Conheça os botecos mais tradicionais de Florianópolis

Filosofia de botequim - Bares da Capital resistem ao tempo e são ponto de encontro amigos de copo, sinuca e futebol

Carol Macário
Carol Macário


Florianópolis

Rosane Lima / ND
Na Jukebox - José Augusto curte Amado Batista no Bar Queima Zóio, no Rio Tavares

Boteco que é boteco tem sempre um cachorro amigo deitado na porta (ele nunca se atreve a entrar), uma pimentinha vermelha para acompanhar a almôndega, calendário na parede, toalha de plástico grudada com percevejo na mesa, um ovinho de codorna em conserva para acompanhar cerveja barata, cachaça de frutas, futebol e uma Nossa Senhora para abençoar e proteger os exagerados. Tem também o abraço caloroso dos companheiros de copo, sinuca e dominó, fiéis amigos das horas boas (quando o time do coração está na frente), e também das ruins (dor de cotovelo, emprego, fossa). Em Florianópolis, bares tradicionais de bairro, com aquela decoração peculiar, a culinária típica – almôndega, feijão, mocotó, leitão à pururuca – e os personagens ímpares resistem ao tempo, alguns mais de 50 anos, e se destacam pela autenticidade e simplicidade. Conheça alguns inesquecíveis botecos em cada um dos quatro cantos da Ilha.

Queimando os Zóio nas Profundezas

Quando Leopoldo Alves, o Léo, 43, fundou há cinco anos o bar Queima Zóio, no bairro Rio Tavares, no Sul da Ilha, já tinha “muita gente queimando os zóio nas profundezas”. Eram tantos curiosos com olho grande pra cima do novo boteco que Léo não hesitou em batizar seu negócio. “Eu mesmo bolei o logotipo, um olho pegando fogo. Agora não tem mais fofoqueiro”, diz. O bar tem uma freguesia fiel e democrática. De empresários a desocupados, aqueles que frequentam aos fins de semana, todo dia e o dia todo. Pode ser para jogar sinuca, dominó, assistir ao jogo, dormir ou só sentar e observar.

O Queima Zóio é um clássico do Rio Tavares. O dono é flamenguista, mas todos os times têm seu lugar, numa parede com a tabela do Campeonato Brasileiro. Léo cuida pessoalmente da decoração: cada mesa tem o logo do bar (o olhinho com fogo), as cores vermelho e branco predominam, ventiladores de parede são pintados com uma estrela azul, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida entre as diferentes garrafas de cachaça dá o equilíbrio, e uma caveira no balcão avisa aos esquecidos que é proibido permanecer no balcão – onde fica a mulher, dona Rosa Meres de Jesus, 44.

Dona Rosa é quem prepara a tradicional dobradinha, cardápio de sábado ou domingo, dependendo do tempo. Ela tem mais paciência que o marido quando a clientela passa da medida. “Eu converso, explico e relembro o que eles já esqueceram”, diz. Todos, sem exceção, a respeitam e respeitam veementemente as regras da casa. “Tem gente que chega, bebe, fica bêbado e vai para casa dormir. Depois volta e começa tudo de novo”, conta dona Rosa.

Marco Antonio Kruger de Oliveira,44, comerciante, pelo menos duas vezes por semana dá uma passadinha para conversar com o pessoal, depois do trabalho. “O ambiente é bom, todos se respeitam e isso é o mais importante”, diz. Edson Chuairi, 39, funcionário de hotel, conta orgulhosamente que ajudou a construir o Queima Zóio e concorda que o melhor do bar são os amigos. “Nas minhas férias venho todos os dias”, afirma.

Figura querida entre os companheiros do bar, seu José Augusto, 67, diverte a todos gastando seu dinheiro em muitas, muitas fichas para tocar canções do cantor brega Amado Batista na Jukebox. Pé de valsa, ele costuma fazer um “esquenta” antes dos bailes da Sal (Sociedade Amigos da Lagoa), aos domingos na Lagoa da Conceição.

Rosane Lima / ND
Leopoldo Alves, o Léo, e Rosa Meres de Jesus: para frequentar o Queima Zóio é preciso seguir as regras

Regras da casa

- Não fumar
- Não bater taco ou bola de sinuca na mesa, e nem peças de dominó
- Proibido assoviar
- Terminantemente proibido mexer com mulher, dentro ou do lado de fora do bar
- Proibido permanecer no balcão
- Da porta pra dentro, são todos iguais.

Onde fica: rod. Doutor Antônio Luiz Moura Gonzaga, s/n, próximo à Pedrita, Rio Tavares, Florianópolis

Bar do Cazinho

Sábado é dia de reencontrar os amigos no Bar do Cazinho, no Estreito. O boteco existe há mais de 50 anos, e seus fregueses, em sua maioria, são da mesma época. O atual arrendatário é Eduardo Teixeira, 53, que há quatro anos toma conta do bar. “Quando tem jogo do Figueira, fica lotado”, diz. Ele e a mulher dividem as funções. Combinando jalecos – ele de azul, ela de branco – os dois atendem a clientela pacientemente, e o clima de amizade impera.

Débora Klempous / ND
Nelson Moraes de Araújo frequenta o Bar do Zazinho, no Estreito, há mais de 50 anos

Nelson Moraes de Araújo, 73, freqüentador desde os tempos que seu Oscar, o Cazinho, primeiro dono, ainda era vivo, lembra os anos de ouro do carnaval, em que a turma costumava se encontrar no bar antes de cair na folia. “Aqui são todos amigos”, diz. Amizade somente abalada quando algum “peru de fora tenta dar palpite no jogo de canastra”. Na salainha reservada para quem gosta de passar o tempo jogando cartas e se divertindo, só leva bronca quem se intromete no jogo alheio.

