Um cemitério de histórias em Florianópolis

Atrás do Hospital de Caridade estão enterradas lideranças catarinenses

Saraga Schiestl
Saraga Schiestl
Editora do ND Verão


Florianópolis

Foto Débora Klempous/ND
Um dos ilustres no Cemitério é o ex-governador Adolpho Konder

 

Quem mora ou visita a Grande Florianópolis já caminhou pela rua Conselheiro Mafra, no Centro da Capital, ou já ouviu falar sobre a família do ex-governador Hercílio Luz, político que dá nome ao mais famoso cartão-postal da ilha. O que pouca gente imagina é que bem pertinho, no Cemitério da Irmandade do Senhor Jesus dos Passos, instalado no Hospital de Caridade em Florianópolis, essas pessoas estão enterradas, ao lado de poetas e formadores de opinião que já se foram.  Um museu gratuito e a céu aberto que conta através de suas lápides a história de Santa Catarina.

Um dos monumentos que mais chama atenção é o de Conselheiro Mafra, um dos líderes da Guerra do Contestado. A torre negra que abriga os ossos do político tem a inscrição das datas 1831 e 1907, do nascimento e morte de Conselheiro Manoel da Silva Mafra, nome completo do homem que empresta sua identidade para uma das ruas mais famosas do centro de Florianópolis.
Todas as pessoas que estão enterradas no Cemitério do Hospital de Caridade fizeram parte da Irmandade e, em homenagem ao Dia de Finados, familiares voltaram ao cemitério para tradicional Missa Campal realizada para lembrar os mortos. Entre orações e flores, muitos visitantes aproveitaram para ver as sepulturas de figuras conhecidas da cultura ilhoa.

Apesar de boa parte dos corpos terem sido enterrados em gavetas, há 17 jazigos que chamam atenção pela arquitetura. Em um dos túmulos, por exemplo, foi desenhada em traços finos uma bandeira do Brasil. “Provavelmente se tratava de um republicano”, observou o historiador do Centro de Memória do Hospital de Caridade, André Luís da Silva. Em outros é possível conferir estátuas de anjos que carregam trombetas. “São imagens dos anjos que de acordo com a tradição anunciam a morte”, sinaliza o historiador.

Políticos e poetas

O ex-prefeito de Florianópolis Bulcão Viana e o ex-governador Adolpho Konder fazem parte da lista de políticos enterrados no Cemitério da Irmandade do Senhor Jesus dos Passos. “Boa parte da família do ex-governador Hercílio Luz que já faleceu também está enterrada aqui. Apenas o próprio governador foi transferido para perto da Ponte”, comenta o membro da Irmandade, Manoel Timóteo de Oliveira.

Ao lado da família Luz também está o poeta Hermes Guedes da Fonseca, morto em 1971, o médico ortopedista Antônio Muniz de Aragão que morreu aos 100 anos. O Mon Senhor Topp, o primeiro capelão da Irmandade e também da Catedral de Florianópolis está enterrado em um dos portais de entrada do cemitério. “Fazemos questão de manter a história deste local, por isso, realizamos uma reforma completa em todo espaço”, lembra o provedor da Irmandade, José Carlos Pacheco.

O Cemitério está com 159 anos e tem atualmente 660 gavetas e 17 jazigos, todos de membros da Irmandade.

Curiosidades
- Entre 1840 até 1920, o primeiro cemitério municipal de Florianópolis existia onde hoje está localizado o Parque da Luz, no centro de Florianópolis.
- a partir de 1920, por causa da construção da Ponte Hercílio Luz, o cemitério foi transferido para o bairro Itacorubi, transformando-se no maior do Estado.
- antes de existirem os cemitérios municipais, cada Igreja tinha seu próprio cemitério. Em alguns casos, como na Catedral de Florianópolis os corpos eram enterrados entre as paredes.

Publicado em 03/11/11-02:27