Uma história de MIGRANTES

Registros da memória. Valdete Daufemback Niehues veio do interior de Santa Catarina para construir a vida em Joinville

img Maria Cristina Dias Dos Reis Lima

Joinville

Rogério Souza Jr/ND
Onde também semeia conhecimento. Valdete também leciona no Bom Jesus/Ielusc

 

No início dos anos 70 uma jovem de São Ludgero, no Sul do Estado, deixava a área rural e chegava a Joinville, a Manchester Catarinense, para trabalhar, estudar, construir a vida... A história é da professora e historiadora Valdete Daufemback Niehues, que atualmente também é coordenadora do Arquivo Histórico de Joinville. Mas poderia ser de muitos dos milhares de migrantes que nas décadas de 70 e 80 deixaram suas cidades em busca de melhores oportunidades e contribuíram com o seu trabalho para o desenvolvimento de Joinville.
Nascida em uma família de agricultores que plantava fumo em uma pequena propriedade no interior de São Ludgero, Valdete era a quarta de dez filhos e, como as crianças da área rural, trabalhava na roça, ao lado dos pais. Para estudar era preciso muita perseverança. A escola pública local só oferecia aulas até a quarta série primária (atual quinto ano do ensino fundamental). Depois disto era preciso ir até a sede, a sete quilômetros da propriedade, o que inviabilizava a atividade para os filhos de agricultores, que não podiam largar a roça durante o dia. O pai, porém, era um homem de ideias livres, que assinava jornais, costumava trabalhar como “cabo eleitoral” nas campanhas políticas da região e incentivava os filhos a ler e a se informar. “Íamos à missa aos domingos e já pegávamos o jornal. A minha mãe lia o jornal para a filharada”, relembra.
Assim, ao completar a quarta série, Valdete e os irmãos mais velhos foram buscar uma forma de continuar os estudos. “Falamos com o padre para abrir um ginásio à noite. Ele falou que se juntássemos 40 pessoas, ele abria. Fomos às localidades, conseguimos 48 alunos, a turma foi aberta”, conta. A cidade, entretanto, já estava pequena para os irmãos, que se correspondiam com pessoas de outros Estados e países e tinham sede de conhecimento. A irmã mais velha, Dalva, foi estudar em Florianópolis. Outro irmão veio para Joinville. “Era quase impossível a gente se ver ali. E eu também queria sair. Queria conhecer, queria estudar, queria trabalhar em algo que gostasse... Sabia que não queria a vida na roça”, explica Valdete, que aos 18 anos saiu de São Ludgero às 4h da manhã com uma bolsa de roupas e o endereço de uma pensão em Joinville, onde chegou às 21h.

 

Me transformei no curso de história. Queria responder às minhas perguntas, mas saí de lá com muito mais perguntas.”

 

Faculdade depois dos filhos
A vida na “cidade grande” foi um aprendizado – e um choque. Para se orientar e não se perder, ela marcava os caminhos por onde passava. E descobriu a rotina nada romântica de operária em uma cidade industrial.  “Fui trabalhar em fábricas de tecido e costura, que era o que eu sabia fazer. Foi um choque  conhecer o tratamento dispensado aos trabalhadores. Eu achava uma prisão. Era tudo controlado, até o tempo para ir ao banheiro”. A experiência não durou muito e com menos de 21 anos ela decidiu montar o seu próprio espaço e costurar para fora. Desta época, se consolidou um olhar crítico sobre Joinville, sua formação e o boom de desenvolvimento. “A cidade é como é graças à escravidão dentro das fábricas, à exploração dos empregados. Considerei tudo aquilo uma violência.”
A oportunidade de estudar veio mais tarde, depois de casada, com os filhos já com nove e sete anos. Foi aí que terminou o segundo grau, cursou a faculdade de história, o mestrado, começou a lecionar... “Me transformei no curso de história. Queria responder às minhas perguntas, mas saí de lá com muito mais perguntas”. Ao estudar a ocupação dos mangues de Joinville, se identificou. “Comecei a ouvir a história deles e vi que tinha muito da minha história... Da busca por uma vida melhor.”
A partir daí direcionou seus estudos profissionais para o tema. Fez pós em historiografia brasileira e no mestrado se debruçou sobre a questão da ocupação dos mangues. “Fui estudar sobre o migrante. Quem era o migrante de Joinville? Como ele se adaptou às nossas fábricas?” Com isto, encontrou também o entendimento de sua própria trajetória.
Hoje, à frente do Arquivo Histórico de Joinville – a casa que guarda a memória dos  imigrantes da cidade –, coordenando o jornal do bairro Paraíso e sempre dando aulas, ela exercita o olhar sobre a cidade e continua a busca pelo conhecimento que marcou toda a sua trajetória. “Essa inquietação é que me move. Não consigo ficar alheia aos movimentos da cidade.”

Publicado em 20/07/12-17:41 por: Lorení Franck.


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