte anos depois, com a prole aumentada por mais cinco filhos joinvilenses, Manoel ergueu a casa de alvenaria onde mora até hoje. Ali, há espaço até para uma volta às origens, na bem cuidada horta – tão boa que, recentemente, proporcionou uma colheita de aipins gigantescos (Deu no ND de 31 de agosto).

 

Aprendi desde cedo a dar valor ao trabalho e não desistir diante das dificuldades, sempre com dedicação e fé em Deus.”

 

 

Arquivo pessoal/divulgação/ND
Lembranças. O prédio da primeira barbearia e a casa antiga (embaixo)

 

 

 

 

Mudança de profissão
Incomodado por fortes dores e habituado pelos périplos por médicos e farmácias, em 1998 Manoel teve diagnosticada uma artrite reumática, que lhe dificultava muito os movimentos. Precisou deixar o emprego na indústria, mas os parcos vencimentos recebidos como afastado do trabalho não proporcionavam uma fonte de renda sequer razoável. O jeito foi encontrar outra ocupação: “Eu já cortava o cabelo da gurizada em casa, até levava jeito. Aí fiz um curso de cabeleireiro pela Sasedep, investi em equipamento e abri uma barbearia anexa à minha casa. As máquinas de cortar cabelo ajudam muito, compensando a falta de mobilidade nas mãos”. (Sasedep é a Sociedade Assistencial e Educacional Deus Proverá, mantida pela Assembleia de Deus).
Antenado ao mundo à sua volta, quando não há freguês para atender Manoel senta-se em frente ao computador que instalou no salão. Ali, além de conferir as novidades no Facebook, mantém álbuns de fotos da família e até já aproveitou para fazer cursos, complementando os estudos interrompidos na quarta série primária. E fotografias não faltam: são 18 netos e dois bisnetos que fizeram a família aumentar em Joinville.
Enquanto ali ao lado o movimento na rua São Paulo é incessante (“Tem acidente nessa esquina quase toda semana”, alerta o barbeiro), o cantinho da rua Dona Cezarina onde Manoel Gonçalves Dias construiu a primeira casa proporciona uma contrastante tranquilidade, entre a plantação de aipim e pés de jabuticaba e acerola e um eito de cana-de-açúcar.

 

O dia deles
Com a história do seu Manoel, o ND cumprimenta todos os barbeiros, cabeleireiros e cabeleireiras pela passagem de seu dia, 6 de setembro. Neste dia, em 1910, a cabeleireira polonesa Helena Rubinstein abria seu primeiro salão, em Londres.


Estradas bem cuidadas

Patroleiro. Genésio Cavichioli trabalhou nas vias da região por mais de 20 anos e sente orgulho de ter passado a profissão para um dos filho
Fabrício Porto/ND
Na aposentadoria. Na comunidade Cristo Reio, Genésio cultiva pequena lavoura, onde se destaca o babanal

 

 

Para os moradores da antiga Estrada do Sul, hoje a Rodovia do Arroz, Genésio Cavichioli é uma unanimidade. Ele foi o melhor operador de patrolas do DER (Departamento de Estradas de Rodagens) que já pisou na região, afirmam sem pestanejar.  Genésio agradece os elogios, dizendo que fazia um bom trabalho por gostar de ser patroleiro e por levar a vida sempre de bom humor. “Tinha verdadeira paixão em fechar buracos e deixar as estradas bem abauladas para melhorar as condições do trânsito”, assinala.
Nascido há 74 anos em Ascurra, no Médio Vale do Itajaí, Genésio aportou na região do bairro Vila Nova aos 12 anos de idade, onde começou a trabalhar na extração de lenha e no cultivo de arroz. Ao completar 21 anos surgiu a oportunidade de ir trabalhar de ajudante de caminhão no DER, dando assim adeus às lavouras de arroz e às bancadas de lenha. Após 10 anos como ajudante, Genésio foi promovido a patroleiro, ofício que aprendeu com seu compadre Valdemar Meier. “Autorizado pelo fiscal do DER, comecei a acompanhar o Valdemar e aprendi todos os segredos de como deixar uma estrada bem caprichada”, conta bem humorado. Ao ser efetivado na nova função, Genésio trabalhou durante 25 anos na boléia patrolando estradas estaduais situadas na região do Litoral Norte. “Patrolei toda a malha viária da região centenas de vezes. Além de conhecer curva por curva, fiz muitos amigos”, assinala.
Genésio lembra que quando estava trabalhando muito longe não voltava para casa no fim do expediente. “E nem precisava, pois com tantos amigos ganhava pouso e janta de primeira categoria”, comenta agradecido até hoje pela hospitalidade que os amigos lhes dispensaram em suas jornadas de trabalho. A popularidade de Genésio ficou ainda maior ao abrir, em 1980, um bar e uma cancha de bochas no começo da Estrada do Sul. “De dia, a mulher administrava; eu a ajudava à noite. A lanchonete se tornou um dos pontos de lazer mais freqüentados no bairro Vila Nova”, destaca com saudade da numerosa freguesia.

 

Tinha verdadeira paixão em fechar buracos e deixar as estradas bem abauladas para melhorar as condições do trânsito.”

 

Sossego na área rural
Depois de 35 anos trabalhando no DER, Genésio se aposentou e passou a dedicar-se com exclusividade aos cuidados com o bar e cancha de bochas. Mas teve algumas “recaídas” como patroleiro. “Cheguei a trabalhar em alguns períodos para a Prefeitura de Joinville, onde também deixei muitos amigos”, enfatiza.
Atualmente ele não toca mais o bar nem a cancha de bochas. Prefere o sossego da comunidade rural de Cristo Rei. Em companhia da mulher cultiva pequenas lavouras de subsistência. Uma delas é a plantação de bananas.
Casado há 50 anos com dona Metilde, o velho patroleiro é pai de quatro filhos (duas mulheres e dois homens) e avô de cinco meninas. Sempre extrovertido e com uma piada na ponta para divertir os amigos, Genésio se orgulha de ter deixado um herdeiro na arte de patrolar estradas. Seu filho Osni exerce a profissão na Prefeitura de Joinville. “Ele é dos bons, aprendeu comigo a deixar as estradas bem caprichadas”, diz orgulhoso do sucesso do filho. (Herculano Vicenzi,especial para o Notícias do Dia)

 


No coração verde da cidade

No parque. José Cavalheiro Sobrinho é como se fosse o zelador do Morro da Boa Vista
Luciano Moraes/ND
No imenso quintal. Perto da casa de José, há angico branco, araucárias, peroba, jacatirão, ingá e aroeira plantados por ele há vários anos

 

 

José Cavalheiro Sobrinho, 61 anos, é natural da cidade de Curitibanos, no Meio Oeste catarinense. Ao contrário do que geralmente ocorre, quando os jovens saem do interior em busca de emprego nas cidades, no seu caso foram os pais que buscaram Joinville na, nos idos da década de 60. “Meus pais moravam na rua Avencal, no bairro Comasa, e era tudo bem diferente de hoje.” Ele recorda que seu pai adoecera e sua mãe, dona Isaura Melo Garcia, pediu ao filho que viesse para Joinville ajudar na recuperação do pai. Junto vieram a mulher, dona Ivone, e os dois filhos mais velhos. “Os outros cinco nasceram lá no morro”, conta sorrindo José Cavalheiro, enquanto acende um cigarro, referindo-se ao Morro do Boa Vista. Entre uma e outra baforada, ele recorda que seu pai lhe dissera que havia um terreninho no “morro” que estava a venda por um precinho camarada. “Eu vim até aqui e acertei tudo com o velho Antonio Pontes. Tá tudo certinho, tem escritura e tudo.” E é ali no morro que ele mora até hoje, ao lado da casa da mãe, Isaura, 86 anos e muito lúcida.
Falando com um sentimento de saudades e emoção, ele conta que existia ali uma pequena casa de madeira com quatro peças. “Tava tudo escondido no mato. Desci uma picada e comecei a limpar envolta da construção. Quando entrei na casa, em cima do fogão a lenha, matei três jararacuçu das grandes. Abri o forno, tinha mais duas e dentro de casa, mais três. Olha homem, era coisa feia de se ver,”  recorda. Passado o susto, recomeçou o trabalho que se estendeu para toda propriedade. Dois meses depois, ele e família estavam morando no Morro da Boa Vista, onde está até hoje. Em pouco tempo estava empregado na construção civil como auxiliar de pedreiro, e depois trabalhou com jardinagem. “Sabe todo aquele jardim do Hospital Regional? Fui eu que fiz quase tudo.”
Em volta de sua casa há angico branco, araucárias, peroba, jacatirão, ingá e aroeira. Tudo plantado por ele há muito tempo. “Nesse cantinho aqui tem cinco casas, tudo de minha família”. O local não tem energia elétrica. Quem pode, tem um gerador. A água, abundante e muito limpa, vem de várias nascentes próximas às antenas. “Nós mesmos cercamos tudo e canalizamos até aqui. Foi um trabalhão, mas valeu à pena”. Nas proximidades existem muitas crianças em idade escolar e, segundo seu José, todas vão à escola. “Esse meu chão aqui, eu comprei da falecida dona Eleocádia dos Santos há mais de 30 anos”. O senhor José Cavalheiro e os familiares pagam IPTU e taxa de coleta de lixo. O terreno de seu José, assim como de outras 72 pessoas, fica acima da cota 40, além de ser uma área de preservação permanente (APP) e unidade de conservação. Por isso não se pode levar energia elétrica ou água encanada.

 

Sabe todo aquele jardim do Hospital Regional? Fui eu que fiz quase tudo.”

 

Pássaros e cobras
O local onde mora José e os familiares é de uma beleza incrível. O sossego é quebrado pelo cantar dos incontáveis pássaros que vivem na mata. “A gente cuida muito disso tudo e ninguém derruba um pau sequer. Gostamos muito daqui, e não tem lugar melhor para se viver em Joinville.”
Aposentado, hoje ele cultiva algumas plantas ornamentais, cuja venda ajuda a compor o orçamento da família. Os dois filhos que vivem com ele e sua mulher também trabalham. Histórias é que não faltam em sua vida. “Faz uns 15 anos, eu descia o morro de bicicleta e ia brecando com os pés. De repente, uma jararacuçu daquela bem grossa me picou a perna esquerda. Fiquei internado um tempão no São José e quase perdi a perna; além de passar quase dois anos de cama”, conta. Ele e seus filhos não deixam de limpar e capinar o terreno e toda vez encontram mais de uma cobra. “A gente não mata não porque é bicho da natureza e a gente tem que respeitar e cuidar. Esse lugar é abençoado, e o que á abençoado merece respeito.” (Valter F. Bustos, especial para o Notícias do Dia)


O nome da Primeirona

Homenagem. Troféu de campeonato de futebol leva o nome do ex-técnico Linor do Rosário
Luciano Moraes/ND
Na direção do Caxias. No Ernestão, Linor  dirige o ônibus do clube nos deslocamentos urbanos da garotada da base

 

 

Linor José do Rosário marcou época como treinador de equipes amadoras da região, além das categorias de base de Caxias e JEC. Tanto que é o homenageado deste ano pela Liga Joinvilense de Futebol, dando nome ao troféu da Primeirona. No dia 27 de setembro Linor completa 58 anos de idade, agora fora das quatro linhas, mas ainda ligado ao Caxias, dirigindo o ônibus do clube nos deslocamentos urbanos da garotada da base. “Foi uma surpresa e uma alegria muito grande quando a Liga me comunicou que eu seria homenageado com o nome do troféu da Primeirona. É um reconhecimento pelo trabalho de uma vida pelo futebol de Joinville”, diz Linor, emocionado, contemplando o gramado do Ernestão, local onde passou os principais momentos da carreira.
Nascido na localidade de Nereu Ramos, em Jaraguá do Sul, já com 9 anos de idade Linor estava matriculado no colégio Rui Barbosa, em Joinville, para onde os Rosário se mudaram em busca de melhores condições de vida e de estudo para os nove filhos. A família morava no Bucarein, pertinho do estádio do Caxias. Normal, então, que todos se tornassem torcedores alvinegros, certo? Nem tanto. “Eu tinha um primo chamado Murara, que jogava no América. E eu sempre ia lá assistir aos jogos e torcer por ele. Estava lá quando o América perdeu o título do Estadual em 1969 para o Metropol.”
Linor também batia a sua bolinha no campo do São Luís, mas foi ali que começou sua carreira de treinador, por um motivo bem prosaico: “Eu já era gordinho desde guri, e não cabia na camisa. Aí me colocaram como técnico. Acabei me dando bem e não voltei mais a jogar”. Em 1972, Linor do Rosário era convidado a assumir os times infanto-juvenil e juvenil do Caxias. Começava ali uma nova carreira – e também uma virada de casaca, pois hoje Linor é um dos mais fanáticos caxienses.

 

“Fiquei três anos treinando o time da Tigre, que disputava a Primeirona. O seu João Hansen não se conformava com a hegemonia da Tupy e nos deu todas as condições. Me prometeu até uma semana de férias na Bahia se ganhássemos o título. Perdemos para a Tupy por um gol de saldo”.

 

 

Arquivo Pessoal/ND
Árbito. Linor (com a bola embaixo do braço) apitando em 1983

 

 

Do Caxias para o JEC
Em 1975, já nos estertores do futebol profissional do Gualicho, Linor chegou a assumir o time principal. “Foram somente três partidas amistosas, contra clubes das cidades próximas. Mas não perdemos nenhuma!”, orgulha-se.
Com a fusão de América e Caxias, em 1976, Linor assumiu a direção do departamento amador do Joinville Esporte Clube, responsável por todas as categorias de base. Foi um tempo de boas colheitas, quando o JEC revelou a garotada que viria a fazer sucesso no time de cima.
Em 1980, novo desafio: Linor aceitou o convite para dirigir o time principal do Juventus de Jaraguá. Arrependeu-se: “Fiquei só quatro meses, foi uma experiência bem ruim, o clube não tinha o mínimo de estrutura para se aventurar no futebol profissional”. Foi a hora de dar um tempo na carreira. Linor foi trabalhar na Cipla. Mas a bola continuava na agenda: “Fiquei três anos treinando o time da Tigre, que disputava a Primeirona. O seu João Hansen não se conformava com a hegemonia da Tupy e nos deu todas as condições. Me prometeu até uma semana de férias na Bahia se ganhássemos o título. Perdemos para a Tupy por um gol de saldo”.
Depois de uma rápida passagem pela Comissão Municipal de Esportes de Taió, Linor retornou ao JEC, novamente como supervisor das categorias amadoras. Em 1984 tentou uma função diferente, como árbitro. “De tanto apitar os treinos da garotada, acabei aprendendo alguma coisa, tanto que fui eleito o melhor árbitro do ano. Mas preferi continuar como treinador.” Linor passou ainda por diversos clubes amadores da cidade, até retornar ao Caxias, em 2005, como motorista. E torcedor, claro: “Acho que o time vai reagir no returno do estadual”.


