Perfil

A história do publicitário de Joinville e seu Fusca 78

A bordo do fusquinha, Bruno Arins conseguiu viver, na prática, seu ideal de liberdade
Maiara Bersch/ND
Se esse fusca falasse...  Publicitário Bruno Arins está se despedindo do amigo Jaime

 

Pegar a estrada em um dia de sol, de manhã bem cedo, ao som de uma canção da música popular brasileira, sentindo o vento batendo no cabelo e rindo despreocupadamente com os amigos. A experiência resume o conceito de felicidade do publicitário Bruno Arins, de 25 anos, que conseguiu colocá-lo em prática nos últimos dois anos com a ajuda de um companheiro inestimável: seu fusca Jaime. “Nunca fui tão feliz quanto quando saía com o Jaime e meus amigos”, avalia ele, que acredita que essa sensação de felicidade pode ser encontrada nas coisas simples da vida.
A ideia de ter um fusca tem origem na infância e tomou corpo quando ele, já formado e no mercado de trabalho, precisou de um veículo próprio.  O pai teve um fusquinha verde que o menino adorava e que lembra com saudades até hoje. Aliado a isso, Arins refletia sobre a saturação de consumo e informação que marca os nossos tempos e pensava que ter um carro usado podia ser uma forma de aproveitar algo que já tinha tido um uso e uma história. Ao mesmo tempo, não se sentia animado a fazer um financiamento longo e se endividar para andar com um carro novo.
Um dia, ele foi fazer um passeio de bicicleta com uma amiga pela área rural do Vila Nova. Na volta, os dois resolveram esticar a pedalada até a Estação Ferroviária. Quando chegaram lá, estava ocorrendo uma reunião do Clube do Fusca e, conversando com o presidente, ele falou da ideia de, um dia, ter um carrinho daqueles. Uns dias depois, a surpresa: o rapaz ligou e ofereceu um carro.
O que aconteceu a partir dali foi muito parecido com uma história de amor. O antigo proprietário estacionou o veículo na agência onde Arins trabalhava e o publicitário, da janela, lá do alto, já bateu o olho no carrinho e o achou lindo. Isso foi em uma segunda-feira. Na quinta-feira o negócio estava fechado e Arins levou o fusca para casa. Mas começar a dirigir, mesmo, só no domingo. Embora já tivesse habilitação há cinco anos, ele não tinha prática de direção, e conduzir o novo amigo foi um aprendizado à parte. “Tudo era novidade: o carro, o fusca em si, e o trânsito”, recorda.
Arins se deu conta de que estava apaixonado pelo seu fusca e por tudo o que lhe proporcionava, um mês depois, quando decidiu pegar a estrada com os amigos e ir para Guarda do Embaú passar o réveillon. Como não tinha prática de direção, saiu de madrugada para evitar o movimento da estrada. “O Jaime foi tranquilo. Chegamos na Guarda do Embaú com o sol nascendo e o rádio tocando ‘Bolados’, dos Novos Baianos...”, conta ele.

 

“James, siga aquele carro!”

 

O nome Jaime surgiu por acaso, a partir da brincadeira da amiga Renata Cabrera – a mesma do passeio de bicicleta do início dessa história. Em uma ocasião, Arins e um amigo foram pegá-la no trabalho e ela sentou no banco de trás do fusquinha. Depois, o amigo desceu rapidamente do carro, mas não deu tempo de Renata mudar para o banco da frente.
Espirituosa, Renata brincou com a ideia de ter um motorista, lançou mão de suas referências cinematográficas e ordenou: “James, siga aquele carro!”. Os dois riram e a sonoridade do nome agradou a Arins, que “aportuguesou” o nome e batizou o carro de Jaime.
Juntos, Jaime e Arins andaram mais de mil léguas por aí – uma quilometragem meio exagerada, é verdade, mas que traduz o que cada aventura significou para o publicitário.
Agora, os dois amigos estão se despedindo. O principal motivo é que o publicitário não entende nada de mecânica, o que é muito complicado para quem tem um carro antigo. “A mecânica, apesar de simples, para mim é como números: eu não consigo ver”, explica. Então, ele resolveu abrir mão do grande amigo e comprar um veículo novo, mais prático.
Desse tempo de convivência, o que vai ficar para o futuro são as lembranças dos bons momentos compartilhados. E a percepção de que é possível, sim, se sentir livre, mesmo em meio ao mundo angustiado e apressado em que vivemos. “Eu sinto que o Jaime foi um agregador das experiências de liberdade mais importantes que já me aconteceram”, reflete Arins, já com saudades do grande amigo.


Menina que lia escondida do pai lança seu primeiro livro em Joinville

Marlete Cardoso mudou seu próprio destino, se formou professora e está prestes a lançar sua primeira obra-solo
Maiara Bersch/ND

A menina que virou autora. Marlete Cardoso tem seus contos e crônicas publicadas em quatro antologias da Confraria do Escritor de Joinville

 

Como tantas outras meninas, Marlete Cardoso sonhava em ser professora. Mas o destino parecia apontar para outro caminho. Seu pai achava que mulher não precisava estudar e ela saiu da escola na quarta série primária. Ler era um desafio. Os livros que entravam em casa eram controlados, já que as meninas não podiam ler qualquer coisa. Mas aos 15 anos, ela começou a trabalhar na antiga Livraria Record, na rua 15 de Novembro. Logo descobriu a Biblioteca Pública, ali do lado, na rua 9 de Março. E despertou para um mundo que era muito maior do que o que ela podia imaginar. “Foi uma revolução. Eu nunca tinha ido a uma biblioteca. Tive a sensação de que, até ali, eu estava dormindo”, tenta explicar Marlete que hoje, aos 53 anos, é professora, escritora e está prestes a lançar o seu primeiro livro individual. E “leitora eterna”, como ela mesma se define.

Nascida em 1961, Marlete conta que sempre gostou de brincar de dar aulas e não raras vezes aborrecia os primos com a mania de ensinar a falar corretamente. Na sua família, porém, o estudo entre as mulheres não era incentivado. O pai, laminador em uma empresa de Joinville, valorizava os estudos, sim. Mas para o filhos homens. Para as meninas, que iam mesmo casar e cuidar dos filhos, ler e escrever era o suficiente. Assim, Marlete e as duas irmãs mais velhas saíram da escola quando terminaram o quarto ano primário, o correspondente hoje ao 5º ano do ensino fundamental. Ela tentava ler na adolescência, mas o acesso aos escritos era difícil. Lia jornais velhos, revistas que escapavam do crivo do pai e alguns clássicos que conseguia pegar aqui ou ali.

Essa história começou a mudar quando ela tinha 15 anos e se empregou na Livraria Record. Logo no primeiro ou no segundo dia, a proprietária pediu que ela organizasse uma pilha de livros e lesse as capas e orelhas para se familiarizar com eles. Então entrou um freguês e pediu “Gabriela Cravo e Canela”. A menina, que nunca tinha lido Jorge Amado respondeu: “Gabriela, tem. Cravo e canela, não”. Ele percebeu que a adolescente não fazia ideia de que livro era aquele e a ajudou a procurar.

Em pouco tempo, quando a livraria fechava, às 18h, ela seguia para a biblioteca, que ficava aberta até as 19h. Fez o que nunca havia conseguido fazer então: ler, ler muito. Como ainda não podia estudar, tinha as noites e os fins de semana livres para mergulhar nos livros que a fascinavam.

 

História de amor com os livros

 

Aos 17 anos, começou a namorar. Mas o rapaz, mulato, não agradou ao pai dela, que proibiu o namoro. “Pensa em um homem bravo!”, recorda Marlete. O pai sabia que ela queria estudar e propôs um pacto para, definitivamente, por um fim ao romance: se ela deixasse o moço, ele permitia que ela voltasse aos estudos. “Eu aceitei!”

Fez supletivo para terminar o ginásio – e viu o pai se emocionar quando se formou na 8ª série. Começou a fazer o Magistério no Colégio dos Santos Anjos, e concluiu o curso no Colégio Celso Ramos. A vida seguiu seu curso. Ela foi trabalhar, casou e, quando vieram os três filhos, ficou sete anos sem lecionar. Neste período, entretanto, completou o curso de Pedagogia na ACE. “O que me movia era a vontade de saber mais, de ensinar. Pensava em voltar a dar aulas.” E voltou. Primeiro na rede estadual. Depois na rede municipal de ensino, sempre para crianças pequenas.

A vontade de escrever era grande, embora sem muitas pretensões. A cada ano, compunha seus cadernos de plano de aula como se fossem livros, com suas observações. Também escrevia cartas para seus amigos e parentes. “Quando fui na biblioteca pela primeira vez e vi as estantes cheias, achei que tudo já tinha sido escrito. Escrever também estava nos meus planos, mas isso ficou guardado em mim devido a essa impressão”, constata.

Com o tempo, isso mudou e Marlete passou a escrever contos e crônicas. Hoje, seus escritos estão presentes em quatro das seis antologias da Confraria do Escritor de Joinville, e ela prepara o primeiro livro-solo, “Coração Guarani".

Mais que ser professora, como desejava, ela conseguiu estudar, ler e ser lida. E quem pensa que ela se arrependeu de ter aberto mão do moço mulato por quem estava enamorada, está muito enganado. O mundo deu voltas e eles não ficaram muito tempo longe um do outro. Voltaram a namorar e no último dia 13 de abril comemoraram 30 anos de casados.


Aposentado de Joinville conclui curso de direito aos 78 anos

Com diploma em mãos, Juan Bautista Bustamante se prepara para fazer a prova da OAB e se tornar advogado.
Maiara Bersch/ND

Exemplo. Juan Bautista ensina que nunca é tarde para correr atrás de seus objetivos, basta manter o foco

 

No sábado, dia 25 de abril, Juan Bautista Bustamante estará realizando um dos grandes sonhos de sua vida: receber o diploma do curso superior. Nesta data, ele, que tem 78 anos e meio, estará em sua formatura no curso de Direito, um desejo antigo, mas que teve que esperar o tempo certo para ser concretizado. “Sempre tive o objetivo de fazer um curso superior. Mas nunca havia dado certo devido à época, às dificuldades. Quando me aposentei decidi fazer a faculdade”, conta, acrescentando: “Estou fazendo o que devia ter feito no início”.

Mas esse início não foi fácil. Uruguaio, nascido em Rivera, ele se criou em Livramento, na fronteira com o Brasil, e aos 13 anos se mudou para Porto Alegre. Em 1952, ainda bem menino, com 16 anos, começou a vida profissional na Varig. Tinha o ginásio completo e primeiro atuou na parte de comunicações e depois se especializou em compras técnicas. Depois, passou por Florianópolis, Criciúma e Blumenau até chegar a Joinville, em 1956. No ano seguinte, ele casou e logo vieram as duas primeiras filhas. Não sobravam muitos recursos ou tempo para estudar nesse período. “Ou eu trabalhava para me sustentar ou para estudar”, recorda.

Já com o científico, o equivalente ao atual ensino médio, ele batalhou para ganhar a vida e aproveitar o momento propício em Joinville. Na época, a cidade não tinha mais que 50 mil habitantes e vivia um momento de expressivo desenvolvimento econômico, com o crescimento da indústria, o que gerava oportunidades para quem queria prosperar. E Juan Bautista queria.

Nos anos 1960, começou a trabalhar como representante comercial. Nos anos 1970, abriu um escritório de representação de comércio exterior, casou-se novamente e ganhou mais três filhos. “Ficamos envolvidos com a educação dos filhos por mais de 30 anos”, explica ele, brincando que era quase sócio dos colégios. Mas a educação era um valor da família e os cinco filhos cursaram o nível superior e em algum momento estudaram no exterior. Agora já fazem mestrado e o mais novo completou o doutorado.

 

Hora de investir o tempo livro nos estudos

Há cinco anos, quando decidiu se aposentar de verdade (no papel, já está aposentado há tempos), Bautista viu que era hora de realizar seu antigo objetivo. Mas a decisão foi tomada em conjunto com a esposa, Maria Teresa Bustamante, que queria fazer o doutorado em administração em Curitiba. Os filhos já estavam criados e independentes e os dois, então, decidiram investir esse tempo em seus estudos. “Ele propôs: 'você faz o doutorado e eu faço a faculdade que eu sempre quis fazer'”, explica Maria Teresa. Assim, enquanto ela passava a semana em Curitiba no doutorado, ele ficava em Joinville, cursando Direito, na UniSociesc. “Equilibramos o tempo”, conta ela.

Hoje, Maria Teresa concluiu o doutorado e leciona em universidades em Joinville e Curitiba – inclusive foi professora de Direito do Comércio Internacional do marido, na UniSociesc. E Juan Bautista terminou o curso no final de 2014, vai pegar o diploma no dia 25, e se prepara para fazer a provas da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) para, efetivamente, atuar na nova profissão.

E para quem tem um sonho destes, guardados há muito tempo no peito e quase sumindo em meio ao corre-corre do dia a dia, Juan Bautista aconselha a não perder o foco, ter muita força de vontade e convicção de que vai vencer os desafios e conseguir o que deseja. “Tem que visar o Norte para ir na direção certa”, ensina.

    

Maiara Bersch/ND

Companheira. A esposa Maria Teresa Bustamante deu um ‘empurrãozinho’ para o futuro advogado ir em busca do canudo


Aventureiro estimula troca de informações sobre trilhas nas matas de Joinville

Ramon Kruger criou o Cachorro do Mato, grupo que há cinco anos incentiva as atividades de trekking e camping na região
Maiara Bersch/ND
Aventura. Estar em contato com a natureza é quase um vício para o estudante Ramon Kruger

 

Primeiro é um desafio. Depois uma necessidade, quase um vício. E ao longo do tempo, entrar pela mata, percorrer trilhas, cruzar rios, chegar ao cume de montanhas e sentir o vento frio no rosto se transforma em algo fundamental para aliviar o estresse do dia a dia e se reencontrar. O estudante de Direito Ramon Kruger, de 27 anos, sabe bem o que é isso. Aos 13 anos, ele subiu pela primeira vez o Monte Crista e adorou a aventura. De lá para cá não parou mais de buscar novos caminhos e há cinco anos fundou o grupo “Cachorro do Mato”, uma iniciativa sem fins lucrativos que tem a proposta de disponibilizar as informações sobre trekking e camping em áreas naturais em Joinville e região – e incentivar mais e mais pessoas a descobrir a beleza e o prazer das nossas matas.

Na verdade, a primeira aventura de Kruger no Monte Crista era para desestimular qualquer pessoa. Aos 13 anos, ele já participava dos acampamentos básicos da Juventude Mirim Luterana. Até que um dia surgiu a oportunidade de acompanhar “os mais velhos” no Monte Crista. Era Páscoa e um grupo de 40 jovens colocou a mochila nas costas e subiu o monte no limite entre Joinville e Garuva. O dia estava lindo, foram cinco horas de subida e uma vista recompensadora. Mas as surpresas boas acabaram por aí. Nos três dias seguintes choveu o tempo todo. Os jovens não podiam sair das barracas e passavam o tempo jogando cartas ou brincando.

Depois, as barracas começaram a encher de água e o grupo se confinou em um só abrigo. Os rios encheram e no domingo de Páscoa os bombeiros tiveram que resgatar os excursionistas que estavam ilhados no Monte Crista – entre eles o grupo de Kruger. Naquele momento, muita gente deve ter jurado que nunca mais colocaria os pés na mata. Não Kruger. Para ele, o efeito foi contrário. “Eu passei pelas pedras do rio e, na volta, passei de barco. Achei aquilo demais. Teve gente que odiou. Eu adorei”, revela.

A partir daí não parou mais. Anos mais tarde, quando entrou no Exército, adquiriu conhecimentos técnicos e valores úteis para a vida de quem gosta destas atividades. “Valores como camaradagem e união, por exemplo, e contato com técnicas como as de cartografia”, explica.

 

Ideia do Cachorro do Mato nasceu na montanha

 

Arquivo pessoal/ND

Dicas. Cachoeiras no interior do bairro Vila Nova estão sempre no roteiro de lugares para desbravar

 

Pouco depois de sair do quartel, em 2010, ele e o amigo Daniel Melara fundaram o “Cachorro do Mato”. Como não podia deixar de ser, a ideia surgiu em uma aventura. Os dois estavam retornando de uma travessia até a Pedra da Tartaruga, no Quiriri, na divisa entre Santa Catarina e Paraná. Chegar lá, porém, não foi fácil. Buscaram mapas, arquivos de GPS, informações públicas em Joinville e Garuva... e nada. “Zero informações”, conta. Procuraram empresas especializadas, porém o custo era alto – não dava. Mas eles conseguiram chegar ao topo e, lá em cima, pensaram em criar algo diferente: “Lá nos decidimos criar um grupo que fizesse trilhas sem cobrar nada”, conta.

E o “Cachorro do Mato”, desde então, tem cumprido este objetivo. “Esse é o intuito: explorar e disponibilizar todas as informações. Gratuitamente”, ressalta. Hoje, eles contam com quase 60 associados que fazem uma média de 45 trilhas por ano – quase duas por mês. As atividades podem ser “bate-volta” (ir e voltar no mesmo dia, as mais frequentes), camping (com pernoite) ou travessias, quando você sai de um lugar e termina a atividade em outro, o que demanda uma logística maior.

Para adquirir equipamentos, cada associado paga uma mensalidade de R$ 5 e com isto, o grupo já conseguiu adquirir equipamentos como GPS específicos para trilhas. E fornecem as informações que vão coletando a quem tiver interesse. São arquivos de GPS, dicas de estacionamento, pontos de água, rotas, níveis de dificuldades. Em média, o grupo recebe 15 solicitações por semana, que são acompanhadas, ou seja, Kruger continua em contato para saber como foi, o que achou. E a maioria dessas pessoas acaba se integrando ao grupo. “Não damos informações e abandonamos a pessoa. Conversamos, trocamos... convidamos a participar das atividades do grupo”, comenta ele, para quem as atividades no mato são a melhor foram de relaxar e eliminar os estresses do dia a dia.

 

Quer saber mais? Entre no blog do Cachorro do Mato: http://cachorro-do-mato.blogspot.com.br/

 


Técnico de informática de Joinville desenvolve aptidões para driblar cegueira

Danilo Afonso Loques criou um site com conteúdo produzido especialmente para os cegos
Carlos Júnior/ND
Inclusão. Danilo Afonso Loques criou o Cegueta, site com conteúdo acessível deficientes visuais

 

A tecnologia está incorporada no nosso dia a dia. Está no celular, no trabalho, em casa. Agora imagina ter que lidar com tanta tecnologia sem algum dos sentidos?  Esse é o desafio diário do casal Danilo  Afonso Loques, 29 anos,  e Elisane Telles de Souza, 29, que são cegos.

Cego desde os 21 anos, devido a um acidente de moto, Loques trabalha como técnico de informática na AcelorMittal Vega, em São Francisco do Sul, e é antenado em tecnologia, tanto que resolveu criar um site com conteúdo produzido para cegos.

Nascido em Santos, litoral paulista, sua fixação pela tecnologia começou aos 10 anos, quando ganhou o primeiro computador. Aos 13, já trabalhava como office boy e começou a se aperfeiçoar: “Fiz curso de datilografia e de técnico em informática, emendando com web design e outros ligados à tecnologia da informação”. A prática veio trabalhando em loja de informática.

Quando estava com 21 anos e trabalhava como assistente de comércio exterior, a vida mudou.  “Sofri um sério acidente de moto, me quebrei todo, fiquei quase três meses em coma e o descolamento das retinas levou toda a visão.” Após dois sofridos anos de reabilitação, Danilo retornou à empresa de logística em que trabalhava, agora na área de tecnologia de informação. “Ali recomeçou minha vida, tendo como apoio a tecnologia. Passei a usar bastante o celular nas tarefas diárias e descobri os equipamentos audíveis que auxiliam os deficientes visuais.”

Foi neste momento que percebeu a dificuldade de encontrar conteúdo produzido para cegos. “Ainda que deficientes visuais utilizem o computador normalmente, não há softwares específicos para nós.” Então surgiu a ideia de criar o site Cegueta (www.cegueta.com.br), um site acessível aos deficientes visuais, oferecendo entretenimento, suporte on-line e dicas.

A “Equipe Cegueta”, coordenada por Loques, disponibiliza programas e downloads acessíveis e fáceis de utilizar e um conteúdo variado, indo de piadas em áudio e texto a telemensagens e links úteis (não há imagens, apenas textos). “Hoje – garante o criador – o site é nacionalmente conhecido, e com acessos até de Portugal.”

No vlog "Acessibilidade Já" é produzido conteúdo voltado ao tema. “No vlog os internautas podem enviar sugestões e gravar participações especiais”, completa, ressaltando que o principal desafio é a busca de patrocínio. “Também precisamos de um webmaster para expandir o serviço”, convoca.

Romance começou pela internet

 

Carlos Júnior/ND
Convivência.  Técnico de informática com a mulher Elisane Telles de Souza e a filha Lívia, de 4 anos, que aprendeu a lidar com a cegueira dos pais

 

Certo dia, navegando pela internet, Danilo Afonso Loques começou a se corresponder com Elisane Telles de Souza, 29 anos, paranaense de Rio Negro, cega devido ao glaucoma. Papo vai papo vem, a amizade virou namoro e  depois casamento.

Ele se casaram em 2009, em Santos, onde há quatro anos nasceu Lívia. “Ela também é uma parte da nossa visão”, derrete-se o pai. “Lívia aprendeu a conviver com os pais cegos”, garante a mãe, acrescentando que a pequena jamais aponta qualquer objeto para os pais. “Ela sempre traz as coisas pra nós.”

Há dois anos a família decidiu se mudar para Joinville, onde moram os pais de Elisane. Aprovado em teste, o técnico em informática foi chamado pela ArcelorMittalVega, onde começou a trabalhar em agosto do ano passado, justamente onde mais queria: tecnologia da informação.

Elisane trabalha na Ajidevi e no momento aguarda ser chamada pela Prefeitura, onde passou em concurso. Ambos fazem faculdade, ele de Desenvolvimento de Sistemas, ela de Pedagogia. Ainda que tenham se adaptado totalmente a Joinville, cidade que consideram “promissora”, o casal aponta as dificuldades nos quesitos acessibilidade e oportunidades de trabalho. “As empresas precisam seguir o exemplo de algumas poucas como a Vega e abrir mais portas para pessoas com deficiência”.  


Um olhar para quem faz a rua mais tradicional de Joinville

Fotógrafo Eberson Theodoro clica e ouve as histórias das pessoas anônimas que passam pela rua do Príncipe
Luciano Moraes/ND
Perspectiva. Relatos das pessoas se transformaram em um foto-documentário no facebook

 

Todo mundo tem uma história para contar. Com esta ideia na cabeça e a câmera nas mãos, o fotógrafo e jornalista Eberson Theodoro caminha pela rua do Príncipe em busca das histórias das pessoas anônimas que fazem parte do dia a dia deste que é o mais tradicional caminho de Joinville. Aos poucos vai revelando relatos e rostos de pessoas que estão por lá todos os dias – e compõe retratos de um cotidiano que, na rotina apressada, muitas vezes não vemos.

Nascido em Pirabeiraba, este joinvilense de 29 anos começou a despertar para a fotografia quando entrou na faculdade de Jornalismo, no Ielusc, em 2005. No início achou que ia enveredar pela TV ou pelo rádio. Mas logo no primeiro semestre se encantou pelas possibilidades que as lentes traziam. “Era uma maneira de se expressar sem se evidenciar com a própria voz ou com a própria imagem. De alguma forma gostei disso”, explica ele, que se apaixonou pela alquimia da revelação de fotos analógicas.

Esta descoberta abriu um leque de possibilidades na vida do jovem, que não tardou a trazer para a fotografia as referências visuais cultivadas em clips antigos de grupos musicais e foi buscar a técnica necessária para reproduzir as suas ideias. O resultado foi revelado em documentários e na rotina de trabalho como fotógrafo nos jornais da cidade ou em ensaios masculinos. Mas se revelou, principalmente, no desenvolvimento de um olhar apurado para as coisas que o cercam. “Eu tento enxergar o mundo que os outros não veem”, afirma.

Um dia – qual exatamente é difícil definir – este olhar se voltou para a rua do Príncipe, com seu movimento, suas peculiaridades e suas contradições. Ele explica que a rua é o coração comercial da cidade e um lugar onde as coisas acontecem. Lojas, ambulantes e a população que passa rápido se misturam à manifestações culturais variadas, como a Feira do Príncipe ou performances artísticas. “Ela tem uma vida diferente do restante da cidade. Aqui as coisas pulsam mais”, tenta definir Eberson, olhando para a rua que o encanta e o intriga: “O que mais me intriga é que o nome é ligado à nobreza, mas a rua é muito popular”.

Destes questionamentos e observações, nasceu o projeto do foto-documentário “Rua do Príncipe e do Povo”, que desde janeiro deste ano aparece aos poucos nas redes sociais, na página do Facebook (www.facebook.com/ruadoprincipeedopovo).

Para colher as histórias, ele caminha sozinho, com a câmera nas mãos, olhando com calma para as pessoas. Tenta sair da realidade das pessoas apressadas, seguir em outro ritmo, se distanciar do presente atribulado. “Você se distancia e esse distanciamento o aproxima das pessoas. Eu paro para olhar”, revela ele, que reserva uma tarde por semana para esta imersão e, em média, publica três perfis por mês na página do foto-documentário.

Nesta trajetória, alguns relatos o marcaram de forma especial. Como um que ouviu no inverno do ano passado, de um senhor que estava sentado em um banco da praça Nereu Ramos tentando vender as caricaturas que fazia. Chileno, o homem havia perdido a família em um terremoto e vagava pelas cidades fazendo e vendendo seus desenhos. “Ele fazia as caricaturas não só para o sustento, mas como uma forma de sobrevivência emocional pelas perdas que sofreu”, analisa o fotógrafo.

Outra foi a trajetória de dona Margarida, a pipoqueira, que hoje nem está mais na rua do Príncipe (por uma questão burocrática teve que mudar o ponto para a rua 15 de Novembro). Sofrida, com uma vida difícil, ela não perde a alegria e acredita que, apesar das dificuldades, está na fase mais feliz de sua vida. “A carga de sofrimento que ela traz não aparece na simpatia que transparece no rosto”.

Sem prazos, sem vínculos comerciais, sem pressa, Eberson Theodoro dá forma ao objetivo de encontrar o maior número possível de histórias para contar. E a ideia é esse mesma: ir devagar. Um rosto de cada vez, um relato de cada vez. E no futuro – quem sabe? - reunir as histórias em um livro que revele um pouco dessa rua do Príncipe por onde tanta gente transita sem conhecer.

 


Trabalho artesanal faz de profissional de Joinville um “alfaiate” dos instrumentos musicais

Luthier dedicado às cordas, Anderson Silveira se firma no mercado
Fotos Luciano Moraes/ND
Artesanal. Pelas mãos de Anderson Silveira, o molde de madeira se transforma em  um novo instrumento

 

“Tal e qual uma roupa, o instrumento musical também pode ser feito sob medida, de acordo com as características de quem vai utilizá-lo.” A comparação com a arte da alfaiataria é do luthier Anderson Luiz Silveira, profissional especializado no complexo ofício de fabricar, consertar, reformar e ajustar instrumentos de corda. “Menos piano!”, ressalta, acrescentando que suas especialidades são a guitarra e o violão, como comprovam as cerca de duas dezenas de instrumentos enfileiradas na oficina que montou em casa, numa tranquila rua do bairro Aventureiro.

Enquanto numa bancada um violão é submetido a uma remodelagem quase completa, na mesa ao lado, como pedaços de tecido que são moldados em roupa, diversos tipos de madeira aguardam a hora de se transformar em um instrumento novo.

A música corria nas veias de Silveira quando ele nasceu, há 38 anos, em Joinville. “Meu pai, Ademar Silveira, era violeiro e costumava tocar em programas de rádio, além de ser conhecido nas canchas de bocha da cidade. E os tios, por parte de mãe, também eram músicos. De tanto vê-los tocar fui tomando gosto pela música.” Interessado e demonstrando aptidão, Anderson teve com o pai as primeiras lições, logo comprovando a vocação para as cordas.

Suas primeiras performances, porém, em vez de braços e cordas de violão tinham baquetas e o couro dos tambores. “Quando morava no Anita Garibaldi, éramos vizinhos de algumas bandas da cena musical joinvilense dos anos 1980 e 90, entre elas a H2O. Eu ia ver os ensaios e acabei me apaixonando pela bateria.” Assim, aos 11 anos, Anderson convenceu o pai a patrocinar um curso de bateria, com a qual acompanhava os tios músicos.

 

Opção definitiva pelas cordas

 

Empreendedor. O luthier instalou sua oficina em um cômodo de sua casa e aos poucos o negócio deslanchou

 

Com 14 anos, encerrado o ensino fundamental no colégio Martins Veras, Silveira queria aprender mecânica automotiva. “Em vez disso – conta, admitindo a falta de decisão – acabei matriculado no curso de Modelagem em Madeira do Senai.” Não concluiu o curso, levado pela rebeldia adolescente, e hoje lamenta: “Agora vejo como o pouco que aprendi é importante na atual profissão”.

Enquanto fazia o ensino médio regular, ele se dedicava ao aperfeiçoamento no violão e na guitarra. “Eu realmente tinha facilidade em aprender, e logo conseguia reproduzir na guitarra todos os solos de ‘Sweet Child O ’Mine’, do Guns N’Roses”, gaba-se.

Aos 19 anos, passou a fazer cursos de guitarra, começando pela Casa da Cultura. Aprendeu teoria musical e começou a tocar em público, nas audições dos alunos em bares e na igreja evangélica que a família frequentava.

Veio o primeiro emprego, na loja de instrumentos Graves & Agudos. “Como não havia vaga de vendedor, trabalhei no estoque, onde dava para aperfeiçoar meus conhecimentos como ajustador”, conta, destacando o muito que aprendeu com o luthier Leandro Copetti na arte da regulagem de violões e guitarras. Graças a um acordo feito com a gerência da loja, uma vez por mês Silva viajava a São Paulo, empilhando certificados de conclusão de cursos.

Em 2007, casado e pai, deixou a loja e se aventurou numa oficina de consertos, reformas e ajustes. “Não deu certo, pois eu era bom no ofício, mas fraco na administração”, admite. Trabalhou como vendedor na loja Aliança Musical, voltou a fazer cursos, um deles com o músico Luciano Borges, e se especializou na produção de violões. Em 2012, enfim, transformou um cômodo de sua casa em oficina, investiu as economias em equipamentos e abriu a Silveira Luthieria, especializada em violão e guitarra.

Com mais capricho na administração, o negócio deslanchou. Mas a procura por consertos e ajustes é tanta que mal sobra tempo para o ofício da construção, praticado nos poucos períodos livres. “É importante destacar – conclui o luthier – que todo instrumento musical novo precisa de ajuste, tanto pelas condições de transporte e estocagem, quanto pelas características de quem vai executá-lo.”

 

Serviço

O quê: Silveira Luthieria, construção e ajuste de instrumentos de corda

Onde: rua Renato César de Oliveira, 376, Aventureiro

Contato: 3425-0953 / 8483-0094 / silveiraguitars@gmail.com


Advogado de restaurantes abre seu próprio estabelecimento em Joinville

Em 2013 inaugurou o restaurante Dona Elisa, batizado em homenagem à mestra na cozinha e mãe do proprietário
Luciano Moraes/ND
Templo de sabor. Danielle, Evaldo Camargo e o enteado Lucas: família unida em local que mais que um restaurante é uma homenagem à mãe do chef

 

Evaldo Pinto de Camargo ainda mantém sociedade num escritório de advocacia em São Paulo, onde nasceu, criou-se e fez carreira. Há dois anos, porém, a bancada jurídica vem sendo trocada pela da cozinha, no comando do Dona Elisa Restaurante & Pizzaria, empreendimento que veio realizar um sonho antigo. “Sempre gostei do Sul, Joinville me conquistou, e aqui pude concretizar o plano de montar um restaurante de acordo com os melhores conceitos de boa comida e atendimento diferenciado”, diz Camargo, ainda comemorando o sucesso de evento promovido no início do mês, quando trouxe o renomado chef Rodrigo Oliveira.

Nascido dois meses antes da Copa de 70, ele credita o nome Evaldo a uma junção: “Creio que juntaram o E de Elisa, minha mãe, e o Valdo do meu pai”. Ainda que tenha nascido no bairro Penha de França, na zona Leste paulistana, Camargo criou-se no mais que tradicional Jaçanã. “Só que já não tinha mais trem das onze, nem de qualquer horário, pois já era tempo de metrô”, salienta, referindo-se à famosa canção de Adoniran Barbosa.

Filho de um advogado e policial, Camargo decidiu-se pelo direito na hora de escolher uma profissão, mesmo com formação técnica em secretariado. “Além do DNA paterno, sempre fui de tomar partido, nunca de ficar em cima do muro. Também aí tenho por onde puxar, pois meus pais participaram de momentos importantes da vida política nacional, como o famoso comício do então sindicalista Lula no estádio de São Bernardo do Campo”, reforça Camargo, definindo-se como “jovem anarquista”.

 

Advogado de restaurantes

Formado pela Faculdades Integradas de Guarulhos, Camargo estufa o peito de orgulho ao contar ter sido aprovado já na primeira prova do exame da OAB: “De cada centena de formados, só uns dez passavam na primeira tentativa”. Atuou por 12 anos no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, pós-graduou-se em direito empresarial e fez vários cursos de extensão, até que, em 1997, associou-se num escritório.

Um ano depois, começou a unir as duas paixões. “Na cozinha, eu tinha experiência desde criança, aprendendo com minha mãe, ótima cozinheira. Estudante, fui mochileiro, e nas viagens o preparo da comida era comigo, pois não suportava comer gororoba. Além da minha mãe, aprendi muito assistindo ao programa da Ofélia Anunciato, na TV. Em 1998, comecei a advogar para restaurantes, e passei a assimilar os meandros administrativos do ramo.”

Adepto da cozinha simples, do “saber fazer”, Camargo passou a ter contato com a gastronomia sulina a partir de 1992, quando veio pela primeira vez a Santa Catarina, numa Oktoberfest. Há 20 anos passou a frequentar Joinville, muito graças à amizade com Osvaldi Barbosa, dono do Bar Garoto, tradicional estabelecimento do Centro. “Foi ele que me convenceu a profissionalizar o que antes era só divertimento”, credita Camargo. E foi do amigo que adquiriu uma casa na rua Gothard Kaesemodel, onde o sonho se concretizou. “Investi minhas economias, reformei totalmente a casa, adaptando-a para ser um local aprazível e aconchegante, e em 2013, inaugurei o restaurante, batizado Dona Elisa, em homenagem à minha primeira mestra na cozinha”, conta Camargo, sem esconder a emoção pela saudade da mãe, morta há pouco mais de dois anos (a inauguração foi marcada justamente para o dia do aniversário da mãe, 8 de janeiro).

Com o apoio da mulher, Danielle, encarregada da parte administrativa, Camargo decidiu-se a montar um estabelecimento diferenciado, com alguns toques paulistanos, como o preparo da pizza à vista do freguês. “Nada de rodízio ou bufê a quilo. Nossa intenção é que o cliente exercite o prazer da boa mesa, com comida simples, de muita qualidade e custo adequado”, detalha, revelando outra peculiaridade: “Mesmo com uma variada carta de vinhos, o cliente pode trazer o que for de sua preferência, pagando apenas um valor justo pela rolha; se for o caso, o vinho entra na nossa carta”.

Outra novidade da casa, hoje funcionando apenas para o jantar de terça a sábado e almoço aos domingos, começa na próxima semana: “Teremos o happy hour, com as bebidas e petiscos próprios”. Ainda na esteira do sucesso da passagem do amigo Rodrigo Oliveira (“Ele me deixou uma receita de tapioca muito especial”), Camargo já antecipa a vinda de outros chefs durante o ano.

 Serviço

O quê: Dona Elisa Restaurante e Pizzaria

Onde: rua Gothard Kaesemodel, 863, Anita Garibaldi

Contato: 3804-2700, Facebook Dona Elisa


A arte a serviço da moda

Memória. Sidney Schroeder relembra a carreira como desenhista da Lumière
Luciano Moraes/ND
Na ativa. Sidney Schroeder continua desenhando para marcas catarinenses

 

Em meados dos anos 1960, o estilista Sidney Schroeder se desdobrava para trazer a Joinville as novidades da moda europeia. Ele fazia anotações em caderninho, muitas vezes escondido no banheiro dos eventos de moda. “Sempre que ia ao banheiro, eu apenas me sentava e fazia anotações. Era a única forma de registrar as novidades que eu via, sem despertar suspeitas de que pudesse estar plagiando”, conta Schroeder.

O estilista era responsável pela criação da linha de produção da Lumière. O caderninho que motivava seguidas incursões ao banheiro está zelosamente guardado, junto com lembranças da carreira e da vida deste joinvilense, ainda na ativa aos 75 anos, fazendo o que gosta: desenhar moda. “Fui o responsável pela adesão da Lumière ao prêt-à-porter, num momento em que o mercado era desfavorável e assolado pela concorrência”, destaca.

Desde a infância, Schroeder demonstrava ter habilidade artística. “Eu desenhava bem, mas não imaginava seguir alguma profissão ligada à arte. Pintava só por distração, pois os bons empregos na época eram em fábrica ou escritório.”

Sem imaginar o que o futuro lhe reservava, teve seu primeiro registro de trabalho no Laboratório Catarinense. “Eu fazia desenhos para o Almanaque Renascim.” Ali, nas páginas do tradicional almanaque, Schroeder começava a ganhar dinheiro graças ao dom artístico.

A experiência, porém, durou pouco, e ele logo se transferia para outra tradicional firma joinvilense, a Comércio & Indústria Germano Stein. “Fui trabalhar no escritório, ligado ao setor de publicidade e propaganda, na criação e montagem de vitrines.” Logo chegou à gerência do departamento.

Schroeder teve dois patrões durante algum tempo. “Curt Alvino Monich, dono da Casimiro Silveira S. A., fabricante de lingerie da marca Lumière, me convidou para trabalhar na firma dele. Agradeci e recusei, pois estava muito bem no emprego, era gerente. Ele não se deu por vencido e foi falar diretamente com o meu patrão, pedindo para me dividir. Germano topou e logo passei a dar expediente duplo, de manhã na Stein e à tarde na Lumière”.

 

Iniciativa que deu fama a marca Lumière

Não demorou para que Germano Stein precisasse nomear outro gerente de Publicidade, pois Sidney Schroeder se decidiu pelo trabalho de projeto e montagem de estandes na Casimiro Silveira. Um dia, visitando feiras têxteis em Paris e Munique, estreou sua, hoje preciosa, caderneta de anotações, cheia de textos e desenhos abordando coleções lançadas nos principais polos europeus da moda. “Lançamentos europeus só chegavam às revistas brasileiras com um ano de atraso. Então, as feiras eram uma oportunidade de observar tendências fresquinhas”, explica, justificando a fama de inovadora da marca Lumière.

Da montagem de estandes, Sidney Schroeder passou para os desenhos, e são dele muitos dos modelos de lingerie e moda praia de sucesso nos anos 1970 e 80. Foi num daqueles momentos, em que o mercado enfrentava uma crise, que ele sugeriu o lançamento da moda prêt-à-porter (“pronto para vestir”, em francês). Sidney Schroeder passou duas décadas na Lumière, e jamais deixou de lado o dom para a pintura, como comprovam as diversas obras ornando as paredes de casa, além de desenhos a lápis de cor guardados em pastas.

Com o encerramento das atividades da empresa, Schroeder colocou sua arte a serviço de outras marcas, como Husky, Jaraguá Fabril, Rainha Gruba e, há alguns anos, a AS Têxtil, de Guaramirim. “Hoje, com a facilidade da internet, nem preciso sair do meu ateliê. Desenho em casa mesmo e envio por email”, diz, mostrando algumas de suas criações, entre toalhas de mesa, cortinas e outras peças de decoração.

 

Fotos: Luciano Moraes/ND
Relíquias. Estilista guardou a caderneta onde fazia anotações sobre os lançamentos das feiras de moda européias (no alto). Cartaz de propaganda da marca Husky com peças criadas por Sidnei Schroeder (no meio), e as moças de maiô vestem peças da Rainha Grubba também assinado pelo estilista (acima)

 

 

 


Luis Francisco Lima de Mello, o Teco, concretiza em Joinville o sonho da juventude

Com a família, ele abre em um ambiente informal o Mistura Fina, que proporciona novas experiências gastronômicas a cada dia
Luciano Moraes/ND
Daniela, Teco, a filha de ambos, Natalie, e o cozinheiro Thiago Gerent

 

Teco iniciou a carreira profissional ainda adolescente, como arquivista num hospital; passou por outros empregos, trabalhou na companhia de saneamento paulista, foi morar na Alemanha; formou-se em administração, trabalhou com logística e nessa área retornou ao Brasil. Em dois capítulos desta história, porém, definiu seu momento presente, comandando um estabelecimento no segmento de gastronomia.

“Na Sabesp, eu administrava o relacionamento com os fornecedores de alimentação, e tive as primeiras noções de nutrição. Na Alemanha, fiz cursos de culinária e aprendi os segredos da gastronomia”, conta o chef e proprietário do Mistura Fina, restaurante inaugurado há quatro anos em Joinville, realizando, enfim, o sonho de se dedicar full time ao segmento.

Luis Francisco Lima de Mello ganhou o apelido dos irmãos mais velhos logo que nasceu, em 1965, em São Paulo. “Além de caçula, eu era pequeno, aí começaram a me chamar de Teco e pegou”, justifica. O gosto pelas artes culinárias já vinha no sangue: “Minha mãe era a cozinheira do dia a dia, enquanto meu pai sempre teve mão boa para a gastronomia. Eu tive por quem puxar”.

Aos 15 anos, o primeiro emprego, como arquivista e mensageiro, num hospital da Vila Clementino, bairro vizinho à Vila Mariana, onde se criou. Depois, foi para a Cia. de Saneamento Básico do Estado de São Paulo. “Na Sabesp – conta – eu era responsável pelas parcerias com os fornecedores externos de alimentação nas várias unidades da companhia. Fiz cursos de armazenagem e higiene, e naquele trabalho fui atraído para a área de nutrição.”

Cinco anos depois, decidido a investir em negócio próprio, Teco saiu da Sabesp, disposto a investir suas economias num empreendimento. “Aí veio o Plano Collor...”

 

Na Alemanha, um recomeço

 

Com a poupança confiscada, restou a Teco fazer as malas e partir, com a mulher, Daniela, para morar com os pais dela, em Freiburg, na Alemanha. Também paulistana, três anos mais nova, Dani tornou-se, mais que parceira, uma apoiadora dos planos do marido. “Meus pais sempre nos deram suporte, e pudemos recomeçar a vida na Alemanha”, conta a hoje sócia.

Teco formou-se em administração com especialização em informática e trabalhou por 11 anos em uma empresa de logística, onde chegou a gerente. E não desperdiçou oportunidades para se aperfeiçoar naquilo que realmente queria trabalhar, a gastronomia.

“Na Europa, estão os principais polos gastronômicos do mundo, e aprendi a base de diversas cozinhas, fazendo cursos técnicos. Trabalhei numa cantina italiana e também me especializei em culinária dos Alpes, francesa, marroquina, mediterrânea...”

Em 2006, a volta ao Brasil: “Um amigo me indicou para implantar a área de logística da Marcegalia, que estava se instalando em Garuva. Entre outros motivos para encarar o desafio, estava o desejo de morar no Sul”. Um ano depois, ao deixar a empresa, Teco já se tornara nome requisitado como culinarista, em eventos por toda Joinville.

Em 2010, começou a reformar um imóvel situado nos fundos da Microfar, empresa de informática e suprimentos (criada por William Rasmusen, o amigo responsável pela volta de Teco ao Brasil, falecido em 2007). Janeiro de 2011 marcou, enfim, a inauguração do Mistura Fina Rotisserie, um conceito diferente em gastronomia.

“Procurei fazer aqui um mix das várias culturas a que tive acesso na Europa. O principal diferencial do restaurante é a variedade de opções, o que permite não repetir cardápio. Cada dia é um prato diferente.” Além de Teco e de Dani, a equipe conta com o apoio da filha Natalie, 17, estudante de propaganda (nascida na Alemanha, como o irmão Felipe, 19), e do cozinheiro Thiago Gerent, formado em gastronomia pela Univille. Atendendo no local ou embalando as refeições, o restaurante abre para almoço, de segunda a sexta. “As noites e os fins de semana são reservados para eventos”, ressalva Teco, anunciando o prato principal para esta segunda-feira: bacalhau mediterrâneo.

 

Serviço:

Mistura Fina Rotisserie

Rua Max Colin, 2.048, América (ao lado da Microfar)

Informações: 47/3028-3979


Exemplo de superação, Osmar Pavesi constrói com os outros sentidos o mundo que não vê com os olhos

Pedagogo responsável pelo setor de braile e audiolivros da Biblioteca Pública de Joinville convida demais cegos a descobrirem mundo por meio do conhecimento e da leitura

 

“Acredito no trabalho como forma de

conquistar não apenas o material,

mas também, e talvez, principalmente,

espaços sociais, amigos, amores e a realização pessoal.”

 

 

Fabrício Porto/ND
Pavesi diante da Biblioteca Pública Rolf Colin, onde trabalha, e ingressou por meio de concurso público, sem auxílio de cota para deficientes

 

Ao contrário do personagem Virgil, interpretado por Val Kilmer no filme “À Primeira Vista”, que ficou cego e precisou reaprender tudo, Osmar João Pavesi (fã do filme) não tem lembranças visuais além de vultos. Sua trajetória foi totalmente às cegas. “Tenho uma vaga lembrança de vultos e das cores primárias, mas só conheço formas por descrições ou pelo tato. Por um lado, foi bom, pois não tive o prejuízo de perder lembranças, e não enxergar foi um processo natural, que me obrigou a buscar a autonomia de que desfruto hoje”, diz, com a autoridade de quem se formou, buscou aperfeiçoamento e vem marcando seu lugar na sociedade.

Hoje responsável pela seção de braile e audiolivros da Biblioteca Pública de Joinville, Pavesi também dá aulas, presidiu a entidade que congrega os cegos da cidade, exercita sua vocação para o voluntariado e é um incansável batalhador pela acessibilidade e pela inclusão dos deficientes.

Caçula de três irmãos, todos cegos devido ao glaucoma, Osmar Pavesi nasceu em Vidal Ramos, em 1968, mas criou-se no bairro joinvilense do Boa Vista, onde a família se radicou. “Até hoje, sábado é dia de almoço na casa dos pais, com filhos, netos, genro e noras”, conta, destacando que o pai, depois de trabalhar na Tigre e na Tupy, foi um dos pioneiros no transporte escolar de cegos em Joinville. “Eu e meus irmãos estudamos numa sala especialmente cedida pelo Colégio dos Santos Anjos à Sociedade de Amparo à Criança, antes de passarmos ao ensino regular no mesmo colégio. Todos somos gratos à professora Aurélia Silvy, uma batalhadora, criadora da Ajidevi”, dá o crédito a Aurélia (Perfil em julho de 2012), que foi uma das fundadoras da Associação Joinvilense para Integração dos Deficientes Visuais e da Adej, a As­sociação dos Deficientes Físicos de Join­ville.

 

Divulgação/ND
Na biblioteca, recebendo crianças de um CEI

 

 

Do rádio para o serviço público

 

Formado no ensino médio em 1986, Pavesi foi ao mercado de trabalho, enquanto se decidia por uma carreira – o que demorou 18 anos. “Graças ao Nilson Gonçalves, na época dirigindo a Rádio Difusora Carijós, de São Francisco, consegui um horário dominical para produzir e apresentar um programa musical. Como me dei bem e consegui bons patrocínios, ganhei um espaço diário. Pegava o ônibus da Guaratuba todo dia, às 6h30, apresentando o programa das 8h ao meio-dia. A tarde era reservada para a busca por anunciantes, quase todos de Joinville”, relembra Pavesi, que ainda guarda cartas e cartões que recebia dos ouvintes.

Em 1990, teve uma rápida passagem pela Difusora de Joinville, antes de assumir como telefonista no Hospital Regional, onde fora aprovado em concurso (num tempo sem cotas para deficientes). Nos anos 90, exercitou o voluntariado, na paróquia do bairro e no CVV (Centro de Valorização da Vida).

Alguns anos depois, outra aprovação em concurso público o levou à Prefeitura, primeiramente na Fundamas e, desde 1997, na biblioteca. “Meu irmão Odair, jornalista, já havia trabalhado na biblioteca, e consolidei a formação do acervo em braile, iniciando também a prateleira de audiolivros.” Hoje, o setor contabiliza 410 títulos em braile e quase 500 audiolivros. Além da coordenação, a rotina de Osmar Pavesi inclui a digitalização de livros. “Como preciso ler de tudo, não elejo nenhum gênero como favorito”, salienta.

 

Divulgação/ND
De beca, com o diploma da faculdade de pedagogia em mãos: o início de uma jornada ampliada com pós-graduação e que o levou também para a sala de aula como professor de Libras

 

Há sete anos, Pavesi dobra a jornada de trabalho, como professor de Libras (Linguagem Brasileira de Sinais) e braile na escola mantida pelo Sesi. E aos sábados viaja por cidades da região, dando aulas de braile pelo Censupeg (Centro Sul-brasileiro de Pesquisa, Extensão e Pós-Graduação).

Como professor, Pavesi justifica a sensação de que tudo em sua vida foi acontecendo de forma natural. “Quando decidi voltar a estudar, em 2004, fiz a faculdade de pedagogia, seguida de pós em educação especial e inclusão. Hoje coloco a teoria na prática.” Ele acabou influenciando a mulher, Cibele: “Quando nos conhecemos, ela frequentava a biblioteca como aluna de direito. Formou-se, mas hoje cursa pedagogia e ensina Libras”.

Presidente da Ajidevi de 1993 a 1997, Osmar Pavesi ainda vê (com os olhos de quem sente) a necessidade de avanços na inclusão de deficientes. “Calçadas ruins e transporte deficiente não são exclusividades de Joinville, a realidade é brasileira. Aos próprios cegos, falta participar mais de atividades variadas, não se limitando ao que é proporcionado pela Ajidevi”, conclui, convidando a comunidade cega a conhecer o acervo da Biblioteca Pública.

 

Divulgação/ND
Vivendo e curtindo o melhor que a vida oferece: um passeio de caiaque em Porto de Galinhas

 

Aprenda Libras

Osmar Pavesi aproveita para anunciar o curso de Libras nível 1 do Sesi, que começou dia 18 e ainda tem vagas. Informações pelos telefones 47/3422-5054 e 9945-4969.


Presidente da Lecaj, Marta Pires Nunes, traz no sangue o amor pela maior festa popular do país

Dos bailes infantis florianopolitanos à promoção de eventos e à avenida Beira-rio de Joinville, ela se surpreendeu ao ser indicada para assumir a liga que congrega as entidades carnavalescas e topou o desafio
Luciano Moraes/ND
Marta no pavilhão onde as escolas preparam carros alegóricos e as fantasias para o desfile

 

Desde que vestia as fantasias de odalisca ou fadinha, nos bailes infantis dos florianopolitanos Limoense, Doze ou Lira, até a tensão que cerca os desfiles de rua da Joinville atual, a ligação de Marta Pires Nunes com o Carnaval tem sido profunda. “Minha família vivia intensamente o Carnaval, e isso ficou no sangue. Hoje, até por conta das obrigações do cargo, não dá mais pra ir a bailes ou desfilar, mas o Carnaval continua sendo uma época mágica, de muita empolgação”, dizia Marta, na manhã de quarta-feira passada, à sombra da grande figueira do Mercado Público, onde dias antes o público se animava em mais uma eleição da “corte” carnavalesca. Atual presidente da Lecaj (Liga das Entidades Carnavalescas de Joinville), Marta viveu, nos últimos dias, a agitação dos detalhes dos desfiles de rua, iniciados na sexta, e que terá o ponto alto nesta segunda, com as escolas de samba.

Marta Pires Nunes viveu em Florianópolis, onde nasceu há 58 anos (aniversariante de 4 de fevereiro, ainda mereceu um “Parabéns a Você” sábado passado), até os 19. Entusiasta de esportes, chegou a se formar em educação física. “Fiz a faculdade em Blumenau, terra do primeiro marido. Até dei algumas aulas, mas nunca cheguei a exercer de fato a profissão”, conta.

Na cidade do Vale do Itajaí, sentiu falta do calor carnavalesco da ilha. “Meus pais sempre me levavam aos bailes infantis de Carnaval. Também aprendi a sambar na avenida, pelas escolas de samba. Mas eu gostava mesmo era de assistir ao desfile das grandes sociedades, com seus ‘carros de mutação’.” Por isso, durante o período carnavalesco ela praticamente abandonava Blumenau por uma semana, curtindo a folia e os desfiles da Ilha. “Saía de Blumenau já fantasiada para o enterro da tristeza, na quinta-feira”, brinca.

 

Amor por Joinville, onde fixou residência

 

Em 1980 Marta fixava residência, pela primeira vez, em Joinville, onde trabalhou na Fininvest e na Furj (hoje Univille). “Pelo menos aqui tinha um Carnaval mais agitado que em Blumenau, com desfile de rua e bons bailes”, relembra. Três anos depois, porém, retornava ao Vale, pouco após a devastadora enchente de 83. “Trabalhei na Prefeitura, nos seis anos da gestão de Dalto dos Reis, um tempo de reconstrução da cidade. Vi o nascimento e consolidação da Oktoberfest.”

Com a experiência de ter também atuado numa empresa de eventos, em 2000 Marta retornava a Joinville, para trabalhar na implantação da Escola do Teatro Bolshoi. Em 2003 foi contratada pelo governo do estado, trabalhando na SDR; encerrada a gestão, permaneceu como assessora do senador Luiz Henrique da Silveira, ocupação atual.

Em 2006., Marta estava entre os fundadores do bloco carnavalesco Manda-Brasa, formado por correligionários e simpatizantes do PMDB. “Além do Manda, havia os blocos da Saúde, União Tricolor, Grefaloucos e Box 4. Graças ao empenho do então vice-prefeito Rodrigo Bornholdt, também presidente da Fundação Cultural, o Carnaval de rua joinvilense começou a renascer na gestão Tebaldi, tendo prosseguimento com Carlito e, agora, Udo”, comemora.

A retomada também exigiu um reforço na coordenação, com o fortalecimento da Lecaj. Envolvida cada vez mais na organização, Marta foi surpreendida em 2013, após uma reunião da qual não pôde participar, por motivos de trabalho. “Encerrada a gestão do Wilson Mira, foi escolhida uma chapa para sucedê-lo. Terminada a assembleia, vieram me comunicar a formação da chapa, com o meu nome na cabeça. Após me certificar de que houvera consenso, topei o desafio.” Neste sábado, durante o desfile das escolas de samba, Marta pode sorrir comemorando várias vitórias: “O Carnaval renasceu de vez na cidade, o desfile foi para o lugar certo, o povo prestigia, o poder público apoia, os sambistas e adeptos se envolvem... Valeu a pena a luta!”. Agora, Marta Pires Nunes não precisa sair em carreira desabalada rumo a Florianópolis para curtir o Carnaval.


Coordenadora do Museu Nacional do Mar de São Francisco do Sul, Marina Bruschi também é atleta

No mar, ela encontrou inspiração para a vida, e conseguiu unir esporte, lazer e profissão nesta paixão que começou bem no interior do Brasil, às margens do rio Cuiabá

 

Luciano Moraes/ND
Marina em seu trabalho no Museu Nacional do Mar, com maquete do cútter, restaurado no fim do ano passado por carpinteiros navais maranhenses

 

Os livros e as enciclopédias sobre navegações, o oceano, as marés, as fases da lua e a descoberta de terras pelo mar foram companhia da pequena Marina Bruschi na década de 1980. Nascida em Cuiabá, Mato Grosso, era lá do Centro-oeste brasileiro que ela olhava para o céu nas noites estreladas e sonhava com a imensidão e o azul do mar.

Quando criança, o contato mais próximo com a água era a pesca tradicional com o avô no rio Cuiabá. Os anos 80 ficaram para trás, a paixão pelo mar a fez pensar em ir para a Marinha, mas o objetivo foi perdendo força e o destino a levou para outros caminhos.

Os anos passaram, Marina se formou em artes plásticas, mudou-se para a capital paranaense em 2002 e a vida seguia cada vez mais perto do mar. A vontade de fazer uma especialização em sua formação a levou a São Paulo, em 2004. Após concluir o curso, retornou a Curitiba em 2007 e foi aí que seus laços com o mar começaram a se tornar cada vez mais estreitos.

Um barco de cerca de dois metros foi o empurrão que ela precisava para acordar e perceber que o sonho poderia se tornar realidade. Em um passeio com amigos pelo Litoral, pôde ver a montagem do barco. Mastro, vela, tudo parecia tão familiar, tão dela. Foi em Pontal do Sul (PR) que o mar se tornou sua casa.

A garota que lia enciclopédias sobre o imenso mar azul lá no interior do Brasil começava a dar forma ao sonho que carregou por toda a vida. As pesquisas retornaram com mais força e ela descobriu um mundo que precisava explorar. “O que eu queria sentir era a adrenalina que tanto via nos vídeos sobre vela e competição. Sim, eu senti e quero cada vez mais”, revela.

 

Divulgação/ND
As regatas hoje fazem parte da rotina de Marina

 

A primeira competição não demorou. Em 2008, Marina partiu para Santos. O objetivo era participar da Copa Citroen. Sua primeira competição, ainda como tripulante. As regatas se tornaram parte do dia a dia. Uma vez ao mês, ela participava da regata.

O mesmo barco que marcou o início de sua trajetória como velejadora foi o motor que a levou para a Semana de Vela de Ilha Bela. Foram dez dias de competição e ela mostrou que, mais que um sonho de infância, nasceu para o mar. “Usamos toda a bateria do barco com eletrônicos durante o dia e à noite não tinha nem para ligar luz de navegação. Como estávamos a uma distância considerável do retorno, não tinha como desistir da regata nem como ligar o motor, pois não tinha bateria para dar partida e tivemos que ir à vela (ou seja, no vento) até a chegada”, comenta. A imensidão do mar já rendeu boas histórias a Marina. Em Florianópolis, já teve que passar horas boiando, pois o vento cessou.

Hoje, com 30 anos, Marina é coordenadora do Museu do Mar de São Francisco do Sul e foi na cidade mais antiga de Santa Catarina que participou da mais recente regata, em dezembro de 2014, conseguindo o 2º lugar.

Marina coleciona vitórias, competições e amigos trazidos pelo mar. O patrono do Museu do Mar, Amyr Klink, é um de seus ídolos. Além dele, nomes como Lars e Torben Grael e a família Schurmann estão entre as pessoas que ela admira e acompanha o trabalho.

A felicidade em ver o crescimento da navegação é sentida a cada história contada, a cada vibração pelos colegas, a cada palavra. “Vibro muito quando temos brasileiros nas competições profissionais e olímpicas. Além disso, fico muito contente quando aparece em TV aberta uma reportagem falando dos nossos meninos e meninas da vela olímpica e alguma reportagem sobre a modalidade”, ressalta.

Das pescarias de lambari com o avô no rio Cuiabá, Marina conquistou muito mais do que sonhava. Para ela, o mar é extensão de casa, é dentro de um barco no oceano que se sente livre. “O mar é o nosso quintal sem fim.”

 

Divulgação/ND
Para ela, o mar é uma espécie de quinta de sua casa

Com dom para a arte, Paulo Sérgio Jindelt consolida carreira de ilustrador, uma vocação nata

Depois de anos de trabalho no meio publicitário, o profissional descobriu também talento para as artes plásticas
Luciano Moraes/ND
Jindelt em seu momento como artista plástico

 

A julgar pelo dom e pela empolgação com que sempre se dedicou às artes gráficas, até se poderia admitir que Paulo Sérgio Baêta Van Jindelt tenha sido rafeado e leiautado antes de chegar à arte-final – utilizando-se, neste caso, termos comuns em sua profissão, como “rafe” (do inglês “rough”, ou esboço) e leiaute (de “layout”, primeira versão do produto final). “Desde que fiz os primeiros cartazes para a igreja que frequentava no Rio, nunca me afastei das artes gráficas”, diz o artista, dando os retoques finais numa pintura, sua mais recente incursão na arte. Conhecido no meio publicitário joinvilense, Jindelt criou sua própria empresa nos anos 90, depois de passar por estúdios e agências locais.

Carioca, 54 anos, o artista deve o sobrenome aristocrático às origens europeias de seus ancestrais. “Meu avô paterno era holandês, mas depois a família acabou se radicando na Alemanha, onde o Van Jindelt acabou virando Von Indelt, como consta em alguns documentos”, explica. Ainda que tenha nascido em São Cristóvão, o time do bairro não o atraiu. “Primeiro, que era muito ruim; e depois, acabei escolhendo o Botafogo por causa do desenho do escudo, com a estrela branca”, justifica, demonstrando o precoce senso estético.

Fã dos personagens Topo Gigio e Recruta Zero, Paulo tinha um passatempo preferido quando criança. “Eu e os dois irmãos mais velhos ficávamos numa mesa, desenhando. Todos tinham o dom da arte. Devemos ter puxado meu pai, que era artista”, admite, mostrando as pinturas do pai que ornam a parede de seu estúdio.

O primeiro emprego foi como desenhista, na Adhonep (Associação dos Homens de Negócios do Evangelho Pleno), entidade ligada à Assembleia de Deus, da qual a família Van Jindelt é adepta. E estava prestes a mudar de emprego, quando a vida deu uma guinada em direção ao Sul. “Ia assinar contrato com a escola de línguas CCAA, para ser ilustrador, quando Joinville entrou na minha vida.” Tudo por causa de um par de olhos azuis.

 

Divulgação/ND
Esboços da abelhinha da rede de Lojas Salfer em diversos momentos, criação de Paulo Sérgio Jindelt

 

 

Carreira consolidada em Joinville

para onde veio em nome do amor

 

No início de 1987, Paulo Sérgio Jindelt estava em Curitiba, participando de um congresso da juventude evangélica. “No último dia do evento, pedi a uma bela loira de olhos azuis que desse uma olhadinha na minha bolsa, enquanto ia ao banheiro me trocar. Passamos o resto do dia juntos e no mesmo ano eu desembarcava em Joinville.” Paulo e Jasmine casaram-se em 1991 e têm duas filhas.

Logo que chegou, o carioca foi “apadrinhado” por Oswaldo Jeller, presidente da Eldorado Propaganda, que lhe arranjou emprego na Art&Fato, bureau de artes gráficas, como diagramador e arte-finalista. Logo também voltou às ilustrações, passou pela Matriz de Comunicação e pela sucessora Sine Qua Non até, em 1997, abrir estúdio próprio.

Sempre utilizou as mais diversas técnicas, como aquarela, pastel, bico de pena e acrílicas. Com a popularização dos computadores, embarcou numa nova carreira e começou a produção de artes digitais usando vários softwares. Desenvolve cartuns, storyboards, caricaturas, retratos, animações2D, ilustrações, informativos, folhetos, tiras de quadrinhos e gibis para as áreas de comunicação e propaganda e diretamente para empresas. Também cria personagens, ilustrações e cartuns para livros infantis. Como cartunista, é presença constante no Salão de Humor de Piracicaba.

Há alguns meses, nos intervalos entre os trabalhos do dia-a-dia, Jindelt enveredou por um novo campo, a pintura na técnica óleo sobre tela. “É uma experiência nova, que me abre também perspectivas profissionais. Na arte, sempre há mais para aprender”, conclui.

 

 

Serviço

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Chanceler, o Fino do Samba, trocou o Rio de Janeiro por Joinville e acabou criando raízes

Até o ano passado era mestre da Príncipes do Samba e agora estreia pela Diversidade, tocando repique e apoiando o filho
Carlos Junior/ND
Carlos Henrique Mello, maestro da bateria da Unidos pela Diversidade, e seu pai, Josimar Mello, o Chanceler: paixão em comum pelo samba, seja em escolas diferentes

 

Faltou pouco para Joinville deixar de ganhar uma família de sambistas, carnavalescos e bambambãs da bateria. “Voltei pra minha cidade quando vi que aqui não tinha Carnaval”, diz Chanceler, aclamado mestre de bateria. “Foi uma decepção constatar que não havia muito samba nem funk e que, ainda por cima, chovia pacas!”, arremata o filho Carlos Henrique. Em ambos os casos, felizmente, a impressão inicial se desfez assim que a cidade mostrou outros encantos. E o samba joinvilense conta hoje com dois mestres de bateria nota 10, além de um terceiro, Mazinho, igualmente envolvido com o Carnaval local e o francisquense – fora os que já nasceram por aqui e os tantos sambistas arregimentados ao longo dos anos.

Chanceler nasceu Josimar Mello, no último dia de 1969, na cidade fluminense de Campos dos Goytacazes. Neto e filho de sambistas, torcedor do Americano (hoje na série B estadual) e do Flamengo, ganhou o apelido na juventude, durante um show de funk, outra de suas paixões. “Um amigo – conta – me achou muito magricela. Segurando um Chanceler nos dedos, foi assim que me chamou, e o apelido pegou” (no anos 80, quando a propaganda de cigarros era liberada, ficou famoso o comercial do Chanceler, “o fino que satisfaz”).

Usando no dia da entrevista a camisa do bloco Os Psicodélicos, ao qual pertencia o pai, Chanceler chegou a Joinville em 1986, a convite de Jacila Barbosa, a “Mãe Jacila”, amiga e conterrânea. “A Jacila comandava o bingo do JEC e vim trabalhar com ela, vendendo cartelas, conferindo os números no sorteio... Era uma festa ver o Ernestão cheio em dia de bingo”, relembra.

Nove meses depois, retornou a Campos, onde havia deixado mulher e dois filhos: “Não dava pra aguentar viver numa cidade sem Carnaval”, justifica. Ainda passou oito meses no Rio, antes de retornar definitivamente a Joinville, em 88, para trabalhar na Renner. Desta vez, mulher e filhos vieram juntos. A eles juntou-se o caçula joinvilense Wesley, hoje com 14 anos.

 

CURIOSIDADE

Chanceler foi homenageado, em 2013,

com a Medalha Antônia Alpaídes,

principal comenda individual concedida

pela Câmara de Vereadores de Joinville.

 

 

Reunião com amigos para

assistir ao Carnaval pela TV

 

“Quando chegava o Carnaval, juntávamos um grupo de amigos, fazíamos churrasco e assistíamos ao desfile carioca pela TV”, relembra Chanceler. Baterista desde a infância, alcançou o posto de contramestre – atual diretor de bateria – na escola campista Mocidade Louca. Até que um dia, enfim, se tornou mestre: “O Geraldo me convidou para comandar a bateria do Unidos do Paulas, e estou lá até hoje, com os filhos”, detalha Chanceler, referindo-se a Geraldo Bernardo Aquilino, o Geraldo do Paulas (Perfil em outubro de 2011).

Um dos filhos, Carlos Henrique, por pouco também não desistiu de ficar em Joinville. Quando chegou, há 12 anos, pegou um verão típico local: “Como choveu naquele ano! Não foi fácil acostumar com o clima, os costumes e, especialmente, a falta de Carnaval e de funk”. Henrique, porém, assim como o pai, a mãe e o irmão mais velho, Jocimar (o Mazinho), acabou se habituando. Fez faculdade de administração na FCJ, casou-se com Carla (sobrinha da conterrânea Jacila) e há três anos viu nascer mais um sambista, Gabriel Henrique. Hoje trabalha como representante da Trimania, é voluntário no comando da fanfarra da E. M. Amador Aguiar, no bairro Adhemar Garcia, onde toda a família mora, mestre de bateria da escola de samba Unidos pela Diversidade e, com o clã Mello, sai pela Unidos do Paulas.

“Na retomada do Carnaval joinvilense, em 2009, formávamos um grupo reduzido. Nos primeiros desfiles, o pessoal da bateria terminava um e corria para trocar de fantasia e sair por outra escola. Hoje, felizmente, cada escola vem formando seu próprio elenco, graças ao crescente interesse demonstrado por cada vez mais gente”, comemora Chanceler, que até o ano passado era mestre da Príncipes do Samba e agora estreia pela Diversidade, tocando repique e apoiando o filho.

 

Reprodução/ND

 


Triplégica desde que nasceu, psicóloga Carol não vê limitações ao levar vida cheia de aventuras

Com coragem e inteligência ilimitadas, ela pratica esportes radicais e despreza as cotas para deficientes nos concursos públicos, onde sempre se dá muito bem
Luciano Moraes/ND
Carol na cadeira de rodas que tem mecanismos de stand up e movimentação do apoio dos pés: invenções do pai, Mário Cézar, para dar mais conforto à filha

 

 

“Ser feliz não está na condição

física de andar, pois muitas pessoas

andam e se sentem infelizes;

ser feliz está na condição de

superar barreiras dia a dia.”

 

Antes de fazer o primeiro vestibular, Carol, a exemplo de muitos jovens, pediu uma recompensa ao pai, em caso de aprovação. Nada de moto, carro, iPhone ou qualquer outro bem material. Ela pediu algo menos palpável e mais de acordo com sua personalidade competitiva: um salto de paraquedas. Passou fácil no vestibular e adicionou o voo à coleção de desafios radicais, que já incluía bungee jump, rapel e rafting.

Até aí, nada muito incomum para uma jovem; isso se Carolina Beiro da Silveira não fosse deficiente física. “Nasci aos sete meses de gestação, e a falta de oxigênio no parto provocou uma triplegia: tenho pouca mobilidade na mão esquerda e paralisia total nas pernas. Minha vida tem sido um desafio constante contra as limitações e pela inclusão”, conta Carol, psicóloga no Instituto Federal Catarinense - câmpus Araquari, onde começou há uma semana, após ser aprovada em terceiro lugar em concurso público (sem cota para deficientes, numa concorrência de 90 por vaga).

O cérebro privilegiado – e bem utilizado – é outra característica de Carolina, que só cursou escola especial nos quatro primeiros anos do ensino fundamental. Filha de joinvilenses, nasceu em Manaus em 1987, quando o pai, arquiteto, trabalhava por lá. Tinha quatro anos quando a família mudou-se para Belo Horizonte. “Fomos em busca de tratamento, já que nasci triplégica e na capital mineira havia hospital de referência”, esclarece, referindo-se a uma unidade do Hospital Sarah Kubitschek.

O adoecimento do avô materno trouxe a família de volta a Joinville, e Carol foi estudar no Elias Moreira. A essa altura, já havia passado da bengala para a muleta e desta para a cadeira de rodas. No Elias, despertou outro dom, a arte. Mesmo com as limitações de movimento da mão esquerda, dedicou-se à escultura.

 

Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
Carol em salto duplo de paraquedas na Praia Mole, na Capital: presente por passar no vestibular

 

 

Os desafios dos esportes radicais

 

“Nos colégios em que estudei, nunca pedi dispensa das aulas de educação física. Enquanto os colegas se exercitavam, eu estudava a teoria dos esportes”, frisa Carol, que até chegou a brincar de goleira, jogando sentada. “Então, cada time tinha 12 jogadoras e duas goleiras, uma sentada e outra em pé”, detalha. Aos 8 anos resolveu praticar esporte de verdade, ao ver uma instalação de bungee jump num shopping. “Foi a primeira experiência, e vi que podia superar mais esse desafio.”

Seguiu-se a dança, e na capital mineira ainda está em atividade o grupo de dança inclusiva Crepúsculo, fundado por ela. Já em Joinville, criou o grupo Segue, conhecido do público do Festival de Dança.

 

Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Carol criou coreografia para o grupo de dança Segue, que criou em Joinville

 

Em Santa Catarina, Carol descobriu o parapente, o rafting e o mergulho, até culminar com o salto de paraquedas (foram dois, pois uma emissora de TV pagou um segundo salto, para filmá-la). “Os esportes radicais, além se ser uma válvula de escape para o estresse, são para comemorar alguma etapa vencida, como formaturas”, acrescenta, revelando sua intenção de voltar ao bungee jump, mas agora saltando de alguma estrutura mais alta que a parede de um shopping.

Disposta a fazer carreira profissional, em 2010 Carolina formou-se em psicologia pela ACE (Associação Catarinense de Ensino); três anos depois, concluía tecnologia e processos gerenciais pela Sociesc, emendando pós-graduação em saúde mental e atenção psicossocial.

Aprovada em três concursos públicos, optou pelo IFC em Araquari. Para se deslocar, vai de casa até o terminal Vera Cruz na cadeira de rodas motorizada, e lá pega um ônibus até o trabalho. Obstáculos não faltam: “Daqui até o terminal sou obrigada a rodar pela rua, pois não há um metro sequer de calçada”, esclarece, ressaltando que, de acordo com pesquisas, Joinville é uma das cidades que mais perderam calçadas nos últimos anos.

“Minha história de vida – conclui Carolina – é marcada por estas vitórias educacionais, emocionais, sociais, de saúde e melhoria na independência cotidiana devido ao apoio e incentivo que sempre tive dos meus pais, que me transmitem a cada dia coragem, força e fé para tornar mais inclusiva à sociedade em que vivemos.”

 

Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
Com os pais, na formatura do curso de psicologia: apoio constante

Bernadéte Schatz Costa transformou sua brincadeira preferida de criança em carreira bem-sucedida

Assessora de direção do Bolshoi tem uma editora própria e muitos planos para seguir na literatura. Sua obra "A Dança que Encanta Criança" é uma das mais vendidas entre os escritores catarinenses em 2014
Luciano Moraes/ND
Brincando e organizando a biblioteca do pai, Bernadéte descobriu os grandes clássicos e decidiu escrever os seus próprios livros, alguns manuscritos na adolescência

 

Há meninas que brincam da forma mais tradicional, de boneca, casinha etc. Outras, demonstrando alguma vocação – geralmente puxando à mãe – curtem “dar aulas” para as bonecas ou as amiguinhas. Mas Detinha gostava mesmo era de bancar a bibliotecária. “Eu adorava brincar de biblioteca com minha irmã mais velha. Chegamos a catalogar todos os livros do meu pai. E meu lugar preferido no colégio era a biblioteca, onde tomei contato com os grandes clássicos brasileiros e mundiais.” Tanto apreço pela leitura consolida-se hoje em dois livros já lançados e dois em gestação, assinados por Bernadéte Schatz Costa, atual secretária-executiva da Escola do Teatro Bolshoi e da Associação Confraria das Letras de Joinville.

Nos cadernos de anotações zelosamente guardados, Bernadéte mostra os poemas manuscritos na adolescência, devidamente datilografados, ilustrados por desenhos abstratos feitos de próprio punho. Ela relembra os tempos da infância passados em Blumenau, onde nasceu há 53 anos e passou a maior parte da vida.

“Meu pai ficava lendo na varanda, horas a fio, e nos contava sobre suas leituras. Um dia, trouxe uma caixa enorme, com uma enciclopédia, e ali se acendeu a faísca do meu gosto pela leitura.” A figura paterna ainda é motivo de muita emoção. “Meu pai faleceu muito cedo, mas foi um exemplo de vida pra mim. Pra dar estudo para os filhos, chegou a vender frutas na rodovia. Estudou, fez mestrado e foi professor universitário.”

Depois de fazer o ensino médio com formação em secretariado, Bernadéte chegou a cursar dois anos da faculdade de enfermagem, sem se convencer do acerto da opção. Engravidou, casou-se, trabalhou em estúdio fotográfico e numa empresa de eventos, teve seu próprio comércio, separou-se e, em 2000, foi contratada pelo Bolshoi.

 

 

“Os livros são um grande portal,

e ao lê-los temos a oportunidade

de nos transportarmos para o

mundo do conhecimento.”

 

“O Bolshoi vem sendo ótima experiência. Como secretária-executiva e assessora da direção e do presidente, tenho a oportunidade de exercitar tudo que aprendi, especialmente no esforço diário de manter um padrão nos procedimentos”, afirma, antecipando que está em seus planos fazer uma pós-graduação na área de marketing.

Formada em pedagogia pela Udesc, em 2005 exerceu o magistério no breve período em que ficou fora do Bolshoi: “Em 2006, dei aulas de secretariado na Univali e num colégio particular em Itajaí. Mas no ano seguinte estava de volta ao Bolshoi, convidada pelo doutor Valdir Steglich”.

O ofício de professora acabou sendo seguido pela filha Pollyanna – batizada em homenagem à personagem literária da escritora Louisa May Alcott. O primeiro trabalho impresso de Bernadéte Schatz Costa foi uma série de quatro apostilas, escrita para o curso de secretariado que deu em Itajaí. “Essas apostilas – antecipa – serão transformadas num dos meus próximos livros, sobre a arte da assessoria, um guia prático para secretários.”

Em 2011, enfim, os poemas escritos desde a adolescência ganharam edição e chegaram ao público na forma do primeiro livro de Bernadéte, “Sonhar, Escrever e Viver”. No mesmo ano, participou da fundação da Confraria do Escritor de Joinville, seguida algum tempo depois pela Associação Confraria das Letras.

O segundo livro, lançado no ano passado, foi a obra infantil “A Dança que Encanta Criança”, onde reúne as paixões pela literatura e pela dança, despertada na convivência com os alunos do Bolshoi. Neste ano, o livro vai ganhar um segundo volume. “Desta vez, vai ter um menino na capa, para mostrar que a dança não é coisa só de menina, ainda que elas sejam maioria.” Bernadéte também tem uma editora, pela qual lançou quatro obras.

 

Luciano Moraes/Reprodução/ND
Bernadéte aos 6 anos, em um evento do jardim de infância, representando as profissões de Santa Catarina como mineira de carvão

Neto Stenger, nascido Emílio, fez da guitarra uma companheira inseparável e sua profissão

Ensinar música virou vocação para profissional que tem paixão pelo instrumento musical desde a adolescência
Fabrício Porto/ND
Neto em seu estúdio: profissionalismo que é resultado de muita paixão e persistência

 

 

Histórias de pessoas que trazem a música no código genético, daquelas que não têm a menor dificuldade em aprender a tocar instrumentos e tirar qualquer acorde durante o pagode na varanda – enquanto outros mal balbuciam algum refrão –, são comuns. Mas nem todas significam um roteiro profissional. No caso de Emílio Stenger Neto, significou: “Desde que aprendi a tocar o primeiro instrumento, o cavaquinho, senti que o meu futuro estava ligado à música”. E isso foi bem cedo, pois Neto ainda era criança quando uma irmã lhe ensinou os primeiros acordes.

Essa história musical começa em 1970, em Rio do Oeste, quando nasceu o sexto e último filho dos Stenger, batizado com o nome do avô Emílio. “Eu tinha dois anos quando a família mudou-se para um sítio em Umuarama, no Paraná. Meu avô tocava bandoneon, meus pais e quase todos os irmãos tocavam algum instrumento ou cantavam, e cresci cercado de música. Ninguém tinha teoria, todos aprendiam de ouvido.” Foi assim que também Neto aprendeu, logo após o cavaquinho, a tocar violão.

 

Com a guitarra, uma carreira

e a chance de ganhar dinheiro

fazendo o que gosta

 

Em 1985, os Stenger chegavam a Joinville, estabelecendo-se no bairro Fátima. A mudança serviu para que Neto realizasse um sonho: “Eu queria aprender a tocar guitarra, influenciado por Beatles, Jimmy Hendrix, Pink Floyd... Depois de muito namorar as guitarras expostas na vitrine da York, ganhei enfim a minha”. Não foi difícil aprender a tocar o instrumento, e em pouco tempo Neto já tocava nos cultos da Assembleia de Deus e dava aulas para um vizinho. Aos 18 anos, enfim, começava a ganhar dinheiro com sua paixão, trabalhando na escola de música Sonarte, onde conheceu o maestro Jeremias dos Santos, que muito o incentivou.

Sonhando conhecer de perto os baluartes brasileiros da guitarra, Neto buscou aperfeiçoamento, formou-se em música pela faculdade a distância Unimes, polo de Rio Neginho, e começou a montar bandas. “Cheguei a formar 17 grupos musicais, e um dos locais preferidos para tocar era o Cais 90”, relembra, acrescentando uma passagem pela Orquestra Filarmônica de Joinville, sob a regência do maestro Tibor Reisner. Logo começou a firmar o nome no meio musical joinvilense, e em 2001 gravou um CD solo, com patrocínio do Simdec.

Em 2004, enfim, já brilhando como Neto Stenger, abriu sua própria escola, numa sala alugada na rua 15 de Novembro. Seguiram-se endereços no Shopping Floral e na rua João Colin, até que, há dois anos, instalou sua Academia de Guitarra e Tecnologia Neto Stenger na rua Alexandre Schlemm, no Bucarein. Além de ensinar, Neto costuma promover workshops na cidade, trazendo guitarristas de renome internacional, como seu ídolo Kiko Loureiro. “Para este ano – antecipa – já tenho programado um workshop com o norte-americano Joe Satriani.”

Na escola, cerca de 300 alunos aprendem técnica vocal, teoria musical e instrumentos como violão, bateria e, claro, guitarra. Do time de 11 professores fazem parte virtuoses da guitarra, como Menderson Madruga e Bruno Simas, e Débora, a mana que ensinou os primeiros acordes no cavaquinho. Neto utiliza guitarras da marca Tagima, da qual é “endorser” (patrocinado).

Para quem quer aprender, ele garante que o dom agrega, mas não é vital: “O aprendizado é 10% dom e 90% transpiração, dedicação e muita prática. A música deve ser vista, acima de tudo, como terapia”. Sobre sua carreira, ele resume: “Estou nessa posição de destaque graças a muita luta, persistência, garra e fé”. Ingredientes que ele espera estar passando para o filho Bruno Mateus, 6 anos, já demonstrando na bateria que é fruto do mesmo pé.

 

Fabrício Porto/ND
"Senti que o meu futuro estava ligado à música"

 

Serviço

AGT Neto Stenger

Rua Alexandre Schlemm, 257, Bucarein

Telefone 3439-3203

Facebook Neto Stenger

 


A alemã Annette Stockhammer já morou na África e na Amazônia. Hoje, escolheu Barra Velha

Aos 51 anos, ela traz na bagagem experiência de vida em três continentes, dezenas de países e também por vários estados brasileiros, e muitos sonhos a realizar
Foto e reproduções Germano Rorato/ND
Endereço atual. Depois de rodar por 26 países, Annette hoje mora em Barra Velha, no Litoral Norte catarinense, onde estuda e acalenta o sonho de conseguir uma vaga na BMW

 

 

Os passos de Annette Stockhammer são marcados pela dificuldade e por um cloc-cloc, denunciando o problema que a acompanha desde criança. “Nasci sem a cabeça do fêmur, já fiz uma cirurgia, mas preciso me adaptar ao problema”, diz, caminhando pela beira da lagoa de Barra Velha, onde mora. Desafios não faltaram na vida dessa alemã, nascida há 51 anos em Kropstadt, no lado de lá do muro que então separava os setores ocidental e oriental do país. “Nasci no mesmo hospital em que Martinho Lutero esteve preso, no castelo de Wittenberg”, historia Annette, referindo-se ao período em que o fundador do luteranismo ficou detido, em 1522, acusado de heresia.

A vida na então Alemanha Oriental não era fácil, e a família Stockhammer também sonhava com dias melhores. “Meu pai, austríaco, era grande artista e ficou seis anos planejando a fuga para a Áustria. Neste período, nasceram quatro filhos, sendo eu a caçula. Fugimos num DKW, no dia 6 de junho de 1966.”

Não demorou, porém, para que a família fosse delatada, obrigando a nova fuga. O local? “Meu pai pegou um mapa mundi, fechou os olhos, girou a mão e apontou. O dedo pousou sobre o Oeste da África.” Assim, dirigindo um velho Opel, lá se foram os Stockhammer rumo à costa norte do Mediterrâneo. Embarcaram como clandestinos num navio polonês, até chegar ao destino final, Acra, capital de Gana, no golfo da Guiné. Ali, ficaram dois anos e meio.

Annette já convivia com o problema físico, que dificultava seus movimentos. “Cheguei a ser operada ainda na Alemanha, mas a deficiência não foi resolvida”, conta, apalpando a parte superior da perna esquerda, onde uma cavidade revela a falta da cabeça do fêmur. Em Gana, além do calor, a família precisou enfrentar situações inusitadas. “Meu pai, Walter, um grande artista (pintor), precisou se submeter ao duro trabalho de abrir estradas pelo interior. Um dia, levou minha mãe junto. Foi a primeira e última, pois um chefe tribal queria trocá-la por uma vaca e oito mulheres.”

 

A família, ainda na Alemanha

 

Retrato de Abraham Lincoln permitiu atravessar o Atlântico

 

O dom artístico do pai de Annette permitiu que a família, enfim, deixasse a África. “A embaixada dos Estados Unidos pagou 1.500 dólares a ele, por um retrato de Abraham Lincoln. Juntando este dinheiro às economias, viemos para o Brasil”, conta Annette. Afiada nas datas, ela recorda: “Chegamos no dia 11 de julho de 1971 ao Rio de Janeiro. Moramos cinco anos em Curitiba, depois Petrópolis, novamente Curitiba e, em 1981, fomos para Roraima, numa viagem que demorou 40 dias. Meus pais já estavam lá, numa fazenda no interior, mas eu preferi ficar na capital, Boa Vista, trabalhando como técnica de laboratório”.

O relato de Annette passa por uma volta ao Sul, passagens por diversas cidades, casamento, a perda de uma filha de dois anos, trabalho no consulado brasileiro em uma cidade venezuelana, separação e outras peripécias. “Um dia, morando na região do garimpo na Amazônia, estava na beira do rio lavando roupa, com uma filha pequena, quando uma onça apareceu. A sorte é que ela estava saciada, só queria tomar água.”

Falando fluentemente alemão, inglês e espanhol, Annette trabalhou como tradutora, teve dois filhos na Venezuela e três no Brasil, divorciou-se e há três anos mora em Barra Velha, onde o pai chegou em 2003 (ele morreu em 2011. A mãe, vive no Mato Grosso do Sul). “Já trabalhei vendendo empadas e outros salgados que eu mesma faço. Também é procurada para aulas de idiomas.

Encostada pela Seguridade Social há 11 anos, Annette aguarda a oportunidade de fazer mais uma cirurgia, esperançosa por voltar ao mercado de trabalho. Neste ano, se forma em secretariado executivo pela Uninter, polo de Joinville. Depois de passar por 26 países e diversas cidades do Brasil, seu sonho é mais próximo: “Desejo me formar e trabalhar na BMW, em Araquari”.

 

Outro momento familiar, já no Brasil

 

Curiosidades de além-mar:

 

Ao pé da letra

Quando morava em Gana, Annette percebeu que os nativos entendiam tudo literalmente. “Um dia, minha mãe pediu a um empregado que depenasse e limpasse uma galinha, guardando-a na geladeira para preparo no dia seguinte. Ele depenou, limpou e guardou a galinha na geladeira. Viva! Alegou que ninguém pedira que matasse a ave.”

 

 


Louri Marcial de Avis, o Jaca, é o mais antigo tatuador de Joinville ainda em atividade

Desde que fez a primeira tatuagem na própria pele, com um palito de dente, sabia que este seria um caminho sem volta
Luciano Moraes/ND
Com o filho Lincoln, ele tem a garantia de continuidade do ofício, enquanto ambos continuam se colorindo um ao outro: marcas de uma vida

 

“Desde que o Armin Kaesemodel se aposentou, passei a ser o mais antigo tatuador de Joinville ainda em atividade. E não pretendo parar tão cedo. Sempre tem mais a aprender.” Enquanto fala, o profissional leva uns 15 minutos tatuando no braço de uma jovem o nome do amado. “É pra vida toda”, garante a cliente, resumindo o espírito da tatuagem, arte de Louri Marcial de Avis. Quem? “Olhe, acho que só o pessoal do crediário das lojas sabe meu nome de batismo”, brinca Jaca, hoje um nome de referência no mercado da “tattoo”.

O próprio apelido original, por sinal, é desconhecido da maioria dos clientes e amigos deste francisquense nascido há 56 anos. “Na verdade – explica – o meu apelido era Jacarezinho, pois meu pai era o Jacaré. Com o tempo, as pessoas abreviaram pra Jaca e pegou.” Pois foi quando Jacaré pai conseguiu emprego na Tupy, em 1962, que a família se estabeleceu em Joinville, no Boa Vista. Jacarezinho fez o primário no colégio Heriberto Hülse, mas aos 13 anos já precisou encarar o mercado de trabalho, assinando carteira na Wetzel. “Trabalhei desde cedo, vendendo picolé e pastel de banana que minha mãe fazia. Fui cobrador na Transtusa, servente de pedreiro... Todos os cinco filhos precisavam ajudar meu pai no sustento da família.”

Sem condições de concluir os estudos, Jaca fez apenas um curso de mecânico ajustador no Senai, o que foi útil nos empregos seguintes, na Tupy e na Embraco. Dois casamentos deram-lhe cinco filhos e muita responsabilidade.

 

 

Luciano Moraes/Reprodução/ND
Recordação. Jaca trabalhando, há 23 anos

 

 

"Se falar em tatuagem, apanha!",

ele ouviu do pai, aos sete anos

 

O primeiro contato de Jaca com a tatuagem não deixou boas lembranças. “Eu tinha uns sete anos quando vi pela primeira vez um homem tatuado. Fui perguntar pro meu pai como as pessoas faziam aqueles desenhos na pele. Ele avisou que se eu tornasse a tocar no assunto apanharia. Deixei pra lá...”

Mas a imagem do homem tatuado ficou guardada numa gaveta do subconsciente.

Adulto, Jaca trabalhava na Embraco quando decidiu imprimir uma marca em si mesmo. Ele conta: “Usei palito dental e tinta nanquim pra tatuar um tubarão no braço. Levei umas quatro horas fazendo furinho por furinho”. Desgastado pelos anos, o desenho hoje está coberto por novas imagens, que praticamente cobrem os braços, pernas, torso e costas.

Empolgado, deixou o emprego, aplicou as economias em equipamentos e abriu seu primeiro estúdio, no bairro Adhemar Garcia. Ele ainda se recorda da primeira tatuagem feita profissionalmente, há décadas: “Foi uma nuvem com raios, nas costas de um cliente”.

Desde então, foi se aperfeiçoando, modernizando o estúdio e, há 24 anos, ocupa uma sala numa galeria comercial na travessa Norberto Bachmann, no coração da cidade. Há sete anos Jaca trouxe para o estúdio o filho Lincoln, 29. “Aprendi tudo que sei com meu pai, um excelente profissional”, elogia o também modelo, exibindo os desenhos que o pai espalhou pelo seu corpo.

“A dor simboliza a opção definitiva que a pessoa faz. É parte do processo”, comenta Lincoln, justificando a ausência de anestesia na aplicação. De fato, a jovem que pediu o nome do amado no braço nem pisca enquanto o aparelho a laser vai delineando o desenho, arrematado com um coração. “Mas sempre destacamos a perenidade da tatuagem. Até dá pra desfazer, mas é muito mais dolorido, demorado e caro”, arremata Lincoln.

Não faltam excentricidades e situações inusitadas, como de mulheres pedindo aplicação de piercings em partes íntimas, ou do cliente com um raro caso de despigmentação na bolsa escrotal. “Somos profissionais. Prezamos a arte, mas respeitamos acima de tudo a saúde dos clientes”, finaliza Jaca, do alto da reputação construída ao longo de mais de 30 anos – e com a garantia de continuidade, pelo menos por mais uma geração.

 

Reprodução/ND
Em 1993, ele já se destacava e trazia para Joinville o troféu de primeiro lugar de encontro de tatuadores no Rio de Janeiro

 

Serviço

Jaca Tattoo e Filho

Endereço: travessa Doutor Norberto Bachmann, 147, Sala 301 B, Centro

Também atende em domicílio

Contato: 47/9995-3846 (Jaca) e 9904-4078 (Lincoln)

 

 


Deficiente auditiva, Josefa Martins aprendeu a vencer desafios para conquistar seu espaço

Quem conhece seu trabalho no Centro de Convivência do Idoso Eudócio da Silveira, em Joinville, costuma dizer que ela ouve com o coração
FOTO E REPRODUÇÃO FABRÍCIO PORTO/ND
Concursada, Josefa trabalha no Centro de Convivência do Idoso Eudócio da Silveira, ligado à Secretaria de Assistência Social de Joinville

 

 

“Às vezes, o pessoal daqui se assusta com o barulho, mas isso acontece quando estou atendendo algum idoso com deficiência auditiva. Ele não ouve direito, nem eu, então acaba virando gritaria.” O relato, sempre acompanhado do franco sorriso, é de quem se acostumou, ao longo da vida, a tratar a deficiência física como um motivo a mais para dar tudo de si. Convivendo com a surdez desde os seis anos de idade, hoje, aos 57, Josefa Jesuína Santiago Prates Martins tem uma filosofia: “Procuro ser sempre a melhor no que faço, estudando e buscando aprender mais”.

Nascida na pequena Nova Granada, município do Oeste do Estado de São Paulo, Josefa fechou a prole de uma dúzia de filhos de uma família migrante do interior baiano. “Meu pai era ferreiro e produzia material de cutelaria. Trabalho não faltava numa região onde carroça e cavalo eram meios de transporte usual nos anos 40”, conta ela, que aos 16 anos, com a morte da mãe, tornou-se responsável pelos seis homens da casa - o pai e cinco irmãos. Por isso, interrompeu os estudos após concluir o ensino fundamental.

A essa altura, enfrentava as agruras da deficiência auditiva. “Tive uma infecção grave no ouvido direito, que acabou atingindo o esquerdo. Os desafios começaram na escola, sentando na primeira fila para ver os professores falando”, relata, destacando a capacidade que desenvolveu para fazer leitura labial.

Casada, foi morar em Itumbiara, interior goiano, em função do trabalho do marido, em usinas hidrelétricas. Lá nasceram os filhos Wender e Melissa, até que a usina de Itaipu levou a família à paraguaia Ciudad del Este e à paranaense Foz do Iguaçu. Com os filhos na adolescência, ela decidiu voltar ao mercado de trabalho. Para isso, faltava mais estudo. “Fiz cursos técnicos e datilografia e trabalhei na Santa Casa de Misericórdia e na Associação Comercial e Industrial de Foz, onde cheguei a secretária executiva.”

Ali, precisou encarar o preconceito triplamente: “Era mulher, surda e a única não graduada chefiando um grupo de pessoas formadas em faculdade”. Acabou demitida, entrou em depressão e fez da adversidade a mola que a impulsionou. “Matriculei-me no segundo grau na mesma escola dos meus filhos, convivendo com os adolescentes. Como sempre fui agitada, impaciente, liderei movimentos reivindicatórios, fundei o grêmio estudantil e a associação de pais e mestres.”

 

FILOSOFIA DE VIDA DE JOSEFA

 

“Ser feliz e sorrir sempre

em qualquer situação. Afinal,

Deus está no comando de sua vida.”

 

Hora de fazer faculdade. “Optei por serviço social, pensando em colocar minha impetuosidade a serviço dos outros. Pra ajudar a pagar o curso, vendia quibes, o que acabou virando fonte de renda extra.” Formada em 2007, assumiu como assistente social na Prefeitura de Foz, onde já era estagiária.

Ainda insatisfeita, Josefa viu nos concursos públicos a oportunidade de melhorar de vida. “Estudei muito, era comum ficar até 4 da madrugada enfurnada em livros e apostilas. Dormia até 6 e meia e ia trabalhar.” Valeu o esforço: de dez concursos públicos, passou em cinco. Detalhe: apenas dois deles na cota de deficientes.

O destino escolhido foi Joinville: “Fui atraída tanto pelo salário, quanto pela proximidade com as praias”. Em 2010, trabalhou no Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), passando no ano seguinte para o Centro de Convivência do Idoso Eudócio da Silveira, ligado à Secretaria de Assistência Social. Fez também um curso de teologia, foi nomeada pastora auxiliar na Igreja do Evangelho Quadrangular (a titular é a vereadora Maria Leia Hostim Rocha, a Pastora Leia).

Com a experiência de ter enfrentado muitos desafios, Josefa tem uma receita simples: sorrir sempre. Assim, rindo e olhando o interlocutor fixamente, ela é feliz, fazendo do coração os ouvidos.

 

 

Formatura da faculdade, em 2007

 


Cantora e professora, a joinvilense Rafaela Antonioli acredita que o dom musical nasceu com ela

A menina que nasceu cantando hoje se realiza profissionalmente ensinando a técnica a alunos de diferentes idades, além de fazer seus shows pelos palcos da vida
Divulgação/ND
Rafaela fazendo uma das coisas que mais lhe realizam: cantar e cantar

 

Claro que o primeiro som emitido foi o choro limpa-pulmões, como todo bebê. Porém não seria exagero supor que o berreiro de Rafaela Antonioli ao nascer, há 27 anos, tivesse timbre, afinação e outras características musicais. “Meus avós maternos cantavam na igreja e minha mãe, além de cantar, é multi-instrumentista. A música estava correndo nas veias”, admite Rafa. Em pouco tempo de vida, ela já passou por experiências como morar fora do país, casar, ser mãe, trabalhar, ficar desempregada e ralar muito, até ver o nome se destacar no meio musical joinvilense, cantando, tocando e ensinando.

