Vidro é a matéria-prima para quatro casas na Praia Brava, em Florianópolis

Uruguaio Jaime Riccio recicla garrafas, copos e outros objetos para construção de casas na Praia Brava, no Norte da Ilha de SC

Rafael Thomé
Rafael Thomé


Florianópolis

Ao separar os resíduos para reciclagem, todo cuidado é pouco quando o assunto é vidro. Sem tempo de decomposição determinado, o vidro é 100% reaproveitável (1 kg de cacos de vidro produzem 1 kg de vidro novo), mas também é um dos vilões do trabalho de reciclagem. “O vidro é um material que tem um problema seríssimo. Quando ele é mal embalado e está quebrado, pode causar ferimentos graves nos garis e danificar o equipamento”, explica Antônio Marius Bagnati, presidente da Comcap.

Marco Santiago/ND
Jaime Riccio adotou o vidro como matéria prima para a edificação

 

Além de perigoso, o vidro é um material pesado, volumoso e de pouca rentabilidade financeira para a indústria da reciclagem, o que pode fazer com que garrafas, copos e outros objetos vão para aterros sanitários juntamente com outros resíduos. Questões como essas, aliadas ao alto custo dos materiais de construção, levaram o uruguaio Jaime Riccio a adotar o vidro como matéria-prima para a edificação de quatro casas em um amplo terreno na Praia Brava, Norte da Ilha de Santa Catarina.

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Assim como é feito com tijolo, Riccio intercala camadas de cimento com as garrafas de vidro para fazer muros e paredes. Inspirado na arquitetura curvilínea do catalão Antoni Gaudí, o uruguaio começou a empreitada comprando 500 garrafões, mas, aos poucos, começou a receber embalagens dos vizinhos e de bares da região. “É impressionante o desperdício. O vidro é muito resistente, o que é ótimo para a construção civil. Se houvesse uma logística de separação do vidro e disponibilização para a população carente, as construções ficariam mais baratas e o material não ficaria jogado na rua”, disse.

O trabalho é minucioso e exige certo cuidado, mas é relativamente fácil de ser feito. A técnica adquirida ao longo do tempo levou Riccio a criar novas maneiras de utilização dos vidros, como a construção de armários feitos de garrafas. Para isso, é preciso cortar o gargalo da garrafa e cimentá-la horizontalmente na parede. “Para cortar o vidro, pegue um barbante e molhe no álcool. Amarre na garrafa e toque fogo. Quando o barbante ficar pretinho, é só jogar água que ele racha. Faço acabamento com durepox, mas também é possível lixar a borda para acabar com o corte”, explicou.

Com frequentes visitas de curiosos e admiradores do trabalho, o uruguaio já perdeu as contas de quantas garrafas de vidro foram usadas na construção das quatro casas e dos muros que cercam o terreno, mas isso não é motivo de preocupação. “Como tudo, nada é eterno, mas não exige manutenção”, contou antes de revelar que não sabe como seria sua vida se o vidro não existisse. “Não me imagino morando de outra maneira, nem fora daqui. É muito especial”.

 

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Publicado em 08/08/15-09:00

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