A segurança embaixo dos três paus

Ídolo. Walter é considerado um dos melhores goleiros que passaram pelo JEC
Carlos Junior/ND
No gramado da Arena. Atualmente morando na cidade fluminense de São João da Barra, Walter participou do último encontro dos ex-jogadores do JEC

 

 

Sete em cada dez enquetes feitas entre torcedores do JEC, para eleger os 11 melhores jogadores da história do Tricolor, com certeza começam pelo goleiro Walter Diab. Em quase três temporadas pelo clube, Walter conquistou a torcida com um estilo sóbrio, seguro e firme também com a bola nos pés – lembrando muito o atual defensor, Ivan (dono de dois dos outros três votos da enquete, dos torcedores mais jovens; o décimo voto é de Borrachinha). “Passei uma das melhores fases da minha carreira no Joinville e guardo o clube no coração até hoje”, diz Walter, que demonstrou, aos 52 anos, um pouco da velha forma recentemente, no terceiro encontro de ex-jogadores do JEC. “Foi muito bom reencontrar antigos companheiros e matar a saudade de Joinville.”
Natural da cidade paulista de São João da Barra, Walter nem sempre foi goleiro. Nas peladas nos campinhos ele jogava no ataque, mas acabou no gol por não ser lá muito craque fazendo gols. “Meu pai era goleiro em times amadores, acho que era meio genético”, brinca o ex-goleiro, que vestiu sua primeira camisa no futebol profissional aos 18 anos, quando passou numa peneira no Botafogo de Ribeirão Preto. “Fiquei pouco tempo no juvenil, e em 1979 o técnico Jorge Vieira me passou para o time de cima.” Naquele mesmo ano, o Botafogo foi vice-campeão do Torneio Incentivo paulista, perdendo a final para o América de São José do Rio Preto. O goleiro tem a escalação na ponta da língua: “Walter, Wilson Campos, Nei, Manoel, Beto, Mário, Miro, Osmarzinho, Terto, Arlindo e João Carlos Motoca”. Em 1983 o passe de Walter Diab era negociado com o América do Rio, que depois o emprestou à Ferroviária de Araraquara.

 

 “Passei uma das melhores fases da minha carreira no Joinville e guardo o clube no coração até hoje.”

 

 

 

Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
Galeria. Pôster do JEC campeão catarinense de 1984, publicado na revista Placar. Em pé: Leo, Jacenir, Clademir, Ricardo, Walter e Adilson; agachados: João Carlos, Nardela, Paulinho Cascavel, João Renato e Silvinho

 

 

Campeão em 1984
No início de 1984, o América emprestava novamente o goleiro, desta vez pra o Joinville Esporte Clube, juntamente com o atacante Carlos Silva. “O goleiro do JEC era o Borrachinha, o páreo era duro”, recorda-se Walter, que chegou num segunda-feira e na quarta já estava em campo, no empate em 0 x 0 contra o Inter de Lages, no Ernestão. O esforço rendeu a posição, tanto que apenas dois meses depois o presidente Waldomiro Schützler comprou seu passe junto ao América.
No final do ano, a recompensa veio na forma da faixa de campeão catarinense, o primeiro título da carreira. “A final foi contra o Figueirense, no Orlando Scarpelli. Fomos campeões com um empate em 0 x 0, num jogo complicado, cheio de pressão.” No final, mesmo contra toda a pressão, JEC heptacampeão, com direito a volta olímpica e sob os aplausos até da torcida do Figueirense. O time formou com Walter, Jacenir, Adílson, Leo, Clademir, Ricardo, João Renato, João Carlos, Nardela, Cascavel e Silvinho.
Depois de mais um título em 1985, Walter deixou o JEC no ano seguinte, negociado com o Guarani de Campinas. Passou ainda pelo Blumenau, Comercial de Ribeirão Preto e Brusque, onde pendurou as chuteiras, em 1995. Mas foi do JEC que Walter guardou as melhores recordações – além, claro, de suas duas faixas de títulos estaduais. “Os títulos e os amigos que fiz aqui foram realmente o que ficou de melhor da passagem pelo JEC”, conclui Walter, hoje professor de educação física – formou-se pela Furb durante suas passagens por clubes catarinenses –, atualmente ocupando a secretaria de Esportes de São João da Barra (RJ).


Um tiro certeiro

No alvo. Ex-funcionária da Fundação 25 de Julho descobriu o esporte ao acaso e, em dez anos, já conquistou todos os títulos em clube
Fabrizio Motta/ND
Condecoração. Therezinha Rodrigues Lorenzetti exibe com orgulho troféu e conquistado no tiro seta

 

 

Em 20 anos de carreira como agente administrativa da Fundação Municipal de Desenvolvimento Rural 25 de Julho, Therezinha Rodrigues Lorenzetti notabilizou-se entre os agricultores por sua invariável eficiência e bom humor na hora de resolver os problemas mais intrincados que chagavam à sua mesa de trabalho. Dona de sorriso franco, Therezinha se orgulha das amizades que fez entre as famílias do meio rural de Joinville. “Trabalhei três anos da sede da Fundação 25 de Julho em Pirabeiraba e mais 17 no escritório do bairro Vila Nova e em ambos os locais nunca economizei um sorriso nem deixei de atender bem a todos. Sempre me esforcei para ser eficiente e agradável.Como recompensa, arrumei muitas amizades preciosas”, enfatiza.
Nascida em Capinzal, no Oeste de Santa Catarina, Therezinha foi criada em Pato Branco, no Paraná, de onde veio para Joinville aos 22 anos de idade. Nos primeiros cinco anos trabalhou na linha de produção industrial. Em seguida, ao passar em concurso público, virou funcionária da Prefeitura. Sua estréia de servidora pública foi no setor de compras, no prédio da rua Max Colin, onde na época funcionava a sede do poder Executivo. De lá foi deslocada pela a Fundação 25 de Julho, da qual se desligou recentemente ao se aposentar.
Além do bom êxito profissional, em Joinville Therezinha encontrou em Nelson Lorenzetti sua alma gêmea. O casamento ocorreu em 1998 e hoje, ambos aposentados, residem no bairro Vila Nova. Mãe de um casal de filhos, Therezinha não é popular só no meio rural de Joinville.  Praticamente de tiro ao alvo, modalidade seta, ela e o marido integram a equipe da Sociedade Operário desde 2002. Por conta da dedicação e assiduidade ele é uma das atiradoras mais populares da agremiação.  
Disciplinada, a ex-funcionária pública comparece a todos os treinos realizados às terças-feiras. Tamanha dedicação tem lhe rendido ótimos resultados. Sem esconder uma pontinha de orgulho, ela conta já ter conquistado todos os títulos possíveis. “Já fui dama (4º lugar), segunda princesa (3º lugar), primeira princesa (2º lugar) e rainha (1º lugar). Mas quero mais”, avisa a determinada atiradora do Operário, tradicional sociedade da rua Benjamin Constant.

 

O espírito familiar que prevalece nos clubes de tiro ao alvo é o fator que mais me fascina a permanecer nesse tipo de esporte.”

 

A convite de um colega de trabalho
Therezinha relembra que seu ingresso no tiro ao alvo começou meio que por acaso. “Belo dia, o Adolar, meu companheiro de trabalho e veterano atirador da Sociedade Esmeralda, me convidou para participar de um treino. Gostei da experiência e por isso continuo disparando minhas setas até hoje”, esclarece muito da divertida.
De bem com a família e o gatilho, Therezinha informa que foi ela a responsável pelo marido ter aderido ao esporte. “No começo, ele só me acompanhava, mas depois de um ano começou a praticar e hoje é um bom atirador. O filho Cristhy, posteriormente seguiu nossos passos e por isso hoje atiramos em família. O espírito familiar que prevalece nos clubes de tiro ao alvo é o fator que mais me fascina a permanecer nesse tipo de esporte”, destaca a atiradora da Sociedade Operário.  (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


A realização no tatame

Campeão. André Campos trocou o basquete pelo jiu-jitsu e se deu bem
Luciano Moraes/ND
Conquistas. André Alberto já foi campeão joinvilense, catarinense, paranaense, sul-brasileiro, brasileiro e sul-americano nas várias categorias em que passou

 

Aos 12 ano de idade, André Alberto Wostehoff Campos já media 1,90 metro de altura. Magro, tinha o biotipo ideal para a prática do basquete. E lá foi ele para as quadras, defender as cores do colégio Bom Jesus nas competições de basquete. Depois, dois anos em Piracicaba, jogando pelo 15 de Novembro contra as grandes forças do basquete paulista. Hoje, os títulos e medalhas vão se acumulando no currículo. Só que não vieram das quadras, mas sim dos tatames, onde André Campos vem construindo uma carreira vitoriosa no jiu-jitsu. E por que o calção e a camiseta foram trocados pelo quimono? André responde: “Tive sérios problemas nos joelhos, que dificultavam a prática do basquete. Aí, alguns amigos me apresentaram ao jiu-jitsu. Gostei, me adaptei e hoje vivo desse esporte”.
Natural da capital paulista, André se criou em Joinville, para onde a família se mudou quando ele tinha 5 anos. Garoto ativo, enxergava um futuro no esporte – ainda por cima sendo mais alto que a média. O basquete, portanto, foi um caminho natural. Mas vieram as contusões e a necessidade de mudar de rumo. Foi quando os amigos praticantes de jiu-jitsu o convenceram a tentar a arte marcial. As primeiras lições foram na academia Civi, no Bom Retiro. “Gostei logo de cara do jiu-jitsu, tanto que em apenas dois meses de treinamento já conquistei o campeonato catarinense”, reforça.
Empolgado, André decidiu tornar o jiu-jitsu sua profissão. Há um ano alugou uma sala na mesma academia Civi, em sociedade com o colega Alexandre Ricardo Marciano, onde dá aulas todos os dias, como franqueado da academia carioca Gracie Barra. E começou a mudar as cores das faixas e empilhar títulos. “Cheguei à faixa preta há cerca de um ano, e hoje luto na categoria superpesado”, informa o lutador, com 1,94 m e 100 quilos e meio.

 

“Gostei logo de cara do jiu-jitsu, tanto que em apenas dois meses de treinamento já conquistei o campeonato catarinense.”

 

Prioridade para a arte dos monges
André passou a dar tal prioridade às aulas e competições, que dois outros projetos precisaram de um tempo: a faculdade de direito, que ainda tem um ano e meio de aulas, e o canil que mantinha em sociedade com o pai. “Criávamos buldogues ingleses e mastins napolitanos, mas foi preciso interromper essa atividade, pois eu viajo muito para competir. E meu pai é médico, também não pode dispor do tempo necessário para um negócio paralelo”, explica André. Ainda assim, ele mantém em casa seus xodós, três buldogues que merecem todo o carinho. “O buldogue é um animal exigente, de personalidade forte, e que precisa também de cuidados especiais quanto ao físico.” Bem, com certeza no aspecto físico os cães recebem atenção especial, já que seu tutor precisa estar atento ao próprio condicionamento.
Em poucos anos de carreira, André Campos acumula diversos títulos nas várias categorias pelas quais passou, começando pelo mundial conquistado no Rio de Janeiro, quando tinha pouco mais de um ano de prática. “Já fui campeão joinvilense, catarinense, paranaense, sul-brasileiro, brasileiro e sul-americano”, contabiliza.
No último mundial, realizado em julho na Califórnia (EUA), ficou entre os três melhores do planeta. No ano passado, foi eleito lutador-revelação entre todas as academias Gracie Barra, tendo sido também vice-campeão europeu pela franquia e campeão pela seleção brasileira. A meta agora está logo aí em frente: “No ano que vem, em julho, quero ser campeão mundial faixa preta”. Para chegar lá, ele conta com as marcas que o têm apoiado: Casa das Especiarias, Monthex, Corefit Pilates e Studio Iron Health.


Assim como foi feito

Preservação. Restauradora do Arquivo Histórico, Gessonia Carrasco fez especialização e aplicou na recuperação do Cemitério do Imigrante
Fotos Rogerio da Silva/ND
Mão hábeis. Gessonia recupera peças  e documentos no laboratório que fica na Estação da Memória

 

Quando se imagina ou se fala em salvamento, imediatamente pensamos em nossos gloriosos bombeiros, médicos, enfermeiros ou paramédicos. Isso é instintivo, natural. No entanto, existem pessoas que trabalham com outro tipo de salvamento que, apesar de não lidarem com vidas humanas, resgatam fragmentos da história de uma cidade, de um povo e da humanidade. Gessonia Carrasco, restauradora do Arquivo Histórico Municipal é uma delas. Formada em educação artística com licenciatura em artes plástica pela Univille, desde 1994 ela atua com restauração de papel no Arquivo Histórico.
Dessa convivência e observação sobre o material a ser tratado, surgiu um interesse especial pela documentação escrita, principalmente do século 19, pela ampla utilização, no período, de tintas à base de ferro, conhecida entre os restauradores de papéis como tinta ferrogálica. Devido às condições de armazenamento, e sob a forte influência das alterações climáticas da nossa região, instala-se a ferrugem que, literalmente, destrói a documentação caso o problema não seja identificado e sanado a tempo.
A ferrugem na documentação escrita é tão violenta e destruidora como o ataque de cupins e brocas. Por esse motivo, Gessonia buscou vários cursos de capacitação e qualificação no tratamento de papéis, tanto no Brasil como no exterior. Assim, em 1999 ela realizou o curso de conservação e restauração de obras sobre papel, na Universidade Federal do Paraná. Nesse mesmo ano, por intermédio de uma bolsa do programa Virtuose, do Ministério da Cultura, ela seguiu para a Holanda, ao Rijksmuseum, o museu real, onde teve contato com técnicas inovadoras para o segmento de papel e onde passou seis meses. De volta ao Brasil, em 2001 teve início a restauração do Cemitério do Imigrante em comemoração à fundação dos 150 Anos de Joinville.

 

 “Intervir, restaurar e conservar é trabalhoso, porém, emocionante.”

 

Especialista em artefatos metálicos
Sempre preocupada com a formação, por sua conta foi para a França, onde se especializou na conservação de artefatos metálicos. Um dos graves problemas a serem resolvidos nessa recuperação do Cemitério do Imigrante era exatamente a corrosão que se verificava na grande maioria dos objetos e peças metálicas dos túmulos. Praticamente abandonado durante décadas, tendo a somatória de mais de um século de existência, agravados pelas intempéries, segundo Gessonia “a situação das peças de maneira geral, era bastante delicada”. A qualificação obtida na França foi de vital importância no salvamento de uma boa parte dos ornamentos metálicos desses túmulos, pelo menos nas situações de maior gravidade.
Dos muitos trabalhos já realizados, Gessonia relembra com satisfação da restauração do altar da Igreja da Lagoa, em Florianóplis. “Deu muito trabalho, mas o resultado final foi gratificante”. Em vias de sua aposentadoria, ela traça planos para um futuro de muito trabalho. “Somos um país de muita carência profissional nessa área e eu me preparei muito para isso. O que pretendo fazer é dividir e repassar esses conhecimentos através de cursos, palestras ou mesmo dando aulas em alguma instituição. O que eu não desejo é parar. Intervir, restaurar e conservar é trabalhoso, porém, emocionante.” (Valter F. Bustos, especial para o Notícias do Dia)

           


Dos motores e das letras

Autodidata. Mecânico do Vila Nova foi citado em livro como um dos maiores especialistas em carros da marca Simca
Fabrício Porto/ND
Registro. Na oficina mantida ao lado da casa, Dionísio Venturi lê o livro técnico assinado por Horst Peterhaus

 

 A profissão e o hábito da leitura são duas paixões que movem o cotidiano de Dionísio Venturi, um dos mais antigos e respeitados mecânicos de automóveis em Joinville. Sua habilidade profissional está registrada até em um livro de teor técnico, escrito pelo joinvilense Horst Peterhaus. “Dionísio foi um dos maiores especialistas na manutenção de Simca”, afirma Peterhaus em sua obra.
De fala mansa e raciocínio linear, Dionísio nasceu há 65 anos da cidade de Rodeio e veio para Joinville ainda criança. A família se estabeleceu em um caminho de roça no bairro Vila Nova, onde hoje está a valorizada rua Francisco Cristofolini. Ele conta que dos 10 aos 16 anos trabalhou no local, dedicando-se ao cultivo de arroz irrigado. Aos 16 anos pulou para fora dos tapumes das arrozeiras para aprender a consertar bicicletas. As coisas estavam indo bem, mas aí ele interrompeu o aprendizado para agarrar a uma inesperada oferta de se tornar mecânico de automóveis.
Passados 49 anos do dia que trocou os consertos de bicicletas pelos de automóveis, ele continua no ramo até hoje. Mesmo aposentado, mantém uma pequena oficina ao lado da casa, onde atende antigos fregueses espalhados por toda a cidade. Dionísio conta que, após a implantação de três safenas e uma mamária, ele evita serviços pesados, mas não se esquiva de fazer manutenções de freios, direções e suspensões. “Estou sempre de prontidão, não saberia viver sem o cheio do óleo e da graxa”, enfatiza bem humorado.
O começo de sua trajetória profissional ocorreu na mecânica Douat, dona da agência concessionária da DKW, de onde migrou para a agência da Simca. Posteriormente trabalhou por conta própria em parceria com dois amigos. Um ano mais tarde os três fecharam o empreendimento e Dionísio voltou a trabalhar de empregado. Primeiro na mecânica Torrens e, em seguida, na Consul, onde fez consertos de caminhões, empilhadeiras e tratores até se aposentar em 1996.  
Paralelamente à jornada na Consul, Dionísio abriu uma a pequena oficina ao lado da casa, para atender nos fins de semana velhos fregueses conquistados no tempo que fez história como especialista em Simca. Autodidata, Dionísio salienta que a mecânica é um dom natural. “Trocando informações com colegas e lendo tudo o que é publicado sobre conserto de automóveis, mexo com qualquer marca e tenho me adaptado bem às modernidades eletrônicas que hoje fazem parte da indústria automobilística”, destaca.

