Como funciona o ensino integral na Grande Florianópolis

Além das disciplinas regulares, como matemática e português, os colégios oferecem artes e recreação

Mônica Amanda Foltran
Mônica Amanda Foltran


Florianópolis

Marcelo Bittencourt/ND
O ensino integral envolve atividades extras, como jogos

Paula Milene dos Santos, 11, aluna da 7ª série, em São José, vive uma nova fase na sua vida de estudante. Descobriu na dança um estímulo para os estudos e suas notas aumentaram. A jovem vivia um pesadelo ao perceber que suas médias colocavam em risco o ano letivo. Foi participando do projeto da escola que ela passou a ter aulas em tempo integral, juntamente com atividades esportivas que serviram de impulso para que se debruçasse sobre os livros e mudasse sua realidade.

Alunos mais empenhados e professores motivados. Esta é uma fórmula que está levando resultados positivos para alunos que participam do projeto Mais Educação, do Governo Federal. A proposta de ensino integral, que está sendo aplicada em 236 escolas do Estado, é exemplo de que com soluções simples e planejamento é possível mudar a realidade escolar. Recentemente, a Secretaria de Educação do Estado tem divulgado a ampliação do ensino médio no próximo ano em pelo menos 30 cidades catarinenses.

No Centro Educacional Vila Formosa, em São José, o ensino integral é uma realidade para 110 alunos. Paula, aluna do projeto Mais Educação, conta que para manter uma frequência nas oficinas de dança passou a se comprometer mais com os estudos. “Antes não gostava de história, matemática e geografia. Falaram das minhas notas e passei a refletir. Agora estou estudando mais”, conta a jovem. “Se ela não se dedicar aos estudos não vai para as aulas de dança e de natação”, frisa a mãe, Márcia Rodrigues, 39.

A cabeleireira Rute Ribeiro de Moraes, 32, observa que os dois filhos, que também participam do projeto, ficaram mais responsáveis. “O esporte é um grande incentivo. Se fossem só aulas, eles iriam ficar ranzinzas”, avalia.

 

São José pretende chegar aos 100%

A coordenadora do projeto de ensino integral em São José, Edilene Eva de Lima, acredita que a tendência é ampliar a proposta do ensino integral aos poucos, até que todas as escolas do município possam ser atendidas. 

Uma das características do projeto é que cada escola planeja suas atividades de acordo com as necessidades da comunidade. “Nosso maior desafio é ampliar o tempo de permanência, qualificando a aprendizagem”, frisa Edilene. Cada escola atende 120 alunos, divididos em dois turnos e em grupos de 20. “Isso diminuiu a agressividade, oferece oportunidades, tira as crianças ociosas das ruas e mantém os estudantes na escola”, avalia a coordenadora.

A diretora do Centro Educacional Vila Formosa, Cristiane Leopoldo, lembra que, ao longo do processo, houve modificações de acordo com as necessidades da comunidade. A professora das aulas de dança observa que o lado positivo do projeto é a motivação provocada nos alunos. “Eles participam porque gostam, não por obrigação”, nota Aryana Vieira Scotti.

 

Serviço

Custo do aluno no ensino fundamental em São José: R$ 2.815/ano

Custo do aluno no projeto Mais Educação R$ 4.500/ano

Marcelo Bittencourt/ND
Alunos do Centro Educacional Vila Formosa na quadra da escola

Os desafios

Para o diretor do colégio Aplicação, na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Romeu Bezerra, “o desafio maior é ampliar o tempo de permanência do aluno e qualificar a aprendizagem. Não podemos oferecer mais do mesmo sistema”, pontua. Ele explica que o risco que se corre ao ampliar o ensino na rede estadual é estender as aulas em um mesmo modelo. “Não seria atrativo. É preciso pensar em projetos interdisciplinares com focos claros e definidos. Atividades que rompam com a forma de organização atual”, define.

De acordo com o professor, é preciso dimensionar o projeto para o tamanho da rede estadual, começar em escolas modelos e ir se estendendo, além de ter que sair da escola e ser inserido na comunidade local. “Colocar o professor em tempo integral é o grande problema. No modelo atual temos docentes pulando de escola em escola. 

Ele vai precisar de tempo para se planejar”, explica. No Colégio Aplicação, atualmente, o corpo docente discute formas de ampliar a educação para integral.