“Com cinco anos de idade aprendi a cantar e a tocar flauta-doce, com professores da Igreja do Evangelho Quadrangular, da qual minha família é adepta”, conta Rafaela, dando o devido crédito aos mestres Zuza e Marcelo. Eles, depois da mãe e dos avós, perceberam o talento da menina e começaram a lapidá-lo, antevendo uma possível profissional.

O aprendizado teve continuidade na Medinah Middle School, em Chicago, nos Estados Unidos. “Morei lá dos nove aos 14 anos, e naquele conservatório aprendi a tocar flauta transversa. Na época, tanto pela idade como pelo ambiente norte-americano, meu gosto musical passava pelo rap e pelo hip-hop. De música brasileira, sabia apenas alguma coisa pela minha mãe, admiradora de MPB.”

 

Divulgação/ND
Embaixo, a segunda à esq., com a turma da escola de música em Chicago

 

 

Início de carreira em Joinville

 

De volta à cidade-natal, Rafaela concluiu o ensino médio, iniciou e interrompeu a faculdade de psicologia e foi à luta. Ao que ganhava em empregos formais, acrescentava a renda extra da música: “Cantava em festas, casamentos e eventos. Comecei então a me identificar com pop rock e outras vertentes, adaptando-me ao gosto de quem me ouvia”.

Em 2010, aceitou convite de amigos e entrou na formação do grupo Moendo Café, dedicado ao chorinho e ao samba. “Em 2011, assinei o projeto que enviamos ao Simdec chamado Samba na Estação. A partir daí, o samba despertou em mim, influenciada por Betinho e Dentinho, entre outros.” Também não faltou uma rápida experiência nos palcos de bailes. “Durante três meses substituí a cantora da Manchester Band, e pude sentir a canseira que é tocar em bailes.”

Com o instrumentista Guto Machado, Rafa formou uma dupla de violão e voz, tocando em eventos e shoppings. “Passei a estudar o samba de raiz, decidida a me aprofundar nesse gênero.” Em 2012, conheceu o maestro José Melo e o professor Tobias, que acabou levando-a para a escola de música Arte Maior, como professora de canto. “Adoro o trabalho de ensinar. A Kátia, dona da escola, é uma pessoa maravilhosa, e mantém o equilíbrio e o profissionalismo exigidos na atividade.” Entre os cerca de 40 alunos que ensina hoje, com idades dos oito aos 80, Rafa percebe uma característica: “A maioria busca o aprendizado do canto como uma forma de se distrair, de aperfeiçoar um hobby, não necessariamente procurando formação profissional. É muito comum pessoas aposentadas se matricularem para ter uma ocupação, preencher o tempo. Nunca é tarde para aprender.”

Do primeiro casamento, com um músico, Rafaela tem Victor Hugo, seis anos. Há dois anos ela uniu-se a Ítalo Puccini, professor de português e escritor, autor da biografia do avô, Vilmar Puccini, goleiro dos áureos tempos do Caxias. “Deve ter uns 1.000 livros aqui atrás”, comenta Rafa, apontando para a estante que toma boa parte do apartamento do casal, no Anita Garibaldi.

“Não faço muitos planos a longo prazo. Atualmente, penso no show que está sendo produzido para o meio do ano, com a temática ‘desde que o samba é samba’”, antecipa, olhar fixo no infinito, enquanto aos seus pés a cadelinha Clara Nunes pede um chamego.

 


Facilidade em aprender línguas levou o poliglota Marcelo Gonçalves a se especializar em traduções

Ele transformou a habilidade e a paixão por idiomas em profissão e, graças a ela, percorre o mundo e atua como tradutor recebendo estrangeiros em eventos e em visitas a empresas
FOTOS ARQUIVO PESSOAL/DIVULGAÇÃO/ND
Marcelo Gonçalves no Royal Albert Hall, em Londres, onde trabalhou como tradutor simultâneo em uma conferência internacional com mais de 4.000 pessoas

 

Talvez Marcelo Siqueira Gonçalves não tenha pronunciado “gu-gu dá-dá” com sotaque, mas não seria espantoso, tal é sua paixão pelo estudo de idiomas. Desde o primeiro curso de inglês, em fascículos e fitas cassete, até hoje, dominando vários idiomas, fez carreira profissional e montou uma empresa de traduções. Entre seus trabalhos está a tradução da Bíblia do grego para o português e a edição de um manual de português para haitianos.

Hoje morando em Rio Negro, cidade paranaense vizinha de Mafra, o tradutor nasceu há 43 anos em São Francisco do Sul, mas criou-se no Boa Vista, em Joinville. “Meu pai morreu quando eu tinha sete anos, e minha mãe lutou para criar dois filhos. Comecei a trabalhar dois dias depois de completar 14 anos, na Ciser, e sou grato à empresa pela oportunidade e por tudo o que aprendi lá dentro e que carrego para a vida. Tive que pagar meus estudos e ajudar a colocar comida em casa para a minha mãe e irmã. Mas sempre sobrava tempo pra bater uma bolinha no ‘barreiro’ do Boa Vista.”

 

Divulgação/ND
Acompanhando estrangeiros e facilitando a comunicação

 

O início, com os missionários

 

A formação profissional começou no dia em que comprou um curso de idiomas numa banca. "Eu fazia as lições e ouvia em fitas K7. Mais tarde, fiz a Cultura Inglesa, onde fui daqueles alunos-prodígio, resolvendo as coisas rápido, na hora. Não fazia muito as tarefas, mas nas avaliações sempre me dava bem.” Começou a carreira de tradutor na igreja luterana, como intérprete para missionários. Prosseguiu estudando, lendo muito e começou a viajar. “Fiz diversas viagens de aperfeiçoamento à Inglaterra e cursos junto à igreja anglicana. Hoje ainda sou chamado para fazer interpretação ao vivo em Londres, em eventos que envolvem as igrejas católica, protestante, pentecostal etc.”

Ciente de seu potencial, Marcelo Gonçalves passou a estudar mais idiomas. “Posso dizer que domino português, inglês e espanhol totalmente, conheço muito do italiano, conheço bem o alemão e, mais recentemente, por contato com os haitianos, comecei a estudar francês. Estudo grego por causa do trabalho de tradução do texto bíblico, hebraico e latim. Também estudo um pouco de tupi-guarani para conversar com os índios ali na Pastelaria Itália, em Joinville, ou em São Francisco. Tenho uma Bíblia em guarani m'bia, que é a língua deles.”

 

Divulgação/ND
Em casa, um canto para trabalhar e disposição para percorrer o mundo, quando convocado

 

Depois de estudar tanto, há 13 anos Marcelo abriu sua empresa, a Veritas, com sede no Itinga, em Araquari. “A Veritas Comunicação Internacional – explica – foi criada para atender à demanda de traduções/interpretações no Brasil e no exterior. Fazemos trabalhos técnicos, servimos de intérpretes em visitas de estrangeiros a empresas locais, traduzimos livros técnicos e em diversas áreas como filosofia e teologia.”

Marcelo, a mulher, Manuela, e o filho Léo, de 4 anos, trocaram no ano passado o litoral pelo alto da serra. “Mudamo-nos para Rio Negro por causa da saúde. Tive aumento súbito de glicemia ano passado e fui experimentando onde estaria melhor. Como a maioria dos trabalhos pode ser feita via telefone e internet, não faz diferença o local onde eu esteja. Quando sou chamado para interpretar 'ao vivo' basta agendar e ir ao local, seja em Barra Velha, Joinville, Rio, São Paulo, Porto Alegre, Londres ou qualquer lugar.”

Entre seus projetos, Gonçalves vai do trivial ao avançado: “Conhecer idiomas, pois cada idioma é uma vida que a gente ganha, no sentido de que a língua carrega um pedaço da alma de um povo; expandir a empresa, estudar mais latim, ajudar os haitianos. Rolar na cama com o meu bebê, tomar um café em São Bento ou em Londres, em boa companhia, não tem preço!”.

Para ele, ainda é cedo para fazer um balanço da vida. “Tenho muita coisa para fazer. Creio que devemos fazer duas coisas: ficar de olho em tecnologias novas, sem esquecer de olhar para o passado. Estas duas coisas ajudam a não desanimarmos. A História, especialmente, mostra-nos que o ser humano é altamente previsível. Mudam as tecnologias, mas somos incrivelmente repetitivos.”

 

Divulgação/ND
Momento família no aniversário do filho, Léo: vida nova no alto da serra

 

 

Veritas Comunicação Internacional

Contato: 47/3645-1621, comercial@veritastraducoes.com.br www.veritastaducoes.com.br


Roupeiro, massagista, assador de carne: João Kamradt, o apoio por trás das vitórias da Tupy

Há 30 anos, ele segue os atletas e comemora vitórias da equipe com profissionalismo e paixão, como um verdadeiro craque fora do campo
Fotos e reproduções Roberto Dias Borba/ND
Em casa, com as medalhas: orgulho pelas conquistas alcançadas na AA Tupy

 

Camisas, chuteiras, bolas, água, frutas e tudo arrumado para dar tranquilidade e comodidade para jogadores e comissão técnica antes e durante treinos e jogos. A atividade foi escolhida há mais de três décadas por João Kamradt, 67 anos, e representa o passo inicial para as equipes de futebol da Associação Atlética Tupy ter tanto sucesso nos campeonatos que disputa.

Depois de anos, e mesmo com funções triplicadas – de roupeiro, massagista e até assador de carne após os jogos – Kamradt revela que tem amizade com todos. “Sou sempre a mesma pessoa com os atletas e diretores,” descreve a receita para a longevidade nas diversas funções.

Kamradt chegou à AA Tupy, por convite de Liberato Marinelli e Cláudio Pirão Moreira, para comandar a rouparia. Veio do Juventus, onde estava em família, reconhecido facilmente como Anga. Na Tupy, mudou também o domicílio para o Boa Vista, onde passou a ser seu João.

 

Entre as relíquias, faixa personalizada de campeão da Primeirona de 2012 para o "Seu João"

 

Com o passar do tempo, conseguiu a confiança de todos e foi agregando outras funções. “A hora passa rápido e a gente nem vê dificuldade se está fazendo outras coisas ao mesmo tempo,” disfarça. A corrida da rouparia para a bolsa de massagem e até mesmo os cuidados com a culinária são em dias alternados. Os treinos ocorrem nas terças e quintas, a partir das 15h. E duas horas antes Kamradt já está no estádio. Os jogos, invariavelmente aos sábados ou aos domingos, sempre às 15h, fazem com que o supermordomo chegue ao local das atividades já pela manhã.

Hora para entrar deve ser cumprida à risca. E para sair? “É sempre mais tarde, mas isso não me preocupa.” Para ele, tudo é compensado pelas conquistas. A mais importante, destaca, foi o título da Primeirona de 2009. “Perdemos de goleada o primeiro jogo e recuperamos no segundo. O que valeu foi a superação, pois todos estavam desgastados após um amistoso em Curitiba, três dias antes da final,” comemora.

 

 

No vestiário na AA Tupy: organização com material

 

Festa em casa

A comemoração do título da Primeirona de 1992 também traz boas recordações. Afinal, a festa foi realizada em sua casa, na rua Cardeal Pacelli, no Boa Vista. “Era uma garagem enorme, com lugar para todos, e a festa só terminou às 5h,” relembra. A atividade do roupeiro/massagista pela Tupy também lembra com exatidão onde tudo começou. Foi em 1980, em Santa Cruz do Sul (RS), nas disputas do Sul-brasileiro do Sesi. “Ganhamos tudo,” orgulha-se, como um bom pé quente.

Diz que está preparado para as atividades para 2015, que começam amanhã. “Os campeonatos da RICTV Record em Enseada começam no dia 10, mas desde dezembro já estamos treinando” antecipa.

O breve período entre Natal e Ano-novo, ele aproveitou para estar à vontade com a família e colocar o serviço de jardinagem de casa em dia. Com o propósito de diminuir a carga em 2015, Kamradt acredita que tendo outro massagista poderia ser útil para distribuir as atividades.

 

 

Pela Tupy, amistoso em Balneário Barra do Sul

 

Entrosamento longe dos gramados

 

Antes da bola rolar, o roupeiro João Kamradt já tem todo o vestiário decorado. Calções, meiões e chuteiras estão distribuídos para cada jogador. Os lugares estão marcados previamente. As camisas só são entregues quando o treinador define a escalação. O entrosamento nos bastidores, observa o roupeiro, começa com o preparador físico, função que Douglas Gabriel responde atualmente. “É um trabalho em grupo,” acrescenta.

O material entregue antes dos jogos é conferido depois de cada jogo. A conferência é refeita no dia seguinte, quando segue para a lavação. “São poucos os que esquecem alguma peça. E tem quem avisa que vai entregar em seguida,” garante.

Kamradt começou a conviver com os bastidores do futebol de Joinville em 1978. A estreia foi no Juventus, o time de infância e onde estão muitos parentes. Daí para frente, o roupeiro conviveu com muitos craques, como Carioca (Carlos Trindade Barbosa), João Carlos Mendes, Nilton Bucica, Adílson Biguá, os goleiros Rogério e André e os irmãos zagueiros Sandro e Nélson Rodrigues.

 

Início no Juventus, com o volante Galego, em jogo pelo Norte catarinense, em São Bento do Sul

Ademir Albrecht está há 50 anos em seu primeiro emprego, na Tigre, onde começou como aprendiz

Para trabalhador, a empresa em que começou a bem-sucedida carreira aos 14 anos é seu segundo lar. Desde 1972, ele atua no setor de contabilidade
FABRÍCIO PORTO/ND
Albrecht em frente ao prédio principal da administração da Tigre, no bairro Atiradores

 

 

A “Festa das Medalhas”, tradicional evento em que a Tigre homenageia o pessoal que completa tempo redondo de casa, foi especial para Ademir Albrecht. Em agosto, ele completou 50 anos na única empresa em que trabalhou. “Comecei como auxiliar, fiz carreira e posso garantir que a Tigre é minha segunda família”, diz, planejando a aposentadoria definitiva para 2015.

Nascido em Joinville em 1950, Albrecht criou-se nas imediações da rua Copacabana. “Naquele tempo, a região ali do final do Anita nem estava totalmente urbanizada. Havia poucas famílias morando, muitas ainda de colonos cultivando amplas extensões de terra.” Iniciou a carreira escolar numa pequena escola no Nova Brasília, em 1957. “Fiquei ali até julho, aí me transferiram para o colégio Anita Garibaldi, inaugurado justamente no ano em que nasci”, lembra. Depois de tentar fazer o ginásio no Bom Jesus, concluiu o ensino fundamental no Conselheiro Mafra. “Minha mãe enviuvou cedo, e por mais que desejasse proporcionar o melhor aos filhos, tinha dificuldades. Mas tenho ótimas lembranças do Conselheiro Mafra, e lamento que hoje esteja nessa situação de abandono.”

As lembranças do pai são escassas. “Eu tinha cinco anos quando ele faleceu. Das poucas memórias que tenho dele, lembro dos passeios que fazíamos até os acampamentos do batalhão, perto de casa”. Alguns anos mais tarde, ele próprio serviu no 13º Batalhão de Caçadores, precursor do 62º BI: “Mas aí as campanhas eram feitas na Vila Nova”.

 

 

Divulgação/ND
Na Festa das Medalhas da Tigre, Felipe Hansen (vice-presidente do Conselho de Administração do Grupo Tigre) e Rosane Maria Fausto Hansen (presidente do Conselho de Administração do Grupo Tigre) entregam medalha para Ademir Albrecht (C) por seus 50 anos de empresa

 

Aos 14 anos, a hora

de aprender um ofício

para ajudar a família

 

Ademir Albrecht precisou concluir o ensino fundamental mais tarde, pois aos 14 anos iniciava uma nova fase da vida. “Tinha que trabalhar pra ajudar em casa. Um vizinho, sabendo da dificuldade da minha mãe, me conseguiu uma vaga como aprendiz na Companhia Hansen. Comecei como auxiliar de expedição, quando a empresa ainda funcionava na rua Bahia.”

Como era usual na época, o jovem se deslocava de bicicleta de casa para o trabalho. “O expediente ia das 7h da manhã às 6 e meia da tarde, pois naquele tempo a carga semanal era de 44 horas, tudo concentrado de segunda a sexta, para poder folgar aos sábados.”

O puxado expediente o obrigou a interromper o ginásio, retomado mais tarde no Colégio Comercial Sena Madureira. O ensino médio, na época chamado “Contador”, foi feito no estabelecimento que hoje é a ACE. “Depois me formei em ciências contábeis na Furj, atual Univille, e me pós-graduei na mesma área. Acabei descobrindo minha vocação trabalhando, pois em 1972 passei para a Contabilidade na Tigre. Era um tempo pré-informática, tudo era feito a mão, a caneta, lápis, máquina de escrever, calculadora mecânica... Não era raro passarmos a madrugada fechando contas”, relembra, citando antigos colegas como “seu Tavares, nosso guarda-livros”. Além das contas da empresa, Ademir fazia a contabilidade do JEC, no início da história do clube.

Entre as tantas lembranças deste meio século de Tigre, algumas são mais fortes. “Enfrentamos também tempos de crise. Lembro que às vezes seu João (Hansen Filho, então presidente da empresa) andava pela fábrica. Aí, pra não dar a impressão de que não tínhamos nada pra fazer, saíamos do escritório e íamos até a fábrica, ajudar a amarrar mangueiras, embalar produtos... Como eu havia começado na Expedição, pra mim não era nada novidade.”

Ademir ainda passou pelo setor de Faturamento, interrompeu a carreira durante um ano para prestar serviço militar, foi para Cobranças e, desde 1972, está na Contabilidade.

Rodou também pelas diversas empresas que se abrigavam sob o guarda-chuva da holding Cia. Hansen (hoje, sua carteira de trabalho é assinada pela CRH, a holding controladora da Tigre). “Pra mim, é um orgulho ter trabalhado com três gerações da família Hansen: o seu João, o Carlos Roberto e agora o filho dele, Felipe.”

E a continuidade dos Albrecht também está garantida: um filho é colega na CRH e uma filha trabalha na fábrica da Tigre. “Eu paro em 2015”, planeja, fechando com tinta azul seu balanço de meio século de empresa.


Álvaro Cauduro deu muitas guinadas até conciliar a profissão de advogado com a presidência da Lyra

“Os caminhos nos escolhem”, acredita ele, que assumiu a tradicional sociedade joinvilense disposto a colocá-la de novo no topo da agenda cultural da região
Divulgação/ND
Álvaro Cauduro deu muitas guinadas na vida até conciliar a profissão de advogado com a presidência da tradicional Sociedade Harmonia-Lyra

 

“Muitas vezes não somos nós que escolhemos, mas as coisas e os caminhos nos escolhem.” A tirada filosófica justifica as guinadas que Álvaro Cauduro de Oliveira foi dando ao longo da vida, até se consolidar como advogado – justamente a profissão do pai, de quem ainda guarda o diploma do curso de direito e a sólida mesa usada há muitos anos, adornando o escritório que mantém em Joinville.

Além da dedicação à carreira jurídica, Cauduro se empolga ao conversar sobre outra de suas paixões, a cultura, à qual vem se dedicando com mais intensidade desde que assumiu a presidência da Sociedade Harmonia-Lyra, em julho passado. “Pretendemos reavivar o glamour e o culto à arte que caracterizaram a Lyra, com uma visão moderna e que atraia as novas gerações”, antecipa, já pensando no calendário social e cultural de 2015.

Nascido em 1957, Álvaro Cauduro de Oliveira criou-se em Porto Alegre, onde desenvolveu o gosto pela arte. “Na cidade, nunca faltaram boas opções culturais. Arte e música sempre me atraíram”, conta, ressalvando que a opção por este tipo de lazer tornou-o um gremista meio relaxado. “Sou de uma família de torcedores do Grêmio, mas os teatros me atraíam mais que o estádio.”

“Queria seguir logo um rumo na vida, tanto que pedi ao meu pai que me emancipasse aos 18 anos, em vez de esperar os 21, idade da emancipação na época”, relata Cauduro, que poderia até ser arquiteto, como uma irmã. “Até cheguei a ser copiador de plantas arquitetônicas.” Também teve uma pequena serralheria, até se empregar, aos 20 anos, no antigo banco Habitasul. “Eu me dei bem na carreira, tanto que em três anos já assumia a gerência geral de uma agência.” Também iniciou a faculdade de direito, demonstrando ter no sangue alguns sinais do pai, advogado e procurador federal.

 

Um Papai Noel azul em Joinville

 

A faculdade, porém, foi concluída alguns anos depois em Joinville, para onde Cauduro fora transferido em 1980, para gerenciar a agência aberta pelo Habitasul na rua do Príncipe. Junto veio a família, formada pela mulher, Scheila, e os filhos, Luciana e Guilherme. A eles somaram-se o joinvilense Bruno e mais quatro netos. Foi com ele na gerência do Habitasul que Joinville viu pela primeira vez um Papai Noel azul, cor padrão do banco.

“O Papai Noel era um chamariz para a agência, e ficava na calçada tocando o sino e recepcionando os clientes. O primeiro intérprete foi o pianista Juca Wetzel, que conheci tocando no restaurante da Lyra. Ele levou o piano de carroça da Lyra até o banco”, diverte-se Cauduro, relembrando o saudoso músico Nelson Wetzel; que mesmo totalmente cego tocou piano até o fim da vida, em 2008.

 

“A Lyra está na memória

afetiva positiva dos joinvilenses."

 

Pelo Habitasul, Cauduro chegou a morar um ano nos Estados Unidos. Com a liquidação judicial do banco, e já formado em direito pela ACE, decidiu seguir carreira como advogado. Associou-se a Emílio Salomão Elias, formando o escritório Elias & Cauduro, dedicado a direito empresarial e de família. No mesmo segmento, mais tarde associou-se a Paulo Teixeira Morínigo na empresa Cauduro & Morínigo Advocacia, localizado no CDTEC – Condomínio de Desenvolvimento Tecnológico, no início da rua São Paulo. Entre os advogados da casa está o filho Guilherme.

Sócio da Harmonia-Lyra desde que chegou a Joinville, Cauduro ainda pegou o final de uma época dourada, em que o clube representava o máximo de glamour da cidade. “A mudança dos costumes e os gostos diferentes das novas gerações fizeram com que a Lyra perdesse o protagonismo das cenas social e cultural de Joinville”, comenta, destacando que o prédio da sociedade mantém até hoje não só as características arquitetônicas, como algumas peculiaridades, como a acústica perfeita.

Diretor jurídico desde 2012 e presidente na atual gestão, Cauduro destaca algumas conquistas de 2014, como a parceria com a Orquestra Municipal, a reabertura da sala do maestro Tibor Reisner e o projeto Interlúdio. “Os projetos terão continuidade em 2015, quando também pretendemos promover a segunda edição da Noite das Artes, com uma homenagem a Fritz Alt, e um festival de ópera de bolso”, antecipa.


Padre Geraldo comemorou 35 anos de dedicação à comunidade em Joinville

“Sou feliz por aquilo que eu sou”, diz o sacerdote conhecido como "Padre Noel"
Fotos: Divulgação/ND
Devido a barba branca Padre Geraldo é mais conhecido como "Padre Noel"


O lema sacerdotal do padre Geraldo, retirado do Evangelho de São Mateus (20, 28), resume sua atuação em uma carreira que completou 35 anos dia 15 deste mês. “Não vim para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate de muitos.” No cumprimento dessa missão, o “Padre Noel”, como é conhecido na comunidade do Santuário Sagrado Coração de Jesus, devido à densa e branca barba, distribui, além das costumeiras bênçãos, uma boa dose de simpatia.

“Bom-dia e a bênção do Senhor”, vai repetindo pelo caminho, cumprimentando com um aperto de mão cada paroquiano, colega de batina, funcionário da secretaria e visitantes. “Sou feliz na missão que escolhi, sempre fui bem acolhido nas paróquias em que trabalhei e dou graças a Deus todos os dias pela escolha que fiz quando criança”, afirma com convicção.

Nascido em Guabiruba, na época distrito de Brusque, no dia 8 de janeiro de 1952, Geraldo Kohler foi o primogênito de uma prole de nove. “Tenho boas lembranças da minha infância, como a entrada na escola, a primeira comunhão, uma bicicleta e uma enxada com cabo.” Decidiu seguir a carreira sacerdotal por convicção própria, e aos 11 anos iniciava a formação, no Seminário São José, em Rio Negrinho. “Concluí o ensino fundamental em Corupá e retornei ao seminário de Rio Negrinho em 1969, para o ensino médio”, conta. 

Na cidade do Planalto Norte, conciliava os estudos com a bola, tendo jogado no time de seminaristas que disputou durante alguns anos o campeonato municipal. “Tínhamos um timaço, e só não ganhamos o título porque o Ipiranga montou um esquadrão”, lembra, referindo-se ao principal time da cidade na época.
As paradas seguintes foram em Jaraguá, no noviciado Nossa Senhora de Fátima; em Brusque, onde fez Filosofia e Estudos Sociais no Convento Sagrado Coração de Jesus; e a conclusão da faculdade de Teologia em Taubaté. “Fui ordenado no dia 15 de dezembro de 1979 na paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Guabiruba.”

Sem espelho, que fique a barba

O primeiro trabalho foi longe de casa: “Em fevereiro de 1980 fui designado para o serviço ministerial na região missionária de Santa Luzia, no sertão maranhense. No ano seguinte, assumi como pároco em Pindaré Mirim, também no interior do Maranhão”. Vem daquela época o cultivo da barba. Acostumado a utilizar barbeador elétrico, no sertão Geraldo não dispunha da necessária energia elétrica. “Fui para a lâmina, mas depois de quebrar vários espelhos nos deslocamentos em lombo de mula, decidi não fazer mais a barba. Acabou virando marca registrada.” Na única vez em que raspou a barba, Geraldo não foi reconhecido na paróquia.

A carreira prosseguiu por Curitiba, pelas gaúchas Crissiumal e Independência, Sinop/MT, Brusque, Guabiruba, Corupá, novamente Rio Negrinho, Armazém e, desde janeiro de 2013, Joinville.
Residindo na casa paroquial, a uma quadra da igreja, padre Geraldo costuma se levantar quando o sino do santuário badala anunciando as 6h da manhã. “Faço minha oração, não faço a barba, e às 7h já estou oficiando a primeira missa do dia. Depois, café, um chimarrão, leitura de jornal e o começo do expediente na paróquia às 8h30”, descreve a rotina básica. A agenda diária se divide em missas, confissões, atendimento aos paroquianos, orientações pastorais... 


Nas horas de folga, Geraldo lê bastante, ouve música clássica ou regionalista e troca ideias com os colegas Sildo e Kleber. Aos domingos, divide com os padres o programa “A Voz do Santuário”, às 20h30, na Rádio Clube (AM 1590).

“Quando chega dezembro, é um tal de criança puxando minha barba, pra conferir se é de verdade, e batendo na barriga pra ver se tem travesseiro”, brinca Geraldo, assumindo seu lado “Padre Noel”.


Ex-fotógrafo transformou moto em lanchonete ambulante em Joinville

Ilmo Muniz de Freitas e Maria Agostinha: 35 anos de companheirismo e bons negócios a bordo da moto-lanchonete
Fabrício Porto/ND
Muniz de Freitas e Maria Agostinha apostaram na criatividade e transformaram a moto em lanchonete



Se todo ser humano pode transformar a vida num livro, os 63 anos de Ilmo Muniz de Freitas já renderiam um grande volume, distribuído em diversos capítulos bem definidos. Em todos, destaque para o esforço, a perseverança, a superação e a criatividade. Da infância na roça, passando pelos anos de profissão como fotógrafo, o drama de depender da hemodiálise para sobreviver até a ocupação atual, vendendo lanches a bordo de uma exótica motocicleta, Muniz vem escrevendo sua história. “Tudo na vida precisa de um pouco de sacrifício. Mas Deus sabe o que faz. Depende de nós aproveitarmos o que é bom, enfrentar dificuldades e seguir em frente”, filosofa Muniz, sempre apoiado na mulher Maria Agostinha, a “sócia” na motolanchonete que já se tornou conhecida no bairro Iririú.

Ilmo Muniz de Freitas viveu até os oito anos em Curitibanos, onde nasceu no dia 28 de agosto de 1951. Terceiro de uma escadinha de nove irmãos, cedo habituou-se à rotina diária de conciliar os estudos – numa escola distante de casa – com o trabalho na roça. “Minha família trabalhava numa fazenda, e todos precisavam ajudar. Só pude estudar até o segundo ano”, conta.

A dificuldade de frequentar a escola tinha mais um fator agravante: “Na região havia um leão brabo, que atormentava todo mundo. Ele atacava os animais nas fazendas e todos tinham medo. Rastros dele foram encontrados em várias cidades da região”. O tal leão – provavelmente uma onça ou um puma, na época comuns na mata Atlântica –, segundo se conta, chegou a ser baleado, tanto que mancava de uma pata. “Ficou conhecido como o leão da mão torta”, arremata Muniz.

Flagrantes da vida

Aos 20 anos, já morando em Ponte Alta do Norte, a 25 quilômetros de Curitibanos, Muniz decidiu realizar um sonho: “Eu queria ser fotógrafo, via futuro na profissão”. Decidido, investiu as economias numa máquina Olimpus profissional e foi à luta. “No meu primeiro trabalho cortei os pés de uma cliente”, detalha, com bom humor. Tentando, errando e aprendendo com profissionais mais experientes, enfim estabilizou-se no ofício.

O fotógrafo morava em Balneário Camboriú, quando, em 1978, decidiu tentar a sorte em Joinville. “Foi um ano em que só chovia, e como eu geralmente fazia fotos ao ar livre, os negócios pioraram”, justifica a mudança. Trabalhou um tempo na Tupy, morou na “pensão do Gambeta” no Boa Vista, e por lá mesmo alugou uma sala, transformada em estúdio fotográfico. “Fiz muitos cursos e conheci diversos bons profissionais em Joinville. Durante muito tempo a fotografia foi um bom negócio”, garante Muniz, exibindo com orgulho sua identificação profissional.

Em 1979, Maria Agostinha surgiu em sua vida. “A gente se conheceu numa procissão da igreja do Boa Vista”, conta Agostinha, que trabalhou como costureira na Busscar e na Patinick. Eles se casaram em novembro de 1979, foram morar no Iririú e aumentaram a família com dois filhos e três netos.
Há uns 15 anos, muito doente, Ilmo Muniz precisou deixar a fotografia de lado. O tratamento de saúde culminou, há três anos, com a necessidade de se submeter à hemodiálise três vezes por semana, por causa de uma insuficiência renal.

Há pouco mais de cinco anos, Muniz viu numa moto com side car a ideia de iniciar um novo empreendimento. “Mandei fazer umas adaptações e transformei o conjunto num carrinho de lanches. Não tem nada parecido na cidade.”

Com sua inusitada lanchonete sobre rodas, Muniz circula pelo Iririú, vendendo os assados de frango, coxinhas e pastéis que a mulher assa e frita em casa. “Prezamos pela higiene e qualidade dos produtos”, reforça Agostinha, mostrando o espaço onde adaptaram a cozinha. “Já temos uma boa clientela, e não preciso andar fora do bairro para vender”, conclui Muniz. E mais um capítulo do livro da vida vai sendo escrito.


Mecânico de prestígio, Laércio Fröhlich deixa aposentadoria e monta time de corrida com o filho

Apaixonado por carros, ele e Júnior formaram uma equipe para encarar o circuito catarinense
Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
O Fusquinha amarelinho enfrenta estradas de poeira e lama em prova válida pelo circuito catarinense

 

 

Arquivo Pessoal/ND
Fröhlich posa ao lado de um dos carros que preparou em sua longa carreira

 

 

 

 

Laércio Fröhlich já desfrutava de prestígio em Joinville, como tradicional e competente mecânico. Aposentado, passou a oficina para um sobrinho e montou um espaço nos fundos de casa, apenas para manter a forma e atender algum parente ou amigo. Isso até dois anos atrás, quando praticamente voltou ao trabalho de mecânico, agora exclusivamente a serviço do filho Júnior, como parceiro na preparação do Fusca 74 utilizado no circuito catarinense de velocidade, na categoria Turismo Clássico. “Em minha carreira como mecânico, fiz carros para muitos pilotos, e quando meu filho começou a correr, formamos uma equipe de dois para encarar o circuito catarinense”, comenta Fröhlich. “E fomos campeões logo no primeiro ano!”, acrescenta o filho, elogiando a perícia paterna na preparação do Fusca, enquanto o carrinho ainda se “recupera” das agruras enfrentadas na última etapa do circuito. “Levamos umas boas porradas”, lembra Júnior.

A história de Laércio Fröhlich começa a ser contada há 55 anos, quando ele nasceu, num cantinho do Bom Retiro que poderia ter o nome da família. “Aqui era tudo terra do meu avô, quando ainda se chamava estrada do Braço. Foi ele que abriu essa rua”, conta, fazendo um círculo com a mão em torno do alto da rua Abraham Lincoln, onde mora.

Algumas das manhas da mecânica foram aprendidas com o pai, tratorista. “Ele tirava toras, que depois viravam carretéis de madeira na Linhas Corrente. Além de operar o trator, precisava cuidar da manutenção, e ali comecei a sentir o cheiro da graxa.”

Laércio ainda cursava o fundamental no colégio Plácido Olímpio de Oliveira, quando começou a trabalhar, como aprendiz, no Autoposto Real, hoje com endereço na rua Coelho Neto, no bairro Santo Antônio. “É um dos postos mais antigos de Joinville ainda em atividade deve estar perto dos 70 anos. Naquele tempo, quase todo posto de gasolina tinha oficina nos fundos, como hoje tem lavação e loja de conveniência. Ali, aprendi as bases do ofício de mecânico”, relata Laércio, que em seguida fez uma carreira de 11 anos na Delta Veículos, sempre na oficina. “Passei a respeitar a marca Volkswagen, desde meu primeiro carro, um Fusca 66.” Comprovando a confiança na marca, ali ao lado está seu carro, um Golf, e dentro de casa – sim, dentro de casa, bem acomodado – um impecável Fusca vermelho 73, devidamente “envenenado” pelo dono. “Esse carro ficou uns 15 anos parado até eu comprá-lo. Turbinei o motor, de 1.500 para 2.275 cc e dei umas aperfeiçoadas” – entre elas, algumas excentricidades como réplicas de peças de Porsche.

 

Divulgação/ND
Ele incentivou o filho a ser competidor, e comemora junto quando ele sobe ao pódio

 

 

Nas corridas

 

Laércio aprendeu a preparar carros de corrida quando trabalhou na Mecânica Voigt. “Foi aí que comecei a fazer carros para pilotos da região, até abrir minha própria oficina, a Mecânica Laércio, em 1986.” A ampla oficina, ao lado de casa, hoje é de um sobrinho, mas manteve o nome consagrado na região.

Em 2011, aposentado, Laércio incentivou o filho Júnior, hoje com 28 anos, a correr. “Eu, na verdade, nunca tinha sido entusiasta de corridas, mas por insistência do meu pai experimentei. Pegamos um Fusca 74, meu pai preparou e comecei a treinar”, relata Júnior, analista de TI na Salfer.

O incentivo paterno – e a habilidade no preparo do veículo – se mostrou certeiro: logo no primeiro ano Laércio Júnior foi ao lugar mais alto do pódio na categoria Turismo Clássico, enfrentando as pistas de terra (e muito pó) de São Bento, Joaçaba, Lontras, Ascurra e Santa Cecília.

Depois veio um vice em 2013 e o terceiro lugar neste ano. “Quebramos três motores, e aí ficou difícil. Nossa equipe é só meu pai e eu, e não temos patrocínio suficiente para repor peças rapidamente”, justifica o piloto, planejando voltar a subir posições no pódio em 2015. Entrosamento, pelo menos, não falta.

 

Carlos Junior/ND
Formando uma equipe familiar bem-sucedida, Júnior e Laércio Fröhlich com duas preciosidades: o fusca da competição e o vermelho que ele guarda dentro de casa

 

PERFIL SUGERIDO PELA LEITORA CARLA LAVINA


Uma vida ao volante: o Chicão da Serrana virou o Miranda, há 40 anos motorista

Mesmo admitindo que a saúde já não é mais a mesma, ele nem quer pensar na aposentadoria
Fabrício Porto/ND
Francisco José Miranda conta em décadas o tempo de trabalho: quanto mais confortáveis os carros vão ficando, ele vai se adaptando e adiando a aposentadoria

 

Talvez em 2015 Francisco José Miranda finalmente se aposente. Talvez... “Já são mais de 40 anos atrás do volante, entre a praça e empresas. Acho que está chegando a hora de me aposentar mesmo. Até já tive um princípio de infarto há algum tempo, e a saúde não é mais a mesma do tempo da juventude”, admite.

Mas... “Eu gosto mesmo disso, tô habituado a levar pessoas pra lá e pra cá, conheço bem a cidade e os carros são cada vez mais confortáveis e seguros.” Enquanto a hora de se retirar não chega – e tudo indica que vai sendo adiada indefinidamente –, Miranda segue transportando pessoas pela cidade, a partir do “ponto do Giassi”, na esquina da rua Timbó com a João Colin.

A origem do taxista remonta a 1946, quando nasceu o último dos oito filhos dos Miranda, na localidade de Barrancos, em Garuva, então distrito de São Francisco do Sul. “Meu pai morreu quando eu tinha sete meses, nem cheguei a conhecê-lo. Aí minha mãe decidiu se mudar pra Joinville, e fui criado por ela e pelos irmãos mais velhos.”

Morando no Iririú, Miranda fez o ensino fundamental (na época chamado primário) na Escola Reunida Guaxanduva, atual EEB Annes Gualberto. “Não existia ainda o Aventureiro, nem Jardim Iririú; da igreja pra lá era Guaxanduva”, relembra, referindo-se à paróquia São Sebastião. Bom de bola, virou Chicão, vestindo a camisa 2 do time que viria a ser a Associação Atlética Serrana, da qual foi um dos fundadores. “Nós, em princípio, mandávamos jogos no Juventus e na Veterana, até que o Jamel Dippe financiou a construção de um campo atrás da igreja. Os uniformes quem deu foi o Curt Alvino Monich”, dá o devido crédito às pessoas que ajudaram a Serrana no início da história.

Sobre sua performance em campo, pode se gabar: “Eu era o cobrador de faltas do time, e nunca perdi um pênalti”. Durante algum tempo, Chicão corroborou a tese de que “pênalti é tão importante que deveria ser cobrado pelo presidente do clube”, quando acumulava a lateral-direita com a presidência. Também precisava ficar atento a muitos detalhes, para evitar situações como essa: “Certa vez, por algum descuido, faltou chuteira bem na hora de um jogo. Acabei jogando com dois pés esquerdos! E ainda fiz gol!”.

 

Lembranças do primeiro carro

 

O primeiro emprego de Miranda foi como secretário do advogado Jamel Dippe, função interrompida pelo serviço militar, no Forte Marechal Luz, em São Francisco. Um ano depois, já com a carteira de motorista em mãos, virou “motorista de praça”, como se chamava na época o dono de táxi, por insistência do irmão Osvaldo (o atleta Osvaldo Onésio Miranda, perfil em outubro de 2009). “Eu me casei em 1972, e logo fui para a praça, dividindo com meu irmão um Volkswagen Sedan 1600 quatro portas. Nosso ponto era o 614, na esquina da 9 de Março com a Príncipe”, relembra, logo se dando conta que “mais de 50 colegas daquele tempo já faleceram”.

Depois, durante anos Miranda trabalhou como motorista, conduzindo diretores das empresas M. Lepper, Usina Metalúrgica Joinville e Cia. Hansen. Desta, tem boas lembranças do publicitário Carlos Edo. “Quando ele saiu da Hansen e criou a agência Núcleo Sul, fui junto. No dia da inauguração da sede própria da agência, na rua Pastor Fritz Bühler, fui até São Paulo buscar os músicos e após a festa levei-os de volta”, conta, ilustrando o prazer que sempre teve ao volante.

Em 1990, Miranda voltou ao táxi. Foi durante algum tempo colega do filho Francisco Rodrigo, falecido há cinco anos. Hoje, prestes a colocar um ponto final na carreira, Miranda trabalha das 13 às 22 horas. “Os carros evoluíram muito, desde aquele primeiro Volks sedan que dividi com meu irmão”, conclui, cumprimentando o colega que acaba de chegar ao ponto a bordo de um moderno e confortável Voyage.


Professor Hamilton de Carvalho relembra luta para criar a primeira faculdade de Joinville

A semente lançada pelo discípulo da professora Anna Maria Harger resultou, anos mais tarde, na Univille, onde hoje ele tem a felicidade de ver uma neta estudando lá no colégio
Fabrício Porto/ND
Professor Hamilton, no aconchego de seu lar: aos 80 anos, ele começa a "cogitar" a aposentadoria

 

“Sinto-me orgulhoso de fazer parte dessa história,

cheia de riscos e muitos desafios.

Mas hoje posso fazer um balanço positivo,

tanto da minha carreira, quanto de tudo que

investimos para tornar a Univille referência no ensino superior.”

 

Por ter sido obrigado a, como tantos joinvilenses, sair da cidade em busca da faculdade, Hamilton de Carvalho apoiou incondicionalmente a proposta da professora Anna Maria Harger, de abrir um curso superior em Joinville. “A ideia foi toda dela, pois sempre se mostrou uma mulher firme e competente, mesmo enfrentando preconceitos. Como já era formado em direito, participei ativamente do processo de reconhecimento da faculdade, preparando a papelada e indo ao Ministério da Educação, na época sediado no Rio”, relembra Hamilton, ainda hoje dando aulas, mas já antecipando uma possível aposentadoria. “No ano que vem pretendo reduzir o ritmo”, planeja. Será?

Hamilton Sidney Alves de Carvalho nasceu em Joinville, em 1934, e criou-se no Centro da cidade. Fez carreira escolar nos colégios Conselheiro Mafra e Bom Jesus, onde se formou técnico contábil em 1955. Na hora de buscar formação superior, escolheu Curitiba: “Fui colega, entre outros joinvilenses, de Marinho e Rodrigo Otávio Lobo na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná. Morava numa república de estudantes, e as viagens entre Joinville e Curitiba eram feitas de micro-ônibus de linha, numa estrada sem asfalto”.

Formado em 1960, casou-se no ano seguinte com a joinvilense Carmem Silva e foi trabalhar em União da Vitória. Por pouco tempo: “Minha esposa não se adaptou, e voltamos para Joinville seis meses depois”. Hamilton, então, iniciou dupla carreira profissional, advogando (em escritório e também na Consul) e dando aulas de português no Bom Jesus e de economia na Escola Técnica de Comércio, dirigida pela professora Anna Maria Harger.

 

Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
Em 1955, o jovem Hamilton recebe o diploma de técnico em contabilidades de Plácido Olímpio de Oliveira. À direita deste, a professora Anna Maria Harger

 

O embrião da Univille

 

Depois de muito esforço e algumas viagens ao Rio, no dia 9 de março de 1964 era criada oficialmente a Faculdade de Ciências Econômicas de Joinville. No ano seguinte, a primeira turma de 50 alunos entrava em aula, numa sala cedida pelo Bom Jesus. Depois, a faculdade ocupou um espaço onde hoje está a ACE, passou para o Colégio dos Santos Anjos, para o prédio onde funcionou o Hotel Paris, e finalmente para o espaço atual, no Bom Retiro.

“O início foi muito difícil. Com exceção de alguns nomes, como Raul e Dieter Schmidt, Nilson Bender e Curt Alvino Monich, o empresariado pouco ou nada nos apoiou”, relembra Hamilton, que assumiu a cátedra de direito e a direção da faculdade. Como ainda não tinha razão social própria, o curso era vinculado ao Departamento de Educação da Comunidade Evangélica. Em 1967, o então prefeito Nilson Bender criou a Fundaje (Fundação Joinvilense de Ensino).

“Tivemos um grande apoio do Paraná, e a maioria dos primeiros professores vinha de Curitiba, até formarmos um corpo docente próprio”, prossegue o professor, que deixou a direção em 1979, passando a ser professor e chefe de departamento no organograma criado pela Furj (Fundação Educacional da Região de Joinville), sucessora da Fundação Universitária do Norte Catarinense, denominação adotada pela Fundaje no início dos anos 70. Em 1996, enfim, foi criada a Univille (Universidade da Região de Joinville), realizando mais uma parte dos sonhos dos pioneiros.

“Sinto-me orgulhoso de fazer parte dessa história, cheia de riscos e muitos desafios. Mas hoje posso fazer um balanço positivo, tanto da minha carreira, quanto de tudo que investimos para tornar a Univille referência no ensino superior”, conclui o professor, feliz por ver uma neta estudando no colégio da Univille, uma garantia de continuidade.

 

Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
Formatura em ciências contábeis

Cantores Tony e Nay Lima formam uma dupla muito afinada na arte e na vida

Casados há 45 anos, eles lembram com alegria dos momentos que viveram, incluindo a forma como se conheceram, onde ela se apaixonou primeiro
Fabrício Porto/ND
Música gaúcha, nativista, sertaneja e urbana: Tony e Nay Lima encaram todas sempre com muito talento e alegria

 

Quem ouve a dupla Tony e Nay Lima cantando junto, logo percebe a afinidade do casal. Seja na harmonia vocal, escutando alguma canção no rádio, seja ao vivo, na cumplicidade de quem já comemorou 45 anos de união. “Foi ela que quis me conhecer”, garante o marido, lembrando-se de como tudo começou.

“Mas ele estava interessado era na minha cunhada”, entrega a mulher, contando toda a história que culmina hoje com uma carreira artística de sucesso, ele mais focado na tradicional música gaúcha, ela no sertanejo de raiz – o que não impede que interpretem em dupla, em ambos os gêneros. Mas as histórias de ambos começam em locais e épocas diferentes, como se verá a seguir.

Em casa, na gaúcha Machadinho ou na catarinense Doutor Pedrinho, Antonio Honorato de Lima era o Toninho desde que nasceu, em 1948. Era o segundo dos cinco filhos de um tropeiro. “Vivi pouco tempo em Machadinho, me criei em São João da Esperança, uma localidade do município de Doutor Pedrinho. A música me atraía desde pequeno, ouvindo os gaiteiros nos bailes.”

Aos 11 anos, influenciado pelo primo Sidnei Lima – também músico – Tony aprendeu a tocar gaita de botão, ou gaita-ponto. Ele conta: “Eu matava aula pra escutar gaiteiros tocando e tentar aprender mais. Até o dia em que meu pai me pegou e me aplicou uma bela sumanta! Mas aí já tinha decidido ser gaiteiro e cantador.”

Certo dia, Tony foi visto – e ouvido – pelo Coronel Silveira, que tinha um programa na Rádio Difusora de Rio Negro, cidade paranaense vizinha de Mafra, no Planalto Norte. “Um irmão se apresentava junto comigo, e fizemos algum sucesso no rádio. Em 1959 gravei meu primeiro disco, um compacto simples, com uma música em cada lado. Alguns anos depois fiquei em quarto lugar no Festival Arizona, indo para o disco do festival”, lembra, referindo-se ao festival de música sertaneja e regional promovido pela marca de cigarros Arizona em diversos locais do país. A carreira de Tony deslanchou, tanto solo quanto na formação de grupos, gravando mais dois LPs e participando de programas de rádio e TV pelos estados do Sul.

 

Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
Pelos rodeios da vida, a dupla é sucesso de palco e de simpatia ao longo de 45 anos de união

 

Ele mirou na cunhada, mas acabou

ficando com Nair para toda a vida

 

Nair Correa de Lima, nascida em 1952 em Rodeio, no Vale do Itajaí, até podia pensar em seguir carreira artística. “Minha família tinha diversos artistas, a música corria no sangue. Eu comecei cantando na igreja, e sempre me dediquei à música sertaneja de raiz”, conta Nay. Mas a carreira, de fato, só começou depois do casamento com Tony.

E a história da cunhada? Nay conta: “Eu estava visitando meu irmão em Jaraguá. Um dia, olhando o movimento pela janela, eu e minha cunhada ouvimos uma música bonita, e fomos ver de onde vinha. Era da casa de um tio”. Os acordes vinham da gaita de Tony. “Quando entramos, ele logo se engraçou pela minha cunhada, sem saber que era casada. Depois do fora é que veio pro meu lado.” Conversa vai, conversa vem... Casaram-se em 1969, começaram a cantar juntos, moraram em Curitiba e Jaraguá e, em 1978, fixaram-se em Joinville. Hoje, pais de Tânia Mara, avós de quatro netos e bisavós cinco vezes, Tony e Nay moram no Morro do Meio, na confortável casa construída graças aos frutos do talento musical da dupla.

Além de animar shows e participar de programas de TV, Tony lançou há um ano um CD solo com uma coletânea de seus sucessos, entre eles o conhecido “Rodeio de Vacaria”. E a dupla comanda o programa “Querência e Cidade”, na Rádio Clube (AM 1580), às segundas, quintas e sextas, das 20 horas à meia-noite. “O nome do programa – explica Nay – contempla os talentos musicais tanto de vertente gaúcha, como sertaneja e urbana.”


Cynthia Cristianne Schroeder transformou a arte manual em empreendimento de sucesso

Empresária é a prova que a soma da intuição com a habilidade é uma conta que pode dar certo. De uma tragédia pessoal, ela descobriu um talento que hoje acredita ser nato
Fabrício Porto/ND
A artesã e decoradora Cynthia Cristianne em sua loja, que está sempre em crescente expansão, cada vez mais ocupando espaço na casa: temas natalinos dominam a cena

 

 

Um dia, prestes a concluir o ensino médio e ainda indecisa quanto à continuidade dos estudos, Cynthia Cristianne Schroeder ouviu de um tio uma observação que a deixou invocada. “Ele disse que a mulher é um ser puramente intuitivo, que eu deveria terminar o curso Normal e ser professora ou dona-de-casa. Encarei aquilo como desafio e fiz vestibular para Engenharia Civil, só pra provar que a mulher também poderia atuar numa área que exigisse mais a razão do que a intuição.” Dois anos depois, ela abandonava o curso na FEJ, convencida de que aquele não era o seu caminho. Porém, não abandonou suas convicções, e quatro anos depois recebia o diploma, formada em Administração de Empresas pela Furj (antecessora da Univille). Hoje, os conhecimentos adquiridos naquela faculdade são valiosos no trabalho de administrar sua empresa de artesanato e decoração, onde une a intuição, a razão e a habilidade para produzir belos arranjos e decorar festas de vários tipos. “Desde setembro, claro, quase noventa por cento do trabalho é voltado aos temas natalinos, seja produzindo enfeites, criando arranjos ou decorando ambientes”, acentua Cynthia.

A vida desta joinvilense, nascida em 1962 e criada ente os bairros Anita Garibaldi e Saguaçu, tinha tudo para seguir o rumo das artes. “Acho que está no sangue, pois meu pai era um grande artista, foi desenhista da Lumière. Na época de Natal, eu sempre ia com ele catar pinha, barba-de-velho e outros materiais para fazer as decorações em casa”, conta. Também foi, claro, ótima aluna em educação artística nos colégios Santos Anjos e Bom Jesus.

A habilidade artesanal, porém, era guardada apenas para as necessidades domésticas. Como mais velha de três irmãos, Cynthia logo foi conciliar a faculdade com o trabalho, na Fininvest. “Não foi fácil, pois era comum o expediente na financeira se estender até a noite, prejudicando as aulas”, admite.

 

 

Álbum de Família/Divulgação/ND
Cynthia na formatura do curso de administração de empresas pela então Furj

 

 

Apoio do pai e do marido foi fundamental

para superar uma tragédia pessoal

 

Foi justamente na fila de inscrição para o vestibular que Cynthia entabulou conversa com outro candidato, o rio-sulense Heinz. Em 1983, ela acrescentou o Grunwald ao sobrenome. Algum tempo depois, o marido e o pai foram pilares emocionais em sua vida, quando a meningite levou a primeira filha, Fernanda, aos 2 anos. “Tive duas filhas com a mesma doença, e a primeira morreu devido à falta de um diagnóstico mais preciso. Felizmente, com a Juliana não aconteceu a mesma coisa”, conta, a emoção transbordando. “Quando perdemos a Fernanda, no final do ano, perdi o ânimo pra tudo. Papai e Heinz, porém, insistiram para prosseguir na decoração da nossa casa.”

Cynthia nem sabia, mas daquela adversidade nascia uma nova carreira. “Em 1991, por insistência de amigos, aceitei a proposta de fazer a decoração natalina da boate e do restaurante da Lyra. Foi meu primeiro trabalho profissional.” Dois anos depois, um pequeno espaço da residência na rua Araçá se transformava no embrião do que hoje é a empresa Cynthia Cristianne Decorações. Com o tempo, a loja, o ateliê e o show room foram empurrando a moradia para trás. Por estes dias, é como se a porta se abrisse para dentro de uma árvore de Natal, tamanha a quantidade de pinheirinhos, guirlandas, enfeites e objetos de decoração. “Claro que ocasiões como Natal e Páscoa são os melhores períodos para os negócios, mas trabalho o ano todo em eventos”, acrescenta Cynthia, ressalvando que só não faz festas infantis. Algumas empresas, como Döhler, Docol, Transtusa e Neogrid, estão entre seus clientes, e quem as visita pode conferir uma amostra do trabalho.

Durante a entrevista, o atendimento telefônico é concentrado pelo filho Rafael, 20, hoje encarregado da administração da empresa, enquanto Cynthia corre pela cidade, decorando ambientes e entregando encomendas – no que também é ajudada pelo marido, nesta época dando uma inestimável mão.

 

Serviço

Cynthia Cristianne Decorações

Rua Araçá, 100, bairro Anita Garibaldi (rua sem saída em frente à rodoviária de Joinville)

Contato: 3422-8462 / 3801-0163 / www.cynthiadecoracoes.com.br / facebook.com/cynthia.decoracoes

 


Dos desenhos a caneta na infância, o traço de Adilton do Carmo hoje se destaca nos grandes murais

A última tela que ele pintou - as paredes de um viaduto na zona Sul de Joinville - tinha mais de 1.300 metros quadrados com cenas natalinas
Fabrício Porto/ND
Adilton Matos do Carmo e sua obra mais recente, no viaduto do Eixo Sul, no Itinga, usando a técnica da aerografia

 

 

Você, leitor que nunca foi artista plástico, que jamais passou do bonequinho de cinco traços no colégio, sabe como é difícil encher uma folha com algo mais do que borrões. Imagine, então, preencher uma tela de 1.300 metros quadrados. “Eu nem esboço muito antes, prefiro ir produzindo à medida que as ideias fluem, com base na intuição e na experiência.” As palavras são do artista plástico Adilton Matos do Carmo, e o resultado de sua inspiração pode ser visto por quem passa pelo viaduto do Eixo Sul, no Itinga. Ali, Adilton encheu de cor e harmonia um espaço cinza, transformando-o numa cena natalina. Outras amostras do seu trabalho podem ser encontradas em residências e comércios da cidade. E, também, em movimento nos carros alegóricos da escola de samba Unidos pela Diversidade, no Carnaval.

O dom para a arte acompanha esse santista desde que nasceu, há 32 anos. “Na família, tinha só um primo que desenhava. Um dia, ele me presenteou com o desenho de um daqueles super-heróis japoneses, e aquilo me incentivou a tentar.” Demonstrando habilidade para a expressão no plano, Adilton também recebeu estímulo de professores, que percebiam sua aptidão para a arte. “Comecei praticando com caneta comum, depois fiz cursos e imaginei um futuro como profissional das artes plásticas”, conta Adilton, que logo percebeu a quantidade de obstáculos a serem superados e desafios a vencer se quisesse, realmente, sobreviver do seu dom.

Trabalhando em loja, aprendeu a arte da aerografia - a aplicação de tinta com pistola ou caneta a ar comprimido. E não parou mais!

 

Rogerio da Silva/Divulgação/Secom/ND
Carmo aprecia sua obra: criatividade e beleza onde antes só existia o cinza do concreto

 

Em Joinville, uma nova vida com a família

 

Em 2002, Adilton casou-se com Marisa, colega de trabalho. “Ela logo me incentivou a investir na carreira”, agradece o artista, que hoje tem na mulher, além da companheira de todas as horas, uma sócia no empreendimento.

Há uns três anos, convencidos por um amigo, Adilton e Marisa desembarcavam em Joinville. Junto, o quarteto paulista Talita, hoje com dez anos, Gabriel, 8, Rafael, 6, e Miguel, 4. “São todos nomes bíblicos. Além dos três anjos, Talita significa ‘garotinha’ em aramaico”, explica a mãe (a expressão aparece em um dos milagres de Jesus, contado em Marcos 5:21-43, no qual Jesus teria ressuscitado a filha de Jairo com as palavras "Talitha cumi" (ou "Talitha kum" ou "Talitha qoum"), que significa "Garotinha, eu te ordeno: levanta!").

“Quando desembarquei na rodoviária, vindo na frente, chovia muito. Logo descobri que Joinville era, guardadas as devidas proporções, uma ‘São Paulo 2’, tanto pelo clima quanto pelas oportunidades”, recorda Adilton. Instalado, foi à luta, desbravando o mercado. Especializado na técnica da aerografia, investiu em equipamento, descobriu na Tinto Max um bom parceiro e começou a mostrar o que sabia. “Meu primeiro trabalho foi na Peixaria Litoral, no Aventureiro. A partir de então, fiz murais em CEIs, colégios, outros estabelecimentos comerciais e residências. O vice-prefeito Rodrigo Coelho me deu um bom impulso depois de ver um trabalho no colégio Laura Andrade.”

Há dois anos, ele recebeu do subprefeito da região Sul, Osmari Fritz, a incumbência de pintar o viaduto pela primeira vez, trabalho repetido agora. “Levei praticamente um mês para pintar esse mural, e tenho um projeto de retratar pontos turísticos da cidade”, conta, hoje à frente do microempreendimento individual Arte Visual Adilton.

No Carnaval passado, foi contratado pela primeira vez pela Diversidade, para colorir os carros alegóricos, missão renovada para o próximo desfile. “Já é algo diferente, pois a superfície não é plana, exigindo um trabalho mais minucioso”, acentua. “Espero que dessa vez o carro não enguice! Íamos ganhar fácil neste ano”, conclui, já demonstrando ter vestido a camisa da escola.

 

Serviço:

Arte Visual Adilton

Contatos: 47/8435-4831/9664-4549 / artevisual.adilton@hotmail.com / www.artevisualgraffit.webnode.com.br


Celso da Silveira comemora 40 anos de Embraco sem nem pensar em aposentadoria

Operário dedicado, ele se considera um homem com três casas, pois além da própria e da empresa, também tem a Associação Desportiva Embraco como uma extensão do lar

É comum uma pessoa, quando tem muitos anos de serviço num mesmo lugar, afirmar que “a empresa é minha segunda família”. No caso de Celso da Silveira, porém, a quantidade de lares aumenta. “A Embraco é minha segunda casa e a ADE (Associação Desportiva Embraco), a terceira”, admite emocionado, ao se referir à empresa onde comemorou 40 anos de dedicação e à recreativa em que extravasa o gosto pelo esporte e aumenta indefinidamente o círculo de amigos.

 

Fabrício Porto/ND
Silveira na rotina diária dos últimos 40 anos, na empresa que se tornou uma de suas três casas: ele é do tempo em que bastava uma kombi para transportar todos os funcionários 

 

Em novembro, na tradicional solenidade em homenagem aos veteranos, Silveira mais uma vez era o mais antigo. “Um momento especial, para estar com familiares e amigos que também estão na Embraco há muito tempo. Todos têm orgulho de estar nesta festa”, disse.

A história de Celso da Silveira, o primeiro dos quatro filhos de uma família de agricultores, começa em 1955, na localidade de Santo Antônio do Itaperiú, na época pertencente a Barra Velha e hoje bairro de São João do Itaperiú. “Eu tinha 14 anos quando minha família se mudou para Joinville, em busca de melhores oportunidades de trabalho para meu pai e estudo para os filhos”, conta ele, que concluiu o estudo básico no colégio Dom Pio de Freitas, no bairro Floresta, onde a família se estabeleceu.

 

Uma vida na Embraco

 

A primeira ocupação profissional de Celso da Silveira foi como aprendiz, na Motobombas Schneider. Três anos depois, em 1974, era admitido na Embraco. “Ainda que tenha sido criada três anos antes, foi em 74 que efetivamente a empresa iniciou a produção. Eu ainda peguei a fabricação dos primeiros lotes. Éramos apenas três funcionários no setor, e acompanhávamos a produção do compressor desde o início até ficar prontinho para a embalagem.”

Quem vê hoje as frotas de ônibus fretados que levam e trazem os funcionários a cada troca de turno, custa a acreditar em como era no início. Conta Silveira: “Eu pegava o ônibus de linha de casa até o Centro e lá uma Kombi levava todos os funcionários até a empresa”. Uma Kombi!

Logo, trocou a linha de produção pela preparação de máquinas, e já completa 30 anos na Manutenção da Montagem de Compressores. “Minha função é deixar os equipamentos sempre em ordem, para que o pessoal da produção possa executar um bom trabalho”, detalha.

Nestas quatro décadas, Silveira aprendeu muito: “A empresa preza demais o treinamento, pois os avanços tecnológicos são constantes. Já perdi a conta de quantos cursos fiz”. Na conta do aperfeiçoamento entra o período em que passou na planta italiana da Embraco. “Foi minha primeira viagem ao exterior, e deu tempo até de conhecer um pedacinho dos Alpes na Suíça.”

 

Marcelo Caetano/Divulgação/ND
A vice-presidente de Recursos Humanos, Relações Institucionais, Comunicação, Sustentabilidade e EHS, Ursula Angeli; Maria Teresa e Celso Silveira; e o presidente da Embraco, Roberto Campos

 

Outro momento emocionante – e neste ponto o relato é interrompido pelas lágrimas – foi o início do namoro com Maria Teresa de Oliveira, colega na Pré-Montagem. Eles se casaram em 1977, construíram casa no Costa e Silva e a família aumentou com os filhos Edson Luiz, 34, e Luiz Fernando, 24, e o neto Lucas, 16. Ambos os filhos são profissionais da área de tecnologia da informação. “Mas todos os meus irmãos já trabalharam na Embraco”, ressalta.

A emoção também aflora quando Silveira fala da Associação Desportiva Embraco: “É minha terceira casa. Participei de mutirões pra fazer campos, joguei futebol até precisar parar por causa de uma contusão e até hoje participo da organização de competições, especialmente nos jogos sesianos”.

Aposentadoria? “Nem penso nisso! Enquanto a empresa considerar meu trabalho adequado e eu tiver saúde, continuo.”

 

Com a palavra

“Conheço o Celso há muitos anos, desde o tempo em que participávamos dos jogos sesianos. O que sempre me chamou a atenção foi o seu gosto pelo esporte (é jequeano, mas que ninguém fale mal do Inter). Outra virtude é a seriedade com que se dedica às tarefas. Com ele, não tem meio termo, tem que fazer correto. Ah, e uma capacidade muito grande de fazer amigos.”

Acácio Martins, o radialista Cacá Martan, ex-colega de Embraco

 

 

 


Surdez não impediu Ednilson Kleinann de se tornar líder de equipe dos bombeiros de Joinville

O mecânico que se tornou bombeiro mergulhador nem se importa de ser chamado pelos colegas pelo apelido de Surdo
GERMANO RORATO/ND
Escalada. Surdo, como Kleinann é chamado pelos colegas, começou como mecânico, mas treinou para atuar como bombeiro efetivo

 

Quando está no plantão, no refeitório do quartel, o bombeiro Ednilson Kleinann costuma aumentar o volume da TV para compensar a deficiência auditiva. Ao retornar de alguma ocorrência, vai logo esbravejando com os colegas: “Pra que TV tão alta? São surdos?”.

A brincadeira está entre as muitas que o próprio Ednilson faz há tempos, conformado com o inevitável apelido de “Surdo”. Líder da equipe “Charlie”, uma das quatro em que se divide a corporação de bombeiros voluntários joinvilense, ele admite: “Não adianta invocar com apelido, pois aí é que pega mesmo. Levo numa boa, e nunca alguém me desrespeitou por causa disso”. Durante a conversa, ele prefere ficar de frente para o interlocutor, tanto para ouvir melhor, como para reforçar com a leitura labial, habilidade que vem desenvolvendo. “Tenho uns 60 por cento de audição hoje. Comecei a perder pelos 18 anos, pela exposição excessiva ao estrondo do canhão que operei durante o serviço militar, agravada por outros fatores como os ruídos altos no serviço de bombeiros e a prática do mergulho”, explica.

Joinvilense, nascido em 1969, Ednilson criou-se no Boa Vista, na chamada “rua da Prainha”. Desde pequeno, tem afinidade com a água: “Meu pai costumava me levar pra pescar no rio Cachoeira e na lagoa do Saguaçu. Remávamos até a ilha do Mel, e às vezes esticávamos até as ilhas do Cação e das Flores. Eu sempre gostei de remar, de pescar, de nadar...”.

 

De mecânico a líder

 

O primeiro emprego de Kleinann, após deixar o serviço militar, foi numa oficina mecânica. “Não era o que eu queria, e o cheiro da graxa não me fazia bem. Um dia, andando pelo Centro em busca de emprego, vi a torre dos bombeiros. Nem sabia que era o quartel. Entrei pra me informar e soube que havia uma vaga de mecânico. No dia seguinte, já estava empregado”, conta.

Assim, mesmo mudando de emprego, continuava às voltas com motores e muita graxa. Mas sentiu algo novo logo de cara. “Nos primeiros dias, me dava arrepios sempre que via viaturas saindo para as ocorrências. Aí pedi ao subcomandante na época, Renato Kühn, que me desse uma oportunidade de ser bombeiro.” Pedido aceito, em 1992 Kleinann assumia como plantonista.

“Era o ano do centenário, e a corporação passava por um processo de reaparelhamento, com novos equipamentos chegando, o que exigia muito treinamento. Participei de um grupo de aspirantes muito bom, do qual fazia parte o atual comandante”, relata, referindo-se a Heitor Ribeiro Filho (perfil em 19/11/13).

Efetivado na equipe, Kleinann – já oficialmente o “Surdo” – queria se aperfeiçoar mais. “Como sempre gostei da água, queria aprender a mergulhar. Quem muito me ensinou as manhas da ação foi o Ganso, um grande amigo que fiz aqui”, diz, emocionando-se ao relembrar de Vilmar Cidral da Costa, falecido em acidente de trânsito há anos.

 

 

“As paixões do Ednilson são a família,

o corpo de bombeiros e a Vila da Glória.”

Heitor Ribeiro Filho, comandante, sobre o líder da Charlie

 

 

Surdo foi se aprimorando e galgando posições na corporação: passou a subchefe e há 12 anos assumiu a coordenação de uma das equipes, a “Charlie” – as outras são “Alfa”, “Beta” e “Delta”; cada equipe é formada por cerca de 25 bombeiros efetivos mais alguns voluntários, atuando no esquema de revezamento 12 por 36 horas. Os turnos da “Charlie” vão das 18h30 às 6h30 da manhã seguinte. “Durante a madrugada há menos ocorrências, mas acidentes de trânsito geralmente são mais graves, por envolver excesso de velocidade e embriaguez”, explica.

Das incontáveis ocorrências que guarda com mais nitidez, Surdo cita a ocasião em que, junto com os colegas Ganso e Biguá, trabalhava no resgate do corpo de uma vítima de afogamento na Enseada e o barco dos bombeiros enfrentou marola forte nas proximidades das pedras. “Tudo serve de lição”, garante.

Nos fins de semana e nas férias, Surdo pode ser encontrado na Vila da Glória, onde tem casa e costuma praticar pesca esportiva. Além disso, junto com um cunhado faz bicos levando clientes para pescar. A água sempre continua por perto.

 

PERFIL SUGERIDO PELO LEITOR (E BOMBEIRO DA EQUIPE “CHARLIE”) ANDRÉ GEISER


Família Santos comemora Natal com decoração e delícias feitas em casa por todos os integrantes

Peças de artesanato, inicialmente produzidas somente para a decoração da casa da família, hoje são disputadas pelos amigos
Fabrício Porto/ND
Criatividade à solta. Leonir descobriu o artesanato como hobby e “contaminou” os demais. O marido e a filha se destacam também na cozinha

 

Reunir a família no Natal, ter sobre a mesa o resultado do esforço de todos, da comidinha aos enfeites. É o que acontece na casa de João dos Santos, no bairro Adhemar Garcia. “Gostamos de ter a família reunida nessa data, um grande momento de confraternização”, diz João. Ele, além de pilotar a churrasqueira, também faz bonito na cozinha, tanto sozinho, preparando elaborados pratos, como auxiliando a filha Francine. E ainda ajuda a mulher, Leonir, no minucioso trabalho artesanal, elaborando belas peças de decoração.

Joinvilense, há dois anos Santos trabalha na Schulz, onde é operador de máquinas CNC na Usinagem. Sua atração pela cozinha começou há alguns anos, quando um amigo o convidou para uma paella. “Ele me incentivou a meter a cara e preparar a paella também. Experimentei, fui bem e desde então venho me aperfeiçoando. Sigo receitas de livro, e hoje, além da paella, faço um excelente salmão”, gaba-se.

“Meu pai sabe mesmo preparar os pratos, e me ajuda também nas sobremesas”, reforça a filha, Francine Helena, 27. Com planos de casamento para o ano que vem, Francine especializou-se no chocotone recheado com sorvete. “Aprendi os segredos da culinária com minha mãe. Depois, foi só questão de aprimorar. Gosto de colocar capricho em tudo que faço, ainda mais quando se trata da ceia de Natal, um momento especial para a família”, diz Fran.

No Natal, junta-se à família o outro filho, o radialista Cleiton Bernardes, 33. “Ele só participa do banquete, deliciando-se com o que nós preparamos”, entrega a irmã.

 

Arte contra a depressão

 

“Eu até sabia fazer algumas coisas. Mas há alguns anos, para enfrentar um quadro de depressão, fui aconselhada a buscar distrações, hobbies, e optei pelo artesanato, começando pelos básicos crochê, tricô, ponto-cruz... Daí gostei e só evoluí”, conta Leonir, 53, conhecida como Nena. E aprendeu com quem? Com a mãe? “Que nada! Minha mãe detestava tricô, crochê, essas coisas. Aprendi sozinha e fui pesquisando. Tem muita coisa na internet, é só procurar.” Nena também troca experiências com amigas em encontros semanais do grupo Arte Ágape, da comunidade Siloé da Igreja do Evangelho Quadrangular, da qual a família é fiel.

O quarto que era do filho virou ateliê, e Nena utiliza basicamente matéria-prima reciclada. “Qualquer pedacinho de tecido serve, é só questão de usar a imaginação”, atesta, mostrando uma pequena árvore de Natal feita de retalhos e guarnecida de botões, fitas e outros adereços. Pelos cômodos da casa, nessa época do ano, espalha-se a produção natalina, tanto a da família quanto as encomendas. “Quando as pessoas vão espalhando, as encomendas aumentam”, anima-se Nena, exibindo um belo boneco de neve já vendido. “A comercialização das peças , diz ela, visa tão somente a reforçar o caixa para adquirir mais material. “O lucro é mínimo, vale a satisfação de ver o trabalho bem-feito.”

Até para a execução das peças, o ferramental tem itens feitos em casa, como uma pequena tábua de passar roupa, apropriada para o artesanato. “Eu que fiz essa!”, apressa-se em esclarecer o “auxiliar” João, também demonstrando habilidade artesanal.

Neste Natal, os Santos vão juntar a decoração e as delícias culinárias na casa de amigos. “Vamos celebrar com um colega que vai passar o primeiro Natal na casa própria”, explica João. À mesa, peru, churrasco, frutas, acompanhamentos e, de sobremesa, o chocotone recheado da Francine. Tudo em meio às decorações da Nena.

 

Contatos:

Nena Artesanatos

Telefone 8402-2455

Facebook.com/artesnena

 

 

Fabrício Porto/ND
Panetone da Fran, com recheio de sorvete

 

Receita

 

Chocotone Recheado da Fran

 

Ingredientes

1 Chocotone

1 pote de sorvete de baunilha e morango

1 barra de chocolate (pode ser branco)

1 caixa de creme de leite

Cobertura para sorvete sabor morango

 

Preparo

Derreta a barra de chocolate e misture ao creme de leite. Faça um furo no chocotone e preserve a “tampa”. Recheie com sorvete e coloque a “tampa” novamente. Cubra com a calda e decore com a cobertura.


Lisa e Alvino Ponnick selam 60 anos de cumplicidade, que resultou em uma grande e amada família

Ao comemorar as Bodas de Diamante, o casal dá a receita da felicidade: um dia um cede, depois, o outro

 

“Nós nunca brigamos.

Eu sempre falava tudo para

ele e ele concordava.

Tem que ter respeito, compreensão

e, principalmente, ceder um pouco.

Um dia um cede, e depois, o outro cede.”

LISA PONNICK

 

 

Fabrício Porto/ND
Aos 90 anos, Alvino Ponnick quase não entende mais as coisas, mas a fiel e sempre vaidosa Lisa Nane, aos 78, está sempre ali ao seu lado, compartilhando todas as decisões

 

Respeito, cumplicidade e carinho. Esses são apenas alguns dos segredos do casal Ponnick, que neste sábado (6) realiza grande festa para comemorar Bodas de Diamante. São 60 anos de história completados no dia 4. São décadas dividindo alegrias e dificuldades. Hoje, Lisa Nane Ponnick está com 78 anos e Alvino Ponnick tem 90. A idade avançada já impõe limitações físicas. Mas o casal ainda faz questão de morar sozinho para não incomodar os filhos.

Os frutos dessa união são sete filhos, três noras, quatro genros, 16 netos e três bisnetos. A emoção de olhar para trás e ver que tudo valeu a pena é clara no rosto de dona Lisa. Ao falar sobre sua história ao lado do amado e de tudo o que construíram juntos, ela enche os olhos de lágrimas e diz: “Não me arrependo de nada, apenas ainda tenho um sonho”. A limitação da idade não a impede de ser ousada.

Mesmo aos 78 anos e dificuldades para andar – hoje ela usa uma muleta – sonha em se mudar para uma casa toda construída de alvenaria. “Ainda quero uma casa toda de material”, dispara. Seu Ponnick tem dificuldade para ouvir, mas permanece o tempo todo por perto e tenta conversar conforme sua saúde ainda o permite. Ele está cego há 12 anos.

Mas nem as dificuldades físicas que chegaram com a idade escondem a alegria de viver deste casal. A história deles começou em 1953. A família de Lisa morava em uma casa onde hoje é o Recanto da Paz – espaço amplo para eventos, no bairro Itinga. Lá, a pequena casa ainda existe, mas não pertence mais à família dela.

Ponnick conseguiu um emprego em uma olaria próxima. Mas como morava no bairro Vila Nova, era muito longe atravessar a cidade de bicicleta para ir almoçar. O dono da olaria conhecia os pais de Lisa e perguntou se o novo funcionário poderia almoçar por lá. A presença do convidado para o almoço encantou a moça.

Então, numa tarde de domingo, durante a festa de inauguração da Escola Municipal Professora Lacy Luiza da Cruz Flores, os dois iniciaram o namoro. “O pai sempre ficava perto, nos olhando. Não podíamos ficar sozinhos para namorar”, conta dona Lisa. Eles não perderam tempo e um ano depois casaram. A data, 4 de dezembro, foi escolhida pelo pai de dona Lisa. “Queríamos que fosse antes, mas meu pai machucou a perna e tivemos que esperar até essa data”, recorda.

 

A vida a dois

Depois de casados, Lisa Nane Ponnick e Alvino Ponnick tiveram uma vida trabalhosa. Por 18 anos, ele trabalhou na Fundição Tupy. Como sempre moraram no bairro Itinga ou Santa Catarina, a distância até o trabalho era grande. Seu Ponnick fazia todos os dias os quase 15 quilômetros de bicicleta. Acordava às 4h da madrugada. Ela aproveitava e começava a trabalhar cedo.

Eles tinham muitas plantações e criações de animais. Logo depois que ele saía para trabalhar, ainda de madrugada, ela começava a cortar o trato para os animais, tirava o leite das vacas e recolhia os ovos. Se precisava ir a um mercado, ia de bicicleta, sempre carregando os filhos pequenos junto. “Era pesado, mas éramos mais felizes. Quando lembro, não sei como dava conta de tudo”, fala dona Lisa.

Era ela mesma quem costurava as roupas dos filhos e cortava o cabelo de todos. Hoje, cada um deles constituiu a própria família. Alguns moram próximos dos pais. Como dona Lisa e seu Ponnick já estão com idade bastante avançada, mas fazem questão de morarem sozinhos, todos os dias um dos filhos ou netos dá uma passada na casa deles.

 

Orgulho familiar

Mas na memória dos filhos, genros e noras estão guardadas para sempre a lembrança de um casal exemplar. “Eles são tudo para mim, um exemplo de vida. Ainda nos dão conselhos e se preocupam com cada um de nós, filhos, netos e bisnetos. Nunca vi meus pais brigando. Eu os admiro muito”, se orgulha uma das filhas, Anelore L. Guimarães Ferreira.

Outro filho, Osmar Alvino Ponnick, admira o respeito entre pai e mãe. “Ainda hoje, a mãe nunca faz nada sem falar com o pai, mesmo que ele já não entenda mais muita coisa e quase não escuta nada. Tudo ela fala para ele”, relata o filho. Para a nora, Nilza A. Ponnick, dona Lisa é como uma mãe. “Ela sempre foi guerreira, os dois são um exemplo”, resume.

E é justamente o relato dos filhos e nora que dona Lisa conta ser o segredo do relacionamento duradouro.


Sidnei Kieckhoefel se tornou luthier, e marca de instrumento musical, ao apostar tudo na guitarra

Da sala de casa, ele pulou para uma oficina nos fundos, e as encomendas não param de chegar
Fabrício Porto/ND
Kieckhoefel conseguiu transformar seu nome em marca cobiçada de instrumentos musicais

 

Nos fundos de sua casa, no fim de uma tranquila rua do bairro Costa e Silva, Sidnei Fernando Kieckhoefel tem uma oficina. E de lá, claro, saem sons. Só que, mais do que marteladas, brocas furando ou esmeril funcionando, o que mais reverbera daquele ambiente são acordes musicais. Ali, ele desempenha um dos mais delicados ofícios ligados à música: a fabricação de instrumentos. Ele é um “luthier”, o profissional dedicado à produção e regulagem de instrumentos – no caso, de corda. “Comecei na luthieria por causa da minha vontade de ter uma guitarra personalizada, instrumento que aprendi a tocar há alguns anos”, explica, mostrando a peça número 1, feita para um cliente carioca (e que no dia da entrevista, coincidentemente, estava na oficina para uma regulagem).

Nascido em Joinville há 34 anos, Kieckhoefel teve o primeiro contato com a música aos 13 anos, quando aprendeu a tocar teclado. Tocou na banda Razão Social, mas não pensava seguir carreira artística, tanto que formou-se em administração de empresas. “Cheguei a passar para engenharia civil, mas como o curso era em período integral, não daria para conciliar com o trabalho”, justifica ele, que passou pela Busscar (onde pai e mãe também trabalharam), pela Athletic, teve uma imobiliária, uma empresa de software, foi representante comercial e trabalhava na Nextel quando decidiu tomar outro rumo.

 

O chamado da música

 

“Havia deixado de lado a ideia de tocar guitarra e ocupei o tempo com minhas habilidades manuais. Desde criança, gostava muito de construir maquetes, e durante um tempo tive como hobby a construção e manutenção de aeromodelos”, relata. Em 2009, a turma da adolescência resolveu se reunir novamente, formando uma nova banda, a Kevo.

Em vez do teclado, Kieckhoefel assumia a guitarra. “Resolvi levar o desafio a sério, comprei uma guitarra e comecei a fazer aulas. Logo notei que precisava regular o instrumento, e, além disso, queria fazer algumas customizações. Nessa época, conheci o Renatinho, um luthier de Itajaí, que começou a fazer serviços de manutenção e regulagem na minha guitarra.” Devido ao trabalho na Nextel, viajava a Itajaí toda semana, e logo começou a levar instrumentos de amigos para regular. Foi aí que, estudando o mercado joinvilense, percebeu que havia demanda e foi à prática. “Comecei regulando minha guitarra, depois a de um amigo... Meu professor, Edson Baumer, me deu uma guitarra para reformar. A partir de então, comecei a levar a sério e acabei descobrindo uma paixão.” E, também, um bom negócio.

Investiu em peças e ferramentas, quase tudo importado, e transformou a sala de casa em oficina. Com MBA em marketing, assumiu sozinho a administração da SK Luthier, foi conquistando clientes e da regulagem passou para a fabricação. À guitarra do cliente carioca, seguiram-se outras, entre elas a que seu professor, Edson Baumer, exibia na foto do seu Perfil (publicado há uma semana). A oficina deixou a sala – para alívio da mulher, Débora – e ganhou espaço próprio. Com o trabalho aumentando dia a dia, contratou um auxiliar, o também músico Lucas do Prado Correa, 20, vocalista da banda Reincidência. “Esse eu quase carreguei no colo”, brinca Kieckhoefel, que teve o pai de Lucas, Jamerson, como parceiro na antiga banda.

A marca SK aparece hoje nas guitarras dos músicos patrocinados Gustavo Guerra, Bruno Simas e Edson Baumer. A empresa atua na fabricação de guitarras e baixos personalizados, além de realizar manutenção, regulagem, restauração, customização e reforma de instrumentos como guitarra, baixo, baixo vertical, violão, viola, cavaquinho, ukelele, banjo, alaúde, bandolim, guitarra portuguesa e outros instrumentos de corda.

Planejamento não falta: “Tenho planos de ampliação para o ano que vem, com mais espaço para a fabricação. Para 2016, o projeto é fazer um curso de luthieria na Inglaterra, levando o Lucas junto”.

 

 

Serviço

O quê: SK Luthier, regulagem e fabricação de instrumentos de corda

Onde: rua Laranjeiras do Sul, 288, Costa e Silva

Contato: 47/3026-5213 / 9993-8333 – skluthier@gmail.com – facebook.com/skluthier

 


Ana Flávia Gomes transformou a cozinha de casa num ateliê de delícias que também enchem os olhos

Ela capitalizou o talento genético e conseguiu aumentar a renda da família. Encomendas não faltam
Fabrício Porto/ND
Além da herança genética, em suas receitas Ana Flávia une muito recheio, bons ingredientes e uma boa dose de criatividade

 

“Minha mãe era uma doceira das melhores, e também produzia para fora. A torta mesclada que ela fazia era insuperável! Acabei herdando esse dom para a doceria.” A explicação, com o devido crédito para dona Alzira, é dada por Ana Flávia Gomes para justificar a fama que vem conquistando com suas delícias. Nesta época do ano, o verde-e-vermelho natalino predomina nos arranjos que enfeitam os panetones, chocotones, brigadeiros e cupcakes que saem de sua cozinha. “Meu melhor marketing tem sido o boca-a-boca, além das redes sociais. Agora, quanto mais perto do Natal, maior a procura”, exulta Ana Flávia, às voltas com encomendas de panetones, marmitinhas, cestas e arranjos.

Aos 35 anos, nascida e criada no Iririú, Ana Flávia iniciou carreira escolar no Colégio Santo Antônio, seguido do Elias Moreira. Mas o ensino médio acabou sendo concluído no Nordeste brasileiro, por conta das obrigações profissionais do pai. “Eu tinha 16 anos quando fomos morar em São Luís. Depois, passamos por Teresina e Recife, onde me formei no magistério, imaginando ser professora. Cheguei a fazer estágio num colégio no Recife, mas só para descobrir que aquela não era minha vocação.”

De volta a Joinville, passou no vestibular para comunicação social no Ielusc. “Como uma das minhas características era ser comunicativa, achei que o jornalismo seria uma opção melhor”, justifica. Até poderia ser, mas... “No meio do curso engravidei, e desisti para cuidar do meu filho, Nicolas, hoje com 12 anos.” O filho e o marido, Denis, por sinal, são os “provadores oficiais” da gourmet.

 

 

Aposta certeira em nova opção de renda

 

Ana Flávia trabalhava no cartório Braga, como escriturária, quando um dia decidiu se lançar no ramo dos doces. “Além do que aprendi com minha mãe, tinha feito um curso com a Rochelle, dona de uma confeitaria famosa em Curitiba. Empolguei-me e continuei fazendo cursos, de brigadeiro gourmet, ovos trufados de colher, cupcakes... Meus primeiros clientes foram, além dos amigos, os colegas do cartório.”

Com o crescente sucesso, tomou a decisão de deixar o emprego e fazer da arte culinária um reforço no orçamento doméstico. Aprendeu mais receitas, aprofundou-se na doceria gourmet, investiu em equipamentos e foi à luta. Como instrumentos de marketing, os já citados boca-a-boca (em todos os sentidos) e redes sociais, especialmente o popular Facebook. “No início foi difícil, não conseguia ter lucro, pois tudo que ganhava era reinvestido em equipamentos, matéria-prima e materiais de decoração”, acrescenta.

Outro complicador é a dificuldade para encontrar tudo no mercado local: “Utilizo basicamente chocolate belga, importado. Não tenho linha de produção, tudo é artesanal, bem pessoal. O termo ‘gourmet’ não é apenas para enfeitar; ele significa uma culinária elaborada, exigente, de alto valor agregado”. Em alguns casos, ela encontra bons fornecedores locais: “Os panetones, por exemplo, mando fazer na Panificadora Lev Pão, aqui do Bucarein. É uma massa fresquinha, sem conservantes, que depois recheio com minhas receitas”. Os recheios incluem brigadeiro ao leite belga, trufado de maracujá, creme alpino com frutas vermelhas e doce de leite com nozes, entre outras delícias. Um panetone/chocotone é vendido por R$ 50, seja qual for o sabor. “A massa tem meio quilo, mas quando fica pronto chega até a um quilo e 100”, explica a doceira.

A produção de Ana Flávia inclui linhas de brigadeiros, bolos no pote, cupcakes, sobremesas, pães de mel, bolos de bombons, kits e cestas. Para facilitar a escolha, ela hospedou o cardápio no site Yummmy. Após a encomenda, a entrega leva de um a três dias, dependendo da opção escolhida. Passados Natal e Ano Novo, Ana Flávia já começa a pensar na Páscoa.

 

Agora, o tema natalino domina a cena, mas passado o Natal, Ana Flávia já começará a testar suas receitas para a Páscoa

 

RECEITA

A quituteira aceitou dividir a receita de uma das delícias que produz com os leitores do ND. Experimente!

 

Chocotone de Doce de Leite com Nozes

Ingredientes:

1 chocotone Bauducco (ou de sua preferência)
Doce de leite de sua preferência (eu uso o leite condensado cozido na panela de pressão)
100 gramas de nozes picadas
100 gramas de chocolate fracionado para cobertura Sicao (ou de sua preferência)
Nozes, damasco, cerejas para decorar.

Modo de preparo:

Recheio:

Misture o doce de leite com as nozes picadas. Bata bem até ficar cremoso. Reserve.

Cobertura:

Coloque o chocolate em um recipiente de vidro, e coloque por cerca de 40 segundos no microondas até que o chocolate derreta por completo.

Montagem:

Corte a tampa do chocotone. Retire o miolo e reserve.
Vá intercalando camadas do recheio de doce de leite com nozes e o miolo do chocotone. Finalize com uma camada de recheio e coloque a tampa do chocotone.
Jogue o chocolate derretido por cima e enfeite com as nozes, damascos e cerejas.

Serviço

Para escolher produtos da Ana Flávia, basta acessar www.yummmy.com.br/anagourmetatelierdedoces. Depois, ligar para 47/3207-3411 ou entrar no Facebook Ana Flávia Gomes.


Guilherme Tadeu Uliana, o “Bigode”, descobriu no muay thai um novo rumo para a vida

Ele defende a disciplina no tatame e na vida como chaves para o sucesso

“Respeitar”, a palavra que inicia os cinco primeiros “mandamentos do muay thai”, é o verbo que Guilherme Tadeu Uliana mais procura conjugar na vida, seja no tatame, em treinos, competições e dando aulas, seja na vida em família e, acima de tudo, na sociedade. “Como em todas as artes marciais, também no muay thai aprendemos a demonstrar respeito, manter disciplina, bons hábitos de saúde e amor pelo esporte. Desde que decidi tornar esta modalidade meu ganha-pão, sigo os mandamentos à risca”, garante “Bigode”, como é conhecido nos meios esportivos o atleta e professor.

 

Fabrício Porto/ND
Aos 23 anos, Guilherme já foi tricampeão catarinense, brasileiro e sul-americano, entre amador e profissional

 

Natural de Joinville, aos 23 anos Guilherme já coleciona diversos títulos no esporte. Na infância, porém, dedicava-se às atividades corriqueiras de qualquer guri, jogando bola e se divertindo com os amigos no bairro Saguaçu, em que se criou. Do Colégio Adventista foi para o Senai, onde concluiu o ensino médio com o diploma de técnico em usinagem. “Cheguei a trabalhar um ano numa empresa de usinagem, como operador de máquina CNC. Mas a experiência só serviu para ter certeza de que aquela não era minha vocação”, admite.

Guilherme já gostava de “brincar de luta” com o irmão mais velho, Afonso, mas a inspiração para as artes marciais surgiu quando estudava no Senai. “Uma amiga me sugeriu entrar numa academia. Como na época, além das lutas com meu irmão, eu era fã do filme ‘Ong Bak’, acabei encarando o desafio.” (“Ong Bak – Guerreiro Sagrado” é uma produção tailandesa de 2003, dirigida por Prachya Pinkaew, em que uma pequena e tranquila cidade vê a cabeça de uma de suas principais estátuas, a do buda Ong Bak, ser roubada; um jovem guerreiro, lutador especializado em muay boran, um tipo de arte marcial antecessora do muay thai, vai em busca do ladrão até Bangkok, capital da Tailândia, para recuperar Ong Bak)

 

Campeão e professor

 

Guilherme Tadeu tinha 15 anos e só o esboço do bigode que o tornaria conhecido (e que não usa mais), quando pisou pela primeira vez num tatame, na academia de Júnior Aguiar, seu primeiro professor. E já percebeu que ali estava seu futuro: “Já me dei bem desde o início, muito graças à competência e ao incentivo do Júnior, um grande mestre. Comecei a disputar competições internas, ganhei títulos fora da academia e me decidi a ser professor” – e o irmão desisiu das brincadeiras de luta.

Guilherme admite, porém, que no início o receio de enfrentar adversários fora da academia era grande: “Deu muito frio na barriga quando encarei minha primeira competição, ainda como amador, num torneio entre academias em Indaial, há cinco anos. Ganhei a primeira luta e perdi a segunda. Mas ganhei, sobretudo, a confiança para seguir em frente e tornar o muay thai minha profissão”.

As injeções naturais de adrenalina que o próprio organismo se aplica, garante Guilherme, de repetem a cada vez que pisa no tatame para mais uma luta. Da sua segunda experiência, em Curitiba, saiu com o nariz sangrando, mas com o orgulho intato. Em 2013, enfim, estreou como profissional, na categoria 67 a 71 kg, num torneio em São João Batista. “Numa luta de três rounds terminada em empate, precisei lutar um round extra, saindo vencedor por pontos”, recorda. A partir de então, a prateleira começou a se encher de medalhas e troféus. Entre os períodos amador e profissional, Guilherme já foi tricampeão catarinense, brasileiro e sul-americano.

A maior vitória, porém, vem da certeza de ter escolhido o caminho certo: “Comecei a dar aulas em setembro de 2011, e hoje tenho quase setenta alunos”. Além de treinar e ensinar no tatame onde tudo começou, Guilherme (contatos pelo 9926-9953) utiliza instalações de outras academias da cidade como Sport Fit, One, Clínica Vasti, Corpo e Ação e Summit. Terceiranista de Educação Física na Univille, sonha em viajar pelo mundo depois que se formar: “Quero conhecer Holanda e Tailândia, as mecas mundiais do muay thai”.

 

 

10 mandamentos do muay thai:
1- Respeitar os pais
2 - Respeitar o mestre e/ou professor
3 - Respeitar os mais graduados
4 - Respeitar os mais fracos
5 - Respeitar os mais fortes
6 - Nunca agredir
7 - Utilizar as técnicas do muay thai somente para defesa
8 - Treinar sempre
9 - Manter o caráter e a honra em primeiro lugar
10 - Ter amor à equipe, a segunda família


Roque Mattei dá um tempo na Sociesc para se colocar a serviço da educação municipal joinvilense

Secretário de Educação defende a evolução tecnológica a serviço do ensino, tanto que rede pública está distribuindo tablets para os estudantes, entre outras iniciativas
Fabrício Porto/ND
O secretário municipal de Educação, Roque Mattei, mudou sua rotina dia destes para visitar a Escola de Educação Básica Antônia Alpaídes, no bairro Nova Brasília, em Joinville, onde começou a vida profissional

 

“A questão não é simplesmente proibir o celular ou i-phone na sala de aula, mas utilizar o equipamento como uma ferramenta de apoio. Precisamos nos adaptar à evolução tecnológica, sob pena de pararmos no tempo.” A opinião é de quem contabiliza quase três décadas de ensino e hoje, à frente do principal órgão gestor do município, a Secretaria de Educação, sente na pele as agruras da administração. Roque Antonio Mattei vem construindo, desde que prestou o primeiro vestibular, uma carreira devotada ao ensino.

Ainda que tenha nascido em Orleans, em 1963, Roque Mattei se considera joinvilense. “Minha família veio para cá quando eu tinha dois anos, e acompanhamos o crescimento do bairro Boa Vista, onde moro até hoje. Meu pai trabalhou na Tupy uns 20 anos, e eu cheguei a fazer estágio na empresa, antes de abraçar a carreira de professor”, conta o caçula de sete irmãos, bisneto de italianos.

Foi justamente na ETT (Escola Técnica Tupy), onde mais tarde faria carreira, que Roque Mattei iniciou a carreira escolar. “Na época havia desde o primário na instituição. Depois, fiz o antigo ginásio no Celso Ramos e retornei para a ETT, onde me formei técnico metalúrgico. Foi nessa época que cheguei a estagiar na empresa, como parte da grade curricular do curso.”

Mas a vocação para o magistério falou mais alto, e a Tupy ficou sem um metalúrgico. Em 1986, Roque recebia o diploma do curso superior de Matemática, feito na Furj (atual Univille). “Escolhi essa faculdade, em grande parte, influenciado pelo professor Marcos Holz, da ETT.”

 

Mercado perdeu um engenheiro, mas ganhou um professor

 

Encerrada uma faculdade, Roque logo emendou outra, de engenharia civil, na FEJ (hoje Udesc). Mas nunca exerceu a profissão, pois desde 1985 já dava aulas, como admitido em caráter temporário, no colégio Antônia Alpaídes, no Nova Brasília. Foi quando adquiriu seu primeiro carro, um Fiat Prêmio consorciado com um irmão: “Antes, era usuário de ônibus, desde o tempo em que ainda não havia linhas diretas. Mas morando no Boa Vista, estudando no Bom Retiro e dando aulas no Nova Brasília, o carro foi bem-vindo”.

Depois de uma breve passagem pelo colégio Dom Pio de Freitas, em 1986 Mattei enfim voltava às salas de aula da Escola Técnica Tupy, agora como professor no curso preparatório. No ano seguinte, era contratado em definitivo, lecionando matemática, física e matérias afins. O canudo de engenheiro civil ficou guardado.

Na ETT, os desafios eram superados ano a ano: “Em 1992, assumi a chefia do Departamento de Ensino, ainda conseguindo conciliar com a sala de aula. Em 96, fui nomeado diretor-adjunto, passando a diretor no ano seguinte, me responsabilizando sucessivamente por Escola Técnica, Instituto Superior e Ensino, quando se consolidou a Sociesc”. Pós-graduado em gestão empresarial e mestre em educação e cultura, Mattei leva a Sociesc não apenas no currículo, mas no coração: “Quando comecei a dar aulas, tínhamos 1.200 alunos, e hoje passamos de 30 mil. A instituição extrapolou em muito a necessidade da Tupy, sendo hoje uma referência em ensino no Estado, graças a administrações voltadas ao futuro e docentes comprometidos com a formação de cidadãos”.

Mattei já passou pelo Conselho Estadual de Educação, presidiu a Fampesc (Federação das Associações de Microempresas), foi do Conselho da Cidade, presidiu o núcleo de escolas da Acij e o Instituto Joinville e, em 2012, encarou mais um desafio, aceitando o convite do então prefeito eleito Udo Döhler para assumir a Secretaria de Educação. “Nosso foco principal aqui – pontua – é dar cada vez mais e melhores condições de trabalho. Temos um quadro docente de alto nível, como comprovam as diversas premiações ganhas e o alto Ideb, a administração não para de investir em novas escolas e a educação infantil é uma meta permanente.”