 

Estou sempre de prontidão, não saberia viver sem o cheio do óleo e da graxa.”

 

Leitor de todos os gêneros
Dionísio não se contenta em ler apenas livros técnicos. Ao contrário, ele é um devorador de obras dos mais variados gêneros literários. “A leitura é um grande passatempo. Ajuda a abrir a imaginação e a enriquecer os conhecimentos”, salienta.
Casado há 43 anos com dona Martha, Dionísio é pai de duas filhas e um filho, avô de dois netos e uma neta e bisavô de um pequerrucho. De bem com a família, o trabalho e os livros, ele avisa aos velhos fregueses que por enquanto não estabeleceu prazo para parar de trabalhar. “Dei uma aliviada depois as safenas e da mamária, mas tenho ainda lenha para queimar”, diz o veterano e espirituoso mecânico. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)

 

Com a licença da Fiat
Simca é a abreviatura de Société Industrielle Mécanique et Carrosserie Automobile. Os primeiros Simca eram modelos Fiat construídos sob licença na França. No Brasil, foi fundada em 5 de maio de 1958 em Belo Horizonte. Mais tarde, construiu fábrica em São Bernardo do Campo . O modelo básico produzido pela empresa a partir de 1959 foi o Simca Chambord, inspirado no Simca Vedette Chambord francês. O primeiro Chambord a sair da linha de produção foi oficialmente entregue ao presidente Juscelino Kubitschek no Palácio do Catete. Em 1966, a Chrysler americana, proprietária da Simca francesa, assumiu o comando da filial brasileira. Em agosto de 1967 a Simca do Brasil deixou de existir e nascia a Chrysler do Brasil.

 

 

  

 

  

 

  

 

   

 

 

  


Paixão carga pesada

Relíquias. Luiz Roberto Dressel coleciona caminhões, ônibus e pick-ups de diferentes anos e procedência
Fotos Fabrício Porto/ND
Lindo de se ver. Luiz Dressel exibe algumas das suas raridades, guardadas no galpão da rua Tubarão

 

Luiz Roberto Dressel, 62, nasceu na rua Tubarão, bairro América, onde vive até hoje. “Adoro esse bairro, porque esse nosso cantinho ainda é muito calmo,” observa. Ele conheceu uma Joinville quase germânica, onde prevalecia a arquitetura enxaimel nas construções, a pontualidade dos cidadãos bem como o valor da palavra no fechamento de qualquer transação. Seu pai, Levino Dressel, foi um dos mais conhecidos taxistas da cidade e vereador de 1947 a 1951, quando o cargo era exercido sem remuneração. “Meu pai viveu modestamente e ajudava todo mundo. Quem podia, pagava a corrida; se não podia, ficava tudo certo.”
Dressel conta que viveu uma infância sem luxo, mas de muitas brincadeiras e incontáveis amigos. Aos 14 anos conseguiu seu primeiro emprego na fábrica de bombas Schneider. Trabalhou como ajudante, marceneiro, ferramenteiro e no almoxarifado. Convidado por um conhecido, além do atrativo de um salário bem maior, foi trabalhar na Transcarga, empresa que representava o Expresso Joinvilense. Com a falência da dessa empresa, ele viu surgir uma oportunidade trabalhando no agenciamento de cargas. “Eu transportava de tudo para Joinville, de agulha até motocicleta.”
Com o rápido crescimento e a demanda de cargas provenientes do Rio e São Paulo, em 1969 foi para a Cidade Maravilhosa trabalhar numa filial. Um ano depois retornou para Joinville e montou o seu negócio definitivo, a Transportadora Príncipe. No começo, vinha trigo do Moinho Anaconda, de Curitiba. Assim que os caminhões descarregavam, já tinham cargas para outros destinos. Sua clientela aumentara muito. Em decorrência desse crescimento, em 1973 montou uma filial em São Paulo, no Parque Novo Mundo, para atender a Docol, Fundemaq, Fábio Perini e Cimebrás, entre outras. Durante esse período, sua carta de clientes tinha mais de 500 cadastros. Sempre atento a tudo que ocorria no mercado, sentiu um grande potencial no fretamento de ônibus e constituiu, em 1994, a Príncipe Turismo.

 

Eu sou exigente na recuperação dos meus caminhões e chato nos mínimos detalhes.”

 

Todos em condições impecáveis
Família criada, pai de três filhos (Fabiana, Roberto e Felipe), hoje curte a alegria de ser avô do Rafael, 4 aninhos. Depois de muito trabalho e da superação dos problemas de saúde (sofreu quatro AVCs e dois infartos), tratou de realizar um antigo sonho: iniciar sua coleção de veículos pesados. São 14 veículos de categorias diferenciadas (ônibus, caminhões e pick-ups), de vários anos e procedências. O que há de comum entre todos eles é o estado de conservação: impecáveis. Desses, quatro foram adquiridos no Rio Grande do Sul; os demais são de várias regiões de Santa Catarina.
Como sempre esteve ligado ao transporte, Dressel possui muitos amigos caminhoneiros que foram dando as dicas da localização das raridades. “Eu sou exigente na recuperação dos meus caminhões e chato nos mínimos detalhes.” Na sede da empresa, na rua Tubarão, é possível perceber a extensão desse seu critério. A frota da Príncipe Turismo é seminova e a revisão de todos os carros são feitas nas concessionárias. “Eu tenho preocupação com a qualidade de nossos serviços, até porque entre os nossos clientes estão as empresas aéreas Tam, Gol, Azul e Trip”.

 

O repórter por testemunha
Enquanto conversa com Dressel, ele soube da existência de um “gigantão” que fora adquirido num leilão do Exército Brasileiro: um caminhão Réo ano 1951 destinado ao transporte de tropas e equipamentos. “Vem comigo,” ele disse, e fomos parar próximo ao Detran, onde o caminhão aguardava o licenciamento. Rapidamente localizou o proprietário e entabulou a conversa típica dos colecionadores. Não demorou, estava com todas as informações sobre a procedência do veículo e da localização de um modelo exatamente igual, à venda na Zona Sul de Joinville. “É um caminhão interessante, estou propenso a comprar”. Esse é o colecionador Luiz Roberto Dressel. Eu vi; eu estava lá eu acompanhei. (Valter F. Bustos, especial para o Notícias do Dia)


A história de uma vencedora

Superação. Garota enfrentou a leucemia quando tinha 7 anos de idade
Fabrício Porto/ND
De paciente a atendente. Há pouco mais de dois anos, Juliana conseguiu seu primeiro emprego, justamente numa lanchonete McDonald’s

 

Juliana Fernanda dos Reis Coelho tem apenas 18 anos, mas já acumula uma experiência de vida suficiente para colocá-la no pódio dos vencedores. Diagnosticada com leucemia, o temido câncer que atinge o sistema circulatório, aos 7 anos de idade, enfrentou os desafios do doloroso tratamento, superou o problema e hoje é funcionária da rede de fast food que ajudou a bancar as longas e sofridas sessões de quimio e radioterapia. “Do hospital, lembro-me bem da figura engraçada do palhaço Ronald McDonald, animando as crianças que passavam pelo tratamento”, conta Juliana, referindo-se ao personagem-símbolo da rede McDonald’s, promotora da campanha “McDia Feliz” – que se realiza neste sábado (25), em todo o país.
Nascida em 1994 no pequeno município de Altônia, no Oeste paranaense, Juliana tinha apenas 2 meses de idade quando sua família mudou-se para Joinville, onde as possibilidades de crescimento se mostravam mais animadoras. “Fomos morar no Jardim Paraíso, quando o bairro começava a crescer. Eu mal havia começado os estudos, no colégio Rosa Maria Berezoski, quando minha família descobriu que eu tinha câncer no sangue, a leucemia. Eu mal sabia o que era isso”, diz Juliana, que apresentava os sintomas característicos da doença, como fraqueza, dores no corpo e anemia. “A anemia era comum na nossa família, tive até um irmão que morreu com 1 mês de idade, provavelmente já tinha nascido com leucemia.”
Foi no posto de saúde do Jardim Paraíso que surgiu a suspeita, logo confirmada no Hospital São José. Foi ali mesmo, na ala oncológica, que Juliana passou os três primeiros meses de tratamento internada, submetendo-se a intermináveis e dolorosas sessões de quimioterapia. Da época, ela se lembra bem dos médicos Túlio, Deli e Tatiane, que a acompanharam durante o longo tratamento. “Sou muito grata a eles”, reconhece. Também não poupa palavras de carinho para a professora Adriana, que ministrava na ala pediátrica as aulas que os pequenos pacientes não podiam assistir em seus colégios. “Graças a ela – agradece – não perdi o primeiro ano de escola.”
Juliana encarou o tempo necessário de treinamento, viu-se careca no espelho com 7 anos de idade, mas superou tudo. E não foi fácil: “Quando fiquei internada, éramos 12 crianças em tratamento. Mais tarde eu soube que as outras 11 não sobreviveram”.

 

Sinto-me uma vencedora, por tudo que enfrentei. E só venci graças aos médicos e à minha mãe, que muito sacrificou para ficar sempre ao meu lado.”

 

Quer ser médica
Foi ainda no hospital que Juliana conheceu Ronald McDonald e soube que o São José tinha parte dos custos da ala oncológica infanto-juvenil coberta pela campanha McDia Feliz. Há cerca de dois anos, ela conseguiu seu primeiro emprego, justamente numa lanchonete McDonald’s. “Comecei como atendente, e hoje sou coordenadora”, explica. Mesmo exercendo um cargo de liderança, Juliana se desloca para o balcão em momentos de maior movimento.
Cumprindo expediente na lanchonete das 7 às 16h30, é à noite que Juliana estuda. Atualmente cursa o terceirão no colégio Nagib Zattar, preparando-se para seu primeiro vestibular. “Quero fazer medicina”, antecipa, já se vendo, quem sabe, na ala oncológica de algum hospital, ajudando outras crianças a enfrentar e superar o mesmo desafio que ela derrubou. “Sinto-me uma vencedora, por tudo que enfrentei. E só venci graças aos médicos e à minha mãe, que muito sacrificou para ficar sempre ao meu lado.”

 

A campanha
O McDia Feliz é o principal evento comunitário do McDonald’s no Brasil e a maior campanha do país no combate ao câncer infanto-juvenil. Neste dia, todo o dinheiro obtido com a venda de sanduíches Big Mac é revertido para a instituição participante em cada cidade – em Joinville, o Hospital Infantil Jesse Amarante de Farias.


E lá vem o trem

Manutenção. Valter Luiz Serena conhece cada pedaço de trilho como a palma de suas mãos
Luciano Moraes/ND
Em ordem. Valter Serena faz a manutenção do trecho entre Jaraguá do Sul e São Francisco e, entre os itens verificados todos os dias, está a chave de mudança de trilhos

 

 

Valter Luiz Serena, 52, é natural de Ipirá, cidade próxima a Piratuba no Oeste catarinense, região cortada pelos trilhos da antiga RFFSA (Rede Ferroviária Federal). Igual a toda criança, e ele não foi exceção, gostava de ouvir o apito do trem e de vê-lo passar. Infância tranquila e regrada, viu a adolescência chegar em companhia de mais cinco irmãos. Como era comum naqueles tempos, próximo dos 18 anos foi atrás de uma vaga na ferrovia. “Como eu era muito magrinho, meu pai não deixou porque o trabalho era pesado demais,” recorda.
Para não contrariar o pai, Valter foi trabalhar no frigorífico da Perdigão, em Capinzal, onde ficou um período. Saiu, passou por uma madeireira e foi buscar a realização do seu sonho. Assim, no dia 8 de março de 1984 entrou para a RFFSA como artífice de via, depois de concluir um curso de admissão. “Trabalhar na Rede era o meu sonho e consegui depois de muito trabalho.” Em 89 foi promovido a supervisor de via permanente e, em dezembro de 1996, chegou com a esposa e o filho em Joinville para trabalhar na região.
Serena é o responsável pelo trecho de linha entre Jaraguá do Sul e São Francisco, um total de 70 quilômetros de trilhos. Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (1993-2003) o Brasil conheceu a privatização das maiores empresas estatais, entre elas, a RFFSA. Hoje, privatizada, chama-se ALL (América Latina Logística). O trabalho sob sua responsabilidade consiste na verificação, diagnóstico, reparação e conservação de cada centímetro de trilho e de cada dormente assentado no percurso por onde se locomovem as composições. Também estão incluídas todas as passagens de nível, ponte, pontilhões e MVS (chave de mudança de trilhos) até a vizinha São Chico. “O trem não pode para sobre nenhuma hipótese, salvo algum acidente ou problema de força maior. Minha função junto com a equipe é garantir esse funcionamento com a linha 100% operacional”.

 

“Trabalhar na Rede era o meu sonho e consegui depois de muito trabalho.”