 

Florianópolis também tem ensino integral

Foi brincando com um jogo de dados que as próprias crianças criaram, que cerca de 100 alunos da escola Adotiva Liberato Valetim, na Costeira, em Florianópolis,  aprendem questões de matemática, raciocínio lógico, português e até história do folclore brasileiro.

A professora do ensino integral Gabriela de Araújo Figueiredo conta que os alunos que tinham dificuldade na sala de aula, agora se mostram mais interativos e aprendem brincando. “Em uma só atividade trabalhamos a leitura, matemática, as lendas folclóricas e cantigas”, observa Gabriela. Para as aulas de ciências e também português, uma horta feita na escola também ajuda as crianças a aprender sobre as plantas e a gostar das verduras. “A gente planta e aproveita os alimentos na cantina. Eles adoram comer, principalmente a alface e cenoura”, destaca a professora.

Anderson Gregório, 9, mostra com orgulho o pé de alface que plantou e as cenouras, mas é da cebolinha que ele gosta mais. “Gosto de comer pepino e a cebolinha”, diz.

A escola Adotiva, na Costeira, é uma das 26 unidades onde o ensino fundamental tem o programa Mais Educação e beneficia 1.851 crianças do 1º ao 9º ano em Florianópolis. Na rede estadual, o programa também contempla 18 escolas de ensino fundamental na capital catarinense e 46 no Estado tem a sua jornada ampliada em alguns dias da semana, sendo que a expectativa ainda este ano é ampliar este número para 108. No Instituto Estadual de Educação, alunos participam do projeto ensino Médio Inovador, que tem uma jornada ampliada em dois dias da semana.

 

Estado quer jovens na escola

Baseado na tendência da educação em tempo integral e no desafio de manter o jovem na escola, a Secretaria de Educação no Estado, prevê ampliar o ensino médio em pelo menos 30 escolas catarinenses. “Temos que romper com a cultura de que o jovem deve ficar apenas quatro horas na escola”, frisa a diretora de Educação Básica no Estado, Gilda Mara Marcondes Penha.

Ela diz que apesar do sucesso de programas como o Mais Educação e do Ensino Médio Inovador, a proposta para o ensino médio é diferente. “Queremos trabalhar em um contexto de currículo integrado. A proposta é trabalhar com professores em todo período tanto na modalidade acadêmica como também empreendedorismo”, destaca Gilda.

Na proposta do Estado, segundo Gilda, na modalidade acadêmica o aluno vai ter o domínio da segunda língua, conceitos de informática e noções de empreendedorismo. “Vamos colocá-lo em contato com o mercado de trabalho, visando uma profissão”, destaca. As mudanças devem ocorrer para que as escolas do estado se adequem ao Plano Nacional de Educação que diz que até 2016 todos os jovens entre 15 e 16 anos devem estar na escola.

 

Cidades têm que se adequar

Para viabilizar o projeto de ensino médio integral o secretário de Educação, Marco Tebaldi, avalia que o processo de transferência de gestão, ou seja, prefeituras aderindo à municipalização do ensino fundamental, seria um facilitador para ampliação do ensino médio nas cidades. Para o secretário de Educação da Capital, Rodolfo Pinto da Luz, a municipalização do ensino fundamental, mesmo com o Fundeb (Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação), não é vantajosa. “Tem que analisar escola por escola. Além da folha de pagamento dos professores, tem a compra de material pedagógico e as reformas nas escolas”, avalia o secretário.

Gilda lembra que em Florianópolis existem escolas como EEB (Escola Educação Básica) Lauro Müller e Henrique Stodieck, que já têm uma vocação para ensino médio que poderiam ser ampliados. “Temos atividades soltas, complementares. O que temos que fazer é otimizar isso”, conclui.

Para o Sinte (Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Santa Catarina), a proposta de estender a educação no ensino médio tem que ser melhor avaliada. “Como vai ficar o caso dos alunos que trabalham e estudam à noite. Defendemos o ensino com qualidade, não só para atender uma demanda”, questiona Claudete Mittmann, da executiva estadual.

 

Saiba mais

 

Em Santa Catarina:

Escolas estaduais: 1.264

Alunos no ensino fundamental: 369.747

Alunos no ensino médio: 276.151

(Dados julho/2011 Secretaria de Educação do Estado)

 

Projeto Mais Educação no Brasil:

15 mil escolas,

Três milhões de estudantes

 

Florianópolis

26 escolas

1.851 crianças

 

São José

13 escolas

1.500 alunos

Publicado em 28/08/11-08:23