Durante a entrevista, após atender à ligação da filha Maria Paula, 15 anos, Roque comenta: “Acho que essa vai ser professora”. Além dela, ele e a mulher, Eliane – professora na Sociesc –, têm os filhos José Antonio, 12, e Pedro Henrique, 4.


Com vocação nata, Edson Baumer faz da guitarra seu instrumento de trabalho

Músico joinvilense se orgulha das conquistas dos alunos e não esquece de agradecer aos mestres e amigos com quem compartilha conhecimentos
Fabrício Porto/ND
Edson Baumer começou a atuar como professor aos 18 anos, realizando um sonho de infância

 

Edson Roberto Baumer sentia fluir o sangue musical nas veias desde criança, vendo o pai dedilhar o violão. Aos oito anos, já também sabendo tocar, ganhou seu primeiro instrumento. Foi em frente, estudou muito, ralou em diversos empregos e, enfim, aos 18, tornava a música seu ganha-pão, como professor. Seu pensamento é sintetizado na missão a que se propôs: “Instruir sempre, buscando o ensino com qualidade, de forma individualizada e consciente, para que o aluno entenda e possa buscar com os próprios passos o objetivo musical”. Hoje, além de manter seu próprio instituto, Baumer dedica-se à banda Noa, montada com amigos e buscando espaço no cenário artístico joinvilense.

Nascido em 1977 e criado no bairro Atiradores, Edson Baumer “levava uma vida sossegada”, estudando nos colégios Conselheiro Mafra, Elias Moreira e Nova Era e curtindo o rock dos anos 80. “Mesmo não tendo vivido a época anterior, era empolgado com o som de bandas como Led Zeppelin e Black Sabath. Devo a essa influência minha paixão pela guitarra”, diz, acariciando o modelo feito sob encomenda pelo luthier local Sidnei Kieckhoefel. Ainda que esta guitarra tenha as tarraxas viradas para baixo, o músico não é canhoto: “É só uma questão de estética”, explica.

Antes de pensar em viver da música, Baumer deu seu apoio no orçamento familiar trabalhando na Tupy, na Sotênis, na Bikemania e na Embraco. Foi ali que sentiu ser a hora da virada: “Trabalhava na linha de produção, mas vi que não era minha senda. Tinha 18 anos quando decidi me dedicar aos estudos e ensinar música”.

 

 

                                             “Tanto para professor quanto para aluno,

                                                dedicação é a chave para o sucesso.”

 

 

Estudo, dedicação e reconhecimento

 

Com a guitarra que ganhara da família, Edson Baumer começou a fazer cursos. “Meu primeiro professor foi Fábio Bernardes”, dá o devido crédito, acrescentando à lista profissionais de Joinville, como Neto Stenger, outros de São Paulo, Curitiba e Itajaí. “Quando fiz um curso em São Paulo, encarava a viagem de ônibus uma vez por semana. Mas valeu a pena, pois lá aprendi muito e conheci pessoas do meio musical. Muitas me alertavam que no Sul eu encontraria profissionais talentosos, e foi assim que conheci mestres e amigos como André Hernandes, Gustavo Guerra, Renatinho da banda Stauros de Itajaí, Kiko Loureiro e Cássio Moura, entre outros.” Alguns deles, mais tarde, Baumer trouxe a Joinville, para apresentações e workshops.

Mesmo com a veia roqueira, o músico transita por todas as vertentes e estilos: “Eu diria que minha área é o fusion, sempre buscando tirar da guitarra experimentos novos, mudando a roupagem do que já existe”. Há três anos no endereço atual, no início da rua Anita Garibaldi, Baumer divide o espaço com o colega Juninho Salves, professor de violão e baixo. “Sinto um grande orgulho ao ver algum ex-aluno conquistando espaço no cenário artístico”, emociona-se, apontando Carlos Eduardo Puccini da Silva, o Cadu (perfil do dia 15/11) e o já citado Sidnei (dono da marca SK Luthier).

Além das aulas, Baumer frequenta os meios musicais, seja em duo com o amigo César Silveira, com quem se apresenta todos os domingos à noite no Opa Pórtico, seja com a banda Noa (que foi lançada oficialmente na cidade no sábado passado, no Palácio da Sinuca).

Na lista da gratidão, além dos diversos mestres, desde o pai até os atuais colegas, Edson Baumer reserva um obrigado especial à mulher, Tatiani. “Há dez anos ela é minha maior incentivadora, me ajuda na administração da empresa e me ajudou a colocar no mundo alguém que já demonstra ter o sangue musical nas veias”, diz, referindo-se ao pequeno Igor, de um ano e meio (ele também é pai de Yuri, de 12 anos).

 

Serviço

O quê: Instituto Edson Baumer

Onde: rua Anita Garibaldi, 54

Contatos: telefones 47/3028-8295, 9142-8295 e 9681-9931; e-mail edsonbaumerguitarra@gmail.com; Facebook edson.baumer

 

PERFIL SUGERIDO PELO EX-ALUNO, HOJE MÚSICO, CADU PUCCINI DA SILVA


Talita Fernanda Bolduan, a menina que vê com olhos que nenhuma doença pode tirar dela

Prestes a se graduar em letras e pós-graduada em educação especial, a cegueira, doença que se manifestou no berço e à levou à perda gradual da visão, nunca foi empecilho para que ela estudasse e desse vazão à criatividade como escritora
Fabrício Porto/ND
Talita Fernanda em seu novo local de trabalho, o Museu Nacional de Imigração e Colonização, onde atua no projeto de acessibilidade

 

 

“Sempre assisti aulas em salas normais, com os demais alunos e quando deixei de enxergar de vez, continuei lendo e estudando em braile e com audiolivros. Agora, quero me dedicar a auxiliar outras pessoas com dificuldades.” Assim, Talita Fernanda Silva Bolduan justifica sua atual – e nada leve – agenda: das 8 às 14 horas trabalha na equipe do projeto de acessibilidade do Museu Nacional de Imigração e Colonização; chegando em casa, no Boehmerwald, lê e estuda, preparando o TCC do curso de letras da Univille, prestes a ser concluído; corre atrás de verba para editar seu segundo livro; e aguarda ser chamada para dar aulas na rede municipal de ensino, para a qual foi aprovada em concurso. Para essa última meta, vai ser de muita valia a pós-graduação que já fez em educação especial. Tudo isso com 21 anos e sem enxergar absolutamente nada.

Há uns dois anos, quando saiu seu primeiro perfil no ND, Talita trabalhava na Câmara de Vereadores. Depois deu aulas de informática na Ajidevi (Associação Joinvilense de Integração dos Deficientes Visuais) e há dois meses assumiu uma vaga de agente administrativo no Museu do Imigrante (passou em concurso para um contrato de dois anos). Foi em 2012, também, que lançou seu primeiro livro, “Além do que os Olhos Mostram” (Editora Dialogar).

Joinvilense, Talita Fernanda nasceu com baixa visão. Enxergava 18% em um olho e 3% no outro, diagnosticada com retinopatia da prematuridade, originada em uma toxoplasmose. “Graças à educação que recebi, a dificuldade visual em minha vida jamais foi vista como vilã, mas como uma fonte de inúmeras oportunidades”, conta ela.

Com 12 anos começou a perder a visão e aos 14 ficou completamente cega. “Agradeço por minha perda visual ter sido gradual e porque tive o período de dois anos para me adaptar a um novo modo de ver o mundo, utilizando olhos que jamais falham.”

Na escola, problemas com preconceito não faltaram. “Quando enxergava pouco, era a cegueta; depois, totalmente cega, despertava excesso de piedade.” Mas sabia se defender. “Ela é que arrastava os guris pelos cabelos até a diretoria”, entrega o mano Anderson, 12 anos, entre colheradas de cereal com leite devorado durante a entrevista.

 

 

Carlos Junior/ND
Sorriso de menina, compromissos de adulta e determinação de vencedora: ela agora busca por editais de incentivo à cultura para publicar um romance

 

Escrevendo desde criança

 

A inspiração para abraçar a carreira de escritora veio na infância: “Nasci em Joinville, e aos dez anos morei em Jacarezinho, no Paraná. Naquela cidade ocorreram as maiores mudanças da minha vida. Na Associação Jacarezinhense de Atendimento ao Deficiente Auditivo e Visual conheci uma menina cega que escrevia histórias e acabou se tornando minha fonte de inspiração para que eu me tornasse escritora. Por ser criança e ainda enxergar, escrevia os meus ‘livros’ com ilustrações. As histórias giravam em torno de bruxinhas ou crianças aventureiras”.

Inspirada por Carolina Reis Dal Bon, a menina de Jacarezinho, Talita começou a escrever romances, percebendo que a criatividade fluía de modo mais natural. No livro “Classificação Internacional de Funcionalidade – Relatos de Experiências de Inclusão Social”, recentemente lançado pela terapeuta ocupacional joinvilense Silvane Penkal, no qual é uma das entrevistadas, Talita relata: “A esta altura, já tinha meus 12 anos. Tenho alguns esboços a tinta (escrita comum para quem enxerga) e, conforme fui perdendo a visão, troquei os lápis e canetinhas pela máquina braille e, mais tarde, o computador. Já escrevi histórias que levei dois meses para criar, tanto quanto já escrevi livros que demorei mais de um ano”.

A obra à qual dedicou mais tempo é justamente a atual, “Esqueça-me Se For Capaz”, um romance envolvendo histórias de perda de memória e deficiência visual. “Estive por cerca de dois anos envolvida com o processo de criação desta obra e pretendo publicá-la o mais breve possível”, antecipa a autora, sempre atenta aos editais e programas de financiamento.


Cadu Puccini, um artista múltiplo que se realiza desenhando, tocando e curtindo ficção científica

Filho único do músico Carlos Alberto da Silva, o Betinho, Carlos Eduardo Puccini da Silva sempre viveu cercado pela arte, mas aprendeu com o pai que teria que ter outra profissão, e optou pela informática
Fabrício Porto/ND
Cadu sempre viveu cercado pela música e pelos instrumentos musicais: sempre aprendendo e descobrindo

 

 

Desde que nasceu, há quase 26 anos, Carlos Eduardo Puccini da Silva, o Cadu, vive cercado pela arte, em diversas manifestações. Começou pela música, ouvindo o pai tocar; continuou pela ficção científica, em obras literárias e cinematográficas; e prossegue pelo design gráfico, hoje sua principal ocupação profissional.

“A arte é uma opção, e está presente em tudo. Como artista e admirador, procuro buscar referências em todo lugar”, diz Cadu, na “sala-estúdio” que divide com o pai, o músico Carlos Alberto da Silva, mais conhecido como Betinho (perfil em agosto passado). Pelo ambiente, além de equipamentos eletrônicos, violões e guitarras, espalham-se os chapéus que viraram marca registrada de Betinho.

Criado no Bucarein, Cadu, filho único de Betinho e Cristina e neto de Vilmar Puccini, ex-goleiro do Caxias, descobriu muito cedo o chamado da música. “Meu pai tocava sempre que estava em casa, e acabou sendo uma influência natural. Aprendi a tocar violão ainda criança, passei para a guitarra devido ao gosto pelo rock, especialmente Stones e Creedence”, conta, dando também o devido crédito aos professores Douglas Silva, Neto Stenger e Edson Baumer.

Quando encerrou o ensino fundamental, no Colégio Bom Jesus, Cadu aceitou a argumentação do pai e matriculou-se na Sociesc. “Ele me dizia que, na Sociesc, eu poderia fazer o ensino médio e também já aprender uma profissão.”

Optou pelo técnico em informática, e depois de formado foi trabalhar na Totvs, onde chegou a coordenador de Tecnologia da Informação. Mas o chamado da arte foi mais forte, e em 2011 Cadu era um dos concluintes da Faculdade de Design Gráfico da Univille. Ainda durante o curso, estagiou durante dois anos na Whirlpool, trabalhou um tempo como free lancer e, em 2012, abriu sua própria empresa, a Signia Digital, especializada em ilustrações em 3D.

 

De Stones a Star Wars

 

“A música, infelizmente, ainda é vista na nossa sociedade como simples entretenimento. É um estigma social que torna difícil sobreviver da arte, exigindo muita dedicação e carga dobrada de trabalho”, lamenta o músico. O expediente duplo ou triplo, no caso dele, ganha espaço na agenda graças à equipe com que conta na agência.

“A maior parte da agenda é dedicada ao principal ganha-pão, e procuro conciliar com os compromissos da banda e com o aprimoramento”, acentua Cadu, guitarrista na Paratodos, a banda do pai. No capítulo do aperfeiçoamento, está a prática da viola caipira, outro dos instrumentos tocados pelo músico. “A viola caipira tem uma sonoridade própria, cativante”, acrescenta.

Na sala do apartamento, uma prateleira está tomada por bonecos reproduzindo os personagens da saga “Star Wars”. Fã incondicional de ficção científica, Cadu lê e assiste o que puder dentro do gênero. “Prepare-se para três horas que passam rápido, pois o filme é bom”, adverte ao repórter, resumindo sua opinião sobre a produção “Interestelar”, em cartaz nos cinemas. “A ficção científica tem muito de filosófico e psicológico, mostrando a visão que os autores têm ou tinham em determinadas épocas”, teoriza, citando também entre seus favoritos os escritores Júlio Verne, Isaac Asimov e Arthur Clarke e o cineasta russo Andrei Tarkovski, diretor da primeira versão cinematográfica do livro “Solaris”, do polonês Stanislaw Lem. Claro que nos filmes, além do roteiro, Cadu dedica atenção especial à trilha sonora.

 


À frente da empresa, na Câmara ou em entidades, o compartilhamento é o lema de Rogério Atanázio

Administrador e defensor ferrenho do associativismo, ele se divide entre muitas paixões, sempre com muito profissionalismo
Luciano Moraes/ND
Rogério Genésio Atanázio em frente à Câmara de Joinville, onde exerce função de diretor administrativo: obtendo resultados

 

Defensor ferrenho de todo tipo de associativismo, Rogério Atanázio vem comprovando tal posição ao longo da vida: “Já fui presidente da Ajao, da Ajorpeme, participo da Fundação Pauli Madi e atualmente me dedico de forma mais intensa à direção administrativa da Câmara de Vereadores, um desafio diferente e compensador pelos avanços que temos conseguido”. Além disso tudo, reserva tempo para a família, os amigos e outras duas paixões: o JEC e o Palmeiras.

Nascido em Joinville em 1968, Rogério ganhou o nome do meio, Genésio, em homenagem ao pai. “É tradição na família. Meu irmão Omar também tem o nome do pai, assim como nossos primos e tios”, explica, ressaltando que acabou rompendo o ciclo, batizando os filhos como Guilherme Felipe e Júlia Carolina. Criado no Boa Vista, até hoje mora na mesma rua Limeira em que se divertia vendo a maré subir até o atual traçado da Albano Schmidt. “Quando meu pai ergueu a casa aqui, havia meia dúzia de moradores de um lado e cinco do outro. Hoje, são 44 residências em cada lado da rua! Vimos esse bairro crescer e se tornar um dos mais importantes da cidade.”

Entre as lembranças da infância, ficou o susto de ter sido atropelado quando tinha sete anos: “Ia com a turma jogar bola, quando um carro se perdeu na Albano Schmidt, que tinha mão dupla na época, e pra não bater de frente com outro veículo acabou indo pra calçada e atropelando a gurizada”. Além do susto, não ficaram marcas físicas.

Atanázio fez carreira escolar no Bom Jesus, por força de circunstâncias favoráveis: “Meu pai era policial militar, encarregado de orientar a travessia dos alunos na rua. Acabou conseguindo uma bolsa de estudos, e eu ia pro colégio na garupa da bicicleta com ele”. Outra carona dada pelo pai era no camburão da PM: “Ele geralmente era escalado para os jogos no Ernestão, então eu ia junto. Via os jogos lá dentro do campo”. A paixão pelo JEC é compartilhada com o amor pelo Palmeiras, a ponto de Atanázio ter duas cadeiras de sócio na Arena e outras duas como associado do Verdão (atualmente no Pacaembu, em  breve na nova arena Palestra). “Pelo JEC, já fiz loucuras como ir dirigindo até Brasília, no jogo em que o time subiu para a B, em 2011.”

 

Equilíbrio entre trabalho e lazer

 

Como no tempo de estudante jogava vôlei e handebol pela Embraco, Atanázio foi levado pelo então diretor do colégio Bom Jesus, Tito Lermen, para a Unisinos, em São Leopoldo, onde se formou em administração de empresas – algo que se revelaria de muita utilidade mais tarde.

Iniciou a vida profissional na Prisma Engenharia, passando sucessivamente pela Cipla, pelo Beto Carrero e pela Ciser. “O Beto Carrero World – acentua – foi uma experiência interessante, pois montei praticamente toda a estrutura de recursos humanos, logo que o parque foi criado.” Com a experiência acumulada, associou-se a Walter Khairalla na Euro Feiras, empresa dedicada à promoção de eventos. Hoje, tem outra empresa do mesmo ramo, a Mega Feiras. Entre os eventos de que se orgulha está a Feira Jardim, Casa e Lazer.

Como empresário, Atanázio sempre participou da Ajorpeme (Associação de Joinville e Região da Pequena e Microempresa), da qual foi vice-presidente em 2010, na gestão de Gilberto Boettcher.

Seguidor do pai na paixão pelas orquídeas, já presidiu a Ajao: “Sou orquidófilo praticamente desde os 14 anos, graças ao meu pai. Ele, hoje, é referência na área”.

Sempre ligado à política, no início do ano foi convidado pelo atual presidente da Câmara, João Carlos Gonçalves, a assumir a direção administrativa– ainda que tivesse apoiado a candidatura de Rodrigo Facchini. “Quando assumi, percebi a necessidade de promover ampla reforma administrativa, e deu certo. Temos hoje quadro enxuto de 107 funcionários, promovemos reestruturações físicas, implantamos o pregão eletrônico e no exercício passado, graças aos novos métodos, economizamos R$ 1,8 milhão nas licitações. Neste ano, em 87 licitações, não tivemos um recurso sequer”, contabiliza o diretor, apontando para a bem equipada sala de licitações, onde os pregões são transmitidos on line pelo site da Câmara.

Como ocupa cargo comissionado indicado pelo presidente, não sabe se no ano que vem continua. Se ficar, pretende dar continuidade ao seu estilo de gestão compartilhada; caso contrário, retoma em tempo integral à empresa – e às inevitáveis viagens acompanhando o JEC, agora na série A.


Marlene começou a amar a simplicidade da margarida e hoje se deleita entre orquídeas e bonsais

Marlene Bruehmueller Reimann, secretária da Ajao, concilia trabalho com a paixão pelas plantas. Ela é uma das expositoras desta 76ª Festa das Flores de Joinville
Fabrício Porto/ND
Hoje as orquídeas são as flores que ganham mais espaço na vida de Marlene, que se dedica também ao cultivo de bonsais

 

Ainda que se dedique a plantas ornamentais como orquídeas, bonsais e suculentas, Marlene Bruehmueller Reimann admite: “Tenho paixão por margaridas. É a flor que simboliza a simplicidade”. A empatia com a singela flor representa a simplicidade da própria Marlene, uma massarandubense criada em Joinville e que hoje concilia trabalho e paixão como secretária da Ajao (Agremiação Joinvilense de Amadores de Orquídeas).

Em Massaranduba, ela nem chegou a compartilhar da principal atividade da família, a rizicultura, que dá ao município até hoje o título de “Capital Catarinense do Arroz”. “Eu tinha cinco anos quando saímos de Massaranduba, e tenho alguma lembrança da casa do meu avô, Augusto Bruehmueller, que foi preservada e hoje é parte do patrimônio histórico do município. Viemos para Joinville graças ao emprego que meu pai conseguira na Consul.”

A família, casal e nove filhos, foi a segunda a se estabelecer numa lateral da rua Inambu, quando aquele cantinho da cidade se chamava “vila”, antes de ser o bairro Costa e Silva. “Tinha a casa dos Landmann e a nossa, e me lembro de quando estavam construindo um conjunto residencial. Quando voltava da aula, às 11h, eu era encarregada de tocar o triângulo, chamando os operários para o almoço, preparado pela minha madrinha”, lembra a ex-aluna dos colégios Giovanni Faraco e Arnaldo Moreira Douat.

Sonhando ser jornalista, Marlene chegou a morar alguns meses em Florianópolis, onde pretendia fazer a faculdade. “Não deu certo, pois o curso era diurno e eu não poderia trabalhar pra me sustentar.” O primeiro emprego foi na Selbetti, como recepcionista. Morou algum tempo em Minas Gerais, por conta de um relacionamento que acabou não dando certo, teve os filhos Fabrício, hoje com 29 anos, e Arthur, 18, e hoje é casada com Marcos Reimann.

 

Amor pelo mato e pelas flores

 

“Troco tudo por mato, pois minha origem é do campo. Sempre tive paixão por flores, começando pelas margaridas, pela simplicidade. Já houve tempo em que as margaridas se multiplicavam por todo lugar, elas são resistentes e se adaptam facilmente. Mas hoje já não se veem tantas, é uma pena”, lamenta Marlene.

Há uns 15 anos, as orquídeas passaram a absorver mais sua atenção, em grande parte influenciada pelo pai, Bertholdo, outro aficionado pela espécie. “Entrei na Ajao em 1999, e atualmente sou a única funcionária registrada, além de associada. Quando entrei, havia uma única mulher associada, mas hoje somos várias. Temos até o ‘café das ajaoanas’, uma vez por mês.”

Faz cinco anos que Marlene iniciou outro hobby, o bonsai (técnica de produzir árvores em miniatura). “Eu via as pequenas árvores em exposições e me entristecia, achando que eram malformadas. Quando aprendi as técnicas, vi o quanto de dedicação elas exigem.” Filiada à Associação Norte-Catarinense de Bonsai, Marlene estuda muito em busca de aperfeiçoamento. Assim como acontece com as espécies em seu habitat natural, também as miniaturas são suscetíveis a alterações climáticas. “Meus ipês-amarelos – exemplifica – só agora estão em botão.” E para quem acha que somente grandes árvores, como as cerejeiras orientais, são apropriadas para a técnica, Marlene garante ter em casa até bananeiras. Com cacho!

Uma amostra do que Marlene Bruehmueller Raimann faz em casa poderá ser conferida pelo público na Festa das Flores, de 12 a 16 deste mês. Além das orquídeas e dos bonsais, ela está levando para a Expoville exemplares de suculentas (plantas nas quais a raiz, o talo ou as folhas são engrossados para permitir o armazenamento de água em quantidades muito maiores que nas plantas normais) e alguns cactos. Para saber o que é dela, basta ver os cartõezinhos com a identificação, anexados a cada exemplar.

Entre os planos de Marlene, além de continuar a cuidar com carinho de suas plantas, duas metas: “Quero aprender alemão e visitar a terra dos meus ancestrais”.

 


Pernambucano Severino Raimundo da Silva traz para Joinville experiência de 20 anos como sushiman

No melhor estilo "sushi com sotaque nordestino", ele faz um verdadeiro sucesso no empreendimento em que emprega parte da numerosa família e só atende com serviço de "delivery"
Germano Rorato/ND
Severino Raimundo da Silva com a equipe do Haru (Primavera) Sushi, realizando o sonho de ter o próprio negócio

 

Seja ao telefone, seja pessoalmente no balcão, quem faz alguma encomenda no Haru Sushi sente-se como se estivesse no interior de Pernambuco. Pois é exatamente de lá, do pequeno Itambé, município da Zona da Mata, que vem a maior parte da equipe que faz as honras da casa, do idealizador Severino Raimundo da Silva aos irmãos que ele trouxe para formar o time. “Quando fui desafiado a preparar meu primeiro prato oriental, jamais havia sequer experimentado peixe cru! Primeiro precisei aprender a comer”, conta o ex-operário metalúrgico, florista e lavador de louça, hoje consagrado sushiman, que há dois anos trouxe duas décadas de experiência para o segmento da cozinha oriental joinvilense.

Nascido em 1970, Severino enfrentou até os 17 anos a dura vida da lavoura, ajudando a família no cultivo da mandioca no interior de Pernambuco. Mão de obra familiar não faltava: eram 21 filhos! “Rapaz! Preciso calcular. Ana, me ajuda aqui” – pede Severino o auxílio da mana, mas mesmo em dupla, eles não chegam a uma conclusão sobre qual “degrau” ele ocupa na escadinha (no caso, escadona).

Em 1987, seguindo o caminho de irmãos mais velhos, Severino desembarcava em São Paulo. Com pouco estudo, a indústria pesada era a melhor opção de emprego, e lá foi ele trabalhar numa metalúrgica. Mas logo dava uma guinada total, colocando as mãos a serviço de uma floricultura. Mais algum tempo e empunhava vassoura, esponja e detergente, na limpeza e na louça de um restaurante. Mas não era um estabelecimento qualquer: tratava-se do Yamamoto, na época já consolidando o nome no circuito dos restaurantes orientais do bairro da Liberdade.

 

Na observação, o aprendizado

 

Observador e querendo progredir, Severino ficava sempre atento ao trabalho dos cozinheiros, especialmente dos sushimen. “Comecei na cozinha ajudando a preparar habatas, os espetinhos. Só que ficava ao lado do sushi bar, e eu vivia deixando os habatas queimar, atento ao preparo de sushis. Um dia, o patrão me desafiou a preparar um harumaki de atum. De tanto ver os cozinheiros, fiz o prato.” Aí veio o segundo desafio. Harumaki prontinho no prato, o patrão deu a ordem: coma. “Eu nunca havia comido peixe cru na vida. Precisei aprender, e nunca mais parei”, acrescenta Severino, a partir daquele instante nomeado ajudante. Dois anos depois, o principal sushiman da casa decidiu retornar ao Japão natal, e Severino assumiu.

“Um dia... O gerente do restaurante saiu, o movimento despencou e decidi voltar pra Pernambuco.” Só deu tempo de rever família e amigos, e dois meses depois Severino chegava novamente a São Paulo. Encontrou um amigo da Liberdade, dono de um restaurante, e iniciou uma carreira de nove anos no Takô, ajudando-o a alcançar as atuais quatro estrelas nos principais guias gastronômicos do país.

Em 2001, casado com uma curitibana, tomava o rumo Sul. “Diversos motivos me convenceram a vir para Curitiba, e fui trabalhar no restaurante Yü, na praça Osório.” Passou também pelo Kansai, foi free lancer e trabalhava no Akira quando o empresário joinvilense Luciano Negherbon o convidou a vir mais para o Sul. “O desafio me interessou, mas antes de arrumar as malas, propus um teste ao Luciano. Preparei o cardápio de um evento no Bierô, todos gostaram e, em 2006, assumi como sushiman do Ásia Sushi Bar.”

Em julho de 2012, enfim, o garoto que plantava mandioca em terreno arrendado na Zona da Mata realizou o sonho de ser dono do próprio negócio, abrindo o Haru Sushi (“haru” significa “primavera” em japonês). Com o lema “o sabor do Japão na sua casa”, Severino alugou um espaço na rua Anita Garibaldi e ali instalou seu restaurante, exclusivamente com o serviço de delivery.

Chamou o irmão Josias, também sushiman; as irmãs Severina e Maria para a cozinha; a já citada Ana para o caixa (“Ela faz faculdade de administração”, reforça o mano); o filho Felipe já dá uma mão no caixa quando não está na escola; fora da família, Islei é caixa e Mauro pilota a moto de entregas. Administrando tudo, a mulher, Janei.

“Vai muito bem, obrigado!”, garante Severino, satisfeito com o movimento e já avisando que nem adianta telefonar tentando reservar a única mesa. “Essa é só pra tomar um sakezinho enquanto espera o pedido.”

 

Serviço

O quê: Haru Sushi

Onde: rua Anita Garibaldi, 54

Horários: segunda a sexta, das 11h30 às 14h; segunda a sábado, das 18h às 23h30

Contato: 47/3028-4604

Redes sociais: www.sushiharu.com.br, contato@sushiharu.com.br e Haru Sushi no Facebook.


Psicóloga joinvilense Vanessa Martinelli Levandowski passa a integrar cast da Editora Saraiva

Leitora voraz, daquelas que liam um livro por dia, seu terceiro livro, “As Crônicas de Fiorella”, foi o vencedor, na categoria literatura juvenil – crônica, do 1º Prêmio Saraiva, comemorativo aos cem anos da editora
Luciano Moraes/ND
Com mais de 360 livros alugados em um ano, Vanessa descobriu-se escritora do segmento infanto-juvenil. No detalhe, o troféu que ela ganhou da editora Saraiva e já ornamenta sua sala

 

 

A atendente da Biblioteca Pública de Joinville está intrigada:

- Vanessa, você tá emprestando tua carteirinha para os amigos?

- Não. Por quê?

- O ano ainda nem terminou e já levou 360 livros!

- É.

- Dá mais de um por dia!

- É, gosto de ler...

O diálogo, meio surreal, aconteceu de fato há alguns anos, na Biblioteca Pública Rolf Colin, em Joinville. A usuária, Vanessa Luiza Martinelli Levandowski, confirma: “Sempre fui uma leitora voraz, chegava mesmo a ler um livro por dia”. Tal voracidade levou a psicóloga por profissão a enveredar por uma carreira paralela, a de escritora de obras juvenis.

E o retorno veio rápido: seu terceiro livro, “As Crônicas de Fiorella”, foi o vencedor, na categoria literatura juvenil – crônica, do 1º Prêmio Saraiva, comemorativo aos cem anos da editora. Além do cheque de R$ 20 mil na carteira, Vanessa trouxe de São Paulo um contrato assinado com a editora, uma das maiores do Brasil. Em 2015, seu livro estará em todas as 150 lojas da Saraiva no país.

Vanessa vem construindo toda a carreira em Joinville, onde nasceu há 35 anos. Filha do advogado João Martinelli e sobrinha do empresário Nereu, presidente do JEC, Vanessa tinha tudo para também enveredar pelo direito. “Meu pai e meus dois irmãos são advogados, mas desde criança eu me via mais na área de arte e cultura. Gostava de pintura e desenho, além de ser viciada em leitura. Pedro Bandeira me encantava muito, e realmente chegava a ler um livro por dia.”

 

Duas faculdades ao mesmo tempo

 

Quando chegou à idade de escolher curso superior, Vanessa escolheu educação artística, na Univille, onde desenvolveria a vocação. Ao mesmo tempo, matriculou-se em psicologia, na ACE. Por que as duas ao mesmo tempo? “No colégio sofri muito com bullying, sem motivo, só por maldade. Cheguei a ficar gaga, o que me obrigou a fazer terapia. Ali, decidi que seria psicóloga. Também fui influenciada pelos meus pais, sempre presentes e me dando uma boa formação religiosa.”

Assim, grata ao tratamento que a livrou da gagueira e disposta a “entender o ser humano”, Vanessa lançou-se à dupla jornada no estudo superior. A carga aumentou ainda mais com as aulas de desenho que dava na Casa da Cultura, para adolescentes, já exercitando outra das habilidades – e, claro, sempre lendo muito.

Formada, fez mestrado em psicologia, com especialização em cognitivo comportamental e neuropsicologia. Abriu clínica e dedicou-se à elaboração de laudos. Casada em 2005, três anos depois precisou dar um tempo em tudo, com a atenção voltada à filha Luiza, nascida prematuramente. Fechou o consultório e dedicou-se à formação (“coaching”) e aos laudos, atendendo hoje diversos clientes.

Escrevia, mas apenas para se exercitar. Até que, em 2012, reuniu textos que se transformaram no livro infanto-juvenil “Amigos Inimigos”, lançado pela Editora Novo Século. Seguiu-se um segundo volume, “Amigos Inimigos – A Formatura”, editado pelo selo Novos Autores.

No começo deste ano, ela soube do concurso literário da Saraiva. “Na verdade, nunca havia escrito crônicas; foi uma experiência nova e muito divertida”, conta. Em meados de outubro, a surpresa: “Recebi uma ligação da editora, avisando que meu livro foi um dos três vencedores na categoria crônica juvenil. Na hora fiquei pasma, demorou pra cair a ficha!”.

E na terça passada (4), nova surpresa, durante o anúncio dos primeiros colocados em cada categoria, em cerimônia realizada no Teatro Tomie Ohtake, em São Paulo. Além do contrato com a editora, garantido para todos os finalistas, o prêmio de R$ 20 mil. “Se uma fada tivesse cochichado isso no meu ouvido ontem, juro que não acreditava”, postou a escritora no seu blog (www.vanessaml.com).

 


No alvo! O nome credencia Elisabete a dar o primeiro título de Rainha das Rainhas para a Tupy

"De tiro, o máximo que eu conhecia era a funda, mesmo assim sem o menor jeito para usá-la, e meus disparos quase sempre iam pra trás", brinca a exímia atiradora

No dia do anúncio do resultado final da competição de Rainha das Rainhas do Tiro de Joinville, 25 de outubro, na Sociedade Dona Francisca, o coração de Elisabete deu uma acelerada quando o locutor deu a dica: “A vencedora já tem nome de rainha!”. Ao ser, enfim, chamada, demorou para cair a ficha: “Confesso que eu não esperava ganhar o título. Tenho pouco tempo de prática de tiro, o ritmo de treinos foi afetado pela campanha eleitoral e enfrentei atiradoras bem mais experientes”. Depois, informação devidamente assimilada pelo cérebro, foi só deixar o coração tomar conta, curtindo a coroação. Elisabete dava à Associação Atlética Tupy o inédito título de Rainha do Tiro de Joinville.

 

 

Fotos Luciano Moraes/ND
Elisabete Valquíria Werner, agora Quandt, com a coleção de títulos que vem acumulando na prática do esporte, e a faixa que se tornou uma conquista inédita

 

Durante a infância passada em Gaspar, onde nasceu há 47 anos, Elisabete Valquíria Werner nem imaginava tal cena. Caçulinha de uma prole de sete filhos, conhecia melhor o cabo da enxada do que a coronha de uma carabina. “Minha família sempre foi da roça, tanto em Gaspar quanto em Medeiros, Barra Velha, onde me criei. De tiro, o máximo que eu conhecia era a funda, mesmo assim sem o menor jeito para usá-la, e meus disparos quase sempre iam pra trás”, conta Bete (na época ainda apelidada Lite).

Algum chiado na pronúncia dos esses revela a origem, mesmo morando há 30 anos em Joinville. “Casei cedo, com 17, tive minha única filha, descasei, fixei-me em Joinville e sou feliz aqui”, garante a rainha Elisabete, que há 20 anos adotou o sobrenome Quandt do marido Adílson.

Formada em gestão pública, trabalha na assessoria parlamentar e de campanha. Foi assessora do vereador Odir Nunes e, neste ano, envolveu-se na campanha dos candidatos Darci de Matos (reeleito) e Dr. Xuxo – empenho comprovado no cartaz de campanha, ainda ornamentando um canto da casa da família, no Iririú.

 

Tiro ao alvo em família e muito pique

para enfrentar atividades múltiplas

 

Elisabete é adepta de caminhadas e de esportes radicais, como muai tai e boxe. “Não gosto de ginástica em academia, acho monótono, prefiro caminhar na rua. E as artes marciais, além de ajudar a manter a forma, aliviam o estresse do dia a dia”, justifica. Agora, encerrada a campanha eleitoral, ela pretende retomar o ritmo de atividades físicas.

Também vai poder praticar com mais assiduidade o tiro ao alvo no estande da Associação Atlética Tupy. “Comecei a atirar em 2009, estimulada pelo meu marido, funcionário da Tupy e praticante há muito tempo. Essa, por sinal, é uma característica forte na associação, levar as famílias a participar”, comenta Bete, lamentando que a tradição do tiro ao alvo venha perdendo força na cidade. “Felizmente – acentua – as sociedades procuram incentivar as famílias. A Tupy, por exemplo, tem pelo menos mais uma geração garantida no esporte.”

Empolgada com o tiro ao alvo, não demorou para Elisabete mostrar habilidade: “Fui Rainha da Tupy em 2011, Princesa em 2012 e Rainha de novo agora”. A carreira quase foi interrompida há alguns anos, quando fez cirurgia corretiva de miopia no olho esquerdo. Sendo destra, não havia como trocar de mãos ou mirar com a vista esquerda. Ela improvisou. “Peguei uma armação de óculos da minha avó e mandei fazer lente pro olho direito”, explica, mostrando os óculos com lente de grau na direita e apenas vidro na esquerda.

 

O óculos herdado da avó com uma lente de grau e outra de vidro e as setas "despentelhadas"

 

Bete volta a admitir que não tinha muita expectativa na disputa municipal. Além dos motivos já apontados lá no primeiro parágrafo, acrescenta mais um: “Não me acerto muito bem com a bancada de tiro do Alvorada, é muito mais alta que a da Tupy”. Ainda assim, deu tudo de si.

“Comentei com o Adílson que um dos meus tiros tinha sido bom, ainda que não desse pra ver direito, pois minhas setas são meio despentelhadas”, brinca, referindo-se aos pelos desgrenhados das setinhas e exibindo o alvo com um tiro quase perfeito. O resultado final, porém, ela só conheceu no dia seguinte, sábado, na festa de encerramento, pois durante a competição os alvos são cobertos após cada tiro, garantindo o suspense até o momento final.

Agora, Bete só comemora. Duplamente, pois recentemente casou a filha Keli.


Orquidófilo Renato Franz, presidente interino da Ajao, se dedica ao cultivo desde a adolescência

Entusiasta de formas e cores, ela agora encara o desafio de comandar a organização da 76ª Festa das Flores, que inicia na semana que vem
LUCIANO MORAES/ND
Em casa, ele guarda alguns exemplares da diversidade de possibilidades de nuances que uma orquídea, a rainha da festa mais tradicional de Joinville, representa

 

“Veja essa flor. Como está hoje, merece uma nota 6, no máximo. Já essa aqui leva 9 ou 10, pois mostra mais exuberância, pétalas abertas, cores vivas.” Os olhos de Renato Franz brilham, comprovando todo o entusiasmo que ele demonstra no estudo e no cultivo da sua paixão, as orquídeas. Vice-presidente da Ajao (Agremiação Joinvilense de Amadores de Orquídeas), Franz exerce há algum tempo a presidência, por causa de problemas de saúde enfrentados pelo titular, Wilson Eugênio Quandt.

No dia da entrevista à reportagem, a conversa era interrompida a cada cinco minutos, pelos imprescindíveis atendimentos ao telefone, nestes dias que antecedem mais uma edição da Festa das Flores – a 76ª, agendada para 11 a 16 de novembro no complexo da Expoville.

A festa é uma das atividades a que Renato Franz vem se dedicando desde 1970, quando associou-se à Ajao. “Sempre fui um entusiasta do cultivo de flores, até pelas origens, pois meu avô tinha um sítio onde comecei a ter contato com a terra”, conta Franz, nascido em Joinville há 58 anos, na localidade conhecida como Morro Cortado. “Mas eu me criei nas imediações da rua Aquidaban, quando ali havia uma raia de corridas de cavalos e muitos campinhos.”

Sonhando em ser agrônomo, Franz teve contato com as técnicas agrícolas quando estudou no Colégio Marista. “Só que acabei me formando técnico mecânico pela ETT e iniciei a faculdade de economia. Lá pelos 12 anos, comecei a plantar orquídeas em casa, procurando sempre aprender mais de forma autodidata.”

 

Laboratório doméstico

 

Entusiasmado e fascinado pelas orquídeas, com 12 anos Franz começou a frequentar a Ajao, em busca de mais conhecimentos e de um espaço de debates. “O boletim que a Ajao distribuía sempre trazia novidades e dicas de especialistas. E nas reuniões todos trocavam experiências. Até os 20 anos, fiz em torno de 400 cruzamentos de plantas no laboratório que montei em casa.”

Após um rápido estágio na Ambalit, Franz foi trabalhar na Fundação Municipal 25 de Julho, onde também montou um laboratório para o cruzamento de espécies de orquídeas. “Lá desenvolvemos técnicas de clonagem, numa época em que o termo ‘clone’ nem era conhecido. Uma das principais fontes de pesquisa sempre foi a revista técnica norte-americana da American Orchid Society.” A carreira profissional prosseguiu numa iniciativa própria no segmento plástico, na Fabril Lepper e, desde 1991, na Maxicron, empresa de tintas e revestimentos, sucessora da Tintas Itaipu (primeira indústria do ramo em Joinville).

Renato Franz sempre conciliou a atividade empresarial com a dedicação às orquídeas, aumentando os conhecimentos com muita leitura, pesquisa, experimentos e o intercâmbio de experiências com os colegas associados. “Com Adalberto Schmalz, por exemplo, aprendi a cultura simbiótica, baseada na associação com fungos”, diz dando o devido crédito a um dos mais experientes orquidófilos da região.

Na Ajao, além de participante ativo desde a adolescência, Franz ocupou a presidência em 1990. Atual vice, substitui o presidente licenciado Wilson Quandt, e agora se dedica aos detalhes finais da 76ª Festa das Flores. “A correria é grande por estes dias, mas a expectativa é promover uma festa sempre melhor que as anteriores”, antecipa.

 

76ª Festa das Flores

Marcada para 11 a 16 de novembro, a Festa das Flores deste ano tem como tema “Agricultura Familiar”. O projeto cenográfico aborda sete produtos agrícolas típicos da região: aipim, arroz, banana, cana-de-açúcar, palmáceas, plantas ornamentais e mel.


Com 14 anos e gosto musical apurado, Marcos Davi integra Orquestra Jovem Cidade de Joinville

Jovem violinista gosta tanto de música que pensa em seguir carreira artística. A família, também muito ligada, o apoia

“Música é uma terapia. Ele sempre foi mais agitado,

e como todo adolescente, tem alterações de humor,

mas a música ajuda a deixá-lo mais tranquilo.”

Marcos Loschner de Oliveira, o pai

 

Luciano Moraes/ND
Meu violino. Marcos Davi ganhou este violino da família, mas precisa de um instrumento melhor para continuar se aprimorando

 

Uma paixão que vem de gerações. O gosto pela música já é uma espécie de tradição na família de Marcos Davi de Oliveira, 14 anos. Há três anos, ele se dedica a um instrumento não tão comum entre os jovens: o violino. E é justamente o talento que faz do adolescente um dos principais integrantes da Orquestra Jovem Cidade de Joinville.

Mas seu sonho não para por aí. “Penso em fazer uma faculdade de música e entrar para a orquestra profissional. Para isso, tenho que estudar muito e passar por uma seleção”, observa. Se depender do esforço dele e do apoio da família, não será difícil.

Marcos Davi iniciou os primeiros contatos com a linguagem musical aos seis anos. O próprio pai, o motorista Marcos Loschner de Oliveira, o introduziu à leitura das partituras musicais. Mas bem antes, o menino já gostava de ouvir o pai e um tio tocar.

O pai gosta de instrumentos de metais. Por anos tocou trompete e hoje se aperfeiçoa em trompa – nesta semana foi convidado pela maestrina Fabrícia Piva a se integrar também à Orquestra Jovem. E neste meio musical Marcos Davi foi crescendo. Aos nove anos, teve as primeiras aulas, de flauta. Logo, partiu para o piano. E aos 11 anos teve a primeira oportunidade de se aproximar do violino.

Este contato se deu por meio do professor Pedro Romão Mickucz, da Escola Municipal Professor João Bernardino da Silveira, que criou o projeto “Meu primeiro violino”. A ideia foi aceita pela Secretaria Municipal de Educação e com apenas os cinco violinos que conseguiu, iniciou o trabalho. Marcos Davi foi um dos interessados. “Primeiro pensamos que ele não daria conta do piano e do violino. Mas ele conseguiu e nos surpreendeu”, comemora a mãe, a professora Mariluce Lourenço de Oliveira.

O piano ficou de lado há meses, para se dedicar exclusivamente ao violino, instrumento já tocado pelo seu bisavô, Tuliano Loschner. O bisavô morreu há um ano, mas ainda teve a oportunidade de ouvir o menino tocar em seu precioso e quase centenário violino. O instrumento, que serviu para os primeiros aprendizados, hoje está guardado com familiares e Marcos Davi tem seu próprio instrumento.

Mas a mãe está preocupada, pois o instrumento já não é mais o indicado para o filho. Como ele integra a Orquestra Jovem Cidade de Joinville e tem se destacado, precisa aperfeiçoar-se. E o valor a ser desembolsado, em torno de R$ 5.000, é bastante alto para a família. “Vamos fazer o possível para comprar um novo, mas agora nossas condições não permitem”, lamenta o pai.

 

Luciano Moraes/ND
Família musical. Marcos Davi com a mãe, Mariluce, o pai, Marcos e a irmãzinha, Mical

 

Estilo e gosto musical ajudam

a nos distinguir na sociedade

O que difere uma pessoa de outra ou aproxima grupos é justamente o estilo musical. Marcos Davi de Oliveira prefere um estilo mais tranquilo, com músicas eruditas, trilhas sonoras e religiosas. O convívio dentro da Igreja Adventista do Sétimo Dia teve grande influência nos seus gostos. Ele também integra a orquestra da igreja e já está com viagem marcada para o Maranhão.  “Só gosta destes estilos de música quem toca e entende. O segredo é sentir a música”, dispara o músico.

Mas para ele e a família, o principal segredo do sucesso é mesmo muito ensaio e a oportunidade desde cedo de ter contato com a música. “Meu pai e eu gostamos de ouvir música e tentar identificar os instrumentos que estão sendo tocados, os solos da música”, conta. Os ensaios em casa são diários, além de treinos semanais com a Orquestra Jovem, aulas individuais e pelo menos dois momentos em que toca na igreja, todas as semanas.

 

“Não o vejo na rua. É muito gratificante

ver o filho caminhando para o bem.

A música é como um muro de proteção

das coisas ruins que o mundo oferece aos adolescentes.”

Mariluce Lourenço de Oliveira, a mãe

 


Sandro Chaves, o Maga da tatuagem em Joinville, enfatiza que em sua clínica nem tudo é permitido

Maga transformou o dom de desenhar em profissão ao fazer da pele suas telas
FOTO E REPRODUÇÃO FABRÍCIO PORTO/ND
Sandro Chaves, o Maga, em seu atelier que é uma verdadeira clínica

 

Maga demonstrava habilidade no desenho desde criança. Era questão de oportunidade transformar o dom em ofício. E ela veio aos 15 anos, quando, por preferir o cabelo ao emprego, investiu numa nova carreira. “Eu trabalhava numa loja de materiais elétricos e era bem cabeludão. Quando o gerente mandou cortar o cabelo, preferi pedir demissão. Investi o dinheiro da rescisão em equipamento e comecei a tatuar.” O resultado da decisão: Maga Tattoo tornou-se referência no segmento e o artista montou uma clínica moderna e bem equipada.

E como Sandro Chaves virou Maga? A história começa em Lages, onde ele nasceu, há 39 anos. A ausência de sotaque serrano se explica: “Tinha quatro anos quando a família mudou-se para Curitiba. Aos 11, já morava em Joinville e estudava no colégio Oswaldo Aranha. Aqui é minha cidade”. Foi por aqui, lá pelo fim dos anos 80, que ele virou Maga. “Eu tinha o cabelo comprido e espetado, igual ao do McGyver do seriado da TV. E os amigos começaram a me chamar de Maga. Como não gostei, aí é que pegou mesmo.”

A primeira tatuagem, um cavalo alado, feita na adolescência – com autorização dos pais, claro –, no peito, já foi coberta por outras. “Fiz por influência de um amigo e nunca me arrependi”, garante, exibindo os braços e as pernas cobertos por desenhos.

 

Do tempo em que ele usava o cabelo a McGyver surgiu o apelido que virou marca

 

A primeira loja e a primeira tatuagem

 

De volta à demissão do primeiro emprego, à manutenção da cabeleira e ao investimento no equipamento, Maga não se esquece de dar o devido crédito a quem já estava no mercado: “Jaca Tattoo desenhou o cavalo alado no meu peito e com o Armin Kaesemodel aprendi os primeiros segredos da arte. Eles estão entre os pioneiros da tatuagem em Joinville”.

Decidido a fazer da tatuagem a profissão, Maga fez cursos, investiu em novos equipamentos, pesquisou muito e, aos 18 anos, abriu a primeira loja, na rua Princesa Isabel. Aos diversos certificados, juntou-se o diploma de técnico em enfermagem, o que lhe dá mais know how e garantia para chamar sua loja de “clínica”.

Depois de passar 11 anos no extinto Shopping Floral, Maga passou pela rua 9 de Março e, há dois anos e meio, ocupa amplo espaço na rua João Colin (a entrada da loja-clínica é pela rua Tijucas). O ambiente inicial é a loja, onde o cliente recebe o primeiro atendimento, escolhe ou encomenda um desenho e ainda pode adquirir piercings, camisetas, bonés, acessórios, tintas e outros materiais para tatuagens.

As outras três salas, destinadas aos procedimentos de tatuagem ou maquiagem definitiva, se assemelham mais a uma clínica. “Já aconteceu de alertarmos clientes para problemas de pele. Neste caso, antes de tatuar, sugerimos consulta dermatológica”, explica Maga, que tem os tatuadores Dego e Kaiser na equipe – além da mulher, Vanessa, responsável pela administração.

Aos conhecimentos clínicos do time soma-se uma dose de psicologia. “Antes de começar a desenhar, insistimos na determinação do cliente, pois é uma escolha para a vida toda. Por isso, também, a idade mínima é de 16 anos. Acontece muito de alguém mandar tatuar uma ‘paixão eterna’ de duração efêmera e depois querer apagar. Ainda que as técnicas de remoção tenham avançado, não são perfeitas”, explica Maga – exibindo na perna esquerda um desenho borrado, resultado de uma tatuagem em processo de substituição. Outra restrição é quanto às áreas: “Não tatuamos orelhas, face e parte interna dos dedos, onde a pele é muito sensível”. Maga também não pretende repetir uma inusitada experiência: “Um cliente mandou tatuar uma palavra elogiosa (que ele não revela qual) no órgão genital”. Ele prefere as “telas” tradicionais: dorso, costas, braços, pernas...

 

Convenção

Maga é o organizador da Convenção de Tatuagem de Joinville, que tem a 2ª edição agendada para 14 a 16 de novembro, no Expocentro Edmundo Doubrawa. “É um encontro dos melhores tatuadores e piercerers do país e do mundo”, garante, anunciando seminários, exposições, shows e outras atrações. Mais informações na Maga Tattoo Shop (rua João Colin, 598, sala 3, com entrada pela Tijucas. Telefones 47/3433-4542 e 9973-0720, www.tattoojoinville.com.br.

 

 


Eliane, Lilith ou Lily Blumerants se consolida como “dama do jazz”

“Desde criança, eu via meu futuro como artista, adorava cantar e, com muito trabalho, realizei meus sonhos”, diz a cantora, compositora e produtora cultural
CARLOS JUNIOR/ND
Ousada, aos quase 60 anos, ela mostra que ainda é capaz de parar o trânsito pela sua música

 

 

Ainda que pareça, o título deste perfil não se refere a um trio de cantoras, mas a uma só artista. Nascida Eliane, nos anos 80 adotou o nome artístico Lilith e, de uma década para cá, vem firmando o nome Lily Blumerants no meio musical catarinense. “Desde criança eu via meu futuro como artista, adorava cantar e, com muito trabalho, realizei meus sonhos”, dizia a cantora, compositora e produtora cultural no fim da tarde de terça passada, enquanto sua banda se preparava para a passagem de som no restaurante Capitão Space, para a jam session daquela noite.

Eliane Ignacio ganhou em casa o apelido de Lili logo após nascer, em 1956, em Itajaí. “Mal cheguei a conhecer a cidade, pois tinha cinco anos quando minha família se mudou para São Francisco do Sul. Fui criada na Enseada, onde meu pai foi um dos pioneiros”, conta Lili, ainda hoje se dividindo entre o balneário e o bairro joinvilense do Costa e Silva, onde mora com o marido e parceiro musical Ito Silveira. Seu pai, Alcides, mais conhecido como “Garrincha”, trabalhou na abertura das primeiras ruas da Enseada e por lá ficou. Hoje é dono do Hotel Fragata.

Decidida a ser artista, Lili trocou São Francisco por Curitiba, onde foi cursar a faculdade de Educação Artística, obtendo licenciatura em canto. Depois, especializou-se em belas artes e educação musical. “Já havia estado em Curitiba, como caloura no programa de TV de Mário Vendramel, mas quando me estabeleci lá, era totalmente ingênua, a típica jovem do interior na cidade grande. Trabalhei durante um ano como recepcionista numa clínica, até que um produtor cultural me convidou pra fazer um teste na montagem da opereta ‘Telêmaco’. Foi o início de uma nova vida!”

 

 

REPRODUÇÃO CARLOS JUNIOR/ND
Lilith e Banda, disco de 1984

 

Dos bailes aos discos, uma vida

inteira envolvida com a música

 

A experiência artística seguinte foi como cantora em uma banda de bailes, a Musical Latino. Frequentou o meio artístico, casou-se com o músico Sérgio Turcão (com ele teve o filho Roque), separou-se e foi morar em São Paulo. Na metrópole, nos anos 80, participou da gravação do primeiro disco de Itamar Assumpção.

Em seguida, produziu seu primeiro trabalho autoral, com gravação e circulação acompanhadas do Grupo Sossega Leão, lançando o disco “Lilith – A Lua Negra”, mesclando o apelido de infância com uma personagem mística (Lilith é tida como “a primeira bruxa da história da humanidade”).

A partir dos anos 90, morando em Joinville, passou sete anos cantando com a Pop Band. Produziu videoclipes, tendo um deles, “Lilith – A Lua Negra”, premiado no Festival Latino Americano de Vídeos. Voltou-se ao jazz e à bossa nova, participando de festivais de jazz e shows com o grupo Influência do Jazz, com quem gravou um álbum. A essa altura, adotara o apelido Lily, acrescido do Blumerants, sobrenome da avó paterna. “Viajei muito nessa época, divulgando a música brasileira em turnês por vários países, como Espanha, Bélgica, Luxemburgo, Suíça, Portugal e Itália.”

Em Joinville, Lily foi uma das responsáveis pelo lançamento do projeto “Jam no MAJ”, com apresentações nos jardins do Museu de Arte. Hoje é produtora do projeto que, anualmente, reúne músicos e grupos do gênero de várias regiões do Brasil, Argentina e Uruguai.

Com agenda cheia o ano todo, Lily divide-se entre Joinville, Enseada e as cidades onde se apresenta com sua banda. E já deixa o convite: “Na próxima sexta (31), tem ‘Halloween no Museu’, a partir das 10 da noite, no Café do Museu Nacional do Mar, em São Francisco do Sul”.

 

REPRODUÇÃO CARLOS JUNIOR/ND
Com 16, no programa de Mário Vendramel

 

Para contatos

www.lilyblumerants.com.br

Telefone (47) 9995-1772

 


Piauiense Maria do Socorro, que acompanha os conterrâneos no Bolshoi, se despede de Joinville

Depois de quase dez anos na função de mãe social, ela passou o bastão e partir nesta quinta, entre lágrimas e o desejo de que seus pequenos brilhem muito pelos palcos do mundo

 

Divulgação/ND
Socorro e os alunos acabaram formando uma família, que agora será entregue aos cuidados de outra profissional

 

Ontem, tarde de quinta-feira (23), Maria do Socorro Nogueira da Cruz já estava com as malas prontas e recebia a reportagem no lugar em que passou os últimos nove anos, a Casa do Piauí, onde moram os alunos do Bolshoi originários daquele Estado. Hoje, sexta (24), Socorro já está em sua casa, na capital piauiense, após passar o bastão de “mãe social” à colega e conterrânea Rosana Barros.

“Saio com lágrimas antecipadas de saudades, mas com a satisfação de ter cumprido meu papel no acolhimento das crianças, ajudando-as na realização dos sonhos”, dizia a professora, intercalando despedidas com a ansiedade da volta (seu voo estava marcado para as 18h, com previsão de chegada a Teresina à meia-noite).

Nascida em 17 de novembro de 1971 em São Miguel do Tapuio, pequena cidade (18.000 habitantes em 2012) a 190 km de Teresina, Maria do Socorro foi a décima filha dos 12 da família. Desde cedo, demonstrou o desejo de seguir carreira no magistério: “Algumas tias e irmãs mais velhas eram professoras. A vocação estava no sangue”. Assim, foi concluir os estudos na capital, onde a família também tinha casa. “Meu pai, mesmo sendo homem da roça, sempre incentivou os filhos a estudar. Em Teresina, juntei-me aos irmãos mais velhos, numa autêntica república familiar”, conta Socorro.

Formada em 1995 em educação física, no ano seguinte iniciava carreira, aprovada em concursos para as redes municipal e estadual. “Minha meta, ao fazer a faculdade, era dar aulas de educação física em escolas. Além de dois colégios, também dei aulas num clube de Teresina.” Na capital, pôde também se dedicar a outra das paixões, o futebol. “Sempre gostei de futebol, e ia ao estádio ver os jogos do River.”

 

RECONHECIMENTO

Maria do Socorro foi homenageada pela Prefeitura de Teresina, em 2012, com a Medalha Conselheiro Saraiva, outorgada a quem presta relevantes serviços à cidade.

 

 

Divulgação/ND
Mãe social tem o papel de estar sempre presente nos eventos que envolvem os "12 filhos"

 

 

Ligação com o Bolshoi vem desde 2004

 

Em 2004, Socorro coordenou a seleção da primeira turma de crianças piauienses para a Escola do Teatro Bolshoi. “Vim a Joinville acompanhar a seleção final e fui convidada a ficar, no papel de mãe social dos alunos selecionados. Mas eu tinha outro planejamento na época, e acabei adiando esta missão em dois anos.”

Em 2006, enfim, a professora trocou as salas de aula pelas acomodações da Casa do Piauí, local onde moram os alunos piauienses do Bolshoi. Situada na rua Triângulo Mineiro, perto do Joinville Tênis Clube, a casa é mantida pelo governo daquele Estado e pela Prefeitura de Teresina. Socorro, neste caso, foi tão somente transferida de função. “Nas escolas em que lecionava – diz – eu era uma das responsáveis pelo ensino. Aqui, desempenho um papel complementar ao da família, dando também educação para as crianças e jovens.”

Maria do Socorro acompanhou a primeira turma de nove piauienses formada no Bolshoi. “Tive a oportunidade de acompanhar o desenvolvimento do potencial destes alunos, e hoje me orgulho de saber que todos são profissionais ligados à dança”, emociona-se a professora, citando cada um dos nove pioneiros. “Caroline e José estão em companhias dos Estados Unidos; Gisele foi para a indonésia; Lucas e Felipe, para Belo Horizonte; Daniela, para a Bahia; Luan está aqui, na Companhia Jovem do Bolshoi.” E dois deles, Franciele e Ramón, ela vai reencontrar em Teresina, onde são professores de balé.

A partir de hoje, a professora Rosana Barros e a auxiliar Maria da Conceição Dutra passam a se responsabilizar pelos cuidados dispensados ao atual grupo de 12 alunos piauienses do Bolshoi. Maria do Socorro leva a saudade, o plano de iniciar mestrado e uma certeza de sua passagem por Joinville: “Missão cumprida!”.

 

Luciano Moraes/ND
Maria do Socorro se despede de Everson, Milena e Iuri: crianças para quem ela foi uma verdadeira mãe

 

PERFIL SUGERIDO PELA JORNALISTA IZABEL SANTOS


De farda ou à paisana, Ceceu está sempre com a música, onde ela estiver

O sargento e professor de música consolida com sua atuação a carreira iniciada na banda do colégio na gaúcha Uruguaiana
Divulgação/ND
Ceceu Ismar Garcia Fernandes traz a música no DNA

 

Desde os 11 anos, quando tamborilou a caixa-clara na banda do colégio, Ceceu Ismar Garcia Fernandes é envolvido com a música. “Tive um tio-avô saxofonista, e meus irmãos mais velhos tocavam na banda da escola, o que acabou me influenciando e me levando a descobrir a vocação musical”, conta o hoje aclamado clarinetista, componente da banda do 62º BI e parceiro de outros profissionais da cena musical joinvilense.

A primeira fase da vida de Ceceu foi passada na gaúcha Uruguaiana, na fronteira com o Uruguai, onde nasceu, em 1968. “Não é apelido, meu nome de registro é Ceceu mesmo. Era o apelido de um tio chamado Arsênio”, explica, garantindo que jamais encontrou algum xará oficialmente registrado.

Filho do meio de sete irmãos, estudou no tradicional Colégio Estadual Dom Hermeto. Ali, iniciou a carreira musical como percussionista da banda em que os irmãos mais velhos já tocavam. Aos 15 anos, já com uma clarineta nas mãos, começou a ganhar dinheiro com a música, tocando numa banda de bailes. “Tocávamos de tudo, desde a música tradicional gaúcha até bailes de carnaval”, relembra Ceceu.

Foi num Carnaval, aliás, que iniciou a carreira profissional: “Precisavam de um saxofonista para um baile, e o sargento regente da banda me desafiou”. Vencido o desafio, Ceceu não parou mais. Tocava também violão nas missas da Catedral, onde era funcionário da secretaria, e chegou a participar de uma Califórnia da Canção Nativa, tradicional festival da canção nativista gaúcha. “Não consegui classificação, mas ter sido selecionado para o festival já foi uma vitória. Era complicado competir com gente como Elton Saldanha e Borghetinho”, diz, citando dois dos atuais ícones da música gaúcha.

 

A primeira farda, na PM

 

Aos 20 anos, Ceceu foi acompanhar os irmãos que já moravam e estudavam em Santa Maria, pólo universitário do Estado. Apostando na vocação, escolheu a faculdade de música, na qual bacharelou-se em 1998. Ter levado uma década para concluir o curso tem explicação: “Em 1989, passei em concurso para a banda da Polícia Militar, e tocava em concertos, shows, bailes, casamentos... Também assumi como clarinetista na Orquestra Sinfônica da Universidade Federal de Santa Maria, tocava flauta-doce num grupo universitário, dava aulas...”. Conciliando faculdade e os inúmeros compromissos artísticos, era até natural que houvesse um atraso.

Em 1993, Ceceu trocou de farda, ao ser aprovado em concurso para a banda da 3ª Divisão do Exército, em Santa Maria. Como militar, em 2007 foi transferido para Cáceres, no Mato Grosso. Três anos depois, nova transferência: “Podia escolher entre 12cidades, de três regiões do país. Acabei vindo para o 62º Batalhão de Infantaria de Joinville, minha sexta opção. Não poderia ter sido melhor!”.

Na cidade, além de integrar a banda militar, durante dois anos Ceceu foi professor da Escola de Música Arte Maior. Atualmente, dá aulas particulares (telefone 9912-9198), conciliando com os compromissos na banda do 62 BI e com parcerias diversas, tocando clarineta, sax e flauta-doce.

Uma das parceiras frequentes é a saxofonista, fagotista e pianista Henriette Hillbrecht (perfil em 9/1/14). Com ela, forma o duo Dois Quiáltera e um quarteto de madeira também integrado por Luiz Fernando Campelo e Jonatas Rafael Costa. E mais: “Participo ocasionalmente da banda do Corpo de Bombeiros de Joinville e da Orquestra Filarmônica de Jaraguá do Sul”.

Para o sargento Ceceu, a música é o sentido da vida: “Acertei na vocação, sou feliz com a música e quero sempre aprender mais. Faço até um paralelo da música com o esporte, na questão da prática. Se você é esportista e fica um tempo sem praticar, perde o condicionamento; também é assim com a música, pois é importante praticar sempre”.

 

AGENDA

Ceceu estará na próxima apresentação da banda do 62º BI, dia 26, às 10h30, na programação dos Concertos Matinais, no auditório do quartel.

 


Loni guarda recordações da juventude e da tradicional sociedade do Piraí

A guardiã e vizinha do Salão Jacob acompanha a história da sociedade há bem mais de 60 anos
FOTO E REPRODUÇÕES FABRÍCIO PORTO/ND
Loni em frente à Sociedade Piraí, onde o nome do Salão Jacob é conservado na mesma fachada

 

“Algumas pessoas, quando passam por aqui, param e tiram fotos da minha casa. Já me acostumei.” A observação da oma Loni é pertinente: sua casa, construída há uns 60 anos, mantém as características originais das residências ao longo da estrada Comprida, na região do Piraí, bairro Vila Nova, em Joinville.

Loni também tem as chaves da casa ao lado, a sede da Sociedade Piraí. “Ela é uma espécie de diretora de patrimônio da sociedade. É meu braço direito, cuida de tudo, abre quando vem entrega de mercadoria e está sempre atenta”, elogia o sobrinho, Vilson Zoller, presidente da agremiação (perfil publicado aqui no ND no dia 1º de outubro). “Ele é que é meu braço direito”, retribui a tia.

Loni foi a quinta dos nove filhos dos Seiler. Nascida no dia 22 de março de 1934, ali no Piraí. “A casa em que nasci e me criei ainda existe, fica um pouco mais adiante”, aponta em direção ao final da estrada. Assim como os irmãos e tantas outras crianças na época, estudou somente até concluir o antigo primário, na escolinha da localidade.

“As famílias viviam da lavoura, e era preciso que todos começassem a trabalhar logo cedo”, justifica. Confirmando o que Vilson Zoller contara em seu perfil, ela se recorda bem das longas viagens de carroça para distribuir mercadoria nas casas comerciais de Joinville. “O primeiro carro aqui do Piraí, um Opel 54, era nosso”, acrescenta, mostrando a foto da então raridade.

 

Em 1954, a partir da esquerda: os sogros, Francisco e Marta; a cunhada, Wally; o sobrinho, Adelino; Loni com a filha Celita e grávida de Marli; e Amandus com o Opel pioneiro

 

Salão, mercearia, açougue...

 

Ela recebe a reportagem na entrada de casa, no banco de madeira que já testemunhou muitos papos em décadas. O silêncio, numa chuvosa manhã de terça, só é quebrado pelos piados das correcas no quintal e pelo canto do sabiá ao longe, avisando que a chuva vai continuar. O sobrinho Vilson (filho da irmã Anita) também participa, após atender os entregadores de bebida, descarregando a cerveja que animará uma festa de casamento marcada para este sábado, na sociedade.

O local – ampliado e modernizado – é o mesmo em que a própria Loni comemorou sua união com Amandus Jacob, em 1952. “Os Jacob chegaram por aqui bem depois de nós, mas as famílias todas se conheciam. Nem lembro direito como ou quando começamos a namorar. A diversão, na época, era dançar nos salões Baumer e Liermann, na Vila Nova. Íamos e voltávamos a pé”, relembra Loni.

A cerimônia religiosa do casamento dos luteranos Amandus e Loni realizou-se na Paróquia da Paz, no Centro. A festa foi no salão da família, animada pelos músicos Norbert Schramm e Arinor Vogelsanger. “Construímos primeiro o salão, depois, nossa casa. Além de salão de baile, no local funcionava mercearia, açougue, bar... Era o ponto de encontro das famílias do Piraí”, recorda.

Com o passar dos anos, o Salão Jacob tornou-se ponto de referência no interior, principalmente após se tornar sede da Sociedade Piraí – na fachada, a identificação da sociedade divide espaço com a do “Salão Jacob”.

Loni e o marido ergueram há cerca de seis décadas a casa que hoje é alvo das lentes de turistas e dos milhares de pessoas que, a cada verão, por ali passam em direção ao rio Piraí.

Ao contrário das famílias locais, a prole foi pequena: três filhos, hoje multiplicada em sete netos e oito bisnetos. “Um filho trabalha no Banco do Brasil na Vila Nova, uma filha mora aqui perto e outra no Glória”, conta a oma Loni, que no seu aniversário de 80 anos, em março, juntou as três gerações em casa – com festa no salão, claro. Amandus morreu em 1996, aos 71 anos, por complicações cardíacas. Seu nome, porém, está perenizado no tradicional salão e nas memórias de frau Jacob e seus descendentes.

 

Em março deste ano, Loni comemora seus 80 anos cercada por todos os filhos, netos e bisnetos

Cego, Paulo Sérgio Suldovski resgata sua cidadania e procura formas de servir à comunidade

A perda da visão proporcionou nova vida ao rapaz, que teve uma doença genética. Aprovado em concurso público, ele quer tirar o termo "inválido" de seu currículo
ROGÉRIO SOUZA JR./ND
Suldovski usa computador auxiliado por programa de voz. Ele foi aprovado recentemente em concurso público da Prefeitura de Joinville para a função de assistente administrativo

 

 

“Tive o natural choque quando o médico, enfim, confirmou que perderia totalmente a visão. A partir daí, procurei fazer da perda uma nova vida.” Com os olhos voltados diretamente ao interlocutor, ainda que não enxergue sequer um vulto, Paulo Sérgio Suldovski resume os oito mais recentes anos de seus 34, a partir do momento em que a baixa visão foi se transformando em cegueira total.

Hoje presidindo duas entidades municipais dedicadas ao apoio às pessoas com deficiência, Suldovski aguarda ansiosamente o chamado da Prefeitura de Joinville para assumir sua função de assistente administrativo, para a qual se habilitou ao passar em recente concurso público.

“Uma doença genética chamada vitreorretinopatia familiar exsudativa me deixou com baixa visão em ambos os olhos e, aos 25 anos, causou cegueira bilateral”, explica, enquanto demonstra a agilidade já adquirida na utilização do computador, auxiliado por um programa de voz – e por fones de ouvido, para não atrapalhar quem está por perto.

Natural de Quedas do Iguaçu, no Paraná, Suldovski foi o único na família a desenvolver a doença, genética – no seu caso, pelo lado materno. “Durante a infância – esclarece – tinha problemas normais, precisava usar óculos etc., mas tudo era visto como um pequeno defeito.”

Ele tinha oito anos quando a família trocou o Sudoeste paranaense por Joinville, atraída pela oferta de emprego (o pai logo empregou-se na Embraco). “Fui perdendo a visão aos poucos. Na direita, foi primeiro. Com 15 anos, fiz uma cirurgia, mas a perda continuou aumentando.”

 

Atraso no estudo já foi recuperado e em

breve ele será especialista em educação especial

 

“Enquanto tinha baixa visão, uns 10% da vista, estudei e trabalhei. Depois de ficar totalmente cego, parei de trabalhar e me aposentei por invalidez”, continua Suldovski, que, por conta do problema, enfrentou atraso na carreira escolar. Estudou nos colégios Tuffi Dippe e Germano Timm (neste, utilizando a chamada “sala de recursos”, adaptada para deficientes), encerrando o ensino básico no Quarta Dimensão. Trabalhou na Whirlpool e no Supermercado Cinco Estrelas, de onde tem boas recordações.

“Enfrentei dificuldades nas empresas, que muitas vezes divulgam vagas para pessoas com deficiência para cumprir a Lei de Cotas, mas não admitem ninguém, alegando que as pessoas com deficiência não têm qualificação. As empresas, porém, não se dispõem a promover treinamento”, lamenta.

Em busca da tão necessária experiência, Suldovski resolveu voltar a estudar. Hoje, cursa o quarto semestre de pedagogia na Aupex, com o projeto de se especializar em educação para pessoas especiais. “A partir das dificuldades que enfrentei, acho que posso contribuir para ajudar outras pessoas a iniciar nova vida e ingressar no mercado de trabalho.”

Frequentando a Ajidevi (Associação Joinvilense de Integração do Deficiente Visual) desde 2002, neste ano Suldovski assumiu a presidência da entidade. “Fiz reabilitação na Ajidevi e tive a oportunidade de receber atendimento de ótimos profissionais. Descobri interesse por novas atividades e entendi que minha vida passaria por mudanças. Reabilitado e acostumado à nova realidade, estudei os softwares específicos para pessoas cegas. Após esse aprendizado me interessei pelos movimentos sociais das pessoas com deficiência.”
Ele também preside o Comde (Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência de Joinville) e é conselheiro do Conede (Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência). “Uma das atividades a que mais me dedico são entrevistas em rádio e TV e organização de reuniões diversas que envolvem a pessoa com deficiência”, detalha.

Entre as bandeiras de luta das entidades está a acessibilidade: “Hoje está melhor, mas já me machuquei muito dando cabeçadas em orelhões, galhos de árvores e outros obstáculos”.

Ainda que, como todo cego, tenha desenvolvido os demais sentidos, não é muito fã de música: “Diversão, pra mim, é estar com amigos, viajar, receber pessoas em casa... Quanto mais relacionamentos uma pessoa tem, mais oportunidades e desafios surgem para ela”.

 

 

Divulgação
Na foto, Paulo e o cadeirante Sérgio Luiz da Silva, presidente do Conede (Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência) em vistoria aos recursos de acessibilidade do Parque São Francisco, no dia 9 de outubro

Vocação demonstrada na infância por Guti vira empreendimento de família

Paixão pela gastronomia resulta em charmosa cafeteria no bairro Bucarein, em Joinville
Luciano Moraes/ND
Giovana com o bolo musse cake de maracujá, criação do Guti, e ele, uma xícara de café moca

 

Quando era criança, Guti vivia em volta da mãe, na cozinha, querendo aprender a fazer as coisas. Aos 9 anos, já sabia até fritar ovo! Depois, vieram os planos. “Ele sonhava em ter uma cafeteria”, conta a mãe, Giovana. “Agora, realizo o sonho”, arremata Luis Gustavo, comemorando os primeiros bons resultados de seu empreendimento, o Guti’s Gourmet, a mais nova cafeteria de Joinville, há quase dois meses espalhando os aromas de café e dos deliciosos bolos pelas imediações.

Aos 20 anos, Luis Gustavo Lopes é mais um jovem empreendedor concretizando sonhos a partir de uma vocação despertada muito cedo. “Eu gostava mesmo de ficar na cozinha, aprender e ajudar. Acho que a vocação para a gastronomia estava no sangue”, diz Guti – apelido que ganhou de um pastor da Igreja do Evangelho Eterno, que a família frequenta.

 “Mãe sempre gosta de chamar o filho pelo nome completo, mas os apelidos acabam sendo inevitáveis”, lamenta Giovana Araújo Lopes, que se rendeu também ao apelido do filho mais novo, João Gabriel, de 16, que virou Biel.

A genética, de fato, parece explicar um tanto do gosto de Guti pela culinária, pois além da prendada mamãe, seu avô materno, Rubens Zimmermann, foi cozinheiro do Exército – além de ter defendido o gol do Caxias. E mais: “Um tio paterno, Jorge, sempre foi o cozinheiro da família e sem dúvida também motivou e incentivou o Luis Gustavo, além das avós Marlene e Laura”, acrescenta a mãe, dando o devido crédito ao cunhado, à mãe e à sogra.

Assim, nada mais natural que Guti sempre quisesse ficar ao lado da mãe na cozinha e aprendesse rapidamente alguns dos fundamentos da culinária. “Mas ele sempre preferia me ‘ajudar’ a fazer doces”, reforça Giovana, comprovando as informações com fotos do “ajudante de cozinha” com um ano mexendo nos quitutes do aniversário e com sete já misturando massa para bolo.

 

Arquivo de Família/ND
Enquanto a mãe, Giovana, prepara as coxinhas para seu aniversário de um aninho, Guti já insiste em botar a mão na massa, tarefa que sempre tomou para si em todas as fases da vida

 

Além da gastronomia, música

é outra paixão familiar

Aliando a vocação culinária à música, Guti aprendeu a tocar violão e guitarra (uma delas decora a cafeteria). O irmão, Biel, acrescentou violino e teclado e hoje integra a orquestra municipal.

Certo do caminho a seguir, Luis Gustavo passou no vestibular para o curso de gastronomia da Univille. Mas... “Percebi que não iria me ajudar imediatamente, pois os doces são apenas uma parte da grade. Interrompi e fui fazer um curso de confeitaria no Senac”, conta o confeiteiro, formado na metade deste ano. Porém, a faculdade será retomada em breve.

Em agosto passado, enfim, chegou a hora de unir os esforços familiares e abrir o negócio. Giovana já trazia o know how do Ateliê do Sabor, empreendimento doméstico do mesmo ramo. Com apoio – especialmente financeiro – do pai José Roberto, corretor imobiliário, mãe e filho alugaram um espaço na rua São Paulo e começaram a adequá-lo para receber a cafeteria.

A família uniu-se em mutirão na montagem, contando com a ajuda de parentes e amigos que doaram móveis e, no dia 18 de agosto, a cafeteria Guti’s Gourmet abria as portas, com o objetivo de cumprir o preconizado no slogan “confeitando com arte”.

Adotando o marketing boca-a-boca, panfletando e usando as redes sociais, logo formaram uma clientela. E já foi necessária uma primeira ampliação, com a abertura de mais uma sala de café nos fundos – na entrada, além do balcão, há três mesas.

O próprio Guti encarrega-se da cozinha, onde alterna a produção de bolos tradicionais com criações exclusivas, e divide o atendimento com a mãe e o irmão; o pai junta-se à equipe após o expediente na imobiliária e aos sábados.

É perfeitamente normal, ocasionalmente, alguma mulher entrar pela porta lateral com uma toalha nos ombros, para tomar um café enquanto espera o cabelo secar. “Temos uma parceria com o salão Espaço da Beleza, vizinho de porta”, explica Giovana.

 

Luciano Moraes/ND
Upcoat cake de damasco, outra criação do chef

 

Serviço

O quê: Guti’s Gourmet Cafeteria e Encomendas

Onde: rua São Paulo, 1.333, bairro Bucarein

Telefones: 47/3278-2951 e 9976-2565

Email: contato@gutisgourmet.com.br

Home Page: www.gutisgourmet.com.br

Horários: terça a sexta, das 8h30 às 19h30, e sábado, até 18h30

 

 


Dorotil Rodrigues, a ex-professora que virou pintora, curte a saudade dos tempos de magistério

De família muito humilde, ela lutou muito até conseguir conciliar a vida de operária com a de estudante bolsista e atingir seus objetivos
Fabrício Porto/ND
Feliz com a vida que tem levado em Joinville, depois de anos de ausência, Dorotil hoje se dedica ao hobby da pintura, com resultado que beira ao profissional

 

Das dezenas de perfis de pessoas que fizeram do magistério a profissão, destaca-se uma curiosidade: muitas das entrevistadas diziam que uma das diversões infantis preferidas era brincar de professora. Não foi diferente com Dorotil Dias de Oliveira Rodrigues, 70 anos recém-completados: “Eu adorava ensinar matemática para as irmãs, primas e amigas. Como era boa na matéria, acabava ensinando de verdade”.

Nada mais natural, portanto, que ela deixasse o nome na história da educação joinvilense, como professora, diretora e, acima de tudo, educadora de várias gerações. Hoje, aposentada, volta a ser aluna, aprimorando outra de suas vocações, a pintura.

Nascida na localidade de Rio Bonito no dia 13 de setembro de 1944, Dorotil foi registrada em Garuva. “O cartório era mais perto. E meu nome era pra ser Doroti, escolhido pela minha mãe, mas houve algum ruído de comunicação entre papai e o escrivão”, explica, conformada em ser a única pessoa que conhece com o inusitado prenome.

Primogênita de quatro filhos, tinha quatro anos quando a família mudou-se para São Francisco, onde o pai seria portuário. Três anos depois, moravam em Joinville. Mas as andanças não pararam, ainda que na cidade: “Fiz o primeiro ano do primário no colégio Germano Timm, pois morávamos no Centro. A partir do segundo ano, morando no Floresta, fui para a escola Santa Catarina, que não existe mais (deu origem à Escola Oswaldo Cabral). Tive aulas com as professoras Erotides Ravache, Aquilina Hoffmann e Marisa Martinoski”, enumera, sem titubear as mestras do antigo primário – e isso reclamando da “memória que vive falhando”.

O antigo “normal”, equivalente aos atuais 5º ao 8º ano do ensino fundamental, foi feito no colégio Rui Barbosa, de onde saiu habilitada. Mas a carreira no magistério ainda teria de esperar mais uns anos. “Como minha família era pobre, muito cedo comecei a trabalhar, primeiro na Magnetos Vibema, depois na Usina Metalúrgica Joinville e, finalmente, na Tupy, quando a empresa ainda funcionava no Centro, onde hoje é o Shopping Mueller.”

Nas empresas, Dorotil trabalhou em setores ligados a custos, comprovando a intimidade com a matemática. A dura rotina de conciliar estudos e trabalho foi complementada com curso de datilografia e contabilidade na tradicional escola de Nélson de Miranda Coutinho. Em 1965, Dorotil casou-se com Ilson James Rodrigues, a quem conhecera na igreja que frequentavam.

 

Arquivo de Família/Divulgação/ND
Em 1969, professoras do Colégio João Costa. Dorotil é a sexta a partir da esquerda

 

 

Um empurrão do prefeito Nilson

Bender na formação profissional

 

Mesmo trabalhando na Tupy, Dorotil queria ser professora. E o desejo aumentou quando a empresa mudou-se para o Boa Vista. “Quando seu Bender assumiu a Prefeitura – conta – pedi a ele uma vaga como professora. Como não podia dar aulas sem me formar no normal, e não tinha como bancar o curso no Colégio dos Santos Anjos, o próprio Bender me deu o dinheiro para a matrícula e me conseguiu uma bolsa de estudos.”

Formada, Dorotil foi dar aulas no colégio Júlio Machado da Luz (atual Heriberto Hülse). Um ano depois foi transferida para o Guaxanduva, precursor da escola Padre Valente Simioni. Em 1971, foi aprovada em concursos para as redes municipal e estadual. “O Estado ia me designar para um colégio em Nova Erechim, no Oeste, mas preferi o município. Como podia escolher o local, pedi o colégio João Costa, onde cheguei a auxiliar de direção.” Um ano e meio depois, Dorotil assumia a direção do colégio Jarivatuba, atual João Oliveira. Em 1979, formada em pedagogia pela ACE, era designada como primeira diretora do recém-inaugurado colégio Virgínia Soares, lá ficando até se aposentar, em 1991.

Depois de 11 anos morando em Balneário Camboriú e outros quatro em Itajuba, se recuperando de uma delicada cirurgia cardíaca, Dorotil, marido e filhos retornaram a Joinville. Hoje, o casal mora no Bom Retiro, onde a professora passa o tempo produzindo telas retratando a natureza.

“Isso é só uma parte das habilidades dela, que entende até de eletricidade”, elogia o marido. Dos quatro filhos e seis netos, ninguém seguiu ou demonstrou vocação pela pedagogia. Mas Dorotil considera-se realizada: “Minha maior alegria é ser cumprimentada por alguém que foi meu aluno”.

 

 

Com o perfil de Dorotil Rodrigues, o ND homenageia todos os professores pelo seu dia, neste 15 de outubro


O sempre inventivo Pamplona divide-se entre o escotismo e a arte manual

Entusiasta do escotismo e do voluntariado, ele se diverte na aposentadoria fazendo equipamentos de madeira

Marcos Luiz Pamplona era um entusiasta do escotismo, até que resolveu se filiar e vivenciar as experiências do movimento. Mas não passou por todas as fases da evolução, de “lobinho” a sênior. “Entrei no escotismo como voluntário, aos 30 anos, e coloco minha experiência a serviço da organização de acampamentos”, informa Pamplona, mostrando a camisa azul cheia de adesivos que remetem aos diversos eventos de que participou como voluntário. Experiência não lhe falta: trabalhou na roça, entregou leite, foi estofador e marceneiro e hoje, aposentado, dedica-se à produção de equipamentos de madeira para artes marciais e a hobbies – no momento, empenha-se na reforma de um motor home.

 

Fabrício Porto/ND
Com frente de fusca e traseira de picape, o carro que é o verdadeiro xodó do neto: “Quando busco Bernardo na escolinha, ele diz aos amiguinhos que aquele é o carro dele e do vô”, mais a camisa de escoteiro e as armas de aikido

 

Pamplona nasceu em 1948, em Taió. Irmão do meio de um time de nove, aos 8 anos já ajudava na entrega de leite de casa em casa em Lages, para onde a família se mudara. Dois anos depois, a volta ao Alto Vale, agora em Rio do Sul. “Com 14 anos, aprendi os ofícios de estofador e marceneiro, nos quais pude aplicar a tendência que já demonstrava para criar. Desde criança eu gostava de aprender como as coisas funcionam. Naquele tempo, não havia decorador de interiores, e o marceneiro precisava idealizar os móveis de acordo com o desejo do freguês e das características das residências.”

 

Construindo um veleiro

 

Pamplona chegou a Joinville em 1973, convencido por uma irmã que morava na cidade. Logo, conseguiu emprego como encarregado de manutenção da empresa de Germano Stein, então com uma rede de 16 lojas. A criatividade logo foi posta à prova: “Germano tinha barcos, e eu era encarregado da manutenção. Aprendi tanto que acabei construindo um veleiro de 37 pés para Gerd Hauffe, diretor da empresa, baseando-me numa planta canadense traduzida”.

Como frequentava o Joinville Iate Clube, Pamplona participou ativamente do esforço de auxílio às vítimas da enchente de 1983, especialmente no Vale do Itajaí. “Levamos 35 lanchas e 72 homens a Blumenau, onde ficamos três dias ajudando a socorrer pessoas e salvar bens. Cheguei a me deslocar até Rio do Sul, para me certificar de que minha família estava bem”, relembra.

Entre os familiares estava Ricardo, filho que teve no primeiro casamento. Hoje com 40 anos, também morando em Joinville, o filho tornou-se um grande amigo. Do segundo casamento, com Regina, tem a filha Daniela (teatróloga, casada com Ordilei Soares, perfil em agosto passado), que lhe deu os netos Bernardo, 4 anos, e Cecília, 3 meses – também é tio da radialista Ju Pamplona.

Em 1978, quando decidiu ser voluntário a serviço do escotismo, Pamplona filiou-se à regional catarinense da União dos Escoteiros do Brasil, tornando-se um organizador de acampamentos. Há alguns anos, integrou-se ao Grupo Escoteiro do Mar Capitão Hassel, de Joinville. Dos eventos dos últimos anos, tem boas lembranças de um grande acampamento realizado em 2010 em São Joaquim, onde ficou uns 15 dias. A mulher, Regina, não reclamou? “Que nada! Ela foi junto.”

Há quatro anos, Pamplona vem incrementando o orçamento doméstico com a fabricação de armas de madeira para artes marciais. Na oficina de casa, cada boken (espada), hanbo (bastão) ou tonfa (cassetete) merece o cuidado artesanal necessário, de acordo com as várias filosofias orientais. Os equipamentos são adquiridos por academias locais, como o Instituto Tachibana de Aikido.

Em frente de casa, numa tranquila rua do Costa e Silva, estão o motor home em processo de reforma e um veículo que Pamplona remontou, a partir de um buggy. Com frente de fusca e traseira de picape, o estranho carro é o xodó do neto. “Quando busco o Bernardo na escolinha, ele faz questão de dizer aos amiguinhos que aquele é o carro dele e do vô.” No vidro traseiro, o adesivo confirma: “Bernardo a bordo”.


Família que só queria se divertir descobriu no triciclo centopeia um empreendimento

Em três anos, já são 29 triciclos que divertem turistas na praia de Barra Velha no verão e também são locados na Expoville, em Joinville
Fabrício Porto/ND
Patrícia e Luiz Carlos Casas com os filhos Caio, de 9 anos, e Igor, de 6: eles trabalham e se divertem ao mesmo tempo, além de oferecer uma opção de lazer para o público

 

Quem circulou pelas ruas centrais de Joinville no Dia Mundial sem Carro, em 22 de setembro, além das tradicionais bicicletas de duas rodas deparou-se com outro tipo de veículo movido a pedal. Era o triciclo centopeia, que permite que até uma dezena de pessoas pedale junto, misturando exercício físico e diversão.

Ainda que muitos tenham visto o estranho veículo pela primeira vez, frequentadores da Expoville e da praia de Barra Velha já estão acostumados. “Começamos a disponibilizar os triciclos há uns três anos, em Barra Velha, depois de vê-los na Enseada. Em março deste ano, montamos o negócio na Expoville e logo fez sucesso”, informa o empreendedor, Luiz Carlos Casas Filho, 33, que comemora o êxito da iniciativa tomada junto com a mulher, Patrícia, já prevendo investir no aumento da atual frota de 29 triciclos, de olho na temporada de verão.

Casas não imaginava se tornar um empreendedor num negócio voltado ao lazer quando se formou na Faculdade de Turismo do Ielusc, em 2005. “Já havia trabalhado em diversos lugares, e via o turismo apenas como boa perspectiva para o futuro.” Como a confirmar o acerto da escolha, há quatro anos foi aprovado em concurso para a Prefeitura e designado como guia da Fundação Turística, na Casa Krüger, no trevo da Dona Francisca com a BR-101, em Pirabeiraba.

A bióloga Patrícia, com quem se casara há 11 anos, era funcionária da Fundação 25 de Julho. E admira a competência do companheiro: “Ninguém conhece mais que o Luiz os detalhes das atrações turísticas ao longo da SC-418”. Ele reforça: “Nos fins de semana, muita gente para em busca de informações sobre as opções gastronômicas da região. Há muito potencial a ser explorado”.

 

Reforço no orçamento se inspirou

na falta de opções de lazer na praia

 

No verão de 2010-11, observando a movimentação dos triciclos na praia de Enseada, o casal começou a imaginar algo semelhante no balneário que frequenta, Barra Velha. “Lá, além da praia em si, quase não há opções de lazer”, diz Casas.

Na temporada seguinte, já com a empresa Conexão Triciclos registrada, adquiriram as primeiras unidades, fabricadas pela paulista Dream Bikes, e levaram a novidade para a beira-mar de Barra Velha.

Feito o necessário estudo de mercado e superadas barreiras burocráticas, logo os triciclos viraram a nova coqueluche do verão barra-velhense. “Vinham turistas de vários locais. Certa vez, ligaram de Pomerode avisando que viriam à noite para pedalar na orla”, relembra o empreendedor.

Afastada do emprego devido a um acidente, Patrícia encarregou-se da administração do negócio. “Ele é o sonhador, eu cuido dos detalhes do dia a dia”, diz a “sócia”.

No dia 9 de março deste ano, o casal decidiu entrar no consórcio de empresas da área de lazer do complexo da Expoville, formado também pelos pedalinhos, parquinho infantil e o waterball. “Agora, temos movimento o ano todo, já que na praia o forte é só na temporada. Aqui, num fim de semana de tempo bom, a média chega a 500 locações”, detalha ele.

Há duas opções de triciclo: o chamado “família”, para dois adultos pagantes (a R$ 5 cada) e duas crianças; e a centopeia, que conecta de dois a dez triciclos, também a R$ 5 por pessoa.

“Essa é uma boa forma de socializar a diversão, pois todos podem pedalar. Também há os brincalhões, que freiam sem que os amigos percebam”, acrescenta Casas. Há até a possibilidade de inclusão social, como ocorreu em agosto, quando a Ajidevi (Associação Joinvilense para Integração de Deficientes Visuais) promoveu um dia de diversão. “Acompanhados de um guia que apontava a direção a seguir, muitos cegos se divertiram. Tinha alguns que jamais pedalaram uma bicicleta na vida!”, relembra Patrícia.

 

Serviço

Na Expoville, os bilhetes podem ser comprados na mesma barraca das demais opções de lazer, em frente ao lago dos pedalinhos

Em Barra Velha, há uma barraca de venda de bilhetes na praia central

A Conexão Triciclos também loca equipamento para campanhas publicitárias

Contato: 3428-0631 / 9184-2149 / conexaotriciclos@gmail.com


Há quatro gerações, família Mertens vem se destacando na prática do tiro na região de Joinville

Gérson Mertens viu o avô, o pai e o tio serem reis do tiro e envolveu agora a mulher e o filho, que está dando continuidade à saga e também colecionando faixas e troféus
Fotos e reprodução Mauro Artur Schlieck/ND
Gérson, Dina e Christian e a vasta coleção de títulos que os une na prática do esporte

 

A família Mertens tem uma característica em comum há cinco gerações: o gosto pelo tiro ao alvo – e a boa pontaria, a julgar pela coleção de medalhas e troféus de Gérson, um dos representantes da terceira linha de descendentes. “O pioneiro foi meu avô paterno, Reimund Mertens, um aficcionado e campeão do tiro. Ele foi sucedido por dois filhos, dois netos e, agora, a continuidade está garantida com o meu filho”, diz Gérson, às voltas com a organização de uma exposição de suas centenas de troféus e medalhas – incluindo muitas conquistas na pesca, outra de suas paixões.

Reimund, naturalmente conhecido como Raimundo em Joinville, foi ecônomo do antigo Salão Reiss, sucedido pela Sociedade Atiradores e depois Cruzeiro Joinvilense, no endereço original, ao lado do viaduto da rua Ottokar Doerffel (hoje o clube fica na rua Doutor Sehrwald, no mesmo bairro Atiradores). “A família tinha um sítio por ali, e meu avô era bom na carabina. Ele ensinou os filhos, Norberto e Doriwald, meu pai, a atirar também”, conta Gerson, filho mais velho de Doriwald Mertens.

Nascido em 1970, Gérson também ganhou sua espingarda de pressão, com a qual abatia os pássaros que se transformavam em petiscos, numa época em que a preocupação ambiental engatinhava e a caça era permitida – assim como a posse de armas, tanto de fogo como de pressão. “Hoje – reforça Gérson – claro que não se admite atirar em pássaros, e meu filho nunca mirou em outra coisa que não fosse a mosca do alvo.”

 

Os precursores de Gérson: o pai, Doriwald, o avô, Reimund, e o tio, Norberto

 

Tradição seguida na Associação Atlética Tupy

Além do gosto pelo tiro ao alvo, Gérson Mertens seguiu o pai no caminho profissional. “Meu pai foi funcionário da Tupy, e dirigiu o departamento de tiro ao alvo da Associação Atlética. Eu me formei técnico metalúrgico pela Escola Técnica e comecei a atirar em 1979, quando era estagiário na fundição.” Prestes a completar 35 anos de serviço em seu único emprego, hoje é supervisor de produção. Seu irmão caçula, Vilmar, também é atirador, e apenas o do meio, Sérgio, não empunha carabina.

Jovem dos áureos tempos da disco music, Gérson também foi discotecário (equivalente ao atual DJ) na pista da Associação Atlética Tupy. Ali, entre os embalos de sábado à noite, conheceu a morena Dina, frequentadora da discoteca. Casaram-se em dezembro de 1982 e, oito anos depois, Dina passava a acompanhar o marido ao estande de tiro da AAT.

Hoje, a família vai em trio praticar o tiro: o filho mais novo, Christian, 22, também funcionário da Tupy, é a quarta geração dos Mertens mirando o alvo – o mais velho, Jonathan, de 29, prefere outros hobbies.

Christian está quase concluindo a faculdade (na Sociesc, claro!) e se esforça para juntar uma coleção de medalhas e troféus igual à do pai. “Por enquanto – informa o pai e mentor – ele está na pressão, mas quero que seja um campeão em outras modalidades.”

A coleção dele tem, além de todas as conquistas no tiro, diversos troféus e medalhas conquistados em gincanas de pesca, especialmente pela equipe Os Piranhas. A mais antiga medalha, porém, datada de 1977, foi ganha numa competição de tênis de mesa, ainda pela Escola Técnica Tupy. Dois anos depois veio a primeira medalha no tiro: “Foi num torneio na Sociedade Alvorada. Faltou um atirador da Tupy, e fui selecionado no laço. Acabei como melhor atirador da equipe”.

Dali em diante, o acervo só aumentou, chegando hoje a 110 troféus e 240 medalhas. Atualmente, Gérson disputa as modalidades tiro seta, carabina apoiada .22 e carabina a ar mira aberta 10 metros.

Outra modalidade em que Mertens se destaca é a reciclagem: “Eu recolho todo o chumbo utilizado em competições, fundo na minha churrasqueira e moldo chumbadas para pesca”. Na mosca!

 

Títulos de rei e príncipe se proliferam nas faixas que sobrem uma parede da casa da família

Vilson Zoller relembra a criação da Sociedade Piraí, na casa do avô, e as “viagens” de trole

Para o presidente do clube, ele sempre foi uma espécie de extensão da própria casa
Fabrício Porto/ND
Vilson Zoller preside há cinco anos a S.E.R. Piraí, cargo que também é uma espécie de herança familiar, já que o seu avô, Ludwig, foi o primeiro presidente

 

“No tempo de criança, a maior festa era quando meu pai deixava algum filho ir junto, de trole, entregar mercadoria na cidade. Era uma verdadeira viagem, levava o dia todo, mas era tudo muito divertido.” A lembrança vem à memória de Vilson Zoller enquanto aponta em direção ao final da Estrada Comprida, na região do Piraí, onde nasceu e se criou.

Hoje, mesmo morando no bairro Glória, Zoller tem motivos para continuar voltando ao ninho: manteve um pequeno sítio na propriedade da família, de onde tira alguns frutos da terra, e precisa comparecer ocasionalmente a S.E.R. (Sociedade Esportiva e Recreativa) Piraí, da qual é presidente – está no segundo ano do terceiro mandato. Na fachada da sede do clube, além da identificação da S.E.R. Piraí, ainda é mantida a placa do tradicional Salão Jacob, origem da agremiação.

Zoller nasceu em 1952, não muito longe da sede do clube. “Meu avô estabeleceu-se inicialmente na Estrada Blumenau, depois foi para a Estrada do Salto, até se fixar aqui. Meus pais tinham roça, onde plantavam variedades de hortaliças, para subsistência e para comercialização, e também criavam galinhas e porcos. A produção era vendida na cidade”, conta, relembrando as divertidas odisseias no trole puxado por uma parelha de cavalos.