 

Todos os dias são de muito trabalho
Valter trabalha com metas estabelecidas mês a mês pela empresa. Todos os dias a partir das 5h30, acompanhado pela mascote Puka (uma cachorrinha malhada em tons de marrom), ele chega ao escritório localizado no pátio da estação ferroviária. No computador, preenche os relatórios e verifica a programação. Às 7h já está a bordo do auto de linha, com o restante da equipe, substituindo talas, trilhos ou dormentes, e lubrificando as MVS. Quando acontece alguma colisão, descarrilamento, tombamento ou qualquer interrupção, eles são os primeiros a chegar e os últimos a deixarem o local. “Minha melhor ferramenta são as rondas que fazemos a pé. É o ‘olho de águia’, não escapa nada”. A verificação das condições do trecho são feitas toda a semana. Na segunda, o “ronda” percorre do km 0 ao 25; na terça, do 26 ao km 55; na quarta, do 56 ao km 77,769.
Nestes anos todos, ele guarda boas lembranças, e outras nem tanto assim.  “Cada dia é uma vitória, com coisas boas acontecendo a toda hora. Infelizmente, a gente só guarda aquilo que foi ruim,” pondera. E uma dessas ocorreu em 1999. Ele seguia dirigindo o auto de linha no sentido Jaraguá/Joinville quando uma menina, na época com 7 anos de idade, atravessou os trilhos fora da passagem de nível e foi atropelada. “Fizemos tudo: atendemos, medicamos e removemos. Depois, veio à perícia e ficou constatada a imprudência da garota. Temos GPS no veículo e controle de velocidade. Ela não ficou com nenhuma seqüela. Mas sabe como é, a gente não esquece.”
Ao longe, ouve-se novamente o apito do trem em aproximação. Rapidamente, Valter arruma a bagagem porque vai de carona, sempre na última locomotiva (a composição é tracionada por três máquinas a diesel) para mais uma ronda de verificação das condições gerais da via. (Valter F. Bustos, especial para o Notícias do Dia)


A vovó do Vila Nova

Longevidade. Aos 94 anos, Maria Leite Coelho conta histórias de quando o bairro se destacava pela produção agrícola
Carlos Junio/ND
Sorriso gentil. Maria acompanhou o marido por várias cidades do Médio Vale do Itajaí e da região de Joinville, até se acomodar no Vila Nova, há 53 anos

Franzina e simpática, dona Maria Leite Coelho esbanja disposição e lucidez impressionantes. Aos 94 anos de idade, ela continua não negando fogo na hora de fornecer detalhes minuciosos de uma longa vida pautada por muito trabalho desde a infância, quando pegava no cabo da enxada para ajudar a família a cultivar lavouras de subsistência.  De uma amabilidade tocante, ela conta que nasceu em Nova Trento, onde conheceu e se casou com Manoel Justino Coelho, carroceiro e cortador de árvores, cujas toras eram destinadas a serrarias da região. “Quando nos casamos, meu Manoel derrubava árvores, que depois levava de carroça de Nova Trento até Tijucas, um trabalhão de danar”, recorda.
Revezando-se entre a boleia da carroça e o cabo do machado, Manoel Justino acabou impondo ritmo cigano à família. “Devido à sua profissão, tivemos de morar em muitos lugares no interior de Nova Trento, Blumenau, Massaranduba, Rodeio e Guaramirim. Fizemos 20 mudanças até que nos estabelecemos em Joinville, onde escolhemos o bairro Vila Nova para ficar em definitivo”, conta dona Maria.
Foi em meio a tantas mudanças que dona Maria teve 11 filhos (três morreram ainda criancinhas). Ela recorda que ao chegar ao bairro Vila Nova o filho mais novo estava com dois anos de idade. “Como hoje ele está com 55, é fácil de fazer as contas, estou por aqui há 53 anos”, assinala, sorridente.
Ao se lembrar da chegada, dona Maria enfatiza que naquele tempo Vila Nova não tinha cara de bairro. “Na rua 15 de Novembro (a principal do bairro) havia apenas algumas casas, a maioria habitada por agricultores. Com o tempo, as coisas foram mudando até virar tudo cidade. Dá até pena de ver loteamentos no lugar onde cresciam belas lavouras”, comenta, saudosa de um tempo de muito sossego, poucos automóveis e muitas carroças.
Dona de boa saúde, dona Maria informa que depende de dois remédios, um para controlar a pressão arterial e outro para garantir sono tranquilo. “No mais, vai tudo bem. Devo a boa saúde a alguns cuidados na alimentação. Não como carne gordurosa e não boto no meu prato nada com temperos industrializados. Feijão de caldo encorpado com temperos caseiros é uma das minhas preferências”, revela, sem conter uma risada travessa.

 

"Na rua 15 de Novembro  tinha apenas algumas casas, a maioria habitada por agricultores. Com o tempo, as coisas foram mudando até virar tudo cidade. Dá até pena de ver loteamentos no lugar onde cresciam belas lavouras."

 

Ajuda para quem acredita
Com uma lista de 25 netos, 27 bisnetos e um trineto, dona Maria fez e ainda faz história no bairro Vila Nova como benzedeira de quebranto e rasgadura. “É um dom que eu trouxe de berço e que aprendi a desenvolver com minha avó”, esclarece. Mulher de espírito solidário, ela nunca cobrou nada pelo trabalho de benzedeira.  “Quem cura é Deus, por isso, quem tem o dom da benzedura não deve cobrar nada se tiver recursos para se manter”, salienta.
Espirituosa, ela deixa escapar que a família já chegou a sugerir que ela desse um fim às benzeduras devido à avançada idade. “Até obedeço, mas só um pouquinho. Quando alguém bate na minha porta, acabo atendendo. Sinto a obrigação de levar adiante essa missão”, deixa escapar a veneranda moradora do bairro Vila Nova. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Flagrantes do passado

Memória. Professor compartilha fotografias antigas de Joinville no Facebook e dissemina clima de nostalgia na rede
Fabrício Porto/ND
Para recordar. Gilberto emoldurou uma foto que mostra o Moinho Santista e o rebocador Oscar em um dos portos do Cachoeira, em 1940

 

Acervo Sasse Fotografia/Divulgação/ND

 

Primeiro foi uma ideia. Depois algumas fotos. E em pouco tempo, uma página criada no Facebook começou a chamar a atenção dos internautas de Joinville. Com o nome de “Imagens antigas de Joinville”, a comunidade está no ar desde julho deste ano, reunindo fotografias que ficaram nas lembranças dos mais antigos – e dos nem tão antigos assim. Por trás da ideia está um jovem apaixonado por história. “Me formei em geografia, mas sempre gostei de história”, brinca Gilberto Gadotti Jr, um joinvilensede 29 anos que é professor de geografia da rede  municipal de ensino.
Gilberto conta que esse interesse nasceu na infância. Criado no Iririú, ele morava em uma casa que havia pertencido ao bisavô. Na época já se encantava com os relatos sobre a casa (que era de madeira e havia sido transportada para o bairro), e com os antigos guias de ruas do pai que traziam imagens da cidade. E cresceu cultivando este olhar. “Para compreender o espaço geográfico, como a cidade se formou, porque ela é desta forma, tem que entender o passado”, justifica.
Em julho deste ano, durante as férias escolares, teve a ideia de fazer uma página no Facebook com imagens antigas que garimpava na Internet. Há tempos já visitava sites com imagens históricas do mundo inteiro e se inspirava. “Durante as férias, busquei por Joinville, Como não tinha, resolvi abrir uma”, explica.
A repercussão foi surpreendente. Em menos de um mês foram mais de 1.800 curtições na página e cerca de 300 mil visualizações. As pessoas que olhavam e curtiam começaram a comentar as imagens e a abrir seus baús e álbuns de fotografia para contribuir. Hoje, Gilberto já postou mais de 50 fotos – e a comunidade, outras 30. Para facilitar o envio de imagens, foi criado um e-mail só para isto: imagemjoinville@gmail.com . “Tem um moderador, Jeferson Michels, que conheci por meio do Face e se dispôs a ajudar”, revela.

 

 “Para compreender o espaço geográfico, como a cidade se formou, porque ela é desta forma, tem que entender o passado.”

 

Público ajuda a alimentar página
O público é variado e inclui desde jovens a idosos. “Geralmente são maiores de 30 anos. Me surpreendi por que tem  vários idosos”, revela Gilberto, lembrando que uma senhora entrou em contato dizendo que tinha fotos, mas perguntando se não podia enviá-las por CD. Claro que podia. A página é aberta e qualquer pessoa pode enviar material, postar fotos ou deixar seus comentários e contribuições. “Não tem nada trancado”.
Agora o desafio é continuar alimentando o espaço e buscar mais informações sobre as imagens, que na maioria das vezes chegam sem créditos e nem sempre são identificadas. E no futuro, quem sabe, criar um arquivo visual e disponibilizar para estudantes e para a comunidade em geral. “A cidade precisa resgatar um pouco de sua história. Isto vai criando um senso crítico nas pessoas.”

 

Serviço | Onde curtir
Acesse http://www.facebook.com/pages/Imagens-Antigas-de-Joinville/335476746536097

 

 


Professora nota 10!

Distinção. Educadora joinvilense tem trabalho reconhecido em nível nacional
Fabrício Porto/ND
Aprendizado. Valkiria  na biblioteca da Escola Municipal Governador Pedro Ivo Campos, bairro Costa e Silva

 

Quem já foi ou ainda é aluno, conhece as agruras de se dedicar todos os dias, para chegar ao fim do mês com as melhores notas. Tudo pelo tão almejado 10. Mas professor também tem lá seus momentos de angústia, até ver o esforço recompensado com a nota máxima. Que o diga Valkiria Grun Karnopp, 42 anos, professora de matemática na Escola Municipal Governador Pedro Ivo Campos. Ela precisou caprichar mais até que seus alunos do 8º ano, para ser uma das 11 ganhadoras do Prêmio Educador Nota 10, promoção anual da Fundação Victor Civita que distingue projetos educacionais de professores do país inteiro. “Posso dizer que este prêmio representa o auge, até aqui, de minha carreira, além de comprovar que escolhi o caminho certo”, diz Valkiria, autora do projeto Joinville e a Matemática, responsável por levar aos alunos do 8º ano uma nova visão da disciplina, tendo a cidade e suas formas geométricas como cenário. “Tive a ideia – conta Valkiria – ao entrar no pavilhão da Festa das Flores no ano passado e observar as formas de alguns enfeites florais logo na porta. Incluí outros elementos da cidade, como as cassas em enxaimel e a bicicleta, e levei o projeto para a sala de aula, com ótimos resultados.” Tão bons, que foram o incentivo para inscrever o trabalho no prêmio.
Valkiria estava no banco quando seu telefone tocou, no dia 14 de julho, dando a feliz notícia. “Era da organização, informando que meu projeto fora selecionado entre os 55 melhores. Tive que responder na hora a várias questões, e depois aguardar outro aviso. Foi no colégio que me avisaram que era uma das onze premiadas. Depois confirmei no site e à noite me ligaram novamente. Foi uma emoção muito grande!”

 

"Posso dizer que este prêmio representa o auge, até aqui, de minha carreira, além de comprovar que escolhi o caminho certo.”

 

Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Recordações. No primário, em escola do Rio Bonito, até a graduação em matemática pela Furj (embaixo)

 

 

 

Vocação confirmada
Dar aulas era o que Valkiria sempre quis. Nascida e criada no Rio Bonito, onde viveu até os 18 anos, ela conta: “Desde o tempo de primário, eu sonhava ser professora, espelhando-me numa tia e em primos que davam aulas. Em casa, a brincadeira favorita era numa pequena lousa, dando aulas imaginárias”. O primeiro passo, concluído o ensino fundamental, foi fazer o curso preparatório para o magistério, no colégio Celso Ramos. “Como era longe de casa, morei em pensão durante os estudos.” Depois, a faculdade de matemática na Furj (atual Univille).
Ter sido sempre aluna nota 10 rendeu frutos: Valkiria passou no vestibular e em concurso público para a Prefeitura quase simultaneamente.
A carreira de professora começou junto com a faculdade, em 1988, no pequeno colégio 7 de Setembro, na Estrada Bonita. Três anos depois, foi para o Valentim João da Rocha, no Vila Nova, e desde 1992 está no Pedro Ivo, no Costa e Silva. “Entrei logo após a inauguração, já faço parte do acervo do colégio”, brinca.
Em 1996, trocou as férias de meio de ano por uma pós-graduação em matemática, na cidade paulista de Amparo. O mestrado está nos planos, mas vai exigir uma boa dose de planejamento logístico, pois certamente será feito em outra cidade. “Infelizmente, Joinville oferece poucas opções em pós-graduação e o jeito é buscar alternativas fora”, lamenta.
Por enquanto, o momento é de festejar a conquista. E, claro, começar a pensar na roupa a usar na solenidade de premiação, na Semana do Professor, em outubro, na capital paulista. Há mais uma emoção guardada: durante a cerimônia será anunciado o Educador do Ano. Valkiria leva toda a torcida de Joinville.

 

O prêmio
Criado em 1998, o Prêmio Victor Civita Educador Nota 10 visa a valorização do trabalho docente e a disseminação de práticas educativas de sucesso. Todo ano, são escolhidos dez professores e um gestor escolar, que ganham destaque no site e nas revistas Nova Escola e Gestão Escolar por seus trabalhos de excelência. Eles são selecionados por um grupo de especialistas. Os vencedores ganham um troféu, um prêmio em dinheiro e participam de uma grande festa em outubro. As categorias do prêmio são gestão, alfabetização, arte, ciências, educação física, geografia, história, língua estrangeira, língua portuguesa e matemática.


O universo dos usados

Sebo. Loja dispõe de acervo superior a 40 mil livros usados
Fabrício Porto/ND
Entre as prateleiras. Na Universo Cultural, Denilson contabiliza mais de 40 mil exemplares, outro tanto de revistas, além de uns 15 mil CDs, DVDs e discos de vinil

 

Adquirir um livro novo, retirá-lo do plástico e sentir o aroma de tinta fresca é, certamente, um prazer para quem preza a leitura. Mas também há quem sinta a mesma emoção, quando não maior, ao manusear um livro antigo, já marcado por incontáveis impressões digitais, algumas páginas ostentando “orelhas de burro” com suas dobrinhas nos cantos, o cheiro de papel velho... Para estes, o paraíso fica nos sebos, como se denominam os estabelecimentos voltados à comercialização de livros e revistas de segunda mão – ou de muitas mãos. “Muitas pessoas sentem prazer em manusear revistas e livros usados, por isso os sebos fazem tanto sucesso.” A avaliação é de quem conhece o ramo. Denilson Agostineti, além de proprietário da loja Universo Cultural, no Centro de Joinville, é sobrinho do dono do maior sebo da região Sul, localizado em Londrina. “Conheço muitos sebos do Paraná para baixo, mas nenhum tão grande. Meu tio tem um acervo superior a 250 mil livros”, garante. O próprio Denilson está no caminho, já contabilizando pouco mais de 40 mil exemplares, outro tanto de revistas, além de uns 15 mil CDs, DVDs e discos de vinil.
Aos 36 anos, este paranaense de 1º de Maio, cidade próxima a Londrina, nem imaginava entrar neste ramo. “Na verdade, eu não tinha descoberto qualquer vocação. Cheguei a fazer um curso de mecânica industrial, mas nunca exerci o ofício”, conta ele, que com 3 anos de idade trocava sua pequena cidade pela capital paulista; de lá, passou por Uberaba (onde fez o tal curso), Goiânia, Apucarana, Limeira e Joinville, onde está há seis anos.
“Foi em Apucarana – conta – que criei o sebo, influenciado e ajudado pelo meu tio, em sociedade com um cunhado. O nome Universo Cultural surgiu exatamente pela dimensão que tem uma loja deste tipo, oferecendo uma variedade quase infinita de opções para quem busca e gosta de cultura.” O sebo foi junto para Limeira e Uberaba, deixando sua marca: o cunhado mantém a loja da cidade paulista, enquanto um irmão de Denilson ficou com o Triângulo Mineiro. Hoje, cada um é dono do seu negócio.

 

“Meu gosto é eclético, costumo ler, ouvir e assistir um pouco de cada coisa que entra. A variedade é importante num negócio assim, pois preciso oferecer opções aos clientes.”

