Cidades Criativas - A cultura como eixo de desenvolvimento econômico entra em debate no Brasil

Santa Catarina ainda engatinha nesse conceito, mas cidades como Florianópolis e Joinville já usam sua vocação criativa para a economia

img Carol Macário
@carolmacario_nd
Florianópolis

Ilustração / Mendes /ND 
Algumas cidades catarinenses já usam sua vocação criativa para movimentar a economia

 

O potencial econômico da cultura está sendo finalmente descoberto no Brasil. Apontadas como caminho natural (e mais sustentável) para o desenvolvimento das cidades, quem diria, a criatividade, a cultura e a inovação, juntas, transformaram-se numa indústria forte e geradora de renda, com a vantagem de não atrapalhar o trânsito, não poluir e ainda contribuir para a felicidade e formação do caráter da nação brasileira. Em Santa Catarina o desafio é grande e exige mudança de paradigma para transformar os municípios em territórios criativos. Cidades como Florianópolis, Joinville, Jaraguá do Sul e Blumenau estão no caminho, mas ainda é necessário percorrer um longo percurso.

O conceito de cidades criativas ainda é emergente e será debatido no 2° Fórum Catarinense de Gestores Municipais de Cultura, que ocorre nos dias 28 e 29 de maio na Capital. O assunto também será apresentado no próximo mês na Rio+20, conferência das Nações Unidas sobre desenvolvimento sustentável no Rio de Janeiro, num projeto da recém criada Secretaria da Economia Criativa, do MinC (Ministério da Cultura), que propõe a cultura como um dos quatro pilares do desenvolvimento econômico mundial.

“Território criativo não é somente um local com vocação para a música, dança ou teatro. Mas onde o cidadão é fruto de uma política que trata a cultura como eixo de desenvolvimento”, defende a secretária da pasta, Cláudia Leitão. Até novembro, a nova secretaria deve chancelar os chamados territórios criativos do Brasil, dando a eles algumas contrapartidas, como isenção de impostos para atrair empresas e prêmios para empreendedores criativos.

Em Santa Catarina, cidades como Jaraguá do Sul, no Norte do Estado, e Joinville, também no Norte, enxergam nos eventos e festivais culturais uma maneira de injetar dinheiro na economia local. “Festivais movimentam todo o sistema hoteleiro e de serviços”, afirma o presidente da Fundação Cultural de Jaraguá do Sul, Jorge Luiz da Silva Souza. Para o presidente da Fundação Cultural de Joinville, Silvestre Ferreira, “investir em cultura é importante e fundamental também para o desenvolvimento humano da cidade”, diz.

Mas é um conceito que ainda precisa ser absorvido. “Em muitas cidades catarinenses, as verbas para cultura são investidas em festas de aniversário de emancipação”, diz Ferreira, que também é presidente do Congesc (Conselho dos Gestores Municipais de Cultura do Estado). Nesse sentido, o maior desafio, a partir do conceito de cidades criativas, é ir além da política de eventos e festivais. “Uma cidade criativa, em primeiro lugar, tem que oferecer qualidade de vida para a população”, ressalta a secretária de economia criativa do MinC, Cláudia Leitão.

Divulgação / ND
Secretária de Economia Criativa, Cláudia Leitão, vai apresentar projeto sobre o tema na Rio+20

Santa Catarina tem nota baixa na área cultural

Recentemente a Fecam (Federação Catarinense dos Municípios) divulgou o Índice de Desenvolvimento Sustentável dos Municípios, em que a cultura recebeu a alarmante nota de 0,375, numa escala de 0 a 1. “A cultura infelizmente fica no meio das outras demandas consideradas mais urgentes, mas os próprios cidadãos estão apontando a cultura como necessidade”, avalia o presidente do Congesc. Segundo ele, muitos municípios catarinenses infelizmente sequer têm um órgão gestor da área.