Assim como os três irmãos, ele também frequentou escola apenas até concluir o curso primário (correspondente às atuais primeiras cinco séries do ensino fundamental). “Estudei num pequeno colégio da região, mais tarde batizado de Valesca May Engelmann, em homenagem a uma professora daqui. Não cheguei a ser aluno dela, mas a frau sim”, conta Zoller, referindo-se à mulher, Lurdes (da família Köhntopp), com quem casou em 1974.

O casal instalou-se numa casa construída pelo pai dele, na propriedade da família, mudando-se há duas décadas para o Glória. A antiga moradia virou um recanto: “Trazíamos os filhos aqui, para que vissem como era a vida no campo, e até hoje planto alguma coisinha”, diz, enquanto retira do carro um saco de aipim colhido no sítio e destinado à cozinha da Sociedade Piraí.

Ex-diretor da paróquia luterana da Vila Nova, da APP da escola em que estudou e do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, quando se mudou para o Glória passou a se dedicar à jardinagem. Além da Sociedade Piraí, também frequenta a vizinha de bairro, a Esmeralda, onde Lurdes é da equipe de tiro.

 

Fabrício Porto/ND
As conquistas esportivas da sociedade são motivo de orgulho para Zoller

 

O pioneiro Salão Jacob, uma homenagem ao tio Amandus

 

“A Sociedade Piraí nasceu na casa do meu avô, que reunia os amigos para praticar tiro ao alvo. Depois, as competições passaram a ser na casa onde funcionava o comércio e o salão do meu tio, Amandus Jacob. Meu avô, Ludwig Zoller, foi o primeiro presidente.” Após sucessivas ampliações e reformas, hoje nada mais resta da antiga construção de madeira. A sede da SER Piraí – adquirida em 1993 – é toda em alvenaria, com salão com capacidade para 700 pessoas, sala de troféus, uma bem equipada cozinha, bar e o estande de tiro.

Admitindo nunca ter sido um grande atirador, Zoller foi ecônomo da sociedade por nove anos; depois, tesoureiro e, há cinco anos, presidente.

“Hoje, não temos mais ecônomo. Os próprios sócios ajudam a cuidar do bar e da cozinha. Geralmente, abrimos às sextas, para encontros do pessoal do tiro ao alvo. Todo o sustento vem das colaborações dos 70 sócios, vendas de títulos e, principalmente, dos eventos”, informa, referindo-se ao baile de aniversário, em fevereiro; o tiro rei, no meio do ano; a Festa do Colono, em setembro; o baile de encerramento, em dezembro; e promoções esparsas. “No dia 12, teremos um almoço com costela de fogo de chão”, convida Zoller, disponibilizando os telefones 3453-1331 e 9198-4477 para reservas de mesas.


Vendedor de panos de prato nas ruas de Joinville, Zé ganha notoriedade com foto em rede social

José Leal dos Santos pode ser encontrado especialmente na esquina das ruas Marechal Deodoro e Blumenau
Divulgação/ND
Uma cliente comprou os panos de prato de Zé, e ao admirar o esforço do trabalhador para quem não tem sábado, domingo ou feriado de folga, prometeu ajudá-lo a arrumar mais clientes. Ela compartilhoua foto dele no Facebook no dia 9 de setembro e em uma semana eram mais de 1.200 compartilhamentos e elogios

 

“Desde que alguém colocou na internet, melhorou o movimento. Não dá pra reclamar.” A constatação, comprovando o alcance das redes sociais e dando uma amostra da humildade que o caracteriza, é de José Leal dos Santos, ou simplesmente o “seu Zé”, que diariamente pode ser encontrado em uma esquina de Joinville – a das ruas Marechal Deodoro e Blumenau, ao lado do Laboratório Ghanemzinho - vendendo panos de prato para reforçar o orçamento doméstico.

Sua história é semelhante à de tantas outras de pessoas que trocaram a dura rotina da roça por uma oportunidade num centro maior, com mais ofertas de trabalho. Com pouco estudo e o aprendizado na escola da vida, Zé Leal se empenha em ofícios variados, adaptando-se às circunstâncias, mas fazendo questão de exercitar as virtudes trazidas de casa e aprimoradas no convívio religioso (é evangélico).

Nascido na pequena cidade paranaense de Nova Cantu, foi o caçula dos sete filhos de uma família de agricultores. Hoje com cerca de 8.000 habitantes, o município cujo nome é uma referência a uma cidade da Itália é considerado uma das últimas fronteiras agrícolas do Oeste paranaense. Quando Zé nasceu, em 1968, o município existia há apenas quatro anos, desmembrado de Roncador.

“Precisava levantar às 4h da madrugada para ordenhar as vacas antes de ir pra escola. Mesmo sendo o caçula, não tinha moleza”, conta ele, que estudou apenas até concluir o antigo primário (quatro primeiras séries do atual ensino fundamental). Tinha 16 anos quando a família migrou para Cascavel, a maior cidade da região, em busca de novas e melhores perspectivas.

Ali, trabalhou numa serraria e na Prefeitura, onde aprendeu diversos ofícios na área da construção civil – especialmente o de pedreiro, que acabou virando sua profissão. Casou-se aos 18 anos, teve quatro filhos, separou-se e foi pra capital.

 

Uma nova vida na terra natal da mulher

 

Corria o ano de 2002 quando Zé Leal, sozinho, instalou-se em Curitiba. Trabalhou em obras e, algum tempo depois, conheceu uma viúva, Esther, com quem se casou. “Conhecemo-nos na igreja evangélica que frequentávamos, e tivemos um filho, o Daniel, hoje com 12 anos”, conta.

Há uns três anos, Esther sugeriu nova mudança, para sua cidade-natal, Joinville. A família se instalou no bairro Estêvão de Mattos e logo ele arranjou trabalho. “Trabalhei primeiro numa oficina, depois como pedreiro, pegando empreitadas onde houvesse vaga. A Esther trabalha como diarista.”

Um novo desafio surgiu há cerca de dois anos, quando Leal começou a sentir dores na coluna, resultado dos anos de trabalho duro como pedreiro. O jeito foi procurar novas formas de sustento. “Um amigo que vendia panos de prato sugeriu que eu também escolhesse um ponto e me tornasse vendedor. Aí me fixei aqui nessa esquina e, graças a Deus, dá pra levar um dinheirinho para o sustento da família.”.

Fornecidos por um fabricante de Florianópolis, os panos de copa são vendidos a R$ 10 o kit com cinco unidades. O “expediente”, claro, depende de diversos fatores, especialmente o clima. “Para compensar os dias parados por causa da chuva, preciso trabalhar sábados, domingos e feriados. Mas não reclamo. O importante é ter um trabalho honesto”, conclui Zé Leal, deixando um agradecimento às pessoas que postaram sua foto no Facebook.

“Agradeço, pois ajudou a me tornar mais conhecido e o movimento aumentou.” E, se alguém estiver precisando de panos de prato e a chuva impedir Zé Leal de ocupar seu posto, é só ligar 47/8421-6529 e fazer a encomenda.


Professor Tito relembra luta por criação da faculdade de educação física da Furj

Um grupo de visionários lutou pela instalação deste que foi o terceiro curso superior da então fundação universitária, depois transformada na Univille
Mauro Artur Schlieck/ND

Antonio José da Rosa, que desde o nascimento só atende pelo apelido de Tito mesmo, no complexo esportivo que é resultado de uma semente que ele ajudou a semear ainda nos anos 60

 

“No início, os professores eram subordinados ao departamento de Filosofia, e as aulas eram dadas na churrasqueira, no salão e na galeria da Sociedade Ginástica. Mas a semente deu bons frutos, é só ver essa estrutura de hoje”, diz o professor Tito, um dos mentores da Faculdade de Educação Física da Univille, apontando para o interior do moderno ginásio, com sala de musculação e piscina, entre outras instalações.

“A criação e a regulamentação do curso exigiram muito esforço e insistência, especialmente do doutor Murilo Barreto de Azevedo, o grande inspirador deste curso”, completa Tito, referindo-se ao advogado jaraguaense e um dos maiores entusiastas dos esportes no Estado, falecido há cerca de 11 anos.

Tito foi o apelido que Antonio José da Rosa ganhou logo que nasceu, em 1943, na capital mato-grossense Cuiabá. Mal conheceu a cidade-natal, pois tinha dois anos quando a família mudou-se para Rio Negro, no Paraná. “Meu pai era militar, e veio servir no batalhão ferroviário, encarregado de construir a linha Mafra-Lages. Também servi lá, cheguei a cabo, mas minha vocação era a educação física”, conta Tito.

Ele chegou a disputar a primeira edição dos Jogos Abertos de Santa Catarina, em 1960, pela seleção de vôlei da vizinha Mafra. “Eu gostava de tudo que era esporte. Também joguei basquete e futebol pelo Peri Ferroviário, de Mafra, disputando o campeonato catarinense. Logo que deixou o serviço militar, Tito aceitou o convite de um amigo para ser professor de educação física num colégio de Paranaguá. “Terminei o segundo grau lá e me empolguei com a nova carreira. Um ano depois já fazia a Faculdade de Educação Física na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba.”

 

 

Mauro Artur Schlieck/Reprodução/ND
Primeira turma masculina, em 1970 (Tito é o quarto agachado; em pé, o professor Eros é o segundo, de blusa branca, e Murilo Barreto, o último à direita)

 

Advogado e esportista Murilo Barreto

de Azevedo lançou desafio em Joinville

 

Tito cursava o último ano da faculdade quando o advogado e esportista jaraguaense Murilo Barreto de Azevedo apareceu. “Ele estava em busca de professores interessados em iniciar um curso superior de educação física em Joinville. Acabou convencendo três alunos do último ano”. Assim, em 1969, com o diploma na mão, Antonio José da Rosa, Eros Busemeyer e Mário Amaral Rodrigues encaravam o desafio de criar uma faculdade.

“A Furj funcionava no Colégio dos Santos Anjos, e o diretor na época, Mário Boehm, nos contratou como professores de filosofia e administração, os únicos cursos que existiam. Montamos o projeto, sob supervisão do doutor Murilo. Ele sugeriu ao prefeito Nilson Bender que criasse um curso voltado à formação de gestores esportivos.”

Em abril de 1970, enfim, era realizado o primeiro vestibular. Cem candidatos disputaram 80 vagas, 40 masculinas e outra metade feminina. Em maio daquele ano, começavam as aulas na primeira faculdade de educação física de Santa Catarina e décima-segunda no Brasil.

Na turma feminina, uma aluna chamou tanto a atenção do professor Tito, que eles se casaram quando Ivonete ainda estava no segundo ano. No terceiro ano, nasceram os gêmeos Luis Fernando e Luis Augusto, mais tarde alunos dos próprios pais (hoje, Fernando é professor na Univille, e Guto, no Bolshoi).

Equipada com sofisticados equipamentos, a Sociedade Ginástica foi a primeira sede física do curso, cedendo salão, galerias e até a churrasqueira. Poucos anos depois, o curso ocupou espaço no campus que a Furj (Fundação Universitária da Região de Joinville), hoje Univille, erguia no Bom Retiro.

“No início era tudo precário. O local das aulas era chamado ‘galinheiro’, e chegamos a improvisar aparelhos de ginástica ao ar livre e até em árvores”, relembra Tito, comparando com a atual estrutura, que oferece ginásio, salas adequadas e pista de atletismo. Ele chegou a chefiar o departamento em três gestões e só se afastou durante dois anos, quando ocupou a presidência da Felej, nos anos 80.

Em maio do ano que vem, quando a faculdade que ajudou a criar completa 45 anos, o professor Tito poderá se aposentar (ainda dá aulas) com a certeza de que todo o esforço valeu a pena.

 

 


Com uma mão só, Nathielle supera barreiras e conquista seu espaço

Terapeuta ocupacional admite que sofreu preconceito por causa da ectromelia, deficiência que causou atrofia na mão direita, mas isso não a impediu de descobrir seu talento e ser uma cidadã em todos os sentidos
Fabrício Porto/ND
Dona de uma agenda lotada, Nathi descobriu no teatro uma paixão que conseguiu conciliar com a carreira acadêmica e hoje com sua vida profissional

 

Exercer a profissão na qual se formou e, ainda por cima, fazê-lo junto com uma atividade prazerosa. Com certeza, é o sonho de qualquer um. Nathielle Bragagnolo Woules realiza esse sonho todos os dias, como terapeuta ocupacional a serviço do teatro. E, literalmente, com uma mão só.

“Nasci com uma deficiência física chamada ectromelia, que causou atrofia na mão direita. Aprendi a ser canhota por necessidade e fui me adaptando aos afazeres diários, superando preconceitos e realizando sonhos”, diz Nathi, como é conhecida no meio artístico joinvilense.

Ainda que tenha nascido na paranaense Toledo, há 23 anos, Nathi se considera cidadã do bairro Vila Nova, de Joinville. “Viemos para Joinville quando eu tinha seis anos, e me criei no Vila Nova. Estudei nos colégios Karin Barkemeyer e Maestro Francisco Manoel da Silva, até fazer a faculdade de terapia ocupacional na ACE. Escolhi essa carreira porque senti que poderia ajudar outras pessoas a superar problemas, muitas vezes piores que o meu.”

Mesmo superando as barreiras físicas, admite ter engolido em seco atitudes preconceituosas: “Dava pra perceber quando algum grupinho de colegas comentava sobre meu defeito físico. O jeito de derrubar esses obstáculos foi me esforçar para viver da forma mais normal possível”.

Hoje, além de dirigir, Nathi gosta de sair à noite para dançar e encontrar com os amigos, ir à praia e ao cinema, acampar, assistir espetáculos de dança e teatro, viajar e conhecer novos lugares e culturas – sempre acompanhada de Leonardo, com quem se casou há um ano.

“Meu esporte preferido é a pole dance, que proporciona testar meus limites e dificuldades. Ajudou na melhora da minha saúde, autoestima e também nas questões estruturais como força muscular bilateral, tônus, coordenação motora e equilíbrio”, conta Nathielle no livro “Classificação Internacional de Funcionalidade e Saúde”, da colega terapeuta ocupacional Silvane Penkal, onde é uma das entrevistadas.

 

Paixão pelo teatro

 

Aos 12 anos, Nathi conheceu o teatrólogo Robson Benta, que visitava o colégio em que ela estudava, em busca de novos talentos. “O teatro foi paixão imediata, e minha estreia foi na peça ‘Clotilde, Brisa, Vento e Cerração’, de Rodrigo Paz. A partir daí, fui me envolvendo cada vez mais, até conciliar a formação acadêmica com o teatro.”

Funcionária pública concursada, Nathielle trabalha no Naipe (Núcleo de Assistência Integral ao Paciente Especial) – e também no Instituto Impar, como terapeuta ocupacional no projeto Arte para Todos, e no grupo de teatro Libração, com pessoas surdas. Também produz e apresenta, em parceria com Fábio Raposo, o programa “Na Toca”, de música e informação (sábados, das 13 às 14 horas, na rádio Joinville Cultural 105,1 FM).


Pelo ambiente e pela vida, Jackson Seidel divide-se entre a gestão ambiental e os bombeiros

E as responsabilidades aumentam: agora ele assume também como síndico do espaço do Piazza Itália, ocupado por órgãos municipais
Rogério Souza Jr./ND
Jackson Seidel ingressou em 2008 no voluntariado, e logo já conquistou posto de subcomandante do Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville

 

Desde garoto, quando ajudava a família na criação de frangos e na colheita de uva em Rio das Antas, onde nasceu e se criou, Jackson Renato Seidel conhece bem a importância da preservação ambiental. E, a partir do momento em que assumiu o volante de um caminhão transportando gás, aprendeu a valorizar a vida.

Nada mais natural, então, que suas atuais ocupações sejam ligadas ao ambiente e à segurança, como funcionário da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e voluntário nos bombeiros. “Aqui, na secretaria, os desafios se renovam diariamente, mais ainda agora, nessa fase de transição para a sede nova”, dizia durante a entrevista, na quarta passada, enquanto funcionários de manutenção ainda trabalhavam na adaptação do órgão à nova casa, na Piazza Itália, agora concentrando também a Seinfra. Encerrado o papo e o expediente na secretaria, ele vestia o uniforme e se apresentava no quartel dos bombeiros, onde é subcomandante.

Nascido em 1975, no Meio-oeste catarinense, o primogênito dos Seidel já conhecia o significado da palavra trabalho desde cedo. “Meu pai era um dos granjeiros integrados da Perdigão, para quem fornecia frangos. Também cultivávamos uva, e nosso vinho colonial era famoso por lá.”

Com tal experiência no campo, nada mais natural que buscasse formação na área. Assim, trocou o Meio-oeste pelo Litoral, formando-se técnico agropecuário pelo Colégio Agrícola de Camboriú. Em 1995, desembarcou em Joinville, empregado pela Cooperativa Mista do Litoral Norte, a Colinorte, já extinta.

Casou, tornou-se pai de Eduardo, hoje com 16 anos, descasou e foi trabalhar como motorista de caminhão na Ultragaz, atendendo empresas da região. “Testemunhei muitas barbaridades nessas estradas, o que serviu para desenvolver o senso da segurança, tanto que jamais sofri ou provoquei acidentes.”

 

Divulgação/ND
Seidel com a mulher, Christian: dupla que é exemplo no voluntariado

 

Vocação para bombeiro despertou

na boleia de um caminhão

 

Na Ultragaz, Jackson Seidel integrou a brigada de incêndio da empresa. Mais tarde, aperfeiçoou os conhecimentos atuando como bombeiro no aeroporto de Joinville. O início da carreira como voluntário se deu em 2008, a convite de um colega de empresa.

“Fiz teste para motorista, aproveitando minha experiência na boleia do caminhão. Passei e no ano seguinte fiz um curso de formação, me habilitando como bombeiro. Cheguei a coordenador de equipe e, em junho de 2013, assumi o subcomando, o posto mais alto para voluntários na corporação.”

Seidel ainda trabalhou na gestão da FEE Brasil, uma ONG voltada ao atendimento de vítimas de calamidades públicas, especialmente de causas naturais, antes de entrar na Fundema, em agosto do ano passado. Agora, na Secretaria de Meio Ambiente, criada após a reforma administrativa, ele é coordenador de emergências ambientais. “Acabo unindo no trabalho todas as experiências anteriores e mais os conhecimentos de bombeiro”, admite, satisfeito.

Com a mudança para as instalações da antiga Piazza Itália, encarou uma empreitada adicional: foi nomeado síndico, responsável pelo bom funcionamento do prédio em que trabalham cerca de 280 pessoas.

Formado em administração de empresas e pós-graduado em gestão ambiental, Seidel prepara-se para novo desafio: “Vou dar aulas para técnicos de segurança do trabalho, pelo Pronatec”.

A agenda carregada não é motivo de desavença com a atual mulher, Christiane, que além de voluntária na empresa em que trabalha, a White Martins, é colega do marido no Corpo de Bombeiros, na área administrativa. Assunto em casa não falta.

 

 


De uma lavoura do Paraná, veio Eliane Raffaelli dos Santos, a melhor garçonete de Joinville

Em quatro anos de Joinville, ela chegou sozinha, trabalhou em vários lugares ao mesmo tempo, juntou dinheiro, trouxe os filhos, construiu uma casa em sua terra natal, já voltou pra lá e retornou para agora conquistar um prêmio e uma TV 42 polegadas
Rogério Souza Jr./ND
Eliane, uma das profissionais que se destacou no Festival Gastronômico de Joinville, e recebeu maior número de votos dos clientes, faz os drinques mais concorridos

 

Eliane Raffaelli dos Santos é garçonete e bar woman. Mais que isso, está entre os 25 melhores profissionais de sua área em Joinville, eleita pelos clientes do estabelecimento em que trabalha, durante o recente Festival Gastronômico. Até chegar a ser uma das mais eficientes garçonetes da cidade, porém, ela precisou trilhar e pavimentar um caminho íngreme. “Trabalhei na roça, não tive muito estudo, precisei criar dois filhos, mas nunca desanimei. Só tenho a agradecer às pessoas que acreditaram em mim e me deram a oportunidade de aprender e trabalhar”, diz Eliane, ainda curtindo a notoriedade conquistada com muita simpatia e competência.

A história começa na pequena cidade de Santo Antônio do Sudoeste, no Paraná, onde Eliane nasceu, em 1982. Filha do meio de cinco irmãos, cedo habituou-se à dura rotina da roça. “Meu pai tinha uma chácara, onde plantava e criava suínos, vendendo parte da produção para a Argentina. Toda a família precisava ajudar, mas ninguém reclamava, era nosso sustento.”

Assim, Eliane estudou apenas até a 5ª série, assumindo em seguida seu lugar na mão-de-obra familiar. Tinha 15 anos quando a responsabilidade aumentou: “Engravidei, casei, tive mais um filho, me separei e assumi a criação dos dois”. Foi morar numa pequena casa atrás da casa dos pais, mas um dia resolveu que a vida poderia ser melhor, mesmo que isso custasse ficar longe dos filhos. Em 2010, ela e o irmão Lincoln, então com 17 anos, embarcaram com destino a Joinville.

 

Nas oportunidades, ela cavou

espaço para uma nova vida

 

“Bateu um desespero quando desembarcamos, mas não dava mais pra recuar”, admite hoje Eliane, relembrando a chegada em Joinville. Era uma segunda. Março de 2010. Os irmãos chegaram com alguma roupa e dinheiro suficiente para um mês, dois no máximo. No dia seguinte, conseguiram moradia e emprego. “Alugamos um apartamento na rua Ponte Serrada e arranjei trabalho como lavadora no Spa do Carro, na rua Max Colin. Saía de casa às 6h da manhã e voltava às 9h da noite.” Um mês após chegar, trouxe os filhos Aline, hoje com 16 anos, e Alisson, 14.

Parada seguinte: Costa e Silva. “Consegui uma quitinete para morarmos e emprego na Platoville, instalando escapamentos em carros. À noite, livrava mais algum fazendo sanduíches na Lanchonete Sapolândia, no Jardim Sofia.” Eliane trabalhou também como doméstica, até conseguir uma vaga de faxineira no restaurante Alles Picanha, no Parque Opa Bier. Ali começava uma nova fase da vida: “Da faxina passei para o bar, fiz curso de barman e consegui guardar dinheiro suficiente para voltar pra minha cidade e construir uma casa”.

Há cerca de seis meses, Eliane decidiu voltar novamente para Joinville, agora sem os filhos, que estão matriculados em escolas de Santo Antônio do Sudoeste. Morando novamente com o irmão – a essa altura casado e descasado – e já conhecida no meio gastronômico local, Eliane conseguiu emprego como garçonete no Botequim Barão, na rua Aquidaban (uma filial do restaurante de mesmo nome localizado no Parque Opa).

“Podia haver quem não acreditasse que eu conseguiria, mas o Saulo e o Paulo acreditaram, eu aprendi o trabalho e a prova de que me dei bem tá na minha escolha como melhor garçonete”, orgulha-se Eliane, citando o dono da franquia Barão e o gerente do Botequim.

“Eu apostei na Eliane, porque já a conhecia e tinha certeza de que ela iria se dar bem como garçonete”, atesta o gerente Antonio Paulo do Nascimento. E acrescenta: “Além de ótima garçonete, ela desempenha muito bem atrás do balcão, tanto que há clientes que fazem questão de pedir que ela prepare seus drinques favoritos”.

Já adaptada à cidade que a acolheu, Eliane Raffaelli não se cansa de agradecer às pessoas que lhe deram oportunidades. E, numa comprovação de que a sorte sorri para quem se esforça, tem mais um motivo de alegria: entre os 25 garçons e garçonetes escolhidos no Festival Gastronômico, ganhou o sorteio de um televisor de 42 polegadas. E o gerente do Botequim já sabe que em dezembro precisará dar três dias de folga para sua melhor garçonete: “Vou à formatura da minha filha em Santo Antônio”, orgulha-se.


Professor Guto se realiza como preparador físico, seguindo passos do pai, da mãe e do irmão

O garoto peralta e que chegou a atrasar pelo menos quatro anos na formação escolar descobriu mais tarde que o irmão a vocação que já trazia no sangue
Fabrício Porto/ND
Luis Augusto da Rosa responde pela academia e pela forma física dos alunos da Escola do Teatro Bolshoi em Joinville

 

Luis Augusto sempre foi o irrequieto, guri peralta, agitado, quase um oposto do irmão gêmeo Luis Fernando. Chegou a se atrasar quatro anos na formação escolar, entrando na faculdade quando o mano já exibia o diploma.

Toda essa energia e certo inconformismo, porém, acabaram sendo canalizados para o aprendizado e o desenvolvimento da profissão, e hoje Luis Augusto da Rosa é o “professor Guto”, responsável pela forma física de todos os alunos da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil.

“Sou filho e irmão de professores de educação física, mas cheguei a trabalhar até como representante comercial antes de me decidir pela faculdade. Hoje, vejo o acerto de minhas opções, ainda que tardias, e me considero um quebrador de paradigmas”, diz Guto, no intervalo de uma das aulas na academia que ele mesmo montou no Bolshoi.

A origem deste ramo da família Rosa está no Mato Grosso, de onde o avô de Guto veio em meados do século passado. “Meu avô trabalhou na construção da ferrovia em Santa Catarina, integrando o batalhão do Exército em Rio Negro. Depois, a família se instalou em Joinville, onde meu pai participou da criação do curso de educação física na Furj (a Fundação Educacional da Região de Joinville, transformada em Univille em 1996)”, conta, referindo-se a Antonio José da Rosa, o Tito, pioneiro na instalação da faculdade e ainda hoje professor.

Guto brinca: “Meu pai acabou namorando uma aluna, Ivonete, com quem se casou. Em 1972, eu nasci, pouco depois do meu irmão Luis Fernando”. O parto dos gêmeos foi complicado, e por pouco o irmão sobreviveu.

 

 

“Sou filho e irmão de professores de educação física,

mas cheguei a trabalhar até como representante

comercial antes de me decidir pela faculdade.

Hoje, vejo o acerto de minhas opções, ainda que

tardias, e me considero um quebrador de paradigmas.”

 

 

Um trauma no ambiente escolar

acabou forjando a fibra

Com pai e mãe dando aulas na Furj, os irmãos fizeram carreira escolar no Colégio de Aplicação, na mesma instituição. Quando estava no quinto ano, porém, Luis Augusto precisou ser transferido. “Tive um desentendimento com uma professora, que terminou em agressão. O tapa me afetou o rendimento e entre reprovações, alternadas com aprovações, acabei levando quatro anos a mais para terminar os estudos.”

Guto exerceu diversos ofícios a partir de então, e era representante comercial quando, aos 26 anos, decidiu prestar vestibular para educação física, seguindo os passos dos pais e do irmão. “Acho que estava mesmo no sangue, só demorou para que percebesse”, admite. Ele se tornou aluno do pai e da mãe quando o irmão concluía a faculdade.

Guto cursava o terceiro ano quando integrou um grupo que recebeu uma turma de alunos do Bolshoi para avaliação física, na faculdade. “Acabei substituindo o professor responsável pela apresentação dos resultados, na escola. Saí com o convite para ser professor.”

Formado em 2002, Guto foi contratado pelo Bolshoi como preparador físico, iniciando uma nova carreira. No mesmo ano, casava-se com Larissa (“Não é professora de educação física, mas fonoaudióloga”, ressalta), com quem tem a filha Maria Eduarda, 12 anos.

Ao assumir o cargo na escola, o novo professor tratou de montar uma academia, aparelhada para atender todas as faixas etárias do Bolshoi. “A exigência física é grande para quem pratica dança, uma atividade de alto impacto e desgastante”, esclarece.

Para exemplificar o nível de exigência, ele cita a ocasião em que o então capitão do time de basquete de Joinville, Shilton, trouxe seu jogador mais alto para uma comparação de capacidade de impulsão: “A partir do chão, sem tomar distância, só com o impulso das pernas, o jogador saltou cerca de um metro e 20 cm, enquanto nosso aluno ultrapassou um metro e meio”.

Hoje cursando mestrado em motricidade humana, após três pós-graduações, Guto comemora a superação do trauma do colégio e faz questão de insistir na quebra de paradigmas como um elemento impulsionador da carreira. “A realização profissional é uma busca constante”, conclui.

 

Perfil sugerido pelo leitor André Geiser


Nego Salfer, o eterno craque do São Luiz, time memorável do bairro Bucarein de Joinville

O atleta que destacou-se nos campos amadores, hoje, aos 77 anos, ainda joga muito
Fabrício Porto/ND
Roney Luiz Salfer, o Nego, tem nos gramados as melhores lembranças. Ele pode não ter sido profissional, mas não largou o futebol e a camisa do seu amado São Luiz

 

“Se não tivesse machucado o joelho, numa época em que havia poucos recursos de tratamento, poderia ter sido profissional e jogado pelo Caxias.” Quem conheceu Nego Salfer garante que ele, de fato, poderia ter feito história no meio-campo do Gualicho nos anos 60. Naquele tempo, porém, uma lesão no joelho era quase uma sentença de fim de carreira, pela complexidade dos procedimentos, numa era pré-artroscopia. Mas Nego não largou a bola: seguiu jogando pelo seu São Luiz do coração e ainda hoje, aos 77 anos, bate uma bolinha todas as terças.

Nascido Roney Luiz Salfer em 26 de maio de 1937, Nego ganhou o apelido em casa e carregou-o pelos campos, acompanhado pelo sobrenome famoso. “Meu pai, Francisco, mais conhecido como França, era primo-irmão do Alfredo, fundador das Lojas Salfer. Não cheguei a ver meu pai jogar, mas sei que estava entre os pioneiros do São Luiz Esporte Clube.”

A família, por sinal, morou algum tempo ao lado do campo do tradicional clube, quando a sede era na avenida Getúlio Vargas (onde hoje se ergue o complexo do Colégio Elias Moreira). “Eu jogava bola dia e noite”, lembra Nego, que fez o ensino básico no Colégio Rui Barbosa, no bairro Bucarein, onde nasceu e se criou – e para onde retornou há 48 anos, quando casou.

Morando ao lado do campo, não havia como não se envolver com as atividades diárias do clube. “Meu pai foi, durante muito tempo, diretor de Patrimônio do São Luiz. Quando comecei a jogar, era zagueiro, mas depois que voltei do serviço militar um técnico me passou para o meio-campo, e por ali fiquei”, conta Salfer, que serviu numa base da Aeronáutica em São Paulo, entre 1956 e 57.

 

Quase parou no América

Ainda que a família fosse caxiense, até pela proximidade com o Ernestão, faltou pouco para que Nego envergasse a camisa rubra do rival América. “Quando voltei do serviço militar passei para os aspirantes do São Luiz, e logo subi para o time principal. O presidente do São Luiz era Valdemar Koehntopp, torcedor do América. Ele me fez uma proposta, pois não estava acertando a renovação de contrato de um zagueiro. Só que, quando estava praticamente acertado, o beque renovou, e o negócio gorou.”

Nego continuou no São Luiz, dividindo o campo com o trabalho. “Comecei a trabalhar com 11 anos, na loja de tintas do meu pai. Também joguei pelo Macam, time da White Martins, onde trabalhei um tempo.” Foi num dos eventos do Macam que Roney e Marilda se conheceram. Casaram-se em 1966 e foram morar numa tranquila rua do Bucarein, pertinho do Colégio Celso Ramos, local de estudo dos dois filhos (que já deram três netos ao casal).

Irmão de Landinho, que também fez fama nos campos amadores defendendo São Luiz e Floresta, Nego lamenta ter estourado o joelho justamente quando recebera uma oferta do Caxias. O problema físico também o tirou do time do São Luiz quando tinha apenas 26 anos. “Nem cheguei a ser campeão, só ganhamos torneio-início.”

Salfer ainda trabalhou 15 anos no extinto Banco Comercial do Paraná e outros 15 na Celesc, onde se aposentou. Mas continua ligado à empresa, agora como frequentador da recreativa. Lá encontra a turma todas as terças para bater uma bola. Torcedor e sócio do JEC – o filho Junior chegou a jogar nas categorias de base do tricolor –, não perde jogo na Arena, a dez minutos de casa. Colecionador compulsivo, abarrotou um dos cômodos da casa com a coleção da revista “Placar”, álbuns de recortes e outras lembranças ligadas ao futebol. “Não dá nem pra chegar na janela! Espero que sobre lugar pra mim”, reclama, brincando, a mulher, Marilda.

 

Fabrício Porto/Reprodução/ND
No time principal do São Luiz, em 1960 (o quarto em pé, a partir da esquerda)

 


Estrangeiros são muito bem-vindos à casa da família Mattos, em Joinville

Cadastrado como "hospedeira" em sites direcionados aos praticantes de cicloturismo, família vai exercendo a hospitalidade enquanto planeja sair pedalando pelo mundo
Mauro Artur Schlieck/ND
Cristian de Mattos, Dani e Victor Hugo na cozinha de casa: eles recebem praticantes estrangeiros de cicloturismo

 

Bem-vindos! A frase, comum nos tapetinhos em frente à porta de casa, adquire um significado especial na residência da família Mattos, moradora do bairro Saguaçu. Ali, o acolhimento geralmente se traduz em diversos idiomas. Do universal “welcome” inglês ao quase impronunciável “gəlmisiniz” do azeri, idioma falado no Azerbaijão. Foi de lá, do país asiático banhado pelo mar Cáspio, que veio o visitante mais recente a se hospedar em Joinville.

Cristian Luís de Mattos, o anfitrião, justifica seu hábito de acolher viajantes do mundo de passagem pela cidade: “Como amante do ciclismo, ainda pretendo viajar com a família. Por isso, há alguns anos me cadastrei em sites de hospedagem, e já recebi muitos viajantes. É um prazer receber essas pessoas em casa e ouvir suas histórias”.

Professor de inglês, assim como a mulher, Daniela, Cristian usa o universal idioma para se comunicar com os hóspedes, como o azerbaijano Rustam Tagiew. Atualmente morando na Alemanha, Tagiew passou por Joinville há uma semana, em seu roteiro ciclístico pela América do Sul.

 

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Rustam, do Azerbaijão, e morando na Alemanha, conhece escola local, em setembro deste ano

O próprio Cristian, ainda que não tenha tirado os pés do Brasil, já tem vários lares. “Nasci em Curitiba em 1975, mas com dois anos já estava em São Miguel do Oeste, para onde meu pai, militar, fora transferido. Depois, fomos para Chapecó, onde concluí os estudos regulares e me casei. Morei ainda um tempo em Videira e, há 14 anos, estou em Joinville. Aqui nasceu meu filho, me formei na faculdade e é de onde vou partir quando iniciar meu próprio roteiro de viagens pelo mundo”, relata o funcionário público – trabalha na Subprefeitura Sudoeste – e professor de inglês, formado em ciências biológicas.

“Sempre fui apaixonado por biologia, e ainda pretendo fazer mestrado na área, para trabalhar com sustentabilidade”, acrescenta, já revelando uma das características dos cicloturistas.

 

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Com Helmut, da Áustria, em janeiro de 2013

 

O ciclista japonês e o padre inspirador

 

Cristian já estava planejando sua primeira excursão-solo de bicicleta em 1998, quando morava em Chapecó. “Pretendia pedalar até o Peru, mas aí conheci a Dani, nos casamos e engavetei os planos. Voltei a pensar no assunto em 2005, quando conheci o padre Valdo, que saiu pedalando de Joinville para os Estados Unidos” (o ex-padre Valdecir João Vieira morreu em 2011, no México, antes de concluir sua viagem).

Cristian, então, cadastrou-se na comunidade internacional de cicloturistas Warm Showers, disposto a reiniciar os planos de viagem – começando como hospedeiro.

Em 2010, abriu pela primeira vez as portas de casa, hospedando o japonês Sekiji Yoshida. “Ele passava por Joinville no roteiro iniciado dois anos antes no Alasca. Ficou três dias conosco, e aprendemos muito com ele sobre o verdadeiro significado do cicloturismo. A comunicação era quase toda em portunhol, pois ele já aprendera um pouco de cada idioma e queria praticar.”

Nos anos seguintes, Cristian, Daniela e o filho Victor Hugo já abriram as portas para um jamaicano, um casal de mochileiros argentinos, outro de ciclistas gaúchos, um cicloturista austríaco e, o mais recente, o azerbaijano Rustam Tagiew.

Como o cicloturismo é uma atividade do tipo vice-versa (receber e ser recebido), Cristian faz planos para o “versa”, depois de ter exercitado o “vice” tantas vezes: “Daqui a dois anos, o Victor terá 13, e aí poderemos começar a viajar. Inicialmente, planejamos um tour pelo litoral catarinense, para pegar o jeito. Mas um dia ainda pretendo retomar aquela ideia engavetada em 1998, e arrumar a tralha para pedalar até o Peru”. Será a vez de Cris, Dani e Victor tomarem “warm shower” (banho quente) em outros lugares.

 

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Recepção aos gaúchos Claito e Luiza, em 11 de janeiro de 2012

Colocador de películas se divide entre a vida de prestador de serviço e de cover de Raul Seixas

Ele, que nem era tão parecido assim com o ídolo, se transforma de tal forma que as vezes se sente mesmo como se fosse o ícone do rock nacional
Jackson Nessler/Divulgação/ND
No palco, Rodrigo dos Santos é o Rodrigo Seixas, considerado um dos melhores covers de Raul Seixas do Sul do País: agenda de shows lotada e uma vida que se confunde com a do ídolo

 

LEO SABALLA

ESPECIAL PARA O NOTÍCIAS DO DIA

Fora do palco, ele até nem se parece tanto fisicamente com Raul Seixas. Aliás, nunca conversou com ele nem esteve perto do maior ícone do rock brasileiro. Mas, quando inicia a performance, é possível sentir a presença do maluco beleza no palco. O timbre da voz é idêntico, até carregado no sotaque nordestino. Chega a levantar dúvida na plateia se o som é mesmo do microfone ou um recurso de playback.

Quem curte o Raul, fica fascinado. Alguns fãs pedem autógrafos e ele assina com o nome do ídolo. Para ele, Raul não tem fãs. Tem seguidores. “Em todos os shows, vejo pessoas cantando comigo e chorando de emoção. Isso é muito louco e confunde a minha cabeça. Às vezes, nem sei quem sou. Mas é assim, nesta duplicidade que me sinto vivo e feliz.”

Cada show é um ritual

Rodrigo dos Santos, que usa o nome artístico de Rodrigo Seixas, 39 anos, é casado e tem um filho de oito anos que tem autismo, mas que também é fã de Raul, por causa do pai. Nascido em Curitiba, hoje ele é um pacato morador de Guaramirim. No dia a dia, trabalha com a colocação de películas em automóveis e locação de brinquedos para festas infantis. Mas a grande paixão está mesmo em encarnar Raul Seixas, o que ele tem feito com regularidade há pelo menos 15 anos.

Considerado um dos melhores covers de Raul do Sul do país, seus shows são muito requisitados e graças a eles, viaja pelo Brasil inteiro. O repertório é variado e extenso. “São tantos os pedidos que às vezes tenho que fazer pout pourri (misto de músicas interpretadas resumidamente) para agradar a todos. O que mais ouve do público? Claro que é o imprescindível “toca Raul”. Cada apresentação é como se fosse um ritual religioso. “Mais que cantar, prego a palavra de Raul”, enfatiza.   

 

Jackson Nessler/Divulgação/ND
Seixas se apresenta no Mercado Público de Joinville

 

Barba só surgiu depois dos 30 anos

Santos conta que esta história de incorporar o ídolo começou meio que por acaso. Sempre foi fã de Raul Seixas e cantava rock desde a adolescência em algumas bandas da região, mas nunca havia imaginado em se transformar em um dos melhores covers do cantor mais cultuado do país. Afinal, a barba começou a nascer somente a partir dos 30 anos.

Mas de 2005 pra cá, a coisa começou a ficar mais séria e as caracterizações do ídolo, consideradas apenas brincadeira nos shows, começaram a chamar a atenção de todos. Ele estava ficando mesmo semelhante ao Raul. E esta parte acabou sendo a mais animada da apresentação. Todos pediam pelo ídolo.

Assim, Santos resolveu abandonar o repertório variado e se dedicar integralmente à performance. “Cheguei a emagrecer 15 quilos só para ficar mais parecido com ele”, revela. “Quando algum jornal ou revista exibe texto ou foto sobre o maluco beleza, penso: vamos ver o que estão falando de mim...”.


Quem sabe Paulo Coelho faz uma música para mim?

O que o Rodrigo e Raul têm em comum além de usarem o codinome Seixas? “Tudo. Tenho certeza que essa energia universal que me envolve é ele quem manda”, diz, convicto. O grande sonho é conhecer e conversar com Paulo Coelho, o parceiro nas composições de maior sucesso. “Quem sabe o Paulo até compõe uma música para mim?”, sonha.

Rodrigo Seixas conhece como ninguém a vida de Raul Seixas, desde a época de Raulzito e os Panteras. Gosta de todas as músicas do astro, mas prefere a fase mais jovem do cantor e destaca Let Me Sing, Let Me Sing como a preferida. “É com essa música que eu quero ser lembrado quando morrer. Se bem que serei imortal, como ele.”

Para contratar: 47/3373-0973 e 47/9169-2122


Nada impede Dorival Jungles Junior de buscar a realização pessoal e profissional

Mesmo com sequelas da paralisia, ele dança, estuda, está em busca do amor e é um exemplo de vida para todos que o cercam

 

FABRÍCIO PORTO/ND
Apoio e amor incondicionais. Dorival Jungles Junior e a mãe, Balbina, têm muitos sonhos juntos. Um deles é viajar de avião, que realizarão em novembro

 

“Sou conhecido por curtir demais a vida, apesar das dificuldades que uma pessoa com deficiência física apresenta. Mas passo por tudo isso sendo muito otimista e persistente.” A declaração resume a filosofia de vida de Dorival Jungles Junior. Ele a repete no livro “CIF – Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde – Relatos de Experiências de Inclusão Social”, a ser lançado em breve pela terapeuta ocupacional Silvane Penkal.

Um dos portadores de deficiência citados na obra, Junior teve paralisia infantil, ou poliomielite, diagnosticada aos dois anos de idade. Hoje, aos 36, é um exemplo de superação, formado em terapia ocupacional e técnico em dança.

Natural de Canoinhas, a família Jungles viu o drama acentuado pela falta de recursos da pequena cidade, no final da década de 70. “Quando a pólio foi diagnosticada, um médico nos aconselhou a procurar um centro maior para o tratamento. Como tínhamos parentes em Joinville, viemos para cá”, conta a mãe de Dorival Junior, Balbina.

Inicialmente estabelecida no Petrópolis, há mais de duas décadas a família reside no Paranaguamirim – o pai, Dorival, faleceu há 15 anos. Junior contou sempre com o apoio da mãe, que o levava à escola, às clínicas e ao Hospital São José, para as intermináveis sessões de fisioterapia, que duraram 16 anos. “Tive a pólio com tetraparalisia, afetando os quatro membros. Bem no início, não conseguia segurar nem a mamadeira. Hoje, os médicos classificam a doença como síndrome pós-pólio. No entanto, considerando as sequelas motoras, o diagnóstico de funcionalidade surpreende muitas pessoas”, acentua, sempre destacando a presença constante da mãe. “Quando ele estudava no colégio Abdon Batista, eu ia na hora do recreio para ajudá-lo com o lanche. Naquela época, não se falava em acessibilidade, e era um sacrifício pegar o ônibus, até que meu marido conseguiu comprar um carro”, acrescenta Balbina.

 

“Quero evoluir profissionalmente, fazer cursos,

pós-graduação e direcionar minha prática

utilizando a dança como recurso terapêutico para

inclusão social, desenvolvimento físico e intelectual das pessoas.”

 

Divulgação/ND
Pessoas com diferentes tipos de deficiência descobrem que também podem dançar e interpretar

 

 

Ele quer ver a dança inclusiva no maior festival do mundo

Mesmo com todas as dificuldades, Junior jamais deixou de demonstrar obstinação: praticava esportes dentro de suas possibilidades, aprendeu a jogar xadrez, estudou muito e, em 2009, recebeu o sonhado diploma de terapeuta ocupacional na ACE.

Há alguns anos, descobriu a dança, que acabou virando uma paixão. “Hoje trabalho como voluntário na Adej (Associação dos Deficientes Físicos de Joinville), como professor auxiliar de dança e coreógrafo. Sou bailarino, desenvolvo solos e danço em grupo”, informa, acrescentando que o projeto tem evoluído e agendado apresentações de dança inclusiva em diversos locais da cidade. 

Em 2012, Junior foi um dos produtores da Mostra de Dança Inclusiva, evento destinado a pessoas com e sem deficiências. “Se tudo correr como o planejado, no ano que vem alcanço o objetivo de ser profissional da dança, como contratado da Adej para dar aulas e manter o projeto.” Outro sonho é ver a dança inclusiva fazendo parte da programação do Festival de Dança de Joinville, numa mostra paralela ou mesmo em nível de competição.

Entre as atividades de que gosta de participar, além da dança relaciona eventos culturais, ir à praia, assistir futebol e vôlei, ler, fazer amigos no Facebook e postar frases motivacionais.

Nas explorações pelo mundo virtual, há algum tempo conheceu Ana Cláudia Lacerda, também com deficiência, formada em serviço social e antenada nos temas de inclusão. Em novembro, ele e a mãe encaram a primeira viagem de avião, para conhecer Ana Cláudia pessoalmente, em Porto Nacional, no Tocantins. Pode ser o início da concretização de mais um sonho de Dorival Junior, revelado no livro da colega Silvane: “Eu desejo ultrapassar os cem anos de forma ativa e com qualidade de vida. Amo muito a vida, espero encontrar um grande amor e me casar”.


Macaco fez fama no surfe, mas sua maior conquista foi superar os desafios da droga e do álcool

Conhecido como o surfista da avenida Cubas, reduto que passou para a história como celeiro de grandes jogadores de futebol, Carlos Celso de Oliveira gosta mesmo é de pegar onda. No futebol, ele prefere ficar com o apito

 

Fabrício Porto/ND
Em um momento de descontração, Carlos Celso de Oliveira sobe em uma árvore para justificar o apelido de "Macaco", adquirido mesmo pelo tom bronzeado

 

“A família é a base de toda a luta, os aliados de

todas as horas. Quase destruí a minha, mas

mulher e filhos não só suportaram, como me

apoiaram incondicionalmente. Agradeço

também ao AA pelas lições de vida.”

 

A região conhecida como “avenida Cubas”, no entorno do prolongamento da rua Coronel Francisco Gomes, no Bucarein, é conhecida por ter sido um “celeiro” de craques do futebol joinvilense – amador e profissional. Por ali, existiam muitos campinhos, além de clubes, como o Santos, de onde despontaram diversos jogadores.

Mas nem só de futebol viveu a avenida Cubas. Na rua Curitibanos, uma das que compõem a região, criou-se um guri que, além da bola, notabilizou-se com a prancha de surfe. “Eu jogava também, e meu pai, Léo, foi goleiro do Santos, do São Luís e do Caxias. Quando comecei a surfar, porém, descobri uma nova e duradoura paixão, e até hoje, quando sobra um tempinho, pego umas ondas.” O relato é de Carlos Celso de Oliveira, ex-surfista, árbitro do esporte e também do futebol amador.

Pelo nome de registro, talvez muita gente não saiba que se trata do popular “Macaco”, apelido com o qual se consagrou. Hoje, aos 54 anos, com dificuldades de expressão devido a um câncer na garganta, Macaco curte as boas lembranças do surfe e encara o grande combate de recuperação, depois de uma vida prejudicada por álcool, drogas e cigarro.

“Cada dia limpo é uma vitória”, diz, com a voz alterada pelo câncer que afetou as cordas vocais e embargada pela emoção de quem pratica a superação como a principal atividade cotidiana.

Da infância, Macaco traz as recordações das unhas dos pés sempre quebradas pelo futebol jogado descalço nos campinhos da avenida Cuba, os banhos de rio, as brincadeiras no porto do Bucarein e no Portinho, as viagens no barco “Catarina” que subia e descia o Cachoeira, entre o Mercado Público e São Francisco. “É difícil lembrar de todos os companheiros da adolescência, mas Piava, Luisinho e Tonho foram alguns do meu time que acabaram fazendo carreira no futebol profissional”, relata.

O apelido, ele ganhou aos 15 anos, dado por surfistas mineiros. “Eles me chamavam de macaquito, por causa da cor da pele já morena por natureza e ainda sempre bronzeada pela constante exposição ao sol, surfando.”

 

De atleta a árbitro, as etapas de superações

que incluem até mesmo um câncer

 

A carreira de Macaco no surfe começou em Barra do Sul, onde os avós paternos tinham casa. “Comecei me equilibrando no sonrisal”, conta, referindo-se a uma espécie de disco sobre o qual se desliza no encontro das ondas com a areia. Trabalhando num escritório de advocacia, em 1975 comprou a primeira prancha, “uma Laniakea 7/2”, detalha. Para que os pais não soubessem de suas aventuras nas ondas, guardava a prancha na casa de um amigo.

Em 1984, morou algum tempo em Barra do Sul. “Nessa época – lembra – já vivia às voltas com álcool e drogas, ainda sem a noção de que isso, mais que vício, é doença.”

Em 1985, casou-se com Sílvia Regina, “um amor de baile de Carnaval”, e foi morar em Florianópolis. Lá nasceu o primeiro filho, Vinícius, hoje com 28 anos, jornalista; em Joinville, veio Aline, 24, fotógrafa. Depois de encerrar a carreira como atleta, Macaco foi árbitro de surfe durante 18 anos, conciliando com as funções de promotor, locutor e apresentador de um programa de rádio com Hugo Hoffmann e Pierre Porto na 91 FM.

Em 1998, procurou o grupo Alcoólicos Anônimos Boa Esperança, de São Francisco do Sul, onde mora há 16 anos. No ano seguinte, largou o cigarro e as drogas. Mas as consequências, além de morais, foram físicas: em 2009 foi diagnosticado com um câncer de garganta, que tomara toda a laringe. Operado em novembro de 2009, Macaco ainda sofre com as sequelas, especialmente a destruição das cordas vocais. “Na verdade – dizia, no dia da entrevista – eu agora deveria estar apenas sussurrando. Quanto menos falar, melhor.”


65 anos depois, a solidez da união que tem a firmeza do ferro e o brilho da safira e da platina

João "Prosdócimo" Rudnick e sua Tuti celebraram as décadas de um casamento feliz cercado pela família que cultivaram
Luciano Moraes/ND
Há mais de 50 anos, eles moram em uma agradável casa enxaimel: além da preciosidade da relação e do amor de Tuti, "Prosdócimo" faz questão de preservar a casa e também o carro

 

João e Tuti comemoraram no sábado passado, 6 de setembro, 65 anos de casamento. Para eles, é uma história de muito amor, respeito e apoio mútuo. Uma união com a durabilidade e firmeza do ferro e o brilho de pedras, como a safira e a platina. Por isso, mesmo que as listas que definem as bodas tragam as três opções – ferro, safira e platina –, para eles valem todas as qualidades dos três minerais. “Seja ferro, seja safira, o que vale é o sentimento e a certeza de que nós somos felizes”, afirma o “noivo” da festa que, com certeza, vai ser grande na casa em que eles moram há mais de meio século, cercados de filhos, netos e bisnetos.

 

Do trabalho, veio o codinome “Prosdócimo”

 

Nascido no dia 2 de maio de 1925 em Pedreira, atual Pirabeiraba, João Rudnick criou-se na estrada Quiriri, onde o avô materno, da família Rieper, tocava um engenho de farinha. “Meu avô construiu a escola e a igreja na localidade”, conta.

Ele tinha três irmãs quando a mãe morreu. O pai tornou a se casar alguns anos depois, com uma cunhada – “Pra economizar sogra”, a piada é inevitável – e vieram mais quatro filhas.

Aos 16 anos, Rudnick  trocou a roça e o engenho de cachaça da família por um emprego na loja de Leopoldo Elling, em Joinville. Prestou o serviço militar no 13º Batalhão de Caçadores, atual 62º BI, e em 1948 empregou-se na Prosdócimo. A tradicional loja, com sede em Curitiba, tinha uma filial na rua 15 de Novembro, onde hoje fica a Casas Bahia.

“Tinha só 14 empregados, mas foi a primeira loja de departamentos de Joinville. Eu fazia de tudo, desde varrer a calçada até desembalar mercadoria”, recorda. O Centro da cidade era bem diferente de hoje: “Muita mercadoria entrava e saía de Joinville em carroças, que chegavam a congestionar as ruas”.

Curioso e disposto a progredir, mesmo com pouco estudo João observava o trabalho dos balconistas e ia aprendendo. Logo, trocou a vassoura pelo atendimento, fez cursos e estágios, visitou fabricantes e, em 1960, assumia a gerência. “Estivemos entre as primeiras lojas a instalar computadores, numa época em que nem se falava em informática”, garante. Quando se aposentou, em 1981, já era chamado de “João Prosdócimo”, tal a identificação que criara com a rede.

A vida fora da loja também era agitada: João trabalhou 12 anos na secretaria da Igreja Luterana. Em 1984, estava entre os fundadores da Associação dos Aposentados e Pensionistas de Joinville; foi um dos primeiros sócios do Joinville Sauna Clube; foi Rei do Tiro em 1962, pelo Operário; e presidiu a APP do Colégio Plácido Olímpio de Oliveira, onde os filhos estudaram.

 

Luciano Moraes/Reprodução/ND
O memorável dia do sim de Eltrude Schwytzke e João Rudnick

 

Entre uma venda e outra, o desabrochar do amor

 

Também nascida em Pirabeiraba, Eltrude Schwytzke nasceu em 30 de abril de 1931. Terceira de oito filhos, logo virou Tuti, tanto em casa quanto no colégio Olavo Bilac, onde fez o primário. “Meus avós Schramm tinham o Salão Danúbio Azul, na esquina da Dona Francisca com a Estrada da Ilha”, lembra.

Parte do que a família produzia na roça era vendida em estabelecimentos do Centro. E foi assim que os caminhos de João e Tuti se cruzaram. “Eu ia de bicicleta entregar mercadorias para a Casa Leopoldo Elling, onde o João trabalhava”, conta ela.

O namoro, além da vigilância cerrada dos pais, era complicado pela distância. “Eu também precisava ir de bicicleta até Pirabeiraba. Só comprei meu primeiro carro, um DKW, quando já era balconista no Prosdócimo”, conta o noivo. Assim, no dia 6 de setembro de 1949, o casal se unia oficialmente, em um cartório. A cerimônia religiosa foi no dia 7, na Igreja da Paz, oficiada pelo pastor Dalner.

O casal foi morar no bairro América, numa legítima casa em estilo enxaimel, ao lado da qual construíram, em 1961, a que moram hoje. O DKW deu lugar, a partir de 1974, a modelos Opala. No dia da entrevista, ele retocava o brilho de um Comodoro 89.

Vieram os filhos Inge, Lilian, Margot e Osni; meia dúzia de netos e quatro bisnetos. “Todos moram aqui por perto”, conta João Prosdócimo, que há 20 anos é parceiro da esposa também no grupo de dança sênior Chuva de Prata, da Paróquia Luterana Martin Luther.

 


Craque em campo e na comunidade, Zezinho foi campeão no futebol e hoje o é no voluntariado

Hoje, a maioria das conquistas esportivas se direcionam ao Grupo Arco-Íris do Itaum, na Olimpíada da Terceira Idade de Joinville
Fabrício Porto/ND
Hoje, no campo de futebol do CSU do Itaum, com as faixas de campeão conquistadas como jogador do Olímpico, em 1964, e do Água Verde, em 1967

 

Nos anos 60, vestindo as camisas de times de Santa Catarina e do Paraná, Zezinho era o zagueiro xerifão, disposto a manter a bola o mais distante possível de sua área. Desde que pendurou as chuteiras, o cidadão José da Silva manteve a disposição, direcionando-a ao trabalho e à atuação voluntária em favor da comunidade – especialmente do Itaum, bairro onde vive desde que chegou com a família, há quatro décadas.

“Nunca quis ser diretor, coordenador ou ocupar qualquer cargo; mas sempre procurei colaborar no que fosse necessário”, diz, exibindo orgulhoso as medalhas e troféus que, com seu esforço e o de muitas outras pessoas, o grupo Arco-Íris ganhou na olimpíada da terceira idade realizada no mês passado.

A história do terceiro filho dos 12 da família Silva começa no dia 19 de março de 1942, em Tijucas. Com nove anos, ele se mudava para Blumenau, para morar com um padrinho, continuar os estudos e aprender uma profissão. Esta parte começou aos 15 anos, numa indústria têxtil da cidade vizinha de Gaspar, como aprendiz. Em outra malharia trabalhou como tecelão, até se alistar para o serviço militar, prestado em Blumenau e Tubarão, no Sul do Estado.

Ainda em idade de juvenil, Zezinho, inevitável apelido ganho em casa, começou a carreira nos campos. “Joguei pelo Almirante, um time já extinto de Gaspar, e depois pelo Tupi. Era um beque no estilo do Brito, concentrado em evitar que nosso goleiro tivesse trabalho”, conta, referindo-se ao zagueiro que fez história no Vasco e no Botafogo e foi campeão mundial na Copa de 70.

 

Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
Em 1967, no time do Água Verde campeão paranaense (Zezinho é o segundo em pé, a partir da esquerda)

 

Campeão de dois Estados

 

Em 1962, Zezinho desembarcava em Joinville, onde já morava a família. “Meu pai – conta – trabalhou no asfaltamento da estrada que hoje é a BR-280, entre Joinville e São Francisco. Eu consegui emprego na Tigre, e o seu João Hansen me convidou pra jogar no Caxias. Como o time já tinha o Zezinho Camarão, virei Zé Silva.” No mesmo ano, o zagueiro foi convocado para a Seleção de Santa Catarina que disputou um torneio nacional, voltando com o terceiro lugar (a medalha alusiva à conquista é zelosamente guardada, junto a muitas outras lembranças, troféus e faixas).

Em 1964, decidido a tirar o sustento do futebol, Zé Silva voltou a ser o Zezinho, retornando ao Tupi de Gaspar, como profissional. No mesmo ano, emprestado ao Olímpico de Blumenau, foi campeão catarinense. Teve ainda rápida passagem pelo Paysandu de Brusque, antes de assinar com o E. C. Água Verde, de Curitiba.

 

Um craque nos assuntos comunitários

Na capital paranaense, Zezinho casou-se em 1966 com a namorada Ivanete, mafrense que conhecera em Joinville. Lá, nasceram os filhos Josete Jaci, José Luis e Jaílson. Pelo Água Verde, foi campeão paranaense de 1967 e ficou até 1972, quando o clube já se chamava Esporte Clube Pinheiros (em 1989, a fusão do Pinheiros com o Colorado deu origem ao Paraná Clube).

Em 1973, chuteiras penduradas, a família se estabeleceu no Itaum. “A partir daí, só joguei pelas empresas em que trabalhei: Máquinas Raimann, Consul e Romi. Pela Raimann, fui tricampeão sesiano”, acrescenta.

Logo que se estabeleceu em Joinville, Zezinho passou a se dedicar ao voluntariado, primeiro no conselho comunitário do bairro, depois no Centro Social Urbano do Itaum e no Grupo de Terceira Idade Arco-Íris – ao qual se associou ao se tornar cinquentão.

“Também participei – enumera – da APP do colégio Monsenhor Scarzello, onde meus filhos estudaram; no grupo escoteiro Manchester e na Liga São José, da paróquia Sagrado Coração de Jesus, até ser criada a nossa igreja, a São Judas Tadeu, aqui no bairro.” Na recente Olimpíada da Melhor Idade, além de competir no atletismo atuava na coordenação do grupo. “Ele é nossa mão pra toda obra”, elogia a coordenadora do Arco-Íris, Renilda Gonçalves da Costa, resumindo a gratidão de todos a Zezinho, um craque no campo e na comunidade.

 

 


Nascido para ser PM, Ricardo Meyer vem concretizando o que planeja desde a infância

Novo comandante do 6º Grupo da Polícia Militar Rodoviária, Ricardo seguiu os passos do pai, oficial da PM
Luciano Moraes/ND

Recém-promovido a tenente-coronel, o comandante do 6º Grupo da Polícia Militar Rodoviária é o único da prole que seguiu os passos do pai, oficial da PM, e se prepara para assumir nova função

 

Filho de um oficial da Polícia Militar, acostumado a andanças pelo Estado, Ricardo Carlos Meyer tinha no DNA a vocação para a carreira. “Quando entrei no colégio da PM, minha meta era ser oficial”, diz, ainda comemorando a recente promoção de major a tenente-coronel, o que vai levá-lo da Polícia Militar Rodoviária para uma função de gestão no comando da 5ª Região Militar.

Nascido em abril de 1970, Meyer ainda curtiu parte da infância pelos campinhos do bairro Atiradores, onde a família morava. Os estudos, iniciados no colégio Conselheiro Mafra, tiveram continuidade em Florianópolis e São Miguel do Oeste, devido às transferências do pai, oficial da PM. Primogênito de três irmãos, foi o único a sentir o chamado da carreira paterna. “Fiz o ensino médio no colégio da Polícia Militar, em Florianópolis, já decidido a ingressar no curso de oficiais. Na época, fazia-se vestibular, normalmente, pelo sistema Acafe; hoje a prova de admissão é específica.” Aprovado na primeira tentativa, Meyer iniciou os estudos, em regime de semi-internato, começando a se habituar à convivência no meio policial.

Formado em 1991 como aspirante a oficial, optou pela carreira de bombeiro. “Em princípio, eu fui designado para a unidade de Curitibanos, mas as circunstâncias acabaram me levando a Tubarão, onde de fato iniciei a carreira.” Seis meses depois, já como segundo-tenente, Ricardo integrava a Operação Veraneio, no balneário Arroio do Silva (na época distrito de Araranguá, tornou-se município em 1995). Trocando os bombeiros pelo trânsito, ficou nove anos em Araranguá.

 

Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
No casamento com Maria Luísa, em 1995, saudado pelos oficiais da PM

 

Trânsito, política e a descoberta

do amor em um concurso de beleza

 

“Voltei para Joinville em novembro de 2000, como primeiro-tenente, marido e pai”, conta ele, que se casara com Maria Luísa, catarinense de Santa Rosa do Sul. “Em 1992, eu passava férias em Sombrio, quando fui convidado a integrar a comissão julgadora de um concurso de rainha. Quando vi a Maria Luísa na passarela, decidi meu voto e, logo percebi, também, meu destino. Casamo-nos três anos depois”, conta. Em Araranguá, nasceu o primeiro filho, Ricardo Afonso, hoje com 18 anos, seguido do joinvilense Carlos Eduardo, 10.

No Sul, Ricardo Meyer acabou integrando o pelotão de trânsito, o que o levou a fazer uma pós-graduação na área. Assim, na volta a Joinville foi trabalhar no setor de trânsito e na Jari (Junta Administrativa de Recursos de Infrações). Como a família se instalara em Pirabeiraba, ele acabou designado para o comando da base operacional do bairro.

Veio então a fase política: “Eu tinha afinidade com o PMDB e o Geovah Amarante, na época presidente do diretório, me convidou a integrar a campanha de Luiz Henrique ao governo estadual. Eleito, ele me nomeou ajudante de ordens, cargo que ocupei até 2004, quando retornei à base de Pirabeiraba, para me dedicar mais à família”.

Meyer passou ainda pela chefia da 4ª Seção de Logística e Finanças do 8º Batalhão da PM, acumulando o comando da base do Boa Vista. Em 2006, com as divisas de capitão, assumiu a 3ª Companhia, em Pirabeiraba. Um ano depois era a vez de comandar o 6º Grupo da Polícia Militar Rodoviária, cargo que ainda ocupa, com a patente de major. Promovido a tenente-coronel em agosto, nos próximos dias Ricardo Meyer assume a gestão de Convênios, Logística e Finanças da 5ª Região Militar.

O planejamento continua: “Agora, inicio a preparação para chegar a coronel, vou fazer o curso superior e tenho como meta chegar ao posto máximo na carreira, que é o comando geral da PM no Estado”. Quando este dia chegar, o guri que jogava bola nos campinhos do Atiradores terá realizado o sonho de uma vida.


O legado do engenheiro da Guiné-Bissau formado na Udesc de Joinville

Formado com excelentes notas, que lhe renderam pelo menos sete prêmios de melhor aluno, e hoje cursando mestrado em Porto Alegre, Naloan Sampa planeja fazer carreira em seu país
Luciano Moraes/ND
Naloan Coutinho Sampa passou recentemente por Joinville e esteve na Udesc, revendo antigos colegas e professores

 

Naloan Coutinho Sampa, 24 anos, tinha, desde a adolescência, o sonho de ser engenheiro civil. Estudou muito, formou-se e agora, cursando mestrado, seu objetivo vai além de ser um bom profissional. “Quero voltar para onde nasci e cumprir uma obrigação moral com o meu país”, antecipa o agora engenheiro civil, formado pela Udesc Joinville e atualmente cursando mestrado em geotecnia em Porto Alegre.

Recentemente, ele esteve em Joinville, convidado para a Semana da Engenharia da Udesc, e aproveitou para rever antigos colegas e professores e a cidade que o acolheu há seis anos. Também recebeu, pela sétima vez, o Certificado de Mérito Acadêmico, do Ministério das Relações Exteriores, dado aos estudantes estrangeiros, por ter apresentado as melhores notas do País entre os integrantes do (PEC-G) Programa de Estudantes Convênio de Graduação do governo federal.

 

“Não me importo muito em trabalhar

em alguma multinacional e ganhar bons salários.

Tenho uma obrigação moral com o meu país,

e pretendo deixar um legado.”

 

A história de Sampa começa em 1988, em Bissau, capital da Guiné-Bissau, nação situada na costa oeste da África. Ex-colônia portuguesa, o país tornou-se independente em 1973. “Tenho 12 irmãos e hoje, graças aos meus pais e ao esforço de cada um, todos são formados”, orgulha-se, ainda mostrando no falar o leve acento do português característico das antigas colônias lusas na África.Joinville não era bem sua primeira opção, mas ele veio e não se arrependeu. “Quando cursava o segundo grau, eu já planejava ser engenheiro civil, uma profissão muito demandada na Guiné-Bissau. Ao me candidatar para uma bolsa de estudos no Brasil, podia optar por duas faculdades e dois lugares. Escolhi engenharia civil e computação e as cidades de Rio de Janeiro e São Paulo. Mas havia vaga para civil na Udesc, em Joinville, e acabei sendo o único a vir para cá, do grupo de estudantes que saiu de Bissau.” 

Porém, se o idioma não foi problema ao atravessar o Atlântico em 2008, o clima representou um desafio e tanto quando as temperaturas despencaram. Saindo de um país equatorial para uma região subtropical, Sampa sentiu o choque: “Cheguei em fevereiro de 2008, não senti tanto a diferença por ainda ser verão. Mas quando começou o inverno... Nunca eu tinha passado tanto frio, não havia blusa que esquentasse!”. Esforço e adaptação Morando em um apartamento no bairro Bom Retiro, com outros estudantes, Naloan Sampa resolveu a questão do deslocamento, já que estava perto do campus da Udesc. Paralelamente aos estudos, esforçava-se para se adaptar. “No início, foi complicado, mas com o tempo fui ganhando a confiança dos colegas e dos professores”, conta, admitindo que também o preconceito foi uma barreira a ser derrubada.Vencendo a timidez e se impondo pelo caráter e pela obstinação, enfim se adaptou.

 

Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Naloan Sampa com os colegas recebendo o Certificado de Mérito Acadêmico, em 2012

 

Gratidão aos amigos, que substituíram a família

Hoje, relembrando os tempos de faculdade, demonstra gratidão: “Os amigos substituíam, na medida do possível, o afeto familiar”. Uma curiosidade daquela convivência é que, mesmo tendo se tornado torcedor do JEC, ele nunca viu o tricolor ao vivo. “É que os colegas de apartamento eram curitibanos e torcedores do Coxa. Então, só vi jogos do Coritiba, quando o clube disputou a Série B em 2010 e precisou utilizar a Arena.”

Na faculdade, a determinação não tinha limites. Frequentador assíduo da biblioteca da Udesc, estava sempre entre os melhores alunos. “Realmente, minhas notas eram boas e quase sempre eu ganhava o certificado de mérito pelo desempenho semestral. Fui o melhor aluno da turma que se formou em 2012.”

Também atuou como voluntário no projeto de extensão de coleta seletiva e foi bolsista de pesquisa do CNPq, na área de materiais. “Naloan é um exemplo a ser seguido, pelas dificuldades encontradas e pela perseverança em atingir os seus objetivos”, confirma a professora-chefe do Departamento de Engenharia Civil da Udesc-Joinville, Sandra Denise Kruger Alves.

Formado, Sampa nem teve tempo para comemorar. A formatura foi numa sexta e na segunda seguinte já começaram as aulas no mestrado em geotecnia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E lá foi o guineense, mais para o Sul, um pouco mais adaptado ao frio. Agora, mantém o foco na especialização, disposto a regressar ao país-natal com formação suficiente para dar sua colaboração.

 


Ex-boiadeira e parteira, Lidvina hoje se diverte nos grupos da terceira idade

Uma das veteranas das competições que reúnem a turma da terceira idade, ela é uma das papa-medalhas


 

O leitor certamente não vai encontrar o nome de Lidvina Koepp Hawerroth nos anais dos Jogos Olímpicos; mas se pesquisar a história da Olimpíada da Melhor Idade de Joinville, vai poder conferir quantas medalhas ela já conquistou. “Participo desde a primeira Olimpíada, há 23 edições, e todo ano ganho medalha”, orgulha-se Lidvina, conhecida por Vina, mostrando a deste ano, de ouro, conquistada na canastra com a parceira Zitinha (Azita da Silva Mello, perfil na edição deste fim de semana). Além das vitórias esportivas, Lidvina foi rainha dos jogos em 2012.

Sua história começa no dia 22 de janeiro de 1935, em Rio Fortuna, pequeno município aos pés da serra (até 1958, era distrito de Braço do Norte). Mais velha de nove irmãos, precisou conciliar a escola, as brincadeiras e a vida dura do campo, sustento da família. “Trabalhei na roça, fui boiadeira, fiz um pouco de muita coisa. Só estudei até o terceiro ano, mas aprendi bastante com o meu pai, que era professor.”

 

 

Fabrício Porto/ND
Lidvina na prova de argolas: ela merece a medalha olímpica por maior longevidade em participação em olimpíadas em Joinville

 

A base foi importante para Lidvina escolher a profissão: “Minha cidade não tinha maternidade, e muitas mães morriam no parto. Aos 21 anos, fui fazer um curso de obstetrícia na Maternidade Dr. Carlos Correa, em Florianópolis. Formada, fiquei um ano em Tijucas, trabalhando na Maternidade Chiquinha Gallotti”.

De volta a sua região, Vina foi fazer partos na cidade de São Bonifácio, nas localidades de Rio São João e Rio Sete. “Perdi a conta de quantas crianças ajudei a vir ao mundo e de quantas vezes precisei sair de madrugada, a cavalo, para fazer partos. Mais tarde, melhorou um pouco e podia ir de jipe, às vezes.”

Uma das diversões, na época, era torcer pelo time de futebol de Rio São João. “A torcida ia de caminhão aos jogos. Muitas vezes o pau roncava”, recorda. Foi num desses jogos que Vina conheceu Silvestre, jogador do time de Vargem Grande, num torneio. Casaram-se em 1962 e foram morar em Rio Sete, onde nasceu a primeira filha, Maria de Lourdes.

 

 

Reprodução Luciano Moraes/ND
Ela é a segunda embaixo, junto com grupo de parteiras e colegas de trabalho em foto da data desconhecida

 

Do Oeste do Paraná para Joinville

 

O casal ainda teve a segunda filha, Eunice, nascida em Tubarão, antes de migrar para o Oeste do Paraná, em busca de melhores condições de vida. A viagem foi uma aventura. “Foram sete dias de caminhão até a cidade de Mercedes, na região de Marechal Cândido Rondon. Mas lá não foi nada do que esperávamos, e em 1973 decidimos nos mudar para Joinville.” A prole de filhas foi completada com Lori, nascida em Rondon, e a adotiva Margarete.

Logo, ao se estabelecer em Joinville, Vina conseguiu emprego na Maternidade Darcy Vargas. Cinco anos depois se empregou também no Hospital Dona Helena, conciliando os dois hospitais durante três anos, até se fixar no Dona Helena, onde se aposentou. A família joinvilense aumentou com três netos e uma bisneta.

Desde o início morando no Itaum, Lidvina foi voluntária no Centro Social Urbano do bairro, até se integrar, há 34 anos, ao grupo da terceira Idade Arco-Íris. “É um dos maiores clubes da terceira idade de Joinville, e hoje é dividido em cinco subgrupos”, explica Vina, também frequentadora do Centro de Convivência da Melhor Idade da rua São Paulo.

Pelo CSU, Vina esteve entre os competidores da primeira edição da Olimpíada da melhor Idade, há 23 anos, e nunca falhou, mesmo enfrentando problemas de visão devido à catarata.

A prova da determinação está nas incontáveis medalhas de ouro, principalmente na canastra, sua modalidade preferida. Dos duros tempos de parteira a cavalo, ficaram as boas lembranças e as lições de vida. “Felizmente construí uma ótima família, formei três filhas e, graças aos clubes, sempre tenho o que fazer”, conclui, correndo para o ginásio, onde ela e a amiga Zitinha precisam competir na prova de argolas.


Azita, vovó de todos, esbanja simpatia nos clubes e na Olimpíada da Terceira Idade de Joinville

Bom humor e disposição são marcas permanentes na vida da lagunense que agita os encontros de idosos da cidade e é um ás na canastra

“Sou igual cachorro, me dou com todo mundo. Vivem me chamando de vó e eu gosto disso.” O bom humor e a disposição – além de mão boa para a canastra – são características de Zitinha, uma das mais animadas participantes do grupo da terceira idade Amigos para Sempre e da Olimpíada da Melhor Idade de Joinville.

Registrada Azita da Silva no dia 12 de outubro de 1938, acrescentou Mello ao sobrenome quando casou. Seu prenome, ainda que peculiar, não foi o primeiro de Laguna, onde nasceu: “Meu nome foi uma homenagem a dona Azita, esposa do doutor Catão”, explica, referindo-se a Francisco Catão, diretor da Ferrovia Teresa Cristina no início do século passado. “Fui criada entre o sítio e a praia”, frisa, referindo-se à região rural de Laguna, onde vivia com os pais, e a praia de Itapirubá, na casa dos padrinhos.

 

Fabrício Porto/ND
Conquistar medalha de ouro na canastra se tornou uma rotina para a sempre bem-humorada Azita, a Zitinha

 

Ainda que a família tirasse o sustento da terra, os filhos não precisaram compor a mão de obra. “Só pegávamos na enxada pra cultivar flores e capinar o mato em casa.”

Azita frequentou a escola apenas durante dois anos e meio: “O colégio ficava a uns dois quilômetros de casa, eu e uma irmã íamos a pé. Estudei pouco, mas aprendi a ler e escrever, e hoje leio tudo”, conta, orgulhosa.

Aos 15 anos, uma aventura digna de romance e de menina levada, ao conhecer o amor. “Conheci o Aurélio, mas meus pais não consentiam no namoro. Então, fugimos. Tive minha primeira filha, Ana, com 16 anos, aí casamos e vieram os gêmeos Azita Joana e Aurélio João. Depois, nasceram Maria Adelina e Marco Antonio. Fomos morar em Jacinto Machado, e lá nasceram Ângela Geni e Gastão César. Voltamos pra Laguna e nasceu a última da prole, Nara.”

 

Mudança para Joinville e muitos mais amigos no currículo

 

Após a morte do marido, em 1993, por causa de problemas cardíacos, Azita mudou-se para Joinville, onde já morava a filha Ângela, no bairro Paranaguamirim. A mãe e Nara moram na mesma casa, enquanto os demais filhos espalham-se em outras cidades. Hoje, Azita já é avó de onze netos e tem cinco bisnetos.

Foi no Panágua, frequentando o grupo de ginástica na paróquia Santa Luzia, que a lagunense ganhou o carinhoso apelido de Zitinha – e muitos amigos. “Fundamos o grupo da terceira idade Amigos para Sempre 2 (já havia outro com o mesmo nome), e há uns nove anos participo também do grupo do Centro Social Urbano do Itaum.” Experiência, na verdade não faltava, pois Zitinha já participara do clube do bairro Barranceira, em Laguna, tendo sido até vice-presidente.

Desde que passou a se integrar aos grupos joinvilenses, Zitinha compete na Olimpíada da Melhor Idade, promovida pela Felej. “Só não participei em 2012, porque tive problemas de saúde”, destaca. No dia da entrevista, na terça passada, a conversa foi interrompida porque Zita havia sido chamada ao ginásio para a prova de argolas. Até então, já havia ganhado medalha de ouro na canastra e também disputara as modalidades de dominó e caneco. “Gosto de tudo, mas a canastra é minha preferida”, frisa.

O carisma da lagunense que conquistou tanta gente em apenas uma década de Joinville é confirmado a todo momento, pelas demonstrações de simpatia e cordialidade: “As pessoas daqui são muito bacanas, não é difícil fazer amizades. Gosto quando me chamam de vó”.

Se depender da disposição e da alegria de viver, Zitinha ainda vai colecionar muitas medalhas nas Olimpíadas – além de amigos por onde passar.


Casal Cipriani se prepara para comemorar 30 anos à frente da Lanchonete Tirol

O menino que contava borboletas, na época que a caça era prática comum para que elas ornamentassem objetos de decoração, se encontrou como comerciante
MAURO SCHLIECK/ND
Laureci e Darci Cipriani têm 30 anos de parceria na vida e no comércio: os fregueses dizem que o bolinho de arroz dela é o melhor da cidade

 

Quem frequenta a Lanchonete Tirol, ponto de referência no final da rua João Colin, em Joinville, nem imagina que seu proprietário, Darci Cipriani, foi contador de borboletas na infância. “Meu pai – conta – era coletor de borboletas, numa época em que elas eram utilizadas em trabalhos artesanais e como elementos decorativos. E a filharada era encarregada de ajudar na contagem dos bichos.”

Hoje, Cipriani prefere deixar as borboletas em paz nos seus voos e se dedicar à freguesia que vem dando tradição ao estabelecimento. Só ele está à frente da lanchonete há quase 30 anos.

Voltemos ao início da história. Darci foi o primeiro dos oito filhos dos Cipriani. Nasceu em Salete, no Médio Vale do Itajaí, em 1961. Tinha sete anos quando a família mudou-se para Barra da Prata, localidade do interior de Ibirama (hoje o lugar pertence ao município de Vitor Meireles).

“Além das atividades agrícolas, meu pai coletava borboletas. Naquela época, isso era liberado. As pessoas faziam quadros com as borboletas e as usavam em decoração. Um dos grandes clientes era a indústria de móveis Artefama, de São Bento.” Quando não estava na escola, Darci era mão de obra indispensável na tarefa de contar e separar os insetos. “Nos fins de semana, nada de jogar bola. A ‘diversão’ era contar borboletas. Numa semana boa, dava para capturar de 50 mil a 100 mil espécimes.”

Entre as técnicas de captura, uma era bem prosaica e eficaz. “Era só urinar na areia, na beira do rio, que elas vinham em bandos enormes. Aí, dava pra encher os coadores, aquelas redes grandes de pegar borboleta.”

Graças aos contatos feitos em São Bento, em 1982 a família mudou-se para o Planalto Norte. Lá, Darci trabalhou na Oxford e na Plasbe, antes de mudar-se, com duas irmãs, para Joinville, em 1985.

 

História na lanchonete

 

No dia 20 de janeiro daquele ano, os três irmãos assumiram a Lanchonete Tirol, localizada num prédio tradicional no final da João Colin, de frente para a praça, também chamada Dr. João Colin, e para a igreja Santo Antônio. “A lanchonete – historia Cipriani – havia sido fundada pelo seu Augusto Vavassori, que faleceu há uns quatro anos. Coincidentemente, a esposa dele, dona Elisabeth, também criava borboletas para fazer quadros.”

As irmãs ficaram só alguns meses no negócio. Darci persistiu e tocou a lanchonete sozinho até 1988, quando casou-se com Laureci. “Casamos na capela do Seminário São José, em Rio Negrinho, onde a família dela morava. Desde então, ela trabalha comigo na lanchonete e é a responsável pela fama da nossa cozinha”, atesta Darci, sob o olhar atento da mulher. Além deles, o dia a dia tem o apoio de uma funcionária.

O casal tem um filho, Franklin, 25 anos, e um neto, Miguel, de quase sete meses. “Ele apareceu na RIC, no ‘mamaço’ de domingo passado”, orgulha-se o vovô-coruja, referindo-se ao ato público promovido no dia 3, no encerramento da Semana da Amamentação.

A lanchonete, aberta de segunda a sábado das 7h30 às 20h, serve lanches tradicionais e almoço. Não faltam os clientes de todo dia, aqueles do happy hour e os passantes atraídos pelos aromas da cozinha.

No dia da entrevista, os fregueses não perdiam a oportunidade de zombar de Darci, ainda de cabeça inchada pela derrota, na véspera, do seu Fluminense de coração para o América de Natal.

 

"Bolinhos do outro mundo"

 

Não faltam histórias de todos os tipos nestes quase 30 anos, assim como lembranças de clientes de outros tempos. “Um dos mais assíduos era o padre Renato, quando era pároco aqui na Santo Antônio. Ele ia direto para a cozinha, onde devorava bolinhos de arroz”, conta Darci.

“Não só os de arroz. Todos os bolinhos da dona Laureci são de outro mundo. Como eu costumava ir muito ao banco, ali perto, sempre passava na lanchonete. Pode escrever aí que eu recomendo”, garante o padre Renato dos Santos (perfil em outubro de 2011), hoje morando em Porto Alegre, onde é coordenador geral da Congregação Salesiana no Sul.


Paralisia não impede Sérgio de batalhar pelos direitos dos deficientes

Ele adotou como meta em sua vida a luta para vencer as muralhas sólidas do preconceito social e hoje preside o Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência
Divulgação/ND
Com o filho ainda pequeno, Sérgio participou de uma campanha de vacinação contra a paralisia infantil: "Darei ao meu filho a oportunidade que não tive..."

 

“Minha frase preferida é de Dorina Nowill: ‘Mais difícil do que vencer as barreiras físicas impostas pela deficiência é vencer a muralha sólida do preconceito social’.” Com essa citação (Dorina de Gouvêa Nowill, cega desde os 17 anos, fundou uma instituição reconhecida pela qualidade de livros e serviços de reabilitação para pessoas com deficiência visual) como lema, Sérgio Luiz Celestino da Silva trava desde os 11 anos, uma luta permanente pelos direitos da pessoa com deficiência. Presidente do Conede (Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência), também já se destacou nacionalmente nos esportes para deficientes.

Nascido em Joinville em 1963, até hoje Sérgio mora na rua que leva o nome de eu avô materno, Antonio José da Costa, no Adhemar Garcia. “Meu avô era dono de terras nas imediações da estrada Caieiras, e legou-as aos descendentes.”

Aos seis meses, após alguns tratamentos inadequados, Sérgio foi diagnosticado com poliomielite. “Foi a doutora Lea Jardim, que acabara de chegar a Joinville, quem fez o diagnóstico correto. Não pude ter uma infância normal. Aos 11 anos, fui internado no Hospital Matarazzo, em São Paulo. Passei seis meses com o corpo todo engessado.” Seguiram-se dois anos e meio de internação no Lar e Escola São Francisco. “Foi, então, que comecei a ter consciência dos direitos das pessoas com deficiência.”

 

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Vida em família: com Alice, Annalice e André Luiz ele encontra ainda mais incentivo para sua causa

 

Batalha pelos direitos

De volta a Joinville, Sérgio concluiu o ensino fundamental nos colégios João Colin e Celso Ramos e formou-se técnico contábil pelo Bom Jesus. Entrar no mercado de trabalho representou um grande desafio: “Não havia legislação específica para os deficientes no mercado. Muitas empresas se recusavam a me admitir ou me ofereciam funções incompatíveis com alguém sem mobilidade. Percebi também como a cidade era atrasada no aspecto da mobilidade, condição que começou a mudar há pouco tempo”.

Sem se deixar abater pelas dificuldades e pelo preconceito, foi à luta: formou-se em gestão pública, pós-graduou-se em gerenciamento e administração de cidades e começou a participar das ações em prol da mobilidade.

Também buscou qualidade de vida, praticando esportes: “Aprendi a jogar basquete em cadeira de rodas ainda em São Paulo, e formamos mais tarde um timaço na Adej, conquistando o título nacional. Também fui campeão brasileiro de natação, até ser obrigado a abandonar quadras e piscinas por causa de uma hérnia de disco”.

Em meados dos anos 80, Sérgio participava das atividades da FCD (Fraternidade Cristã de Doentes e Deficientes) quando se integrou ao grupo fundador da Associação dos Deficientes de Joinville, a Adej. “A cidade só tinha a Ajidevi, dos deficientes visuais, mas hoje conta com diversas entidades atuantes”, comemora Sérgio, agente administrativo na Secretaria de Assistência Social, à disposição do Comde (Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência). Casado há 17 anos com Alice, é pai de André Luiz, 13, e Annalice, 7.

Em mais de três décadas de luta pelos direitos das pessoas com deficiência, participou da criação das associações de deficientes e dos conselhos de Joinville, Guaramirim e de Jaraguá e da Federação Catarinense de Deficientes Físicos. Foi delegado do Comitê Paraolímpico Brasileiro, Conferência Estadual das Cidades, Conferência Estadual dos Direitos das Pessoas com Deficiência, Conferência Nacional dos Esportes e Conferência Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência.

“Na medida do possível – conclui – levo uma vida normal, trabalhando, me divertindo, fazendo churrasco, dirigindo e ajudando os outros. As muralhas ainda existem e precisamos derrubá-las.”

 

Divulgação/ND
Em frente à Prefeitura de Uberlândia, em Minas Gerais

Entre as aulas e o apito, Wilson Otto se desdobra entre a carreira de professor e a arbitragem

"Minha vocação passava pela atividade física e estou nisso até hoje”, diz o professor, árbitro e um dos monitores do Programa de Iniciação Desportiva da Felej
Fabrício Porto/ND

Wilson Otto Siedschlag gosta da fama de árbitro severo, que não economiza nos cartões

 

Desde a infância batendo bola pelos campos do bairro, na Sociedade Glória, no Avaí ou no Maracanazinho, Wilson Otto Siedschlag é adepto das atividades físicas. “Nem era bom de bola, só metido. Mas o gostoso era estar nos campinhos, viver ao ar livre. Minha vocação passava pela atividade física e estou nisso até hoje”, diz o professor, árbitro e hoje um dos monitores do Programa de Iniciação Desportiva da Felej (Fundação de Esportes, Lazer e Eventos de Joinville).

Wilson Otto nasceu no bairro Bom Retiro, em 1956, mas criou-se no Glória. “O pastor Daumann me batizou na varanda de casa. Fomos morar no Glória porque meu pai arrendou o restaurante Barbante, onde ficou até 1962. Aí, abriu um açougue na mesma rua Campos Salles, onde hoje fica a Três Pizza Frita.” A carreira escolar foi iniciada ali mesmo no bairro, no colégio Oswaldo Aranha, passando pelo Ginásio Normal Professor Galileu Craveiro do Amorim, que funcionava na mesma escola. O ensino médio – na época chamado científico – foi concluído no Celso Ramos, seguido da faculdade de Educação Física da Univille – ainda no tempo da Furj –, onde se formou, em 1981.

 

De volta como professor ao

Oswaldo Aranha, onde havia estudado

 

A carreira de Wilson Otto Siedschlag como professor começou ainda no tempo da faculdade. “Coincidentemente, meu primeiro trabalho foi no mesmo Oswaldo Aranha, em que eu havia estudado. Depois que me formei dei aulas no Almirante Boiteux, em Araquari, e no Olavo Bilac de Pirabeiraba.”

Em 1981, dividiu as aulas de educação física na Escola Técnica Tupy com a coordenação das atividades esportivas da Martric. Veio a primeira conquista de destaque: “Fomos campeões da Olimtex, a olimpíada que movimentava as empresas têxteis da cidade, numa época em que o segmento ainda era forte em Joinville”.

Dois anos depois, mudança de colégio e de estado civil. Siedschlag dava aulas no Dom Pio de Freitas quando conheceu Alice de Cássia, numa “soirée” (tarde dançante) na Sociedade Glória. Casaram-se e foram morar no Floresta, onde estão até hoje, e são pais de Guilherme, 29, e Rodrigo, 26 – nenhum deles ligado ao esporte –, e avós de Bruno Eduardo, 4.

As atividades como professor prosseguiram nas escolas João Colin, no Itaum, e João Rocha, no Aventureiro – “Fui o primeiro professor de educação física desse colégio”, destaca. Em 1984, aprovado em concurso da rede estadual, Siedschlag voltou ao Olavo Bilac, onde permaneceu até se aposentar, em 2012.

Em 1991 também foi aprovado – em segundo lugar – na rede municipal, e aproveitou que já dava aulas em Pirabeiraba para ser o primeiro professor de sua disciplina na recém-inaugurada E.M. Carlos Heins Funke. Ainda pelo Estado, foi integrador desportivo da Fundação Estadual de Esporte de 1999 a 2002. Chegou a assumir a direção de escolas antes de aposentar, e há alguns anos é monitor no PID da Felej, repassando à garotada sua vasta experiência.

Paralelamente à carreira de professor, desde 1977 Otto se dedica à arbitragem, no campo e no salão. Foi auxiliar – ou bandeirinha – quando era filiado à Federação Catarinense de Futebol. “Comecei na arbitragem por acaso. Em 1988, escalado para bandeirar Avaí x JEC pelo Estadual Júnior, em Florianópolis, precisei pegar o apito porque o árbitro faltou. Naquele dia, voltei de carona com os irmãos Wilson e Leonel França, da Rádio Cultura. Passei a apitar pela Liga Joinvilense, onde sempre tive o incentivo do ex-presidente Antonio Nascimento. Desde 1990 apito apenas no futsal”, conta Siedschlag, que imprimiu a imagem de árbitro severo, sem economia na aplicação de cartões. “É importante não deixar os jogadores tomarem conta da partida”, frisa.

 

 


Jeanine de Bona, a autora do hino que a torcida do JEC aprendeu a cantar, se despede de Joinville

Vencedora de um concurso realizado em 1998 só lamenta a falta de reconhecimento do clube, que nem crédito lhe dá
Carlos Junior/ND
Jeanine de Bona acabou virando torcedora do JEC, mas não abre mão do direito autoral de sua obra tão popular

 

LÉO SABALLA

ESPECIAL PARA O ND

 

Arena lotada. Clima de decisão. Jogo difícil, tenso. Milhares de torcedores do JEC cantam vigorosamente o grito de guerra: “JEC nasceu campeão/nasceu com a taça na mão”. É o refrão do Hino do Joinville Esporte Clube. É a senha para motivar ainda mais os jogadores e mostrar aos adversários a supremacia tricolor na Arena. Jeanine de Bona, sócia há muitos anos, frequenta o estádio muito menos do que gostaria, mas, quando comparece, também canta com a torcida e se emociona. Tem uma razão forte para isso. Faz parte dessa história. Afinal, ela é a autora do Hino do JEC, clube que representa uma das maiores paixões da cidade.

 

NASCE O HINO

 

A música foi composta em novembro de 1998 para participar do concurso que escolheria o novo símbolo do JEC. O prêmio ao vencedor? A honra de fazer parte desta história. Ela entendia pouco de futebol, mas aceitou o desafio. Então, decidiu pesquisar a história do tricolor.

Recorda que tudo começou com uma brincadeira pela manhã, ao cantarolar alguns versos e que acabaram ficando o dia inteiro na sua cabeça. Antes de dormir, letra e música já estavam prontas.

Coube ao músico Luciano Koenig de Castro fazer o arranjo. Em pleno feriadão, reuniu cinco amigos músicos. Todos tocavam e cantavam em um estúdio sem ar-condicionado, num calor de quase 40 graus. “Foi uma aventura, um desgaste físico que valeu à pena”, define a compositora.

 

PAIXÃO POR MÚSICA E CINEMA

 

Jeanine é natural de Ponta Grossa (PR), mas ainda criança mudou-se para Curitiba, onde mais tarde estudou direito, profissão que nunca exerceu. Em 1996, veio com o marido e o casal de filhos adolescentes para morar em Joinville. Faz questão de dizer que hoje todos são jequeanos.

Sua paixão é criar música e escrever para o cinema. Acabou de escrever o roteiro para um filme que ainda não tem nome definitivo, mas um elenco de peso com destaque para os atores Wagner Moura e Milton Gonçalves. Compõe desde os oito anos e calcula que criou mais de 500 músicas e outros tantos jingles e vinhetas comerciais. Venceu diversos festivais de músicas em quase todas as regiões do país. Musicou peças publicitárias para grandes empresas e criou a trilha musical de campanha para o então candidato a presidente, Ulysses Guimarães, em 1989.

 

JEC, TIME DO CORAÇÃO

 

Torce pelo Atlético Paranaense e JEC. “O Furacão faz parte da minha vida porque herdei isso do meu pai e vem desde criança. Quanto ao JEC, é um amor maduro que me fez entender essa paixão de torcedor, de querer sempre saber como está o time do coração.” Afinal, cantarola Jeanine: “O JEC é líder isolado no meu coração”.

Agora, ela está de mudança para Curitiba. Mas garante que voltará sempre a Joinville para assistir aos jogos do JEC e cantar junto com a torcida. Com tantas músicas de sua autoria, para ela é difícil escolher uma favorita. Porém, não tem dúvida que o carinho maior é dedicado ao JEC. “Meu coração é preto, branco e vermelho/sou JEC/ sou fogo meu irmão”, brinca com a primeira estrofe do hino.   

 

NO SITE OFICIAL, NENHUMA REFERÊNCIA

 

A lamentar, apenas algumas injustiças, como nunca ter sido convidada pelo JEC para participar de algum evento comemorativo do clube. Ela reclama que no site oficial, apesar de estar estampada com destaque a letra da música na página dos símbolos, não há nenhuma referência ao seu nome como autora do hino.

Sobre as várias regravações do Hino do JEC, em outros gêneros, que vão desde samba à Orquestra Sinfônica de Joinville, Jeanine é taxativa “Não tenho nada contra a qualidade, mas não assinei nenhuma autorização permitindo alguém a gravar”, esclarece. “O Hino do JEC é uma criação artística de minha autoria, uma obra legalmente registrada nos órgãos competentes, conforme a lei que protege os direitos autorais.”

 


Odirlei Soares: o tratorista virou teatrólogo

Conheça a história do ex-madeireiro que produz peças teatrais sobre meio ambiente

Ordilei Aparecido Soares já fez muito de várias coisas na vida: foi marceneiro, carteiro, atleta, motorista de caminhão e de trator, madeireiro, técnico de solda, torneiro mecânico... Mas atualmente se realiza numa atividade da qual gostava desde criança: o teatro. Gestor da Casa Teatral, atua em todas as posições do ofício. “Utilizo tudo que aprendi, desde a teoria na faculdade de Eventos até os conhecimentos técnicos, na produção de cenários e na estruturação de produções.” Parte de toda essa agitação se explica no TDH (Transtorno de Déficit de Atenção), diagnosticado ainda na juventude.

 

Fabrício Porto/ND
Multitarefas. Soares atua em todas as áreas do teatro, dos bastidores ao palco

 

Comecemos, como um bom roteiro, pelo início. Ordilei nasceu em 1980 no município de Boa Vista de Aparecida, no Sudoeste paranaense, e deve seu nome a um ex-jogador do Grêmio, time do coração do pai, gaúcho. “Nem cheguei a conhecer minha cidade natal, pois tinha seis meses quando a família se mudou para Sete Quedas, no Mato Grosso do Sul. Moramos também em Amambaí, antes de nos mudarmos para Terra Nova do Norte, na divisa do Mato Grosso com o Pará. Depois fui morar com tios em Matupá, também no Mato Grosso. Lá, trabalhei simultaneamente como marceneiro e carteiro, enquanto estudava à noite, e ainda participava de equipes de atletismo e handebol. Acho que o TDH explica como eu conseguia conciliar tudo, pois quem tem esse transtorno costuma fazer várias coisas ao mesmo tempo”, explica Soares, alternando a conversa com o monitor e o teclado do PC.

As andanças continuaram. Depois de um período em Lençóis Paulista, onde trabalhou em projetos de reflorestamento e adquiriu caminhão e trator, Soares retornou ao Mato Grosso, agora para a capital Cuiabá, e formou-se técnico de solda e torneiro mecânico.

Na direção Sul, desembarcou em Joinville

Em 2006, disposto a encarar a direção do Sul, Ordilei Soares desembarcava em Joinville, hospedando-se com um tio no bairro Fátima. Disposto a se fixar, deixou o currículo nas principais agências de recrutamento de mão de obra. “Demorou só um dia para ser chamado na Busscar, para trabalhar na produção. Ainda era um tempo em que a empresa produzia, mesmo já envolvida em problemas financeiros. Faltava material, não conseguíamos cumprir os prazos, mas trabalhávamos muito. Foi lamentável a falência da empresa, espero que ainda dê para recuperar.”