 

Olho nas raridades
Em Joinville, Denilson estabeleceu-se na rua Engenheiro Niemeyer, 66, numa das salas da antiga agência do Banco do Brasil – depois Besc. “Meu gosto é eclético, costumo ler, ouvir e assistir um pouco de cada coisa que entra. A variedade é importante num negócio assim, pois preciso oferecer opções aos clientes”, argumenta Denilson. Sempre de olho em eventuais raridades, já encontrou preciosidades até em carrocinha de catador de sucata. “Para os catadores, é até mais vantagem vender revistas e livros aqui, pois conseguem valores melhores do que comercializando por quilo.”
Os catadores, claro, representam uma diminuta parcela entre os fornecedores da loja. “A maior parte do acervo vem dos próprios clientes, que vêm vender ou trocar seus artigos. Também consigo muita coisa via internet, em sebos virtuais”, acrescenta Denilson, que indica o www.estantevirtual.com.br como um dos melhores sites.
A equipe do Universo Cultural conta com Adriana, mulher do proprietário, e mais três funcionárias. Por estar bem no coração da cidade, o movimento é sempre bom, e novamente a internet se revela uma aliada de peso: “Já enviei livros até para Portugal”. Entre as raridades que passaram pelas mãos de Denilson Agostineti, destaque para um exemplar de 1800 do épico “Os Lusíadas”. Foi vendido, pois todo item do acervo está à venda. Menos o pôster do Elvis, na parede ao lado do caixa. “Esse não vendo, não troco e não dou”, fecha questão o dono deste universo.

 

De onde vem
Os primeiros sebos surgiram junto com as livrarias, na Europa do século 16, com o desenvolvimento da impressão. No Brasil, este tipo de negócio começou na segunda metade do século 19, durante o Império, época em que as primeiras máquinas de impressão chegaram por aqui. Nesse período, já havia 50 livrarias no Rio de Janeiro e uma dezena em Salvador. O nome sebo se deve justamente ao aspecto seboso dos livros, já bastante manuseados.

  

Perfil sugerido pelo leitor Sidnei Miranda.

 


Manobrista de avião

Sinalizador. O pouso de uma aeronave só termina quando o técnico cruza as raquetes
Luciano Moraes/ND
Aeronave em solo. José Marcelo é o sinalizador  das aeronaves que pousas no aeroporto de Joinville desde 1998

 

Segundo normas de operações dos aeroportos e orientações das companhias aéreas, sempre que se viaja de avião se precisa chegar ao local de embarque com uma hora de antecedência. Após o chek-in e despacho de bagagem, geralmente, o passageiro vai tomar um café ou ver a movimentação no pátio do aeroporto. Nessas ocasiões é comum a chegada de uma ou outra aeronave. Após a aterrissagem, ela se movimenta em direção ao ponto de desembarque e embarque de passageiros.
Momentos antes desta operação ocorrer, nota-se um funcionário da Infraero, vestido com macacão azul  e faixas reflexivas, levando em suas mãos um par de raquetes de cor alaranjada. Ele se posiciona em frente a uma longa faixa amarela, cujo final é um T invertido. Esse profissional é o sinalizador de aeronaves no solo, um técnico qualificado pela Infraero e que tem a enorme responsabilidade de conduzir com segurança, até o ponto de parada, um avião que pode custar, por exemplo, US$ 80 milhões, como é o caso de um Boeing 737-800.
José Marcelo de Araújo, 37 anos, é um desses profissionais que atua no Aeroporto Lauro Carneiro de Loyola, de Joinville. “Eu era Policial Militar em Curitiba quando soube das inscrições para a Infraero. Prestei o concurso e fui aprovado. Tomei posse no dia 21 de setembro de 1998. Na ocasião, me disseram que havia uma vaga para Joinville. Aceitei e estou aqui até hoje, com muita satisfação e alegria.” Suas funções no aeroporto vão além da sinalização. Na condição de fiscal de pátio, ele também colabora nas questões relativas à segurança e no credenciamento do pessoal terceirizado. Devido a experiência, também é responsável pela formação dos novos profissionais. Ele é o marshalling do grupo. A equipe é constituída por 12 pessoas, das quais quatro são mulheres. Depois de quatro horas de instrução em sala de aula, e trinta e seis horas supervisionadas, o sinalizador poderá trabalhar sozinho na orientação das aeronaves em solo.

 

“Tomei posse no dia 21 de setembro de 1998. Na ocasião, me disseram que havia uma vaga para Joinville. Aceitei e estou aqui até hoje, com muita satisfação e alegria.”

 

As histórias das pistas
Ao longo desses anos, Marcelo coleciona muitas histórias. No seu primeiro balizamento ele recebeu um ERJ-145 Embraer e percebeu que o avião vinha com velocidade superior ao indicado. Também notou que a janela do comandante estava aberta e ele, com o braço para fora, acenava e fazia gestos em sua direção. Ciente da responsabilidade, manteve-se firme na condução da aeronave até sua parada total. Inconformado, foi conversar com o comandante da companhia Rio Sul, Sotero, que o recebeu sorrindo e brincando ao saber tratar-se de um estreante. “O comandante Sotero continua voando e somos amigos até hoje. É uma grande figura e uma pessoa que ficou marcada desde o primeiro dia.”
Em 2003, José Marcelo aguardava a chegada de um Focker 100 da TAM. É uma prerrogativa do sinalizador escolher a faixa de balizamento onde o avião irá parar. Nesse dia, por uma questão de conforto aos passageiros, ele escolheu a faixa que fica mais próxima do setor de embarque e desembarque. Assumiu sua posição e deu comando com as raquetes para que o comandante prosseguisse para finalizar o pouso. Apesar de insistir diversas vezes, notou que o avião não saia do lugar, porque o comandante estava escolhendo onde parar. “Tirei minha caneta do bolso e levantei até a altura da minha cabeça para que o piloto pudesse ver. Segurei-a na boca porque segurava as raquetes, e dei os comandos. Era um piloto boliviano. Assim que os passageiros desembarcaram, ele veio tirar satisfação comigo. Eu nem perdi meu tempo e disse a ele que estaria reportando a ocorrência para o DAC”, recorda, referindo-se ao Departamento de Aviação Civil. (Valter F. Bustos, especial para o Notícias do Dia)

 

Onde tudo começou
Archie W. League, nascido nos Estados Unidos, é considerado o primeiro sinalizador de aeronaves do mundo. Em 1919, em St. Louis, ele empregou bandeirolas para indicar a cabeceira da pista. Seus equipamentos eram uma bandeira vermelha que indicava pouso e, uma quadriculada, para a decolagem. No Brasil uma das primeiras sinalizações foi no Campo da Ressacada, em 1922, atual Aeroporto Internacional de Florianópolis, o Hercílio Luz.


Uma rotina de cores

Artesã. Depois de criar os filhos, dona de casa decidiu dividir a jornada em um ateliê em Pirabeiraba

Rogerio da Silva/ND

No parquinho. Anísia faz pintura de peças que viram brinquedos, em fábrica de Pirabeiraba

 

De manhã ela é dona de casa e, à tarde, pintora de brinquedos artesanais, produzidos com madeira pela família Schultze em atelier instalado há mais de quatro décadas na SC-301, no distrito de Pirabeiraba. Essa é a rotina diária nos últimos 19 anos de Anisia Kohn Girardi. Vizinha da fábrica onde está empregada, Anísia cativa os patrões, parentes e amigos pela grande disposição para trabalhar e pelo sorriso fácil e franco. “Comigo mau humor não tem espaço, pois só serve para atrapalhar. Prefiro levar a vida dando risadas, é o melhor remédio para ficar de bem com tudo e com todos”, enfatiza.  
Nascida na comunidade de Estrada do Pico, Anísia fez o primeiro contato com a fábrica de brinquedos quando era menina de oito anos idade. “Vinha aqui e fazia pequenos serviços e em troca ganhava uns trocados”, lembra-se sem conter a risada. Já mocinha, foi então trabalhar na casa do irmão Milton Kohn, na época dono de um açougue perto da Sociedade Rio da Prata.  No local, além de trabalhos domésticos aprendeu a destrinchar carcaças de bovinos e suínos, separando carnes nobres como picanha e alcatra com cortes de precisão cirúrgica. O aprendizado é útil para ela até hoje. “Sempre que matamos um boi ou um porco para consumo doméstico eu mesmo separo a carne dentro dos melhores padrões seguidos pelos açougueiros profissionais”, conta com uma pontinha de orgulho.
Ao casar, em 1975, com Orlando Girardi, Anísia foi morar na comunidade de Estrada da Ilha, onde nasceram os dois filhos do casal: Daiana e Carlos.  Paralelamente às tarefas de mãe e dona de casa, Anísia encontrava tempo para ajudar o marido no abate de frangos produzidos em escala comercial para abastecer pequenos mercados. Donos de uma chácara na Estrada da Ilha e outra na SC-301, há 20 anos Anísia e Orlando decidiram que era melhor ficar com um só imóvel. Venderam então em Estrada da Ilha e construíram uma casa na SC-301, onde com o tempo fizeram plantações de subsistência, entre as quais figuram palmeiras pupunha, uma diversificada horta e árvores frutíferas. De quebra escavaram duas lagoas das quais tiram peixes frescos sempre que dá na veneta do casal.

 

Comigo mau humor não tem espaço, pois só serve para atrapalhar. Prefiro levar a vida dando risadas.”

 

Pintura manual
Um ano depois do casal Girardi se instalar na nova morada, Anísia conseguiu emprego na fábrica de brinquedos, onde no tempo de menina fazia pequenos trabalhos para se divertir. Em pouco tempo aprendeu as técnicas de pintar manualmente a madeira dos brinquedos artesanais produzidos na SC-301. Prestes a se aposentar, ela adianta que não planeja parar de trabalhar. “Enquanto a saúde permitir, vou continuar na ativa”, avisa determinada.
Exímia no preparo de pratos da cozinha típica alemã, Anísia conta que devido às origens italianas do marido, hoje ela se vira bem no preparo de macarronadas e polentas. “O marido e os filhos gostam de pratos típicos alemães, como marreco acompanhado de repolho roxo, mas ficam babando ainda mais quando pego no parolo para preparar uma polenta; vai daí que acabei aprendendo alguns segredos da cozinha colonial italiana para contentá-los”, conta enquanto desata mais uma de suas inconfundíveis risadas.  (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)  

 

   

 

 

  


Dos banhos no Matias ao remo no Cachoeira

Competição. Rolf Fischer fez parte da galeria dos grandes remadores de Joinville
Luciano Moraes/ND
Motivo de orgulho. Rolf mostra o painel onde estão as medalhas acumuladas ao longo de 18 anos de remo

 

Rolf Fischer gosta de relembrar o tempo em que Joinville era ainda uma pequena cidade, longe da atual realidade de grande polo industrial. “Nasci e me criei aqui nas imediações, quando todas essas terras eram do meu avô”, diz Fischer, abarcando 360 graus com os braços, o que permite abranger uma grande porção do bairro Glória, nas imediações da rua Aquidaban, onde nasceu em 1936. Rolf Fischer integra a seleta galeria dos grandes remadores de Joinville, num tempo em que os clubes Atlântico e Cachoeira promoviam animados desafios ao longo do rio Cachoeira. “Mesmo treinando só depois do expediente e competindo nos fins de semana, fomos vice-campeões brasileiros. Imagine se pudéssemos nos dedicar inteiramente ao remo, como fazem os profissionais de hoje!”, orgulha-se, mostrando um painel montado pela família, onde estão as dezenas de medalhas ganhas ao longo de 18 anos de remo.
Na infância, Rolf Fischer, caçula de uma trinca – as duas irmãs, mais velhas, moram nas casas ao lado –, gostava de jogar bola nos incontáveis campinhos da região, além de nadar no ribeirão Matias. Aluno do colégio Conselheiro Mafra, aos 13 anos já trabalhava na empresa que hoje é a Motobombas Schneider. “De lá fui para a firma Germano Stein, onde fiquei 37 anos”, acrescenta Fischer, que há 23 anos trabalha com representação de ligas de cobre e bronze. A aposentadoria definitiva parece distante: “Enquanto tiver saúde e disposição, vou trabalhando”. Luterano, já foi duas vezes presidente da Paróquia da Paz.

 

Mesmo treinando só depois do expediente e competindo nos fins de semana, fomos vice-campeões brasileiros. Imagine se pudéssemos nos dedicar inteiramente ao remo, como fazem os profissionais de hoje!”

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Memória. Em registro dos anos 50, os remadores (da esq. para a dir.) Frederico Hempel, Ingo Hertenstein, Rolf Fischer, Reynaldo Deglmann e Orival Izidoro Ferreira

 

Tetracampeão catarinense
Assim como a maior parte da garotada da época, também Rolf Fischer gostava de jogar bola pelos campinhos e pastos. Poderia até se tornar jogador, se uma séria contusão não interrompesse a carreira aos 17 anos. “Precisei operar, e não pude mais jogar bola”, lamenta.
Mas aí, em 1955, Fischer foi apresentado ao remo, que só conhecia de assistir às corridas no rio Cachoeira. “Gostei do esporte e me adaptei rápido. Sempre remei pelo Cachoeira, que tinha a sede em frente à ponte que dá para o Joinville Tênis Clube.”
Remando em barcos de dois ou quatro remadores, Fischer integrou os fortes times do Clube Náutico Cachoeira. “Fomos quatro vezes campeões estaduais, além de seis vezes vices, perdendo somente para os clubes de Florianópolis.” A rivalidade com os remadores da capital só era deixada de lado quando atletas das duas cidades eram convocados para a Seleção Brasileira.
“Era a época áurea do remo catarinense, e os clubes se tornavam grandes parceiros quando era para servir à Seleção”, reforça Fischer, que conseguia remar dos dois lados da embarcação. “Era um remo para cada atleta, e remar dos dois lados tinha a vantagem de exercitar os dois lados do corpo”, explica, ostentando nas fotos antigas ambos os braços igualmente musculosos.
Rolf Fischer guarda boas recordações e um sentimento de carinho pelo técnico alemão Rudolf Keller. “Ele insistia com os remadores para que, nas corridas, não se preocupassem com a distância que faltava para o final, mas para a que já foi percorrida.”
Fischer também se orgulha de ter conhecido os melhores remadores do Rio de Janeiro – e também do Brasil, já que lá o remo é forte até hoje. Atualmente, resta acompanhar pela televisão as raras ocasiões em que o esporte tem destaque, especialmente nas Olimpíadas. Mas as lembranças ficam para sempre.


A semana começa num RELÂMPAGO

Stammtisch. O grupo de amigos, que atualmente se reúne na Liga de Sociedades, é mais antigo da América
Carlos Junior/ND
Em torno da mesa. Donaldo Miers (da esq. para a dir.),Waldir Finkbeiner, Fábio Gonçalves, Rogério Wolfgramm, Paulo Stein, Rafael Marcial Vieira, Valdemar Fiedler e Herbert Hansson (neste dia faltaram  Aluísio Wersdoerfer, Arthur Rodenheber e André Miers)

 

Montag´s fängt man mit das gold bier an.” A frase em alemão significa mais ou menos “começar a semana tomando uma cerveja dourada”. Este lema vem marcando, há 86 anos, os encontros do Relâmpago Clube, um grupo de amigos que se reúne todas as segundas-feiras com o único objetivo de confraternizar e começar bem a semana, entre jogos de caneco, jantar e muita cerveja. Depois de passar por vários locais, desde o ano passado as reuniões se realizam no pub da Liga de Sociedades, um espaço criado onde era um depósito, nos fundos da tradicional sociedade, exatamente abaixo do palco. “Não temos notícia de um stammtisch mais antigo na América”, arrisca Valdemar Fiedler, 65 anos, um dos líderes do grupo. O Relâmpago não tem diretoria ou um líder formalmente eleito, mas Fiedler é o encarregado das finanças.
Fundado no dia 30 de julho de 1926 como Blitz Club, o grupo era originalmente dedicado à prática do bolão. Mais tarde, devido à política de nacionalização imposta pelo governo, em função da Segunda Guerra Mundial, o stammtisch adotou o nome Relâmpago Bolão Clube – uma simples tradução de “blitz” para “relâmpago”. São os fundadores do clube: Alberto Colin Sobrinho, Alfredo Bennak, Leopoldo Wendel, Ernesto Schlemm Sobrinho, Roberto Nagel, Affonso Schmit, Adolfo Stoll, Arno Lepper, Adolfo Kluever, Arno Stoll, Adolfo Wendel, Paulo Baumer e Rudolfo Neumann.
Os primeiros encontros eram realizados na cancha de bolão de Otto Blume, na rua do Norte, atual João Colin. Mais tarde, quando o Exército de Salvação ocupou o imóvel, o Blitz passou para a cancha Wittitz, na mesma rua. O terceiro endereço foi a Sociedade Ginástica, até passar para a Liga. “Este espaço lembra um pub inglês, assim como o keller alemão, um bar situado no porão ou pouco abaixo do nível da rua”, explica Valdemar Fiedler.

