Instituto de Psiquiatria de Santa Catarina comemora 70 anos

Centro de Documentação e Pesquisa é inaugurado para recuperar história dos internos

Mariella Caldas
Mariella Caldas
Jornalista. Repórter do Jornal Notícias do Dia Grande Florianópolis.


São José

Marcelo Bittencourt

O prontuário do primeiro paciente do IPq-SC (Instituto de Psiquiatria de Santa Catarina), datado em 4 de janeiro de 1942, está exposto no Cedope (Centro de Documentação e Pesquisa), inaugurado durante a programação comemorativa aos 70 anos da instituição. Além do documento, relatos de internos e funcionários, fotografias e objetos usados durante as décadas também foram reunidos em uma exibição permanente e com visitação aberta à comunidade e grupos de estudo.

Com o auxílio do acervo, que estava ignorado, a história do Instituto está sendo contada. Eliani Costa, enfermeira e doutora em história da enfermagem, é a idealizadora do Cedope. Em parceria com o LabPac (Laboratório de Patrimônio Cultural) da Udesc, ela e a historiadora Viviane Borba pesquisaram, limparam e catalogaram mais 16 mil prontuários médicos, mil fotos e equipamentos, como o de eletrochoque.

Conforme Eliani, a Secretaria de Estado da Saúde criou uma portaria instituindo o Centro de Documentação e Pesquisa como modelo para outras entidades aderirem a ideia. “O Cedope foi implantado em uma sala que antes recebia os pacientes que seriam internados, com o formato de uma cela, o que contribui ainda mais para o fator histórico”, ressalta. De acordo com a enfermeira, muitas coisas foram encontradas no lixo, como uma prestação de contas do IPq-SC de 1955. Ao ser concluído, o acervo será disponibilizado on line www.cedopehcs.blogspot.com.

Seminários que abordam a dependência química, transtorno bipolar, terapia ocupacional, entre outros, estão sendo realizados durante toda a semana. Além do Cedope, foram recuperados o busto do ex-governador Nereu Ramos, que inaugurou o Instituto em 10 de novembro de 1941, e o memorial dos ex-diretores.

 

Espaço rico em histórica

Os estudos de Eliani Costa resgatam que no começo do século XX, os doentes mentais eram depositados embaixo da antiga Casa da Câmara Cadeia, em Florianópolis. Em 1902, foi inaugurado o Hospício de Azambuja, em Brusque, mas com o passar dos anos o espaço ficou pequeno.  

Eliani recorda que na primeira metade do século XX, foram construídas as segregações, como penitenciária, para os criminosos; Hospital Santa Tereza, para os leprosos; asilos, para as crianças e idosos; e o Hospital Colônia Sant’Ana, para os loucos; e retirados do convívio social. Em 1995, cerca de mil pessoas estavam internadas na instituição e houve o descredenciamento do Hospital. No ano seguinte, surge o IPq-SC.

A doutora explica que com o passar dos anos, o processo das segregações pararam. “Somente em 2001, a lei de proteção aos doentes mentais dizia que os hospitais não poderiam ter mais de 160 leitos. Com isso, muitos voltaram para casa”, relata. Apesar da lei, centenas de doentes não tinham para onde ir e foi criado o Centro de Convivência Santana, que acolheu os pacientes-moradores.

 

Eletrochoque usado até 1984

Dois aparelhos de eletrochoque, usados até 1984, estão expostos no Cedope (Centro de Documentação e Pesquisa). Eliani Costa lembra que ela chegou a aplicá-los em alguns pacientes. Apesar de ter sido inaugurado em novembro de 1941, os primeiros pacientes chegaram ao IPq-SC somente em janeiro do ano seguinte. “Na época, não existiam medicamentos psicotrópicos, que surgiram somente na década de 50 e foram usados na instituição depois dos anos 70”, explica.

Estigmatizado, o eletrochoque, segundo a enfermeira, é usado ainda hoje como procedimento cirúrgico. “Antigamente, era usado como castigo e não existia indicação adequada. Pacientes com casos de psicose e que não respondiam ao tratamento eram submetidos aos choques”, revela.

Sem ser muito conhecida, a insulinaterapia (aplicações sucessivas de insulina) também foi aplicada e matou muito mais paciente que os eletrochoques, conforme Eliani, mas como era realizada em um ambiente formal não era criticada.

Os enfermeiros são os responsáveis pelo fim do eletrochoque. A doutora ressalta que a categoria lutou para que os procedimentos fossem realizados somente com a presença do médico e, depois disso, foi proibido.

 

70 anos do IPq-SC (Instituto Psiquiátrico de Santa Catarina)

-Inauguração do Cedope (Centro de Documentação e Pesquisa)

-Seminários sobre dependência química, transtorno bipolar, terapia ocupacional, entre outros, estão sendo realizados

-O busto do ex-governador Nereu Ramos, que inaugurou o Instituto em 10 de novembro de 1942, foi resgatado de um depósito e recolocado na praça

-O memorial dos ex-diretores foi reformado

-A visitação do Cedope está aberta à comunidade e grupos de estudo, diariamente, diante agendamento

-Informações: (48) 3954-2000

 

Números

-250 pacientes-moradores

-22 vivem nas residências terapêuticas

-Cerca de 50 têm contato com a família

-160 vagas são para tratamentos de até um mês

-O IPq-SC é mantido pela Secretaria do Estado da Saúde

-Investimento mensal é de R$ 2,6 milhões

Publicado em 10/11/11-09:25