Na Busscar, Soares organizou um grupo de teatro, relembrando o tempo em que coordenava apresentações de quadrilha nas festas juninas de colégio. De volta aos estudos, fez a faculdade de Eventos e um curso de teatro no Conservatório Belas Artes. “Por que eventos? Simplesmente vi um outdoor da faculdade e me inscrevi para o vestibular”, explica.

Mudança radical que acabou em casamento

Em 2010, durante o Festival Catarinense de Teatro, conheceu Daniela Pamplona, outra entusiasta da arte. Sem o emprego na Busscar, Soares fazia bicos nas áreas de mecânica e solda, até ser convidado pelo pessoal do meio teatral para executar serviços gerais. Gostou, achou um novo caminho, pós-graduou-se em cenografia e direção teatral, casou-se com Daniela e o casal montou a Casa Teatral Produções.

Entre os trabalhos estão a estruturação do teatro da Igreja Adventista de Itajaí, a reforma do galpão da Ajote (Associação Joinvilense de Teatro), um programa educativo para a Ambiental (a peça “Lixo que Não É Lixo” já soma 750 apresentações desde 2011, vista por 25 mil alunos de escolas da região), a produção do curta-metragem “Na Trilha da Arte” e a produção executiva de um concurso teatral para a Cia. Águas de Joinville. “Agora, estamos construindo uma carretinha-palco para a Fundema”, adianta Soares.


Comunicador de Joinville tem mais de meio século de carreira na imprensa

Conheça a história de Ary Silveira e sua eterna paixão pelo rádio

"Sempre fui apaixonado por rádio, especialmente numa época em que não havia TV e o rádio era o veículo de comunicação e lazer mais próximo. Mas nem pensava em trabalhar num estúdio quando fui convidado a fazer um teste. Passei e estou nessa vida até hoje."

Do tal teste, em 1961 na Difusora, até hoje, ao microfone da Leste FM, emissora comunitária do Iririú, Ary Silveira de Souza encarna o espírito de amor ao rádio. Aos 78 anos recém-completados (fez aniversário dia 29 de julho), Ary ainda mantém disposição suficiente para pular da cama diariamente às 5h da manhã, iniciando a produção do “Jornal das Sete”; depois, ainda vai até a redação do Jornal do Iririú, fundado há 17 anos, do qual é diretor e jornalista responsável.

Fabrício Porto/ND
Ary Silveira não consegue largar os microfones. “A paixão pelo rádio não morre nunca!”

 

Ary nasceu no Boa Vista, nas imediações de onde hoje é o supermercado Arco-Íris, numa época em que o bairro era uma semente da verdadeira cidade em que se transformou. “Meu pai tinha uma fábrica de louça de barro, e parte da produção ele vendia em São Francisco, aonde ia de canoa a vela”, conta Ary, que tinha seis anos quando a família mudou-se para São José (menos um dos irmãos mais velhos, convocado pela Força Expedicionária Brasileira para o front italiano na Segunda Guerra). “Moramos na Ponta de Baixo, numa casa enorme, que tinha até salão de baile.”

Volta no centenário de Joinville

A família retornou a Joinville no ano do centenário, 1951, e Ary empregou-se na Drogaria Catarinense. Dez anos depois, um cunhado convidou-o a fazer teste na Rádio Difusora, que precisava de novas vozes. “Em princípio, nem me animei muito. Por mais que gostasse de rádio, nem imaginava trabalhar num estúdio. Fiz o teste, fui aprovado pelo próprio Wolfgang Brosig e comecei no dia seguinte, apresentando o noticiário da noite. Logo depois, com a transferência do Charles Weber para a Cultura, acabei assumindo todo o noticiário, e fiquei na emissora até 1972.”
Naquele ano, já funcionário também do Besc desde 1966, Ary Silveira assumia a gerência do banco em Capinzal; sucessivamente, gerenciou agências em Caçador, São José e Florianópolis. Em cada cidade, porém, conciliou o serviço bancário com o microfone, nas rádios Clube de Capinzal, Caçanjurê de Caçador, Jornal A Verdade (hoje Gazeta) de São José e Guarujá da Capital.

Ao se aposentar no Besc, largou também o microfone, recolhendo-se ao “dolce far niente” em Barra Velha, mas por pouco tempo. “Um dia o empresário José Matusalém Comelli me convidou para assumir a gerência da sucursal do jornal “O Estado” em Joinville. Mesmo não tendo intenção de voltar a chefiar equipes, acabei topando, e fiquei uma dúzia de anos no jornal.”

E o rádio? “Algum tempo depois o grupo do Comelli acabou adquirindo o controle da Rádio Difusora, e voltei também ao estúdio.” Com o fim do jornal, Ary Silveira passou um tempo dedicado à representação de uma marca de cosméticos, junto com a mulher.

Há 17 anos, nova experiência na imprensa, com o lançamento do Jornal dos Bairros, começando pelo Iririú. Seguiram-se Costa e Silva, Boa Vista, Floresta e Itaum; hoje, o veículo leva a assinatura Jornal do Iririú, circulando mensalmente em toda a cidade, com notícias de todos os bairros. E o rádio, claro, faz parte da agenda diária: das 7 às 8h, de segunda a sexta, Ary e o filho Sérgio Luís produzem e apresentam o radiojornal na 87,9 FM (Ary tem mais duas filhas e dois netos). “A paixão pelo rádio não morre nunca!”, garante o veterano profissional.


Betinho e os acordes na caixa de sabão

Músico batalhou muito até se tornar nome respeitado na região

Betinho era um garoto ativo, bom de bola e, acostumado a ouvir as cantorias de Terno de Reis puxadas pelo pai, demonstrava ouvido musical. Assim, nada mais natural que fosse desenvolvendo as habilidades natas, às quais somou-se um belo currículo profissional como técnico na área de plásticos. “Meu primeiro instrumento musical foi um cavaquinho que eu mesmo fiz, moldando uma caixa de madeira usada pra acondicionar sabão e, como cordas, linha de pesca. Percebendo minha vocação, um vizinho me deu um violãozinho de plástico.” Assim, no improviso, começou a carreira de Betinho, hoje nome consagrado no cenário musical joinvilense, cantor, instrumentista, compositor e, acima de tudo, incentivador de novos talentos, graças a seu projeto “Betinho Convida.”

Fabrício Porto/ND
Atualmente, Betinho se dedica a abrir espaço para novos talentos

 

Carlos Alberto da Silva virou Betinho logo ao nascer, no dia 14 de outubro de 1957, em Itajaí. Tinha seis anos e um irmão quando a família trocou a cidade portuária pela já atrativa Joinville (aqui nasceram mais dois filhos de Aldo e Dirce). “Morávamos no Floresta, na rua Colômbia, erradamente grafada ‘Colúmbia’. Fiz o primário e o ginásio na Escola Reunida Anita Garibaldi, dava pra ir a pé, era perto. Pra jogar bola, o melhor lugar era o pasto do Drehfal”, relembra Betinho, comprovando ter se tornado um legítimo “piá joinvilense.”

A vida era dura, até o pai arranjar emprego na Tupy. Aí sobrou um dinheirinho para dar ao pequeno músico um cavaquinho de verdade. “Eu tinha uns nove anos, e como sempre fui o primeiro da classe, mereci o cavaquinho. Aprendi a tocar sozinho, vendo meu pai ao violão e experimentando.” Outra das conquistas familiares, nítida na memória de Betinho, foi o primeiro televisor. “Até então éramos ‘televizinhos’. À noite, assim que terminava ‘Bonanza’ ou outro seriado, todos pra casa. As poucas residências que tinham TV emanavam aquela luz azulada pela janela. Em 1970, enfim, meu pai conseguiu comprar um televisor Colorado, e assistimos à Copa em casa.”

Betinho realizou um sonho do pai, matriculando-se no Colégio Marista (hoje a ACE), graças a uma bolsa de estudos. Ajudava no orçamento doméstico vendendo picolé na rua. Católica, a família frequentava a Paróquia São José Operário, onde Betinho tomou a Primeira Eucaristia das mãos do monsenhor Sebastião Scarzello. Mais tarde, todos passaram para a nova Paróquia Cristo Ressuscitado, dos padres Fachini. Ali, Betinho também teve sua iniciação na política, o que, mais tarde, o levou a estar no grupo fundador do Partido dos Trabalhadores. Aos 14 anos, duas vitórias: “Fui fazer o segundo grau no Elias [Moreira] e consegui emprego na Cipla.” Na empresa, única em que trabalhou, tornou-se um expert no segmento plástico e enfrentou os desafios de, junto com os colegas, não deixar a Cipla morrer. “Cheguei a trabalhar pelo equivalente a 20 reais por semana!”

Sempre na música

Desde que tirou os primeiros acordes no cavaquinho, Betinho jamais deixou de tocar e cantar. Profissionalmente, começou pelos barzinhos e lanchonetes, nos fins de semana. Também tocava na igreja, com o grupo de jovens. Lá conheceu o poeta e teatrólogo Valmir Neitsch, o Capim (perfil em 18/7), com quem mantém sólida amizade e parceria artística.

A certa altura, Betinho mantinha uma agenda bem carregada: “Eu trabalhava na Cipla, estudava na ETT, jogava no juvenil da Tigre, tocava nos fins de semana, participava do grupo de jovens na paróquia e da vida política”. Lembra. Em 1989, somou à coleção de conquistas o diploma de Economia pela Univille.

Sempre de violão no colo ou pendurado no pescoço, continuava tocando na noite joinvilense e participando de festivais. Foi empresário de 1994 a 99, tocando o Bar Paratodos (ex-Bar do PT, na rua do Príncipe). Aos 25 anos passou na audição para se tornar músico profissional, com direito a carteirinha da Ordem dos Músicos. Criou o MPB Trio e a banda Paratodos, onde um dos integrantes é o único filho, Carlos Eduardo, o Cadu, 25 anos, fruto da união de 28 anos com Cristina (filha de Vilmar Puccini, goleiro do Caxias).

Desde que se aposentou, Betinho dedica cem por cento do tempo à música. Em 2008 criou o Movimento Betinho Convida, em que abre espaço para novos músicos. “O prazer que a música me proporciona é algo que só aumenta, principalmente quando vejo surgir novos talentos”, conclui.


Pra ver a banda passar...

Capitão Carlos deixou saudade à frente da banda do 62º Batalhão de Infantaria de Joinville

Desde que, aos 12 anos, desfilou pela primeira vez usando o uniforme da fanfarra num 7 de setembro pelas ruas de sua cidade, até outubro do ano passado, na cerimônia em que passou para a reserva como capitão do Exército Brasileiro, José Carlos da Silva Pinto fez o que mais gostava: viver da música. “Agora me sobra mais tempo para ouvir meus discos, ir aos concertos dominicais apenas como espectador e também voltar a praticar”, diz o capitão Carlos, tirando uns acordes da clarineta, instrumento ao qual dedicou por muitos anos e que hibernava no estojo desde que assumiu a regência da banda do 62º BI (Batalhão de Infantaria).

Fabrício Porto/ND
De músico a maestro da banda do 62º BI, capitão Carlos é um amante da música

 

Nascido na cidade paranaense de Antonina, em 1961, Zé Carlos era um garoto que preferia as baquetas à bola ou qualquer outro brinquedo. “Meu pai era músico, especializado em percussão, e liderava desde fanfarras até escola de samba”, conta. Natural, portanto, que o menino logo assumisse um lugar na fanfarra do Colégio Dr. Brasílio Machado.

Ensaiar era fácil: “Meu pai era o zelador, e morávamos no mesmo terreno da escola. Sempre fui da fanfarra, mesmo depois que concluí o ensino médio, no Colégio Valle Porto, atual Moyses Lupion.” Mais tarde, já tocando saxofone e clarineta, Zé Carlos integrou a famosa Orquestra Filarmônica Antoninense. O lado roqueiro nos anos 70 era exprimido em conjuntos musicais, como a Elus Band.

Das fanfarras para o uniforme verde-oliva

Aos 18 anos, Zé Carlos trocava os coloridos uniformes de bandas, fanfarras e da orquestra pela farda verde-oliva do Exército, no quartel do 20º BI, em Curitiba. “Fui direto para a banda, e fiz curso de cabo-músico. Dois anos depois fui transferido para o 17º BI, em Cruz Alta, no Noroeste gaúcho. Foi um choque, pois enquanto em Curitiba a banda tinha 50 componentes, encontrei uma com 16.” Nos sete anos em que serviu no destacamento cruz-altense, Carlos foi adicionando barras à insígnia, chegando a terceiro-sargento. Paralelamente, buscou aperfeiçoamento na arte, concluindo os cursos de teoria musical e solfejo no Conservatório local.

Em 1987, com vontade de voltar a residir mais perto da cidade natal, conseguiu transferência para o 62º BI, em Joinville. Encontrou uma bem estruturada banda, além de um cenário cultural receptivo. “Tivemos uma parceria muito produtiva com o maestro Tibor Reisner. Foi lamentável o desprezo com que alguns o trataram, pois era um grande mestre, amava Joinville e tinha muito a oferecer ao desenvolvimento artístico local.”

Fixando raízes na cidade

Em 1991, durante um baile carnavalesco na Sociedade Floresta, o clarinetista da banda conheceu a foliã Dulcineia. Três anos depois se casaram e logo a família se completou com Andreza, hoje com 20 anos, “sem o menor dom musical”, lamenta o pai. Ele prosseguiu no aperfeiçoamento, coroado com a habilitação como mestre de música, conquistada em 1998, no Rio de Janeiro.

Em 2003, mais dois degraus vencidos: Carlos era promovido a subtenente e trocava a clarineta pela batuta, assumindo a regência da banda. No mesmo ano, passou a integrar a programação dos Concertos Matinais, abrindo o portão do quartel no último domingo de cada mês para apresentações gratuitas. Além disso, claro, a banda é presença constante em solenidades, desfiles e eventos por toda a cidade e pela região. E já gravou diversos CDs, desde hinos municipais até seleções ecléticas, do popular ao erudito. “Quem acha que uma banda de metais não pode executar peças clássicas deve ouvir um dos discos ou, melhor ainda, comparecer a um concerto da banda do 62 BI”, convida o capitão Carlos, posto a que chegou no ano passado, três meses antes de passar para a reserva.


Conheça a história de Victor Alberto Aronis, o coordenador-geral do Instituto Festival de Dança

Nascido em Porto Alegre, ele fez seu nome em Curitiba e hoje vive em Joinville

Longe de ser um entusiasta de movimentos separatistas, Victor Alberto Aronis vem construindo uma carreira profissional nos três estados sulistas: nasceu no Rio Grande do Sul, fez o nome no meio artístico-cultural do Paraná e hoje é um cidadão de Santa Catarina, morador do bairro Floresta, em Joinville. Coordenador-geral do Instituto Festival de Dança, Victor é o tipo de pessoa sempre disponível. “Não consigo ver um problema, sem interferir e ajudar a buscar uma solução. Só não entendo muito de dança”, diz, enquanto dá um telefonema em busca de uma chave, pois a Vigilância Sanitária precisa fazer uma última avaliação, no dia da abertura do Festival; ao mesmo tempo, resolve algum assunto administrativo com os diretores Ely Diniz e José Francisco Payão; despacha um profissional para substituir uma bandeira furtada. Tudo sem perder o bom humor que já o caracteriza no ambiente do festival.

Fabrício Porto/ND
Victor Aronis é o coordenador-geral do Instituo Festival de Dança de Joinville



Descendente de judeus russos, Victor Aronis nasceu em 1962, na capital gaúcha. Junto com os três irmãos, frequentou o Colégio Israelita Brasileiro e as arquibancadas do Beira-rio. Na hora de se decidir por uma profissão, atirou em várias direções: “Fiz vestibular para agronomia na Federal e sociologia na PUC, curso que escolhi. Dois anos depois estava em Israel, onde fiquei um ano estudando. No retorno, me transferi para a faculdade de Estudos Sociais, formando-me em 1982.”

Passou então por São Paulo, onde durante três anos trabalhou na Escola Quero-Quero, em projetos de inclusão de crianças e adolescentes em situação especial. Na capital paulista começou a formar nova família, casando-se com Elisete, também professora na escola.

Em 1987, a nova parada era Curitiba, onde Aronis assumiu a direção-executiva do Centro Israelita do Paraná. Cinco anos depois, enveredou pela produção artístico-cultural, participando da criação do Festival de Teatro de Curitiba. “Mesmo tendo um dos melhores espaços do país, o Guaíra, a cidade não tinha muitas opções na área teatral. O festival acabou sendo um sucesso, projetando Curitiba no cenário nacional”, vibra Aronis, acrescentando ao currículo a criação de um festival teatral em Recife e a promoção de eventos variados, o que lhe permitiu conhecer grandes nomes da arte brasileira. “Trabalhei com o Marcos Frota no seu circo, e ajudei a criar o Festival de Circo de Florianópolis”, acrescenta.

Junto com o Centreventos

Em 1998 a empresa de promoções de Victor Aronis, a Calvin Empreendimentos, foi contratada pela administração municipal joinvilense para trazer sua expertise ao Festival de Dança. “O Centreventos ainda cheirava a tinta, foi o primeiro festival no novo espaço, o que dobrava os desafios. Eu, particularmente, não entendia nada de dança, e trouxe a experiência na promoção de eventos.” Algum tempo depois, a Calvin foi substituída por outra empresa de promoção de eventos, a Arte Brasil, em sociedade com Iraci Seefeldt, na época diretora-executiva do Instituto Festival de Dança (Iraci foi Perfil na edição deste fim de semana). Entre outras atrações, a Arte Brasil produziu as turnês do Balé Real da Dinamarca e do Balé Folclórico da Polônia, o Masowsze, por Santa Catarina.

Com o crescimento do Festival de Dança – maior do mundo em seu gênero desde 2005 –, o envolvimento de Aronis com o Instituto e a cidade também aumentava. Há dois anos, enfim, deu baixa na empresa em Curitiba e mudou-se para o Floresta. Os filhos, Tamara, 22 anos, e Bruno, 20, seguiram os passos do pai e hoje estudam e trabalham em Israel. Nos últimos dias, com o aumento da tensão na Faixa de Gaza, obviamente o coração de pai sente o aperto, mas Aronis não se estressa: “Eles moram longe da região de conflito, e a qualquer alarme, todos sabem para onde correr.”

Do mesmo modo, o agito do Festival de Dança não tira a calma do coordenador-geral. “É uma questão de saber administrar e contar com as pessoas certas nos lugares estratégicos. O festival, acima de tudo, me proporciona a liberdade de criar, inovar e sugerir.”


Iraci Seefeldt: jornalismo rima com cultura

A trajetória da loirinha do Rio Bonito no cenário cultural joinvilense

Claro que, por mais “pé quebrado” que seja um poema, as palavras jornalismo e cultura não têm a mais remota possibilidade de rima. Não foneticamente, pelo menos. No caso de Iraci Seefeldt, porém, a rima é riquíssima. Formada em jornalismo, atuou muitos anos na comunicação corporativa, até enveredar pela produção cultural. Nesse amálgama, o Festival de Dança de Joinville é ingrediente vital. “Meu trabalho, seja no jornalismo ou na produção cultural, me faz muito feliz, por me proporcionar conhecer e conviver com pessoas incríveis. Cada projeto, cada trabalho é uma experiência única e inspiradora!”, define-se a repórter, editora e produtora, hoje de volta ao festival, coordenando a assessoria de imprensa estadual.

Fabrício Porto/ND
Iraci tem boa parte de sua vida dedicada ao festival de Dança de Joinville

 

Nascida no Rio Bonito em 1972, Iraci é a caçula dos três filhos dos Seefeldt. Estudou nos colégios Arthur da Costa e Silva e Guilherme Zuege, passou um ano em Barra do Sul quando o pai tocou um restaurante, prosseguiu no Olavo Bilac, em Pirabeiraba, até concluir o ciclo fundamental e médio no Plácido Olímpio de Oliveira. “A transferência para o Plácido foi minha saída do universo do Rio Bonito. No colégio, o professor Vital Poffo percebeu que eu tinha potencial para o jornalismo, e foi o que escolhi”, relata Iraci.

Não passou no primeiro vestibular, na Federal do Paraná. Durante o ano em que fez o cursinho, também foi aluna da professora Ana Fabrício no curso de teatro da Casa da Cultura – a veia artística já latejava, ainda que timidamente. Ali, foi colega de pessoas hoje consolidadas no mundo da arte, como Franzoi e Ana Raposo.
Em 1993, enfim, começou a faculdade de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo na Univali (Universidade do Vale do Itajaí).

 

Dureza da dupla jornada no início da carreira

Já no segundo ano do curso, em 1994, Iraci conseguiu um emprego, uma espécie de estágio não institucionalizado, na EDM Logos Comunicação Corporativa. “Comecei no clipping, algo que ainda não conhecia. Ficava sozinha numa sala, em meio a jornais e revistas, procurando citações dos clientes da agência. Ali aprendi a fazer leitura seletiva, indo direto nas páginas e cadernos que interessavam.” Era tempo, também, de correria, saindo da agência no fim da tarde, a tempo de pegar o ônibus para a faculdade.

Formada em 1997, Iraci já trocara o clipping pela reportagem, na equipe da Logos responsável pela produção de veículos de comunicação dos clientes. Sem jamais se acomodar, passou também pelos setores de assessoria de imprensa e eventos da agência e pós-graduou-se em administração de marketing. Foi quando começou o envolvimento com o Festival de Dança, inicialmente na equipe de divulgação, até culminar, em 2001, com a coordenação-executiva do festival, seguida da direção-executiva do Instituto Festival de Dança.

“Foi vital – garante – a experiência na área de eventos, ajudando a organizar congressos, feiras e festivais.” Em 2009, Iraci teve uma passagem pela Prefeitura, como diretora-executiva da Secretaria de Comunicação. O ano seguinte, porém, foi de recolhimento: “Tive um problema na coluna durante a gravidez, me obrigando a parar de trabalhar.” Em fevereiro de 2011 nasceu Pedro, fruto do relacionamento com o teatrólogo Robson Benta. Com o companheiro, no mesmo ano, Iraci criou o Instituto de Pesquisa da Arte pelo Movimento – Impar. E o currículo foi crescendo: assessoria de projetos da Cia. AMA de Dança; edição da revista Gente que Dança; apresentação do programa Dança Joinville na FM 105,1; cadeira titular no Conselho Municipal de Política Cultural; diretoria da Unidança... A lista de atividades, cargos e funções já ocupa algumas folhas do currículo.

Por estes dias, Iraci Seefeldt pode ser encontrada num dos ambientes em que se sente à vontade: os bastidores do Festival de Dança, apoiando o trabalho da imprensa estadual. “Voltar ao festival está sendo uma experiência ‘ímpar’. É muito bom reviver essa emoção!”, conclui, incluindo um merchandising de sua empresa.


José Hernaski: motorista, com satisfação


“Aposentado já estou há 14 anos, mas não me vejo parando de trabalhar. Enquanto a empresa estiver satisfeita comigo e eu continuar vindo para o trabalho com prazer, não paro.” A frase resume a trajetória de José Hernaski, mais antigo motorista de ônibus da Gidion em atividade, com 40 anos de boleia completados em fevereiro. E o início dessa carreira deveu-se simplesmente a uma oportunidade aproveitada, sem ser planejada. “Vim a Joinville só pra renovar a carteira de motorista, e nunca mais saí.” Até chegar a esse ponto...

Rogério Souza Jr./ND
José Hernaski está há 40 anos na boleia dos ônibus da Gidion

 

Comecemos a história do início, no dia 2 de agosto de 1948, quando nasceu o segundo filho dos Hernaski, na localidade de Sol Nascente, município de Garuva. “Éramos seis irmãos quando meu pai morreu. Eu tinha nove anos, e a partir daí já precisava ajudar minha mãe com os menores e no trabalho na lavoura. Plantávamos arroz, banana e outras hortaliças, para consumo da família e para venda. Também tínhamos criações, e vendíamos ovos e queijo, entre outros produtos. Tinha semanas em que chegávamos a vender até cinco quilos de manteiga.”

Assim Hernaski passou a infância, conciliando os estudos com a lida na terra. A primeira mestra, numa sala com crianças de diversas idades e níveis de aprendizado, é lembrada na hora: “Foi a professora Matilde, mãe do Zeca”, diz, referindo-se ao atual prefeito de Garuva, José Chaves.

José Hernaski aprendeu a dirigir caminhão, foi tratorista, casou-se, teve a primeira filha... Até que chegou a época da tal renovação da carteira de habilitação, no Detran de Joinville.

Mais de 30 anos na mesma linha

Por aqui, Hernaski encontrou o amigo Geneci Farias, que trabalhava na Gidion. “Como minha carteira era pra dirigir caminhão e até trator, ele me sugeriu ir até a Gidion e ver se tinha vaga. Fui entrevistado pelo João Bello, quando a empresa ainda pertencia ao José Loureiro, antes de a família Bogo chegar. Comecei a trabalhar no dia 3 de fevereiro de 1974.”

Hernaski passou os seis primeiros meses fazendo a ligação do Centro com o Jarivatuba. “Eu nem conhecia a cidade, fui conhecendo com o trabalho. Passei pelas linhas Km 4 e Guanabara, e há mais de 30 anos peguei a antiga linha Salão Reiss, hoje São Marcos.”

Hernaski é testemunha da evolução do transporte coletivo na cidade: “Quando comecei não tinha sequer uma rua asfaltada, só uns três ônibus tinham direção hidráulica e o terminal só tinha cobertura onde ficavam os passageiros. Hoje poucas ruas ainda não são asfaltadas, os veículos são modernos, oferecem mais conforto, tanto para o motorista quanto para os passageiros, e há vários terminais espalhados pela cidade.” Cuidadoso, Hernaski nunca se envolveu em ocorrências graves, sendo homenageado pela Gidion diversas vezes no evento “Zero Acidente” e por tempo de casa. “Já ganhei vários presentes por tempo de serviço e segurança”, diz, mostrando o relógio que marcou os 25 anos de empresa. Em 2009, nas homenagens pelos 35 anos de serviço, José Hernaski contabilizava um milhão de quilômetros ao volante dos ônibus da Gidion. Com essa quilometragem, poderia ir e voltar à lua e ir mais uma vez e ainda restariam 30 mil quilômetros. Ou fazer 38 voltas ao redor do mundo. Na época, estava há 19 anos sem acidentes. “Faltavam dois meses pra completar 20 anos, quando bati num ônibus da Transtusa, manobrando dentro do Terminal Central”, lamenta.

Morador do Boa Vista desde que se instalou em Joinville, Hernaski teve mais três filhos e quatro netos – o filho Pedro, também motorista profissional, já foi seu colega na Gidion.
“Estou muito feliz, tanto com o meu trabalho como com a empresa, que sabe reconhecer nosso empenho e dedicação. Devo ao meu trabalho e à Gidion as conquistas pessoais.” Sobram palavras de gratidão também para a família: “Minha esposa acorda todos os dias às 2h da madrugada para arrumar meu café antes de eu sair para trabalhar.”


Clarice Hagedorn e sua paixão pela educação no trânsito

Professora dividiu a carreira entre sala de aula, supervisão e as ruas

Clarice Hagedorn nasceu com a vocação para ser professora, fez carreira em sala de aula, em atividades administrativas e se aposentou com a satisfação de ter cumprido a missão. Há 25 anos, porém, surgiu outra paixão na vida: a educação no trânsito. “Desde que comecei a participar da Comissão Municipal de Humanização do Trânsito, me apaixonei pela área e me dediquei muito, especialmente no tempo em que coordenei o Programa Aluno-Guia. Infelizmente, interesses políticos acabaram com a iniciativa, uma das mais importantes que já vivenciamos na humanização do trânsito”, destaca, demonstrando em palavras, fotos e olhos umedecidos pela emoção, o período passado à frente do programa que já se tornara referência além-fronteiras.

Fabrício Porto/ND
Clarice participa do conhecimentos de educação para o trânsito no Rotary Club Cidade das Flores

 

Clarice nasceu na rua Bahia, nas imediações da fábrica de cachimbos e pentes que viria a se tornar a Tigre. “Mas eu me criei no Nova Brasília, para onde a família se mudou pouco tempo depois que nasci. Fui a caçula de quatro filhas, e aí meus pais se conformaram com a prole feminina e encerraram a produção”, brinca, recordando com saudade do pai, que fabricava, consertava e montava assentos para os trens de passageiros, e da mãe, dona de casa e incentivadora da formação das filhas.

Clarice já brincava de dar aulas para os sobrinhos e admite que eventualmente carregava alguns tocos de giz dos colégios em que fez carreira escolar: o conhecido “Pau do Meio” (embrião da escola Anita Garibaldi), o Conselheiro Mafra e o Santos Anjos, de onde saiu com o diploma de professora, em 1969. Ali foi aluna do monsenhor Sebastião Scarzello, de quem se recorda com carinho: “Ele dava aula de Sociologia e tinha o hábito de andar de um lado para o outro da sala de olhos fechados. Quando as alunas se preparavam para avisar da iminente trombada, ele se virava rapidamente, pois sabia que era o último passo antes da parede.”

Lá vem a “Melado Quente”

Na juventude, a ruiva Clarice também gostava de fazer o “footing” na praça Nereu Ramos, antes das sessões do Cine Colon. “Meu cabelo era tão vermelho – conta, folheando álbuns – que me apelidaram de ‘Melado Quente’.”
Formada professora, estreou como substituta, durante alguns meses, no mesmo colégio em que estudou, já batizado de Anita Garibaldi. Passou pela escola Pará, atual Elisabeth Von Dreyfuss, até voltar ao Anita, já aprovada em concurso da rede municipal. Em 1975, passou quinze dias em Belo Horizonte, fazendo um curso de aperfeiçoamento em alfabetização e, na volta, repassou os conhecimentos entre os colegas. “Interessante ressaltar que, já naquele tempo, havia uma política de inclusão, pois as salas tinham alunos de todos os níveis de aprendizado, inclusive os portadores de deficiência mental.”

De todas as pessoas com quem conviveu, Clarice dedica palavras de especial carinho a Solede Frühstück, diretora do colégio Anita, e à então secretária de educação Juraci Brosig. “Em 1975, Juraci me levou para a secretaria, para ser supervisora pedagógica.” Aquele ano, por sinal, tornou-se simbólico, pois também foi quando se formou na faculdade de História pela Furj (hoje Univille). Ficou na secretaria até se aposentar, em 2003, mas ainda passou pelas salas de aula, alfabetizando adultos pelo antigo Mobral.

Formou-se (pela ACE) em supervisão escolar, mesma área em que fez pós-graduação. A última passagem por sala de aula foi em 2006, no colégio João Costa. A essa altura, Clarice já estava envolvida com a educação no trânsito, como representante da Secretaria de Educação – depois como voluntária – na Comissão Municipal de Humanização do Trânsito. Também na secretaria, foi coordenadora de educação no trânsito. De 1991 a 2008 participou ativamente do Programa Aluno-Guia, desativado em 2010. “Graças ao programa, pude conhecer a Disney, levando dois alunos premiados com a viagem. Dava gosto de coordenar o programa, com total apoio dos patrocinadores e envolvimento das escolas, dos alunos e dos policiais militares. Foi uma verdadeira lição de humanização do trânsito”, garante.

Atualmente, Clarice prossegue em sua missão de educar para o trânsito atuando pelo Rotary Club Joinville Cidade das Flores, no Conselho Municipal de Trânsito e em programas educativos do clube, especialmente os voltados aos jovens.


Conheça a trajetória de Dietmar Lilie, um inventor nato


Quando criança, pedalando pelas ruas de Rio Negrinho uma estranha bicicleta com volante de carro no lugar do guidão, já despertava curiosidade e admiração. “Esse piá vai ser um inventor, é muito criativo”, diziam. Hoje, aos 55 anos, Dietmar Erich Bernhard Lilie (o nome é uma herança do pai Ernst Ekkehard, imigrante alemão) não só confirmou as previsões, como se tornou um dos responsáveis pela liderança da Embraco no mercado mundial de compressores. “Esta foi minha primeira patente, e nesta estou trabalhando atualmente”, diz, mostrando o projeto da primeira invenção e o mais recente, das mais de cem que carrega no currículo.

 

Fabrício Porto/ND
Dietmar segura um de seus mais recentes projetos: um compressor menor e mais eficiente

 

Nome constante nas relações de melhores alunos do Colégio São José de Rio Negrinho, Dietmar preferia a garagem de casa e a marcenaria do avô aos campinhos de futebol. “Entre as minhas obras mais memoráveis está um carrinho, uma espécie de kart de madeira, feito com a contribuição de madeira e ferramentas do meu avô. Eu gostava de desmontar coisas, pra ver como funcionavam, era uma curiosidade natural, e sempre fui apaixonado por ciências exatas de um modo geral”, conta, sentado no mesmo auditório da Embraco em que fez tantas apresentações de projetos. Antes, porém, de chegar a um dos cargos mais prestigiosos da principal fabricante mundial de compressores, Dietmar Lilie estudou muito.

A formação formal, contudo, limitou-se ao primeiro ano do ensino médio no Colégio Manoel da Nóbrega, em Rio Negrinho, e ao curso de técnico mecânico na ETT (Escola Técnica Tupy). “Sou autodidata, adoro pesquisar e não tenho preguiça de buscar conhecimentos”, garante, acrescentando ao relato o maior drama que enfrentou. “Em 1978, numa de minhas viagens a Rio Negrinho, de carona, sofri um acidente grave na estrada. O motorista morreu, e só não perdi uma perna devido à perícia do saudoso Dr. Duda. Depois de alguns dias no hospital de Campo

Alegre e outro tanto em Rio Neginho, recuperei-me a tempo de comparecer à solenidade de formatura na ETT”, conta.

 

Desmontador incorrigível

Formado, Dietmar fez um breve estágio na KaVo do Brasil, quando ouviu falar da empresa de compressores criada alguns anos antes, em Joinville. “A Embraco nasceu com a missão de fornecer compressores para Consul, Brastemp e Prosdócimo. Consegui emprego na área de manutenção, e logo vi as possibilidades de ir além do que se fazia.”

A passagem pela manutenção durou poucos meses, nos quais Dietmar insistia em desmontar compressores para estudá-los. “Só que [relembra com humor] nem sempre eu conseguia remontar. Até que um amigo, Nélson Wensdorf, me levou para o setor de desenvolvimento de produtos, onde achei meu lugar. A partir de então, nosso principal esforço era desenvolver engenharia própria, pois até então a Embraco aplicava a tecnologia da dinamarquesa Danfoss.” Neste processo, Dietmar destaca a parceria com a UFSC (Universidade Federal de Sanata Catarina). “Com esse trabalho, iniciado há trinta anos com o professor Rogério Ferreira, criamos uma massa crítica de pesquisadores na empresa, tendo a inovação como marca.” A prova está nas centenas de patentes registradas pela Embraco, grande parte com a assinatura do analista sênior de pesquisa, Dietmar Lilie.

Se na infância, em Rio Negrinho, Lilie já era adepto do pedal, a paixão pela bicicleta só aumentou em Joinville. Praticante assíduo do ciclismo, especialmente fora de estrada, é um dos fundadores e atual presidente do Movimento Pedala Joinville. Uma das parceiras é a mulher Rosane, paixão da adolescência. Com ela teve Thais, que morreu há alguns anos devido a uma doença congênita, Fábio, 28 anos, e Larissa, 25. “Trabalho muito, com prazer renovado a cada dia”, conclui o “professor Pardal”, reforçando a satisfação em ter feito e seguido um roteiro ideal para a vida.


A história de Luciano Fusinato, um quase técnico mecânico que virou teatrólogo


 “A história da vida de alguém, às vezes, se explica por caminhos tortuosos. Mas as ligações transversas acabam harmonizando os enredos.” Longe de ser algum conceito tirado de um livro de filosofia, a declaração – carregada, sim, de viés filosófico – resume a carreira de Luciano Fusinato. O tal “caminho tortuoso” poderia ser o curso de técnico mecânico, feito ainda na adolescência, mas jamais consumado numa vertente profissional. Acabou virando uma “ligação transversa” mais tarde, quando Fusinato enveredou pela carreira teatral, precisou dos conhecimentos de mecânica nos bastidores de suas montagens.

Fabrício Porto/ND
Luciano viajou por diversas cidades de Santa Catarina e fez uma turnê pelo Centro-Oeste do país, levando a arte a mais de 60 cidades dos Estados de Mato Grosso do Sul, Goiás e Tocantins

O enredo dessa peça começa a ser escrito em 1975, quando nasceu o terceiro dos cinco filhos dos Fusinato. A família chegara algum tempo antes a Joinville, trocando o campo de José Boiteux, no Alto Vale do Itajaí, pelo parque industrial de Joinville, onde o pai, Ernesto, conseguira emprego na Consul. “Fui criado no bairro Costa e Silva, fiz carreira escolar no colégio Elpídio Barbosa, e acho que imaginava seguir os passos do meu pai quando fiz o curso de técnico mecânico no Senai e depois no CIS”, conta Luciano.

A vocação para a arte, até então, manifestara-se de forma tênue, mas já dando sinais inequívocos da tal transversalidade das ligações. “Aos nove anos ganhei uma flauta-doce, que me encantou. No colégio, gostava de declamar e participar das encenações, sem demonstrar medo de plateia.”

A transição do “teatrinho” escolar para um palco de verdade foi rápida: “Eu cursava o ensino médio no Elias Moreira quando aceitei um convite para fazer uma ponta numa peça encenada pelo grupo teatral do colégio, o Quimeras.” Corria o ano de 1991, e ali, com uma simples ponta, outro caminho se abria na vida de Luciano Fusinato. Dois anos depois, empolgado com o início promissor, subia ao palco como protagonista na encenação da peça “Doce Vampiro.”

De carreta por aí

Em 1998, já cursando a faculdade de história, Luciano iniciava nova parceria – sentimental e profissional – com a também artista Ilaine Melo. “O curso de história foi uma forma de ampliar horizontes e me preparar para outra atividade, a arte-educação. Isso me possibilitou ter uma fonte de renda estável, já que com o teatro profissional ainda é difícil sobreviver em Joinville.”

A partir de então, Luciano Fusinato passou a ser um nome conhecido no meio teatral joinvilense, não apenas como ator, mas em todas as frentes. “Foi aí que percebi que o curso de técnico mecânico não fora em vão, pois muito do que aprendi pude aplicar no teatro, na elaboração de maquinários, iluminação e confecção de bonecos.”
O teatro de bonecos, por sinal, é uma das marcas de Fusinato. Durante muito tempo foi parceiro de Antônio Bonequeiro, pseudônimo do fabricante de bonecos, intérprete e contador de histórias Antonio Celso Medeiros Leopolski, falecido em novembro de 2010 (três meses antes, foi Perfil no ND).

Em 1999, quando a classe teatral sentia a falta de um local próprio para ensaios e encenações, Fusinato integrou o grupo que reformou o galpão da Antarctica e criou a Ajote (Associação Joinvilense de Teatro). “Fizemos um esforço bonito, em mutirão, para reformar o antigo depósito de bebidas e transformá-lo no galpão da Ajote”, relembra emocionado.

Em 2007, os amigos pensaram que Luciano Fusinato deixara Joinville. Mas ele não abandonou sua base: “Eu já vinha viajando bastante pelo Estado, encenando, ministrando oficinas e cursos. Naquele ano, chamei quatro parceiros, engatei uma carreta no meu carro e fomos desbravar o Centro-Oeste. Durante um ano rodamos por 60 cidades de Mato Grosso do Sul, Goiás e Tocantins. Foi uma experiência enriquecedora para todos, pois passamos por lugares incríveis, quase sempre bem recebidos, pois as comunidades ansiavam por arte.” Em cada cidade, a primeira providência era ir até a delegacia: “Antes de tudo, era preciso deixar claro que estávamos ali para trabalhar, não éramos vadios. Depois era a vez de ir à Prefeitura oferecer serviços e conseguir locais para encenações.”


Vitalidade aos 95 anos

Leitora fiel. Dona Leonida não abre mão de ler o Notícias do Dia todas as manhãs, e sem óculos

“Eu levanto cedo, faço café e vou ler o jornal. Só não dá mais pra passear por aí, por causa do câncer de pele e das pernas que não ajudam muito.” Tirando as dificuldades normais provocadas pela idade, a disposição de dona Leonida é invejável. Aos 95 anos, ela faz questão de administrar a casa: “Se eu consigo, faço melhor que uma diarista”. A filha Elinor, com quem mora, reforça: “A mãe gosta de cozinhar, e se outra pessoa vai pra cozinha, ela fica de olho, atenta”.

Carlos Junior/ND
Além de ler, cozinhar e cuidar da casa, Leonida passa horas na janela, apreciando o movimento

 

A história de Leonida Künell Segata começa no dia 26 de junho de 1919, na localidade de Arraial, interior de Gaspar. Penúltima de uma prole de sete (“Sou a última viva”, ressalta), teve uma típica infância de família da roça, entre a escola e a lida no campo. “Estudei só até a quinta série, numa pequena escola do interior. Minha primeira professora se chamava Alzira”, conta, alternando lembranças ainda vivas na memória com as esmaecidas.

O namoro com Avelino Segata começou entre as missas e as domingueiras nos salões de Gaspar. “Para chegar aos salões, precisávamos atravessar o rio Itajaí de canoa ou de balsa, pois ainda não havia pontes”, acentua. Logo após o casamento, em 1946, o casal mudou-se para Rio Negrinho, no Planalto Norte, onde a Móveis Cimo precisava de mão-de-obra. “Moramos perto da estação ferroviária, e chegamos a pegar neve nos invernos por lá”, relembra Leonida.

Cinco anos e dois filhos (Eliete e Eugênio) depois, a família desceu a serra, com a transferência de Avelino para a filial da Cimo em Joinville. “Chegamos no dia 30 de novembro de 1952”, informa dona Leonida, com mais uma das datas simbólicas de sua vida. Sempre trabalhando como estofador, após o fechamento da Cimo o marido foi para a Mobilar e depois para a Busscar, onde se aposentou. Avelino morreu há 17 anos, vencido por problemas cardíacos. “Bem no dia do aniversário dele”, pontua a filha Elinor – ela também viúva há 12 anos; o marido, Luiz, era o xodó da sogra, que lembra: “Ele me chamava de mãe, era muito querido”.

Sonho de ver o JEC jogar na Arena

Em Joinville, onde nasceu mais um casal de filhos (Elinor e Edílson), a família estabeleceu-se inicialmente na rua Alexandre Schlemm. Pela proximidade com o Ernestão, dona Leonida, apreciadora de futebol, virou torcedora do Caxias. E, desde 1976, tem o coração preto-branco-vermelho do JEC. “Do time atual, gosto mais do Ivan, ele veste a camisa com amor”, comenta, lamentando ainda não ter conhecido a Arena. “O problema são as escadas”, justifica.
Há mais de 50 anos morando no Iririú, Leonida já foi catequista na paróquia São Sebastião, de onde tem boas lembranças do padre Valente Simeoni. Hoje, a família frequenta a Paróquia Universitária São Francisco de Assis, no Saguaçu, mais próxima de casa, onde Elinor integra a pastoral social. Eventualmente, Leonida reencontra os amigos do Grupo da Terceira Idade Santa Luzia, no Aventureiro, onde já foi mais assídua – especialmente nas mesas de dominó.
Leitora (sem precisar de óculos) do Notícias do Dia desde que o jornal existe, fez com que a filha Elinor se tornasse uma das primeiras assinantes. “Gosto de ler o jornal todo, mas preciso ver o obituário todos os dias e ficar por dentro das novidades do JEC”, diz, manifestando o desejo de conhecer pessoalmente o ídolo Ivan. Na TV, não se liga em novelas: “Gosto de esporte, noticiário e do Sílvio Santos”, arremata.


Albano Bayer guarda as lembranças do clube que idealizou na Estrada da Ilha

Convocado a fazer uma festa para ajudar sua paróquia, ele teve a ideia de fundar um time e aí nasceu o rubro-negro que chegou a ser campeão da Segundona, antes de viver só na memória de seus idealizadores

“A paróquia luterana convidou representantes das diversas comunidades do interior do município, para debater a necessidade de mais verbas. Uma ideia era que cada comunidade promovesse uma festa. Em vez disso, sugeri que fossem promovidos torneios de futebol, com cobrança de inscrição. Assim, nasceu o Esporte Clube Estrada da Ilha.” O relato é de Albano Bayer, um dos fundadores do clube que, com as cores rubro-negras, defendeu aquela comunidade durante muitos anos no antigo Torneio de Integração Rural e que, nos anos 80, chegou a levantar o título da Segundona joinvilense. Desativado desde meados dos anos 90, o clube hoje vive apenas nas memórias dos moradores mais antigos da Estrada da Ilha.

 

Fabrício Porto/ND

Décadas de companheirismo e amor unem Albano Bayer e sua Olinda, desde que ele "reparou" nela na festa do centenário de Joinville

 

Bayer nasceu no dia 28 de junho de 1933, perto de onde hoje fica o campo do Viracopos, um clube-confraria da região. “Meu avô, Hugo Bayer, foi o primeiro da família a se estabelecer por aqui, e nunca mais saímos”, conta ele, que em casa era conhecido como “Nene”. A mulher, Olinda, entrega: “Até hoje tem gente que só chama o Albano de Tio Nene”.

A vida, nos anos 40 do século passado, não era fácil. “Não tinha escola por aqui, e eu fiz parte dos estudos num colégio do Rio Bonito, onde hoje é a Escola Municipal Guilherme Zuege. Também não havia transporte, e a criançada ia a pé. Em 1944, fui morar com uma tia, na cidade, e continuei os estudos no Colégio Germano Timm. Terminei o primário no Colégio Olavo Bilac, em Pirabeiraba, quando já morava aqui na Estrada do Oeste, que na época se chamava Caminho Curto. Eram 15 quilômetros de ida e volta, a pé.” No tempo em que morou com a tia, no Centro, fez a catequese para a primeira comunhão com o monsenhor Sebastião Scarzello.

Dedicado aos estudos, fez até o antigo complementar: “Mesmo morando longe, ganhei duas vezes o prêmio como mais assíduo, e também tirei um primeiro e um segundo lugares como melhor aluno”.

A dedicação, porém, não encontrou eco no desejo do pai, Fritz, que precisava dos braços fortes do Nene na lavoura. “Eu chorava de vontade de continuar os estudos. Um dia, chegou lá em casa o Alfredo Timm, gerente do Banco Nacional do Comércio, dono de um sítio na Estrada da Ilha. Ele propôs me dar trabalho e pagar os estudos, mas meu pai não arredou pé.”

 

Um bom médio-volante que perdeu a perna

 

Em 1951 e 1952, quando prestou o serviço militar, Bayer era o médio-volante do time do quartel. “Era bom de bola, e cheguei a ser convidado pra treinar no Caxias, mas após dar baixa voltei pra casa e pro trabalho na roça.” Casou-se com Olinda Mayer, também de tradicional família da Estrada da Ilha. “Reparei nela no desfile do Centenário de Joinville, em março de 1951. Depois, a conheci melhor numa festa de primeira comunhão. Começamos a namorar durante uma domingueira no Salão Schramm. Foi a primeira vez que levei um balaio, mas não desisti!”, conta, orgulhoso. Do casamento, realizado no dia 30 de julho de 1955, resultaram quatro filhos e cinco netos.

Em 1956, enfim, ocorreu a tal reunião convocada pela igreja, que resultou na fundação do Esporte Clube Estrada da Ilha. Ele não se recorda das datas exatas, nem das cores do uniforme, mas se diverte ao lembrar que o primeiro presidente do clube, Eurico Schulze, baseou-se no rótulo do uísque Drurys para criar o escudo.

Mais tarde decidiu-se adotar o vermelho e o preto como as cores oficiais. Da primeira diretoria, além de Schulze, faziam parte Osni Benkendorf como secretário e o próprio Albano Bayer como diretor social (função que ocupou até a desativação do clube).

“Nos anos 60, em dia de jogo eu ia de Fusca arrebanhar os jogadores que moravam em Pirabeiraba. E os uniformes eram lavados aqui em casa”, recorda o ex-diretor, mostrando algumas fotos e recortes de jornais. Num deles, é noticiada a eleição da rainha do Torneio de Integração Rural de 1973, vencida pela candidata da Estrada da Ilha.

Hoje, sem a perna direita, perdida devido a uma trombose, Albano sonha com uma cadeira de rodas motorizada. “As muletas me machucam, e não quero deixar de encontrar os amigos para uma cervejinha no boteco”, justifica, esbanjando bom humor e saudade dos bons tempos.

 


Ana Canuto é testemunha viva do crescimento do bairro Boa Vista

Uma "boa-vistana" de coração. Assim é a senhora que ajudou a fundar a Paróquia Imaculada Conceição
Fabrício Porto/ND
Dona Ana Benvinda no portão de casa: ele observa o Boa Vista desde que era apenas uma localidade

 

Durante a conversa, ao perceber o foco da entrevista no bairro, dona Ana indaga ao repórter: “Você também é boa-vistano?”. O gentílico criado por ela comprova o quanto Ana Benvinda da Maia Canuto preza o bairro em que nasceu e ainda mora, desde que os pais Inácio e Tereza ainda compravam leite fresco de fornecedores que criavam suas vaquinhas pelas imediações. Aos 85 anos, a mobilidade afetada pelo diabetes já não permite as andanças pelo bairro que tanto ama, mas algumas atividades, como ir eventualmente à missa, são mantidas. Afinal, a igreja Imaculada Conceição tem lugar de destaque em sua vida: “Nossa família trabalhou bastante na construção da igreja, ajudando nos mutirões e na organização de festas”.

Ana Benvinda nasceu no dia 29 de outubro de 1928, quando o Boa Vista ainda estava longe de ser um dos mais populosos bairros de Joinville. Até para frequentar a catequese era difícil: “Não havia paróquia por aqui, e eu ia a pé até a catedral pra doutrina, dada pelas irmãs vicentinas”.

Os estudos foram feitos “numa escola de madeira, com a professora Teresa”, recorda-se dona Ana, referindo-se à Escola Municipal Joinville, que virou Escola Reunida Municipal Professor Júlio Machado da Luz e, desde 1970, é a E. M. Governador Heriberto Hülse. A professora, segundo apurou a equipe do jornal “Boa Notícia”, da Paróquia Imaculada Conceição, era Teresa Tavares.

 

Fã de bailes e domingueiras

 

Com 15 anos, Ana Benvinda precisou trocar a sala de aula pela linha de produção da Centauro: “Fabricava meias para jogador de futebol”. Uma dificuldade, lembra, era dobrar a resistência dos pais e ir aos bailes e domingueiras dos animados salões como Jacob, Rio da Prata e Palmeiras da Vila Nova, além de alguns do próprio Boa Vista. Esses eventos eram uma das poucas oportunidades de conhecer mais pessoas além do círculo família-igreja-trabalho.

Foi num dos bailes que Ana, ótima dançarina, conheceu José Canuto, outro “pé-de-valsa”. Casaram-se em 1947, em cerimônia oficiada na catedral, pelo mesmo monsenhor Sebastião Scarzello, que havia dado a primeira eucaristia aos noivos, muitos anos antes. A união gerou nove filhos (dois já falecidos), 17 netos e 13 bisnetos. “Nessa semana, a mãe tá comigo, depois fica com outro irmão e assim por diante, para que cada filho que mora na cidade possa ficar com ela”, explica Laércio, vizinho da mãe na rua Antonio Oliveira Silva, a duas centenas de metros da igreja Imaculada Conceição (José, pintor e funcionário da Tupy por 25 anos, morreu em 2000, vitimado por um aneurisma na aorta).

A paróquia tem significado especial para Ana Benvinda, por tudo que representou em sua vida. “Antes – conta – a comunidade católica do bairro precisava ir até a catedral, para missas, batizados, primeira comunhão, crisma, casamentos... Até que erguemos nossa paróquia aqui. A primeira igreja tinha uma torre, depois da reforma é que ficou redonda como é hoje.” A Paróquia Imaculada Conceição comemora seu jubileu de ouro em março do ano que vem, celebrando uma história iniciada pela congregação das irmãs canossianas, criadoras também da Sociedade Bakita e da Casa das Irmãs Filhas da Caridade, ambas sediadas no Boa Vista.

Do leite fresquinho fornecido pelos criadores no início do século passado ao fervilhante bairro de hoje, com seus 17 mil habitantes; das caminhadas até a catedral à “igreja redonda”; das domingueiras ao agito atual, dona Ana Benvinda faz questão de se afirmar “boa-vistana de coração”.


Na vida de Luciano Mendonça Seiler, o quartel ganhou do campinho

Há quase 30 anos, ainda uma criança, ele decidiu ser bombeiro voluntário e virou um líder e uma espécie de anjo
Fabrício Porto/ND
Luciano Mendonça Seiler não tem dúvidas de que fez a escolha certa: hoje, entre outras conquistas, é coordenador do comitê técnico da Associação dos Bombeiros Voluntários de Santa Catarina

 

“Com 12 anos de idade, minha vida encontrou um Y, me levando a escolher entre continuar apenas estudando e jogando bola, ou encarar a responsabilidade de aprender a ser bombeiro. Hoje, sei que fiz a escolha certa, e se voltasse no tempo repetiria tudo.” É com essa convicção que Luciano Mendonça Seiler encara, aos 40 anos, a dupla jornada de dar expediente em horário comercial numa indústria e comparecer todos os dias ao quartel do Corpo de Bombeiros Voluntários, onde é líder de uma equipe.

Antes de chegar ao tal Y, o primeiro de muitos que viria a encontrar, Luciano vivia uma normal e feliz infância entre os bairros América e Glória, onde se criou e ainda mora. “Morava numa lateral da rua Marquês de Olinda, na época uma estradinha de chão terminando na subida onde hoje fica a Amanco. Por ali, tínhamos campinho, riacho pra tomar banho quando transbordava e uma rua sem nenhum movimento, pra se cansar jogando bets”, lembra Luciano.

Ele tinha 11 anos quando, em agosto de 1984, soube da existência de uma companhia de bombeiros mirins. “O subcomandante na época, Renato Kühn, frequentava a Sociedade Glória, onde também jogávamos bola. Um dia, ele sugeriu ao meu pai que me inscrevesse nos bombeiros mirins. Gostei da ideia, pois tinha visto uma reportagem na TV, e no sábado seguinte estávamos no quartel. Meu pai datilografou minha ficha de inscrição e acabei sendo aceito já quando a primeira turma de mirins havia iniciado o treinamento.”

Uma semana depois, manhã de sábado convidando pra socar a areia do Glória atrás da bola, Luciano viu-se ante o tal Y, apontando dois caminhos. “Um amigo passou lá em casa com a bola nas mãos, chamando pro jogo. Meu pai, então, me trouxe à razão, argumentando que já havíamos feito a ficha e eu me comprometera a iniciar o treinamento. Mesmo um tanto contrariado, dispensei meu amigo com a bola e fui pro quartel.”

 

Divulgação/ND
Luciano posa para campanha em que os bombeiros são comparados a anjos

 

Orgulho pelas conquistas

“A partir daquela escolha, minha vida deu uma guinada. Abri mão das brincadeiras, depois das diversões da adolescência, e me dediquei aos estudos e ao aprendizado do trabalho de um bombeiro”, continua Luciano, ressaltando ter ido uma única vez à balada no Ginástico, principal divertimento dos jovens nos anos 80. Formou-se técnico mecânico pela Tupy, empregou-se na Carrocerias Nielson (atual Busscar), fez engenharia mecânica na Udesc, MBA em gestão empresarial e no momento cursa uma pós em segurança do trabalho.

“Desde aquela primeira turma dos mirins, com o instrutor Flávio Nunes, aprendi muito sendo bombeiro. Ali forja-se o caráter, adquire-se disciplina e se aprende a enfrentar os tantos Y e encruzilhadas que surgem na vida”, reforça. Há 15 anos, Luciano trabalha na Whirlpool, pela qual fez, no mês passado, sua primeira viagem internacional, à China, onde a empresa tem uma unidade.

A carreira como bombeiro é pontuada por duros desafios, mas também pela satisfação das conquistas: “Com o comandante Heitor à frente, já tivemos muitos avanços, como a construção do centro de treinamento e a aquisição da plataforma elevatória, que trouxe muitos benefícios ao nosso trabalho”. Luciano, por sinal, é bombeiro certificado pelo fabricante da plataforma, apto a instruir colegas a operar o equipamento. Também é coordenador do comitê técnico da Associação dos Bombeiros Voluntários de Santa Catarina.

No quartel, ele aprendeu todas as funções, desde primeiros socorros até grandes incêndios. Seu “batismo” foi, logo no início da carreira, num acidente na BR-101, entre dois caminhões. A ocorrência de vulto mais recente foi um incêndio num galpão de ferro-velho no Boa Vista, no início deste mês. Outro incêndio que marcou foi o do galpão em São Francisco do Sul, no ano passado: “Fiquei de sexta até a noite de domingo lá, no auge do fogo”. Luciano não descarta, um dia, se tornar efetivo, prosseguindo na perninha do Y que escolheu na adolescência.

 

Perfil sugerido pelo leitor André Geiser (bombeiro voluntário, treinado por Luciano)


Maria Guedes se orgulha de ter sido uma das fundadoras da Escola Municipal Anita Garibaldi

Ao completar 85 anos, a professora aposentada lembra dos momentos mais especiais de sua vida pessoal e profissional
Fabrício Porto/ND
Maria Guedes não esconde o orgulho por ter sido uma das fundadoras de uma escola joinvilense

 

“Quando era criança, eu queria ser repórter ou freira. Mas meu pai não deixou, pois queria a única filha por perto. Escolhi o magistério e não me arrependo, pois fui muito feliz enquanto dei aulas. Faria tudo de novo.” Assim, graças à preocupação de um pai cioso, Joinville deixou de ter mais uma repórter ou freira, e ganhou uma professora dedicada e respeitada. Hoje, aposentada, Maria Guedes Moreno de Miranda curte as lembranças de uma carreira pavimentada principalmente com alegrias e conquistas. Entre elas, ela é uma das professoras joinvilenses que lutou junto com a comunidade pela criação do colégio Anita Garibaldi.

Maria nasceu em 1929 e se criou nas imediações do Centro de uma Joinville ainda pequena, perto de onde já funcionava o Lar Abdon Batista, criado 18 anos antes. Ser a única menina entre nove irmãos tinha suas peculiaridades: “Além de umas bonecas de pano que minha avó costurava, eu brincava muito na rua, jogando peca (bolinha de gude), peteca e me divertindo entre a gurizada. Era uma infância feliz, ao ar livre, numa cidade calma”.

Do extinto colégio Joaquim Santiago, Maria foi para o Rui Barbosa, onde concluiu o ensino fundamental. Demovida da intenção de trabalhar numa redação de jornal ou se enclausurar num convento, preparou-se para o magistério nos colégios Conselheiro Mafra e Santos Anjos, onde se formou aos 18 anos. Dois anos antes, porém, já estreava dando aulas.

 

“A professora Maria foi uma mãe pra mim,

o verdadeiro complemento da minha família.

Devo a ela muito do que aprendi,

inclusive a forjar o caráter, pois eu era um dos

mais atentados. Obrigado e parabéns, professora!”

João Gaspar Rosa, ex-aluno

 

 

Do antigo bairro Guaxanduva, hoje Iririú, à escola Anita Garibaldi

“Eu tinha 16 anos quando comecei a dar aulas, no colégio do Guaxanduva, onde hoje é o Iririú”, relata. Das inúmeras colegas de magistério que vai citando, lembra-se bem da amiga Maria Brites, do tempo de Guaxanduva (Maria foi Perfil no dia 28 de abril). Assim que se formou, foi transferida para o Rio Bonito: “Como na época só passava um ônibus da Catarinense pra lá, normalmente eu e uma colega íamos a pé até o colégio. Muita gente só falava alemão, e eu acabei aprendendo também, ao mesmo tempo em que ensinava português”. Maria ainda passou algum tempo numa escola do Rio do Braço, antes de assumir o grande desafio de iniciar um colégio do zero.

“Em 1953, o então prefeito Rolf Colin resolveu atender aos pedidos dos moradores do final da Anita, onde não havia escola próxima. A Prefeitura alugou uma casa e abrimos a escola. O nome oficial era Piauí, mas ficou conhecido como o colégio do ‘pau do meio’, pois havia um pilar bem no meio da sala.” Cinco anos depois, já na gestão de Dario Geraldo Salles, era inaugurada a Escola Municipal Anita Garibaldi. Maria conta outro detalhe: “Eu que sugeri dar esse nome pra escola. Mas hoje me arrependo, pois Anita Garibaldi nem conheceu Joinville. Quem sabe, um dia, deem meu nome pra ela”.

Do Anita, onde se aposentou em 1975, já como diretora, Maria só tem boas recordações. “Era uma felicidade dar aulas numa escola bonita. Muitos dos meus alunos se tornaram profissionais respeitados”, diz com saudade, citando o ex-vereador João Gaspar Rosa como um dos que passaram por sua sala. “Ele está me devendo uma visita”, cobra.

Dizendo-se “humana e justa”, a professora Maria evoca as diversas vezes em que avisava as merendeiras para “caprichar nas canecas” dos alunos mais pobres, ciente de que aquela seria a principal refeição do dia para muitas crianças. Após a aposentadoria, ainda trabalhou alguns anos nos colégios Rodolfo Meyer e Conde Modesto Leal. Mas sempre esperou um chamado: “Tinha pedido ao prefeito Luiz Henrique para continuar, ele garantiu que me chamaria, mas estou aguardando até hoje”.

De qualquer forma, a continuidade se manteve: as filhas Rita de Cássia e Franci se aposentaram como professoras, a neta Franciele acaba de iniciar a carreira e a bisneta Lara, de 3 anos, já brinca de dar aulas (os outros bisnetos, Pedro, quase 3 anos, e Henrique, de 3 meses, se juntariam à família no dia da entrevista, ontem, para comemorar o aniversário da bisa). Parabéns, professora Maria, pelos 85 anos e pela bela carreira!

 

 

 

 

 


Pároco de Joinville concilia o sacerdócio com a arte e a arquitetura

Polivalente, Otávio Ferreira Antunes é responsável pela Paróquia Imaculada Conceição

O título deste Perfil é o mesmo do primeiro livro lançado pelo padre Otávio Ferreira Antunes há cinco anos, resultado da sua monografia de conclusão da pós-graduação em arte sacra, especialização que se seguiu aos cursos superiores de filosofia, teologia e arquitetura. Singular padre-arquiteto-artista, o atual administrador da Paróquia Imaculada Conceição, no bairro Boa Vista, em Joinville, só vê vantagens nas múltiplas atividades. “A beleza também evangeliza, e sou feliz por usar meu dom a serviço da Igreja”, diz o autor de projetos arquitetônicos e decorações em diversas paróquias de Joinville.

 

Fabrício Porto/ND
"A beleza também evangeliza", acredita o padre Otávio Ferreira Antunes, que sempre colocou os estudos como prioridade em sua vida, cheia de lances dramáticos

 

“Na verdade, eu não tinha a intenção de ser padre. Entrei no seminário atraído pela possibilidade de ter estudo de qualidade”, admite o pároco. Nascido no município paranaense de Dois Vizinhos no dia 28 de julho de 1975, Otávio teve uma infância dramática. “Minha família cultivava a terra na localidade de Canoas. Éramos felizes, até que meu pai morreu quando eu tinha seis anos. Eu era o terceiro de cinco filhos, e acabei sendo criado por outras famílias, devido à profunda depressão que tomou minha mãe.” Otávio viveu com seis famílias, passando por cidades do Sudoeste paranaense. “Diversas vezes fugi de casa, chegava a passar dois dias no mato, sozinho.” O drama durou até se estabelecer com os Moser em São Jorge do Oeste, que considera sua cidade.

Aplicado nos estudos, Otávio amava o desenho e a leitura. Aos 18 anos, convidado por um padre amigo da família, matriculou-se no seminário de Palmas, também no Paraná. “Não era uma questão de vocação. Eu sabia que no seminário teria a garantia de bons estudos”, admite. Durante os três anos do ensino médio, teve no reitor do seminário um incentivador: “Ele me pegava pela arte, comprando tintas, me ensinando técnicas e me levando a pintar igrejas”.

 

“A arte como comunicação das

experiências mais profundas do ser é,

mais do que mero instrumento secundário,

a própria contemplação do mistério.” 

 

Depois de uma pausa, na volta ao seminário

se deu a oportunidade de unir arte e religião

Otávio fez a faculdade no Seminário de Filosofia de Santa Catarina, em Brusque. Formado, desistiu da carreira religiosa e voltou a São Jorge do Oeste. “Fiquei uns dois anos vivendo apenas da arte. Passei por uma fase de deslumbramento com o impressionismo, até descobrir o surrealismo e a arte contemporânea”, lembra.

Até que um dia... “Fui convencido por dom Orlando Brandes, na época bispo de Joinville, a retomar o seminário, conciliando religião e arte.” Na nova faculdade, agora de teologia, em Florianópolis, acendeu-se enfim a centelha da vocação. A ordenação, no dia 6 de agosto de 2005, foi realizada em cerimônia na Igreja Cristo Ressuscitado, em Joinville. Na primeira paróquia, Araquari, ficou três anos. “Tive, pela primeira vez, o contato com a cultura açoriana, o que me trouxe novos conhecimentos e mais vontade de continuar aprendendo.”

À vontade seguiu-se a ação, e Otávio foi, até 2012, o único padre entre os alunos da faculdade de arquitetura da Sociesc. Para ficar perto, assumiu a Paróquia do Boa Vista e também a Comissão de Arte Sacra da Diocese, responsável pela análise e aprovação de obras de restauro, reforma e construção de igrejas. A coordenação da comissão exige sua presença um dia por semana na Mitra, além de visitas e vistorias em obras. A agenda semanal inclui a administração da paróquia, atendimentos a paroquianos, as reuniões da comissão, pinturas de igrejas e de telas e, claro, oficiar missas.

“Sem a arte, talvez eu fosse um péssimo padre; sem ser padre, talvez não fosse um bom artista. Tudo se complementa”, conclui o padre-artista-arquiteto, agora com a certeza de ter feito as escolhas mais adequadas.

 


Sem se esquecer o passado, Dora, Rainha da Terceira Idade de Araquari, quer mais é curtir a vida

Lá vai a Dora, de tamanquinho. Esta é uma das mais remotas lembranças de Doraci Budal Pereira, sobre o esforço que sua mãe fez para que ela pudesse ir para a escola. Hoje, aos 77, gosta mesmo é de dançar
Fabrício Porto/ND
Dora com sua faixa e com a foto de quando tinha 18 anos, mesma época do primeiro casamento

 

“Era longe pra ir da nossa casa até a escola, a pé. Como eu era filha única, pra não ir descalça minha mãe me comprou um par de tamanquinhos.” A recordação, ainda viva na afiada memória, ilustra parte da infância de Doraci Budal Pereira, a Dora, atual Rainha da Terceira Idade de Araquari. “Aqui me chamam Dôra, mas em Joinville, onde tem mais alemão, diziam Dóra”, esclarece, reforçando a ligação com a vizinha cidade, onde conheceu o marido e adotou a única filha. Aposentada do serviço público municipal há dez anos, aos 77 Dora se diverte passeando, dançando e, de modo especial, conversando, sobre qualquer tema.

“Nasci e me criei no bairro Areias Pequenas, e meu avô, Antonio Miguel Budal, é nome de rua lá. Toda a família trabalhava na roça, mas minha mãe também queria que estudasse. Eu era bem esperta!”, garante Dora, criada só pela mãe após o pai morrer de meningite. A primeira escola, da qual ela só se recorda que ficava no Centro, perto de onde hoje é o quartel dos bombeiros, logo foi trocada pelo tradicional colégio Almirante Boiteux, onde concluiu o primário. Um episódio comprova a aplicação da aluna: “Certa vez perdi uma prova, por ter pego sarampo. Minha mãe falou com o diretor, Chiquinho Neves, que deixou fazer a prova depois. Passei fácil de ano”. Além do compreensivo diretor, não faltam palavras de gratidão para as professoras Célia e Cândida. Os estudos, porém, logo deram lugar a planos mais “prioritários” para uma adolescente: “Com 13, 14 anos, já queria saber de namorar, me achava suficientemente esperta para continuar estudando”. Começou, então, a trabalhar.

 

Do bordado ao serviço público

 

O primeiro trabalho de Dora foi o bordado: “Eu fazia peças bordadas para a dona Léa, esposa do seu Wilson Floriani, diretor do colégio”. Aos 18 anos, casou-se com Jaime Pereira, união que durou apenas cinco anos e que lhe faz aflorar a emoção. “Ele teve uma doença, e na época era difícil encontrar tratamento. Foi internado em Florianópolis e um dia fui lá visitá-lo. Estava com boa aparência, parecia estar se recuperando, voltei mais animada. Alguns dias depois, vieram me avisar que ele faleceu. Era uma ótima pessoa...”

A essa altura, Dora trabalhava como empregada doméstica para famílias de Araquari. Algum tempo depois, empregou-se no Hospital Senhor Bom Jesus. “Fui com as amigas Marli e Adelaide, fomos as primeiras funcionárias. O diretor, Salim Dequêch, era muito bom. Meu trabalho era como servente, mas um dia faltou gente na portaria e me ofereci. Fiquei uns cinco anos lá.”

Foi nessa época que Dora soube de uma mulher que havia deixado um casal de gêmeos para adoção em Joinville. “Não havia tanta dificuldade para adotar bebês e fiquei com a menina.” A filha adotiva, Ivete, lhe deu três netos – criados, basicamente, pela avó.

Após pedir demissão do hospital, Dora ficou dois anos e meio sem trabalhar e voltou a Areias Pequenas para criar a filha. Até aceitar, em 1989, novo convite para trabalhar: “O prefeito Miguel Tito Rosa me garantiu um lugar pra deixar a filha enquanto trabalhava. Aí, aceitei”.

Doraci começou numa escola municipal como zeladora, seguiu para o Centro de Educação Infantil Antenor Sprotte e encerrou a trajetória pública trabalhando no prédio da Prefeitura. “Quando anunciaram na TV que com 60 anos a gente já poderia se aposentar, eu fui e pedi minha aposentadoria.”

Lá se vão dez anos, mesmo tempo de uma nova união. Com o atual companheiro, diverte-se dançando no grupo da terceira idade. “Gosto muito de passear, de dançar, de conversar. Estou sempre por aí. Não posso ficar parada. A gente tem mesmo é que aproveitar, né?”

 

 


Na reta final de uma carreira dedicada ao magistério, Rita pretende pedir o “abono de permanência”

Ela se encontrou atuando na área administrativa das escolas, onde além da paixão pelo trabalho pode extravasar a paixão pela tranquila Araquari
Luciano Moraes/ND
Ritinha, que nasceu no Dia do Trabalhador, não quer nem pensar na aposentadoria que se aproxima

A última curva, antes da reta final da aposentadoria... Quanta gente não anseia por esse momento? Pernas pro ar, sem hora pra sair da cama, curtir netos, amigos... “Ah, não. Mesmo estando quase na hora de me aposentar, pretendo continuar trabalhando enquanto tiver saúde e disposição. Não me sinto aposentada e gosto do que faço, é uma forma de aproveitar a vida.”

Esta disposição é visível em Rita de Cássia Sprott Pereira Oliveira, que já está completando o tempo de serviço necessário para entrar com o processo de aposentadoria, mas garante que vai solicitar o abono de permanência, para prosseguir no dia a dia na área administrativa da Secretaria de Educação de Araquari.

A cidade, por sinal, é outra de suas paixões, ainda que Ritinha, como as colegas a chamam, tenha nascido em Joinville, no dia 1º de maio de 1957 (em pleno Dia do Trabalho, será que tem a ver com sua disposição?). “É que na época – explica – não havia hospital em Araquari, e minha mãe preferiu a segurança da Maternidade Darcy Vargas. Gosto de Joinville, passei boa parte da carreira lá, mas amo minha cidade.”

 

“... pretendo continuar trabalhando

enquanto tiver saúde e disposição.

Não me sinto aposentada e gosto do que faço,

é uma forma de aproveitar a vida.”

 

Criada sempre na região do centro, Rita fez o curso primário no Colégio Almirante Boiteux, mas dos 11 aos 15 anos morou pela única vez fora de Araquari: “Fiz o ginásio em Lages, morando com uma tia. Depois voltei pra cá e escolhi o magistério, concluído em São Francisco”. A opção pelo curso superior acabou recaindo em Pedagogia, nem tanto por vocação, mais pela influência familiar: “Minha mãe, tias e tios eram professores, e acabei me formando em pedagogia pela ACE, no dia 29 de fevereiro de 1980. Desde o ano anterior, eu já dava aulas de educação física no Almirante Boiteux, mas não tinha muito jeito para ensinar”.

Por isso, Rita nem titubeou quando, em 1980, recebeu um convite para trabalhar na secretaria do colégio Monsenhor Scarzello, em Joinville. A rotina era dura, mas compensadora: “Eu precisava pular da cama às 4 e meia da manhã para pegar o ônibus. Mas o trabalho valia o sacrifício, eu adorava a secretaria”.

Em dezembro do mesmo ano, Rita casou-se. Ficou até 1991 no colégio, quando foi surpreendida em meio a uma demissão em massa de comissionados do serviço público estadual. Conseguiu uma vaga no Colégio Abdon Batista, mas ficou somente três anos: “Em 1994 fui aprovada em concurso público da Prefeitura de Araquari, e vim trabalhar como orientadora educacional. Precisei prestar novo concurso em 2000, e assumi a função de supervisora escolar. Durante oito anos viajei muito pela região, pois precisava visitar todas as escolas do município”.

A rotina de viagens terminou em 2008, quando Rita de Cássia foi transferida para uma função de supervisão dentro da Secretaria de Educação, onde permanece. Mãe de uma filha e avó de uma neta, Rita enaltece a tranquilidade que ainda caracteriza sua cidade: “Mesmo que o progresso tenha provocado consequências, como a insegurança, Araquari ainda é um lugar aprazível, gostoso para se viver. Não poder mais deixar a casa aberta é o preço inevitável a se pagar pelo desenvolvimento. Afinal, as indústrias trazem emprego e geração de riqueza”. Para ela, de qualquer forma, a riqueza está no prazer de poder trabalhar no que gosta, curtir a família, os amigos e, claro, sua querida Araquari.

 


Namoro de Zé e Nena, uma paquera que começou na roda-gigante, está completando 55 anos

A chegada às Bodas de Ametista é motivo de alegria para a família multiplicada com a chegada de sete filhos, genros, noras, 20 netos e 11 bisnetos

A ametista, uma variedade roxa ou púrpura do quartzo, é considerada pelos místicos a pedra da sabedoria equilibrada e humilde. Esta virtude, com certeza, vem marcando a vida em comum do casal José de Oliveira e Waltrudes Saramento de Oliveira. Zé e Nena, como são mais conhecidos, comemoram nesta quinta (19) 55 anos de união, com equilíbrio, humildade e o indispensável amor. A história destas bodas de ametista começa numa roda-gigante. Vamos a ela, pois.

 

Fabrício Porto/ND
Eles não têm mais as fotos do tempo de juventude, mas um painel mostra a ampla família

 

“Só eu e Deus”, recorda ele, sobre a mudança para Joinville

Segundo dos cinco filhos de uma família de lavradores, José, ou Zezinho para os pais e irmãos, nasceu – no dia 25 de fevereiro de 1935 – e se criou em Guamiranga, interior do município de Guaramirim. Ele conta: “Nossa família era pobre, sempre trabalhou para os outros, cultivando arroz, cana e outras culturas. Todos os filhos precisavam ajudar e aprendi cedo o valor do trabalho duro. Não tive muito estudo, e o pouco que aprendi foi quando trabalhei na casa de uma professora”. Ele, porém, sonhava um pouco além, e aos 21 anos deixou a casa dos pais, em direção a Joinville. “Foi só eu e Deus”, lembra emocionado, mas com a certeza de ter tomado a decisão certa. Morou em pensão, conseguiu emprego na Tupy, onde ficou nove anos, seguido de outros 19 na Consul. Aposentou-se em 1984 e continuou trabalhando, “fazendo uma coisa aqui, outra ali...”.

 

Rainha do Estrela e das domingueiras

Joinvilense, Waltrudes virou “Nena” ainda criança. Nasceu no dia 23 de junho de 1940 no bairro Vila Nova. É a única ainda viva da prole de sete filhos dos Saramento. Também teve vida dura: “Perdi minha mãe quando tinha sete anos, e fui criada pela família Boehm, lá mesmo na Vila. Com 17, vim morar com uma irmã no Centro, trabalhei numa fábrica de molhos e depois com um irmão. Gostava muito de dançar e cheguei a ser rainha do Estrela da Vila Baumer”.

 

Domingo no parque e um passeio na roda-gigante

Os caminhos de Zé e Nena se cruzaram num certo domingo, lá por 1958. O local: um parque de diversões, montado na esquina da Getúlio Vargas com Plácido Olímpio, onde hoje há um posto de gasolina. Conta Zé: “Fui com um colega de trabalho da Tupy, o Lolo. Pelas tantas, vi duas moças bonitas e uma delas olhou pra mim”. A versão dela: “Fui com uma amiga ao parque. Aí vimos um moreno bonito. Ele olhou pra mim, mas minha amiga garantia que foi pra ela. Até que ele deu uma piscada pra mim, me fez um sinal e fomos na roda-gigante”.

O primeiro encontro se resumiu a isso. “Naquele tempo – salienta Zé – namoro era coisa séria, precisava consentimento dos pais.” Pouco tempo depois, Zé foi convidado para a festa de batizado de um sobrinho do amigo Lolo. No mesmo dia, Nena abandonava a “domingueira” no Estrela. “Tava chato, aí resolvi sair e ir à festa de batizado de um sobrinho”, lembra ela.

O leitor já deve ter adivinhado: Nena e Lolo eram irmãos, e o sobrinho, claro, era o mesmo. Aí não teve jeito, começou o namoro, com o devido consentimento de todos os irmãos da moça. Casaram-se no dia 19 de junho de 1959, na catedral antiga, abençoados pelo monsenhor Sebastião Scarzello. Moraram um tempo no Bom Retiro, depois no Costa e Silva e há 20 anos vivem no Jardim Paraíso. Na próxima quinta, feriado de Corpus Christi, com certeza a casa estará cheia: sete filhos, respectivos genros e noras, 20 netos e 11 bisnetos estarão comemorando as bodas de ametista de uma história iniciada numa roda-gigante.

 

Bilhete para o eterno namorado

No dia da entrevista, 12 de junho, Nena passou ao repórter um bilhetinho endereçado ao Zé: “Foi muito bom te conhecer naquela tarde lá no parque. Aquele olhar está durando 55 anos. Esse amor tão verdadeiro resultou em sete filhos que são a razão do nosso viver. Parabéns, meu eterno namorado.”


Pescador lembra-se dos muitos anos em que ia de canoa trabalhar na Tupy

No melhor estilo de "O Velho e o Mar", metalúrgico aposentado não fica um dia sem ir para a água, navegando bem antes do sol nascer
Fabrício Porto/ND
Sustento que vem do mar. Todos os dias, a rotina se repete: barco na água, que fica na frente da casa, e um peixe sempre fresco

 

 

Até pode o leitor interpretar esse perfil como uma paráfrase à imortal obra “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway. Faz sentido, como garante Aroldo Augusto do Livramento, 72 anos de vida e quase o mesmo tempo nas águas da lagoa do Saguaçu e da baía Babitonga. “Meu pai era pescador e eu, como único filho homem entre cinco moças, desde criança o acompanhava na canoa, em busca do sustento que vinha do mar.”

Hoje, aposentado como metalúrgico, Aroldo mantém a rotina de colocar a canoa na água todos os dias, muito antes de o sol nascer. “Só não saio quando vejo que o tempo não vai colaborar”, acrescenta, com a experiência de ter a certeza, apenas olhando para o céu noturno, se a pescaria vai valer a pena.

Nascido e criado no Espinheiros, Aroldo se recorda de quando o bairro não passava de um núcleo de umas 30 famílias, todas de pescadores, sem ligação por terra com o centro urbano. “Todo o transporte até o centro era pela água, fosse para entregar peixe no mercado ou para qualquer outra coisa. Quando morria alguém, o caixão era levado de canoa, e a funerária esperava no porto do mercado.”

E foi também de canoa que Aroldo e outros vizinhos iam até o trabalho, logo que a Tupy iniciou atividades no Boa Vista. “Eu tinha 15 anos quando o seu Hermann Metz, diretor da Tupy, para quem meu pai consertava redes, me ofereceu emprego. A empresa estava há dois anos se instalando no Boa Vista. Entrei no dia 22 de fevereiro de 1957, e minha matrícula era número 662”, recorda Aroldo, desfiando datas e outros dados sem esforço de memória.

“As canoas – continua – tinham registro e até placa, assim como as bicicletas. Um dia esqueci o registro e a Capitania dos Portos levou a canoa, como hoje se reboca um carro sem documentos. A fundição, moderna para a época, hoje poderíamos considerar primitiva. Trabalhávamos de tamancos, e só lá por meados dos anos 60 começamos a utilizar equipamentos de proteção individual.” Aroldo trabalhou na Tupy até 1966 e retornou em 74, aposentando-se em 1991; nos oito anos de intervalo trabalhou na Prefeitura.

 

De picada à rua

 

A comunidade do Espinheiros crescia, mais gente se empregava na Tupy, e o transporte por mar já não atendia às necessidades dos moradores. Aroldo retoma o fio da história: “Quando o prefeito João Colin morreu, Baltazar Buschle assumiu interinamente, e convocou uma reunião aqui no bairro. Ele disse que não podia prometer abrir uma rua, mas convocou os moradores para um mutirão. Ele disse: ‘Vamos abrir uma picada, depois um caminho, uma estrada e uma rua’. Depois, eleito prefeito, abriu a rua que hoje leva seu nome”. A partir de então, as canoas passaram a ser utilizadas somente para as pescarias.

Em 1965, Aroldo conheceu Neusa numa festa na igreja. Casaram-se em dezembro do mesmo ano e hoje moram com a única filha, Rosa, o genro Walter e a neta Carolaine, no mesmo terreno na rua Antônio Gonçalves, mas numa nova casa, onde Aroldo guarda duas canoas. Para chegar à lagoa, basta atravessar a rua. Cinquenta metros adiante ergue-se o Portal do Mar, parque inaugurado neste sábado.

Quando não está no mar, Aroldo e a mulher frequentam o Clube da Terceira Idade Nossa Senhora dos Navegantes. Além disso, ele foi catequista e hoje é ministro na Paróquia São Francisco de Assis. Na quarta passada, dia desta entrevista, Aroldo e um amigo voltaram da pescaria matutina com uns dez quilos de paratis. “Às vezes, dá pra pegar umas tainhotas e pescadinhas, mas já houve tempo em que matávamos garoupas das grandes”, lembra mostrando a foto de uma das tais, para confirmar a verídica história de pescador.

 


Síndrome de Down nunca foi barreira para Aninha, pós-graduada em educação infantil e nadadora

Pais da joinvilense Ana Carolina Fruit a criaram seguindo um método específico, onde a agitação e o barulho a ajudaram a desenvolver-se dentro da maior normalidade possível
Fabrício Porto/ND
Síndrome nunca foi barreira para Ana Carolina Fruit, pós-graduada em educação infantil e hoje nadadora premiada e colecionadora de medalhas

 

 

“Down” é o sobrenome do médico britânico (John Langdon Down), que descreveu, em 1862, a trissomia do cromossoma 21, síndrome que acabou levando seu nome. Também do inglês, “down” significa “para baixo”; neste caso, o antônimo é “up” ou “para cima”. Estes dois extremos resumem a vida da joinvilense Ana Carolina Fruit. Ela nasceu no dia 12 de outubro de 1981, com a Síndrome de Down.

Mas algo que, em princípio, parecia ser uma condenação, se transformou, graças à superação, em vitória. Aninha é uma profissional bem-sucedida e, de um ano para cá, atleta vitoriosa, colecionadora de medalhas em provas de natação. “Vivo da forma mais normal possível. Estabeleço metas e não temo os desafios”, garante, demonstrando a confiança dos vencedores.

“Soubemos que ela havia nascido com a doença só após o parto, pois naquele tempo os exames de ultrassom não eram tão sofisticados como hoje”, conta a mãe, Gina, ex-professora de educação física. “Desde o início, procuramos todos os recursos possíveis para dar a nossa filha uma vida o mais próxima da normalidade”, reforça o pai, o empresário Waldir Fruit.

A família é grata ao médico Marçallo, de Curitiba, que lhes indicou o caminho certo. Gina explica: “Ele nos deu um conselho primordial: proporcionar um ambiente neurotizante. Ou seja, nada de deixar a Ana numa redoma, com um pacote de pipoca em frente à TV. Pelo contrário, devíamos oferecer um ambiente barulhento, caótico mesmo”.

Funcionou, tanto que Aninha, contrariando qualquer previsão de casos semelhantes, começou a andar cedo. “Com um ano, um mês e 14 dias”, detalha a mãe. Seguiu-se um programa de reabilitação, feito na sucursal curitibana do Instituto Veras, do Rio de Janeiro. O programa, criado nos Estados Unidos na década de 50, utiliza estímulos motores e sensoriais, como contrastes luminosos, sons, calor e frio, buscando a organização cerebral.

Três anos depois de Aninha, o casal teve outra filha, Sally, que se tornou a companheira perfeita para a irmã. As duas estudaram no mesmo colégio em que a mãe dava aulas, o Paul Harris, no bairro São Marcos, onde ainda moram. Apaixonada por crianças, Aninha formou-se em pedagogia pela ACE e pós-graduou-se em educação infantil. Mas não chegou a exercer a profissão. “Não havia problema com as crianças, mas senti muito preconceito por parte dos pais”, lamenta. Mas o mercado de trabalho abriu-se novamente. Há sete anos, Ana Carolina conseguiu uma vaga no RH da Embraco, graças ao programa de inclusão desenvolvido pela empresa, o Talentos da Diversidade.

 

Fabrício Porto/ND
Aninha cercada pelo carinho da irmã Sally, o sobrinho Benício, e os pais, Waldir e Gina

 

Descoberta pelo professor Quitino, ela é atleta multicampeã

 

Ana Carolina já praticava natação como atividade de apoio ao desenvolvimento motor, quando, há um ano, foi descoberta pelo para-atleta e treinador Vanderlei Quintino (perfil publicado no dia 26/5/2014). “No início, até pedimos um tempo, pra ela se adaptar, mas o Quintino queria formar logo uma equipe feminina para os Parajasc”, conta o pai.

“No início deste ano, ela participou de três provas do circuito de travessias, em Imbituba, Cabeçudas e Porto Belo, e eu também nadei ao lado dela”, acrescenta a mãe. Resultado: um primeiro, um segundo e um terceiro lugares, medalhas já devidamente acomodadas ao lado de outras ganhas em piscinas.

Neste ano, nos Parajasc (Jogos Paraolímpicos de Santa Catarina) disputados em Chapecó, Aninha conquistou duas medalhas de ouro, ajudando Joinville a ser campeã na natação feminina.

E tem mais pela frente: “Em novembro, vou disputar uma competição em São Paulo e, em dezembro e janeiro, encaro novamente o circuito de travessias”. E lá vai Aninha, sempre transformando “down” em “up”.


Iloísa, que tem bela até no nome, é a rainha e melhor dançarina da 3ª idade

Aposentada, depois de uma carreira sólida na educação, que começou como zeladora de escola e terminou como diretora, ela se dedica a bailar pelos salões da vida
Fabrício Porto/ND
Iloísa, que tem bela até no sobrenome, mostra as faixas que conquistou: dançar se tornou mais que um hobby, um estilo de vida

 

Durante 35 anos Iloísa Terezinha Rossi Bellani viveu o dia a dia de escolas, desde a zeladoria até a direção. Ao se aposentar, ganhou mais tempo para uma de suas atividades preferidas: dançar. “Sempre gostei de dançar, desde jovem, especialmente os ritmos gaúchos”, conta mostrando o troféu e as medalhas que trouxe de Canoinhas, resultado de sua performance na dança de salão dos 7ºs Jogos Abertos da Melhor Idade de Santa Catarina. Ela ganhou o primeiro lugar na categoria 60 a 69 anos com o parceiro Valdemar Clerice, e ainda o título de melhor dançarina de todo o evento.

Na vida, Iloísa se acostumou a superar desafios. Quarta de uma escadinha de nove irmãos, nasceu em 1948, em Itá, no Oeste catarinense. “Nasci numa cidade que não existe mais”, lamenta, logo que vem à memória a imagem das torres da igreja em que foi batizada, único sinal da antiga Itá, inundada para a construção de uma hidrelétrica.

Criada por uma tia em Joaçaba, Iloísa retornou a Itá com 15 anos. Casou-se aos 19, teve uma filha e veio para o litoral, em busca de oportunidades melhores de trabalho e estudo.

“Eu ainda não havia pensado em profissão, mas como trabalhava de servente numa escola, resolvi estudar para ser professora.” Assim, em 1973 a família se estabelecia em Joinville, onde nasceu mais um filho (falecido em acidente de trânsito há duas décadas). O terceiro, com quem Iloísa mora desde que se separou, nasceu na nova Itá, pois ela queria a mãe por perto.

 

Divulgação/ND
Iloísa e seu partner Valdemar Clerice ao serem anunciados vencedores do concurso realizado em Canoinhas

 

A zeladora que chegou à direção da escola

 

Logo que chegou a Joinville, Iloísa conseguiu emprego no Colégio Jandira D’Ávila, como zeladora, e matriculou-se no Celso Ramos para fazer o magistério. Formou-se em 1975 e, alguns anos mais tarde, fez a faculdade de pedagogia na ACE. Porém, pouco passou por sala de aula: “Fiquei dois anos no Jandira, dois no Santo Antônio e a maior parte da carreira no Léa Maria Aguiar Lepper. Trabalhava mais na secretaria e dava aulas só quando precisava substituir alguma professora”. No Léa Lepper, o auge da carreira chegou em 1991, com a nomeação para a direção, cargo que ocupou até 1998, quando se aposentou, coroando uma trajetória iniciada na zeladoria.

“Quando me aposentei, fiquei um tempo sem fazer nada, mas não suportei. Tinha só 50 anos. Como era frequentadora dos bailes da Sociedade Alvorada, um dia a diretora social Maria das Dores Ferreira me desafiou a montar e coordenar um clube da terceira idade. Hoje, 15 anos depois, já somos em torno de 45 integrantes, com muitas atividades, tanto no Alvorada quanto fora de Joinville”, historia Iloísa. Pouco afeita às redes sociais virtuais, quando não está no clube ela prefere passar o tempo lendo, bordando ou assistindo a filmes na televisão.

“Chegava a dar bolhas nos pés!”, conta Iloísa, lembrando-se dos bailes que costumava frequentar, principalmente no próprio Alvorada. Natural, portanto, que ela e outros bons dançarinos formassem duplas para competir nos Jogos da Melhor Idade. A primeira vitória em nível estadual foi há três anos, em Timbó, com Lourival Amorim; neste ano, em Canoinhas, o parceiro foi Valdemar Clerice, 60 anos. “Na etapa municipal já perdi a conta de quantas vezes ganhei”, diverte-se a dançarina, sem falsa modéstia. Mas admite que ainda pode melhorar: “Sou melhor no vanerão, bolero e valsa, mas não sei sambar direito, preciso aprender”. Sobre o título de melhor bailarina do estado, sente muito orgulho: “Joinville é a cidade da dança e para mim é uma honra ser a melhor bailarina do Estado”. Como se não bastasse, é uma das mais bonitas e simpáticas, qualidades que lhe renderam duas faixas de Rainha da Melhor Idade.


Bailarina Luana Lara quer levar a leveza do balé para a área da engenharia robótica

Ex-aluna da Escola do Teatro Bolshoi de Joinville se prepara para estudar no MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts
Fabrício Porto/ND
Luana está em Joinville se despedindo dos amigos e nos preparativos para começar a trilhar carreira internacional na área de ciências exatas

 

Luana Lopes Lara tem um histórico escolar invejável e é o tipo de pessoa que planeja a vida minuciosamente. Porém, longe de ter sido uma competidora voraz, em busca do primeiro lugar, tem os pés no chão e a cabeça focada em objetivos reais: “Sempre procurei ser, em todas as situações, melhor que eu mesma, superando desafios e aprimorando conhecimentos”. Assim, foi estabelecendo e derrubando desafios: ter bom aproveitamento escolar, ser bailarina e uma profissional gabaritada.

A primeira parte é comprovada com os boletins escolares, do fundamental ao ensino médio. Só nota boa, raramente abaixo de 9. “Na escola até me chamavam de nerd, mas era só na brincadeira. Na verdade, sempre consegui equilibrar a dedicação aos estudos e o lazer, as amizades”, garante a mineirinha, nascida no dia 20 de maio de 1996 em Belo Horizonte, mas criada entre a interiorana Timóteo e o cosmopolita Rio de Janeiro.

Em 2011, Luana e a mãe Cláudia Eliza vieram morar em Joinville, local em que a garota concretizou mais uma de suas metas: ser bailarina. “Desde criança sempre gostei de dançar, e um de meus sonhos era estudar balé clássico.” Os estudos foram iniciados no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Em 2010, Luana veio ao Festival de Dança de Joinville. “Vim para fazer curso e tentar vaga no Bolshoi.” Aprovada na audição, há três anos Luana iniciou em Joinville a dupla jornada, cursando o ensino médio na Sociesc e dança clássica na Escola do Teatro Bolshoi.

 

Arquivo Pessoal/ND
Ela pode optar por uma das quatro melhores universidades dos Estados Unidos, e acabou escolhendo o MIT, para onde se muda depois das férias de verão americana, em agosto

 

Próxima parada: Cambridge, EUA

 

Em março passado, durante um intercâmbio do Bolshoi em Salzburg, na Áustria, Luana começou a cumprir mais uma meta do planejamento pessoal, a formação profissional. “Eu já havia sido aprovada, graças à nota no Enem, para a faculdade de engenharia elétrica da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na Áustria, fui avisada que também fora aprovada para o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT, e para as universidades de Yale e Harvard. De uma vez, as três melhores instituições de ensino superior dos Estados Unidos.”

Como já tinha a intenção de trabalhar com robótica, pela afinidade com os movimentos do balé, Luana acabou optando pelo MIT. “Fiz um curso de mecatrônica, na USP, e decidi seguir esse rumo. Adoro movimento e quero deixar os robôs mais naturais, orgânicos. O balé vai me ajudar nisso. Sempre tive vontade de mudar o mundo, e acho que por meio da engenharia vou poder dar minha colaboração."

Luana passou um período em Cambridge, onde fica o MIT, em abril. Já começou a se ambientar, arranjou vaga num clube de dança da vizinha Harvard e, após as férias de verão do hemisfério Norte, em agosto, inicia mais essa etapa na vida. Na semana passada, veio a Joinville para “passar a régua” nas atividades locais – estava na sétima série do curso de dança clássica –, se despedir dos amigos na Sociesc, no Bolshoi e na cidade.

Nos últimos dois meses, o que não faltou foi entrevista, fotos, gravações... Luana, porém, está focada na nova fase de sua vida, sem deslumbramento. “Minha irmã mais velha, Cristiana, já está no exterior, fazendo Ph.D”, conta, em mais uma comprovação da genialidade presente no DNA familiar – faltou acrescentar: o pai e a mãe são engenheiros.

Dentro de alguns anos, quem sabe, veremos robozinhos executando passos de balé clássico. Com a leveza e a genialidade de uma artista-engenheira brasileira.


Sinuca, um esporte e estilo de vida

Desde 1988, a sinuca é considerada um esporte, mas precisa vencer preconceitos

Eram-se os tempos em que jogar sinuca fazia parte apenas de um happy-hour com os amigos, de um lazer, uma diversão. Os tempos mudaram e, segundo a resolução CND/nº 07/88, ao contrário do que se pensa, a prática da sinuca é regulamentada como esporte. Mas os atletas da categoria ainda enfrentam preconceitos, pelo fato do jogo estar associado aos bares, botecos e outros sentidos pejorativos.

A sinuca oferece tantas possibilidades quanto qualquer outra prática esportiva, pois há quem viva de sinuca e faz dela um estilo de vida. Há tempos, em várias gerações, existem os apaixonados por este esporte. Victor Sarris,  23 anos, de Florianopolis, é um exemplo disso. Aos 10 anos ganhou o primeiro campeonato e hoje coleciona os títulos de bicampeão e atual campeão catarinense de sinuca. Sarris sonha em se dedicar integralmente ao esporte. Enquanto o sonho não se realiza, optou por ter uma carreira paralela na área de gestão comercial. Para ele, sua missão é clara: estimular a prática da sinuca mais como esporte do que como lazer.