 

Arquivo pessoal de Waldir Finkbeiner/Divulgação/ND
Para recordar. Uma reunião do Relâmpago em 1973, na Sociedade Ginástica

 

Este espaço lembra um pub inglês, assim como o keller alemão, um bar situado no porão ou pouco abaixo do nível da rua.”
Valdemar Fiedler

 

Antes havia excursões
“Durante um tempo, além dos encontros semanais, sempre às segundas-feiras, também promovíamos excursões”, lembra Herbert Hansson, 81 anos, o mais antigo “sócio” do Relâmpago, há 60 anos participando ativamente das reuniões. Entre os locais visitados, Hansson cita Rio de Janeiro, Angra dos Reis e Campinas.
Atualmente não são mais feitas viagens, mas o Relâmpago promove um jantar de fim de ano na primeira segunda-feira de dezembro, com a presença das esposas. Na segunda-feira seguinte, a última atividade do ano – só para os homens – é uma caranguejada. “Depois disso, só retomamos os encontros em março, porque durante a temporada de verão a praia atrai muita gente”, acrescenta Valdemar Fiedler.
O Relâmpago não cobra mensalidades, como é praxe nos clubes. Fiedler esclarece: “Às segundas-feiras, cada um paga sua própria despesa. Para o fim do ano, guardamos o que é arrecadado nas reuniões semanais, dos perdedores no general”. Funciona assim: dependendo da quantidade de jogadores no dia, os quatro ou cinco últimos colocados em cada rodada do jogo de general pagam um “castigo” de R$ 2 cada um. Outros R$ 2 são cobrados a título de multa de quem falta aos encontros. “Dessa forma arrecadamos o suficiente para o jantar e para a caranguejada do fim de ano. Se sobrar algum dinheiro, torramos tudo em cerveja, pois não pode haver resto para o ano seguinte,” observa Fiedler.


O PÉ QUENTE do Vila Nova

Nas graças da sorte. Vendedor de título de capitalização segue rotina de disciplina para atingir metas e já contabiliza 20 premiados
Luciano Moraes/ND
Aposta certa. Neocir Pedro, conhecido pelo apelido de Tila, vende as cartelas em três pontos fixos e até entrega na casa dos clientes já fidelizados

 

 

Morador do bairro Vila Nova há meio século, onde chegou da cidade de Rodeio quando tinha apenas seis anos de idade, Neocir Pedro Chavitzcki conta que, apesar de estar tanto tempo no mesmo lugar, fica surpreso quando alguém o chama pelo nome recebido na pia batismal. “Só o pessoal da família e uns poucos amigos sabem meu nome oficial”, garante enquanto abre um largo sorriso. Tila, como Neocir Pedro é conhecido, além de figura de grande popularidade em todo o bairro, é considerado um notável quente pelos apostadores da Trimania Títulos de Capitalização, para a qual vende cartelas desde 2005.
E a fama se justifica. Entre automóveis, motocicletas, casas e quantias em dinheiro, Tila já vendeu mais de 20 cartelas premiadas. Só na rua Carlos Guilherme Jerke foram entregues quatro motocicletas e uma casa, que os apostadores ganharam com cartelas preenchidas por Tila. Ao admitir que é efetivamente um pé quente, Tila ressalta que boa parte do sucesso se deve ao fato de ele levar o trabalho de vendedor de cartelas com seriedade profissional. “Vendo de 250 a 300 cartelas semanais. Com tantas apostas, não é de se entranhar de eu já tenham passado pelas minhas mãos mais de 20 cartelas premiadas”, enfatiza.
Para atingir a marca de 250 a 300 cartelas por semana, Tila se desdobra trabalhando 12 horas por dia. Durante o expediente comercial ele é encontrado ao lado do Bar Beninca, na rua 15 de Novembro, enquanto que, à noite, prossegue a jornada de vendedor  no Bar e Petisqueira Cercal, na rua Francisco Cristofolini. De quebra, às sextas-feiras de madrugada, visita fregueses da Ceasa (Central de Abastecimento de Joinville) e, nas terças-feiras de manhã, entrega apostas direto na casas de 20 fregueses infalíveis. “Se não levasse a coisa a sério, respeitando horários, não teria tantos fregueses, nem a fama de pé quente”, salienta.
Aposentado desde 2005, Tila conta que a venda de cartelas reforça os ganhos mensais em mais de um salário mínimo. “Não é muito, mas é importante por continuar na ativa. Ficar sem fazer nada é como fazer o papel de carta fora do baralho,” filosofa espirituoso.  Casado com dona Valmira, pai de três filhos e avô cinco vezes, Tila lembra que antes de ser vendedor de cartelas trabalhou em diversas indústrias da cidade e tocou por dez anos uma loja de armarinhos, empreendimento que fechou ao se aposentar.

 

“Ficar sem fazer nada é como fazer o papel de carta fora do baralho.”

 

Sugestão que deu certo
Das muitas cartelas premiadas, Tila não esquece da primeira. Aconteceu quando um conhecido começou a lamentar a perda do carro em um acidente ocorrido no dia anterior. Tila consolou-o dizendo que Deus tem sempre mais para dar. Em seguida, sugeriu que ele tentasse a sorte numa cartela da Trimania. Compra feita, o apostador acabou ganhando um carro Celta novinho em folha. “Foi a partir desse episódio que começaram a me chamar de pé quente”, lembra o popular vendedor.
Quando ao apelido, que remeteu seu nome ao mais absoluto ostracismo, Tila conta que é chamado só pelo apelido desde criança. “Foi minha mãe que começou a me chamar assim e nem ela lembra como tudo começou,” relata bem humorado. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)

 

   

 

 

  


MELHORAR SEMPRE, o lema de Mazza

Serviço. Garçom com 35 anos de profissão é requisitado em eventos e restaurantes
Fabrizio Motta/ND
Bandeja na mão. Além da apresentação impecável, Mazza é reconhecido pela agilidade com que atende os pedidos dos clientes

 

Caso você vá almoçar no Restaurante Central, degustar uma tábua de queijos ou, ainda, simplesmente tomar um café no final de tarde no Ambrosia, com certeza você notará um senhor de cabelos brancos bem penteados, barba e mãos feitas, roupas igualmente limpas. O seu nome é Jair Petrônio Bonato. Caso você o chame pelo nome, ele pensará um pouco até atender. Coisa rápida. Caso você chame o Mazza, num instante ele estará do seu lado.
Em vias de merecida aposentadoria, desde os 13 anos de idade Mazza é garçom. Passou por quase tudo: restaurante, churrascaria, cafeteria, doceria, bares e hotéis. Sua estreia na profissão foi na terra natal, Guarapuava, planalto central do Paraná, especificamente no Atalaia Palece Hotel, em 1977. Sua experiência e boas amizades levaram a inúmeros convites para trabalhar em outros estabelecimentos. “Não é apenas trabalhar e atender bem. Você precisa melhorar sempre. Por essa razão fiz cursos de barman, culinária (doces, salgados, sopas, lanches e petiscos), além de um especial só de carnes”.
Em 1990 Mazza mudou-se para Joinville com a família e não teve nenhuma dificuldade para ingressar no mercado de trabalho. No seu caso o velho ditado, “filho de peixe, peixinho é”, valeu em toda sua essência. Os dois filhos, Guilherme e Pablo, seguem a profissão. A filha Juliane é professora de dança para crianças e dá aulas no Sesi.
Histórias para contar desses 30 anos de profissão é o que não faltam, e sem demora ele já saiu contando um “causo”. Lembra que treinava um jovem garçom no Paraná, onde o dono do restaurante há pouco comprara uma pick-up D-20 e não parava mais de falar da tão almejada aquisição. Por outro lado, o pessoal não aguentava mais ouvir falar da tal pick-up de manhã, à tarde e à noite. Na hora do almoço, o rapaz em treinamento foi atender um casal de meia idade que, sem examinar o cardápio, perguntara: “qual é o carro chefe da casa?”. O futuro garçom foi rápido e prestativo: “É uma D-20!”

 

Não é apenas trabalhar e atender bem. Você precisa melhorar sempre.”

 

Agenda lotada
Essa é apenas um das muitas estórias de situações engraçadas na vida desse profissional, muito requisitado para atuar em festas, casamentos, aniversários e convenções. Quanto a sua aposentadoria ele é taxativo: “É uma coisa que chega para quem trabalha. É só uma questão de tempo. Parar é outra coisa. Enquanto eu tiver força e disposição, isso eu não faço”.  Esse é o Mazza!
Na verdade, conta, Mazza é apelido que seu avô paterno lhe deu para homenagear um grande boxeador italiano dos anos 1950, conhecido pela sua força e determinação. Seu avô dizia que o lutador era um “touro”. Terminava todas as lutas e nunca desistiu de nenhuma. O Mazza brasileiro segue o mesmo caminho. Além de atuar na cidade em várias casas, ele está assumindo na condição de convidado um novo empreendimento na de gastronomia, inaugurado há pouco tempo no centro de Joinville. (Valter F. Bustos, especial para o Notícias do Dia)

 


A CACHAÇA dos Lütke

Rio da Prata. Affonso herdou do pai o alambique construído pelo avô e, ainda jovem, aprendeu a arte de destilar
Luciano Moraes/ND
O que há nas barricas. Affonso parou de alambicar no ano passado, mas guarda um pouco da bebida destilada para vender aos amigos

 

Destilada de garapa de cana-de-açúcar, a cachaça de alambique é um símbolo da boa indústria artesanal do interior de Joinville. O preparo da bebida foi disseminado por imigrantes alemães, como Gustav Lütke, que ao chegar a Joinville se estabeleceu na comunidade de Rio da Prata, onde em 1886 ergueu um engenho rústico. Passados 126 anos, a cachaça de alambique continua fazendo parte do cotidiano de alguns membros da família Lütke. É o caso de Affonso Lütke, de 92 anos de idade. Neto do patriarca dos Lütke, seu Affonso conta que herdou o engenho construído pelo avô das mãos de seu pai Reinaldo. “Meu pai deu prosseguimento ao negócio do meu avô e eu acabei seguindo o mesmo caminho”, detalha o veterano alambiqueiro.
Bem-humorado, seu Affonso destaca que aprendeu a alambicar há 76 anos. “Comecei quando tinha apenas 16 anos e continuo apaixonado pela atividade até hoje”, assinala cheio de disposição. De uma cordialidade cativante, seu Affonso salienta que para fazer uma boa cachaça é preciso alguns cuidados, como colher a cana de açúcar bem madura e alambicar só na hora que a garapa atingir o ponto ideal de fermentação. “No resto, é fazer o trabalho com amor, sem isso nada dá certo”, enfatiza do ato de sua experiência.
De bem com a vida ele ressalta que em 76 anos de trabalho no alambique não deu para ficar rico, mas que foi possível criar e encaminhar bem quatro filhos (três moças e um rapaz), dos quais vieram 14 netos e 12 bisnetos.    Viúvo há mais de dez anos de dona Adele, seu Affonso admite que está aguardando pela chegada de trinetos. “Pena que a Adele não está mais comigo para dividir com ela esse momento de felicidade quando ele acontecer”, comenta saudoso da ausência da esposa.

 

Meu pai deu prosseguimento ao negócio do meu avô e eu acabei seguindo o mesmo caminho.”

 

Fregueses famosos
Cuidadoso em tudo, seu Affonso fez e continua fazendo história como alambiqueiro que vende cachaça de boa qualidade envelhecida em barricas de carvalho alemão e francês. “Bem destilada, nessas barricas vira uma bebida de lamber os beiços”, garante sem conter a risada.
Por conta dos meticulosos cuidados na arte de alambicar, seu Affonso tem em sua lista de fregueses nomes de figuras públicas da história de Joinville, como Germano Stein, Carlos Schneider, Valdemar Konetopp, Tupy Barreto, João Colin e por aí afora. “Para resumir, todos os grandes empresários joinvilenses do século passado foram meus fregueses e amigos”, relata com uma pontinha de orgulho.

Hora de parar
Em outubro do ano passado seu Affonso sofreu um AVC (acidente vascular cerebral), do qual se recuperou sem seqüelas físicas e nenhum arranhão em sua privilegiada memória. Mesmo assim, depois do incidente decidiu que era hora de parar de alambicar.
Mas a história do afamado alambiqueiro vai demorar ainda um bocado para ganhar o ponto final. Com um bom estoque de cachaça armazenada, seu Affonso continua atendendo velhos fregueses de perto e de longe em companhia da filha Dolores. “Enquanto houver amarelinha nas barricas de carvalho, vou tocando o negócio”, avisa determinado. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia

 

  


EXCELÊNCIA, até no trabalho mais simples

Gari. Eficiência e cortesia são marcas que fizeram de Cirso Azarias Assis uma pessoa conhecida e respeitada
Rogério Souza Jr/ND

Na luta. Cirso varre as ruas e calçadas de área da zona Norte da cidade

 

Os cidadãos que residem no espaço do setor 38, sob a responsabilidade do varredor Cirso Azarias Assis, 54 anos, funcionário da Ambiental há seis anos, nada têm a reclamar. Logo cedo, por volta das 5h30, Cirso, com o seu equipamento, está cuidando das ruas da sua área de trabalho que inicia (ponto de referência) na ponte da rua Padre Antonio Vieira, depois segue no sentido terminal Norte pela avenida Marcos Welmuth, e todas as transversais até a rua Alagoas, incluindo a avenida Aluisio Pires Condeixa.
Conhecido e cumprimentado por toas as pessoas que por ele passam, seja a caminho do trabalho, caminhando ou correndo pela ciclovia que margeia a avenida, ele é figura carimbada na região. “Só nesse setor aqui, eu estou há quatro anos e tenho seis de empresa. Eu gosto bastante, as pessoas são muito bacanas comigo.”
 O que chama a atenção nesse paulista da cidade de Osasco é o capricho com o seu trabalho. Por onde ele passa, não fica uma folha ou papel no chão, porque ele recolhe tudo. Na medida em que os sacos vão ficando cheios de material, eles são bem amarrados e deixados sobre o canteiro que existe entre a avenida e a ciclovia para serem recolhidos pelo caminhão da empresa. Nada atrapalha ou obstrui o caminho e o vai-e- vem das pessoas. “Eu trabalhei na roça e em sítio e sempre deixei tudo limpinho porque fica bonito. Aqui, faço a mesma coisa”.
Cirso conta que quando tira férias é um problema porque, quando volta, tem muita reclamação pois o seu substituto, geralmente, não cumpre o mesmo ritual. “Eu já pensei em sair para cuidar de um sítio com o meu menino e a minha mulher,” conta, referindo-se dona Luzia Poluna de Assis e ao filho José Carlos, 20 (“menino esforçado e trabalhador”, vai logo emendando). O filho está empregado em uma empresa de Araquari como ajudante de caminhoneiro e, dona Luzia, também ajuda na composição orçamento familiar.