O bar é um caleidoscópio de personagens interessantes, desinibidos, outros misteriosas como seu Maxlio da Luz Maciel, 57, que prefere observar o movimento, ele e seu chapéu de marinheiro, sentado nas mesinhas da frente do bar. Seu Marinho, apelido para Vilmar Ludvig, 73, aposentado, é dos poucos avaianos em meio à maré Figueirense. “Um avaiano vale por 19 torcedores do Figueirense”, explica ele. Todos costumam assistir aos jogos juntos, e o papo é geralmente o mesmo: futebol, futebol e futebol.

Mas imperdível no seu Cazinho são as famosas almôndegas da dona Lourdes. O petisco é a preferência do bar e ela afirma que o segredo é exagerar no tempero. “Meu lado emocional é que dá o toque mágico”, conta.

Receita de Almôndega da Dona Lourdes – Bar do Casinho

Ingredientes
Carne moída
Cebola
Tomate
Alho
Salsinha e Cebolinha
Ovo
Pão molhado
Farinha de trigo

Modo de preparo
Misture os ingredientes, exceto a farinha, que é acrescentada aos poucos para ir dando liga. Capriche na quantidade de temperos.

Onde fica: av. Santa Catarina, 1470, Estreito, Florianópolis 

Bar Canto do Noel continua aberto

Para alívio de seus fiéis seguidores, depois da polêmica e da dúvida cruel, o Bar Canto do Noel continua aberto e sob nova direção. Algumas semanas fechado e a comunidade ficou em polvorosa. Os três novos sócios, Gabriel Machado Acosta, Raquel Otílio da Silva e Acariã Irê Machado, o cheff, assumiram o boteco e continuam com a mesma programação.

 

Débora Klempous / ND
Jaaqueline Alcântara e Gilmar Bedon não perdem um sábado de feijoada e samba no bar Canto do Noel, no Centro

 

Sábado é dia de samba e feijoada na travessa Ratcliff. O Bar Canto do Noel parece um cantinho da Lapa, o tradicional bairro carioca, cravado no Centro da Ilha. O samba começa por volta das 13h, e incansáveis garçons entram e saem carregando bandejas com feijão, farofa e laranjas em pratos de barro. São pelo menos 25 mesas, há quem fique de pé, dançando, ou do outro lado da rua.

Seu Edison Galindro, 64, é quem idealizou o bar da maneira como é hoje. Natural de Criciúma, ele morou no Rio de Janeiro por 15 anos, e ainda não curou a paixão pela cidade maravilhosa. O bar existe desde 1957, é possivelmente um dos mais antigos da cidade. Galindro assumiu o boteco em 2008 e transformou seu gosto por música e história em decoração. “Gostava muito do Noel, Cartola, Pixinguinha, queria montar um bar que fosse a cara do samba de raíz”, diz.

Nas paredes internas do apertado casarão, fotos antigas, recortes de jornais, tudo lembra música, tudo lembra samba, tudo lembra a boemia. Na fachada externa, homenagem para seus músicos favoritos: As Pastorinhas, Cartola, Noel, Nega Tide, homenagem até ao poeta Zininho. Em 2010 Galindro vendeu o bar para um casal paulista, o começo de história tragicômica policial que alardeou o público meio intelectual, meio de esquerda, que adora um boteco pé-sujo.

Expedite da Rocha, 70, um dos diretores do conselho da escola de samba Coloninha, e Valter Santos, 58, não faltam a uma feijoada com samba. Eles sambam, brincam, animam. “Mas eu só danço acompanhado”, avisa Valter. O casal Jaqueline Alcântara, economista, e Gilmar Bedon, bancário, também não almoçam em outro lugar. “É um pedaçinho da Lapa na Ilha”, diz Jaqueline. Desinibidos, os dois dançam: “Não é preciso luxo para ser feliz”.

Onde fica: rua Tiradentes, 186, esquina com a travessa Ratcliff, Centro, Florianópolis

Bar do Vadinho e a Confraria do Sambaqui

O Bar do Vadinho, em Sambaqui , Norte da Ilha, onde funcionava no mesmo local há 56 anos o Armazém Sambaqui, era do pai do Celso dos Santos, o Cezinha, que herdou o negócio familiar em 1989. “Antes era só armazém, vendia alimentos, tudo a granel. Há seis anos é só bar”, conta. Os balcões antigos, a geladeira de mil novecentos e antigamente, fotografias do passado lembram os bons tempos dos encontros da Confraria do Sambaqui. O grupo ainda se encontra aos domingos, mas muitos já morreram.

Para quem gosta de música e do charmoso ruído do toca-discos, Cezinha tem uma coleção invejável de discos de vinil, mais de dois mil volumes. São clássicos do Pink Floid até Viníciius de Moraes que atraem apaixonados por música de todos os cantos da cidade. Emanuel Luiz Silva, 53, operário, é amigo fiel e sempre dá uma passadinha no bar para um “Vermezinho” e bater papo com os outros vermes, apelido carinhoso para os amigos. “Vermezinho” é uma receita infalível de cachaça, batida de limão e underberg, uma bebida de ervas. “É um santo remédio para relaxar ou abrir o apetite”, sugere.

Onde fica: rod. Gilson da Costa Xavier, 1.964, Sambaqui, Florianópolis

Débora Klempous / ND
Cezinha e os mais de dois mil discos de vinil no Bar do Vadinho, no Sambaqui

 

Publicado em 12/09/11-09:18

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