O amigo, Leandro Sena, de 29 anos, que vive em Joinville, foi campeão catarinense em 2010 e também começou a carreira cedo, aos 13 anos, e aos 15 participou do primeiro estadual juvenil. Sena já vive para a sinuca. Ele é funcionário do Palácio da Sinuca em Joinville, organiza eventos de sinuca e dá aulas de sinuca também. Mesmo assim, as coisas ainda não estão como ele idealiza. “Eu quero ter mais apoio e patrocínio, para me dedicar ainda mais ao esporte”, joga ele.

Mas há quem tenha começado jogar sinuca ainda mais cedo, que os dois brasileiros, e tenha passado toda uma vida nos jogos de mesa. Walter Gerboni, de 80 anos, é campeão mundial de malabares em snooker e é conhecido em vários países pelas suas apresentações de trick shot (truque de tiro). A paixão pelo jogo de mesa começou aos cinco anos. O mago da sinuca, como é conhecido, esteve em Joinville, durante a Exposuper, para demonstrações de trick shot.

O trick shot é um show artístico de tacadas em uma mesa de bilhar, ou de sinuca, onde as bolas são organizadas de maneira inconvencional, aumentando a dificuldade dos jogadores. No trick shot é possível utilizar adereços como pessoas, triângulos, garrafas e outras coisas.  O argentino é um defensor radical da prática da sinuca como esporte e como arte. “Só quero dizer que a sinuca é um esporte e todos os que praticam são atletas e não vagabundos”, ataca.

 

 

Fabrício Porto/ND
Presidente da Federação Catarinense, João Francisco Aragão tem como objetivo incluir a sinuca nos Jogos Abertos

Faltam algumas vitórias para conquistar

João Francisco Aragão é apaixonado pelos jogos de mesa desde a infância. Hoje, o menino que jogava amadoramente por diversão, tornou-se o atual presidente da Federação Catarinense de Sinuca e Bilhar de Santa Catarina e também empresário do ramo. Aragão decidiu apostar tudo no jogo, em 1994, quando se tornou proprietário do Palácio da Sinuca, em Joinville, e a transformou numa das maiores casas do esporte no sul do país.

Para Aragão, a sinuca é um dos melhores esportes do mundo, pois, segundo ele, exige concentração, equilíbrio psicológico e geometria, tudo isso aliado a muita técnica. Em Santa Catarina existem apenas 64 atletas federados, conta o presidente da federação. “É pouco ainda, se considerarmos que o Paraná tem 800 atletas associados”, aponta.

A partida para João Francisco Aragão, grande incentivador da sinuca em Santa Catarina, ainda não está ganha. Há muitas vitórias ainda para conquistar. “Nós temos dois objetivos; o primeiro é valorização profissional da sinuca como esporte; o segundo; é levar a sinuca  como esporte para os Jogos Abertos de Santa Catarina”, finaliza.

 

 


Ex-corretora, Adenid se empolga mesmo com criação de peças artesanais para a família e para venda

A artesã acredita que suas mãos são mesmo destinadas a criar arte

No final do ano passado, correndo sobre a grama molhada em casa, Ade escorregou. Para amortecer a queda, instintivamente apoiou-se sobre a mão. Resultado: uma bela fratura, que exigiu um longo tratamento. Ela ainda usa uma bandagem envolvendo o braço esquerdo, do pulso até perto do cotovelo. Ainda bem que foi o esquerdo, né? Não atrapalha tanto no trabalho. “Mas eu sou canhota. Por isso mesmo, no tombo, apoiei-me no braço mais forte. Só que não atrapalha, continuo bordando normalmente”, garante Adenid Schult, fato constatado nos porta-fraldas, panos de prato, roupinhas e outras peças lindamente bordadas, espalhadas pela sala de sua casa, na estrada do Pico, em Pirabeiraba. Artesã prendada desde criança, Adenid trabalhou muito tempo como corretora de imóveis e, nos últimos anos, vem fazendo de sua habilidade manual o ganha-pão, com uma loja virtual.

Fotos Fabrício Porto/ND
Ade na casa construída há mais de 50 anos pelo sogro: as peças de artesanato são uma companhia constante

 

“Meu nome foi uma cisma da minha bisavó, portuguesa, que tinha uma amiga francesa chamada Adenid. Minha avó ganhou esse nome, e repassou-o a mim”, explica Ade, como é mais conhecida. “Quando eu era criança, chegávamos a pegar piavas na vala que descia pela rua Visconde de Mauá, onde nasci e me criei”, lembra, evocando uma ainda pacata Joinville, em meados do século passado.

“Meus pais – conta – começaram a namorar no dia do Centenário de Joinville, 9 de março de 1951. Eu nasci dois anos depois, também no dia 9 de março.” Nas férias escolares, o programa de Ade era visitar os avós em Laguna. “Assim que terminavam as aulas, eu já viajava. Tenho boas lembranças de Laguna, terra do meu pai. Tínhamos até bloco de carnaval lá. Com minha avó e uma tia aprendi muito de culinária. Mamãe, uma excelente costureira, me ensinou bordado, costura, crochê, tricô...”.

 

Corretagem e artesanato

 

Ade tinha um sonho profissional que não conseguiu realizar. “Queria ser arqueóloga. Mas como só havia faculdade em Porto Alegre e São Paulo, meu pai não consentiu. Concluí os estudos regulares nos colégios Santos Anjos e Bom Jesus, mas não me senti atraída pelos cursos superiores disponíveis na época, na cidade. Fui trabalhar como corretora de imóveis, nas imobiliárias Rudnick e Macro.”

Vaso de porcelana, uma das relíquias pintadas pela artesã no tempo em que Joinville tinha um seleto grupo de artistas dedicadas ao ofício

 

O trabalho de corretagem era conciliado com o artesanato e Ade chegou a ter barraca na antiga Feira de Arte e Artesanato da rua do Príncipe. “Num sábado de feira dava pra faturar bem com meu trabalho. Além do bordado, também pintava em porcelana”, acrescenta, mostrando um vaso finamente pintado, do tempo em que fazia parte do seleto grupo de artistas em porcelana de Joinville – ainda que não tenha integrado o Barro em Expressão.

Do primeiro casamento, com Celso Kupsch, Ade tem três filhos e três netos. Divorciada, casou-se depois com o viúvo Gert Bozler (falecido há oito anos). “Quando me casei com o Gert, deixei a imobiliária e fui trabalhar na Malharia Bozler. Mais tarde, quando a terceira geração assumiu a fábrica, mantive uma loja da marca, na rua Jaguaruna, até que a empresa fechou”, relata Ade, que até um ano atrás cuidava da sogra (dona Irene, hoje com 101 anos, foi Perfil do ND em abril).

Morando há 20 anos na estrada do Pico, na casa que seu sogro construiu em 1958, Ade expõe e vende as peças de aviamento, artesanato e decoração na loja virtual Garten mit Biene (jardim das abelhas), em sociedade com a filha Michelle Sabine. Além disso, colabora com o Hospital e o Ancionato Bethesda, confeccionando peças para bazares e eventos.

Em casa, as netas não ficam sem casaquinhos de tricô, e nas datas comemorativas sempre há trabalhos artesanais, como ovos pintados na Páscoa, enfeites de Natal, bonecas caipiras... As mãos de Adenid (mesmo com uma enfaixada) têm vocação para a arte.

 

Serviço

Contato com Adenid: 8802-9754 e 3027-6819

Loja Garten mit Biene by Adenid Mi Kupsch

www.airu.com.br/loja/gartenmitbiene

e-mail michellesabine@terra.com.br


O charme dos sebos conquistou os Berri

Sérgio, que se dedica a este tipo de comércio em Joinville há 12 anos, dispõe de um estoque de 40 mil itens, cheio de verdadeiras relíquias

Fausto e Guida Berri sempre desfrutaram de grande popularidade em Taió e Mirim Doce, cidades do Alto Vale do Itajaí onde por décadas foram comerciantes. Em Taió, mantiveram uma daquelas tradicionais vendas do interior, no lugar em que hoje está situada a barragem Oeste de contenção de enchentes do Vale do Itajaí. Em Mirim Doce, foram donos de um supermercado no centro. Atualmente aposentados, Fausto e Guida moram em Itapema, onde ostentam uma pontinha de orgulho por terem passado a cinco dos seis filhos o gosto pelo ramo comercial.

 

Fabrício Porto/ND
Berri possui um acervo com mais de 40 mil itens, entre livros, revistas, discos e CDs

 

Curiosamente, nenhum integrante do quinteto é dono de uma venda ou de um supermercado. Todos se dedicam ao charmoso mercado do sebo, que transforma livros, discos e documentos descartados por uns objetos de desejo de outros. A rede da ramada dos Berri “sebeiros” está presente em cinco cidades: Joinville, Florianópolis, São José, Tubarão e Itapema.

Em Joinville, o representante da família Berri é Sérgio, 49 anos, dono de um sortido sebo na rua Princesa Isabel, pertinho da esquina com a rua Dona Francisca, que abriu há 12 anos.

De gestos largos e sorriso franco, como convém aos autênticos descendentes de italianos,  Berri relata que ele os irmãos foram criados atrás do balcão pelos pais. “Dos seis, só um escapou do balaio comercial”, assinala, entre sonoras gargalhadas.

De bem com a vida, enfatiza que tanto ele como os irmãos não têm do que se queixar. “O segmento de sebo é bom por fisgar numerosa freguesia atraída pelo preço camarada que impera nesse tipo de comércio”, destaca bem-humorado.

Com um estoque superior a 40mil itens, entre livros, revistas, discos, CDs e por aí afora, Berri informa que o maior movimento em sua loja concentra-se no nicho da literatura. “Aqui, vendemos desde publicações despretensiosas até verdadeiras relíquias da literatura nacional e estrangeira por pechinchas irresistíveis, garantindo bom movimento o ano inteiro.”

A família Berri entrou para este ramo por influência e apoio de Nilton da Silva, dono de uma das maiores lojas do gênero de Santa Catarina, que fica em Blumenau. “Ele nos ensinou os macetes da área e nos ajudou a abrir nossos estabelecimentos. Gratos, tratamos de montar nossos negócios longe de Blumenau para não fazer concorrência ao ‘padrinho’”, salienta.

 

Um pensamento a cada três dias

 

Uma peculiaridade que chama atenção no sebo de Berri da rua Princesa Isabel é um quadro-negro na entrada do estabelecimento. Nele, a cada três dias o comerciante escreve um pensamento, que pode ser de autoria de autor famoso ou anônimo. No dia da entrevista, a reportagem deparou-se com a seguinte mensagem de autor anônimo: “Quem quer vencer um obstáculo deve armar-se da força do leão e da prudência da serpente”.

Fabrício Porto/ND
Pensamento do dia: pessoas agradecem ao comerciante pelas frases diárias em frente ao Sebo

 

Berri diz que os pensamentos costumam fazer muito sucesso. “Já perdi a conta de quantas pessoas entraram na loja para me agradecer por terem tirado da mensagem do quadro-negro força para superar uma crise momentânea.”


Eulália Dziedzic se dedica ao estudo da memória da colonização polonesa na região Norte

A dinâmica ex-professora é conhecida como "a voz de Bateias". Graças a ela, existe o Museu Sto Lat, em Campo Alegre

Faltou pouco para a professora Eulália completar meio século de carreira. “Quando fiz 70 anos, fui aposentada compulsoriamente, mas por mim teria continuado, pois adorava dar aulas”, diz, com a emoção de quem fez das escolas sua segunda casa. A primeira, construída após o casamento, é onde ela ainda mora, no distrito de Bateias de Baixo, em Campo Alegre. Ali, pertinho de casa, além do colégio em que deu aulas, está outro de seus tesouros: o Museu Sto Lat (Cem Anos, em polonês), montado para preservar a cultura e os costumes poloneses e inaugurado para comemorar o centenário de Bateias.

Rogério Souza Jr./ND
Aposentada aos quase 50 anos de magistério, Eulália vive no aconchego de seu lar também rodeada por lembranças. Sua atuação comunitária ainda é forte na região

 

“Meu pai era da família Pazda e mamãe, Muzeol (pronuncia-se ‘mújol’). Eles vieram ainda crianças para cá, quando meus avós decidiram trocar Rio Vermelho, no interior de São Bento, por terras mais planas, adequadas à agricultura”, conta Eulália, que nasceu em 22 de julho de 1930.

Sexto degrau de uma escadinha de 12 filhos, criou-se na então pequena vila, dividindo o tempo entre a escola, a lavoura e os cuidados com os irmãos mais novos. “Todos tinham que ajudar nos afazeres, mas meus pais eram muito zelosos na divisão do tempo entre os estudos, a doutrina católica e as brincadeiras. A primeira escola de Bateias, por sinal, ficava na casa da minha avó. Meu avô doou terras para fazer igreja, escola e cemitério. Quando eles vieram para cá, meu pai tinha quatro anos, não havia estradas, só picadas abertas pelos antigos garimpeiros”, conta, demonstrando profundo conhecimento da história do distrito.

“O nome se deve à gamela de madeira que era usada no garimpo. Originalmente era ‘batéia’, mas os poloneses e alemães não conseguiam pronunciar e virou bateia, com o ‘e’ fechado. Há muitas histórias de fortunas em ouro garimpadas por aqui e levadas serra abaixo, mas com pouca comprovação histórica.” Teria existido até mesmo uma fundição clandestina na localidade, para derreter e moldar o ouro.

Os poucos anos de Eulália fora de Bateias foram em São Bento, onde concluiu o ensino fundamental, e Porto União, num internato onde fez o ensino médio e o normal, formando-se professora aos 21 anos. “Saí do curso sabendo falar latim, inglês e francês. Comecei a carreira no Grupo Escolar Lebon Régis, em Campo Alegre, até assumir na Escola Reunida Professor Argemiro Gonçalves, aqui em Bateias. Também dei aulas no antigo seminário do distrito, de 1991 a 2000, quando fui obrigada a me aposentar ao fazer 70 anos.”

 

O sonho do museu que virou realidade

 

Eulália casou-se em 1958 com Davi Dziedzc. Quatro anos depois ergueram a casa onde ainda moram. “A grafia correta é Dziedzic (pronuncia-se ‘djiêdjich’), mas houve um erro no registro, e o cartorário cortou uma letra.

Alfabetizada em português e polonês, Eulália procura preservar as tradições dos antepassados. Fala polonês fluentemente e mantém, na parede da sala, o brasão com a águia, símbolo da Polônia, além da indispensável fotografia do agora santo papa João Paulo 2º, o polonês Karol Wojtyla. Tal apego às origens resultou na realização de um sonho, em 1995, com a inauguração do Museu Sto Lat, dedicado a preservar peças históricas, especialmente da colonização polonesa em Bateias. Além de relíquias locais, o acervo contabiliza um baú revestido em couro, trazido pela família Kmiecick da Polônia, e o primeiro televisor do distrito, comprado em 1970 por um comerciante, para assistir aos jogos da Copa.

Recuperando-se de uma virose que lhe afetou os músculos faciais, dona Eulália não se recolheu à aposentadoria: dedica-se a trabalhos comunitários da paróquia local e é secretária da Braspol. No livro onde registra atas das reuniões, a letra bem desenhada e bonita revela o passado de alfabetizadora; nos relatórios, por sua vez, exprime o amor pela pátria dos ancestrais. “Os poloneses sofreram muito ao longo da história, mas são um exemplo de patriotismo e bravura”, conclui, transbordando de orgulho.

 

Curiosidade.

A família Pazda, do lado paterno de Eulália, veio de Rio Vermelho com três filhos; em Bateias nasceram nove filhas. Já os Muzeol chegaram com três meninas, às quais se somaram nove meninos. Eulália também é de uma prole de 12, sendo seis mulheres e seis homens.


Maestro e professor, José Sluminski continua compartilhando conhecimentos e formando músicos

São mais de 50 anos de trabalho e muitas realizações, com a composição de hinos de vários municípios das regiões Norte e Nordeste catarinense

Onde quer que esteja, José Sluminski usa o inseparável chapéu, acompanhado de suas partituras, pedestal e o acordeon. Mas, acima de tudo, junto com ele, sempre está o sentimento que o acompanha desde que ganhou a primeira gaitinha de boca do pai: o amor pela música e a disposição de continuar ensinando. “Não vejo nem de longe a reta final da aposentadoria. Enquanto tiver saúde e gente com vontade de aprender, sigo ensinando”, garante Sluminski, do alto de sua experiência de mais de 50 anos como professor. Entre as muitas realizações, orgulha-se de ter composto os hinos de Campo Alegre, Corupá (é cidadão honorário dos dois municípios), Guaramirim, Itaiópolis e Itapoá.

Rogério Souza Jr./ND
Da gaitinha de boca ao acordeon, Sluminski tem a vida inteira pautada pelos acordes musicais

 

A herança musical já corria nas veias de José Sluminski, neto e filho de músicos, nascido em 29 de agosto de 1942, em São Bento do Sul. “Eu devia ter uns cinco anos quando meu pai me deu uma gaitinha de boca da marca Sonhadora. Aprendi a tocar sozinho, e a partir de então nunca me afastei da música”, conta. Logo se matriculou na Escola de Música da Sociedade Ginástica de São Bento, onde teve aulas com os professores Alberto Brodbeck (“Com ele, eu podia esticar o aprendizado de acordeon, pois éramos vizinhos”), Elsa Chicorro, Adelaide Ritzmann e Lacir Brodbeck.

 

“Não vejo nem de longe

a reta final da aposentadoria.

Enquanto tiver saúde e gente

com vontade de aprender, sigo ensinando”

 

Aos 18 anos, o serviço militar não significou interrupção na carreira: “Servi no Batalhão da Guarda Presidencial, quando Brasília ainda cheirava a tinta. Lá, fui regente de uma banda de clarins”.

De volta a São Bento, foi aluno e depois professor da renomada Escola de Música Donaldo Ritzmann, onde completou 50 anos de trabalho. Casado com Iracema Alves, tem quatro filhos e uma neta de dez anos. O filho José Augusto seguiu os passos do pai, formou-se pela Faculdade de Música do Rio Grande do Sul e também é professor.

 

Cultivador da cultura polonesa

 

Descendente de poloneses, Sluminski sempre se integrou à preservação dos costumes dos ancestrais, sendo um dos fundadores da Sociedade Varsóvia de São Bento e da Orquestra de Câmara Polska, hoje denominada Polska Orquiestra Brasili. Já viajou à Polônia, entre muitos outros países, entre eles o Chile, de onde traz um orgulho: “Recebi a chave da cidade de Melipilla em 2003, pela colaboração à cultura local”.

Além da Escola de Música Donaldo Ritzmann, o maestro ensinou na Sociedade Cultura Artística e no Sesi em Jaraguá, na Escola Municipal de Música e no Colégio Cenecista São José de Rio Neginho e foi regente de diversas orquestras, bandas e fanfarras. “Fui bicampeão brasileiro com a fanfarra do Colégio São José em 1990 e 91”, contabiliza. Como compositor, além dos já citados hinos municipais, é autor de vários outros, em homenagem a cidades e entidades. Fundou as escolas de música José Ernesto Froehner, de Campo Alegre, e Jazz Band Elite, em Corupá.

Atualmente, Sluminski divide a agenda semanal entre Campo Alegre (na sede e no distrito de Bateias de Baixo), Piên (no Paraná) e Fragosos (distrito de São Bento). No dia da entrevista, estava no salão da igreja de Bateias, onde o aguardavam as crianças que compõem a fanfarra local. Cioso de sua origem polonesa, em seguida levou a reportagem até a casa de Eulália Dziedzic, fundadora da Sociedade Braspol (Brasil-Polônia) de Campo Alegre (o perfil de dona Eulália saiu na edição do fim de semana). “I domu, dzień dobry!” (“Ô de casa, bom-dia”), anunciava-se à porta dos fundos, na melhor tradição polaca.

Da primeira gaitinha de boca aos milhares de alunos que ensinou, José Sluminski vem pautando a vida no amor à música.

 


De atleta a treinador, a vida de desafios vencidos de Vanderlei Quintino

Perfeitamente adaptado à realidade depois de perder uma perna em um acidente, ele se transformou em atleta, professor e técnico de natação e agora convive com um problema de visão, sem deixar que ele atrapalhe sua jornada
FABRÍCIO PORTO/ND
Quintino trocou o futebol pela natação ao perder a perna esquerda e acabou virando atleta paraolímpico, carreira que encerra para dedicar-se a de técnico

 

 

Na adolescência, estudante do Colégio Elias Moreira, Vanderlei Pedro Quintino jogava bola no campo do São Luís. Hoje, onde havia um campo se ergue o complexo aquático do mesmo colégio, e Vanderlei está ali novamente, agora como professor de natação. Entre as duas fases da vida, muita coisa aconteceu: ele trocou o futebol pela natação, perdeu a perna esquerda num acidente, virou atleta paraolímpico, enfrentou uma deficiência visual e encarou muitos desafios.

“Hoje, estou encerrando a carreira de atleta e iniciando a de técnico, sempre com o mesmo pensamento de chegar ao limite, apesar das deficiências”, diz Quintino, atualmente coordenador da equipe Nadoville/Krona Paralímpica, com apoio da Felej (Fundação de Esportes, Lazer e Eventos de Joinville) e AABB, onde treina os nadadores.

Quintino nasceu no dia 5 de julho de 1973, em Joinville. Criou-se no bairro Floresta e fez a carreira escolar nos colégios Elias Moreira, Virgínia Soares e Plácido Xavier Vieira, até formar-se técnico mecânico pelo Centro Interescolar de Segundo Grau do Itaum.

Trabalhava numa ferramentaria quando, no dia 30 de abril de 1994, sofreu o acidente de moto em que perdeu a perna esquerda. E aí sua vida deu uma guinada, como contou quando saiu seu primeiro perfil, há quatro anos. No dia seguinte, na cama do hospital, arrasado, assistiu à corrida em que morreu Ayrton Senna, e ali mesmo tomou algumas decisões: “Foi após a amputação que, ironicamente, minha vida mudou para melhor. (...) Resolvi voltar a estudar, buscar qualificação profissional, inserção no mercado de trabalho”.

Dedicou-se à carreira de atleta paraolímpico, conquistou muitas vitórias em competições locais, estaduais e nacionais e por pouco não disputou Jogos Paraolímpicos: “A concorrência era grande, pois mesmo os nadadores com alguma deficiência eram grandalhões. Eu compensava a pouca altura com a boa envergadura dos braços”.

Seguindo a vida, Quintino casou-se, teve dois filhos, formou-se em educação física e começou a ensinar e incentivar novos talentos, crianças e adultos, pessoas com algum tipo de deficiência, a praticar natação.

 

Mudança de categoria

 

Mas havia um novo desafio pela frente. Oito anos depois do acidente em que perdeu a perna, o atleta deparou-se com o diagnóstico de retinose pigmentar, doença ocular que pode levar à perda da visão. “As coisas acontecem, não adianta ficar chorando”, diz ele, que novamente foi à luta em busca de informação e tratamento. Mudou de categoria, de S9 (amputados) para S13 (deficiência visual), e precisou se esforçar mais: “Passei a enfrentar adversários com todos os membros, e eu com uma perna a menos. No início era difícil, pois sem visão periférica eu tinha dificuldade até para nadar em linha reta”. Para atenuar as dificuldades, Quintino usa óculos de natação mais claros, cor de rosa ou alaranjados.

Desde 2009, dedica-se mais ao trabalho como técnico de nadadores paraolímpicos. A agenda é carregada: “De manhã dou treino para os nadadores na AABB, à tarde, trabalho no Banco Santander (agência América), e à noite dou aula de natação no Colégio Elias Moreira, tanto para os paralímpicos como para os alunos em geral”.

Segredo? Nenhum. “Procuro cultivar a resiliência. Somos diferentes, mas somos capazes de mudar o mundo e torná-lo cada vez melhor.”

 

Conquistas

 

Quintino foi campeão brasileiro de natação paralímpica. Participou de seletivas para as Paraolimpíadas de Atlanta, Sidnei, Atenas e Pequim. Foi bicampeão do Mercosul de Maratona Aquática. Único atleta da modalidade a conquistar ouro em todas as edições dos Parajasc.

Como técnico, foi campeão dos Parajasc de 2009 a 2013; teve a equipe com maior número de atletas do  Sul do Brasil com índice para disputar o Circuito Loterias Caixa Brasil Paralímpico.

Nestes dias 29 e 30, Quintino estará mais uma vez representando Joinville, como atleta e técnico, nos Parajasc (Jogos Abertos Paradesportivos de Santa Catarina), em Chapecó.


Desde criança, Mauro Benevides anima ambientes, especialmente a cozinha

Também conhecido como "Tio Maurinho", ele pode ser em uma hora o Shrek, em outra um palhaço, ou o Sonaldinho, o Fritz...e até o Papai Noel
Fabrício Porto/ND
Benevides formou-se recentemente como tecnólogo em gastronomia, o que veio reforçar e aprimorar o talento que ele já tinha desde que descobriu os segredos da culinária com a mãe
 

 

 

Ele pode chegar como pirata, Shrek, “Sonaldinho”, Fritz... Diverte as crianças, anima a festa... E depois ainda pode servir uma feijoada, paella, entrevero, churrasco... Ah, e em dezembro, enche o saco... De presentes, encarnando o Papai Noel.

Essa figura polivalente é Mauro Pereira Benevides, personal chef, conhecedor de segredos culinários. E pode ser o “Tio Maurinho”, encarnando personagens que divertem a criançada. “Lá em casa, meu irmão mais velho era o rei, a irmã, a rainha, meu gêmeo alguns minutos mais velho o duque e eu o bobo da corte”, brinca, confirmando a sua principal característica, o bom humor contagiante.

O sotaque logo entrega a origem deste curitibano, nascido em julho de 1969. “Nasci nas Mercês, mas com sete anos a família mudou-se para Piraquara, na região metropolitana de Curitiba, e ali me criei. Perdi meu pai quando tinha oito anos e na distribuição de deveres fui ajudar minha mãe na cozinha. Comecei enxugando louça e fui aprendendo os segredos da culinária”, conta, revelando a vocação precoce.

 

 

Divulgação/ND
Na Casa Krüger, um dos principais pontos turísticos de Joinville, ele recebe visitantes com sua porção Fritz

 

 

E os relatos sempre são intercalados com humor: “Eu e meu irmão gêmeo, Maurício, éramos tão parecidos quanto Arnold Schwarzenegger e Danny DeVitto no filme ‘Irmãos Gêmeos’, um grandão e o outro nanico”.

Filho de Penha, ex-jogador do Atlético, Maurinho tem até hoje o hábito de usar camisas listadas na horizontal. Zagueiro apenas esforçado, chegou a defender times amadores de Piraquara e Pinhais, mas, sentindo que o futuro profissional passava longe dos campos, aos 14 anos foi trabalhar num escritório de contabilidade. Formou-se técnico contábil e guarda uma boa lembrança: “Fui o mais novo contabilista registrado no Conselho Regional paranaense, com 19 anos”.

 

Tio Maurinho em ação

 

Ter sido coroinha foi, para Benevides, um fator que ajudou a perder a inibição. Ainda auxiliava os padres quando, aos 15 anos, numa emergência precisou se fantasiar de Papai Noel. Nunca mais parou. Depois de trabalhar no setor de recursos humanos de uma indústria e na área de projetos sociais da Prefeitura de Pinhais, abriu a Cia. da Alegria, empresa de recreação e animação. “Minha mulher, Marilúcia, era sócia, e em 1999 fomos para o mercado. Dois anos depois nos mudávamos para Joinville, pois ela precisava cuidar da avó e vimos a possibilidade de conquistar novos espaços”, relata, a essa altura já famoso como o “Tio Maurinho”.

A família estabeleceu-se no Aventureiro e, com a nova razão social Benevides & Mueller (sobrenome da família da mulher), começou a vencer novos desafios, animando festas, preparando quitutes e, todo final de ano, trazendo o Papai Noel do polo norte. “Aos 40 anos – continua –, decidi dar uma guinada na vida, fazendo o vestibular para a faculdade de gastronomia da Univille.” Em 2013, o diploma de tecnólogo somou-se aos diversos certificados de cursos feitos desde que aprendeu a temperar churrasco em festa de igreja, aos 15 anos, em Piraquara.

 

 

Divulgação/ND
O personagem Sonaldinho também faz sucesso nas festas infantis

 

 

Hoje, concilia a atividade de animador de festas com a de personal chef e ainda dá aulas eventualmente, como professor convidado, no mesmo curso em que se formou. Na mesma Univille faz pós-graduação em gestão empresarial e não recusa convites para dar palestras, voluntariamente, em associações comunitárias, dando dicas de aproveitamento total de alimentos.Além da esposa Marilúcia, já conta com a assessoria das filhas Milena, 20 anos, e Maitê, 13.

Eclético, vai da cozinha caseira aos mais sofisticados pratos internacionais. “Faço desde um jantar íntimo à luz de velas até um churrasco para 1.000 pessoas”, garante, já convidando a comunidade para a feijoada do Colégio da Univille, dia 31 (reservas pelo telefone 3461-9048), a seu encargo.

 

Serviço:

Contatos com Mauro Benevides, o Tio Maurinho

www.chefmaurobenevides.com.br

falecom@chefmaurobenevides.com.br

47/3467-5128 / 9974-0626

Facebook Mauro Benevides

Instagram /chefmaurobenevides


Ademar Stuewe coordena a única unidade de bombeiros de Joinville formada só por voluntários

Ele diz que não pretendo parar enquanto tiver saúde, mas vê o ofício como uma missão que muito o orgulha e completa sua vida
Fabrício Porto/ND
Com mais de meio século de atuação como "soldado do fogo" , Ademar chefia equipe de 87 bombeiros na unidade do bairro Aventureiro

 

 

Ademar Stuewe trabalhou durante três décadas na Tupy, continuou como uma espécie de consultor de empresas após a aposentadoria, mas hoje se dedica apenas à carreira que escolheu logo que chegou a Joinville, há 52 anos: bombeiro voluntário. Coordenador da unidade do Aventureiro, Stuewe se realiza como “soldado do fogo” e defende bravamente o voluntariado.

“Quando comecei, nem sabia o que era um bombeiro, mas fiz uma carreira na corporação, participei de meio século de história e não pretendo parar enquanto tiver saúde e disposição.”

Jaraguá do Sul viu Stuewe nascer, em 1940, mas a infância e a adolescência foram passadas em Blumenau. “Perdi minha mãe com quatro anos. Como meus pais eram separados, fui criado por meu padrinho, Eugênio, em Blumenau. Quando terminei o ginásio fiquei um tempo por lá até, em 1962, ser aprovado na Escola Técnica Tupy.” Começou, então, a dupla jornada para Stuewe, entre o curso de técnico mecânico no tradicional colégio e o trabalho na fundição da empresa, onde chegou a mestre da engenharia de ferramentais. Ele nem precisou comprar bicicleta, pois morava nos alojamentos que a ETT mantinha na época, para estudantes de fora.

 

Convite para uma nova jornada

 

Foi um colega de alojamento quem convidou Ademar a iniciar uma nova carreira, como bombeiro. “Foi alguns meses depois que cheguei, e logo me identifiquei com o serviço de combate ao fogo”, conta Stuewe, que passava a triplicar a jornada, entre ETT, fábrica e os plantões como bombeiro. “O quartel já era novo, e de lá até hoje só ganhou as garagens. Quando havia algum incêndio dava pra ouvir a sirene de qualquer lugar, tanto pelo tamanho menor de Joinville, sem prédios, quanto pelo fato de haver três sirenes espalhadas pela cidade.”

Formado técnico mecânico, Stuewe trocou o quarto dos estudantes por alojamentos no próprio quartel do Corpo de Bombeiros. Lá morou seis anos, até se casar com Jeanete Fulle, em 1972, e construir sua casa. Eram tempos românticos, de uma Joinville menor: “Tinha o namoro na praça, os bailes, o cinema...”.

Hoje morando na rua Senador Felipe Schmidt, a uma quadra do quartel da corporação, Stuewe não deixa herdeiros com o uniforme dos bombeiros: as duas filhas, ainda solteiras, moram no exterior, trabalhando em multinacionais.

Há 11 anos, o então presidente da Sociedade Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville, Oswaldo Silva Filho, chamou Ademar Stuewe. “O Nei – lembra o bombeiro, citando o conhecido empresário – me sugeriu criarmos uma unidade no Aventureiro, formada exclusivamente por voluntários, sem bombeiros efetivos.” Assim, em 2003 era ativada a Unidade 10, na rua Theonesto Westrupp, numa sala anexa à antiga garagem da Prefeitura.

Há dois anos, a unidade ganhou um novo quartel, na chamada “Praça de Esportes e Cultura” do Aventureiro, situada entre as ruas Santa Luzia, Theonesto Westrupp, Jequié e Guilherme Klein. “A Prefeitura cedeu o espaço e a SCBVJ custeou a obra”, explica Ademar Stuewe, que ali chefia uma equipe de 87 bombeiros (homens e mulheres, todos voluntários, única unidade com essa característica).

A unidade atende Aventureiro, Jardim Iririú, Vila Cubatão e localidades vizinhas. Há também, logo na entrada, um alojamento “duplex” onde moram os mascotes da unidade, o casal de vira-latas Rodrigo “Trombadinha” e Susi, adotados pela corporação. A tentativa de fotografá-los junto com o coordenador durou até alguém, inadvertidamente, pronunciar a palavra “médico”; Trombadinha deu no pinote e Susi amoitou-se em sua “suíte”, abortando a operação fotografia.


Mesmo querendo ser advogado, Feijó passou a vida como contabilista

Desde 1949 em Santa Catarina, o gaúcho que adotou Joinville para viver mantém como um dos passatempos preferidos fazer passeios de ônibus pela cidade
Fotos Gisela Müller/ND
Narcizo Schaeffer Feijó no aconchego de seu lar e com suas melhores memórias: álbum do segundo casamento, há mais de 30 anos

 

 

Desde a juventude, ainda no serviço militar, Feijó trabalhava em serviços administrativos, preferencialmente a contabilidade. Um dia, um profissional provocou: “Você é bom, faz tudo de cabeça, mas não pode assinar a contabilidade de uma empresa”. Feijó não se deu por vencido, matriculou-se no curso técnico contábil do Colégio Bom Jesus, formou-se e passou a assinar como contador.

Hoje aposentado, aos 89 anos, gosta de relembrar os velhos tempos e passear por Joinville, cidade que adotou há mais de cinco décadas. Depois de ter o terceiro carro furtado, desistiu de comprar outro: “Prefiro ser sócio da Transtusa”, brinca, referindo-se ao fato de pegar o ônibus em frente ao condomínio em que mora, no bairro Costa e Silva, e ainda nem precisar pagar pelos deslocamentos pela cidade por conta da idade.

Narcizo Schaeffer Feijó nasceu em Passo Fundo, no planalto norte gaúcho, no dia 8 de abril de 1925. Mais velho de três irmãos, aos quatro anos já morava em Bagé, depois Alegrete e novamente Passo Fundo, sempre por conta das transferências do pai, ferroviário. Na vida escolar, foi colega, no Colégio Protásio Alves, de Maurício Sirotsky Sobrinho, fundador da RBS.

Iniciou a vida profissional como revisor, nos jornais passo-fundenses “O Nacional”  e “Diário da Manhã”. Trabalhava no setor administrativo da Prefeitura quando, aos 21 anos, foi prestar serviço militar em Santo Ângelo. “Acabei ficando três anos, sempre no administrativo. Com nove meses de batalhão já fui promovido a sargento. Só saí do Exército quando um amigo me convidou para trabalhar na Prefeitura de Concórdia.”

 

 

Com Hélia, um amor maduro que já atravessou as três décadas

 

 

Desde 1949 em Santa Catarina

 

Corria o ano de 1949 quando Narcizo Feijó cruzou a divisa, estabelecendo-se em Santa Catarina. Até 1958, trabalhou nos escritórios da Prefeitura de Concórdia. “Pude acompanhar grande parte do progresso da Sadia, sob o comando de Atílio Fontana, um grande empreendedor e prefeito na época”, atesta. Também trabalhou na Rádio Rural de Concórdia. “Fazia um pouco de tudo: apresentava programas musicais, noticiários, fazia técnica... O que fosse preciso.”

Em 1959, atendendo a convite do amigo Osmar Schwartz, trocou o Meio-oeste pelo litoral, como contador na Usina Metalúrgica Joinville, seguida da White Martins. Em 1975, Feijó tinha a carteira de trabalho assinada por Lúcia Japp, diretora da Furj, atual Univille, onde ficou até se aposentar, em 1982, sempre na área contábil.

 “Durante um bom tempo – relembra – eu trabalhava durante a semana em Joinville e aos sábados e domingos ia até a Prefeitura de São Francisco do Sul, organizar a contabilidade.” Foi ao se estabelecer em Joinville que respondeu ao desafio de poder assinar as contas, formando-se técnico contábil pelo Bom Jesus. Com tudo isso, acabou não realizando um sonho profissional de infância: “Eu queria ser advogado”.

Ao se aposentar e deixar a fundação universitária, Feijó ainda atuou dando assessoria contábil a escolas de Joinville e, durante algum tempo, à EJS Engenharia. Integrado à vida joinvilense, foi durante alguns anos titular do Conselho Municipal de Saúde.

A primeira mulher faleceu após 33 anos de união. Hoje, Feijó contabiliza outros 31 anos de casamento com a francisquense Hélia Viana. Sem filhos de nenhum dos casamentos, criou um menino, hoje adulto, morando em Tocantins.

Torcedor do Gaúcho de Passo Fundo e do Inter, aprendeu a gostar do JEC. “Fui frequentador do Ernestão, mas hoje as limitações da idade já não permitem ir aos jogos. Ainda não conheço a Arena”, admite, já aceitando o convite do repórter para ir ao estádio torcer pelo Tricolor contra o Vasco.

 

 

Um precioso registro de Feijó ainda bebê

 


Pesquisador dedicado, Alberto Rebelo escolheu Ubatuba para usufruir a vida

Médico angolano não abandona os estudos. No momento, se dedica à origem dos termos em tupi-guarani
André Kopsch/ND
Perfeitamente integrado ao cenário brasileiro, Rebelo adora fazer longas caminhadas e dedicar-se à contemplação à beira-mar em sua pátria adotiva

 

 

Durante os anos em que exerceu a profissão de médico, Alberto Eira Rebelo era, acima de tudo, um incansável pesquisador, sempre à procura de avanços, o que lhe valeu o reconhecimento em sua terra-natal, Angola, em Portugal e nos Estados Unidos. Aposentado, hoje morando em Ubatuba, intercala caminhadas pela orla – sempre acompanhado pela fiel Tininha, a vira-lata que se tornou moradora efetiva – com horas dedicadas à leitura, de preferência tendo como tema a história do Brasil, pátria adotiva. “Atualmente estou pesquisando origens dos termos em tupi-guarani”, informa, mostrando o dicionário onde traduz principalmente nomes de lugares – o idioma indígena, quando assimilado, vai se somar aos outros seis que o médico fala: português, banto (língua nativa de Angola), inglês, espanhol, francês e italiano.

Alberto Eira Rebelo nasceu em 1932, na cidade de Lobito, onde está o segundo principal porto angolano. “É o melhor porto do país, tanto pelas características naturais quanto pelo constante trabalho de dragagem”, garante o ilustre lobitense, aproveitando para alfinetar a pequena importância que o Brasil dedica à dragagem dos portos.

Filho de um comerciante e de uma brasileira do Pará, Rebelo optou pela medicina logo que terminou os estudos no liceu (equivalente ao ensino médio), como melhor aluno da turma e entre os três primeiros de Angola. Formou-se pela Universidade de Lisboa, especializado em cirurgia geral, e logo foi aprovado em concurso para a rede hospitalar da capital portuguesa. Retornou ao seu país, abriu uma clínica e assumiu uma cadeira na Universidade de Angola, na capital Luanda, onde também trabalhou na instalação de serviços públicos de saúde.

Chegou a integrar o Exército, nas intermináveis lutas contra a guerrilha que na época assolava a nação. Mas não usava a cruz vermelha no braço, marca dos serviços médicos: “Guerrilheiros não davam a mínima para convenções internacionais. E médicos eram alvos importantes. Usar a faixa com a cruz vermelha era um risco dobrado”.

 

Pesquisas com criogenia

 

Em Luanda, o médico Alberto Rebelo dedicou-se às pesquisas sobre crioconservação - a preservação de órgãos a baixas temperaturas. Aprofundou-se depois, no ano e meio que passou em Minnesota, nos Estados Unidos. Sempre bem-humorado e espirituoso, larga um palavrão ao se lembrar do rigoroso inverno norte-americano, insuportável para quem vivera na tropical costa ocidental africana.

Para a imprensa portuguesa, Rebelo merecia até o Nobel, por suas contribuições para a técnica de crioconservação. Um recorte que ele guarda, do jornal “Expresso”, de Lisboa, de outubro de 1995, dizia, abaixo do título “Os segredos do frio”, que “passara quase despercebida, em 1973, a notícia de que um cientista português (na verdade angolano) consegue conservar órgãos congelados a 72 graus negativos ... transplantando com sucesso rins de cães”.

Em meados dos anos 70, convidado pelo então ministro da Educação Ney Braga, do governo Geisel, Rebelo veio para o Brasil. Em Pelotas, onde seria o destino final, nasceu o sétimo filho. “Vim de Angola com seis filhos e meio, o sétimo no ventre da mãe.” Mas ele preferiu Curitiba.

Já Ph.D em medicina com sua tese sobre criopreservação, abriu clínica, deu aulas na Universidade Federal do Paraná e trabalhou num hospital em São José dos Pinhais, especializado no tratamento da tuberculose.

Aposentou-se aos 75 anos, meta estabelecida em seu planejamento. “O sucesso em qualquer estágio da vida depende de metodologia e disciplina, e tudo começa na família”, filosofa, citando as virtudes que norteiam sua vida.

Viúvo, há nove anos Rebelo casou-se novamente, com a paranaense Ymara (“brilho da água”, em tupi-guarani), que conheceu em Ubatuba. Ela é dona de uma loja de arte e decoração que ocupa o piso térreo da casa, numa das tranquilas ruas do balneário, a poucos metros da praia.

 

Perfil sugerido pelo leitor Carlos Adauto Vieira


Um Coelho que voa alto: aos 23 anos de carreira, Nelson é promovido a tenente-coronel

Enquanto aguarda orientações do comando da PM, ele continua sua missão a bordo do helicóptero, sempre tendo a segurança como prioridade

Nelson Coelho não tinha, na adolescência, certeza quanto ao caminho profissional a seguir. “Quando chegou a época de fazer o segundo grau, meu pai perguntou se eu queria ir para o Colégio Policial Militar. Topei, gostei e fiquei”, já dizia, quando o ND fez pela primeira vez seu perfil, há quatro anos. Hoje, porém, mais que certeza, demonstra satisfação pela carreira escolhida. E mais: desde 1992, quando se formou piloto, não consegue se ver longe do comando do helicóptero.

 

 

Fabrício Porto/ND
Satisfeito com a profissão que escolheu, Coelho aguarda orientações sobre seu futuro na PM

 

 

Seu voo na profissão de policial militar acaba de alcançar mais altura, com a promoção, no dia 5 de maio, de major a tenente-coronel. Por enquanto, continua comandando a 2ª Companhia de Aviação da Polícia Militar: “O comandante da PM é quem decide meu rumo, se vou comandar algum batalhão, progressão natural na carreira, ou se continuo aqui, um desejo pessoal. Meu planejamento profissional, de qualquer forma, é na PM, até merecer a promoção a coronel, ponto máximo da carreira”.

Nelson Henrique Coelho nasceu em Florianópolis, no dia 22 de setembro de 1967. Filho de um policial militar, mudou várias vezes de domicílio, a cada mudança do pai: Canoinhas, Chapecó, Lages, Tubarão e Itajaí, alternando com breves passagens pela Capital. Formou-se oficial, pelo Colégio Policial Militar, em 1990, em Florianópolis. Em 92, fez curso de pilotagem, no Rio de Janeiro. Era soldado do Batalhão de Operações Especiais, na capital catarinense, e durante o verão pilotava o helicóptero da Companhia de Aviação (na época Graer).

Há 13 anos assumiu o comando da base avançada da aviação da polícia em Joinville. Foi promovido a capitão em 2005 e a major em 2009. Hoje, já com as divisas de tenente-coronel, comanda uma equipe de 17 policiais, responsável por uma área de 45 municípios, onde moram cerca de 2 milhões de pessoas. Além das tarefas administrativas, Coelho cumpre as escalas como piloto, atendendo a ocorrências que vão de acidentes de trânsito a perseguições – ou emocionadas homenagens, como fez recentemente, ao despejar pétalas de flores sobre o Cemitério Municipal durante o enterro de Anna Maria Bonati, que por 30 anos foi jardineira da PM e era uma pessoa admirada por todos.

 

“Administrar e voar são trabalhos distintos,

cada um com suas características.

Mas a missão de resgate tem um

aspecto importante, que é a responsabilidade

pela segurança das pessoas...”

 

Motorista que voa

“Se dependesse só de mim, continuaria aqui, mesmo comandando uma companhia em vez de um batalhão. Afinal, são 23 anos na aviação, fui treinado para voar e me realizo nessa missão”, argumenta o tenente-coronel. Também a cidade de Joinville tem um lugar especial em seu coração: “Meu avô foi inspetor escolar aqui, meu pai nasceu em Joinville, minha mulher é daqui e minha filha mais nova é joinvilense”. Larissa, 9 anos, estuda no Colégio Elias Moreira, enquanto Bruno, 17, “cerca” o pai o dia todo: ele conclui o ensino médio e faz curso técnico no Senai, em duas unidades vizinhas da 2ª Companhia, na rua Arno Waldemar Döhler. A família mora em um apartamento no bairro Glória.

No trabalho, Coelho se compara a um motorista que voa: “Quando fiz o curso, aprendi a conhecer o helicóptero, como motoristas de ônibus ou de caminhão conhecem seus veículos. Antes de decolar, preciso saber das condições do aparelho, checar instrumentos e identificar eventuais problemas”.

No perfil de quatro anos atrás, o então major sintetizava seu dia a dia: “Administrar e voar são trabalhos distintos, cada um com suas características. Mas a missão de resgate tem um aspecto importante, que é a responsabilidade pela segurança das pessoas, sejam os tripulantes, seja uma vítima”.

Uma diferença de hoje é a utilização das redes sociais, especialmente o Facebook, onde Coelho mantém uma página e informa todas as ocorrências, on line. “As redes servem para divulgar nosso trabalho e dar uma resposta ao público acerca dos investimentos feitos na área de segurança. Também são um bom apoio à mídia.”


Três velinhas com numerais no bolo não é para qualquer um

Herbert Schmalz completa cem bem-vividos anos no dia 21, mas a família se reúne neste domingo para brindar a longevidade
Fabrício Porto/ND
Ilse e Herbert Schmalz namoram de mãos dadas no jardim, como há várias décadas, no mesmo banco em que namoravam há quase 80 anos: "sem almofadas para o namoro ser rápido"

 

 

Há alguns dias, uma neta perguntou por que

o opa não usa bengala pra auxiliar na caminhada.

A resposta veio na bucha: “Eu tenho uma,

mas só vou usar depois que fizer cem anos”.

 

Antigamente, os bolos de aniversário tinham tantas velas quantos fossem os anos de vida do aniversariante. Isso até ser inventada a velinha em formato de número, que permite um simples sopro para apagar uma ou duas. Mas no próximo domingo, logo após o “Parabéns pra Você”, Herbert Schmalz precisará tomar um fôlego a mais, para apagar três velas: 1 0 0. “Se fossem cem velas, ia demorar mais”, admite ele, com o bom-humor e a jovialidade que se tornaram sua marcas.

O aniversário, na verdade, é no dia 21, mas o café foi marcado para dia 18, domingo, para possibilitar a presença do máximo possível de parentes e amigos. São três filhas (Darci, Nair, que vem de Canoinhas, e Odete, do Pará), o filho João Paulo, seis netos (seriam sete, mas um faleceu) e seis bisnetos, além de uma irmã, cunhados, primos, sobrinhos, amigos...

No dia da entrevista, sexta-feira passada, não encontrando campainha na residência (bem no centro de Pirabeiraba), o repórter bate à porta. Logo, lá dos fundos, aparece a primeira pessoa que ouviu as batidas: o próprio Herbert Schmalz. Claro que o aparelho de surdez ajuda, mas a vitalidade e a lucidez impressionam.

“Ele já não pode fazer muito do que fazia, até diz que hoje anda do mesmo jeito que nas madrugadas em que voltava dos bailes. Mas papai e mamãe moram sozinhos e cuidam do jardim e da horta”, informa a filha Nair, mostrando os espaços muito bem-cuidados nos fundos, com flores, o quintal e árvores frutíferas. Sobre os bailes, o quase centenário senhor tem mais uma observação: “Na minha juventude não havia televisão nem rádio, mas eu lia nos jornais onde havia bailes, tanto aqui no distrito quanto na cidade”. E não perdia um. Ele apenas lamenta não ter podido realizar uma boa festa de casamento. “Não tinha dinheiro para ajudar nas despesas.”

 

 

Reprodução/ND
O casal com os filhos nas bodas de prata

 

 

Origens na Suíça

 

Descendente direto dos Schmalz que vieram da Suíça no século 19, Herbert destaca que seu pai, João Paulo (Johan Paul, no original alemão) morreu poucos meses antes de completar cem anos. Herbert nasceu na localidade de Canela, em Pirabeiraba. Aos 15 anos, saía de casa ao alvorecer, de carroça, para recolher leite nas propriedades dos colonos e levar até a Estrada da Ilha. Mais tarde, a ideia de ser barbeiro foi abortada após uma “barbeiragem”: “Meu irmão tinha uma venda e uma barbearia. Em duas ocasiões em que ele tinha saído, atendi fregueses na barbearia. Tive que raspar a cabeça de um, de tanto piolho. Desisti de ser barbeiro”.

Foi, então, aprender a ser mecânico na oficina dos tios, em Joinville. Trocava a estadia na casa do irmão Eugênio por trabalho na casa de comércio. O dinheirinho nem esquentava no bolso, investido nos já citados bailes, com fartas cervejadas com os amigos. Mas a vida de farra terminou em janeiro de 1938, quando Herbert trocou alianças com Ilse, da família Eberhardt. Durante a sessão de fotos para este perfil, dona Ilse, 94 anos, coloca as mãos entre as do marido e frisa: “Era só assim que podíamos namorar”.

Detalhe: o banco desta foto, ainda utilizado na cozinha, é o mesmo em que se sentavam durante os recatados namoros. Outro detalhe: ao levar o banco para fora, seu Herbert tira as almofadas, justificando: “Quando namorávamos não tinha almofada, para não demorar muito o namoro”.

Durante a vida, Herbert foi mecânico, comerciante, ferreiro, açougueiro, agricultor, teve alambique, serraria... Ainda sobrava tempo para ações comunitárias, como levar pessoas ao hospital, parteiras para trazer bebês ao mundo e aplicar injeções!

Hoje, curtindo os últimos dias de dois dígitos na idade, só lamenta uma coisa: “Não me deixam mais dirigir”, reclama, acariciando o Prisma reluzente sob o abrigo.

 

 

Reprodução/ND
A família bem ampliada, com os netos e bisnetos, na cerimônia religiosa que marcou os 75 anos de um casamento tão longevo quanto seus personagens

 

 

 


Maria Bittencourt foi mãe, avó, professora e está sempre pronta a ajudar quem precisa

Quem a conhece diz sem sombra de dúvidas que ela devia trazer a palavra "Mãe" como uma espécie de sobrenome

Maria Bittencourt poderia ter a palavra “Mãe” como nome do meio. Criou três filhos, ajudou na formação dos netos e ainda dedicou muito carinho e atenção a centenas de crianças, como professora. Hoje, aos 85 anos, curte os bisnetos e, quando precisa, vira “mãezona” dos colegas da casa de repouso em que reside. “Gosto de ser prestativa. Como ainda tenho saúde, procuro ajudar os que têm mais dificuldades”, diz, referindo-se aos demais idosos moradores da Casa de Repouso Feliz Idade, no Bom Retiro (entre eles dona Anna Maria Bonati, a jardineira da PM, perfil na semana passada).

Nascida na localidade de Rio do Peixe, no município de Luís Alves, em 1928, Maria viveu até os 19 anos ajudando a família na lavoura. “Éramos quatro irmãos, e todos ajudavam na roça, plantando cana-de-açúcar e outras hortaliças. Mas meus pais insistiam para que todos fossem à escola, sabendo que nosso futuro seria na cidade.”

De fato, em 1947 os Bittencourt chegavam em Joinville, em busca de melhores oportunidades de estudo e trabalho. A lavoura foi trocada por um empreendimento comercial, o Bar Bittencourt, que durante muito tempo atendeu a freguesia na avenida Getúlio Vargas, perto da estação ferroviária. Maria conseguiu emprego na empresa Casemiro Silveira, fabricante da marca Lumière. “Era muito bom trabalhar lá. Fiquei quatro anos, e só saí quando me casei”, conta.

O casamento, por sinal, foi típico de um enredo teatral com final feliz. De um lado, um cliente do bar, Valdemiro, apaixonado por uma das filhas do seu Bittencourt; do outro, Maria, pensando que o alvo estivesse ao lado. “Eu achava que ele estava interessado na minha irmã. Quando fiz 21 anos, porém, tive uma surpresa: ele me deu de presente um quadro da Santa Ceia e revelou que eu era sua paixão.” Um ano depois, casaram-se, Maria deixou o emprego e assumiu novos papéis, como dona de casa, mulher e, acima de tudo, mãe.

A união se desfez após dez anos, por circunstâncias que Maria prefere deixar no passado. Ficaram os frutos: Sueli, hoje com 63 anos, Shirley, 62, e Sílvio, 56 (ele e a mulher, Eliana, ambos fotógrafos, criaram há quase 25 anos a Foto Lana, no Saguaçu); a terceira geração tem meia dúzia de netos, que já deram a Maria quatro bisnetos.

 

De volta ao mercado, o magistério foi a opção escolhida

 

Maria tinha 30 anos quando, já com os filhos colocados no rumo, decidiu voltar a trabalhar. Escolheu o magistério. “Completei os estudos nos colégios Conselheiro Mafra, Santos Anjos e Martins Veras, até fazer o normal regional no Oswaldo Aranha, onde me formei em 1967.”

Com 39 anos, Maria estreava em sala de aula, na cidade de Caibi, no Extremo-oeste catarinense. Três meses depois, aprovada no “batismo de fogo”, conseguiu uma vaga no colégio José Américo Dias Barreto, no Floresta. Após o fechamento da escola, transferiu-se para o Plácido Xavier Vieira, quando o colégio ainda funcionava no km 4 da rua Santa Catarina (hoje fica na rua Roberto Lehm, no mesmo bairro).

 

 

Fabrício Porto/ND
Na Casa de Repouso Feliz Idade, ela acredita estar vivendo no paraíso: é bem-tratada e ainda pode ser útil, como uma mãe sempre quer ser

 

 

“Trabalhei no Plácido até me aposentar, em 1978. Ainda que tenha sido curta, a carreira como professora significou um período feliz na minha vida. Amava meus alunos, e pude ensinar muita criança a ler, escrever e compreender o mundo”, conta Maria, com a emoção aflorando aos olhos.

Morando sozinha, há sete meses Maria mudou-se para a Casa de Repouso Feliz Idade. “Foi minha nora que achou a casa. Posso dizer que saí da prisão para o paraíso. Aqui tem alegria, sou muito bem-tratada e ainda posso ser útil, dando apoio a quem precisa.” Como a mãe que sempre foi.


Do avô à neta, Iracema da Silva Braga se orgulha da carreira como professora

Ela contabiliza pelo menos cinco gerações de sua família dedicada ao ofício
Rogério Souza Jr./ND
Iracema com medalha de reconhecimento ganha em 1980, quando ainda dava aulas no Colégio Plácido Olímpio de Oliveira

 

 

“Meu avô foi professor, assim como minha mãe, depois eu, seguida de duas filhas e agora uma neta.” Com tal característica no DNA, é provável que Iracema da Silva Braga ainda veja bisnetos seguindo seus passos e ensinando crianças e jovens a ler, escrever e a exercer a cidadania.

Iracema brincava de ar aulas quando a família morava na localidade de Pinheiros, em Araquari (na época distrito de São Francisco do Sul). Nascida em 24 de junho de 1931, era a menina do meio entre dois irmãos. Como filha de professora, era natural que vencesse etapas no aprendizado. “Com cinco anos, eu já sabia ler e escrever, mas só com sete fui pra escola, e minha mãe continuou sendo minha professora.” Ela concluíra a segunda série quando precisou interromper os estudos: “Meu pai, oficial de justiça e músico, ficou muito doente, e mamãe resolver interná-lo numa casa de saúde em Santos, onde havia amigos da família”.

A estada no litoral paulista, porém, durou poucos meses: “Um dia minha mãe foi fazer uma visita ao papai e disseram que ele tivera alta e um amigo levou-o para casa, em São Francisco. Voltamos e vim morar com uma tia em Joinville, onde concluí o primário”.

De volta a São Francisco, Iracema matriculou-se no curso complementar (equivalente ao antigo ginásio) no colégio Felipe Schmidt. Na mesma escola, fez o curso regional, que habilitava para dar aulas nas primeiras séries. Formou-se com 17 anos, mas só dois anos depois iniciou a carreira.

 

“Tinha um gênio de cão”, se descreve a ex-professora

 

Aprovada em concurso, Iracema foi designada para uma escola reunida (que concentrava as quatro séries iniciais numa só turma), em Garuva, então distrito de São Francisco. Mas precisou bater o pé para não ir mais longe ainda. “Eu ia ficar na vaga da sobrinha de um político influente de Garuva, e ele mexeu os pauzinhos para que eu fosse transferida para Medeiros, no interior de Barra Velha. Como na época eu tinha um gênio do cão, briguei por meus direitos e fiquei em Garuva.” O arranca-rabo exigiu até a intervenção do então diretor de Educação regional, Elpídio Barbosa.

Em Garuva, Iracema se casou com Marino Braga, funcionário dos Correios. “Quando contei para algumas amigas que ia me casar com ele, todas ficaram com inveja, pois diziam que era o homem mais bonito da cidade”, diverte-se lembrando. Algum tempo depois, devido à transferência do marido para Joinville, Iracema conseguiu uma vaga no colégio Rui Barbosa. “Não era efetiva; fiquei à disposição, substituindo outras professoras quando necessário. Só podia ser efetivada se fosse numa escola reunida. Quem muito me ajudou foi a diretora do Rui Barbosa, Maria Amin. Com ela e um amigo do governador Jorge Lacerda, fomos a Florianópolis. Consegui uma vaga no colégio Giovani Pasqualini Faraco.” Na escola do bairro Santo Antônio, ficou 20 anos.

Nos anos 70, o governador Celso Ramos determinou que os professores formados no curso regional poderiam fazer o normal, verdadeira formação para o magistério. Formada, em 1973, Iracema, enfim, foi efetivada. Como a Associação Catarinense de Ensino acabara de implantar o curso superior de pedagogia, lá foi se aperfeiçoar. “Guilherme Guimbala era um santo”, elogia o fundador da instituição onde foi trabalhar assim que se aposentou na rede estadual, em 1984, depois de dois anos no colégio Plácido Olímpio de Oliveira. Também deu aulas no ginásio noturno no Germano Timm e no Jandira d’Ávila. Encerrou de vez a carreira em 1994, na ACE.

Do tempo de professora da rede estadual, Iracema lembra com destaque da primeira greve dos professores estaduais, em 1979. “Em Joinville, participei de um núcleo que tinha as professoras Dulci Campana, Vilma Boehm, Raineldes Lepper e Sandra Macedo. Brigamos muito para melhorar o nível salarial dos professores. Ganhávamos só um salário mínimo! Saímos da greve com um aumento para 11 salários.”

Hoje, curtindo a aposentadoria, Iracema é feliz por ver a vocação exercitada pelas filhas Tânia e Iara e pela neta Daniela, completando a quinta geração da família no magistério.


Morre Anna Maria Bonatti, jardineira que cuidou dos jardins do quartel da PM durante 30 anos

Morando em uma casa de repouso, aos 80 anos ela contava os dias para voltar à atividade. Mas dias depois de ter a reportagem com seu perfil publicado, ela morreu nesta terça, 13 de maio
Fotos Divulgação/ND
O comandante e o subcomandante do 8º BPM, tenente-coronel Adilson Moreira, e major Jofrey, visitaram Anna Maria Bonatti no dia 8 de abril, levando os parabéns do quartel pelo 80º aniversário dela

 

Durante 30 anos, Anna Maria Bonatti testemunhou o dia a dia, as mudanças e a expansão do quartel da Polícia Militar, na rua Aquidaban. Ela cuidava dos jardins e ajudava nos preparativos de solenidades, tornando-se uma pessoa querida no 8º Batalhão. “Vi uns 15 comandantes passar por lá, e o quartel era como minha segunda casa”, diz dona Anna Maria, hoje “aposentada” de suas funções e morando na Casa de Repouso Feliz Idade. Aos 80 anos, a saúde fragilizada já não lhe permite cuidar de jardins e se movimentar como antes.

A história dessa hispano-ítalo-brasileira começa no dia 8 de abril de 1934, quando ela nasceu, em Barcelona, na Espanha. “Meu pai era italiano e minha mãe, espanhola, e moravam na cidade de Lago di Como, perto de Milão. Quando eu ia nascer, mamãe quis ficar perto da mãe dela, por isso nasci em Barcelona. Mas me criei no Norte da Itália, pertinho da Suíça”, esclarece.

Logo após a Segunda Guerra, em 1946, a família Bonati foi uma das tantas a emigrar da Itália para o Brasil, estabelecendo-se em São Paulo. Em 1961, nova mudança, agora para Joinville, onde o pai de Anna Maria empregara-se na Malharia Arp. Ela, com curso de secretariado, foi para a Tupy. “Fui secretária da diretoria, quando o presidente era Dieter Schmidt. Sete anos depois, decidi trabalhar por conta própria, na área de jardinagem e paisagismo”, conta, sem esforço de memória – ainda que a voz saia com dificuldade, devido aos problemas de saúde, agravados em meados do ano passado.

 

Praça Anna Maria Bonatti, o símbolo de reconhecimento ao empenho da dona Anna

 

O quartel sempre foi sua segunda casa

 

“Não encontrei ninguém que me amarrasse”, diz, justificando o fato de nunca ter se casado – da família, moram em Joinville a irmã Liliana, 73, e seus dois filhos. Uma segunda família, porém, foi se formando no quartel do 8º BPM, desde que Anna Maria começou a trabalhar lá, em 1984, encarregada do paisagismo e do apoio em eventos. “Nunca fiz cursos de jardinagem, aprendi tudo na prática. Ali sempre fui feliz, me dei bem com todos os comandantes, desde o coronel Bruno até o atual, Adílson”, diz a jardineira, referindo-se ao coronel Bruno Kleis, comandante em 1984, e o atual, tenente-coronel Adílson Moreira.

“Dona Anna sempre foi uma pessoa prestativa e muito querida no batalhão. Todos lá sentem saudade dela”, diz o cabo Paulo César Vicente, que, junto com a mulher, Márcia, e o colega de PM Anderson Paiva de Andrade, assumiu há cerca de um ano a administração da Casa de Repouso Feliz Idade, localizada no Bom Retiro. “Depois que ela ficou doente, aqui era um local óbvio para abrigá-la. Quando chegou, mal conseguia andar, devido à erisipela. Agora já se movimenta e fez muitos amigos na casa”, completa Vicente.

Dona Anna confirma: “Aqui é muito bom, tem carinho, sou cuidada e todos são amigos”. Porém, ela deixa claro: “Já tenho saudade da minha família do batalhão. Quando ficar boa, quero voltar a trabalhar lá”. Mas, infelizmente, ela morreu nesta terça, 13 de maio.

 


Maitre Alfredo está de volta ao cenário gastronômico de Joinville

Para recordar os bons tempos, ele abriu o Funil Bier, um bar e petisqueira no bairro Saguaçu

“Você lembra do maitre Alfredo? Ele lembra de você! Depois de ter servido nos melhores restaurantes da cidade, agora ele lhe espera no seu novo... Funil Bier.”

A chamada abre o pequeno folder que convida a freguesia a visitar o Funil Bier, bar e petisqueira onde Alfredo Alves dos Santos, maitre que marcou o nome na gastronomia joinvilense, incursiona novamente como empresário. “Fiquei bastante tempo fora da cidade e do circuito, mas ainda tem muita gente que se lembra dos velhos tempos, e aqui garanto o mesmo atendimento de qualidade que sempre procurei oferecer nos estabelecimentos por onde passei”, diz Alfredo, que transformou um antigo e típico boteco num restaurante e bar, onde aos poucos imprime a marca que caracterizou lugares como o restaurante do Museu de Arte e o Sopp.

 

 

 

Fabrício Porto/ND
Alfredo em frente ao Funil Bier: vontade de reviver os bons tempos em que as casas em que ele atuava eram referência

 

 

Até chegar à elite dos garçons joinvilenses, porém, Alfredo precisou labutar muito. Nascido na pequena Taió, em 1952, criou-se na igualmente bucólica Presidente Getúlio, ambas no Alto Vale. Degrau do meio de uma dúzia de filhos, começou a aprender como atender o público ainda na infância. “Nossa família vivia da lavoura e de um comércio. Enquanto meus irmãos e irmãs iam com o meu pai pra roça, eu preferia ficar com a mãe no balcão da venda.”

A experiência o ajudou no primeiro emprego pra valer, já em Joinville, para onde a família migrou em 1970. “Trabalhei na Padaria Brunkow, no balcão. Até cheguei a aprender alguma coisa de panificação, mas o que eu gostava mesmo era de atender o público.”

 

Começa a carreira de garçom

 

Cinco anos depois, Alfredo empregou-se como garçom no Capri Colonial, bar e restaurante do Museu de Arte de Joinville. “Aprendi muito com o Dori, um dos grandes garçons que Joinville já teve. Era um tempo em que o movimento cultural fervia, e o bar do museu era ponto de encontro da intelectualidade”, relembra, citando frequentadores como os artistas Hamilton Machado e Luís Henrique Schwanke e o crítico Harry Laus.

Por ali também passavam astros que se apresentavam na cidade. “Lembro-me de Gilberto Gil, Paulo Autran e Glória Menezes. Outro que batia ponto, quando vinha a Joinville, era o Sócrates, fã do chope da Antarctica, na época fabricado no outro lado da rua.”

Oito anos depois, sob nova administração, o Capri virou Museu Chopp. “Fiquei três anos, até o Darci Koehntop me convidar para o Sopp, que ele acabara de inaugurar. Para lá levei o hackepetter, modéstia à parte o melhor de Joinville”, vangloria-se Alfredo, ressaltando o esmero na escolha dos ingredientes e na higiene ao preparar o famoso quitute.

Cinco anos de Sopp depois, novo desafio: “Aprendi a servir espeto corrido no Charruas”. Também trabalhou no Onofre’s Piano Bar e no Rhariah. Ao mesmo tempo, o maitre foi se aperfeiçoar, fazendo cursos de relações humanas, atendimento, guia de turismo e idiomas: “Eu me comunicava em alemão, inglês, espanhol e francês”. Da carteira ele passou para a cátedra, atuando como instrutor no Senac. Seguiu-se uma passagem de oito anos por Bombinhas, onde teve um restaurante, mais três anos no General Küster, em Piçarras.

De volta a Joinville há dois anos, Alfredo manteve uma lanchonete no Aventureiro, até arrendar o Funil Bier. “Era um típico boteco, que transformamos num bar e petisqueira. Quero reviver uma parte do clima do antigo bar do Museu, com boa comida, drinques no capricho e música ao vivo.” Um exemplo das atrações é o conjunto The Players, sucesso dos anos 60 que está tocando às sextas no Funil. E ainda tem os ensaios do grupo Harmônicas de Joinville, toda quarta.

“Acima de tudo, mantenho aqui o prazer que sempre tive em atender”, conclui o maitre Alfredo – com menos cabelo, mas a mesma cordialidade de sempre.

 

Serviço

Funil Bier

Almoço, jantar, petiscos, marmitex e espaço para eventos, de terça a domingo

Onde: rua Dona Francisca, 2057, Saguaçu

Contato: 9961-4595 / funilbierbar@gmail.com

 


Airton Cercal, o "Elvis de Joinville", recorda trajetória artística ao lado dos grandes ídolos

Também conhecido como Billy, o cantor de voz grave tem facilidade para fazer imitações. Além de Elvis Presley, ele também interpreta Cauby Peixoto
Fabrício Porto/ND
Cercal, hoje de volta a Joinville, trabalhando como corretor de imóveis, ainda aceita propostas para se apresentar em bandas e orquestras

 

 

Airton Irineu dos Santos Cercal nem precisa forçar o timbre ao falar, pois sua voz é naturalmente grave. Basta que entoe os primeiros versos de “Love Me Tender” ou outra das inesquecíveis baladas de Elvis Presley, para que o ouvinte feche os olhos e imagine estar ouvindo o próprio “rei do rock”. Não por acaso, ele é conhecido como o “Elvis de Joinville”, por encarnar com perfeição o inesquecível cantor – na voz, já que a lustrosa calvície exige o artifício de peruca, além de outros adereços. “Desde criança tive voz afinada, e além de cantar, me destaquei como imitador, pela facilidade em reproduzir vozes”, diz o joinvilense, de volta à terra-natal há seis anos, depois de uma vida na capital paulista.

Nascido em 1943, de tradicional família joinvilense – “Meu bisavô, Januário de Oliveira Cercal, recebeu a sesmaria no rio Parati, região de São Francisco do Sul, em 1825” –, com sete anos ele se mudou com a mãe (o pai falecera quando tinha apenas quatro anos) para São Paulo. “A mudança, na verdade, foi mais para me tratar de um acidente que sofri, quando morávamos na estrada Cubatão”, conta, mostrando uma respeitável cicatriz ao longo do braço direito.

Cercal tinha dez anos quando teve os dons artísticos revelados, vencendo um concurso de cantor infantil, em 1953, na TV Tupy. “Ali conheci algumas pessoas que viriam a fazer história na televisão brasileira, como Hebe Camargo”, relembra.

 

 

 

Fabrício Porto/Reprodução/ND
Nos anos 60, o cantor fazia sucesso em apresentações na TV Record

 

 

Participações em bandas e orquestras

ajudaram a pagar a faculdade de direito

 

A partir dos 18 anos, ao mesmo tempo em que cursava a faculdade de direito na Universidade Brás Cubas, de Mogi das Cruzes, Cercal começou a engordar o orçamento cantando. “Integrei diversos conjuntos no tempo da Jovem Guarda, como Os Bratmos (mistura de brasa com ritmos) e Os Truístes, tocando e convivendo com astros do quilate de Roberto Carlos, Wanderleia e Os Vips.” Com o nome artístico de Billy, animou muitos bailes como crooner (vocalista) de orquestras.

Desse tempo, a reportagem descobriu um depoimento do artista, dado ao blog São Paulo Minha Cidade há dois anos. Um trecho: “Meu nome é Airton, porém o meu apelido é Billy. Lá pelo ano de 1956, a Jovem Guarda está a todo vapor, os Beatles estão agitando quase todos os conjuntos como o meu Os Bratmos. Os bailes se sucedem, conhecem-se garotas, as paixões surgem, os amores platônicos passam e seguem; existe o respeito, os beijos furtivos acontecem nos escurinhos dos cinemas Hollywood e Vogue”.

“Billy” trabalhou com muitos ícones da música brasileira, entre eles Nélson Gonçalves, Altemar Dutra, Agostinho dos Santos, Ângela Maria, Dick Farney e Cauby Peixoto. “Desse – acrescenta – dizem que fui o melhor imitador. É um orgulho, pois considero a maior voz que já ouvi.” A declaração é seguida do primeiro verso de “Conceição”, novamente capaz de enganar o ouvinte desatento.

Cercal também foi figurante em novelas da antiga TV Excelsior e trabalhou como locutor em emissoras de rádio. Nos anos 80 ganhou o apelido de Elvis e aperfeiçoou o dom natural de imitar o ídolo. “Fui considerado o primeiro cover do Elvis.” Atualmente, de volta a Joinville, onde exerce a corretagem imobiliária, Cercal ainda atende a convites para eventos, seja cantando com a própria voz (inclusive canções de sua lavra), ou, principalmente, encarnando Elvis Presley. “Em Joinville – conclui – louvo o trabalho de gente como o maestro Melo, Oswaldo Júnior, Os Boêmios e o grupo Entre Amigos, que resgatam com maestria as mais lindas canções da nossa música popular.”

 

Serviço

Para contratar Airton Irineu, o “Elvis joinvilense”, o telefone é 9965-3821 e o e-mail: airton.cercal@hotmail.com


Maria Brites foi catequista, professora e ainda canta no coral da igreja

A vocação para o ensino se revelou na infância, quando enfileirava as amiguinhas para dar aulas sob um pé de café. Aos 13, já era catequista. Aos 86, vive no Ancionato Bethesda, mas não perde a missa das 18h de segunda na Catedral
Fabrício Porto/ND
Maria Brites vive feliz no Ancionato Bethesda, onde se encarrega de cuidar do jardim e ainda se aventura em produzir delícias na cozinha

 

 

 

As brincadeiras de criança já davam uma ideia da carreira que Maria Brites seguiria. “Uma de minhas diversões preferidas era colocar as amiguinhas em fila e dar aulas sob o pé de café.” Aos 13 anos, confirmando a vocação para o ensino, a adolescente Maria já era catequista na paróquia São Francisco Xavier, onde mais tarde esteve entre os fundadores do coral. Hoje, aos 86 anos, Maria tem boas recordações dos 32 dedicados ao magistério. Moradora do Ancionato Bethesda, em Pirabeiraba, continua frequentando a catedral: “Ainda canto no coral, e toda segunda vou à missa das 18 horas”.

Maria nasceu e se criou no bairro Guaxanduva, atual Iririú, e era por ali que enfileirava a criançada para a “aula”, sob o cafeeiro. Fez o ensino fundamental nos colégios Conselheiro Mafra e Germano Timm. Decidida a ser professora, cursou o antigo “complementar”, um preparatório para a docência, no Celso Ramos, quando o colégio ocupava provisoriamente algumas salas no Oswaldo Cabral, no Glória.

Como na época não havia igreja no bairro, os Brites frequentavam a catedral. “Fiz a primeira comunhão na catedral antiga, com nove anos. Com 16, formada no curso complementar, comecei a dar aulas e me tornei catequista oficialmente, convidada pelo padre Bernardo, vigário da paróquia São Francisco Xavier.” Alguns anos depois, a família participou ativamente da construção da igreja São Sebastião, no Iririú. Habituada à catedral, Maria continuou pedalando até o Centro.

 

Da bicicleta para a lambreta

 

Com o diploma do complementar em mãos, Maria começou a dar aulas, debutando numa escola isolada do Jarivatuba. Passou ainda por outras pequenas escolas, na estrada Dedo Grosso, em Guaramirim, e no Rio da Prata. Mas aí a bicicleta já não servia, pois os trajetos eram longos. “Com o salário de professora, comprei uma lambreta. Também me mudei para uma pensão, no Centro.” Durante as férias escolares, reforçava o orçamento trabalhando como balconista na Casa Real.

Sua ida para o colégio seguinte foi peculiar: “O próprio prefeito João Colin foi me buscar no Guaxanduva, onde dava aulas então, e me levou para o Plácido Olímpio de Oliveira, onde fiquei dez anos”. Também passou pelo Germano Timm e aposentou-se em 1974, no Plácido, encerrando 32 anos de magistério. “No dia da despedida – conta, emocionada – eu não sabia se ria pela aposentadoria e pelo carinho das colegas, ou se chorava de saudade antecipada.”

A essa altura, Maria já adicionara Piaz ao sobrenome. O marido, Rodolfo, ela conheceu na catedral. “Eu ficava em cima, no coral, e ele lá embaixo, a missa inteira me olhando. Quando começamos o namoro, dei aulas pra ele, completando a alfabetização.” Entre as boas lembranças dos “anos dourados” de Joinville, Maria cita o “footing” (a paquera) e as retretas no coreto da praça Nereu Ramos. “Tive muitos namorados”, conta, entre gargalhadas.

Separada do marido, Maria criou o filho Rudiberto (outro filho morreu com um ano), que lhe deu dois netos. Há 11 anos, devido a uma depressão, tratou-se no Hospital Bethesda, e de lá decidiu se mudar para o ancionato, nos fundos. Muito ativa, Maria se encarrega de cuidar dos jardins do complexo, cultivando flores o ano inteiro. Além disso, exercita os dotes culinários eventualmente na cozinha, preparando delícias, como risoto de camarão e saborosas geleias. “Gosto de ajudar, de me sentir útil, como fiz durante toda a vida. Sempre participei das campanhas assistenciais na paróquia e nunca neguei minha mão a quem necessitasse.” Tal dedicação às causas comunitárias rende outra boa lembrança: “Certa vez, o prefeito Pedro Ivo me chamou para dar um jeito num grupinho de desordeiros que vivia aprontando. Consegui colocar todos na linha”. Nem precisou do pé de café.

 

PERFIL SUGERIDO POR NORMA ERZINGER (EX-ALUNA DE MARIA, NORMA FOI PERFIL NA PÁSCOA)


“Oma” Irene Bozler fez história administrando famosa malharia

Aos 101 anos, ela passa os dias distribuindo sorrisos na casa de repouso onde mora, e embora diga que a memória já lhe trai, lembra quando confeccionava, com exclusividade, as roupinhas para os famosos bebês Estrela
Gisela Müller/ND
Aos 101 anos, Irene Bozler mantém um sorriso jovial ao revirar suas memórias e observar a foto de quando tinha seus 20 e poucos anos. As unhas bem-cuidadas e na cor da moda mostram que a vaidade e o bom gosto ainda fazem parte do seu presente

 

 

 

Houve um tempo em que ela não parava um minuto sequer, comandando a produção de roupas de bebê que tornaram a marca Bozler reconhecida em todo o país. Hoje, aos 101 anos completados no dia 30 de março, Irene Prox Bozler curte o sossego e a companhia das novas amigas que fez na Casa de Repouso Por do Sol, onde mora desde o ano passado. Lá ela é a “oma”, e passa os dias a relembrar os tempos em que se dedicava à malharia da família. “A primeira roupinha que fabricamos foi vendida para a Casa Alemã, em São Paulo”, frisa, contrariando o comentário que fez no início da conversa: “Mas eu não me lembro de mais nada”. Tirando as dificuldades de audição, “frau” Bozler ainda consegue abrir as gavetas da memória e contar sua história.

História que começou no dia 30 de março de 1913, quando nasceu, na casa dos pais, na rua Brusque (hoje rua Lages). Era a segunda filha de Erico Prox e Anna (nascida Sell). Os outros eram Erica, Erico, Gertrud e Wally. Estudava no “colégio das irmãs”, o São Vicente de Paulo, hoje Santos Anjos, quando aprendeu a bordar. “Quem me ensinou foi a irmã Maria Batista”, contava Irene há dois anos (em reportagem especial sobre a família Bozler, feita por Maria Cristina Dias). A carreira escolar foi completada na Deutsche Schulle, atual colégio Bom Jesus.

Irene tornou-se Bozler em 1936, quando se casou com Otto Werner Rudolf, imigrante alemão que conheceu num curso de dança, no local que depois virou o Cine Palácio. Começou então a trajetória na malharia fundada pelos sogros, Guilherme e Mathilde, em 1925. “Além de bordar e costurar, ela comandava a empresa”, conta a nora Adenid (casada com Gert, único filho de Otto e Irene, falecido há oito anos). “Até há uns dois anos, antes de sofrer um AVC, ela ainda bordava. E era a única ocasião em que precisava de óculos”, completa a nora. “Aprendi a dirigir com mais de 50 anos, e só parei com 80 e poucos”, arremata a própria oma Bozler.

 

O primeiro casaquinho para os membros da família

 

Durante o tempo em que permaneceu na malharia, viu a marca conquistar mercado país afora. Além de bebês em carne e osso, vestia as bonecas-nenês da fábrica de brinquedos Estrela.

Em 2012, já havia relatado: “Meu marido ficava na máquina e eu costurava as mangas e fazia crochê, os acabamentos. Tudo bem simples... Só muito mais tarde é que vieram os funcionários”.  A partir daí, com pessoas de fora da família fazendo os bordados, Irene dedicou-se mais à administração, com o marido. Nos anos 50 a gestão da empresa passou de vez para eles.

Da década de 60 até os anos 80, todos os “bebês” da Estrela eram vestidos pela Bozler. A essa altura, a fábrica já funcionava na estrada Dona Francisca. Irene, porém, ficou no antigo endereço, na rua Jaguaruna, no posto de vendas. A empresa encerrou atividades em 1996, sob comando da quarta geração da família.

Viúva há pouco mais de 20 anos, Irene morou com a nora até sofrer um AVC, pouco após comemorar o centenário. Ela, conta a nora Adenid, foi tratada no Hospital Bethesda e acabou ficando lá mesmo, no ancionato, onde havia mais recursos. No ano passado, uma amiga do Bethesda transferiu-se para o lar e a oma também.” Mais idosa da Casa de Repouso Por do Sol, ali Irene se sente à vontade. “Aipim com galinha!” é o que ela responde quando a dona do lugar, Rita Rodrigues, lhe pergunta sobre o prato preferido. “Se pudesse, ela comeria aipim todo dia”, diz Rita. “Ela também foi excelente cozinheira. Eu gostava especialmente da feijoada, inigualável!”, arremata Adenid.

Irene vestiu o filho, cinco netos e até uma bisneta (depois vieram mais duas, às quais se somaram dois trinetos – e mais um que nasce em maio). Talvez, se não fosse o AVC, o caçulinha ainda poderia ganhar um casaquinho feito pela oma...


No comando das rédeas, Gislei Harger, a patroa Zoca, supera desafios ao gerenciar fazenda

Em Santa Catarina, a "joinvilense" nascida em Curitiba figura como a única mulher no comando de um CTG
Fabrício Porto/ND
Zoca formou-se em educação física, mas é na lida com o campo no comando de um CTG que ela vive feliz

 

 

 

“Um dia, numa festa de casamento, os anfitriões não encontravam a mesa com o meu nome. Depois de muita procura, acharam o cartãozinho escrito Gislei Harger. Nem eles sabiam que esse é meu nome!” O divertido “causo” serve para ilustrar uma típica situação em que o apelido supera a identidade. Afinal, Gislei Harger é conhecida simplesmente como “Zoca”, o nome que ganhou de um parente logo que nasceu. “Um tio olhou pra mim e achou que eu tinha cara de ‘zoca’, seja lá o que for isso”, diz a gerente administrativa do CTG (Centro de Tradições Gaúchas) Chaparral. Em Santa Catarina, até onde se sabe, Zoca é a única mulher no comando de um CTG – ainda que seu pai, Tito Harger, seja o “patrão” de fato da entidade.

Os caminhos da vida poderiam ter levado Zoca a alguma quadra de esportes ou clube de futebol, como professora ou preparadora física. “Eu sempre gostei de esportes, e cheguei a me formar em educação física”, conta ela, joinvilense de coração, ainda que tenha nascido em Curitiba, em 1968. “Era bebê quando meu pai aceitou o convite do tio Reinoldo para vir montar uma empresa de transporte urbano em Joinville, que virou a Transtusa. Fui criada na Estrada da Ilha, onde moro até hoje.”

Foi no colégio da Estrada da Ilha que ela e os irmãos Ciro, Sérgio e Dudi estudaram, tendo aulas com a professora Maria Magdalena Mazzolli (que hoje dá nome à escola). Zoca prosseguiu os estudos nos colégios Plácido Olímpio de Oliveira e Bom Jesus, até chegar à Furj (atual Univille), onde se formou em educação física. Até chegou a dar aulas no colégio Olavo Bilac, em Pirabeiraba, no tempo da faculdade, mas não seguiu a profissão. O chamado do campo foi mais forte.

 

“O pau roncava”

 

Zoca seguiu os passos do pai e dos irmãos, integrando-se ao dia a dia da Fazenda Chaparral, na lida do campo, aprendendo a criar cavalos, montar, laçar, administrar... “Aqui o pau roncava, não tinha moleza pra ela!”, comenta o mano mais velho, Ciro, preparando o chimarrão ao qual logo se junta o patrão Tito. Dos irmãos, apenas Sérgio não ficou na fazenda; mas também foi fruto que germinou perto do pé: é administrador de uma empresa de ônibus em Massaranduba.

Zoca detalha: “Eu cuido da gerência administrativa da fazenda e do CTG; o Ciro fica mais no CTG, enquanto o Dudi dedica mais tempo à Fazenda Chaparral”. É lá que é realizado, desde 1994, o Rodeio Crioulo Nacional. “De 1974 a 1990 era sediado na Fundação 25 de Julho; em 91 foi para a Expoville, mas não deu certo; em 92 e 93 fizemos apenas torneios de laço, até que o CTG se tornou sede permanente”, pontua Zoca.

Além de gerenciar a empresa, a patroa também vai à lida sempre que necessário. Conhecedora da equinocultura, tem formação no hipismo clássico e já foi professora, no Joinville Country Club. E a sucessão já está garantida: o filho Lucas, 13 anos, está habituado ao dia a dia no campo e nas tradições. “Ele é gaiteiro, laçador, peão...”, derrete-se a mãe. E ainda tem os sobrinhos Fernando, 24, filho de Ciro, domador e jurado nacional em avaliações de cavalos; e Dudu, 21, “um dos melhores laçadores do Estado”, garante o pai, Dudi.

Os olhos verdes da patroa Zoca brilham mais ainda ao citar o Projeto Viva Ciranda, que o Chaparral mantém em parceria com a Secretaria de Educação, que consiste em mostrar a alunos da rede pública a rotina de uma fazenda. “As crianças vibram com as descobertas da vida no campo!” Assim como a própria Zoca vibra a cada novo dia de trabalho.


Marcos Fritzke herdou o dom do tio, Alitor, e o sucedeu na cozinha da tradicional Harmonia-Lyra

Ele sonhava ser engenheiro mecânico, mas os caminhos o levaram para a cozinha, e hoje ele é um dos ecônomos mais solicitados da cidade
Rogério Souza Jr./ND
Ele foi garçom, auxiliar de cozinha, inovou quando inaugurou, há cerca de 20 anos, o 3 Pratos, e hoje comanda a D'Marcos Buffet

 

 

Até meados dos anos 90, eventos sociais e gastronômicos realizados na Sociedade Harmonia-Lyra, em Joinville, tinham a marca registrada de Alitor Fritzke (falecido há dois anos), ecônomo da tradicionalíssima entidade durante mais de três décadas. Já durante os anos dourados da Lyra, Alitor preparava a sucessão. Por ali andavam, como garçons, auxiliares de cozinha e aprendizes, o filho Dagoberdt, o Dago, e o sobrinho Marcos. Ambos chegaram a suceder o pai e o tio, e Marcos está lá até hoje, agora como proprietário da D’Marcos Buffet, atendendo eventos na própria Lyra, na Expoville e onde seus serviços forem requisitados. “Há uns dois anos, encaramos um desafio de logística num evento para cerca de 1.000 pessoas em Balneário Camboriú”, exemplifica – na ocasião, uma das maiores incorporadoras do balneário trouxe a atriz Sharon Stone como garota-propaganda.

Mas, se dependesse dos sonhos de adolescente, Marcos Fritzke seria hoje engenheiro mecânico. “Cheguei a me formar técnico mecânico na ETT [Escola Técnica Tupy]”, conta. Nascido há 48 anos em Joinville, Marcos se criou no bairro Anita Garibaldi, nas proximidades da atual rodoviária. “Joguei muita bola ali pelos campinhos, com um irmão mais velho e o Gílson”, relembra, citando Gilson Bohn, hoje empresário, dono da loja Olívia Modas.

Após concluir o ensino fundamental no colégio Elias Moreira, Fritzke foi em busca da realização do sonho de ser engenheiro mecânico. O primeiro passo era o curso na ETT. Só que, para ajudar a pagar o colégio, precisava trabalhar. E aí...

 

“O ano passado, de final 13,

teve só um casamento em maio;

para o mês que vem, já temos sete.”


Mudança de rumo e exclusividade

 

“Eu reforçava o orçamento e pagava parte do curso trabalhando na Lyra, com o tio Alitor.” Lavando pratos, servindo a freguesia e, principalmente, auxiliando na cozinha, Fritzke foi pegando o jeito e gostando da arte culinária. Resultado: formado técnico mecânico, foi fazer um curso de culinária em São Paulo e continuou trabalhando com o tio. “Tinha uma aptidão natural para a cozinha, tanto por ter precisado ajudar em casa, quanto por acompanhar meu pai, que além de alfaiate era churrasqueiro muito requisitado.”

Em 1992, com uma boa bagagem profissional, partiu para o negócio próprio, e abriu o restaurante 3 Pratos, ao lado de casa, na rua Concórdia. “Era uma proposta nova para a época, de ser um restaurante executivo e rotisseria, a partir de três opções de pratos”, conta, justificando o nome do empreendimento. “Durante muito tempo, a feijoada foi o carro-chefe do 3 Pratos.”

Dez anos depois, Fritzke fechou o restaurante (hoje mora lá, após uma reforma) e retornou à Lyra, agora na qualidade de ecônomo. “A realidade era outra, a sociedade já não promovia os eventos, mas locava o espaço para terceiros.” Com um contrato de exclusividade, em 2005 o chef-empresário criou a D’Marcos Buffet, comprou o primeiro caminhão-cozinha e foi rodar a região. Chegou a comandar algum tempo os espaços gastronômicos do Sargentos e da Piazza Itália e, atualmente, além da base na Lyra e da cozinha itinerante, é o ecônomo da Expoville. “O maior desafio até agora foi a convenção nacional dos lojistas, em 2003, quando atendemos mais de 3.000 pessoas.”

Ao primeiro caminhão, soma-se a mais um, além de veículos de apoio. E a tradição familiar se mantém: enquanto Fritzke encabeça a administração, a mulher, Valvete, cuida do financeiro e o filho Bruno se encarrega da Expoville. “Nesse ramo, a atualização, tanto tecnológica quanto de conhecimentos, é constante. O aprendizado não para nunca”, garante Marcos Fritzke, mostrando uma foto em que ele e a mulher posam ao lado de outros empresários da gastronomia joinvilense durante uma feira realizada em Las Vegas, no mês passado. “O melhor de tudo é que aqui não há rotina”, conclui, encerrando a entrevista para recepcionar uma família que veio ao restaurante da Lyra para uma degustação do que será servido no casamento dos filhos.

 

 

Serviço

D’Marcos Buffet para Eventos

Rua 15 de Novembro, 485 (ao lado da secretaria da Lyra)

Telefone 47/3433-0118 / 3422-2119

Email: contato@dmarcosbuffet.com.br


Família Erzinger comemora data como nos velhos tempos, com união, fé e chocolates

Para a matriarca Norma, a Páscoa ainda tem sabor de infância e família. E a reunião, pelo menos até o almoço de domingo, é sagrada
Rogério Souza Jr./ND
Norma Erzinger já está com a casa preparada e as guloseimas para presentear aos familiares

 

 

Guardar silêncio sexta e sábado, levantar bem cedo no domingo, assistir ao culto das 7h, voltar pra casa, procurar a cestinha, curtir o almoço com a família reunida, comer os ovinhos e coelhinhos de chocolate aos poucos, para que durem o máximo possível. “O problema era que o Mópi era um danado, acabava logo com os dele e avançava nos chocolates dos irmãos.”

Com a divertida ressalva feita ao mano, Norma Lütke Erzinger relembra as Páscoas de antigamente, passadas com a família no Rio da Prata. Muito das tradições, ela procura hoje, aos 73 anos, conservar. Sua casa, no centro de Pirabeiraba, tem enfeites pascoalinos, algumas cestinhas estão prontas e, no quarto, os mimos para a família só esperam o domingo para ser distribuídos. Só entre adultos, por enquanto: “Os filhos e os netos já estão criados, mas espero que logo venham os bisnetos”, ressalva, apresentando filhos, genros, noras e netos num grande quadro na parede.

As lembranças da infância são nítidas na memória de Norma, segunda dos quatro filhos de Max Lütke e Elisa (nascida Hardt). “Eu fiz o primário numa escola isolada perto de onde morava. A estrada ainda era rota de carroções que desciam a serra. Eu ainda era criança quando minha mãe morreu, mas ela ainda teve tempo de me iniciar na arte da costura. Fiz curso e trabalhei muito costurando roupas.” Norma só parou de costurar para fora quando se casou com Adomir Erzinger, em 1962, e foi morar com os sogros, na rua Conselheiro Pedreira, no centro do distrito.

“Conheci meu marido numa domingueira, acho que foi no salão Brüske”, puxa pela memória. O casal tem dois filhos, Leila e Sandro, ambos à frente da empresa da família, a Erzinger Indústria Mecânica, dedicada à fabricação de máquinas e equipamentos para pintura industrial. Dos quatro netos, dois também trabalham na empresa (que fica na rua Miguel Erzinger, tio de Adomir).

 

 

Reprodução/ND
Foto da família, de um passado recente e de data desconhecida, do tempo em que os netos, hoje adultos, ainda eram crianças

 

 

Lembranças da Páscoa

 

No dia da entrevista, dona Norma aguardava a reportagem com uma folha, escrita em bela letra cursiva, onde conta como é a Páscoa da família. Muito ainda é parecido com aquelas passadas no Rio da Prata, com os pais Max (o Opa Max, falecido em 1993) e Elisa e os irmãos Nelson, Norberto (o Mópi, também falecido) e Asta. “Gosto muito de escrever”, salienta, mostrando o texto reproduzido a seguir:

 

“Nós gostamos de festejar a Páscoa em família. No Domingo de Páscoa vai a família toda no culto para louvar a Deus, pelo seu grande amor por nós. Isso começa às 6h da manhã. É um culto em que a igreja fica cheia, tem coros cantando e tocando instrumentos musicais. Depois do culto é servido um gostoso café com doces e salgados na casa da comunidade. A continuação é em casa, todos ainda têm que procurar ovos de chocolate. Isso serve pra aumentar a alegria da Páscoa. Mas o verdadeiro sentido da Páscoa é Jesus ressuscitado, é reunir nossa família sempre neste dia na nossa casa. Filhos, netos e a vó Minka. A família todo ano aumenta, graças a Deus. Meio-dia almoçamos todos juntos. Depois, cada um pode fazer seus programas, visitar afilhados, etc. Este é o nosso jeito de comemorar a Páscoa, como muitas famílias ainda fazem. É muito gostoso festejar datas especiais com a família em casa.”

Com esta mensagem, dona Norma e o ND desejam Feliz Páscoa a todos os leitores.

 

Perfil sugerido pelo pastor Carlos Krüger, da paróquia luterana de Pirabeiraba


Joinvilense Dennis Prants se orgulha de ser o primeiro atleta profissional brasileiro de football

Quando poucos haviam ouvido falar, ele decidiu investir no futebol americano, conquistou profissionalização e muitos títulos, mostrando que além de pioneiro é um vencedor
Henrique Porto/Avante/Divulgação/ND
Denis à frente do Jaraguá Breakers

 

Dennis Prants tinha 19 anos quando pegou, pela primeira vez, uma bola de futebol americano. “Foi um americano que morava perto do Fluminense que me apresentou ao football. Desde então, a bola oval passou a fazer parte da minha vida e hoje, além de me proporcionar um bom currículo, o esporte é minha profissão.”

Aos 42 anos, Prants se orgulha de abrir o currículo com a expressão “primeiro atleta profissional do país” no esporte – além, claro, de listar uma invejável coleção de títulos, tanto pelos clubes pelos quais passou, quanto individualmente (foi várias vezes eleito MVP, “most valuable player”, ou melhor jogador).

Criado no Itaum, Prants iniciou a carreira escolar no colégio Monsenhor Scarzello. Sonhava ser goleiro do São Paulo, quando conseguiu uma bolsa de estudos no Elias Moreira. “Pelo Elias, onde fiquei até concluir o ensino médio, fui goleiro, joguei basquete e vôlei e pratiquei atletismo. Cheguei a ter índice no salto em altura para disputar os Jasc, mas a essa altura já estava fascinado pelo football.”

O fascínio só aumentava à medida que Prants mais aprendia sobre o esporte. “Na época, mal sabia alguma coisa em inglês, e não havia as facilidades de hoje, com programas de tradução online. Eu ia até a Biblioteca Pública com as obras e regras sobre o esporte e traduzia com a ajuda de dicionários.”

O início, baseado no empirismo, foi se transformando em conhecimento acumulado. A prática, em parte, foi executada perto de casa: “No CSU do Itaum havia um time de rúgbi, e ali comecei a ensinar a rapaziada a jogar futebol americano”. Resultado: a equipe trocou o rúgbi pelo football e, em 1991, nascia o Joinville Blackhawks (falcões negros), primeiro time brasileiro de football na grama.

 

“O futebol americano é mais técnica do que força.

O atleta precisa ter integridade, caráter, coragem e classe.”