Para a assessora de turismo e cultura da Fecam, a turismóloga Raquel Rodrigues, a nota baixa em cultura foi uma surpresa. Ela explica que o índice foi calculado com base em variantes como número de cidades que aderiram ao SNC (Sistema Nacional de Cultura), legislação própria de proteção ao patrimônio material e imaterial e também iniciativas sociais, como grupos artísticos por exemplo.

“Temos que acordar para esse tema, ainda temos uma política cultural muito tradicional”, avalia o antropólogo e analista cultural Eugênio Lacerda, servidor da FCC (Fundação Catarinense de Cultura). “Precisamos de uma política cultural transversal”, diz. E essa política ainda está engatinhando. Somente no final do ano passado o Estado assinou os termos de cooperação com o SNC, e por isso as discussões sobre economia criativa estão só começando. “Até o final do ano queremos traçar as políticas para desenvolvimento cultural e econômico e a economia criativa é um dos pontos”, garante Elisa Wypes Santana de Liz, diretora de políticas integradas do lazer da Sol (Secretaria Estadual de Turismo, Cultura e Esporte). “Até então não tínhamos essa percepção da cultura como fator econômico. É um caminho novo e estamos abertos a ele”, diz.

Florianópolis, uma faca de dois gumes

Florianópolis é um caso especial diante de outros municípios catarinenses: há mais verba para ser investida no setor cultural, é rota de grandes eventos e, ainda assim, muitas pessoas têm a impressão de que a cidade não acontece nessa área. “Temos eventos, mas no dia a dia da cidade não vemos nada. É preciso ter políticas públicas culturais mais consistentes”, diz Luiza Lins, diretora da Mostra de Cinema Infantil. Para ela, é possível sim viver da cultura e do turismo de maneira mais ampla, mas assumindo a ideia de que cidade boa para o turista é cidade boa para o cidadão. 

Na mesma linha, a assessora de turismo e cultura da Fecam, Raquel Rodrigues, não entende como cidades menores que a Capital, mesmo sem as mesmas vantagens e recursos, conseguem fazer mais pela cultura. “Além disso, Florianópolis se encaixa no conceito de cidade criativa também por exportar conhecimento a partir do polo tecnológico existente. O problema é que a gestão da cultura ainda deixa muito a desejar”, conclui.

O que torna uma cidade criativa?

Cultura – Manifestações artísticas tradicionais, arquitetura, história, moda, gastronomia, design etc.
Inovação – Indústria do conhecimento, incubadoras tecnológicas, novos produtos e projetos
Conexão – Mobilidade urbana, inclusão social e digital

Cidades criativas no mundo

- Em Londres, a indústria criativa é o segundo setor da economia  e responde por um quarto dos postos de trabalho
- Amsterdã, na Holanda, faz dos artistas de rua, museus, galerias e cultura das bicicletas pela cidade um fonte de renda
- Paraty, sede da Flip, a maior festa literária do Brasil

Quanto rende a cultura?

- A indústria cultural representa 2,5% do PIB brasileiro, um impacto de R$ 92,9 bilhões na economia
- Em Santa Catarina, atividades ligadas à cultura representam 2,2 % do PIB do Estado, ou R$ 35,4 bilhões

- A indústria criativa representa 2% do emprego formal no Estado. A média nacional é de 1,7%.

Fonte: Pesquisa feita pela Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) de 2010.

 

Índice cultural das cidades mais criativas de Santa Catarina

Chapecó, 0,978
Blumenau, nota 0,922
Criciúma, nota 0,922
Florianópolis, nota 0,889
Jaraguá do Sul, nota 0, 889

*Essas cidades receberam a maior nota na área de cultura do Índice de Desenvolvimento dos Municípios, realizado pela Fecam. Esse índice foi calculado com base em três variantes: Estrutura de Gestão para Promoção da Cultura, Iniciativa da Sociedade e Infraestrutura Cultural

Publicado em 28/05/12-09:28 por: Carol Macário.