 

“Eu trabalhei na roça e em sítio e sempre deixei tudo limpinho, porque fica bonito. Aqui, faço a mesma coisa.”

 

Sonho da casa própria
Cirso chegou com a família a Joinville em 1987. Antes disso, morou quase dois anos no Norte do Paraná para cuidar, junto com a mulher, do sogro adoentado. Ele já trabalhou como servente de pedreiro, ajudante e em numa empresa que fazia forros para carros (n, nessa, com carteira de trabalho assinada). “A Ambiental é boa e a gente recebe o vale-transporte, vale-alimentação, as roupas para trabalhar e uma cesta básica”, elogia.
Cirso mora com a família no bairro Iririú, onde paga aluguel. Ele trabalha de segunda à sexta-feira em horário integral e, aos sábados, até às 14h. O domingo é sagrado e passa com a família, ocasião que aproveita para jogar um baralhinho com os parentes e amigos.
Sempre bem humorado, enquanto conversamos, um carro passa e o motorista buzina para ele, pessoas caminhando dão-lhe um audível “bom dia!”; ele acena e sorri para todos. Um desejo ou uma vontade? “Essa é fácil: conseguir um dinheirinho para comprar um terreno e fazer uma casinha para a patroa”. Mais alguma coisa, Cirso? “Imagina! Se conseguir isso, já tá bom demais!” (Valter F. Bustos, especial para o Notícias do Dia)

 


De ferro e aço

Forja. Durante mais de cinco décadas Rolf Müller foi funileiro, um ofício hoje quase em extinção
Rogério Souza Jr/ND
Oficina improvisada. Rolf mantém na garagem da casa equipamentos da antiga fábrica de calhas e, com eles, faz réplicas e navios e outros utilitários, como regador de plantas e baldes

 

Funileiro. A palavra pode parecer estranha para muitos, já que não faz mais parte do nosso dia a dia. Mas bem antes do plástico se tornar quase onipresente nas nossas vidas, artigos domésticos como baldes, bacias, formas de pão, regadores, entre muitos, muitos outros eram feitos por este profissional.  Aos 80 anos, Rolf Müller lembra bem desta época. Por mais de cinco décadas ele foi funileiro, fabricando produtos de ferro galvanizado e aço na Calhas Müller, na rua Dr. João Colin.
Nascido em Corupá em 1931, quando a cidade ainda era chamada Hansa Humboldt, Rolf Müller era o mais velho de quatro irmãos e chegou a Joinville no início da adolescência. O pai, Jorge Aluísio Müller já estava na cidade e trabalhava na metalúrgica de Otto Benack, na rua 7 de Setembro. Logo o jovem ingressou na empresa como aprendiz de mecânica. Desta época guarda uma cicatriz no joelho, resultado de um acidente que por pouco não lhe custou a perna. Uma engrenagem do maquinário se soltou e o atingiu. Ele, porém, conseguiu se esquivar a tempo e evitar danos maiores. “Era novo e ágil”, constata Rolf, que tinha cerca de 15 anos.
Quando o pai saiu da metalúrgica e abriu a Funilaria Müller, na rua Dr João Colin, quase  em frente à rua Itaiópolis, levou o filho junto. Rolf ainda não tinha entrado no Exército, mas já estava lado a lado com o pai na empresa, que ficava afastada do centro da cidade. “A rua Blumenau nem existia”, recorda, referindo-se ao longo trecho após a rua Max Colin. A Funilaria Müller fabricava os produtos usados na vida doméstica, como baldes e tachos de ferver roupas, pás, regadores e latas. Tudo com chapas de ferro galvanizado e aço. Os usos eram bem diferentes dos atuais. “As pessoas esquentavam a água e ferviam a roupa branca”, explica ele, revelando como as famílias faziam para manter conservar as roupas alvas.
Quando o pai morreu, em 1956, Rolf assumiu a empresa e mudou o foco dos negócios, passando a fabricar calhas de ferro galvanizado. O nome também mudou: surgia a Calhas Müller. As peças eram feitas quase artesanalmente, usando apenas o maquinário da oficina. “Os canos eram 'gravados' a martelo”, ensina, referindo-se à emenda de metal das peças. Quando se aposentou, em 1993, o funileiro passou a Calhas Müller para o filho, que tempos depois decidiu mudar de ramo e fechar a empresa. Com a chegada de novos materiais, a funilaria foi se tornando inviável economicamente e hoje é uma atividade quase em extinção.

 

Nunca vi um destes. Tenho foto dos navios e faço de cabeça.”

  

Muitos talentos
Bombeiro voluntário, músico, pintor, atirador... Ao longo de seus 80 anos de vida Rolf Müller dedicou-se a muitas atividades fora do trabalho. Mas uma delas é especial: a construção de réplicas de navios antigos. Usando sua habilidade de funileiro e os conhecimentos adquiridos em livros, ele reproduz antigos navios, a partir de fotos dos originais. Muitos têm mais de 1,5 metro de comprimento e flutuam de verdade.
A construção das réplicas começou a partir do início dos anos 80.  Rolf colecionava imagens de navios cargueiros, de passageiros e de guerra e decidiu reproduzi-los. Como matéria-prima usa ferro galvanizado – e muita criatividade para buscar soluções. “Nunca vi um destes. Tenho foto dos navios e faço de cabeça”, explica ele, um autodidata. Para produzir as peças, conta apenas com o maquinário que veio da funilaria e que ele instalou em uma oficina na garagem de casa. As peças são repletas de detalhes e podem levar anos para ficar prontas. “Tem uma que levei 12 anos para fazer”, recorda e conta que ao longo do tempo até vendeu uns poucos navios. “É muito difícil colocar preço. É feito peça por peça, tudo a mão...”.

 


A vida feita em versos

Poesia. Mila Ramos plantou uma vasta obra, desde os primeiros versos ginasianos
Carlos Junior/ND
Leitura.Mila escreve desde menina estudante e hoje é consagrada como um dos principais nomes da literatura poética catarinense

 

O poema “Ipê Amarelo” era um dos que compunham o livro “Maria sem vergonha”, no qual a poetisa Mila Ramos ilustrava com versos as fotos de Rui Arsego, em obra comemorativa aos 60 anos da Tigre, em 2001. Pois foi justamente o maior incentivador da multiplicação dos ipês-amarelos como símbolo de Joinville, o radialista José Eli Francisco, o responsável pela descoberta da escritora. “Antes de aparecer no Show das Dez, meus poemas só eram lidos por quem tinha acesso aos meus cadernos escolares, onde eu os compunha dede o tempo de ginásio”, conta Mila, hoje consagrada como um dos principais nomes da literatura poética catarinense.
Nascida como Zelândia Ramos há 80 anos em Tijucas, Mila deve nome e apelido aos pais: “Meu pai era marinheiro e, mesmo nunca tendo viajado para longe da costa brasileira, admirava a Nova Zelândia. Quando comecei a publicar meus poemas, adotei o apelido da minha mãe, que se chamava Emília”. Sobre o prenome Zelândia, um orgulhoso contraste: “Ainda que meu nome fosse o último da chamada, fui sempre a primeira da classe em notas.”

 

“Amado, voltaram os ipês!
Com eles o amarelo paixão que de sangue fez seiva
e, de flores, vestiu meu corpo sem folhas.
Infesta, amado meu,
de amor e de ipês em flor, outra vez,
minha canção de amar.
Amado, voltaram os ipês...”

 

Tempo de descobertas
Morando em Joinville desde meados dos anos 60, Mila veio para dar aulas, mas logo assumiu a direção do colégio João Martins Veras, que funcionava nas dependências do Elias Moreira. Depois, foi promovida a inspetora da 5ª Ucre (atual Gerência de Educação), responsável pelos colégios estaduais de Pirabeiraba, Rio Bonito e Garuva. “O trabalho como inspetora me proporcionou descobertas maravilhosas nas escolas do interior”, conta Mila, que em sala de aula utilizava a cartilha “Caminho Suave”, da amiga e também educadora Jandira d´Ávila. Formada em letras pela antiga Furj (“Fui da segunda turma”, frisa), Mila foi professora durante 26 anos. Também presidiu a Fundação Cultural na primeira gestão Freitag. Aposentada de todas as atividades desde 1991, passou a dedicar todo o tempo à poesia, hoje reunida em seis livros e diversos folhetos em formato de sanfona, com duas ou mais dobras, sempre dedicados a algum tema específico.
Ansiosa pelo nascimento de um bisneto, esperado para este mês, Mila trabalha nos ajustes finais do primeiro livro em prosa, “Minha Mãe”, no qual conta a história de sua mãe Emília. Sempre atualizada, no dia da entrevista a poetisa a todo instante procurava saber como estava o placar do jogo de basquete que o Brasil travava naquele instante contra a Grã-Bretanha. Depois, com certeza a agenda previa sentar-se em frente ao computador para compor mais poemas ou trocar e-mails com os muitos amigos que tem na cidade que adotou e onde vem fazendo carreira.

 

Com a palavra
“Mila é a melhor poetisa de Santa Catarina, na essência uma das mais sensíveis artistas que conheci. Ela foi minha inspiradora nas campanhas de disseminação do ipê-amarelo.”
José Eli Francisco, radialista


A protetora dos cavalos

Ofício. Veterinária Bárbara Doneux Rebske é a primeira a ser lembrada pelos criadores da região

Rogério Souza Jr/ND

Na hípica. Bárbara também faz acompanhamento de cavalos de esporte, com preparação física e treinamento

 

 

“Costumo dizer que se houver reencarnação, jamais quero voltar como cavalo. Eles são extremamente inteligentes, mas a vida a que são submetidos os reprime. Colocar um cavalo para viver em uma baia é o mesmo que uma pessoa viver em um cubículo de um metro quadrado.” O desabafo é da pessoa que certamente mais conhece cavalos na região, a médica veterinária Bárbara Doneux Rebske, 48 anos. E que apesar de seu esforço para tornar a vida deles melhor, considera os animais muito sofridos pela confinação e domas precoces a que são submetidos.
Por quase 20 anos, desde que chegou a Joinville, Bárbara dominou sozinha este mercado. Ela trabalha exclusivamente com cavalos. Nem seus cachorros ou gatos, trata. “Meus cachorros, levo no veterinário. É muito diferente uma espécie da outra. Até tenho uma ideia, pois na faculdade que cursei, no Mato Grosso do Sul, tive possibilidade de escolher, mas nunca me interessei por raças pequenas.” Outro diferencial em seu trabalho é que com Bárbara não tem mau tempo ou horário. A hora que o cliente chamar, ela atende.
Natural de São Paulo, ela mudou-se para Joinville com o ex-marido. O começo foi difícil. “Alguns clientes diziam que ‘apesar de eu ser mulher’, eu trabalhava direitinho, mas o tempo passou e me deram boas referências”, conta a veterinária que fez especialização em eqüinos, em medicina esportiva e é uma incansável estudiosa. Por que a opção por cavalos? “Com bois, é mais difícil. Os criadores avaliam o custo do tratamento com o preço da arroba, entendem que boi não compensa tratar e acabam mandando para o matadouro”, lamenta.
Nesta jornada, Bárbara adotou procedimentos que os donos não tinham nem ideia e que melhoraram um pouco a vida dos animais. Os cavalos, esclarece, têm o estômago pequeno e são feitos para pastar o dia todo, por até 16 horas, em graminha baixa, e não têm que comer ração, pois sofrem com problemas digestivos, que podem ser amenizados com o uso de sondas. “Hoje é bem diferente. Antes, atendia de seis a oito cólicas por semana. Agora, passo semanas sem este tipo de atendimento”, conta.
Outro problema que literalmente tira o sono da veterinária e é ligado aos equinos é o ortopédico. Por ele, Bárbara trabalha sábados, domingos, feriados e costuma varar as madrugadas. Sempre foi assim. Ela conta que muitas vezes tirou os filhos da cama para levá-los ao trabalho. Quando crianças, eles adoravam passar as noites vendo a mãe trabalhar ou dormindo no carro. Hoje, adolescentes, André, 18, e Raquel, 15, pedem para ela mudar de profissão.
E ela pensa mesmo em mudar. Às vezes, até planeja desligar o celular e não sair de casa por nada, mas o profissionalismo chama mais alto. E não tem ninguém para mandar em seu lugar. Bárbara já tentou pegar algumas pessoas para trabalhar, mas lamenta que a maioria só queira trabalhar das 8 às 18h e depois desliga o celular, e ressalta que com cavalos não funciona. Tem que estar disponível. E ela tem esta disponibilidade.

 

Projeto para descansar, em breve
Apesar de tanta convivência, ela não tem ideia da população equina de Joinville. O último censo da Cidasc (Companhia Integrada de Desenvolvimento de Santa Catarina), de dez anos, apontava 8.000. “É difícil dimensionar, pois tem muita gente que tem cavalos em casa, principalmente na zona Sul. Ainda está na cultura do povo ter um cavalo em casa”, observa.
Ela também faz acompanhamento de cavalos de esporte, com preparação física e treinamento, os mais sujeitos aos problemas ortopédicos, por manejo errado e domas precoces. “É como colocar uma criança de dez anos para treinar como se tivesse 30, um esforço que acaba com as articulações”, lamenta.
Apesar da ligação, Bárbara não tem cavalos. A filha até quis, mas chegaram à conclusão de que se não poderiam dar a atenção e o tratamento que ela tanto prega, melhor não.
Cansada do esforço físico da profissão e pensando em dar aquela reviravolta de vida na chegada dos 50 anos, ela ainda pensa o que fazer. Gosta muito de plantas e de jardins, seu hobby. Os planos também incluem morar na praia.
Mais aliviada, agora, com o surgimento de novos profissionais na região. “Tem uma veterinária recém-formada em Jaraguá do Sul que será uma excelente profissional”. Ela acredita que ao longo de 24 anos ajudou a mudar, mesmo que um pouquinho, a forma do homem ver e entender os animais. 


O amor pela terra

Hortaliças. Produtor da Estrada Blumenau se dedica a produção de taiá e mangarito
Fabrício Porto/ND
Tradição. Nelson segue o ofício da família, de cultivar a terra com hortaliças, e consegue se manter graças a investimentos em transporte próprio para escoar a produção

 

Morador da Estrada Blumenau, na região rural do bairro Vila Nova, Nelson Müller convive com atividades agrícolas do segmento de verduras, legumes e tubérculos desde a infância. Nascido no hospital Dona Helena, ele deu os primeiros passos no Morro do Meio num tempo que o bairro era habitado só por agricultores. Quando Nelson tinha quatro anos, a família se mudou para Itaguaçu, em São Francisco do Sul, onde ele cresceu praticamente de costas para o mar. “Ao chegar a hora de ir para a escola, passei a dividir o tempo entre os bancos escolares e as lavouras de hortaliças que vendíamos aos militares do Forte Marechal Luiz, fato que motivou pequeno contato com o mar”,  conta bem humorado.  
De Itaguaçu, a família retornou para Joinville e em seguida se fixou na região da praia do Ervino, também em São Francisco do Sul, sempre trabalhando com hortaliças. A vida definitiva de Nelson para a Estrada Blumenau deu-se há 28 anos após se casar com dona Dolores, com a qual tem três filhos (uma moça e dois rapazes).
Avô de um pequerrucho e aposentado, Nelson segue trabalhando aos 62 anos de idade. Em parceria com a mulher e um casal de filhos (o outro filho exerce a profissão de eletricista), ele é especialista na produção de taiá, tubérculo largamente utilizado na cozinha típica germânica. Ele se orgulha de ser, paralelamente, um dos poucos produtores de mangarito, pequeno tubérculo da família do taiá, que é muito apreciado pelos antigos como principal acompanhamento em refeições à base de carne de panela.
Dono de um pequeno caminhão, Nelson não depende de terceiros para colocar a produção das lavouras da família. Ele transporta e vende as mercadorias no pavilhão do produtor na Ceasa (Central de Abastecimento de Joinville) e em alguns comércios tradicionais, como o Empório do Juca, no bairro Glória.
O veterano agricultor conta que durante muitos anos teve condições de manter o caminhão e um carro de passeio. Com a diminuição da margem de lucro, hoje o carro de passeio está sucateado nos fundos de um rancho. Mas, mesmo enfrentando dificuldades Nelson garante que não cogita largar as lavouras. “É o que sei fazer. Aliás, é bom lembrar que nossa família desde o tempo do meu tataravô tira o sustento da terra e por isso vou continuar nesse trabalho enquanto tiver forças nos braços para puxar a enxada e guiar o caminhão”, afirma decidido.