 

Uma potência chamada Panzers

 

Em 1994, já com boa experiência, Prants mudou o nome do clube para Panzers, mais adequado à tradição germânica da cidade (panzer é uma abreviação de "Panzerkampfwagen", termo alemão para "veículo blindado de combate"). Tal e qual um tanque, o time passava por cima dos adversários: de 1998 a 2002, foi três vezes campeão do Torneio Integração (e Dennis Prants foi MVP nas três edições), seguindo-se o campeonato sul-brasileiro de 2003 (invicto, Prants novamente eleito melhor jogador), Troféu Joinville em 2005 e tricampeão catarinense de 2006 a 2008.

Especializado na posição de “quarterback” (o jogador encarregado de executar os lançamentos), Dennis Prants abriu a primeira escola de football do Brasil, em 2004. Em 2007 foi convocado para a Seleção Brasileira e, no ano seguinte, assinou contrato profissional com o Arsenal, de Cuiabá. Nos dois anos em que morou na capital mato-grossense, trabalhou também na escola de futebol americano mantida pelo Sesi local. Precisou encerrar a carreira como jogador em 2009, com um joelho estourado (“Já quebrei um monte de ossos, e tenho o corpo cheio de parafusos e pinos”, acrescenta, mostrando as cicatrizes). Assumiu então a direção técnica do Brasil Breakers, de Jaraguá do Sul, já ostentando o título brasileiro – invicto – de 2013.

“Mais que força, como muitos pensam, o football é um esporte de muita estratégia e raciocínio. Como quarterback, aprendi a lançar a bola sempre analisando a posição da defesa adversária, e não apenas a dos atacantes do meu time. A estratégia traçada pelo nosso time pode exigir uma mudança total, dependendo do posicionamento tomado pelo adversário. E as decisões precisam ser tomadas em alguns segundos.” Como treinador, Prants valoriza ao máximo a prática de fundamentos. “Quando jogava, eu saía dos treinos com o braço dolorido, de tanto executar lançamentos. Você pode até nascer com um dom para o esporte, mas jamais terá destaque se não aperfeiçoar os fundamentos.”

 

 

Divulgação/ND
Dennis à frente da seleção brasileira: carreira de jogador foi encerrada em 2009, mas como técnico ele ainda tem muito fôlego para ir em busca de mais títulos

Valdir Batista se dedica aos produtos orgânicos, um ofício que surgiu com a aposentadoria


Rogério Souza Jr./ND
Valdir Batista no sítio da Estrada Neudorf, onde ele encontrou um novo sentido para a vida ao descobrir um mercado em crescente expansão

 

Morador da rua Valentim Montibeller, perto do terminal de ônibus do bairro Vila Nova, Valdir Batista passa a maior parte do tempo na Estrada Neudorf, periferia da região onde é produzido arroz irrigado, a cultura economicamente mais forte do meio rural de Joinville. Em sociedade com um amigo, é dono de um sítio de 300 mil metros quadrados (90% cobertos de mata atlântica), onde cultiva maracujá, aipim, abacaxi, cana-de-açúcar e banana. A produção é absorvida por uma freguesia fiel, daquela que se pode chamar de carteirinha.

O interesse pelos produtos de Batista tem bom motivo: tudo é cultivado sem uso de agrotóxicos ou adubos químicos. “Daqui, só sai produção genuinamente orgânica. E freguês é o que não falta”, destaca.

A freguesia do produtor da Estrada Neudorf deverá aumentar ainda mais, pois ontem ele e mais sete agricultores de Joinville receberam o Certificado de Conformidade Orgânica, expedido pela Rede Ecovida, entidade credenciada pelo Ministério da Agricultura para estimular a cadeia de produtos livres de agrotóxicos e adubos químicos. “Vale dizer que esta conquista é importante por nos abrir as portas de todos os comércios da cidade que trabalham com produtos orgânicos”, salienta.

 

Trajetória profissional  


Nascido há 51 anos em Ilhota, Batista passou a infância em Guaramirim, onde a família dedicava-se ao ramo agrícola. Foi nesse tempo que afeiçoou-se à terra e apaixonou-se por plantas medicinais cultivadas pela avó paterna.

Ainda menino, mudou-se para o bairro Vila Nova, na zona Leste de Joinville, onde continua até hoje. Sua trajetória profissional teve início aos 15 anos, ao arrumar emprego numa olaria. Posteriormente, trabalhou em um abatedouro de bovinos, de onde saiu aos 20 anos, ao ser aprovado em concurso público para a admissão de soldados da Polícia Militar. Ao todo, foram 25 anos de farda, com a qual começou como soldado e chegou a subtenente. 

Ao fazer uma retrospectiva do tempo de policial, Valdir não esconde uma pontinha de orgulho. “Por ser muito disciplinado, dediquei-me com afinco para conquistar o posto máximo entre os praças. Coroei com brilho minha trajetória nas fileiras da Polícia Militar”, enfatiza.

Dos tempos de farda, lembra com saudade o período de oito anos e quatro meses em que comandou o então destacamento da Polícia Militar em São Francisco do Sul. Também fala com carinho especial da Companhia de Proteção Ambiental de Joinville.  “Por me identificar com o mundo da roça solicitei transferência para a Companhia de Proteção Ambiental, de onde saí 13 anos mais tarde, ao me aposentar. Conheço todo o interior de Joinville como a palma da mão”, garante.

 

Novo começo com capacitação técnica


Com a aposentadoria, Batista decidiu que era hora de recomeçar em alguma atividade que continuasse lhe dando prazer. Foi assim que transformou-se em agricultor de produtos orgânicos, entre os quais destaca-se uma horta medicinal. “Antes de começar nessa nova etapa tratei de buscar capacitação técnica por meio de cursos na Fundação Municipal 25 de Julho e na Epagri. Sem isso, não teria sucesso”, ressalta. 

Além da produção orgânica, o sítio tem trilhas na mata e funciona como sede campestre do grupo de escoteiros do bairro Vila Nova, ao qual ele presta apoio desde sua fundação.

Com disposição invejável, veste calção uma por semana para jogar bola com os amigos na Sociedade Palmeiras. De quebra, também participa de um grupo teatral. No momento, está deixando a barba crescer para encarnar a figura de um sacerdote, papel que desempenhará durante a encenação da Paixão de Cristo que será realizada na Semana Santa por um grupo de atores amadores ligados à paróquia Nossa Senhora Medianeira. “Quando há organização, é possível fazer inúmeros trabalhos sem atrapalhar a agenda”, salienta o ex-policial.


Nos campos e na vida pública, o araquariense Paulino Travasso procura dar sempre o melhor de si

Criado em meio à natureza, o hoje secretário de Turismo, Esporte e Lazer de Araquari destaca que levar lazer aos bairros é uma de suas bandeiras. Também não descuida do esporte, sempre em busca de um artilheiro tão talentoso como ele ainda é
Fabrício Porto/ND
Paulino continua vestindo a camisa do seu time, o 7 de Setembro, que também preside

 

 

De todos os sentimentos que preenchem o coração de Paulino Sérgio Travasso, nenhum é maior que o amor por sua terra. Ainda que, em seus registros, conste Joinville como local de nascimento, é Araquari que ele considera seu “ninho”. “Nasci na Darcy Vargas por força das circunstâncias, era a maternidade mais próxima. Mas fui criado em Araquari, aqui estou construindo minha vida e a família, e tudo que faço é pensando no bem da minha cidade”, garante Paulino, que na semana passada, como secretário de Turismo, Esporte e Lazer, concentrava esforços nos últimos detalhes da programação dos 138 anos de emancipação do município, comemorados dia 5. Paulino nasceu em 1968.

Primeiro filho de um agricultor de Massaranduba e de uma professora araquariense, criou-se em meio à natureza, jogando pêca, nadando no rio Parati e, principalmente, jogando bola, muita bola. “Por aqui, nunca faltaram campinhos e pastos, e jogar era o que eu mais gostava”, assegura. Bom de bola, tornou-se artilheiro pelos times que defendeu, usando as camisas 9 ou 7.

A carreira começou – e continua – no Sete de Setembro Futebol Clube. “Comecei no infantil, no então chamado ‘Setinho’. Um dia, após um amistoso contra o JEC, o professor Afonso me convidou pra jogar lá.” Paulino ficou três anos no Tricolor, contabilizando o título da Copa São Paulo infanto-juvenil, em 1985. “Marquei o gol do título, na vitória sobre a Ponte Preta por 2 a 1”, frisa, mostrando a foto do time com as faixas, ganhas numa preliminar do JEC no Ernestão e lamentando não estar ali: “Cheguei atrasado e não saí na foto”. Chegar na hora, por sinal, era uma das obrigações de Paulino – ou “Paulinho”, como o chamava a mãe – no tempo de JEC. “Entrei com 13 anos no Banco do Brasil, como menor aprendiz. Precisava conciliar o trabalho, os estudos no colégio Almirante Boiteux e os treinos em Joinville. Algumas vezes, perdi o ônibus e precisei ir de bicicleta até o Ernestão.”

Aos 17 anos, aprovado em concurso interno, foi efetivado no banco e precisou deixar o JEC. Tomou conta, então, da camisa 9 do Sete, agora no time principal. Passou depois pela Tupy (campeão da Primeirona), júnior do Atlético Paranaense, Atlético de São Francisco (campeão e artilheiro da Liga Francisquense) e assinou seu primeiro contrato como profissional, no Juventus de Jaraguá, onde passou a temporada de 1990, disputando o Catarinense da 2ª Divisão. “Ganhamos o primeiro turno e fomos vice-campeões, subindo para a 1ª Divisão. Mas aí não dava mais para conciliar o futebol e o emprego no banco, e desisti do profissionalismo.”

Como amador, Paulino ainda jogou pelo Continental de Rio Negrinho, pelo Amizade de Guaramirim, pelo Caxias e encerrou a carreira no seu querido Sete de Setembro. Assumiu cargos na diretoria e, desde 2010, é o presidente do clube – além, claro, de camisa 9 do time master.

 

 

Reprodução/ND
Paulino quando defendeu o Juventus, de Jaraguá do Sul

 

 

Carreira pública

 

Casado com a barra-sulense Rosilda, Paulino é pai de Andréia, 23 anos, Paulo, 19, Andressa, 12, e Amanda, 10. Também contabiliza muitas conquistas em nível comunitário: “Fui um dos fundadores da Apae, fui presidente da APP do Colégio Almirante Boiteux, da AABB, do Corpo de Bombeiros Voluntários e coordenador da Festa do Maracujá”.

Pelo PMDB, foi vereador de 1992 a 2004; naquele ano, pelo PSDB (do qual é o atual presidente do diretório municipal) elegeu-se vice-prefeito; e desde a primeira gestão do prefeito Woitexen é secretário de Turismo, Esporte e Lazer. “Uma de nossas bandeiras – comenta – é levar esporte e lazer aos bairros. Para isso, contamos com diversas parcerias entre poder público e entidades do município.” Entre elas, a escolinha de futebol do Sete de Setembro. Talvez surja ali um novo artilheiro.


Do outro lado do mundo

Made in Taiwan. Simone Chuang faz carreira como intérprete em mandarim
Gisella Müller/ND
Outro sotaque. Formada em turismo, Simoni vislumbrou nicho de mercado e abriu a CHW (iniciais do seu nome) South America Trade Estúdio, com serviços de intérprete e aulas particulares de mandarim

 

Imagine você, leitor, nascido em Joinville ou qualquer outra cidade da região, trocando sua cidade, aos 15 anos de idade, por um lugar no lado de lá do planeta. A China! Outra cultura, um idioma quase impronunciável, a necessidade de sobreviver e, como apoio, alguns conhecidos para dividir moradia e dar algumas dicas. Pois foi exatamente essa a experiência vivida por uma jovem, há 17 anos, mas em sentido inverso. Chuang Hsiao Wen deixou sua cidade-natal, Zhang Hua, no Oeste de Taiwan, a principal ilha do país que se desmembrou da China em 1949 e se tornou a China Nacionalista. “Rebatizada” por uma amiga como Simone (a pronúncia mais próxima de Hsiao Wen, seu prenome), tornou-se uma referência em Joinville como intérprete do idioma mandarim. “Consegui me adaptar muito bem aos costumes locais, faço um trabalho que me realiza e ainda pude trazer minha mãe e um irmão para cá”, diz, com um sorriso contagiante e num português quase impecável. “Só falta dizer ‘capaz’! pra virar joinvilense”, brinca – mesmo que a língua insista em trocar R por L.

Simone – chamemo-la assim, já que desse modo está em seu cartão de visitas – nasceu em 1982 em Zhang Hua (ou Changhua), no litoral Oeste, região central da ilha de Formosa. “Não tínhamos praias, já que a maior parte da ilha é rochosa. Só há praias no Sul, longe de onde minha família morava. A principal opção de lazer para as crianças de lá são os parques de diversões, muito comuns em Taiwan.”

Quando fez 15 anos, Simone atravessou o mundo em direção a Joinville, onde residiam alguns conhecidos. “Demorou uns seis meses até aprender alguma coisa em português. Aí continuei os estudos, nos colégios Germano Timm e Rui Barbosa”, conta, guardando boas lembranças de uma “república taiwanesa” criada no Saguaçu, local em que morou.

 

Fotos Acervo pessoal/Divulgação/ND
Recordações. Em 2009, em uma loja típica de chineses em Taiwan

 

Mais recente. Em 2001, quando acompanhou empresários brasileiros em evento de negócios na China

 

Da feirinha às grandes empresas
Artesã desde a infância, Simone fez de uma barraquinha na feira de artesanato seu primeiro ganha-pão em Joinville. Especializada em macramê, faz belas obras, principalmente remetendo à cultura oriental. Depois da barraca, investiu numa loja, mantendo durante três anos a Casa Oriental, na rua São Paulo.

Há dez anos, formada em turismo pela Faculdade Cenecista, viu na função de intérprete um novo nicho. “Com a abertura da China continental, muitas empresas passaram a fazer negócios e importar equipamentos. Foi o caso do meu primeiro trabalho, na Schulz, servindo de intérprete entre o pessoal local e os técnicos chineses que vinham instalar equipamentos.”

Simone domina o mandarim e conhece vários dos inúmeros dialetos derivados do idioma. À Schulz seguiu-se a Embraco, ela foi ficando cada vez mais conhecida e os trabalhos não pararam de aparecer. Há três anos Simone abriu sua empresa, a CHW (iniciais do seu nome) South America Trade Estúdio, com serviços de intérprete e aulas particulares de mandarim. O cartão de visitas, bilíngue, teve a colaboração da irmã artista, o irmão juntou-se ao negócio e a agenda fica cada vez mais cheia (a entrevista ao ND, por exemplo, precisou ser marcada para uma manhã de sábado, pois desde fevereiro Simone dá expediente integral na ArcelorMittal Vega, em São Francisco do Sul, de segunda a sexta, ministrando um treinamento).

A cultura oriental, além do idioma e do artesanato, logo estará se manifestando de outra forma: “Em maio vou abrir um restaurante vegetariano e vegano oriental”. Assim que a casa estiver pronta, Simone Chuang promete convidar os joinvilenses. “Quero receber as pessoas tão bem quanto fui recebida aqui.”


Médica Marilin Garcia Baran se aposenta após dedicar mais de 40 anos à saúde pública

Ela ousou e resolveu dedicar a vida à medicina quando a presença de mulheres era bem rara nesta profissão
Rogério Souza Jr./ND
Marilin não é mulher de planos, ela sempre deixou a vida lhe levar, e agora, com mais tempo para dedicar a si própria, continuará neste mesmo ritmo

 

Ao iniciar o ensino médio, com 15 anos, Marilin ainda não decidira qual profissão seguiria. “Antes de terminar o científico, porém, eu já sabia que seria médica. Ainda que muitas pessoas argumentassem que não era a profissão mais adequada para uma mulher, fui em frente, estudei, me dediquei e agora posso garantir que valeu a pena”, diz a médica Marilin Terezinha Garcia Baran, agora aposentada, após completar 70 anos – os últimos 37 dedicados ao serviço público, em Araquari. “Pelo calendário, ainda sou uma mocinha”, brinca, aludindo ao fato de aniversariar no dia 29 de fevereiro.

Foi na cidade paranaense de Ponta Grossa que Marilin passou a infância e parte da adolescência. Tinha 14 anos quando a família mudou-se pela primeira vez, em função do emprego do pai, funcionário do Banco do Brasil. “Fomos morar na cidade de Goiás. Há quem chame de ‘Goiás Velho’, mas o nome do município é Goiás mesmo”, frisa. Entre as lembranças da pequena cidade, diverte-se com as diferenças de sotaque. “Os colegas ficavam esperando a chamada, quando eu respondia ‘presente!’, pronunciando todas as letras, e não ‘presenti’, como os outros”, conta, ainda preservando o forte acento paranaense – reforçado com os anos que passou em Curitiba, após uma breve passagem por Florianópolis.

De Curitiba, em 1964 Marilin retornou à capital catarinense, desta vez sozinha, para fazer a faculdade de medicina na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). “Criamos lá um ‘paraíso do estudante universitário’, que depois virou a Casa do Estudante, da qual cheguei a ser presidente.” Também foi líder estudantil, participou do diretório acadêmico, cantou no coral e jogou vôlei pelo time da medicina. No terceiro ano, após integrar uma missão do Projeto Rondon à Amazônia, decidiu se especializar em saúde pública.

 

 

Arquivo Pessoal/ND
No diário, recortes de fotos que mostram Marilin e colegas partindo em missão do Projeto Rondon

 

 

Carreira como sanitarista

 

O tal alerta de que “isso não é profissão para mulher” foi transformado em obstinação. “Até então, de fato, eram raras as mulheres fazendo medicina. Mas na minha turma éramos dez moças. Hoje, como se pode constatar, a presença feminina é forte na profissão.”

Durante as missões do Projeto Rondon, que também a levaram ao vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, Marilin constatou uma realidade diferente da que se habituara a ver: “Vi como eram duras as condições de vida nas palafitas às margens do rio Solimões, e o sofrimento das populações indígenas.” Sua expedição à Amazônia está relatada num diário, com fatos e fotos da aventura.

Ainda na faculdade, Marilin participou de ações sociais promovidas pela Polícia Militar e chegou a trabalhar – “Ganhando salário!” – no hospital da PM, em Florianópolis. E não desperdiçava convites para viagens: “Aproveitava todas as oportunidades, tanto para aprender mais, quanto para conhecer outros lugares”. Formada em 1970, passou um ano no Instituto de Higiene de São Paulo, antes de retornar a Curitiba, onde ingressou no serviço público. Casou-se, teve quatro filhos e, em meados dos anos 70, topou novo desafio: “Como já tinha feito um curso de administração hospitalar, assumi a gestão do hospital de São João Batista, incluindo o posto de saúde de Canelinha”. Também atendia num consultório, o que exigia dedicação quase integral. Decidiu que era hora de se mudar novamente a partir de um episódio. “Estava com a família na ceia de Natal, quando vieram me chamar para atender uma emergência. Fui tirar chumbinho da bunda de um sujeito flagrado por um marido enfurecido. Ali decidi procurar um trabalho diferente”, diverte-se.

 

“Eu não sou muito de fazer planos,

gosto de ir levando, vivendo um dia

de cada vez. Tempo é questão de preferência.”

 

O destino, então, foi Joinville, a serviço da Regional de Saúde. Instalou-se no bairro Costa e Silva, no mesmo endereço em que ainda reside, e pegou outro desafio: “A Regional abrangia desde Porto Belo até Porto União. Viajei muito!”. Em 1977, assumiu a gestão do Hospital Senhor Bom Jesus, em Araquari, passando depois para a Secretaria de Saúde, onde exerceu sua profissão de sanitarista até a aposentadoria, ao completar 70 anos.

Agora, espera ter mais tempo para viajar, dedicar-se à pintura de quadros, alimentar os pássaros que povoam o pomar que cerca a casa, cuidar da cachorrada...


O talentoso sapateiro Neso relembra o título que conquistou pelo Caxias: Campeão Catarinense de 54

Eufrásio Pereira de Mira vive entre as lembranças dos campos de futebol e o trabalho diário na sapataria do bairro Guanabara

Fotos Rogério Souza Jr./ND
Maria, a eterna namorada, junto com o marido: uma relação que eles nem lembram mais quanto tempo faz, mas está prestes a completar sete décadas

 

Revirar o improvisado arquivo de fotos, muitas delas já reproduzidas e ampliadas, é um prazer para Eufrásio Pereira de Mira. Ali estão imagens dos campos de futebol e dos times nos quais ele jogou, conhecido como Neso. “Faz 60 anos que fui campeão catarinense”, orgulha-se, mostrando a foto do elenco do Caxias F. C. já com as faixas de campeão catarinense de 1954 – mesmo ano em que o clube adotou o pinguim como mascote e ganhou o apelido “Gualicho”, nome de um cavalo preto com mancha branca, papão de páreos nos hipódromos brasileiros.

Recentemente, a reportagem do ND voltou à sapataria do Mira, no Guanabara, cinco anos depois da primeira entrevista – o Perfil do sapateiro, devidamente emoldurado, está pendurado logo na entrada. Desta vez, ele está usando a camisa do JEC, ansioso pela final do campeonato, que acompanha pela televisão. “Me deu uma artrose no joelho, e é difícil ir à Arena”, justifica, mostrando a perna direita enfaixada.

Agora, como há cinco anos, a entrevista é constantemente interrompida para que o sapateiro atenda os fregueses que não param de entrar, trazendo sapatos e tênis para consertar. “Esse fica por 5 pilas, pode pegar amanhã cedo. Ah, quer pagar adiantado? Então já fica pronto hoje no fim da tarde”, diz Mira, entregando o troco ao cliente que trouxe um tênis para consertar.

Outra presença constante na sapataria, como uma segurança particular, é a cadela Perla, “o único cachorro que ri”, como garante o ex-meia do Caxias. Logo em seguida chega Maria, a companheira inseparável há 68 anos. Surgem controvérsias quanto à data do casamento. “Foi logo após a Segunda Guerra, em 1947”, informa o marido, nascido em 15 de maio de 1926. “Que nada, faz 68 anos que aguento ele”, corrige Maria, nascida Cidral, em 19 de junho de 1928. “Isso aqui era caminho de roça, tinha só uma vendinha ali adiante”, relembra Maria, olhando pela janela para o bairro Guanabara, onde nasceu e foi criada. “Meu pai era carroceiro da Buschle & Lepper, e eu trabalhei numa fábrica de celulóide”, lembra, provavelmente se referindo à Fábrica de Celulóide João Hahmann. Foi justamente na época da fábrica que Maria conheceu Neso.

Ele conta: “Além da sapataria, eu tinha uma barraquinha de garapa, onde o pessoal da fábrica fazia lanche. Ela era a mais bonita de todas”. O elogio não é cascata de marido apaixonado, e pode ser comprovado numa foto de Maria no esplendor da juventude. “Veja como ela era mesmo linda”, derrete-se a filha, também Maria, uma dos sete filhos do casal – de cinco anos para cá, a quantidade de netos aumentou para 17 e de bisnetos, para 18.

 

Arquivo Pessoal/ND
"Ela era a mais bonita de todas", diz o apaixonado marido, sobre sua eleita

Lembranças dos campos

 

A trajetória de Neso pelos campos de futebol começou no juvenil do Caxias, em 1940, passando pelo Flamengo (clube que tinha sede social no Bucarein, onde hoje é o Círculo Operário), Floresta (o campo ficava onde atualmente se ergue o ginásio Florestão), Estiva e Santos da avenida Cuba. Em 1953 e 54 foi profissional, bicampeão catarinense pelo Gualicho. “Estas são as melhores recordações da carreira”, diz o ex-camisa 10, referindo-se ao bicampeonato. Já veterano, ainda jogou pelo time do Moinho (na época Samrig), onde trabalhou.

Assim como em setembro de 2009, ele está otimista com o JEC: “Vamos ser campeões!”.


Valdir Steglich divide-se entre a medicina, as aulas, o Bolshoi e a família

O atleta que virou médico conheceu a dança por causa da filha, que acabou se formando médica, e hoje preside o conselho administrativo do Bolshoi no Brasil
Rogério Souza Jr./ND
Valdir Steglich, gaúcho de Ijuí, tem uma agenda atribulada, mas com espaço para o Bolshoi

 

Se hoje Valdir Steglich pode comemorar conquistas alcançadas na profissão, houve um tempo em que as honrarias vinham em forma de medalhas. “Era apaixonado por atletismo, especialmente as provas de fundo, e virei ortopedista justamente para me manter ao lado do esporte”, diz o médico, recordista gaúcho dos 1.500 metros no tempo de estudante – além de bom jogador de vôlei, outra de suas paixões.

Agora, aos 58 anos, a atividade física se resume ao necessário para manter a saúde e a boa forma. Ficou, porém, o amor pelo Grêmio, ao qual se somaram a mulher, a filha, a profissão, Joinville, o JEC, o Bolshoi... “A agenda diária é bem pesada, mas procuro me organizar para que tudo tenha seu tempo.”

Nascido a 13 de setembro de 1955 em Ijuí, no Noroeste gaúcho, o primogênito dos três filhos dos Steglich teve uma infância típica de uma então pequena cidade do interior: “Era um piá ativo, gostava de esportes e de leitura, hábito estimulado por meu pai”. A carreira estudantil foi feita no Colégio Evangélico Augusto Pestana, onde também se destacou como atleta: “Participava de tudo que era competição estudantil, sempre com destaque para o atletismo e o vôlei. Cheguei a ser campeão e recordista gaúcho dos 1.500 metros”.

Foi como estudante secundarista que Steglich teve despertada a vocação para a medicina: “Ainda que minha bisavó vaticinasse que eu não seria um bom médico, decidi seguir essa carreira. Queria ser ortopedista”.

 

 

Arquivo Pessoal/ND
Na formatura, junto com a mulher, Eoda, "a morena bonita" que despertou paixão imediata durante uma aula de anatomia

 

Paixões no campus

Aprovado no vestibular da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), Steglich morou durante um tempo numa pensão, antes de se mudar para um apartamento adquirido pela família, quando os irmãos iniciaram a vida universitária. Nos fins de semana, graças aos pouco mais de 170 quilômetros de estrada, o destino era a cidade-natal.

Durante a faculdade, o esporte seguia lado a lado com os estudos. “Entrei para as seleções universitárias de atletismo e vôlei, participei de competições internas e também em nível nacional."

Mas logo a agenda precisou abrir mais espaço, ao surgir uma nova paixão. “Foi numa aula de anatomia. Eu me sentava logo na entrada, e vi quando entrou uma linda morena. Foi paixão imediata!” A morena em questão se chamava Eoda, vinha de Faxinal do Soturno e também cursava medicina.

Entabulado o namoro, casaram-se em setembro de 1981, último ano do estágio – que Valdir fez no Hospital Independência (atual Ulbra), em Porto Alegre. Em 1983, nasceu Raquel, hoje dermatologista como a mãe (“Ela fez residência no mesmo hospital da mãe”, frisa Valdir). Quatro anos depois, nasceu Gustavo, que chegou a jogar nas categorias de base do JEC e, profissionalmente, no Piacenza da Itália.

Valdir Steglich veio a Joinville pela primeira vez em 1991, para participar de um congresso. No ano seguinte voltava, em definitivo, ao aceitar um convite para trabalhar no IOT, o Instituto de Ortopedia e Traumatologia. Trouxe a família em 93, tornou-se sócio e hoje é diretor administrativo do instituto. A ligação dos Steglich com o Bolshoi começou quando Raquel, bailarina desde os cinco anos, ingressou na escola. Formada, passou uma temporada na Rússia, até se decidir pela medicina.

Steglich assumiu a presidência do Conselho Administrativo em 2006, e desde então divide a agenda entre o IOT (dirigindo e clinicando), o Bolshoi, o Hospital São José, a Univille (dá aula uma vez por semana) e a família. “Quem manda na minha agenda são as mulheres”, brinca, referindo-se a Eoda, Raquel, secretárias do IOT e da Univille e à diretora-administrativa do Bolshoi, Célia Campos.


Maikon esteve entre os alunos pioneiros do Bolshoi e agora, professor, formará a primeira turma

Um convite inusitado, feito na escola onde estudava, aos sete anos, o jogou no mundo da dança
Rogério Souza Jr./ND
Professor Maikon vive a expectativa de formar a primeira turma, de dez meninos

 

 

O título deste Perfil pode ser interpretado de duas formas por Maikon Renan Golini, funcionário da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, há quase cinco anos: “Fiz parte do primeiro grupo a se formar no Bolshoi, em 2009, e no mesmo ano fui convidado a permanecer na escola, como professor. No final de 2014, vou formar minha primeira turma, de dez meninos”. O sorriso constante e o carisma comprovam o quanto Maikon gosta do que faz e como é respeitado pelos alunos.

A história começa em 11 de abril de 1992, quando nasceu o primeiro dos cinco filhos dos Golini. “Nasci em Joinville, fui criado no Boa Vista e moro lá até hoje. Aos 5 anos, minha família mudou-se para Belo Horizonte, em função do trabalho do meu pai, mas retornamos dois anos depois”, conta Maikon, que fez a carreira escolar nos colégios Castello Branco e Germano Timm.

Ele era aluno do primeiro ano do Castello, no final de 1999, quando uma interrupção na aula mudaria toda a sua vida. “Vieram perguntar quem gostaria de fazer teste para entrar na Escola Bolshoi, que seria aberta no ano seguinte. Até então, com sete anos, eu não tinha a menor ideia do que fosse balé, muito menos de uma companhia chamada Bolshoi. Após a apresentação, porém, acabei me inscrevendo, só pra ver no que dava.” No teste, feito no próprio colégio, a surpresa: “Passei em nono lugar!”.

 

 

Arquivo Escola/Ricardo Akam/Divulgação/ND
Maikon Golini dá os primeiros passos na dança: ele nem imaginava que sua vida estaria para sempre ligada a ela

 

 

A dança o levou pelo mundo

 

Em março de 2000, Maikon e um colega de colégio faziam parte da primeira turma de 40 alunos da única escola do Bolshoi fora da Rússia. “Simplesmente, não sabíamos nada daquilo. Mas, após a primeira aula, voltei para casa maravilhado e decidido a aprender o máximo possível.” O biótipo favorável e o empenho nos estudos logo mostraram que ali estava um talento a ser lapidado.

“Devo muito aos meus professores, especialmente o Carlos, que já não está mais aqui, e ao Denys, mesmo que fosse difícil entender o que ele falava”, agradece Maikon, referindo-se ao professor russo Denys Nevidomy, hoje seu colega no corpo docente.

Os primeiros tempos foram de muitos desafios. “Eram praticamente três turnos de estudos: de manhã no colégio, à tarde no Bolshoi e à noite dividindo tarefas escolares com exercícios de dança.” Veio, também, o inevitável preconceito: “Bem no começo não havia problema, até pela pouca idade dos colegas. À medida que crescia, porém, precisava assimilar e superar os comentários irônicos”. Tudo superado: “O respeito veio naturalmente, principalmente após as apresentações públicas”.

O primeiro espetáculo, claro, ficou gravado na memória. “Foi em Brasília, em 2001, no Teatro Nacional. Já começou com a primeira viagem de avião, conhecer a capital federal, um dos mais importantes teatros do país... O frio na barriga foi grande”, admite Maikon, que dançou um trecho do “Quebra-Nozes”, um pas-de-troix (ele e duas bailarinas). “A sensação de ser aplaudido por aquela plateia vai ficar para sempre na lembrança!”

No ano seguinte, novo batismo de fogo, agora “em casa”, perante a família e os amigos. “Ali tive a certeza de ter superado o preconceito e de que estava na carreira certa.” Em 2003, Maikon pisava em outro país: “Participamos de um festival em Magdeburg, na Alemanha, e antes passamos por Paris”. Três anos depois, a primeira viagem à Rússia, dançando novamente o “Quebra-Nozes”, no palco do Teatro Bolshoi de Moscou. Maikon ainda ficou uma semana a mais, num estágio na matriz. Em 2009, enfim, logo após a formatura, a surpresa: “Fui convidado para ser professor! Aceitei, claro, e acabei descobrindo uma nova vocação”.

Para este ano, duas grandes expectativas: o professor Maikon vai entregar os certificados de conclusão de seus primeiros dez alunos; e o bailarino garante que vai sentir novamente o frio na barriga quando pisar no palco, em novembro, na estreia da encenação completa do “Quebra-Nozes”. Desafios não faltam: “Sinto que ainda tenho muito que crescer e me aperfeiçoar. Mas tenho certeza de que fiz a escolha certa. Sou feliz!”.


Helena Richlin desvenda segredos do alfabeto gótico e traz à luz o conteúdo de documentos e cartas

Tradutora, que trabalha no Arquivo Histórico de Joinville, é uma das raras pessoas de Joinville que domina este conhecimento

Rogério Souza Jr./ND
Helena dedica várias horas do seu dia ao trabalho de tradução de documentos inscritos em alemão com o alfabeto gótico: técnica, muita dedicação e paciência

Traduzir um texto de um idioma para o outro já é uma tarefa difícil (quem duvida, tente fazer isso no google para ver o que sai). Quando esse idioma está escrito em um alfabeto rebuscado, que já não é usado há décadas, a tarefa assume contornos mais complexos. Mas há quem tope o desafio. Aos 45 anos, a joinvilense Helena Richlin traduz textos do alemão, redigidos no alfabeto gótico, para o português e traz à luz conteúdos esquecidos em documentos e cartas antigas.

Desenvolvido na idade média e comum até o século 19, o alfabeto gótico foi deixando de ser usado a partir daí. Em Joinville, pessoas com idade mais avançada ainda conseguem ler nessa escrita, mas quanto mais jovens, mais rara é a habilidade. Entre os pesquisadores da cidade, não mais que cinco dominam esse conhecimento – e o usam em suas próprias pesquisas.

Formada em letras e dedicada à tradução há cerca de 20 anos, Helena é uma dessas raras pessoas. Além de trabalhar no Arquivo Histórico de Joinville, ela traduz cartas e documentos particulares de famílias que querem conhecer um pouco mais de sua própria história.

O primeiro contato com esta escrita ocorreu na adolescência. Nascida em uma família com ascendência suíça e alemã, ela e os irmãos mais velhos aprenderam alemão em casa. Embora esta prática tenha sido coibida a partir do Estado Novo e muitos dos descendentes germânicos não saibam mais a língua dos antepassados, os pais, Werner e Helena Richlin, decidiram mantê-la presente na família. “Foi consciente. Eles queriam nos dar a oportunidade de aprender outra língua, uma outra cultura”, explica.

Com cerca de 15 anos, Helena tinha ganho quatro volumes de um romance, em gótico, que era lido para ela pela mãe, todos os dias. Um dia, uma vizinha queria ler livros antigos de receitas em gótico e pediu ajuda. “Minha mãe entendia, lia e traduzia. Aí, nós duas pensamos em aprender. Ela topou e aprendemos a técnica de leitura.”

Mais tarde, Helena estudou e se formou em alemão no ICBA (Instituto Cultural Brasil Alemanha), que tinha parceria com o Instituto Goethe, cursou letras - português/inglês na antiga Furj, hoje Univille, e em 1996 fez concurso para o Arquivo Histórico de Joinville, onde não são poucos os documentos com a grafia gótica. Paralelo ao trabalho no arquivo, ela se dedica à tradução para particulares – uma demanda que cresce à medida em que a quantidade de pessoas com essa habilidade diminui.

Traduzir um texto do gótico para o português é como montar um quebra-cabeças. Se for manuscrito, a dificuldade é ainda maior, já que cada um tem uma caligrafia diferente. “É um trabalho meticuloso, que começa com a identificação do padrão de escrita de cada pessoa. Quando muda o escritor, começa tudo de novo”, revela Helena, sobre os manuscritos. Uma vez identificado o padrão, ela parte para a transcrição. Muitas vezes, esbarra em trechos que parecem indecifráveis. No decorrer do trabalho, com a compreensão do contexto e a crescente familiaridade com cada caligrafia, estas lacunas são preenchidas. Somente após a transcrição, é feita tradução para o português. Uma página pode levar em média três horas para ser transcrita. Hoje, além do expediente no Arquivo, ela dedica de três a seis horas por dia à atividade.

Para dar conta de tarefa que exige, além de conhecimento, muita pesquisa, concentração e paciência, é preciso paixão. E isso, Heleninha Richlin tem de sobra: “O 'barato' é a reconstrução. Eu tenho que fazer esta reconstrução para começar a traduzir. E quanto mais difícil esta descoberta, maior o 'barato'”, ressalta.

 

Rogério Souza Jr./ND
A tradução de documentos e cartas ajuda as famílias a entenderem aspectos do passado

O que é a escrita gótica

* Escrita ou letra gótica (ou escolástica, ant.) é o nome pelo qual é chamada o tipo de letra angulosa e com linhas quebradas, originada entre os séculos 12 e 13, a partir do fraturamento paulatino das formas manuscritas da escrita carolíngea.

* Foi usada na Europa ocidental desde 1150 até 1500. Este estilo caligráfico e tipográfico continuou a ser utilizado em países de lingua alemã até o século 20.

Fonte: Helena Richlin


No campo, no salão e na praia, o treinador Zé Couto é referência em São Francisco do Sul

Diretor de Difusão de Eventos Esportivos da Secretaria de Esportes do município, ele faz exatamente o que gosta: promover o esporte
Rogério Souza Jr./ND
Onde tem esporte, Couto está por perto: queremos ser polo nacional, anuncia ele sobre os torneios de futsal e de beach soccer

 

 

Até os 21 anos, ele jogava bola e até sonhava em ser profissional. Aí, quebrou o tornozelo e virou treinador e promotor de esportes. Hoje, Zé Couto é diretor de Difusão de Eventos Esportivos da Secretaria de Esportes de São Francisco do Sul, onde faz exatamente o que gosta: promover o esporte. Além disso, não recusa convite para treinar algum time de futebol, futsal ou beach soccer. “Um dos nossos orgulhos são os campeonatos de futsal e de beach soccer promovidos durante o verão, que vêm tornando São Francisco uma referência no Estado. Ainda queremos ser um polo nacional!”, anseia Couto, satisfeito com os resultados dos recém-encerrados torneios Notícias do Dia de Futsal e RIC Record de Beach Soccer.

Nascido José de Oliveira Couto, em 1956, criou-se no bairro Água Branca, onde ainda mora. “O local de diversão preferido da gurizada – relembra – era o campinho do mato, onde hoje fica a sede do Lions. Dali saiu muita gente para os times de futebol e futsal da região.” Penúltimo de meia dúzia de irmãos, Couto fez carreira escolar nos colégios Stela Matutina, Santa Catarina e Francisquense – as aulas preferidas, sempre, foram as de educação física, já anunciando o futuro profissional do moleque.

“Eu jogava no Água Branca, e era mais do que metido, era bom mesmo”, admite, sem falsa modéstia. Mas o possível horizonte dentro de campos e quadras foi interrompido pela contusão aos 21 anos. A essa altura, já funcionário do Bradesco, restou abraçar o ofício de treinador para não ficar longe da bola. A lista de equipes começou pelo próprio Água Branca, seguido do time da Cocar (atual Cidasc), onde também trabalhou, e pela Cohab. “Trabalhei em diversas categorias, tanto no campo como no salão, além da areia, antes da explosão do beach soccer.”

 

Tricampeão pelo Ypiranga

 

De família tradicionalmente ypiranguista, foi no auriverde que Couto comemorou um tricampeonato francisquense (seu pai era secretário quando o Ypiranga ganhou o campeonato catarinense profissional, em 1940). Paulistinha, Iperoba e Arrumadores foram outros times que treinou. “Pelo Arrumadores – continua – disputei o estadual de amadores de 1990. Naquela década também fui técnico do Bandeirantes de São Bento e do Catarinense de Vitor Meireles.” Pelo Catarinense, uma conquista: “Fomos campeões da Liga Vale-Norte, eliminando o Atlético de Ibirama” – atualmente, o Atlético Hermann Aichinger disputa o estadual da primeira divisão de profissionais.

Profissional, por sinal, foi a categoria pela qual Couto nunca passou. Não que faltassem convites. “Felizmente, na minha carreira, fiz muitos amigos e recebi convites, mas preferi ficar no amador”, diz, comprovando as amizades com fotos e relatos de situações passadas junto a gente como Fernando Ferretti, Falcão, os atuais jogadores da Krona e dirigentes como o industrial Wandér Weege, que  por muitos anos patrocinou a campeã Malwee Futsal.

Outra boa lembrança vem de 1968, quando foi técnico do Paulistinha. “Em 78 anos de história, foi a primeira vez que o Paulistinha foi campeão francisquense, ganhando a final do Corinthians.”

Couto diz ter renascido em 2004, quando sofreu um acidente no caminho da Enseada, com a família. Ainda exibindo cicatrizes, hoje se permite brincar, grato ao médico Ari Santangelo: “Quase assinei o livro lá no portão do São Pedro”.

Na época, dirigia o Iperoba – pelo qual, claro, foi campeão. Provavelmente, o porteiro do céu permitiria sua entrada, pelo currículo: além de toda a atividade no futebol, sempre foi um batalhador pela comunidade, tendo participado da fundação da Apae e do Lar de Idosos de São Francisco. “Minha riqueza está dentro de mim”, conclui, admitindo que o acidente lhe trouxe nova visão da vida.


Magali Rosa coleta, trata e usa água da chuva no dia a dia da casa, num exercício de economia

Convicta de que a água é uma riqueza que cai do céu, ela acredita que está fazendo sua parte pelo bem do planeta e do próprio bolso
Rogério Souza Jr./ND
Magali Terezinha Rosa mostra a água da chuva, que ela trata em uma caixa de água em casa e usa para limpeza e lavação de roupas

 

 

Quem disse que riqueza não cai do céu? Às vezes cai, sim, e a gente deixa escorrer pelo ralo. Mas este, definitivamente, não é o caso da dona de casa Magali Terezinha Rosa, 48 anos. Há cerca de 15 anos ela coleta, trata e usa a água da chuva no dia a dia. Usa na limpeza geral, para regar o jardim e até para lavar roupas – só não usa para consumo humano, como beber ou fazer comida. Com isso, embora em sua casa morem de seis a oito pessoas, ela não chega a gastar os dez metros cúbicos, que é a taxa mínima mensal de fornecimento cobrada pela Companhia Águas de Joinville, empresa responsável pelo tratamento e distribuição de água na cidade. “Pago a taxa, mas não gasto isso. O consumo aqui varia de quatro a oito metros cúbicos mensais”, constata.

A ideia de coletar a água da chuva surgiu da observação da quantidade que ia parar nos drenos a cada chuva. Nascida em uma família de produtores rurais, onde o aproveitamento de todos os recursos era rotina, ela se inquietava ao ver toda aquela água jogada fora. Resolveu, então, colocar um tonel de 25 litros na saída da calha e constatou que bastavam poucos minutos de chuva para que ele transbordasse. E usava a água para lavar o chão ou molhar as plantas.

Como não falta chuva em Joinville, logo percebeu a economia que a medida gerava. E resolveu melhorar o sistema de coleta. “Devagarinho, fui aprimorando a ideia”, conta Magali, que buscou informações na antiga Casan, em livros, palestras, programas de TV e com pessoas que tinham piscina em casa. Sempre com o objetivo de evitar o desperdício.

Depois do tonel, usado por cerca de dois anos, instalou uma caixa d´água de 2.000 litros na saída da calha, que tem 15 metros de extensão e capta o que cai no telhado. Magali ressalta que a água da chuva é limpa, mas a calha e o telhado, não. Então, era preciso pensar em um sistema de tratamento. O jeito foi desenvolver seu próprio método. Uma peneira de cozinha (destas usadas para escorrer os legumes) foi colocada na entrada da caixa d'água para reter os resíduos maiores. “Deixo a água repousar por uns dois dias. Depois, abro a tampa e dou um giro na água”, explica. Este “giro” é feito com uma vassoura limpa e faz a água circular. Com isso, a sujeira vai para o fundo. Magali, então, aspira os resíduos com a ajuda de um “aspirador” - nada mais que um cano de PVC acoplado em uma mangueira larga, que serve como sifão e suga as impurezas. Por fim, coloca uma pedra de cloro. Todo o processo não leva dez minutos e é feito no máximo duas vezes por semana, dependendo da quantidade de chuva. “O mais importante é não deixar água parada”, ensina.

A princípio, ela colocou uma torneira na saída da caixa d'água e usava baldes e regadores. Com o tempo, foi aperfeiçoando o sistema. Instalou uma caixa de água na laje e uma bomba com motor para mandar a água para cima. A esta caixa foi conectada a torneira do tanque. “Esta água dá pressão e eu posso usar a mangueira”, mostra Magali, que não para de procurar novas possibilidades de captação, tratamento e aproveitamento de água. “Já fiz o teste: se você colocar uma folha de telha de amianto no muro, recolhe litros e litros de água”. Para encher a caixa de 2.000 litros, 30 minutos de chuva moderada são mais que suficientes.

Com isso, o desabastecimento é preocupação que não existe para a dona de casa. Em fevereiro, durante a seca e calorão que atingiu a cidade, seus reservatórios estavam cheios e havia água até para molhar o jardim. “Economizei também, mas não faltou água para o jardim, a limpeza e a roupa. Nunca falta.”

 

 

Magali também passou a usar o óleo de cozinha descartado por ela e vizinhos para produzir sabão

 

Sabão artesanal

 

Reutilizar e reaproveitar são realmente verbos de ação na casa de Magali. Além da coleta e tratamento da água da chuva, ela também produz sabão artesanal com óleo usado em casa e na vizinhança, dando sua contribuição para evitar que este óleo vá parar nos rios, além de produzir todo o sabão que consome na família. “Com água e sabão, você faz uma boa limpeza, tem uma casa limpa”, resume.


Terezinha Flores, uma das pioneiras da Rede Feminina de Combate ao Câncer de São Francisco do Sul

Há 30 anos vestindo rosa, a voluntária que também traz flores no nome, lembra do empenho incansável para estruturar a instituição
Rogério Souza Jr./ND
Terezinha vive feliz, vendo os frutos da família e do trabalho que cultivou em paralelo

 

 

Claro que nem todo o vestuário de Terezinha da Silva Flores é cor-de-rosa. Assim como indica o sobrenome que acrescentou quando se casou, colorido não falta em seu guarda-roupa. O rosa, no caso, é a cor da missão a que se propôs, voluntariamente, há três décadas, quando participou do nascimento da Rede Feminina de Combate ao Câncer de São Francisco do Sul – e à qual se dedica até hoje. “É uma forma de colaborar com a sociedade e ajudar as pessoas”, justifica a voluntária, diversas vezes tesoureira e ainda componente do conselho consultivo da entidade.

Terezinha nasceu há 69 anos, em São Francisco, criou-se no Rocio Pequeno e fez toda a carreira escolar no colégio Victor Konder, até o curso complementar, equivalente ao atual ensino médio. Caçula de três irmãos, admite: “Fui criada para ser mãe e dona de casa”.

Tanto que casou-se no dia 22 de dezembro de 1962, dez dias depois de completar 18 anos. Doze meses depois tinha o primeiro dos cinco filhos (que já lhe deram nove netos e três bisnetos). As lembranças são nítidas. “Comecei a namorar com o Neuci, um tijucano, numa domingueira no antigo Salão Maringá, no galpão do João Quirino. Como eu era Silva, e ele Silva Flores, só precisei acrescentar Flores ao sobrenome.” Terezinha ainda não imaginava que, duas décadas depois, a rosa seria a flor a simbolizar sua dedicação a uma causa social.

 

Terezinha convida Terezinha

 

“Eu ainda nem sabia que havia uma Rede Feminina de Combate ao Câncer nascendo em São Francisco do Sul, quando uma amiga, Terezinha Costa, me convidou a participar. Então, estou praticamente desde o início”, conta a voluntária. Ela se recorda da dificuldade encontrada na época, para tornar a rede uma realidade: “Das primeiras reuniões, com salas cheias, ficaram sete mulheres, formando o núcleo inicial. Foi um tempo de muita dedicação, trabalho duro para consolidar a rede, muitos mutirões e apoio inestimável de famílias abnegadas”.

Entre tantos agradecimentos, Terezinha faz questão de destacar a compreensão dos maridos e filhos das voluntárias. “Quantas vezes passávamos horas fora de casa, em busca de recursos para manter a rede em pé. Por isso, agradeço ao meu marido por entender a importância do nosso trabalho.”

Foi em maio de 1984 que as primeiras voluntárias prestaram o juramento protocolar. A oficialização, considerada a data de comemoração do aniversário, deu-se no dia 3 de setembro do mesmo ano. “No início, a rede funcionava numa sala do posto de saúde. Íamos de casa em casa pedir doações. As voluntárias usavam seus próprios carros para levar as mulheres para exames e tratamento em Joinville.”

Hoje, instalada há uma década em sede própria na rua Coronel Oliveira, 204, a rede conta, entre outros benefícios, com 50 voluntárias, sete profissionais contratados, ambulatório equipado para todos os exames e uma van para conduzir as pacientes em tratamento ao Hospital São José – único com setor oncológico na região.

Destes 30 anos de voluntariado, não faltam lembranças para Terezinha, testemunha de muitas histórias. “Uma das mais marcantes – lembra, emocionada – foi de uma senhora que tinha o corpo todo tomado por tumores. Íamos à casa dela todos os dias, refazer os curativos. Infelizmente, ela morreu há uns 20 anos.” Hoje, Terezinha prefere comemorar as conquistas, especialmente as proporcionadas pelo crescimento da entidade. “Tudo valeu a pena”, conclui.


Euclides criou-se no Iririú quando bairro se chamava Guaxanduva e foi um dos craques do Juventus

"Eu vi este bairro crescer em torno da nossa casa", diz o aposentado, um dos laterais-esquerdas mais talentosos da história do futebol joinvilense

A família Brito da Maia tem uma ligação profunda com o Iririú, desde que o bairro se chamava Guaxanduva. “Meu pai era dono de toda essa área, numa época em que era quase uma região rural. Nossa família cultivava diversas culturas, e todos precisaram engraxar o cabo da enxada antes de ir trabalhar fora. Eu vi esse bairro crescer em torno da nossa casa”, diz Euclides Brito da Maia, traçando com as mãos um grande círculo em torno da sede do Juventus Futebol Clube. Foi ali, vestindo a camisa grená, que ele virou o Quido, ou Quidinho, lateral-esquerdo que marcou época no futebol amador joinvilense. Bom de bola, garante: “Comigo, ponta-direita não se criava!”.

 

 

Luciano Moraes/ND
Presidente de honra do Juventus, Quidinho lembra que seu pai doou a área para a sede do clube

 

 

Por pouco, Euclides não foi registrado com outro nome: “Nasci no dia 26 de dezembro de 1943. Se a parteira tivesse me trazido ao mundo um dia antes, eu seria Natalino, com certeza”. Não foi, e o Euclides logo virou Quido, aluno da antiga Escola Reunida Guaxanduva, atual E. M. Annes Gualberto. “Fiz o ginásio no Germano Timm e o científico no Elias Moreira. Até comecei a faculdade de ciências contábeis, mas no segundo ano vi que aquilo não era pra mim.”

Quido gostava mesmo era de correr atrás da bola nos campinhos do bairro. “Nosso campo preferido ficava ali, onde hoje é o estacionamento da Milium”, lembra. Aos 14 anos, a bola precisou dividir o tempo com o primeiro emprego, na Consul, onde Quido ficou sete anos. Em 1967, passou num concurso para a Prefeitura, que recrutava gente para fazer um levantamento de todas as propriedades do município. “Foi a partir desse trabalho – conta Quido – que se começou a calcular o IPTU.” Ele acabou ficando no serviço público até 1997, aposentando-se como chefe da equipe de atendimento ao público (o pai, Hermógenes, fora funcionário público durante 50 anos). Quido ainda trabalhou alguns anos numa empresa de agrimensura, do engenheiro Dilson Brüske (falecido em fevereiro de 2012).

 

Campeão no Juventus

 

Hermógenes, pai de Quido, estava entre os fundadores do Juventus F. C., em 1947. Ele conta: “O primeiro campo era onde hoje fica o posto de gasolina, perto da Caixa. O nome foi dado em homenagem à Juventus de Turim, mas as cores ficaram as mesmas do Juventus de São Paulo. Em 1960, meu pai doou a área para a construção de um novo campo e da sede. Por isso, o complexo se chama H. de Brito”.

Quido começou a jogar nos juvenis do clube na adolescência e ficou até 1973. Entre muitas conquistas do “moleque travesso do Iririú”, a mais marcante foi o título da Primeirona, em 1964. “Tínhamos realmente um timaço!”, garante, identificando cada um na foto histórica. Quido foi campeão novamente em 1972, mas na Segundona, levando o clube de volta à divisão principal. Antes disso, em 1969, havia sido campeão da segunda divisão, mas defendendo a Veterana do Jardim Iririú. “O Juventus me emprestou, só pra subir”, ressalta.

Depois de parar, Quido ainda defendeu o master do Juventus em jogos festivos. Atualmente, seu compromisso é com um grupo de amigos que joga futsal na quadra do Colégio Santo Antônio, toda quinta. No Juventus, é presidente de honra.

Participar das reuniões é fácil: Quido mora na travessa Maria Brito da Maia (nome da sua mãe), quase uma continuação da servidão que liga a rua Iririú ao campo que tem o nome do pai Hermógenes.

Antes de encerrar a entrevista, Quidinho pede para acrescentar que participa, desde 1964, do time da Vila que enfrenta o da Chácara. “A Vila é pra cá, e a Chácara, pra lá”, explica, colocando o trevo da Milium como divisão geográfica. Trata-se de uma confraternização de fim de ano, reunindo pessoas ligadas ao Juventus, sem disputa de troféu, apenas para relembrar os velhos tempos do Guaxanduva.

 

 

Perfil sugerido pelo leitor Roberto Dias Borba


A história de empreendedorismo de Lerina, engenheira química dedicada à confecção de aromáticos


Carlos Junior/ND
Lerina transformou a admiração pela química e pelos difusores aromáticos em negócio

 

 

Apaixonada por química, boa aluna no ensino médio, Lerina Mastruian tinha uma certeza sobre a carreira a seguir: “Eu queria ser engenheira química”. Determinada, formou-se, deu duro em estágios e hoje, aos 32 anos, exerce um cargo de chefia numa grande empresa. E foi além: nas horas vagas, pratica o aprendizado da faculdade fabricando difusores aromáticos – e ainda reforça o caixa doméstico comercializando suas criações.

Lerina era para ser Mastroiani, mas uma falha de registro num cartório de Bagé, na fronteira gaúcha, onde nasceu, mudou a grafia para Mastruian. Filha do craque Marco Antônio, mais conhecido como Caçapava, tornou-se torcedora do Guarany, assim como do também alvirrubro Internacional.

Aos 18 anos, morando em Pelotas, passou no vestibular para engenharia química da Fundação Universitária Federal da vizinha cidade de Rio Grande. “Eu ia todos os dias de Pelotas a Rio Grande. Mas no terceiro ano da faculdade me mudei, pois era muito cansativo.” No quinto ano, teve a primeira experiência profissional, como estagiária no porto de Rio Grande. Formada em 2005, novo estágio, na Memphis Industrial de Porto Alegre, uma empresa de sabonetes, onde se efetivou como analista de processos. Quando morava na capital, Lerina foi pela primeira vez ao Beira-rio. Por ironia do destino, não torceu pelo Inter: “Era justamente um jogo contra o Guarany de Bagé. Torci pelo meu time de infância”. O emprego seguinte, em Guaíba, foi na Melitta.

Atenta aos ventos do mercado e no desenvolvimento profissional, em 2008 Lerina desembarcava em Joinville para trabalhar na Whirlpool, onde atuou como engenheira de produto. Em 2010, nova mudança: “Atravessei a rua e fui trabalhar na Schulz”. Além dos desafios normais de uma nova empresa, num ramo diferente, veio outro. “Assumi a supervisão de produção da Pintura Automotiva, liderando uma equipe de 150 homens.” Desafio que vem sendo vencido: “Nunca enfrentei qualquer preconceito, e a empresa dá todas as condições de desenvolvimento profissional”.

Há pouco mais de um ano, casou-se com um joinvilense, com quem mora num condomínio no Costa e Silva, pertinho da Schulz e da Embraco, onde trabalha o marido.

 

Química caseira

 

Um dos cômodos do apartamento de Lerina é ocupado por sua “oficina-laboratório”, onde produz difusores aromáticos. “A ideia de criar difusores surgiu quando eu queria comprar alguns pra mim, e vi como eram caros. Aí, com os conhecimentos da faculdade e de diversos cursos, comecei a produzir em casa.”

A atividade virou negócio, Lerina abriu uma microempresa individual, batizou-a de Anirela (seu nome ao contrário, acrescido de um A) e hoje comercializa, além dos difusores, águas perfumadas, sabonetes artesanais, escalda-pés, sachês perfumados e lembrancinhas personalizadas para noivas, nascimento, chá de bebês, fim de ano, aniversário... Além disso, a gaúcha vem recebendo convites para feiras e outros eventos, como o 1º Craft Ideas, realizado no ano passado em Joinville.

As matérias-primas, como álcool de cereais, fragrâncias e embalagens, geralmente vêm de São Paulo; outras, como os palitos de madeira que dispersam os aromas, são encontradas em Joinville mesmo. A divulgação, além do tradicionalíssimo boca-a-boca, é feita nas redes sociais e anúncios pontuais. Para as embalagens, Lerina tem parceria com a designer Graziele Caetano. E as contas da empresa são geridas com um software de gestão financeira desenvolvido pela joinvilense Conta Azul, além do imprescindível – e gratuito – apoio do Sebrae.

Para este ano, o planejamento pessoal de Lerina Mastruian tem duas frentes: “Pretendo aproveitar todas as oportunidades de desenvolvimento proporcionadas pela empresa em que trabalho e, comercialmente, tornar a Anirela conhecida nacionalmente”. Tudo com muito perfume difuso no ar.

 

Serviço

Os produtos da Anirela Aromas e Sensações podem ser encontrados no site elo7.com.br/anirela e no Facebook anireladifusores. Contato com Lerina pelo email anireladifusores@gmail.com e pelo telefone 8857-8252.


Pé-de-Ferro, o artilheiro que deixou sua marca nos campos de Joinville e região

Aposentado, Arriola não se desligou nunca do futebol, e hoje é secretário da Associação Atlética Serrana
Rogério Souza Jr./ND
Tímido, Arriola continua de alguma forma ligado ao futebol, e só lamenta não ter um descendente também apaixonado pelo esporte para continuar escrevendo esta história de amor

 

 

Na juventude, Aloísio Arriola infernizava os beques, deixando a marca de artilheiro por onde passasse. Era, então, o Pé-de-Ferro, apelido herdado do pai Abílio, zagueiro respeitado. Hoje, aos 65 anos, aposentado, Aloísio continua ligado ao futebol, como secretário da diretoria da Associação Atlética Serrana. “Ficaram muitas boas lembranças do tempo em que jogava. Fui artilheiro por onde passei, fiz amizades e hoje acompanho tudo fora das quatro linhas”, diz, mostrando algumas fotos dos tempos de Pé-de-Ferro.

Terceiro de quatro irmãos, Aloísio mal conheceu os pais, falecidos quando ele tinha dois anos. Foi criado pelos tios, a quem sempre considerou pai e mãe. Vivendo no Bucarein, o que não faltava era lugar pra brincar e jogar bola. “Tinha um campinho onde hoje é o Operário, na rua São Paulo, nosso preferido. Também jogava nos campos do Estrela e do Santos, na avenida Cuba, de onde vi saírem craques como Correca, Piava e Fontan.” Seu pai, Abílio, ganhara o apelido Pé-de-Ferro pela determinação com que disputava as divididas, defendendo os alvinegros Caxias e Figueirense. “Quando parou de jogar, meu pai foi diretor e várias vezes técnico interino do Caxias, onde ficou 25 anos.”

Depois de fazer o primário no Colégio Rui Barbosa, Aloísio foi para o Colégio Agrícola de Araquari e, em 1968, formou-se técnico pela Escola Agrícola de Camboriú – ainda que jamais tivesse exercido qualquer função na área agrícola, como se verá a seguir.

 

 

Reprodução/ND
Em 1969, jogando pelos aspirantes do América, Pé fez o gol da vitória sobre o Caxias, na preliminar dos times principais de Gualicho e Galo, no Ernestão. Em pé, da esquerda: dr. Cassou, Cabeção (filho de Cocada), Badeco (irmão do craque da Portuguesa), Miltinho, Mauro e Djalma; agachados: Hélio, Pé, Sete, Edson, Barra Velha e Josias

 

 

Do Gualicho para o Galo

 

Foi nas peladas, pelos campinhos do Bucarein, que Aloísio angariou o prestígio que levou o Caxias a convidá-lo para os juvenis. Jogava com a 9 do Gualicho quando conseguiu o primeiro emprego, na Lepper Veículos, revendedora Volkswagen (sucedida pela Delta). Formado pela escola de datilografia de Nelson de Miranda Coutinho, foi trabalhar na área contábil-administrativa.

Ao estourar a idade no juvenil do Caxias, foi-lhe oferecido contrato no profissional. Não topou. “O Piava, o Emílio e o Mazico assinaram, mas eu não quis, pois o salário na revenda era melhor.” A essa altura, já carregando o mesmo apelido do pai, Aloísio preferiu ficar jogando pelo time da Levesa (Lepper Veículos S. A.) no campo e pelo Guarani no salão.

Foi quando surgiu um conflito familiar: “Curt Meinert, então presidente do América, me convidou para jogar lá, oferecendo um bom contrato. Quando contei em casa, meu pai, caxiense fanático, ficou uma fera e disse que eu podia arrumar a trouxa. Meu irmão Perácio acabou convencendo-o, e logo ganhei a camisa 9”.

Profissionalizado, Pé-de-Ferro ficou três anos no Galo da zona Norte. Em 1970, balançou ante nova oferta. “Fui convidado para trabalhar e jogar na Tigre.” Convite aceito, reverteu de categoria para o amador e foi para a Tigre. “A estreia – lembra – foi num festival promovido pelo Baependi, em Jaraguá. O técnico Alírio de Lima me deu a camisa 9 do titular, que era o Jura (Jurandir Moreira, sambista falecido em 2011). Fiz três gols e ganhei a posição.”

Pé disputou diversos campeonatos pela Tigre, ganhou títulos, foi artilheiro e só interrompeu a carreira em 1971, com os ligamentos do joelho estourados. “Naquela época – acentua – não havia tantos recursos como hoje. Foi um ano de sofrimento, me tratando aqui, em Curitiba, em Criciúma e até em São Paulo, com o Mário Américo, massagista da Seleção.” Recuperado, jogou até 1973 na Tigre, conquistando o tricampeonato da Primeirona. Ainda jogou um ano pelo Ferroviário de Corupá e outro pelo Botafogo de Jaraguá, até pendurar definitivamente as chuteiras, oprimido pelo joelho baleado. Não deixou um Pé-de-Ferro 3º: “Só tenho uma filha e um neto de 16 anos que não quis saber de bola”. Há oito anos, assumiu a secretaria da Serrana e também frequenta o Juventus do Iririú, onde tem muitos amigos.

 

Perfil sugerido pelo leitor Roberto Dias Borba


Elder Fiamoncini transformou um banhado em um campo de futebol em sua propriedade no Jativoca

E graças ao entusiasmo dele, que comprou a área para os pais, o bairro tem há anos um local para lazer e um time de futebol com coleção de troféus
Luciano Moraes/ND
No sítio que comprou para os pais, hoje Elder Fiamoncini abre o espaço para as brincadeiras infantis ao lado da netinha Vitória, além de cuidar pessoalmente e com muita técnica da grama do campo, sempre verdinha e sem buracos

 

 

Participante do processo que transformou o Jativoca em área urbana densamente habitada, Elder Fiamoncini desfruta de grande popularidade entre os moradores daquele lugar da zona Oeste de Joinville. Quem não conhece o Elder sabe muito pouco sobre a história da nossa comunidade, comenta-se em qualquer esquina do Jativoca.

Dono do Complexo Esportivo e Recreativo Severino Fiamoncini (o nome é uma homenagem a seu pai), Elder agradece o elogio.  “Popularidade se conquista com trabalho e com ações centradas no bem coletivo da vizinhança”, filosofa bem-humorado.

Nascido em Rio do Oeste, no Vale do Itajaí, Elder mudou-se para Joinville em 1973, estabelecendo-se no bairro Boa Vista, onde foi trabalhar na Fundição Tupy. Pouco tempo depois virou vendedor da antiga Prosdócimo para em seguida dedicar 14 anos à profissão de motorista de ônibus na Penha e posteriormente na Catarinense.

Foi nesse tempo de andanças de ônibus que Elder comprou, em 1981, uma área de 100 mil m2 no Jativoca para os seus pais. “Comprei porque na época o Jativoca era área tipicamente rural, bem ao gosto dos meus pais”, detalha.

Meses depois, transferiu-se com a família para o sítio a fim de cuidar do casal. Passados uns dois anos, Elder percebeu que algumas propriedades agrícolas estavam virando loteamentos e que a juventude local não tinha opção de lazer. Foi quando teve a ideia de aproveitar um banhado do sítio para transformá-lo em campo de futebol. Com a ajuda do então vereador Osmar Schopping, o terreno foi drenado e em alguns meses o projeto transformou-se em realidade. Ato seguinte, Elder fundou em parceria com outros moradores o Esporte Clube Recreativo Jativoca.

“A inauguração foi no dia 10 de outubro de 1983, com uma festa que é lembrada até hoje!”, conta, entre boas risadas. Apesar do estádio que surgiu de um banhado pertencer à família de Elder, o Esporte Clube Recreativo Jativoca continua jogando no local, onde entre outras conquistas levantou o bicampeonato 1999-2000 do Copão Curt Meinert.

O campo também é alugado para outros times da cidade. Em média, são de cinco a seis jogos a cada fim de semana (ao preço de R$ 120 por partida) e mesmo assim o gramado é um dos melhores de Joinville. “Fui agricultor e por isso tenho a manha para deixar o gramado sempre verde e sem buracos”, gaba-se.

Hoje, o Complexo Severino Fiamoncini é meio de sustento de Elder, que toca o empreendimento em parceria com a mulher, um filho e uma nora.  Além do campo de futebol, no local funciona um parquinho para crianças, um galpão para 200 pessoas sentadas, com estrutura de banheiros, vestiários e chuveiros para os futebolistas.

 

 

Reprodução Luciano Moraes/ND
Nos anos 80, foi fundado o time do Jativoca, que conquistou muitos prêmios na década de 90

Ações sociais

De espírito solidário, Elder abre o parque para as crianças sem cobrar ingresso. Lá também já foram realizados muitos eventos para ajudar pessoas necessitadas. “Já fizemos uma festa que garantiu dinheiro suficiente para operar as cataratas de um senhorzinho”, lembra.

De olho no crescimento do Jativoca, Elder já realizou 95% das obras de um novo campo de futebol. “Já podia estar pronto, mas há oito meses estou esperando liberação da Fundema (Fundação Municipal de Meio Ambiente)”, reclama.


Viver para servir e ensinar, a missão da jornalista e alfabetizadora Maria de Lourdes Vasconcelos

Ela criou uma biblioteca comunitária no bairro Aventureiro e também, como voluntária, dá aulas e ensina a população e ler e a falar corretamente
Luciano Moraes/ND
Na biblioteca na casa de Maria de Lourdes, 3.000 títulos à disposição da comunidade

 

Quando se fala no nome de Maria de Lourdes Pacheco Vasconcelos, a primeira coisa que vem à mente é o “Lucius’s Clube de Leitura”, uma biblioteca que ela criou há sete anos no Aventureiro para incentivar o hábito de leitura entre os moradores da região. Mas a atuação comunitária é bem mais ampla. Como uma formiguinha que leva e traz boas ações, esta jornalista paulistana de 69 anos, que passou boa parte da vida no Rio de Janeiro e há 14 anos se apaixonou por Joinville, sempre encontra uma maneira de ajudar o próximo.

Já alfabetizou adultos no bairro onde mora, recolhe doações e as encaminha para quem necessita, e este ano começou a dar aulas de arte e reforço escolar em uma escola pública da região. Sempre com um sorrisão no rosto e a certeza de que a sua missão de vida é, sim, ajudar o próximo. Seja de que forma for. “Deus fez de mim uma ponte. Eu ganho aqui e levo para lá. Vim para servir e tenho prazer nisso”, constata.

Esta doação ao outro permeou a sua vida e começou em casa. Nos anos 70, Lourdes tinha vida agitada. Trabalhou no jornal “O Dia” e “A Notícia”, do Rio de Janeiro, no governo do Estado nas duas gestões do governador Chagas Freitas, se formou na Escola Nacional de Belas Artes e cursou o Instituto de Belas Artes do Parque Lages – instituições renomadas na área. Ao mesmo tempo, junto com a mãe, criava a sobrinha pequena. Quando a irmã, doente, precisou de ajuda no início dos anos 80, ela também estava lá, pronta para cuidar.

Nos anos 90, já longe das redações e morando em Niterói (RJ), queria descansar. Mas quem disse que conseguia ficar parada? Um amigo tinha uma rede de bancas de jornais e ela foi trabalhar com ele. Um dia, um jornaleiro ficou doente e Lourdes assumiu a banca de Piratininga, na região oceânica de Niterói. Ficou dez anos, exercitou o seu jeito comunicativo, revolucionou o local e ficou conhecida em toda a região. “A banca era enorme. Coloquei vasos de plantas, fiz um mercado de figurinhas e trocava com as crianças. Tripliquei o movimento e fiquei famosa”, brinca.

 

Joinville a encantou desde que se mudou para a cidade, no ano 2000

 

Um dia, o companheiro veio trabalhar na Tupy e Lourdes veio junto. “Vim e trouxe minha mãe”, conta ela, que chegou no ano 2000, se encantou pela cidade e nem pensa em sair daqui. Para quem foi ativa a vida toda, ficar em casa era algo inimaginável. “Tenho que fazer alguma coisa”, pensou. Colocou uma placa na porta oferecendo aulas de pintura e começou a pintar camisetas, que vendia em uma loja perto de casa. Aos poucos a clientela aumentou e as aulas começaram a aparecer. Chegou a ter uma turma com 15 meninas.

O contato com a comunidade foi se estreitando, mas uma coisa chamava a atenção: a forma como as pessoas falavam, comendo os “s” ou errando a concordância dos verbos. Ao conversar com a sobrinha sobre isso, em 2005, surgiu a solução: “Ensine-as!”. Como? Ora, emprestando livros, incentivando as pessoas a ler mais. Nascia, assim, a ideia da biblioteca comunitária.

Antes dessa ideia sair do papel, porém, havia uma outra demanda. “Nessa época, dava aulas de alfabetização de adultos em casa”, conta. Diante da constatação de que aquelas pessoas, não sabiam ler, começou a lecionar em casa, tirando xerox dos próprios livros e reproduzindo os exercícios. Formou uma turma com 16 senhoras e um rapaz. Um dia, a moça que trabalhava na xerox lhe falou de um programa da Secretaria de Educação, que tinha esse objetivo. Lourdes foi lá, fez a capacitação, recebeu material de apoio e continuou seu trabalho voluntário.

A biblioteca tomou forma em 2007. A sobrinha, Lúcia, e o marido, Lúcio, por anos mantiveram um espaço cultural chamado “Além da Imaginação”, em Niterói, e enviaram caixas de livros para a nova biblioteca. O “Lucius's Clube de Leitura” (em homenagens aos dois) também recebeu doações diversas e, aos poucos, foi estruturado. Chegou a ter cerca de 4.000 títulos. Hoje, após uma boa seleção e a definição do foco, tem aproximadamente 3.000. “Agora só tem literatura. As pessoas sentam, leem ou levam para casa. As crianças vêm sempre – algumas todos os dias – e procuram os gibis”, comenta ela, que em 2011 recebeu pelo trabalho a medalha de “Mulher Cidadã Joinvilense”, concedida pela Câmara de Vereadores.  “Meu orgulho maior.”

Este ano, Lourdes começou a dar aulas de reforço escolar e artes em duas escolas públicas, integrando um programa federal. E, para o futuro, pretende manter sua diretriz de vida, ajudando a quem precisa, sem fazer muitos planos.


Motorista Allan Kardec, do Iririú, exercita a cordialidade e conquista o carinho dos passageiros

Com menos de dois meses na função de motorista de ônibus, Allan Kardec acredita na máxima que gentileza gera gentileza e vai espalhando sua simpatia por aí
Gisela Müller/ND
Estreando na profissão de motorista, Allan Kardec acaba mudando o dia dos passageiros com um discurso de não mais do que 30 segundos, onde dá as boas-vindas e informa o itinerário do ônibus

 

 

“Boa tarde! Tudo bem? Esse é o ônibus Norte Iririú/via Saguaçu, com destino ao Terminal do Iririú, com saída às 15h06 e previsão de chegada às 15h25. Sejam bem-vindos a bordo e tenham todos uma boa viagem.” Não, esta não é a fala do comandante de algum voo. É a maneira com que o motorista Allan Kardec Camargo Nogueira, 27 anos, recebe seus passageiros em cada uma das, em média, 17 viagens que faz por dia pelas ruas de Joinville desde janeiro deste ano. Com tanta cordialidade e atenção, ele logo conquistou o carinho das pessoas que usam a linha e ganhou espaço nas redes sociais quando uma passageira filmou a mensagem de boas-vindas e postou no Facebook. E de lá para cá, foram tantos comentários, fotos, vídeos, e-mails e telefonemas ao jornal sugerindo um perfil com o motorista de ônibus que faz a diferença que o ND foi conferir quem é esta pessoa tão carismática.

E Allan Kardec não decepciona. Ele é mesmo o "rei da simpatia". O nome também chama a atenção. “Minha mãe é espírita e quis homenagear um dos expoentes do espiritismo, Allan Kardec.” Católico, ele também acredita na doutrina espírita e dela retira a forma atenciosa de ser. Porém, destaca que o hábito de ser gentil com todos vem de casa e foi levado para a vida profissional. Ele trabalha desde os 16 anos, sempre lidando diretamente com pessoas.

Ainda adolescente, foi bolsista na secretaria de uma escola pública. Depois, cursou pedagogia e lecionou para o ensino médio, com alunos que tinham quase a sua idade. Um pouco mais tarde, ingressou no comércio, onde trabalhou nas principais redes varejistas da cidade e chegou a ser gerente de uma loja – sempre em contato com o público. “Cada pessoa tem suas necessidades”, explica ele, que está sempre atento a elas.

No ano passado, decidiu buscar um novo caminho profissional. O comércio já não estava tão bom e ele tinha um fascínio de infância pelos ônibus. “Quando viajava para a casa da minha avó, em Minas, ia na cabine do motorista”, recorda ele, que buscou uma vaga na Transtusa. Com seu jeito comunicativo, começou a se destacar já na fase de treinamento. “Eu ia brincando com o pessoal e no início alguns ficaram com o pé atrás. Mas depois começaram a me chamar de vereador Allan Kardec”, diverte-se, explicando que o bom humor vem do fato de estar fazendo o que queria, o que gosta.

A ideia de falar com os passageiros ocorreu no primeiro dia de trabalho, no dia 21 de janeiro. Ele explica que os terminais são divididos em plataformas com quatro ou seis ônibus em cada uma delas. Muitas vezes, o passageiro chega com pressa, preocupado, e acaba pegando o ônibus errado. “No primeiro dia, percebi esta dificuldade. Aí cheguei na catraca, cumprimentei o pessoal e passei as informações.”

As boas-vindas não duram mais que 30 segundos, e não atrasam as partidas. Mas surpreendem os passageiros que muitas vezes estão voltando para casa cansados, depois de um dia inteiro de trabalho. Algumas vezes, acrescenta mais alguns palavras, deseja boa sorte a quem está procurando emprego, bom descanso a quem já terminou sua jornada diária. “Me fiz amigo do passageiro”, constata.

As reações dos passageiros são as mais variadas. De seu banco, lá na frente, às vezes Allan Kardec ouve o burburinho das pessoas, surpresas, comentando sua atitude. Uma vez, um senhor puxou uma salva de palmas e os demais o acompanharam. O motorista custou a entender que era para ele. “Pensei: será que alguém está de aniversário? Mas aí ele disse que nunca tinha visto isso em Joinville”, recorda. De outra vez, quando chegou ao terminal foi surpreendido por uma estudante universitária que bateu em sua porta e disse: “Você iluminou o meu dia”. E já tem cliente ligando para a empresa para conferir em que horários ele estará no volante.

Feliz com o reconhecimento que vem tendo, Allan Kardec agora pretende continuar exercitando a gentileza no dia a dia e contribuindo para trazer um pouco de bem-estar a quem pega o seu ônibus.


Neto de sambista, Bola garante que o terceiro reinado de momo foi uma despedida da função

O sambista e puxador do samba-enredo da Unidos pela Diversidade vai continuar cantando e cozinhando, suas outras grandes paixões
Divulgação/Secom/ND
Leonardo dos Santos Passos, o Bola, recebendo pela terceira vez a coroa e o cetro de rei do Carnaval de Joinville, em concurso realizado no dia 22 de fevereiro

 

 

“Sou neto da Jovelina, mais conhecida como dona Nair, uma espécie de matriarca do samba do Rio de Janeiro. Com ela, eu respirei cultura desde criança, e o sangue de sambista da vovó corre nas minhas veias.” Com uma justificativa dessas, não é para menos que Leonardo dos Santos Passos tenha ostentado pela terceira vez a coroa e o manto de rei momo do Carnaval joinvilense. Bola, como é mais conhecido nos meios sambistas e gastronômicos de Joinville, demonstra em qualquer bate-papo a jovialidade e a animação características de um legítimo rei momo. Ele conquistou o tricampeonato em eleição realizada no dia 22 de fevereiro, representando a Escola de Samba Unidos pela Diversidade e comandou a folia em Joinville, além de puxar o samba-enredo de sua escola. A face carnavalesca, todos que gostam da folia conhecem. Mas, afinal, quem é o Bola nos outros meses do ano?

O gingado, o jeito de falar e quase tudo em Bola logo levam a crer tratar-se de um carioca da gema. Ainda que a origem dos Santos Passos esteja efetivamente na Cidade Maravilhosa, Leonardo é candango: “Minha avó trabalhava na cozinha do Palácio do Catete, sede do governo federal quando o Rio de Janeiro era a capital. Com a fundação de Brasília, em 1961, ela foi junto, e trabalhou até o governo Figueiredo. Meus pais, funcionários públicos, também se transferiram para o novo Distrito Federal, e foi lá que nasci, em 1975, no Hospital Santa Helena”.

Criado entre Brasília e o Rio, para onde sempre ia em períodos de férias escolares, Leonardo, caçula de cinco irmãos, ficou na capital até dar baixa no serviço militar. “Eu servi na Polícia do Exército, mas acabei fazendo o curso de cabo no BGP”, conta, ressaltando a intensa rivalidade que existia entre a PE e o Batalhão da Guarda Presidencial. “Naquele tempo – salienta – eu estava longe de ser o Bola. Era magricela. Foi depois de sair do Exército que a glândula tireoide começou a dar problemas e ganhei volume. É genético, mais dois irmãos sofrem disso.”

 

De uma visita ao irmão, a decisão de mudar-se para Joinville

 

Bola veio pela primeira vez a Joinville em 1992, visitar um irmão. Ficou seis meses, voltou a Brasília para o serviço militar, fez algumas andanças e retornou em 1999, para ficar. Trabalhou algum tempo produzindo o informativo da Igreja Universal do Reino de Deus. Foi depois trabalhar no departamento técnico do SBT, migrando para a RIC Record. Após um período em Florianópolis, retornou a Joinville, disposto a se dedicar à gastronomia, outra de suas paixões – além, claro, do samba.

A linha de produção da Cipla foi o novo local de trabalho, entremeado por bicos como cozinheiro. “Até cheguei a iniciar o curso de gastronomia no Senai, mas usei minha experiência e o que aprendi com minha avó. Cozinhei para fora, atendendo inicialmente amigos. Também passei pelo Picanha Bistrô e pelo Divino Fogão, no Garten Shopping.” Atualmente, devido a problemas de saúde, está afastado do trabalho, mas continua exercitando os dotes culinários junto ao grupo de mãe Jacila.

Torcedor da carioca Portela, Bola é fã do samba de raiz, e se orgulha de já ter cantado com Marquinhos Diniz, entre outros sambistas. Depois de defender a Escola Príncipes do Samba – pela qual foi rei momo em 2010 e 2012 –, desde o ano passado Bola desfila pela Diversidade, a escola que obteve o 2º lugar no Carnaval deste ano, quando foram retomados os desfiles competitivos. “Fui segundo intérprete em 2013, e neste ano passei a primeiro intérprete. Não tive como recusar o convite da escola para representá-la no concurso de rei momo”, diz o sambista. Mas o  tricampeão já deixa o recado: “Essa é minha última participação como rei momo. É hora de deixar espaço para gente mais nova”. Bola fica com o samba, mas só cantando – e cozinhando.


Como o garoto que vendia linguiça se tornou um empreendedor e leva o nome de Joinville pelo mundo

Marcos Alexandre Boettcher Sebben criou a Design Inverso e se dedica ao desenvolvimento de projetos dos mais sofisticados aos mais simples
Carlos Junior/ND
Marcos Alexandre Boettcher Sebben na sede de sua empresa, uma antiga marcenaria no Bom Retiro: criatividade a mil

 

 

Por que inverso? “Eu tinha vontade de questionar o mercado, de não ser apenas um provedor de serviços, mas de colocar o ser humano no centro do próprio negócio.” Essa é uma das justificativas de Marcos Alexandre Boettcher Sebben para batizar seu empreendimento, um estúdio de design industrial, de Design Inverso (invertendo até mesmo a palavra inicial no logotipo).

A própria trajetória do jovem profissional se deu numa lógica meio invertida: foi só ao entrar na faculdade que ele descobriu a vocação. “Eu não sabia mesmo o que queria. Só sabia do meu desejo de inovar”, admite. Ainda que um tanto inversa, a escolha se revelou acertada: hoje, seu estúdio é reconhecido além das fronteiras joinvilenses – e até brasileiras, o que pode ser comprovado nas dezenas de prêmios amealhados nos principais polos internacionais do design industrial.

A vida de Marcos foi uma sucessão de lições. Já começou agitando o Réveillon da família, ao escolher o dia 31 de dezembro de 1977 para vir ao mundo. Nasceu no Hospital e Maternidade Sagrada Família, em São Bento do Sul, onde a mãe trabalhava no Banco do Brasil. Mas se considera joinvilense: “Eu tinha 5 anos quando minha mãe se transferiu para a agência central de Joinville, e fui criado entre o Costa e Silva, onde meus pais moravam, e a rua Santa Catarina, na casa do opa e da oma”.

Foi lá, com os avós Boettcher, donos de um açougue tradicional a uns 250 metros do km 4, que Marcos aprendeu muito sobre empreendedorismo. “Passei boa parte da infância com eles e devo muito aos meus avós. Mais do que cuidar de mim enquanto meus pais trabalhavam, eles me ensinaram o valor do trabalho.”

Entre outras lições, Marcos lembra que a oma Dora lhe passava tarefas: “Quando eu pedia dinheiro, ela me dava um fardo de linguiças e eu ia vender pela redondeza, de bicicleta. Aí, ganhava uma comissão”. Mais tarde, estudando, defendia alguns trocados vendendo picolé.

Como gostava – e sabia bem – de desenhar, Marcos foi cursar mecânica na Escola Técnica Tupy. “Nada a ver – admite hoje, com bom humor. – Eu era ruim em matemática, e não concluí o curso, fiz só o suficiente para me formar no ensino médio.” Mas nem tudo foram espinhos “Aprendi, na ETT, como as coisas funcionam, e tirei muitas lições para a vida.”

 

“Acabei me encontrando logo que iniciei o curso.

A afinidade com o desenho e a vontade

de inovar me mostraram o rumo.”

 

Ele vendeu linguiça e carrregou sorvetes, mas a realização veio no design

Picolés – e sorvetes – voltaram a fazer parte da vida de Marcos Sebben em seu primeiro emprego, na Paviloche. Em pouco tempo, mais uma lição: “Era trabalho duro, braçal, carregando sorvete para os caminhões. Aprendi ali a importância da logística”. Depois, um estágio na Fábio Perini e o contato inicial com projetos de máquinas e equipamentos. Trabalhou com montagem e venda de computadores, até pensou em cursar ciências da computação, mas acabou optando pela recém-aberta faculdade de design gráfico na Univille. Aluno da primeira turma, viu, enfim, acender-se a luz da vocação.

Após alguns estágios em estúdio, agência e uma indústria, Marcos juntou-se a dois colegas na criação de sua própria agência, gestada na incubadora tecnológica Senai-Midiville. “Foi um processo complicado aprovar nosso plano de negócios, mas conseguimos!” No dia 25 de maio de 2001, nascia a Design Inverso, um estúdio voltado a projetos de design industrial. Marcos formou-se em 2002 e, depois de cinco anos sediado no Senai, montou o estúdio numa casa alugada.

Há pouco mais de dois anos instalou-se em sede própria, num amplo galpão (antiga marcenaria) na rua José Gerard Rolim Filho, 211, no bairro Bom Retiro. O time de profissionais se dedica à criação de formas para produtos nas áreas de transportes, eletrônicos, máquinas e equipamentos, mobiliário, acessórios, eletrodomésticos e utilidades. No variado portfólio, há desde uma prosaica embalagem de medicamento até lanchas.

Além da gestão da empresa, Sebben exercita sua arte em projetos (alguns pessoais, como uma cadeira que fica no hall de entrada), viaja o mundo em busca de inovação, profere palestras e é diretor regional da Abedesign (Associação Brasileira de Empresas de Design). Mais que os prêmios, um fato lhe dá orgulho: “Colocamos Joinville no cenário nacional do design”.


Mais que uma paixão, a dança do ventre permeia a vida de Ticiana Valle, a bailarina Adma Mirage

A cultura que vem da alma transformou a vida da farmacêutica e a impulsionou à busca do conhecimento
Gisela Müller/ND
Ticiana Alexandra Valle, a Adma Mirage, no estúdio que se tornou uma espécie de templo feminino para a dança que melhor representa a mulher

 

 

Uma paixão! Algo que vem da alma, se revela nos movimentos e extrapola os limites, impulsionando a ampliação do conhecimento e permeando os mais diversos aspectos da vida. Essa é a relação da bailarina Adma Mirage com a dança do ventre. Mais que uma manifestação artística completa em si, ela faz da prática um mergulho na cultura árabe e uma busca pelo redescobrimento do “feminino”, muitas vezes deixado de lado na correria do dia a dia.

Adma Mirage é o nome artístico de Ticiana Alexandra Valle, farmacêutica formada pela UFSC, com pós-graduação em homeopatia, especialização em farmácia de manipulação e mestrado em saúde e meio ambiente, que durante todo o dia pode ser encontrada à frente de sua farmácia, no bairro Anita Garibaldi.

A bailarina e a farmacêutica são dois lados da mesma moeda, que se complementam ainda com os papéis de mãe de quatro filhos (dois biológicos e dois de coração, que vieram com o segundo casamento), mulher, filha, dona-de-casa e integrante da diretoria da Anacã Joinville – Associação de Grupos Dança.

O gosto pela dança vem desde a infância, como ocorre com grande parte das meninas. Com nove, dez anos, mesmo sem poder fazer aulas formais, ela brincava de dançar com as amigas que faziam jazz, na hora do recreio. A brincadeira chamou a atenção da escola, que logo convocou o grupo para participar das homenagens e festas cívicas. Com a adolescência e os esforços para entrar na universidade – e depois sair -, a dança ficou de lado.

Um dia, porém, estava voltando para casa, em Florianópolis, passou em frente a uma loja que vendia fantasias e viu um traje de dança do ventre. A afinidade foi imediata. “Parei na frente da vitrine e fiquei encantada. Tinha que fazer aquela dança”. Mas era hora de se concentrar na conclusão do curso, focar na carreira.

 

“O meu grande sonho é resgatar

a dança do ventre como dança

oriental árabe, para que se quebre

o vínculo que se formou com o lado sexual.

É trazer seriedade e respeito à dança

do ventre, assim como temos com

o balé, o tango, o sapateado e o samba.”


Ticiana se formou em 1998, voltou para Joinville, começou a trabalhar. E só então pode buscar as tão sonhadas aulas de dança do ventre. “Aí, me descobri. A dança era uma identificação de alma. Não podia ficar sem ela”, revela.

A partir daí, começou a desenvolver duas vertentes: de um lado a farmacêutica, que se especializava em sua área, abria seu próprio negócio, consolidava uma carreira. De outro a bailarina, que mergulhava nos estudos práticos e nos livros, e buscava materiais importados dos Estados Unidos e, principalmente, do Egito, que possibilitassem o aperfeiçoamento.

Os dez anos seguintes foram de muitas mudanças e aprendizados. Nasceram os dois filhos e um problema de saúde em 2007 a deixou de cama por quatro meses. “Foi um ano de aprendizado. Depois disso, passei a valorizar mais os filhos, a casa, a profissão, a dança. Me deu forças”, analisa.

Forças, inclusive, para investir em sua paixão pela dança. Em 2008, foi para o Egito para participar do Festival Internacional do Cairo. Quando voltou, começou a dar aulas de dança do ventre e abriu seu estúdio – ainda que de forma modesta. “Montar esse espaço foi a realização de um sonho de infância”, comenta, brincando que o estúdio é um “templo do feminino”, pois não entra homens, só mulheres. “Dar aulas é o meu momento de pura alegria”, afirma. Mais que a dança do ventre, Adma vive uma imersão na cultura árabe. “No meu carro, só toca música árabe. Estou estudando árabe. Quero entender essa cultura, tão envolvente.”

Com tudo isso, ela ainda arruma tempo para dar sua contribuição ao fortalecimento da dança em Joinville, participando ativamente da Anacã. Além de ser tesoureira na atual gestão, participa dos eventos “Dança Joinville”, promovidos pela associação. Para Adma, Joinville é a capital da dança, mas não tem espaço para os grupos – por isso a necessidade de se unir para batalhar pelos objetivos comuns.

Para o futuro, a bailarina/professora/farmacêutica sonha com uma maior valorização da dança do ventre e a quebra de preconceitos que ainda rondam a modalidade.


Valdirene, a menina criada no Lar Abdon Batista que conquistou o posto mais alto do Carnaval

Mais do que a bela rainha da folia de 2014, título que conquistou pela terceira vez, ela é considerada a rainha da obstinação
Rogério Souza Jr./ND
Candidata da Unidos pela Universidade, Valdirene brilhou na avenida no Carnaval de Joinville

 

Era uma vez...

... uma criança nascida em berço pobre, deixada aos cuidados de um lar provisório. Adotada por uma família rica de coração, encontrou um lar acolhedor e definitivo. Sonhou, desejou, planejou, lutou e venceu. E vive feliz.

O que parece a sinopse de um conto de fadas é, na realidade, o resumo da vida de uma joinvilense chamada Valdirene Cristina. O sonho de criança, ser profissional da dança, transformou-a na Val Bernardi, bailarina, promotora de eventos e, pela terceira vez, rainha do Carnaval de Joinville. Logo no início da conversa, ela transforma o repórter em biógrafo ao alertar: “Minha história daria um livro”. Como se verá a seguir, de fato dá um livro; daqueles de contos de fadas, com provável final feliz – pois a história ainda está sendo escrita.

Valdirene nasceu em 1981, em Joinville, no seio de uma família humilde. “Fui a quinta de sete irmãos, numa casa pobre. Sem condições de proporcionar uma vida digna, meus pais me entregaram aos cuidados do Lar Abdon Batista. Foi um lugar que pude chamar, realmente, de primeiro lar.” Pela proximidade, Val iniciou a vida escolar no vizinho colégio Celso Ramos. “Eu admito que era rebelde, mas com 7 anos eu já sabia o que queria na vida.” E o que era? Primeiro, claro, um lar mais próximo do convencional; depois, ser bailarina. “Eu queria dançar!”

A primeira parte do sonho materializou-se aos 8 anos, quando Sueli Maria Bernardi, educadora a serviço da Prefeitura, decidiu adotar a menina que já havia alfabetizado. “Ela e o marido, Dante, não podiam ter filhos. Então, demonstrando a total ausência de preconceito, me adotaram.” E Valdirene Cristina ganhou o sobrenome Bernardi.

 

O segundo sonho a realizar

 

Da segunda série em diante, até concluir o ensino médio, Val foi aluna do colégio Osvaldo Aranha, no Glória. E o sonho de se dedicar à dança ficou cada vez mais recorrente. “No tempo do lar, eu já saía na ala infantil da escola de samba Unidos do Boa Vista no Carnaval. Tinha o samba nas veias. Com 11 anos, decidi que minha vida profissional seria ligada à dança.”

A materialização do sonho teve início em um curso de dança da Casa da Cultura. Não faltou drama em meio à animação. Os olhos de Val brilham ao se recordar da primeira professora, a saudosa Karin Busch. Depois, teve um professor de Curitiba, chamado Ademir, morto por uma bala perdida. “Perdi meu leme”, emociona-se. Mas, daquele tempo, o principal foi a paixão que Valdirene logo sentiu pelo jazz. “Foi amor mesmo, eu adorava dançar jazz!”

Certo dia, convidada por uma amiga, foi até a Fenachopp assistir a uma apresentação de dança de alunos do Grupo Paiee (Programa de Apoio e Incentivo ao Esporte Educacional), criado pela ex-bailarina Fabíola Bernardes. “Gostei muito e logo entrei no grupo. Depois fui para a Comdança, também da Fabíola, a pessoa que me lapidou.” Dali para a frente, muito trabalho: “Participei de várias edições do Festival de Dança com a Fabíola, com quem fiquei até 2001, e também dei aulas no Paiee. Quando a Comdança acabou, fui para a Andança e, desde 2005, estou no grupo do bailarino e coreógrafo Fernando Lima.”

Em 2006, Valdirene formou-se em educação física pela Univille. Já integrou, como bailarina, várias bandas, e atualmente está no Portal do Som. Também trabalha com eventos, promovendo performances de samba em casamentos e ensinando coreografias para noivos (contato pelo 9635-9893).

O reinado de Val Bernardi no Carnaval começou em 2008, representando a Liga; dois anos depois, nova vitória, pelo bloco Manda Brasa. Em 2012, não participou, mas a vitória veio de outra forma: “Nasceu minha filha, Maria Luiza”. Agora, em 2014, Val aceitou o convite da Unidos pela Diversidade. E não deu outra: tricampeã (sempre tendo como rei momo o amigo Leonardo Santos – veja o perfil do “Bola” na edição de amanhã).

Uma continuação feliz para a menina pobre que se tornou rainha da obstinação.


Ah! Se os fuscas do Serjô falassem...

Colecionador dispensa às suas miniaturas de carros a dedicação de uma criança
Gisela Müller/ND
Serjô se dedica ao hobby há seis anos e tornou-se um aficcionado por miniaturas. O New Beetle azul, de plástico, motivou a coleção que não para de crescer

 

 

Nenhum das dezenas de Fuscas da coleção de Serjo Renato Passos Lisboa, o Serjô, fala. Em compensação, há outros carros que roncam e aceleram igual a um bólido de verdade. Há viaturas com sirene e até um “rádio-player-automóvel” que sintoniza AM e FM, tem entrada USB e um poder de som suficiente para animar uma festa. “Comecei a colecionar automóveis há pouco tempo, mas virou febre. Não consigo passar direto por uma vitrine que tenha modelos expostos, e cuido de cada um deles como se fosse único”, diz o colecionador – sob o olhar conformado da companheira Sirlei, que admite: “Primeiro perdi uma estante, agora foi a sala inteira. Pelo menos ele cuida sozinho dos carros”.

Na então pequena cidade de Pelotas, onde nasceu há 62 anos, os carrinhos de brinquedo de Serjô eram iguais aos de qualquer criança. “Éramos quatro irmãos, meus pais não tinham condições de dar presentes sofisticados. Então, ganhávamos no Natal ou no aniversário algum carrinho de plástico. Junto com a gurizada, improvisávamos brinquedos com a sucata disponível.”

A condição modesta da família obrigou Serjô (“Meu nome era pra ser Sérgio, mas a escrivã errou ao preencher a certidão de nascimento”, explica) a pegar no batente muito cedo. Com 11 anos já trabalhava num escritório de contabilidade, mesmo emprego onde teve o primeiro registro formal em carteira, aos 19. Na juventude, as brincadeiras de criança foram substituídas pela presença constante no estádio Bento Freitas, torcendo pelo Grêmio Esportivo Brasil – paixão ainda mantida à distância, dividida com o JEC e o Flamengo.

Aos 20 anos, descobriu a vocação de vendedor. “Comecei na antiga Ibraco, sem experiência alguma, mas me saí bem, tanto que logo assumi a chefia. Depois, pela Imcosul, então uma das maiores redes gaúchas de lojas de eletrodomésticos, implantei filiais em Cachoeira do Sul, Tubarão, Criciúma e Florianópolis.”