 

É bom lembrar que nossa família desde o tempo do meu tataravô tira o sustento da terra e por isso vou continuar nesse trabalho enquanto tiver forças nos braços para puxar a enxada e guiar o caminhão.”

 

“O esvaziamento das roças é inevitável”
Nelson enfatiza que gostaria que o filho eletricista tivesse ficado na agricultura, mas entende a decisão do rapaz. “Trabalhando na profissão de eletricista ele ganha bem mais do que na roça e por isso sou obrigado a concordar que ele está no caminho certo”, reconhece.
Ao analisar a situação da agricultura familiar em Joinville, Nelson destaca que de forma geral a mão de obra está ficando cada vez mais envelhecida. “São poucas as famílias de agricultores sessentões que ainda contam com a ajuda de dos filhos nas lavouras. Na maioria das propriedades, os jovens bateram asas e se foram em busca de melhores oportunidades na cidade. A tendência é que no futuro a presença de jovens na agricultura vire uma raridade em todo o interior de Joinville”, prevê o produtor de Estrada Blumenau.  (Herculano Vicenzi, especial para o  Notícias do Dia)


Vai um guarda-chuva aí?

Bom exemplo. Aposentado descobre a alegria de viver num ofício inusitado, o conserto de guardas-chuvas
FABRÍCIO PORTO/ND
Sua obra. Estanislau se diverte ao mostrar os modelos e tamanhos diferentes de sombrinhas, guarda-chuvas e guarda-sóis que conserta

 

Definitivamente, o ditado popular “tá nervoso? Vai pescar!” não se aplica ao aposentado Estanislau Budkevitz, 63 anos. Ele descobriu na aposentadoria um passatempo que o transformou de um homem depressivo, agitado e nervoso em uma pessoa realizada e sociável, a recuperação de sombrinhas e guarda-chuvas. Hoje, ninguém sai da casa dele, ou passa por perto, em dia de chuva, com o risco de se molhar. E ainda tem a possibilidade de escolher entre os mais diferentes modelos, sem pagar nada por isso.
Há mais de um ano, os dias de Estanislau, um dos primeiros moradores da rua Miguel Inácio da Silva, no bairro Espinheiros, são dedicados quase que exclusivamente ao recolhimento, montagem e recuperação dos guarda-chuvas. Desvendar as engrenagens e os macetes de cada objeto é um desafio. Ele calcula que pelo menos 300 guarda-chuvas foram recuperados e devolvidos aos donos. Os que foram encontrados em lixeiras ou abandonados pelas ruas foram entregues para doações.
Aposentado ainda jovem, aos 48 anos - “Tive medo que o FHC (o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso) acabasse com a aposentadoria” - depois de 32 anos de trabalho na linha de produção de grandes empresas joinvilenses, Estanislau passava os dias entediado. “Com o casal de filhos criados, só eu e a mulher em casa, passava os dias inteiros sentado na frente de casa, observando o movimento”, recorda.
Para combater o tédio, começou a consertar eletrodomésticos de vizinhos ou encontrados por recicladores. Coisas simples de consertar, porque ele não tem curso. “Um fio solto, um ventilador que não funcionava porque estava há tempo sem uso e precisava apenas uma gota de óleo...”
Ao perceber que o material reciclável rende uns trocados, começou a catar latinhas. Arrumou uma briga com a mulher, Maria Marlene Budkevitz, que não gostou nada de ver o material em seu quintal. “Também, não precisava disso”, admite. E foi assim que ele migrou das latinhas e dos eletrodomésticos para os guarda-chuvas. Não sem antes garantir um forno elétrico em excelente estado para a mulher, que se desfez do antigo. “Aprendi sozinho e todo dia descubro uma coisa nova.”

 

Aprendi sozinho e todo dia descubro uma coisa nova.”

 

O segredo de cada peça
Hoje, com a companhia inseparável de um rádio também recuperado do lixo, o aposentado passa os dias na garagem de casa desvendando os guarda-chuvas. Calcula que uns 300 passaram por suas mãos em um ano.  Dos que não têm recuperação, separa as peças que possam ser úteis.  “Dias destes, recebi 12 e os transformei em oito”, conta.
Metódico, separa todos os materiais: varetas de metal, de fibra, de madeira, cada uma por tamanho, cabos, fios etc. Pano, quando possível, ele costura. Também não tira ferrugem. “Tem um produto, mas é caro. Só uso pra mim”, conta Maria Marlene, que pode se dar ao luxo de sair a cada chuva ou sol excessivo desfilando um guarda-chuva de cor e modelo diferente.
Ela é testemunha do bem que a atividade fez na vida do marido. Hoje, parentes e amigos não podem ver um guarda-chuva abandonado que já levam para Estanislau. “Ele superou a depressão, começou a me acompanhar no grupo de idosos da Igreja São Francisco de Assis e faz a alegria da turma”, conta Maria Marlene, acrescentando que de vez em quando enche uma sacola de guarda-chuvas e distribui para o grupo.
Dia destes, ela surpreendeu um grupo de funcionários de uma instaladora de telefonia que buscava um local para se abrigar da chuva em frente a sua casa. Todos ganharam um guarda-chuva.

 

Perfil sugerido por Edinor Fausto Zimmermann Junior.


Remando no rio Cachoeira

Lembranças. Egeu Krickler participou dos anos de ouro do remo joinvilense
Rogério Souza Jr/ND
Reconhecimento. Uma placa dos amigos do Grêmio Consul, do qual foi um dos fundadores

 

Os campos de futebol e as quadras não são os únicos palco para as grandes rivalidades esportivas. Também o rio Cachoeira, um dos principais símbolos de Joinville, viu acirradas disputas entre as guarnições de remadores dos dois clubes que marcaram época, Atlântico e Cachoeira. “Eu nunca perdi para o Cachoeira”, garante Egeu Krickler, remador do Atlântico durante dois anos. Remanescente de uma geração de ouro do remo joinvilense, Egeu se recorda com saudade de uma juventude sadia, numa Joinville que ensaiava o papel de destaque que viria a ocupar como principal polo industrial catarinense.
Nascido Pietro Egeu Krickler em 1933, na cidade italiana de Umbria (que já foi Estado autônomo e hoje pertence ao território da antiga Iugoslávia), chegou ao Brasil com 18 anos. Morou alguns meses no Rio de Janeiro até arranjar emprego em São Francisco do Sul, onde morou e trabalhou na casa do cônsul do Uruguai. Um par de anos em Curitiba antecederam sua chegada a Joinville, em 1955. “Fiz um pouco de tudo: fui plantador de batatas, mecânico, lustrador de avião e eliminador de formigueiros, até chegar à indústria”, conta Egeu, ainda entoando um acentuado sotaque italiano (o sobrenome alemão vem do avô austríaco, que se casou com uma italiana; graças ao mix de origens europeias, já foi fluente em alemão, italiano e francês).
A partir do primeiro emprego, na Motobombas Schneider, Egeu construiu uma sólida carreira na indústria, passando por Metalúrgica Duque, Usina Metalúrgica Joinville, Cia. Hansen, Ambalit e Consul. “Durante todo este tempo, só saí de Joinville durante alguns meses, para me aventurar numa fábrica de portas mecânicas em Segredo, no Paraná. Não deu certo.” Na Consul – atual Multibrás – Egeu começou como ferramenteiro, foi galgando posições e se aposentou como gerente, em 1991, após 29 anos de serviços.

 

Fiz um pouco de tudo: fui plantador de batatas, mecânico, lustrador de avião e eliminador de formigueiros, até chegar à indústria.”

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND

Recordações. Em 1955, Egeu (primeiro a partir da direita) e companheiros do Atlântico

 

Esportista desde a infância
Praticante assíduo de esportes desde a infância na Itália, Egeu Krickler encontrou muitas opções em Joinville. “Logo que me instalei na cidade fui convidado a participar de uma equipe de remo, esporte que ainda não conhecia. Gostei e fiquei os dois anos seguintes remando pelo Atlântico. Era comum carregarmos os barcos nas costas da sede do clube até o rio Cachoeira, perto do Mercado Público. De lá íamos até os fundos da Tupy, onde começava a raia, que ia até o Jarivatuba.”
Egeu remou em barcos dos tipos outrigger (com patrão) e iole, sempre como voga (o primeiro remador, logo em frente ao patrão, no caso da outrigger, ou abrindo a fila no iole), e com quatro remadores. A rivalidade com o Clube Náutico Cachoeira era acirrada, como conta o ex-remador: “Nos dois anos em que participei, sempre ganhamos do Cachoeira”. Em compensação, nas poucas vezes em que enfrentou os clubes de Florianópolis, só o gosto amargo da derrota: “Eles sempre foram hegemônicos no Estado. Não tinha como ganhar deles lá.”
Egeu também jogou futsal e futebol de areia e praticou halterofilismo – “Cheguei a pesar 113 quilos!”, conta, hoje magro, mas ainda demonstrando a herança de músculos que o esporte ajudou a forjar. Egeu também guarda com carinho as atividades do Grêmio Consul, do qual foi um dos fundadores.
Casado com a jaraguaense Nélida Binder, Egeu tem um casal de filhos, quatro netos e três bisnetas. Do esporte, guarda as recordações e preserva a boa saúde.

 

Perfil sugerido pelo leitor Ivo Ritzmann.

 


Sobre letras e livros

Ideal. Da paixão pela leitura à conquista da própria editora
Luciano Moraes/ND
Obra. Célia mostra a última publicação da Editora Dialogar

 

Célia Biscaia Veiga, 52 anos, é uma ex-funcionária do Banco do Brasil, aposentada desde 2011. Alfabetizada muito cedo, ela recorda que aos 5 anos de idade já lia com facilidade. O pai foi seu grande incentivador. Natural do Paraná, ela nasceu e cresceu num lar de formação espírita, cercada por familiares e de muitos amigos. Concluído o ensino médio (antigo segundo grau), Célia prestou concurso público para o Banco do Brasil em sua cidade natal. Aprovada, sua vaga era para São Paulo, o que para ela não era empecilho, pois estava com toda a disposição do mundo. Casou-se com José Celino Veiga, e rumaram para a Capital.
Lá, estabeleceram-se no bairro do Jabaquara. “Foi muito bom morar em São Paulo quando éramos eu e o Celino. Tínhamos amigos, vida cultural; mas assim que fiquei grávida de nosso primeiro filho, disse que lá não era um bom lugar para se criar filhos. Aquilo já era uma loucura. Pedi transferência quando estava grávida do segundo filho e, em 1985, vim trabalhar no centro de processamento de dados de Joinville, onde me aposentei como caixa.” O marido prestou concurso para o magistério, lecionando artes tanto nas escolas do Estado como do município.
Célia nunca se afastou de um dos seus maiores prazeres, que é a leitura. Quando pequenos, ela e o marido liam estórias de Monteiro Lobato (obra completa) para os cinco filhos. Hoje, todos adultos, têm na leitura uma fonte inesgotável de conhecimento e lazer. Por essa razão, na medida em que ia se aproximando a data de sua saída do banco, ela vinha acalentando o sonho de montar uma pequena editora, escolher os títulos, e publicar bons livros. Para facilitar as coisas, seu filho mais velho estava em vias de concluir o curso de designer gráfico na Univille, e a possibilidade de ter na editora Dialogar o seu grande laboratório. “Nesses 30 anos de trabalho, eu nunca mexi no meu FGTS (Fundo de Garantia Por Tempo de Serviço). Desse montante, uma parte usei para reformar minha casa e outra investi na editora.”

 

“Quando se faz o trabalho com amor e dedicação, os frutos são fartos.”

 

Sucesso e muita dedicação
Célia é um exemplo daquele ditado que diz: “quando se faz o trabalho com amor e dedicação, os frutos são fartos.” Apesar de tão pouco tempo no mercado editorial, a Editora Dialogar já lançou oito livros e possui mais três no “prelo”. Qual o segredo desse sucesso? É simples: ela montou uma micro empresa e todo o processo, desde a diagramação até a impressão, é feito pela própria editora. “Hoje em dia não dá para deixar livros por muito tempo nas prateleiras, pois eles amarelam e não vendem. Então, otimizamos nossos processos. Faço contrato com os autores de 1.000 exemplares por edição e esse número me possibilita conseguir o ISBN (International Standard Book Number - é um sistema que identifica numericamente os livros segundo o título, o autor, o país e a editora, individualizando-os inclusive por edição). Depois, vamos imprimindo de 50 em 50, ou de 100 em 100, conforme o livro vai vendendo. Isso tem dado muito certo”.
Outra revelação importante e animadora, sinal que os jovens estão descobrindo a leitura, é a média de idade dos autores, em torno dos 23 anos. Segundo Célia, projetos e livros chegam toda a semana na editora. Ela, o marido e o filho Alexandre fazem uma primeira leitura do texto, depois discutem, analisam a viabilidade e partem para as fases posteriores até a publicação do livro. “Um momento sempre gratificante e vitorioso para todos nós,” afirma com um sorriso aberto. Melhorias, ampliações, pessoal, tudo está previsto. No entanto, publicar é a prioridade da editora. Numa alusão ao nome Dialogar, ele tem o sentido de troca, troca por meio do diálogo, diálogo que se faz com livros. Esse é o eixo desta pequena e notável editora. (Valter F. Bustos, especial para o Notícias do Dia)

 

 

 


Unidos pelo esporte e pela música

Integração. Praticantes de vôlei formam grupo musical para animar encontros
Carlos Junior/ND
Afinados. Da esquerda para a direita, os músicos Gastão Kasten, Rubens Antonio Cardoso, Helmar Kempcke Perine, Mário Otto Schwochow e Nestor Carmelo Ranieri

 

Conta a história que no momento em que o naufrágio do transatlântico Titanic já chegava a um momento crucial, aquele do “salve-se quem puder”, o líder da orquestra de bordo liberou os demais músicos, para que cada qual procurasse um bote ou se atirasse ao mar, abandonando o navio. Quem já assistiu ao filme com Leonardo Di Caprio se lembra do que acontece: num primeiro momento, os músicos se despedem e começam a dispersão, mas logo retornam aos seus instrumentos ao perceber que o maestro não se move. Inabaláveis, os profissionais continuam tocando, até que não há mais como permanecer em pé. Pelo menos no filme, todos afundaram com a embarcação.
Sem chegar ao nível dramático do naufrágio, os componentes do grupo musical joinvilense Titanic também costumam ficar muito além do fim. No caso deles, não do fim da viagem, mas depois que todos os companheiros já foram embora. “Tudo começou por brincadeira, há uns três anos, mas nosso grupo foi batizado de Titanic porque nunca ia embora depois da festa”, conta Nestor Carmelo Ranieri, 57 ano