Em 1983, a Imcosul inaugurou uma loja em Joinville, na rua 9 de Março, e lá estava Serjô à frente. “O prefeito Wittich Freitag cortou a fita. Em 1986, quando a Imcosul fechou, fui trabalhar na Lojas Freitag.”

Depois disso, Serjô ainda passou por outras redes e, há dez anos, está no departamento comercial da Fibrasca, fabricante de travesseiros, sediada em Pirabeiraba.

 

Até mesmo um exemplar em madeira, esculpido por um amigo que sabe da paixão dele por fuscas foi incorporado à coleção

 

O primeiro Fusca a gente nunca esquece

 

Serjô nem cogitava ser um colecionador quando certo dia um filho lhe mostrou uma lembrança que viera na cesta de fim de ano da Milium, onde trabalhava: era um modelo em plástico, azul, do New Beetle, o sucessor do Fusca. “O carrinho me despertou interesse e tomei posse na hora! Isso foi há seis anos, e marcou o início da minha obsessão por miniaturas”, conta.

No início, o alvo se concentrava nos Fuscas: “Comecei a comprar tudo que via de miniatura. Aí, os amigos passaram a me presentear com outros modelos e a variedade aumentou”.

Há algum tempo, a coleção ganhou um incremento, quando Serjô descobriu na Casa das Revistas da avenida Getúlio Vargas, ponto de parada entre Pirabeiraba e o Petrópolis, onde reside, a coleção “Carros Inesquecíveis do Brasil”, lançada pela Editora Altaya. São fascículos mensais, cada um abordando um modelo e trazendo uma réplica. Atualmente, 40 miniaturas vão se empilhando na prateleira. “A previsão era lançar 50 fascículos, mas a editora já avisou que vai estender até 75, e não me surpreendo se chegar a 100.” Além de contar com seu exemplar sempre reservado pelo amigo Rogério na banca, Serjô se atualiza pelo site da editora. Os modelos nacionais já estão ganhando concorrência de outra coleção, formada somente por Ferraris. Também há frotas de Kombis, bólidos estrangeiros e até um precioso Fusca esculpido em madeira por um amigo.

Cuidados com a coleção não faltam: com exceção da coleção “Carros Inesquecíveis”, acondicionada em caixinhas plásticas, todos os demais são limpos diariamente, meticulosamente. “Só eu posso fazer isso”, adianta o colecionador.


Desde criança, Mariza Santos da Silva Vazquez sabia que seu caminho passaria pela escola

"O magistério é a minha vida", se emociona a professora no dia de sua aposentadoria. Agora, ela quer se dedicar à música

“Mesmo após 35 anos de carreira e aposentada como coordenadora, sempre vou me considerar professora. O magistério é minha vida.” A declaração resume o sentimento de Mariza Santos da Silva Vazquez, professora durante a maior parte da carreira em Araquari, onde nasceu, e aposentada desde o dia 5 de fevereiro. No dia do adeus, em homenagem feita por colegas e pela Secretaria de Educação do município, ela deixou claro o sentimento de dever cumprido. “A partir de agora – disse, durante o evento – vou me dedicar à segunda paixão, que é a música. Já comprei um cavaco e vou cantar e tocar muito.”

 

 

Fabrício Porto/ND
Aposentada, Mariza visita a Escola Municipal Rosalvo Fernandes, em Araquari, uma das últimas em que deu aulas

 

 

Primogênita de três filhos, Mariza nasceu em 1957: “A parteira Justina foi quem me trouxe ao mundo, na casa do meu bisavô, ali onde hoje é a secretaria da Paróquia Senhor Bom Jesus”. Desde pequena, Mariza tinha o sonho de ser professora. Marca genética não faltava: “Minha mãe, Zaida, era alfabetizadora. Trabalhou no Grupo Escolar Almirante Boiteux e dava aulas particulares em casa, na cozinha”. Ao lado da mãe, a futura mestra já aprendia alguns segredos da profissão.Mariza fez o ensino fundamental – na época primário e ginásio – no mesmo colégio Almirante Boiteux, mas não foi aluna da mãe. “Minha professora, no primário, foi a irmã Edite, de quem tenho lembranças muito carinhosas. Uma das matérias de que eu mais gostava era música. Pena que foi retirada do currículo”, lamenta.Terminado o ginásio, Mariza passou a fazer a ponte rodoviária com Joinville, cursando o segundo grau (atual ensino médio) no Colégio Celso Ramos. Já a partir do segundo ano, ingressou no preparatório ao magistério, certa da vocação e da carreira a seguir. Antes mesmo de concluir a formação, aos 17 anos estreava em sala de aula.“Foi um grande desafio, lembro até hoje do frio na barriga ao passar para a frente da sala, com a turma toda olhando pra mim. Assumi como professora, em período de experiência, na Escola Isolada Corveta. As classes eram multisseriadas, ou seja, com crianças de várias séries na mesma sala. Além de dar aulas, eu era cozinheira e também fui coordenadora.” 

 

“Após 35 anos de magistério,

parafraseando Guimarães Rosa,

‘...eu quase nada sei,

desconfio de algumas coisas’.”


Amor pela profissão 

No pequeno colégio da Corveta, Mariza demonstrou o amor pela profissão. “Eu ia de manhã para o Celso Ramos e à tarde, de ônibus, até a escola. A volta para casa era a pé!”, recorda. Da Corveta, assumiu uma vaga na Escola Municipal Lacy Luiza da Cruz Flores, no Itinga, em Joinville, onde ficou nove anos. Formou-se em pedagogia pela ACE, em 1980, e foi dar aulas nos colégios Barão de Antonina e Gustavo Friedrich, em Mafra, chegando ao posto de supervisora.Do Planalto Norte, além de mais experiência (enriquecida com três pós-graduações), Mariza trouxe uma aliança na mão esquerda. “Nós nos conhecemos no prédio em que morávamos, e nos casamos no dia 31 de julho de 1988”, detalha o marido, o uruguaio José Vazquez (hoje professor de espanhol e presidente do Corpo de Bombeiros Voluntários de Araquari).

Da união nasceram Bárbara, há 23 anos, e Vítor, 21 (com deficiência mental, Vítor levou a mãe a dedicar boa parte da carreira ao ensino para crianças com dificuldade de aprendizagem). Mas mesmo com deficiência, Vítor mantém atenção constante à entrevista, até mesmo relembrando a mãe de algum detalhe.De volta a Araquari, Mariza deu aulas na Apae de Joinville, na Escola Municipal Amaro Coelho e da Rosalvo Fernandes, de sua cidade, dividindo a sala com a supervisão. Os últimos cinco anos foram dedicados à coordenação pedagógica, na Secretaria da Educação.

Agora, como adiantou no dia da homenagem, Mariza quer dedicar mais tempo à música e ao terno de reis que fundou no colégio Amaro Coelho. Mas ainda sobra tempo para matar a saudade do magistério. “Minhas colegas vivem me ligando para pedir consultoria.”


As mãos de ouro de Traudi, a bordadeira e tricoteira

Ela começou a carreira aos 12 anos e vem se especializando ao longo dos anos, por isso, nem pensa em parar
Fabrício Porto/ND
Traudi tem uma rotina incansável: produz peças para decoração e roupas, sem nem mesmo precisar tirar as medidas

 

 

Quando tinha apenas cinco anos, a pequena Traudi gostava de “ajudar” a mãe, Helga, a fazer tricô. “Meu irmão mais velho ia brincar na rua. Pra mim, restava ficar dentro de casa. Eu gostava muito de ver minha mãe tricotando e ficava desenrolando o fio, brincava com as agulhas. Minha mãe me ensinou a tricotar e nunca mais parei.”

Hoje, aos 63 anos, Edeltraud Wiener Mühlhausen é considerada “mãos de ouro” pela imensa clientela que fez na cidade – e até no exterior. Considera-se tricoteira profissional há 42 anos e bordadeira há 22. Em sua casa, numa tranquila rua do bairro América, há peças encomendadas, como roupas tricotadas, entre tapeçarias, cortinas, bandôs, panos de prato, toalhas... “Todos os meus dias são tomados pelo trabalho. Começo de manhã e só paro à noite, e já tenho encomendas para o ano todo”, diz a artista.

Só há um período em que as mãos trocam as agulhas e fios por xícaras, talheres e quitutes: as tardes de terça são reservadas para o café com as amigas, um autêntico “stammtisch”, sempre na casa dela. Durante estes encontros, as amigas também decidem para quem doar muitas das peças elaboradas pelo grupo.

“Nasci em dia de eleição, 3 de outubro de 1950. Minha mãe votou na Maternidade Darcy Vargas”, brinca Traudi, que passou a infância no Glória e a adolescência no Floresta. “Fiz só o ensino fundamental, e lembro-me da professora Nilsa, da pequena escola do Glória onde fiz o primário. Precisei começar a trabalhar cedo, e a vida me deu a faculdade.”

De fato, tudo foi precoce na vida de Traudi: aos 12 anos iniciava no primeiro emprego, na Fábrica de Massas Steuernagel (fechada em 1986); alguns meses depois foi para o balcão da Chapelaria Moderna (de Estanislau Woiski). Foi nessa época que vendeu sua primeira peça tricotada: “Até então, só fazia roupinhas e xales para minhas bonecas, até que tricotei uma peça sob encomenda para o dono de uma relojoaria que havia em frente à Catedral”.

 

Depois da oração, é hora de se dedicar ao trabalho

 

Traudi trabalhou na chapelaria até se casar com Ivo Mühlhausen, em 1967. “Nós nos conhecemos na matinê do Cine Palácio”, lembram, quase simultaneamente. A união gerou os filhos Ivan, 45 anos, e Elise, 43 (pastora da Igreja Quadrangular, que toda a família frequenta); os netos são quatro, entre eles Guilherme, que no time de basquete de Joinville era o pivô “Tanque”.

Depois de casada, Traudi ainda trabalhou um tempo no Magazine Zanella, até se decidir pelo tricô. “As encomendas cresciam, exigindo cada vez mais tempo. Minha filha tinha um ano quando adotei o tricô como profissão.” Vinte anos depois, Traudi incluiu no trabalho o bordado – que aprendeu sozinha.

“Meu dia sempre começa com uma oração, pois sem Deus ficamos sozinhos. Aí, começo a trabalhar.” O trabalho, porém, sempre tem um tempo reservado para a produção familiar, desde peças de decoração (o tema do momento é a Páscoa) até roupas para a família (como o elaborado casaco tricotado para a neta que vai para o Canadá). Na produção de vestuário, Traudi dispensa moldes e não precisa tirar as medidas das pessoas. “Só de olhar já sei qual é o tamanho”, garante, com a experiência de já ter sido manequim de moda na juventude.

As nove frequentadoras dos cafés terça-feirinos também praticam alguma arte manual (duas foram alunas de bordado da anfitriã). As peças executadas durante os encontros são sempre destinadas a doações para pessoas carentes, de preferência idosas.

Ainda que tenha seguido outra profissão, a filha Elise também leva nas veias o sangue de artista, dom comprovado nas belas tapeçarias enfeitando as paredes da casa dos pais. “Esse é um trabalho que precisa ser feito com amor”, conclui Traudi.

 

Serviço

Para conhecer o trabalho de Traudi – e encomendar peças – é só ligar para 3422-4626, em qualquer horário.


Susana Vargas usa a pintura em tecido na decoração dos vestidos das rainhas das festas de região

Com muita criatividade, ela mantém a tradição, aliando-a com os bordados, em busca de mais beleza e leveza
Rogério Souza Jr./ND
Susana realiza na atividade todos os sonhos de menina, quando dava vazão à criatividade pintando os objetos da casa

 

A artesã Susana Vargas brinca com as tintas desde menina. Mas há cerca de seis anos, resolveu levar suas técnicas e pincéis para uma nova “tela”: os vestidos das rainhas das festas típicas da região. Antes confeccionados em tecidos encorpados e bordados à mão, eles ganharam leveza e um colorido especial com os ramos de flores - e ficaram mais acessíveis às jovens que sonham em participar de concursos e festas das sociedades regionais. Com isto, ela dá sua contribuição para que a tradição seja mantida, e, ao mesmo tempo, renovada.

Susana conta que a mãe já pintava panos de prato e ela, com cinco anos, queria pintar também. Um dia, ganhou um cachorrinho de louça, que a cada dia ganhava uma nova cor. “Foi verde, azul... pintava com guache, lavava e pintava de novo”, comenta ela, que aos nove anos fez o primeiro curso de pintura em tecido. “E me deixaram pintar de verdade”, brinca.

Em 1991, aos 14 anos, um fato marcou definitivamente a sua vida: foi eleita a Rainha da Festa do Colono, da Sociedade Rio da Prata. Na época, não tinha vestido para alugar, como ocorre hoje. O jeito foi buscar a ajuda de uma costureira para fazer o traje sob medida e depois levá-lo a São Bento do Sul, para ser bordado à mão. De veludo preto e ornamentado com flores bordadas, o vestido era lindo, mas pesado, quente - e caro. “Ainda bem que era julho”, lembra ela, que ainda conserva o traje.

A partir daí, Susana não se desligou mais da Sociedade Rio da Prata. Hoje, participa do grupo de Atiradores e coordena o concurso da Festa do Colono, um dos pontos altos do tradicional evento. Além disso, é secretária do Sindicato Rural, atua nos grupos de Desenvolvimento da Mulher Rural e é presidente do grupo da Casa Krüger, que reúne cerca de dez mulheres da área rural que comercializam seus produtos. Neste caso, os vestidos são deixados de lado e entram em cena panos de prato, caminhos de mesa, camisetas e enxovais para bebês.

Unir à pintura aos trajes das rainhas e princesas é algo mais recente. Há anos Susana conhece Carmen Gehrmann, referência na confecção deste tipo de vestimenta. Mas só há cerca de seis anos é que a pintura começou a dividir espaço com os bordados.

A adoção da técnica trouxe mudanças às roupas. Para começar, os tecidos já não precisavam mais ser tão encorpados – ganharam leveza e ficaram mais frescos. O tempo de confecção diminuiu. Um vestido pode levar até três meses para ser bordado. Para ser pintado, até duas semanas. “Ficou mais acessível”, garante a artesã, que faz de quatro ou cinco vestidos novos por ano, principalmente para a Festa do Colono e para a Festa da Colheita, da Sociedade Dona Francisca. A quantidade pequena de novos vestidos tem uma explicação: embora o uso seja maior, a maioria das meninas prefere alugar os trajes.

As pinturas também podem ser observadas na Festa das Flores, que a contrata para ornamentar os vestidos. “As rainhas das Festas das Flores têm dois jogos: um pintado e um bordado”, conta, revelando as que as faixas da “realeza” já usam o recurso da pintura há mais tempo.

Para ela, mais que uma atividade profissional, ornamentar os vestidos é um grande prazer e uma forma de contribuir para a realização dos sonhos de muitas jovens “É uma realização ver eles 'dançando'. As meninas curtem e a gente também”, revela.

Para o futuro, a meta é continuar envolvida nas atividades do Sindicato Rural, onde é responsável pela divulgação e organização de diversos cursos de profissionalização. Um deles, em parceria com a Fundação 25 de Julho, ocorrerá em 5 de março na Sociedade Rio da Prata e será uma feira de produtos coloniais e artesanais, todos produzidos na área rural de Joinville. “Posso dizer que estou mais focada em incentivar e divulgar esse tipo de trabalho... Ajudar mais pessoas a se profissionalizar e gerar renda através de suas possibilidades aqui mesmo na nossa região”, afirma.


Jules Soto concretiza no Museu Oceanográfico da Univali de Piçarras sua fixação pela vida marinha

Colecionador nato desde que catou a primeira conchinha à beira-mar, ele é um dedicado pesquisador que agora vê seu sonho tomando forma
Rogério Souza Jr./ND

 

Jules Soto encontrou no trabalho a extensão o que a princípio era um hobby e agora prepara o que anuncia que será o maior acervo da América Latina sobre vida marinha

 

Quando Jules Marcelo Rosa Soto juntou na areia sua primeira peça de coleção, uma singela conchinha, tinha apenas 5 anos. Ali, naquele gesto de guardar a concha, nascia um museólogo hoje respeitado no país. “Eu guardava tudo que me despertasse interesse. Aos 12 anos, minha mãe me deu um ultimato: ou me desfazia das coleções, ou arrumava outro lugar para acondicioná-las. Doei tudo para museus.”

Tudo? “Menos os espécimes marinhos, pois eu tinha uma verdadeira fixação pela vida marinha.” Tal paixão está prestes a se transformar na realização de um sonho, quando for inaugurado, ainda neste ano, o Museu Oceanográfico Univali, ocupando os quatro pavimentos do prédio da Universidade do Vale do Itajaí em seu campus de Balneário Piçarras. “Será o maior museu do gênero na América Latina!”, orgulha-se.

Aos 43 anos, esse gaúcho de Caxias do Sul vem pautando a vida em torno das coleções. “Eu me criei em Porto Alegre, e foi lá que encontrei a primeira concha”, conta, mostrando a relíquia ainda preservada. “Rato de museu” assumido, desde a adolescência Soto se dedicava à leitura e ao aprofundamento dos conhecimentos sobre a vida marinha. “Mesmo durante o ensino médio, eu convivia muito com alunos de pós-graduação e era frequentador assíduo do Museu Anchieta, em Porto Alegre. Admirava o trabalho dos cientistas Carlos de Paula Couto e Jeter Bertoletti” (Couto, 1910/1982, foi um dos maiores paleontólogos do país; Jeter Jorge Bertoletti é biólogo e museologista, fundador e diretor do Museu de Ciências e Tecnologia da PUC-RS).

Quando recebeu o tal ultimato da mãe, aos 12 anos, aproximou-se ainda mais do Museu Oceanográfico de Porto Alegre. Como sua coleção só crescia, viu a necessidade de criar uma ONG. Assim, em 1987 surgiu o CBCLIN (Centro de Estudos Biológicos Costeiros Liminológicos e Marinhos).

 

União com a Univali

Foi também em 1987 que Jules Soto iniciou suas andanças, primeiramente passando dois anos no Parque Nacional de Fernando de Noronha, onde se formou mergulhador. Iniciou a faculdade de biologia em 1990, na PUC gaúcha, logo abandonada devido aos deslocamentos. Em busca de uma universidade para tutelar seu acervo, viu opções no Paraná, no Ceará e no Rio Grande do Sul.

Acabou optando por uma quarta via, quando descobriu o recém-instalado curso de oceanografia da Univali, em Itajaí. “Foi como juntar a fome com a vontade de comer”, diz, contando que passou em primeiro lugar no concurso da instituição (quando era uma fundação municipal). Começou o trabalho em 1993, logo acomodando seu já valiosíssimo acervo da vida marinha. Seis anos depois, enfim, formou-se... mas em geografia.

Desde que chegou à Univali, Soto não parou de trabalhar no Museu Oceanográfico. Em princípio, funcionando como apoio para a faculdade de oceanografia, a ideia de transformá-lo em museu aberto ao público veio em 2002, com a abertura do campus de Piçarras. Em 2008 começou, efetivamente, a transformação do prédio em sede do museu.

Naturalmente, ele foi nomeado curador e passou a ocupar uma sala no térreo. Num passeio pelas salas ainda em fase de acabamento, é fácil constatar o orgulho do colecionador, que traz nos olhos o brilho intenso da satisfação ao ver o sonho realizado. E não é só o Museu Oceanográfico: em Piçarras mesmo, no Centro Cultural, logo na entrada da cidade, está outra das coleções de Jules, com objetos referentes a Copas do Mundo.

“Sou torcedor de sofá mesmo, prefiro ver jogos no conforto de casa”, admite, declarando-se colorado; também tem simpatia pelo itajaiense Clube Náutico Marcílio Dias – até porque mora ao lado do estádio Dr. Hercílio Luz. Também é curador do Ecomuseu de Porto Belo e do Museu Naval de Bombinhas e colaborador do Museu da Marinha Imperial de Florianópolis, que tem inauguração prevista para 2015. Coleciona obras de arte, selos (parte do acervo está no Museu Oceanográfico), livros... Como sempre fez, desde a primeira conchinha.


Uma bocha (e um bailinho) lá no Braz, o bar que é ponto de encontro na Estrada do Forte

Local já se tornou uma referência. Além da bocha e da sinuca, lá pode-se encontrar até um disco club estilo anos 70

A rotina de muitos moradores de Ubatuba, Itaguaçu, Capri e praia do Forte, assim como de veranistas, inclui uma passadinha no Braz Bar, seja para uma partida de bocha ou dominó, seja só pra tomar um aperitivo, saboreando uns petiscos e jogando conversa fora. Verdadeiro “senadinho”, o estabelecimento já é um ponto de referência na estrada do Forte. “Aqui se juntam pessoas da região e grupos de amigos de São Chico e de Joinville. O ambiente é familiar. Conheço a freguesia há muito tempo. Agora, então, durante a temporada, o movimento é maior ainda”, comemora o dono, Genésio Henrique Braz, que toca o bar com a ajuda do filho Murilo, 25 anos.

 

 

Rogério Souza Jr./ND
O descontraído Braz rodou pelo país até encontrar, há 20 anos, sua verdadeira vocação

 

Antes de abrir o bar, Braz se dedicou a várias atividades. Nascido há 64 anos em Joinville, penúltimo de meia dúzia de irmãos, criou-se nas imediações da rua Guarapuava, no Floresta. “Meu pai veio de Ilhota, minha mãe de Itajaí, e acabaram se casando em Joinville”, conta Braz, que fez carreira escolar no Colégio Dom Pio de Freitas. “Quem me marcou muito foi a professora Ladi Coelho”, relembra.

Ainda adolescente, começou a ajudar o pai, dono de uma empreiteira de calçamentos. “Meu pai calçou a avenida Getúlio Vargas e os pátios de empresas como Tupy, Consul e Embraco. E eu ajudei.”

Na juventude, bom de bola, jogou pelo time do Ferroviário Mirim, que tinha campo nas imediações da estação. “Joguei com Parucker, Emílio e Alceuzinho, entre outros que acabaram fazendo carreira nos campos. Mas parei cedo, devido a uma espécie de reumatismo. Fiquei oito meses com o tronco engessado, até que o doutor Duda descobriu o problema e me curou”, conta, referindo-se ao médico Karl Duda, que fez fama durante os muitos anos em que trabalhou no Hospital São Luís, em Campo Alegre.

Em busca de futuro profissional, Braz formou-se mecânico ajustador pelo Senai, mas nem começou a atuar profissionalmente. “Em 1982, me mudei para São Paulo e fui vender calçados e roupas nas ruas do centro antigo.” Doze anos depois, casado, descasado e pai de um par de filhos, retornou a Joinville.

 

O Braz Bar

 

Ainda dedicado ao comércio, Braz tornou-se viajante. Casou-se novamente há 26 anos, com Maria, e teve mais dois filhos, o já citado Murilo e o caçula Manoel, 13. Do primeiro casamento, tem um neto.

Há 20 anos, cansado de contar quilômetros pelas estradas, Braz comprou um bar na estrada do Forte, um quilômetro antes da praia que circunda a instalação militar. Construiu a casa nos fundos, aumentou o bar, fez cancha de bocha, colocou seu nome na fachada e encontrou-se com sua verdadeira vocação. “Aqui me sinto realizado. Faço o que gosto, tenho uma família maravilhosa, sou amigo dos clientes e ainda me divirto.”

Durante a temporada, o bar abre todos os dias (fora do verão, folga às segundas) às 9h30 e não fecha enquanto tiver freguês. “Mesmo que só tenha um, só fecho quando fica vazio. Todo cliente merece respeito”, garante. Ali costumam se encontrar, às terças e sextas, os 26 componentes do Grupo de Bocha de Ubatuba – do qual Braz faz parte. “Tem gente daqui, de São Francisco e de Joinville. Tudo é rachado entre o grupo, menos em dia de aniversário, quando o aniversariante paga a despesa. Também promovemos viagens com a família pelo menos uma vez por ano.”

Não faltam atrativos para quem prefere outros tipos de diversão. Frequentemente, Braz promove bailes e encontros. Para os bailões dos anos 70, seus preferidos, transforma o ambiente num típico disco club, com direito a músicas da época, jogos de luzes e até o imprescindível globo giratório. Agora, a decoração é carnavalesca, à espera do primeiro “grito de Carnaval”.


O Maceiozinho cresceu, mas mantém suas raízes em São Francisco do Sul

José Ferreira do Nascimento, da família de múltiplos Maceiós, se divide entre a sua Mocidade da Água Branca, o trabalho no porto e o futebol

“Comecei a sair no Carnaval com 12 anos, no bloco Dengosos da Água Branca. Aos 18, estava entre os fundadores da Mocidade, com o Nininho e o Ernesto. E estou até hoje!” O pequeno resumo mostra o envolvimento de José Ferreira do Nascimento, o Maceió, com o samba e o Carnaval. A poucos dias da folia, o sambista tem pouco tempo de folga, dividido entre o trabalho no Porto de São Francisco do Sul e os preparativos para o desfile, no dia 2 de março.

"Precisamos nos preparar, o desfile sai de qualquer jeito”, garante Maceió, que guarda parte dos adereços da Mocidade Independente da Água Branca num pequeno galpão em sua própria casa, na mesma rua em que nasceu e foi criado.

 

 

Rogério Souza Jr./ND
Ali, no mesmo endereço onde nasceu e se criou, ele também cultivou sua família e um casamento de 42 anos: raízes trazidas pelo seu Aristides

 

 

“Nasci na casa dos meus pais, aqui na esquina, e depois construí a minha ao lado”, conta o mais novo dos quatro filhos homens – também há quatro mulheres – de Aristides do Nascimento, o primeiro Maceió da família.

“Meu pai – explica – era natural de Maceió mesmo. Como eu vivia ao lado dele, me chamavam de Maceiozinho, que acabou virando Maceió, assim como meu irmão Joel” (ex-cronista esportivo).

Maceiozinho também teve sua passagem pelo futebol: “Com 12 anos, eu comecei no Atlético. Era meia-esquerda bom de bola”, admite, convicto do talento. Alguns anos depois, chegou a treinar no joinvilense Caxias e no curitibano Ferroviário, mas preferiu seguir amador no Atlético: “A essa altura, como estivador eu ganhava bem mais do que me ofereceram nos clubes. Naquele tempo, jogador de futebol não recebia as fortunas de hoje”. Atualmente, além de torcer pelo Vasco (“Meu filho foi àquele jogo da pancadaria na Arena, e ainda levou meu neto; na hora da porrada, caiu fora”), Maceió é o treinador do time master do Atlético (também já foi presidente do clube).

Se o Maceió pai foi trabalhador marítimo, o filho preferiu ficar em terra. “Fui marcador de madeira, trabalhei na antiga Sucam, fiquei na estiva durante 35 anos, e há seis trabalho no porto.” Durante 15 anos, Maceió presidiu o Sindicato dos Estivadores. “Comandei diversas paralisações e conseguimos muitos benefícios para a classe.”

Também teve uma passagem pela política: “Fui presidente do diretório do PMDB. Cheguei a ser candidato a vereador, mas desisti no meio da campanha. E mesmo nem eu mesmo votando em mim, consegui uns 300 votos”.

 

Inspiração na Mocidade de Padre Miguel

 

Quando a escola de samba foi fundada, em 1966, a escolha de nome teve um motivo: “Sempre fui admirador da Mocidade Independente de Padre Miguel, do Rio, por isso batizamos nossa escola também de Mocidade. Foi a primeira escola de samba de São Francisco do Sul”.

Maceió se considera um pé-quente. “Estive no Rio assistindo ao desfile em 1996, justamente quando a Mocidade foi campeã pela última vez.” Já com relação à congênere francisquense, espera mais sorte: “No ano passado, perdemos para a Imperadores por três décimos de ponto”. Neste ano, espera superar. A Mocidade vai para a avenida com o enredo “Forró da Paraíba”.

Casado há 42 anos com Ana Maria, Maceió tem quatro filhos e sete netos. “Dois netos, o João Vitor e o Leonardo, já saem na escola”, orgulha-se o vovô-coruja.

Desses anos como sambista-carnavalesco, Maceió guarda boas recordações. Algumas prosaicas: “Quando morreu o Bichinho, presidente da escola, no velório rolou um couro (batucada, pagode) durante a madrugada toda, até o enterro. O que se dizia era que mais um malandro tinha abotoado o paletó”.

 


Daniele Haak sabe tocar vários instrumentos, mas encontrou no piano a sua verdadeira paixão

Agenda cheia e muita disposição para popularizar sua arte fazem parte da vida da dinâmica artista

Fabrício Porto/ND
Vinda de uma família musical, Daniele aprendeu flauta doce, teclado, violino, acordeon, órgão, mas o piano tem a preferência

A música entrou na vida de Daniele Haak bem cedo. Aos quatro anos, o pai, também músico, a levou para fazer aulas de flauta doce no Conservatório de Vany Knoll. A partir daí, não parou mais. Estudou teclado, violino e, na adolescência, se dedicou de vez ao piano, seu principal instrumento. Hoje, aos 26 anos, Daniele também toca acordeon e órgão, participa de pelo menos três grupos musicais e está na linha de frente dos “Domingos Musicais”, na Casa da Memória, além de ser vice-presidente da Comunidade da Igreja da Paz. E, ao som do piano e com um sorriso franco no rosto, encanta com sua música.

O amor pelo piano não foi imediato. Com as aulas de flauta doce, ela foi construindo uma base sólida para o aprendizado da linguagem musical e partiu para o novo instrumento. Tinha sete anos, achou as teclas pesadas e não se adaptou de imediato. “Desisti do piano”, recorda.

Mas não da música. Procurou outros instrumentos e interessou-se pelo violino. Mas ainda não era o que queria. “Fiquei um ano e não gostei. Não me dedicava.” Então, começou a estudar teclado. Logo sentiu as limitações do instrumento e não quis mais. Começou a alternar aulas de teclado com de piano, até que, aos 13 anos, migrou definitivamente para o seu companheiro de hoje. “Comecei firme no piano, com escola clássica, aos 13 anos.” Estudou piano avançado na Casa da Cultura por dois anos, mas não chegou a pegar diploma. Atualmente, toca mais o popular que o erudito, ajustando o repertório das apresentações ao que as pessoas querem ouvir.

O pai, o bandoneonista Germano Haak, a incentivava a seguir em frente, a estudar, a se dedicar. “Ele perguntava: 'Já estudou hoje? Pelo menos uma hora?'”, recorda ela, que hoje perde a noção do tempo quando está com o instrumento. “Tem dias que não consigo tocar. Mas nos fins de semana, ou à noite, eu me perco”, revela.

 

“É tão bom ser livre

para tocar o quiser.”


Daniele tem uma agenda cheia. Integra o “Festmusik”,grupo  focado em música alemã; o “Instrumental da Paz”, com repertório dirigido às celebrações da Igreja Luterana; coordena o grupo “Cantores do Espírito Santo, na Catedral Diocesana; e é diretora de Eventos da Sociedade Cultural Alemã de Joinville, onde organiza os “Domingos Musicais”. Toca em eventos, casamentos e festas e ainda dá aulas de música à noite.

Apesar de hoje viver da música, para o futuro ela tem outros planos. Em 2014, forma-se em direito e pretende atuar na área. Atualmente, faz estágio no Ministério Público Federal, com o procurador Davy Lincoln Rocha. “Me identifico com as duas áreas. O direito é muito bonito e não achei que iria gostar tanto”, destaca.

A música vai continuar a fazer parte de sua vida. Mas de uma outra forma, com foco na área social. “É a música com um fim social. Como um meio”, explica ela, que toca em lares de idosos há anos e no ano passado realizou o projeto “Musicando nos Centros de Educação Infantil”, patrocinado pelo Simdec, da Fundação Cultural de Joinville, que levou música a crianças de até quatro anos, da rede pública de ensino. No projeto, três músicos fizeram apresentações de 40 minutos para um público que, na maioria dos casos, estava tendo o primeiro contato com este tipo de música e descobrindo os instrumentos musicais – inclusive podendo colocar a mão neles. “Quem convive com música desde pequeno não faz ideia de que tem muita gente que não a conhece”, constata ela, que pretende continuar com a iniciativa em 2014, e sonha com um ensino de música qualificado para a criançada no futuro. “A escola tem que se preocupar em formar ouvintes. O ensino de música é mais individualizado”, defende.

E o piano? Este, é claro, vai continuar sempre na pauta do dia.


Casal abre mão do conforto da aposentadoria para criar abrigo para dependentes em São Francisco

Na Comunidade Divina Misericórdia, eles transformaram seus sonhos em realidade e oferecem um lugar para recomeçar

Acordar com o canto de galo, o alarido da passarada, marrecos, porcos... Passar o dia na lida, alimentando a bicharada, cortando grama, levantando um galpão, separando material reciclável... À noite, um bate-papo, comidinha caseira e o sossego de uma boa noite de sono. Cenário típico de uma fazenda? Quase. Esse é o dia-a-dia da meia centena de internos da Comunidade Terapêutica Abrigo Divina Misericórdia, em São Francisco do Sul.

 

 

Fabrício Porto/ND
Eduardo e Maria Lúcia no abrigo onde procuram, com muita disciplina e oração, transformar a vida de dependentes de drogas lícitas e ilícitas

 

 

Ali se busca desintoxicação e recuperação de dependência química – drogas e álcool. “Sentimos que Deus nos deu uma missão, de restaurar vidas. Deixamos para trás uma vida confortável e nos entregamos à tarefa, aplicando terapia, disciplina e oração”, diz Maria Lúcia de Freitas, fundadora do abrigo com o marido Eduardo Luís do Rosário.

Foi a religião que aproximou o casal, há quase 40 anos, durante um encontro de jovens. Eduardo, o Dado, nasceu em Garuva, em 1956, e criou-se entre Joinville, onde se formou técnico mecânico pela ETT, e São Francisco. Lúcia é francisquense, tem um ano a menos que o marido e concluiu os estudos no Colégio Técnico Joinvilense. Seu pai, Luís Carlos de Freitas, foi presidente da Associação de Aposentados e Pensionistas de Joinville.

No casamento, há 38 anos, o que não faltava era cunhado. “Tenho sete irmãos, e o Dado, seis. Quem nos casou foi o padre Carmo, no Sagrado”, conta Lúcia (com duas passagens pelo Santuário Sagrado Coração de Jesus, hoje dom Carmo João Rhoden é bispo de Taubaté/SP).

O casal passou por Joinville, São Bento e São Paulo, por causa do trabalho de Eduardo, antes de se estabelecer definitivamente em São Francisco e se dedicar ao comércio. “Administramos o Restaurante Popular, na área portuária, durante 25 anos”, informa Dado.

 

Do albergue ao abrigo

 

O casal ia bem com o restaurante, tinha dois filhos e uma vida confortável. Tudo começou a mudar quando se envolveram com a gestão de um albergue, no bairro Acaraí. “Era – lembra Lúcia – para ser uma casa de passagem, mas muitos espertinhos se aproveitavam e não saíam mais, especialmente quem frequentava o ‘Rabo Azedo’. Foi quando o padre Everton (na época pároco de São Francisco) decidiu fechar o albergue e nos lançou o desafio de criar um abrigo.”

Dado e Lúcia toparam a empreitada: venderam restaurante e casa e adquiriram um amplo terreno na rua do Cemitério, no bairro Saí, com cerca de 2 mil metros quadrados – parte deles uma reserva indígena. “Era para ser um hotel-fazenda, mas estava abandonado. Fizemos muitas melhorias. Levantamos construções e transformamos neste abrigo”, reforça a tesoureira da ONG (o marido é o presidente). No próximo dia 25 de maio, a Comunidade comemora a primeira década de missão.

Para se manter e crescer, o abrigo conta com recursos do próprio casal, de uma verba mensal da Prefeitura, doações da Receita Federal oriundas da Feira da Partilha, venda de material reciclável e ofertas particulares; também se beneficia de isenções fiscais, por ser entidade de utilidade pública municipal e estadual. Nada é cobrado das pessoas internadas – apenas homens adultos. Além do casal e do filho Carlos Eduardo, 30 anos (outra filha, Luciane, de 37, mora em Osasco), trabalham no abrigo duas psicólogas e uma assistente social. Está em construção um ambulatório para atendimento médico e odontológico.

Com capacidade para 60 internos, a comunidade está com 51 no momento. Todos são envolvidos nas atividades diárias, e ficam o tempo necessário – geralmente um ano – para se livrar totalmente do vício. Há quem permaneça além disso, como Antonio Lauri Rosa, há sete anos morando ali, hoje como voluntário.

 

Serviço

A Comunidade Terapêutica Abrigo Divina Misericórdia fica na rua do Cemitério, bairro Saí (perto do acesso à praia do Ervino, na BR-280).

Telefone: 3442-5393

Email: abrigodivinamisericordia@hotmail.com

Site: www.abrigodivinamisericordia.com

 

Perfil sugerido pela leitora Maria Marlene Klein Rossi


Ana Gern resgata conhecimentos do passado e dá a eles uma roupagem contemporânea

Seu projeto “Chão Amado”, inspirado nos “tipitis” usados nos engenhos de mandioca, ficou entre os três melhores do 3º Paraty Eco Fashion, mostra com designers do país todo
Fabrício Porto/ND
Mergulhada em formas, cores e texturas proporcionados pelo crochê, Ana faz uma releitura de peças antigas em seu trabalho

 

 

Houve um tempo em que as moças bordavam a mão seus enxovais, as senhoras faziam crochê com as amigas para enfeitar a casa, e os alimentos que chegavam à mesa, como a farinha, eram produzidos em engenhos familiares na área rural. Estes conhecimentos, aos poucos, foram sendo deixados de lado e substituídos por outros, no nosso dia a dia. Mas ainda há quem busque nessas antigas práticas uma inspiração.

A joinvilense Ana Gern resgata esses antigos saberes e os recria com uma roupagem contemporânea e colorida. Une o presente e o passado em peças únicas, artesanais, repletas de histórias e significados. Um trabalho que começou há seis anos e que já é reconhecido no País: no fim do ano passado seu projeto “Chão Amado”, inspirado nas formas dos “tipitis” usados nos engenhos de mandioca, ficou entre os três melhores do 3º Paraty Eco Fashion, uma mostra que reuniu designers do país todo.

Joinvilense, ela desde pequena cultivou o gosto pela arte e aprendeu a valorizar a história.

Filha da artista plástica Cláudia Gern e de Raul Gern, um engenheiro agrônomo fascinado por antiguidades e que ao longo da vida montou variadas coleções, Ana cresceu em uma casa onde conservar os objetos, reaproveitá-los ou dar uma nova utilidade era rotina.

Estes conceitos foram sendo interiorizados pela menina e hoje se traduzem em sua arte, que tem dois fortes pilares: a história e a sustentabilidade. “É mostrar que essas histórias ainda existem e precisam ser conhecidas, valorizadas e preservadas”, explica ela, que até se formou em psicologia e atuou na área durante 13 anos antes de decidir largar tudo e se dedicar às suas criações. “Fui para a psicologia, porque não via na arte uma possibilidade profissional, mas ela não me realizava”, conta.

Em 2005, decidiu que era hora de apostar no que realmente gostava. Incentivada pelo marido e com a parceria da mãe, que já “crochetava” e a introduziu no mundo das agulhas, Ana Gern montou tempos depois uma coleção com colares que mesclavam bordados e crochê.

Buscar aprimoramento foi uma consequência natural. Ana fez pós-graduação em criação e gestão de moda na Univali e descobriu que suas peças eram autorais e mereciam uma assinatura. Em 2009, surgia a primeira coleção com a marca Ana Gern – artesanal, sustentável, repleta de significados: “Jardim do Amor” era dedicada à mãe, falecida pouco tempo antes.

Depois dos colares vieram almofadas, pufes, cestos, objetos de decoração... O crochê ganhou cores novas, vibrantes, e passou a ser tecido com tiras de malha que sobram das indústrias têxteis. Reaproveitar é uma das palavras-chave e Ana hoje conta com o apoio da RVB Malhas, de Brusque, que doa as tiras de malha, e da Doehler, em Joinville, que doa as sobras de tecidos usados em testes para a base dos pufes. “É uma forma de fazer um trabalho sustentável”, explica.

 

Bordados e “tipitis” : novos ares para antigos saberes


Resgatar e preservar os antigos saberes são outras marcas do trabalho de Ana Gern. Nessa busca, ela já coordenou o livreto “Entrelaçando Histórias”, realizado pela Sociedade Cultural Alemã de Joinville, com apoio da Lei de Incentivo à Cultura, ao Turismo e ao Esporte, de Santa Catarina, que procurava recuperar a expressão cultural do bordado, por meio de sua história e as suas técnicas. Depois dele, realizou o projeto “Retratando Joinville”, que teve a proposta de desenvolver uma coleção de panos de prato, tendo como referência os tradicionais “Wandschoner” e a Estação da Memória de Joinville.

E em 2012, abriu os “baús” do Museu da Imigração, com o projeto “Desvelando Histórias – pesquisa exploratória sobre o bordado em Joinville a partir do acervo do Museu Nacional de Imigração e Colonização”, viabilizado pelo Simdec, da Fundação Cultural de Joinville.

Atualmente, Ana Gern pesquisa os “tipitis”, antigos cestos feitos de taquara trançada e usados nos engenhos de mandioca da região. Recriados em crochê com fitas de malha, eles foram inspiração para a coleção premiada no 3º Paraty Eco Fashion e agora a designer-artesã pretende resgatar a técnica de traçagem, praticamente esquecida. “A proposta é resgatar isso, documentar e fazer uma releitura nas peças”, afirma, sempre mantendo o foco nos conceitos de conhecer, preservar e dar novos usos, novos olhares.

 

Para conhecer um pouco mais das criações de Ana Gern, é só entrar no Facebook e buscar “Ana Gern Acessórios”:

https://www.facebook.com/pages/Ana-Gern-Acess%C3%B3rios/178196288944965?ref=br_rs.


Depois de mais de 20 anos atuando em comércio exterior, Cláudia Merkle ousou mudar de vida

Ela hoje ganha a vida de uma forma muito doce: tornou-se uma verdadeira artesã do açúcar, confeccionando delícias
Rogério Souza Jr./ND
Cláudia uniu o talento que vem de família com o conhecimento técnico e descobriu uma nova carreira, em meio às delícias da gastronomia

 

 

Quem nunca olhou pela janela do escritório e, em meio às tensões da vida corporativa, sonhou em abrir seu próprio negócio, ganhar a vida com algo que lhe dê muito prazer, ser senhor de seu próprio tempo? Formada em direito e em comércio exterior, com pós-graduação em logística empresarial, a joinvilense Cláudia Merkle há quase quatro anos deixou para trás a segurança ilusória da carteira assinada e está dando forma a esse desejo. Acreditou em um talento que vem de família, investiu em cursos de aperfeiçoamento e entrou de vez na cozinha, para se dedicar a uma nova atividade: a confeitaria artesanal.

Os doces fazem parte de sua trajetória há muito tempo. No início dos anos 90, com 23 anos e recém-formada em administração, já trabalhava na área de comércio exterior, mas decidiu abrir uma casa de chá no bairro Bom Retiro. Com a cara e a coragem, mas com poucos recursos, comprou cinco quilos de farinha de trigo, três quilos de açúcar, se uniu à mãe e ao noivo, contratou uma confeiteira e abriu o estabelecimento. Trabalhava durante o dia em sua área e à noite e aos fins de semana na casa de chá, de segunda a segunda, sem dia para descansar.

Foram cinco anos de atividades, até que a falta de capital de giro colocou um ponto final no empreendimento. Foi um golpe duro, difícil de absorver. “Encaixotar a louça foi como encaixotar um sonho, um projeto de vida. Naquele dia pensei: 'nunca mais vou trabalhar com isso'”.

Naquela época, os doces ficavam a cargo de mãe, Erika Merkle, e de uma profissional  contratada. Um dia, porém, a confeiteira faltou. Apesar de ter crescido cercada pela mãe, as tias e a avó - todas cozinheiras de mão-cheia -, Cláudia não costumava fazer doces. “Minha mãe falava: ‘sai da cozinha que você não tem jeito para isso'. Mas a confeiteira nos deixou na mão e tive que fazer. Foi um exercício de superação”, lembra. O resultado foi surpreendente e ela descobriu um novo talento. “Vi como a Cláudia era prendada e tive que fechar a boca. Ela tinha um dom. Em um instante, fazia coisas muito melhores que eu”, conta Erika, a mãe.

 

"Aprendi a ter equilíbrio entre trabalho e a vida social.

Posso pegar a filha na escola e ir ao cinema à tarde,

fazer coisas que o trabalhador não faz na semana,

e sacrificar o sábado para dar conta de tudo.

Posso fazer meus horários."


O retorno à confeitaria começou com um revés. Em 2010, depois de anos em uma empresa, Cláudia foi demitida. Era recém-formada em direito, mas já tinha certeza de que não queria atuar na área. Era hora de repensar a vida, a carreira, o futuro. Um dia, pediu que a mãe lhe ensinasse a fazer strudel. Uma prima provou, adorou, e perguntou por que ela não vendia. E ela, que havia jurado nunca mais trabalhar na área, pensou na possibilidade. Nessa época, conheceu o Espaço Solidário, do Consulado da Mulher, e começou a participar. “Foi um teste para saber se era isso mesmo que eu queria.”

A experiência a agradou e ela decidiu investir em formação profissionalizante. Fez um curso técnico de um ano e meio no Senac e recentemente participou de um intensivo em São Paulo, na escola de Diego Lozano, um expoente da confeitaria nacional. E abriu a Fuxico Doce, apostando na Confeitaria Artesanal, onde tudo é feito à mão, sem produção em série, pela própria doceira/artesã.

Fácil não é. Ela sentiu de perto o preconceito e teve de rever os próprios conceitos. Um dia, um ex-frequentador de sua casa a viu de touca e avental no Espaço Solidário e fingiu que não a conhecia. Outros amigos ou parentes tentam levá-la para um emprego formal novamente. “A vida está me ensinando a ter paciência”, constata ela, que tem rotina pesada: trabalha de nove a 12 horas por dia, em pé na bancada, com forno quente por perto.

Mas os ganhos são muitos – alguns difíceis de mensurar. “O cansaço físico, uma noite bem dormida resolve. Aprendi a ter equilíbrio entre trabalho e a vida social. Posso pegar a filha na escola e ir ao cinema à tarde, fazer coisas que o trabalhador não faz na semana, e sacrificar o sábado para dar conta de tudo. Posso fazer meus horários”, revela, destacando que para essa nova forma de trabalhar e viver, a disciplina é fundamental.

Se esse é o final da história? Ainda não. “Não tem que ser para sempre. É enquanto ficar bem”, afirma.

 

Contato: https://www.facebook.com/pages/Fuxico-Doce. Telefone: 3422-6662


Socióloga descobre nas charges uma forma de estimular crianças e adolescentes a ver o mundo

Maria Rosa de Miranda Coutinho lança livro com uma linguagem simples, apostando também nas linhas leves das ilustrações
Fabrício Porto/ND
Maria Rosa com seu último livro “Minhas Charges – Aos chatos com bom humor”, uma abertura para crianças e adolescentes observarem o mundo e refletirem de forma mais crítica

 

 

O traço simples e o texto amigável não foram escolhidos por acaso pela socióloga Maria Rosa de Miranda Coutinho. Ao fazer uma das charges que integram seu último livro “Minhas Charges – Aos chatos com bom humor” ou na hora de escrever uma das várias histórias que já conquistaram prêmios ou figuram em antologias como as da Confraria do Escritor, ela usa uma linguagem fácil para chegar perto de seus jovens leitores – e, com isso, levar crianças e adolescentes a refletirem de forma crítica sobre a realidade em que vivem.

O olhar incisivo sobre o mundo levou esta joinvilense bem cedo para a Faculdade de Ciências Sociais da UFSC – e de lá para o mestrado na UFSCar (SP). Foi a campo estudar sobre os índios Guaranis que vivem na Grande Florianópolis, observando a cultura, o dia a dia, a forma como eles vivenciavam a própria identidade nos grandes centros. Sentiu de perto, porém, a aridez do discurso acadêmico que prima pela consistência, mas se distancia do público. “Queria trabalhar de forma mais literária, mais solta”, explica ela, que chegou a lecionar em universidades e ainda hoje, aos 33 anos, compartilha seus conhecimentos com os alunos do ensino médio.

Em 2007, conheceu um grupo de escritores de Joinville, que formaria a Confraria das Letras. Mais, que isso, percebeu que podia, sim, enveredar por um outro caminho para alcançar seus objetivos. “Achei que podia transformar o meu conhecimento social em literatura, com uma escrita mais leve”, lembra.

Dois anos depois, em 2009 se deparou com um concurso de contos infanto-juvenis dirigido a escritores de  países do Mercosul. O tema era uma festividade importante em seu país e Maria Rosa decidiu enfocar o Carnaval brasileiro sob uma ótica social. Criou a história de um menino carioca, morador do morro da Mangueira, que convivia diariamente com todas as mazelas que ficam ofuscadas pelo brilho das fantasias nos quatro dias da festa popular: pobreza, marginalidade, violência, falta de acesso aos serviços básicos... No desfile, entretanto, o menino era visto, sentia-se grande, sentia-se rei. Mas passado o Carnaval, voltava para o seu dia a dia de invisibilidade – as mesmas pessoas que o aplaudiam na passarela não o enxergavam na vida real.

Conquistou o prêmio, junto com dois outros escritores latino-americanos e viu o seu primeiro livro “O Dia de Carnaval” ser publicado em uma edição bilíngue que consta na Biblioteca Municipal Rolf Colin e pode ser lida pelos joinvilenses.

Junto com a publicação do livro ganhou ânimo para continuar escrevendo. E não parou mais. Hoje já tem mais três títulos publicados na internet, um caminho para novos autores exporem seus trabalhos: “A Bola e o Vento”, “Gracejos - Contos e Causos” e “Na real – Poesia e Sociedade”. E participou de duas edições das coletâneas da Confraria dos Escritores.

 

Um traço, um desenho, uma história

Um dia, o desenho entrou em sua vida. Embora tenha alimentado a imaginação com gibis e desenhos animados durante toda a infância, desenhar era algo fora de seu universo. Bem fora. Na verdade, achava que desenhava muito mal e não se aventurava além das imagens conhecidas. Mas sempre havia se encantado pelas charges, que unem a crítica ao bom-humor e chegam diretamente ao leitor.

De traço em traço, sem técnica específica ou muitas pretensões,  surgiu “Minhas Charges – Aos chatos com bum-humor”, lançado no final do ano passado. Uma forma simples de levar temas como preconceito, ditadura e paz a crianças e adolescentes. O que vem sendo feito na divulgação do livro, diretamente pela autora nas escolas públicas e particulares de Joinville.

Para quem começou no meio acadêmico, transita pelas salas de aula, escreve e desenha, buscar uma definição não é tarefa simples. “Sou uma educadora literária”, resume Maria Rosa, que em 2014  já promete uma nova criação: as ilustrações do livro da escritora Rita de Cássia Alves, “Sem pressa, vamos à Biblioteca?”, que conta com o patrocínio do Simdec.

 

Para saber mais sobre os livros:

Acesse https://clubedeautores.com.br e faça uma busca pelo nome de Maria Rosa de Miranda Coutinho


Aos 95 anos, Alice Hillbrecht é um capítulo vivo da história de Corupá e Balneário Piçarras

A determinação e os múltiplos talentos moldaram uma mulher forte, que ainda hoje diz que cuida dos filhos, dos netos, dos bisnetos, dos trinetos...
Rogério Souza Jr./ND
Alice no aconchego de seu lar, em Balneário Piçarras, onde se dedica ao crochê e mantém a pele boa, à base de pomada Minancora, como faz questão de frisar

 

 

Alice Hillbrecht nasceu em Joinville, mas grande parte de seus 95 anos de vida foram passados em outros municípios da região, em especial Corupá e Balneário Piçarras. É no balneário, onde mora há mais de três décadas, na mesma casa numa tranquila rua que desemboca na praia das Palmeiras, que dona Alice volta os olhos ao passado e garante: “Trabalhei muito na vida, não devo nada a ninguém e até hoje cuido dos meus filhos”. Ao seu lado, Otto e Ingrid concordam (ele mudou-se de Joinville para Piçarras há cinco anos; ela mora com a mãe).

O nome Otto, por sinal, é uma característica dos Hillbrecht, desde o pioneiro Otto August Herbert, fundador de Hansa Humboldt. O imigrante alemão chegou, com o filho Otto Carl Wilhelm, em 7 de julho de 1897 à região, batizada em homenagem ao naturalista alemão Alexandre von Humboldt.

Os Hillbrecht haviam desembarcado em São Francisco, e subiram pelo rio Itapocu, único acesso até 1900. Desembarcaram na confluência dos rios Humboldt e Novo, seguiram por um picadão, hoje a avenida Getúlio Vargas, até o galpão dos imigrantes, onde foram recebidos pelo agrimensor Eduard Krisch. O galpão não passava de um rancho feito de troncos, tendo cobertura de folhas de palmito. O nome do município mudou para Corupá em 1944, na época da Segunda Guerra Mundial (mais detalhes da história podem ser conferidos no site www.corupa.sc.gov.br).

Seguiu-se Otto Richard e o último dos Ottos, antecedido pelo nome Ingbert. Ele conta uma peculiaridade: “Na juventude, quando precisava preencher alguma ficha, começava pelo meu nome, Ingbert Otto Hillbrecht; local de trabalho: Hansen; endereço: rua Gothard Kaesemodel. Era um tal de soletrar que não acabava mais”.

 

Reprodução/Rogério Souza Jr./ND
Alice ficou viúva muito jovem, mas não quis casar novamente, decidiu arregaçar as mangas, inovar, trabalhar e cuidar da família

 

Lojista, administradora, atriz, corretora...

 

Alice, da família Wunderlich, nasceu a 13 de outubro de 1918. Primogênita de quatro filhos, estudou no Colégio dos Santos Anjos. Trabalhou na Malharia Arp, onde o pai era gerente financeiro, e depois foi caixa na empresa de Carl Hoepke. Artista nata, foi atriz de teatro e violinista (“Puxei esse dom da minha avó”, diz uma das três netas, Henriette, perfil no dia 9 passado).

Quando se casou com Otto Richard Hillbrecht, foi morar em Corupá, onde trabalhou na loja do sogro, Otto Carl Wilhelm, aprendendo as manhas da escrituração. Demonstrando a memória ainda afiada, define sem tropeçar: “Escrituração mercantil é a arte de escriturar metodicamente as contas do comércio”. Foi correspondente bancária e abriu a primeira agência da Caixa Econômica Federal em Corupá. Mais tarde, sua experiência foi valiosa quando se tornou administradora do Hospital Jaraguá.

Da união com Otto Richard, falecido em 1957, teve os filhos Otto e Ingrid, três netos, três bisnetos e outra trinca de trinetos. “Depois que meu marido morreu, não quis saber mais de me casar, e me dediquei a cuidar dos filhos. E ainda cuido!”, garante.

Há 35 anos, Alice resolveu se fixar em Piçarras, na rua Tainha, onde a sua foi a primeira casa. Foi corretora imobiliária. “Trabalhei muitos anos vendendo casas. Ia a todos os lugares com meu Fusca 73, e testemunhei o crescimento da cidade.”

Com boa saúde, apenas a audição deficiente é o que mais atrapalha dona Alice, que mantém a expansividade e o bom-humor – ainda que às vezes se empolgue e desande a falar em alemão. Sua principal distração é o crochê, que resulta em coloridas filigranas em panos de prato. Em parte, a boa saúde tem explicação no saco plástico cheio de remédios, que ela pega de baixo da mesa e vai enumerando, até chegar à inconfundível latinha laranja e fazer uma propaganda: “Mantenho a pele boa assim, passando pomada Minancora todos os dias”.


Educadora musical Marilia Scheffer consolida carreira iniciada na infância, quando tocava lira

A paixão que começou na fanfarra na Banda Municipal de Campo Alegre agora é repassada para seus alunos
Rogério Souza Jr./ND
Marília aprendeu piano na famosa Escola de Música Donaldo Ritzmann, de São Bento do Sul e agora prepara para grande concerto para marcar os 60 anos da instituição

 

 

“No tempo de colégio, eu tocava lira na fanfarra e flauta-doce na Banda Municipal de Campo Alegre. Uma das atividades da banda era ficarmos escondidos quando os turistas iam visitar a cascata, e surgíamos de surpresa, tocando.” Encantar os visitantes do principal ponto turístico da cidade era só uma das atribuições de Marília Scheffer, uma profissional dedicada à música praticamente desde que teve idade para trabalhar. Hoje, aos 31 anos, é pianista, soprano, coralista, professora, maestrina e, acima de tudo, uma amante da música.

Filha da também artista Nédia Scheffer, professora de educação artística em escolas e na Fundação Educacional de Campo Alegre, a Fecampo, Marília teve aulas de teatro com a mãe. “Minha formação escolar foi feita em São Bento, e foi lá que comecei a me interessar seriamente pela música, influenciada em grande parte por meu irmão, Rafael, aluno de piano da professora Córdula Maria do Valle”, conta Marília.

Da lira de fanfarra (instrumento de percussão, uma espécie de vibrafone), passou para a flauta-doce na Bamuca (Banda Musical de Campo Alegre), aquela que aparecia de surpresa encantando os turistas que visitavam a cascata.

Foi também em São Bento que Marília aprendeu piano, na famosa Escola de Música Donaldo Ritzmann. “No início – admite a hoje consagrada musicista – eu pensei em desistir, assim que passou a empolgação da coisa nova. Comportamento típico de criança que logo quer trocar de brinquedo. Mas os meus pais insistiram, até que fui pegando gosto e percebi que meu caminho era mesmo pela música.”

 

Musicista profissional formada na Embap

 

Já decidida a tornar a música seu modo de vida, Marília concluiu o ensino médio e foi pensar em faculdade. A mais próxima era a Embap (Escola de Música e Belas Artes do Paraná), em Curitiba, e lá foi ela em busca da realização do sonho.

Ainda durante o curso, no ano 2000, Marília enfim debutava como musicista profissional, ensinando piano e teoria musical na Escola de Música e Artes Lourdes Tascheck, em São Bento, e dando aulas particulares em Campo Alegre.

Bacharelada em piano em 2003, assumiu também o ensino de técnica vocal na Escola Donaldo Ritzmann. “Até então eu era contratada, mas em 2012 passei a ser concursada”, acrescenta (a escola integra a Fundação Cultural de São Bento do Sul). Na escola, ela também coordena o Grupo Camerata.

Marília fez curso de canto erudito com a soprano Josiane Dal Pozzo Zuliani, em Curitiba, e participou de vários workshops e cursos, como o Encontro Anual da ABEM (Associação Brasileira de Educação Musical), em Minas Gerais, durante o curso de Música, Movimento e Comunicação, com a professora canadense Joan Russel, em 2005, e o 2º Encontro de Inverno da Associação Brasileira de Professores de Piano, em 2001.
Em sua cidade-natal, é maestrina dos corais infanto-juvenil e adulto. Numa sala anexa ao cartório, dá aulas de musicalização infantil (crianças de 2 a 5 anos), piano, flauta-doce e técnica vocal. “Tenho 45 alunos, e há mais três professores, pois sobra pouco tempo para as aulas particulares”, argumenta, citando ainda a direção de peças teatrais encenadas pelos alunos, contextualizando a música na arte e no cenário cultural.

Em 2010, ela dirigiu o espetáculo "Brasil - O Fio da Música", orientando alunos de técnica vocal e instrumentos na interpretação de peças da música erudita e popular brasileira. No ano seguinte, atuou como solista cantando o tango “Frente al Mar”, sob regência da maestrina Denise Mohr, com a Orquestra de Câmara de São Bento do Sul e Coral da Escola Donaldo Ritzmann, durante o concerto "Uma Noite em Buenos Aires" em São Bento do Sul. No ano passado, atuou como soprano no musical “Musica Dall’Italia”, em São Bento (a peça teve como “artista convidado” o filho de Marília, Estevão, 9 anos, cantor e instrumentista).

Para 2014, duas metas se destacam: “Quero me dedicar mais ao violino e à preparação do concerto de aniversário da Escola Donaldo Ritzmann” (a instituição comemora 60 anos em março).

 

PERFIL SUGERIDO POR MARICLER VIRMOND


Rolf Müller só guarda boas lembranças dos ofícios de artesão e de bombeiro em Joinville

Entre a arte e o fogo, aos 82 anos ele mantém com orgulho as recordações das vidas que salvou com seu trabalho, junto às belas peças de artesanato que confeccionou
Luciano Moraes/ND
Müller com a tradicional machadinha: testemunha da dedicação aos bombeiros e ao voluntariado. Atrás, a réplica de navio que construiu

 

Hoje, as mãos de Rolf Benno Müller já demonstram o peso dos 82 bem-vividos anos. Mas elas já produziram muita coisa boa, como pode ser comprovado na casa que ele construiu há mais de meio século, na ainda tranquila rua Rezende, no bairro Bom Retiro, em Joinville, rua que ele viu crescer à sua volta. “Daqui, antes de ter esses prédios, dava pra ver boa parte do bairro. Tinha só algumas casas em meio à mata”, diz o latoeiro e bombeiro aposentado, apontando o panorama que se descortina dos fundos de sua oficina, hoje silenciosa.

No local onde trabalhou durante tantos anos, assim como na casa onde mora sozinho desde a morte da mulher, Irmgard, há pouco mais de um ano, o visitante pode ver uma amostra do que as mãos de Müller já produziram: embarcações detalhadamente reproduzidas em metal e belas pinturas nas paredes são o resultado de sua arte; medalhas, fotografias e duas machadinhas testemunham a dedicação de 45 anos ao Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville. Atualmente presidindo o Conselho da Equipe Tradição, ele brinca: “Nas reuniões, sou o que mais falo. Digo ‘boa-noite’ no início e ‘até a próxima’ no fim”.

Amante de literatura sobre embarcações, aviões e fatos da 2ª Guerra Mundial, Rolf Müller viu sua vida mudar devido ao conflito. Natural de Hansa Humboldt (atual município de Corupá), ele estava com a família em um hotel de Florianópolis, em 1939, prestes a embarcar rumo à Alemanha, de onde viera o pai. “A família – conta – ia se mudar para a Alemanha. Nossa bagagem já estava a bordo do navio ‘Monte Olívia’, quando a guerra tomou a Europa e todos os embarques foram cancelados. O jeito foi pegar as malas de volta e retornar a Jaraguá, onde morávamos na época.”

 

No fim da guerra, uma vida nova em Joinville

 

Em fevereiro de 1945, três meses antes do fim da 2ª Guerra, os Müller experimentaram nova mudança, se estabelecendo em Joinville, onde o pai de Rolf conseguira um emprego, na Usina Metalúrgica Joinville, quando a empresa funcionava perto do Mercado Público. “Morávamos no alto da rua Visconde de Mauá, e ali fiquei amigo do Romeu Dressel, de quem éramos vizinhos. Brincávamos muito nos pastos e campinhos, onde hoje é o bairro América. Na rua Araranguá, no lugar onde começou a Consul, não passava nem carroça”, lembra Rolf, que mantém até hoje a amizade com Romeu Ernesto Dressel (também da Equipe Tradição, Perfil em 29/8/13).

Aos 14 anos, Rolf virou colega do pai, Jorge, na Usina Metalúrgica. “Poucos anos depois, meu pai montou uma funilaria e fui trabalhar com ele. Fabricávamos peças de latão e ferro, como canecas, baldes e outros utensílios domésticos.” Foi nessa época que Rolf desenvolveu a habilidade artesanal, começando a construir os barcos (um deles, um imenso navio de passageiros do início do século passado, já esteve exposto no Hotel Colon).

Em 1968, outra habilidade artística levou Rolf Müller a envergar a farda dos bombeiros: “Entrei na banda dos bombeiros, como trombonista. Fiquei até acabar a banda, em 1974, e aí passei para a brigada”. Como os demais veteranos, Müller logo se recorda do período mais complicado, dos incêndios criminosos que assolaram a cidade em meados dos anos 70: “Naquele tempo, praticamente não dava pra tirar a farda, era estado de prontidão permanente. Fui obrigado a comprar um telefone, pois já não dava mais para ouvir a sirene tocando no quartel”.

A última vez em que Müller entrou em ação foi em dezembro de 2007, quando um incêndio destruiu um depósito de fumo no Distrito Industrial. “O telhado caiu, e precisávamos entrar quase rastejando pra apagar o fogo”, lembra.


Os pioneirismos e as conquistas de Therezinha Foitte em sua Campo Alegre

Neta de prefeito, ela foi a primeira vereadora do município e a primeira mulher a presidir uma Câmara no Estado
Rogério Souza Jr./ND
Therezinha Foitte na sala de casa, com as tapeçarias com que passa o tempo, entre as boas lembranças da vida política e comunitária

 

 

Em poucos minutos de conversa, percebe-se uma característica em Therezinha Souza Freitas Foitte: é uma pessoa que ama profundamente sua cidade-natal, Campo Alegre. Primeira vereadora do município e também, segundo os registros, a primeira mulher a presidir uma Câmara em Santa Catarina, Therezinha é uma realizadora. “Hoje, a idade pesa, já não dá mais para dedicar tanto tempo às atividades comunitárias. Mas tenho orgulho de tudo que fiz e do legado que ficou”, diz ela, que, aos 77 anos (faz 78 no Dia Internacional da Mulher, 8 de março) ainda se destaca nos jogos da terceira idade, ostentando o título de campeã microrregional na canastra, título conquistado em abril do ano passado, em Mafra, com a parceira Marli Cubas. No momento, Therezinha aguarda com ansiedade a cirurgia de catarata, que fará em breve – o que lhe permitirá, além de ver melhor as cartas, voltar às tapeçarias, outro de seus passatempos.

Therezinha nasceu em Faxinal, interior do município, onde a família tinha uma pequena fazenda. Caçula de oito irmãos, mal chegou a conhecer os pais: “Minha mãe morreu quando eu tinha só dois meses e meu pai, quando eu tinha 3 anos. Como os avós não tinham condições de criar tantos netos, fomos adotados por famílias de São Bento. Eu fui criada por Antonio Kaesemodel”, conta, referindo-se ao industrial e líder político que hoje dá nome à principal via de acesso à cidade. Seu avô paterno, Veríssimo de Souza Freitas, foi prefeito de Campo Alegre (1919 a 1922) e também é nome de rua no município.

 

Volta às raízes

 

Em São Bento, Therezinha estudou no tradicional Colégio São José e casou-se com Arnoldo Alfredo Foitte (ela acredita que a grafia original do sobrenome seria Voigt). O casal morou um tempo em Rio Negro, antes de se fixar em Campo Alegre, em 1970, e fundar a fábrica de móveis Cascata – que funcionou até a morte de Arnoldo, há 15 anos.

Depois disso, Therezinha ainda foi don do restaurante Reino Natural, especializado em comida caseira e famoso pela carne de coelho. O casal teve cinco filhos (“Três deles morreram num período de seis anos”, lembra dona Therezinha, segurando as lágrimas), dez netos e, até o momento, três bisnetos (com ela mora a agitada Heloísa, 5 anos).

Therezinha se destacou como líder comunitária, foi catequista e ministra na paróquia (parou no ano passado, após 32 anos de dedicação), fundou um grupo escoteiro, foi presidente do Lions Clube e da Casa da Cidadania, criou o clube de mães e, sua maior realização, o horto medicinal. “Vinha gente de muitos lugares em busca das ervas medicinais. Infelizmente, não teve continuidade”, lamenta.

A carreira política de Therezinha Foitte começou em 1989, como suplente de vereador. “Exerci o cargo durante alguns meses, e daquela gestão a maior conquista foi a capela mortuária”, conta, destacando que chegou a lavar defuntos antes da melhoria.

Em 1993, em nova tentativa, elegeu-se vereadora pelo PFL (atual DEM) e chegou a presidir a Câmara. “Naquela gestão, inauguramos a nova sede da Câmara e criamos as sessões itinerantes, levando as reuniões às comunidades afastadas do Centro.” Encerrado o mandato, em 1996, deixou a política.

Pela casa de Therezinha, na principal avenida da cidade, espalham-se as tapeçarias que aprendeu a bordar na Fecampo (Fundação Educacional de Campo Alegre). Além, é claro, das medalhas conquistadas nos jogos da terceira idade: “Sou cinco vezes campeã da canastra!”.

 

Perfil sugerido por Maricler Virmond


Secretário Antônio Roberto da Borba revela todo seu amor por Barra do Sul

Ele diz que nasceu na beira da água, e por lá foi criado. Foi um dos incentivadores e membros da comissão que lutou pela emancipação e criou a bandeira do município
Fabrício Porto/ND

 

À beira-mar. Borba nasceu em Barra do Sul, e nunca quis se afastar de sua terra. Na foto, está com a bandeira do município, que criou polêmica por trazer um surfista no brasão

 

 

Muitos do que frequentam ou moram em Balneário Barra do Sul têm ideia da luta que foi para sua emancipação, há 22 anos. Mas Antônio Roberto de Borba sabe muito bem as dificuldades e o trabalho que foi para que, em 1992, o distrito se desligasse de Araquari e se tornasse um dos balneários mais procurados do Litoral Norte durante a temporada de verão. Foi Borba quem liderou a movimentação para transformar Barra do Sul em município.

Sempre ligado às causas comunitárias do local, em 1990, quando era presidente da associação de moradores do então distrito de Barra do Sul, Borba e mais oito pessoas formaram uma comissão para tratar dos assuntos da emancipação do lugar. "Tínhamos muitas dificuldades de acesso à sede, estávamos esquecidos aqui. Então, surgiu a ideia da emancipação. Tínhamos que caminhar com as nossas próprias pernas, porque Barra do Sul já tinha vida própria, sem depender muito de Araquari", explica.

Após o plebiscito, realizado em 1991, onde os moradores foram favoráveis ao desmembramento, foram reunidos documentos e formado o processo que deu entrada na Assembleia Legislativa para emancipação. Após análise e visitas técnicas, o processo foi encerrou com parecer favorável e, em 9 de janeiro 1992, foi criado o município de Balneário Barra do Sul, que viria a ser instalado oficialmente no ano seguinte, já com prefeito, vice e vereadores eleitos. Borba fez parte da primeira Câmara de Vereadores da história do município, na condição de presidente.

Isso fez com que, em 1995, quando o prefeito, vice e quatro vereadores tiveram os mandatos cassados, Antônio Roberto de Borba se tornasse o prefeito de sua querida Barra do Sul por dez dias. Neste período, conta, conseguiu uma coisa inédita, em apenas um dia montou um projeto, aprovou na Câmara e autorizou a criação de um loteamento na cidade. "Acho que isso nunca existiu, em apenas um dia conseguimos tudo isso, mas foi válido, pois resolveu um problema para diversas famílias na época", relembra.

Além de toda a luta pela emancipação, Borba participou da criação de diversas entidades, entre elas a Associação de Surfe, de quem foi presidente, e o Corpo de Bombeiros Voluntários do município. "Sempre trabalhei para o coletivo, desde o grupo de jovens, sempre quis trabalhar para as causas comuns a todos", disse.

 

"Isso aqui é a minha vida,

quero que os que morem aqui

e os que nos visitam tenham mais

qualidade de vida, que sejam felizes

em estar aqui, é para isso que trabalho."


Bandeira

Outro orgulho de Borba é a bandeira de Balneário Barra do Sul. Foi dele a ideia que está estampada até hoje. Lembra que o desenho gerou polêmica na época, mas também teve apoio de diversas entidades ligadas ao surfe do mundo todo. "Tem um surfista no brasão. Isso deu bastante discussão, mas também divulgou Barra do Sul para o mundo."

Borba recebeu até um telefonema do surfista catarinense Teco Padaratz, que na época disputava o circuito mundial de surfe, apoiando a ideia. "Nem acreditei quando atendi o telefone, ele disse que apoiava nossa ideia e que ajudaria no que for preciso. Depois disso recebemos cartas de apoio de associações de surfe do país todo e até da ASP (Associação de Surfistas Profissionais), o que nos orgulha muito."

 

"Nasci na beira d'água"

Aos 54 anos, Antônio Roberto de Borba se orgulha de ter nascido em Barra do Sul. "Muitos dizem que são de Barra do Sul, mas nasceram na (maternidade) Darcy Vargas, em Joinville. Eu nasci aqui, na beira d'água, com a parteira", lembra. Com duas irmãs e um irmão, Borba nunca quis sair de sua terra, optou por ficar perto dos pais, de quem cuidou até a morte. "Meus irmãos foram casando e saíram, eu quis ficar e não me arrependo. Hoje, todos os meus irmãos voltaram."

De vereador a prefeito por dez dias, Borba não largou a vida pública, sempre vivendo Balneário Barra do Sul intensamente. Após passar por cargos no governo do Estado e na Assembleia Legislativa, hoje contribui com o município como secretário municipal de Planejamento, Desenvolvimento Econômico, Meio Ambiente, Urbanismo e Habitação.

 

 


Pai e filho trazem a música no sangue desde a infância e fazem sucesso no trio Cristiano e Camargo

Antonio Amadeus Camargo evita comparações com Mozart, apesar do Amadeus no nome, e se divide entre a carreira de operário e de músico, ambas divididas com o filho

Rogério Souza Jr./ND
Cristiano e Antonio Camargo: de manhã, expedição, à tarde e à noite, música

Quando era criança, lá na pequena cidade paranaense de Santa Izabel do Oeste, onde nasceu há 45 anos, Antonio Amadeus Camargo ganhou um presente. Como mais velho, podia escolher entre uma bicicleta e um violão. “Escolhi a bicicleta, enquanto meu irmão Célio ficou com o violão. Só que ele não se interessou muito, e eu comecei a gostar do instrumento.” Resultado: a bicicleta acabou encostada, Antonio Amadeus pediu que o pai lhe desse uma gaita, aprendeu a tocar sozinho e, algum tempo depois, fazia dupla com o irmão.

Hoje, fazendo jus ao nome do meio (“Não tem nada a ver com Wolfgang Amadeus Mozart”, garante), Camargo dedica o tempo em que não está na Expedição da Tupy aos ensaios e apresentações do trio Musical Cristiano e Camargo, em que faz parceria com o filho e com o amigo Adilson Junior.

Primogênito de seis irmãos, Camargo teve uma infância dividida entre a escola, as brincadeiras ao ar livre e a lida na roça: “Toda a filharada precisava ajudar, com a enxada ou nos afazeres domésticos”.

Sempre gostou de música, e a vocação só se confirmou quando aprendeu a tocar acordeon sozinho, “de ouvido”. À dupla com o mano Célio seguiu-se a banda Sol de Verão, com mais dois irmãos e um amigo. “Eu tocava gaita e teclado, o Célio guitarra e os outros irmãos, baixo e bateria. Tocávamos em eventos, bailes e onde fôssemos chamados.”

 

 

Divulgação/ND
Pai e filho se uniram ao músico Adilson Junior no bem-sucedido trio musical Cristiano e Camargo

 

 

Nova banda e nova carreira em Joinville

A Sol de Verão se apagou quando toda a família Camargo deixou Santa Izabel rumo a Joinville, em busca de novas oportunidades. Lá se vão 20 anos. Já casado, Amadeus trouxe os filhos Cristiano, então com 6 anos, e Cristiane, com 5. Depois de um ano trabalhando como porteiro de uma pequena empresa, empregou-se na Tupy, adquiriu um terreno pertinho da empresa e construiu a casa onde mora há 17 anos.

Há oito anos, Cristiano também enverga o uniforme azul-amarelo da Tupy, trabalhando na Fundição B. Como ambos são do primeiro turno, sobra a tarde para os ensaios, no pequeno estúdio montado num dos cômodos da casa.

“Cristiano demonstrou ouvido para a música desde criança, sempre cantou muito bem e aprendeu também sozinho a tocar acordeon”, informa o orgulhoso pai-parceiro.

A carreira musical dos Camargo em Joinville começou no Bar do Orlando, no Boa Vista. “Eu tocava acordeon e o Cristiano, então com 7 anos, cantava. Logo começamos a ser convidados para animar eventos, especialmente na Tupy.” O tempo foi passando, Cristiano se aperfeiçoando, até que, há uns dez anos, chamaram o amigo Adilson Junior e formaram o Musical Cristiano e Camargo.

Dos bares e dos eventos da empresa, a agenda do trio foi ficando mais carregada. “Tocamos em bailes, festas e o que vier, inclusive em cidades próximas”, acrescenta Camargo. No sábado, a banda animou o Bailão da Sílvia, na praia do Ervino. Na sexta (17), o compromisso é no Recanto Jaboticabal, no bairro Cubatão, em Joinville. Pelos próximos meses, quase todo fim de semana eles têm agenda. Além das apresentações, o ano de 2014 tem outro importante compromisso. Camargo está confiante no êxito da empreitada. “Queremos gravar nosso primeiro CD.”

 

Serviço

Contatos com o Musical Cristiano e Camargo podem ser feitos pelos telefones 47/3432-2314 e 8813-8798 ou pelo e-mail musicalcristianoecamargo@hotmail.com.


Cavilha e Cavilhinha, os talentosos jogadores que são o orgulho da família

Irmãos se destacam como laterais no futebol amador de Joinville jogando em times adversários. Mas a rivalidade só fica dentro do campo
Rogério Souza Jr./ND
Os pais, Celso e Isolene, com os filhos-atletas e suas namoradas: uma família que vive dedicada ao esporte e trabalha unida na sorveteria da família

 

 

Edson e Jefferson, além de irmãos, têm mais uma característica em comum: no futebol, ambos podem dizer que têm o coração alvirrubro. O mais velho, o lateral-direito Cavilha, foi campeão da Primeirona pelo vermelho-e-branco Pirabeiraba; Cavilhinha, lateral-esquerdo, conquistou em 2013 o título da Copa Norte pelo vermelhão América (coincidentemente, cada um vencendo o irmão nas respectivas finais). “Neste ano, nossa intenção é jogar no mesmo time”, antecipa Edson – ambos já defenderam os mesmos clubes no passado, mas em épocas diferentes.

A história começa na cidade de Taió, no Alto Vale, onde nasceu Celso Cavilha, pai dos laterais, em 1959. Ainda que tenha similaridade com o idioma português (cavilha é uma peça de madeira), a origem da família está na Itália. “Meu tetravô veio da Itália, mas até agora não conseguimos desenterrar as raízes exatas da família”, diz Celso, esclarecendo que a grafia original do sobrenome seria Caviglia.

Ele mesmo poderia ter feito carreira nos campos: “Eu era goleiro do time da Volta Grande, localidade do interior de Taió, mas parei de jogar aos 19 anos, devido a um acidente”.

A família já trocara Taió por Indaial quando Edson, nascido em 1983, começou a usar chuteiras e tênis. “Eu jogava futebol de campo pelo 15 de Outubro e salão pela CME de Indaial. Em 2003, cheguei a fazer testes no Guarani de Campinas e no Primavera de Indaiatuba”, conta o Cavilha mais velho. Seu primeiro título veio nos Jogos Abertos de 2004, no futebol de campo, defendendo Brusque: “Ganhamos a final do Joinville”.

 

Início no JEC/Irineu

 

Em 2004, a família se mudou para Joinville e Edson logo envergou a camisa 2 nas categorias de base da Academia JEC/Irineu. No mesmo ano, teve uma passagem pelo Passo Fundo, onde era conhecido como “Indaial”. De volta a Joinville, decidiu dar um tempo no futebol e se dedicar aos estudos: concluiu o ensino médio e fez a faculdade de educação física (formou-se pela Univille há dois anos, e hoje trabalha na Academia Roldão, no Aventureiro, e é auxiliar do técnico Fabinho nas categorias de base do JEC).

Mas Cavilha não largou a bola. Em 2005, foi campeão da Primeirona defendendo a Sercos; em 2007, foi para o América; no ano seguinte, novo título, agora pela Serrana; de 2009 a 2011, ficou no Juventus do Iririú (de lá, ficou como lembrança uma cicatriz pertinho do olho direito, resultado de uma cotovelada que o levou a nocaute). Desde 2012, veste a camisa 2 do Pirabeiraba.

Canhoto, Jefferson nasceu em 1989, em Indaial. Dos 6 aos 15 anos jogou futsal pela CME, sob o comando do técnico Marinho. Aos 13, já era lateral-esquerdo e meia do infanto do Santa Esmeralda. Assim que a família estabeleceu-se em Joinville, seguiu os passos do irmão e jogou no JEC/Irineu, onde ficou até os 20 anos. “Tive – conta – uma rápida passagem pelo futsal da Krona e fiz testes no Atlético Paranaense e no São Paulo, mas preferia o campo.” Já com o inevitável apelido de Cavilhinha, jogou no Juventus e, desde 2012, é lateral-esquerdo do América. E não esconde o desejo: “Espero jogar com o meu irmão agora em 2014, de preferência no América”.

Enquanto Cavilha trabalha ligado ao esporte, Cavilhinha prefere seguir pela administração. Ele, assim como a mãe Isolene, a namorada Jéssica e a futura cunhada Lilian, trabalha com o pai na Sorveteria Ki-Moni (fundada em Indaial há duas décadas).

No mesmo endereço, na rua Jacupiranga, no Aventureiro, ficam a sorveteria (de produção própria) e a residência dos Cavilha. “Tenho muito orgulho desses dois guris, honestos, trabalhadores e bons de bola”, derrete-se o Cavilha pai.


Henriette Hillbrecht nasceu com o dom para a música e não se cansa de aperfeiçoá-lo

O doce som embala a vida da musicista de múltiplos talentos, que foi apresentada à música ao ganhar uma flauta doce, aos cinco anos

Entre tantos adjetivos utilizados para definir os sentimentos evocados pela música, a doçura é dos mais comuns. Mas, no caso de Henriette Hillbrecht, o conceito vai além: “Eu tinha 5 anos quando minha avó me deu uma flauta-doce, meu primeiro instrumento musical. Foi com ele que me apresentei pela primeira vez em público, na igreja luterana, e a partir dali tracei meu caminho, estreitamente ligado à música”.

Hoje, Henriette Hillbrecht é um nome consagrado no meio musical catarinense, como uma das expoentes na execução do fagote, secular instrumento de sopro e um dos muitos que ela domina.

 

 

Rogério Souza Jr./ND
Henriette sempre direcionou sua vida para a música, e domina vários instrumentos

 

 

A vida de Henriette só podia mesmo ter trilha sonora. “Meu pai tocava acordeon e minha mãe, piano. A música fazia parte da minha vida desde que nasci.” Isso aconteceu no dia 30 de janeiro de 1967, em Curitiba, EM uma das paradas do seu pai, funcionário da Cervejaria Antarctica. “Nem cheguei a conhecer Curitiba. De lá, a família mudou-se para São Paulo, depois Corupá, Salvador e Joinville, onde de fato fixei raízes.”

Trineta de Otto Hillbrecht, fundador de Corupá, Henriette é também neta de Willy Gessner, primeiro prefeito do município. Foi justamente quando residia na cidade que Henriette aprendeu a tocar piano, com a professora Else Gabler (outra que virou nome de rua em Corupá).

Quando os Hillbrecht se estabeleceram em Joinville, Henriette estudou no Colégio dos Santos Anjos e formou-se em Geografia pela Furj (atual Univille). “Mas a faculdade só me serviu para aprimorar conhecimentos, pois nunca tive a pretensão de dar aulas. O que eu queria mesmo era aprender música”, admite.

 

Pupila de Vany Knoll

 

Foi no Conservatório de Música de Vany Knoll que Henriette começou seu aperfeiçoamento, formando-se em flauta-doce, piano, teoria e solfejo musical. Chegou a fazer parte dos cursos de licenciatura em música e bacharelado em fagote, interrompidos pelas constantes mudanças. Diversas escolas e seminários da região de Joinville tiveram-na como professora de flauta-doce, piano, teclado, teoria e solfejo, além de música de câmara, história da música e saxofone (outra de suas paixões). Viveu em Londrina de 1992 a 94, período em que foi fagotista concursada na Orquestra Sinfônica da Universidade de Londrina.

Em seguida, passou 14 anos na Alemanha. “Morei dois anos em Langenhagen, cidade-irmã de Joinville, depois em Bonn”, conta Henriette, que no país europeu casou-se pela segunda vez (o primeiro marido, joinvilense, era violonista; o segundo, alemão, maestro).

Lá, deu aulas e participou de diversas formações musicais, tendo fundado uma escola de música em Bonn. “Na Alemanha,pude viajar muito e participar de eventos, e ainda gravei meu primeiro CD, integrando a Internationale Philharmonie”, conta a instrumentista, folheando álbuns onde guarda com zelo fotos, recortes e programas de todos os concertos em que tocou.

De volta a Joinville há dois anos, Henriette tem uma agenda cheia: participa de eventos no Estado e fora, é instrutora de instrumentos de sopro e de palheta e saxofonista da banda do Corpo de Bombeiros, dá aulas na escola Arte Maior e em casa, toca nos grupos Festmusik, Instrumental da Paz, Compassolivre, Quarteto de Sopros Joinville, nas orquestras de Jaraguá e de São Bento e faz duo com a organista e pianista Lucy Mary Leão.

Selecionada no ano passado como fagotista na futura Orquestra Cidade de Joinville, tem a esperança de ver, agora em 2014, a orquestra se tornar realidade.

Para dar conta de tanta atividade, Henriette não tem segredos. Dedica-se ao aperfeiçoamento todos os dias e aplica uma máxima que aprendeu com um de seus mestres, o maestro norte-americano Arthur Weisberg: “Tudo tem que sair facilmente; se sair difícil, está errado”.


Referência na Prainha, Trindade e família tocam um dos points preferidos na praia dos surfistas

Ele nem lembra mais o motivo, mas quando trabalhou em lanchonete em Joinville, ganhou o apelido de Jacaré, que até hoje o acompanha
Rogério Souza Jr./ND

 

Trindade, com Renilda e Alessandro, se tornou um exemplo de família que trabalha unida

 

Na virada do ano de 2010 para 2011, uma forte ventania castigou algumas praias do Litoral Norte catarinense, entre elas a Prainha, em São Francisco do Sul. “O vendaval derrubou minha lanchonete e deu um belo prejuízo. Mas também deu força pra repor tudo em pé e tocar a vida”, relembra Adilson Manoel Trindade, proprietário da Lanchonete Prainha, um dos pontos de referência da praia preferida dos surfistas.

Conhecido em Joinville como Jacaré, na semana anterior ao Natal Trindade supervisionava o descarregamento de um reforçado estoque de bebidas, antevendo o bom faturamento da temporada. “Esse caminhão deixou metade da carga aqui e metade em outra lanchonete. Se tudo correr bem, espero que ele volte daqui a uma semana”, comentava, enquanto o filho Alessandro concluía a transação com o fornecedor. Ao lado, na cozinha, a mulher, Relinda, já atendia o primeiro freguês com um suculento hambúrguer.

O contato com o público sempre fez parte do trabalho deste gasparense nascido há 55 anos. “Eu me considero joinvilense, pois a família se estabeleceu na cidade quando eu tinha 7 anos. Meu pai tocava uma fábrica de móveis. Criei-me no (bairro) Floresta e estudei no colégio Rui Barbosa.”

Trindade, porém, não seguiu o ofício do pai. Mas não deixou de usar a habilidade manual em seu primeiro trabalho, produzindo artesanato para vender na feira permanente da praça da Biblioteca. “Fui, junto com o Peninha, um dos fundadores da Associação Joinvilense de Artesãos”, conta, dando o devido crédito ao fotógrafo Peninha Machado.

 

Da primeira lanchonete, na praça Nereu Ramos

 

Trindade já comercializava artesanato há uns 15 anos, quando um convite inesperado o levou a mudar de profissão. “O Ari Menegheti, na época proprietário da Lanchonete Quiosque, na praça Nereu Ramos, convidou-me a trabalhar com ele. Topei a parada e fiquei uns nove anos atendendo na lanchonete. Foi quando me apelidaram de Jacaré, nem sei mais por que.” Uma das mais conhecidas “bocas malditas” da cidade durante bastante tempo, a lanchonete traz boas lembranças: “Era muito bom trabalhar, o ponto era ótimo e eu conhecia quase todo mundo. Ali se podia eleger ou derrubar um governo”, brinca.

Mas decidiu mudar de vida em 1990, quando conheceu a Prainha. “Gostei na hora do lugar. Naquele ano mesmo arrendei um barzinho para as temporadas, e fui ficando.”

Em 1994, o barzinho virou lanchonete, ainda arrendada, até que Trindade juntou as economias, comprou um terreno e ergueu a atual Lanchonete Prainha, na esquina da avenida Brasília (a Beira-mar) com a rua Maceió – a família mora nos fundos –, quase em frente ao posto de salva-vidas, no meio do agito do famoso recanto do surfe.

A clientela, porém, não se limita aos surfistas: “Durante a temporada vem veranista de todo lugar, e compensa a falta de movimento durante o ano”. Enquanto no verão a lanchonete funciona todos os dias, das 10h até o início da madrugada, fora da temporada eles só abrem aos sábados, domingos e feriadões.

A equipe, formada por Adilson e Alessandro na administração e atendimento, e Renilda na cozinha, é reforçada com garçons de agora em diante, pelo menos até o Carnaval. Aos 13 anos, o francisquense Alessandro já é um “veterano” na lanchonete.

“Ele assumiu com 11”, informa Adilson (pai também de duas joinvilenses). E o surfe? “Quando dá tempo, pego onda”, arremata o filho, logo após acertar as contas com o pessoal do caminhão de bebida.

 

Perfil sugerido pelo radialista Eli Francisco, vizinho e freguês de Adilson Trindade na Prainha


Sempre ajudando o próximo, Ivete Brugnago Moraes faz a diferença em bairro de Barra Velha

"Primeiro, nós demos o peixe. Depois, passamos a ensinar a pescar", resume a líder comunitária do São Cristóvão

“Primeiro, nós demos o peixe. Depois, passamos a ensinar a pescar.” Esse é o resumo da atuação de Ivete Brugnago Moraes no bairro São Cristóvão, em Barra Velha, onde fundou uma cozinha comunitária e hoje preside o verdadeiro centro comunitário em que se transformou a Associação Cozinha Comunitária Iolanda Brugnago (nome de sua mãe).

Além de oferecer cursos e atividades esportivas e fornecer cestas básicas, o complexo social abriga um núcleo de assistência social da Prefeitura, atendendo à população do bairro. “Aqui, nós temos votos suficientes para eleger um prefeito”, brinca Ivete, enaltecendo a capacidade eleitoral do São Cristóvão, quase uma pequena cidade no lado de lá da BR-101.

 

 

Luciano Moraes/ND
Ivete apresenta o Complexo Social do bairro, que surgiu graças à sua determinação e hoje é um ponto de encontro e de muitas atividades

 

 

Neta de italianos, Ivete nasceu, há 59 anos, no município paranaense de Matinhos, mas se criou em São João do Itaperiú, na época distrito barra-velhense, hoje município, emancipado desde 1992. Aos 14 anos, mudou-se para Joinville. “Trabalhei na Tigre, na Tupy e nas residências de João Hansen e de Dieter Schmidt, pessoas que aprendi a admirar.” Antes de retornar a São João do Itaperiú, em 1985, Ivete casou-se com Osvaldo Moraes – “Um amor de infância, lá de São João” – e teve três filhos.

Quatro anos depois, a família estabeleceu-se no São Cristóvão. “Viemos morar no morro do Colchão, que tinha esse nome por causa da proliferação do capim-colchão, muito comum por aqui”, diz ela, apontando em torno e abarcando a área hoje ocupada pelo aglomerado urbano, antes um descampado.

 

O sonho de ajudar

“Sempre tive o sonho de ajudar o próximo”, diz Ivete, justificando sua vocação para a liderança comunitária. De fato, seu primeiro trabalho foi na Casa de Passagem mantida pela municipalidade, destinada ao abrigo provisório de menores em condição de alto risco, durante as gestões dos prefeitos João Luzia e Walter Zimmermann.

Disposta a estender a ação em prol da comunidade, Ivete decidiu “dar o peixe” e criou a cozinha comunitária. “No dia 9 de junho de 2001, servimos a primeira sopa, usando a estrutura da Igreja Brasil para Cristo. Mais tarde, o doutor Samir Mattar, antes de ser prefeito, nos ajudou a construir um galpão. No dia da inauguração, preparei uma dobradinha para as autoridades.”

A estrutura – na mesma rua José Alberto dos Santos, em que ela mora – foi crescendo e ganhando novas construções. Veio também a horta comunitária, graças à qual as crianças do bairro aprenderam a comer verduras. Os recursos para as ampliações vinham do envolvimento de Ivete e do grupo de voluntários que ia arregimentando. “Promovíamos bazares, vendíamos artesanato, produzíamos estopa a partir de restos de pano... O dr. Samir e o Tito, dono de uma incorporadora, nos doaram um carro, e o radialista Juvan (o jornalista Juvan Souza Neto) criou nossa comunicação”, resume Ivete, dando o devido crédito a algumas das pessoas e empresas que colaboraram, como a Cebrace, uma apoiadora desde que se instalou em Barra Velha.

Com a diversificação das atividades, a cozinha comunitária foi desativada – ainda é usada para o preparo de refeições para quem faz cursos –, dando lugar a salas de cursos, quadra de esportes, miniacademia, mesas, quiosque e um centro de atendimento da Secretaria de Bem-estar Social. Ivete preside a associação, escudada pelas amigas Helenice Visintainer (vice), Clotilde Afélis (a Tide, também vice), Dilcicléia de Barros (diretora de Eventos), Maria Helena de Oliveira e Nilma de Melo Strei.

Já homenageada com o título de Cidadã Benemérita, Ivete não para com o trabalho: “Fico feliz quando vejo o fortalecimento dos laços comunitários”.


Professor Marcelo Braga divide-se entre a profissão e a crítica expressa em cartas para a imprensa

Ele se indigna com situações que vão contra os interesses da comunidade. Também defende com unhas e dentes o magistério
Rogério Souza Jr./ND
Braga, na sala de educação física, em que reúne a vasta coleção de troféus e medalha

 

 

“Sei que minhas posições provocam ranger de dentes e despertam rancor, mas não vou deixar de externar minha opinião quando achar que alguma situação contraria os interesses da comunidade, principalmente quando disser respeito à educação ou ao esporte.” É assim, com determinação, que o francisquense Marcelo Roberto Vieira Braga, professor de educação física, justifica seu hábito de escrever quase todos os dias para periódicos, quase sempre com críticas a algum desvio de conduta ou apontando caminhos para o aprimoramento da educação.

Campeão de presença na seção de e-mails e cartas do ND – posição dividida com o comerciante joinvilense Verli Antonio Araújo (Perfil em 18/5/12) –, Braga é, acima de tudo, um apaixonado pela profissão e inimigo de qualquer tipo de corrupção. “Escrevi a primeira carta aos 14 anos, para uma revista, e nunca mais parei.”

Braga nasceu em 1968 e se criou no bairro Paulas. “Meu pai, conhecido como Mário Cebola, jogava no Atlético e tinha um restaurante ao lado da estação ferroviária. Conheceu minha mãe quando ela veio à cidade para trabalhar na Babitonga. Estudei no Colégio Francisquense, e sempre fui apaixonado por esporte”, conta.

Era um guri chegado a estripulias, como uma que ele resgata dos arquivos da memória: “Eu tinha uns 7 anos, e na época era bem loirinho. Um dia, sentei-me numa canoa de pescador, na beira da praia, e não percebi que o movimento da maré começou a me levar pra fora. Foi um desespero para as pessoas quando sumi, até que alguém viu a cabeça branca se destacando na canoa, a essa altura longe da praia”.

 

 

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Estímulo aos pequenos alunos no futsal e algumas conquistas no currículo

 

 

Experiência no JEC

Adolescente, durante um tempo Braga pegava a litorina todos os dias até Joinville. Da estação, ia ao Ernestão. “Cheguei a jogar no sub-15 do JEC, e disputei a Taça São Paulo de Juniores, em 1983. Mas não era bom o suficiente pra sonhar com uma carreira profissional, e preferi focar a atenção nos estudos.” Iniciou a faculdade de geografia na Furj (atual Univille), mas não se graduou. Era sua segunda opção; a primeira era educação física, mas, por incrível que pareça, não foi aprovado no teste prático, exigido na época. “Até hoje não sei o que aconteceu”, admite.

A sonhada faculdade foi iniciada na Universidade de Passo Fundo, onde morou por seis anos. “Enquanto estudava, trabalhei numa creche, num bairro pobre, ensinando as crianças a jogar futebol. Reforçava o orçamento jogando na equipe de futsal da Cooper Passo Fundo e ensinando basquete na escolinha da universidade.” De volta a São Francisco, concluiu a faculdade na Univille, em 1994.

Trabalhou na Academia Armazém do Corpo, coordenou as escolinhas de futebol do Atlético e do Ipiranga, foi preparador físico em vários clubes e, em meados dos anos 90, junto com Jorge Cevinski, criou o projeto Ginástica na Praia, na Enseada.

Em 1996, enfim, Braga iniciou a carreira de professor de educação física no colégio Carlos da Costa Pereira, no Acaraí. Seguiu-se um período de dez anos na escola João Alfredo Moreira, na Vila da Glória, onde chegou a diretor. Dessa época, guarda muitos “causos” das travessias: “Muitas vezes, a lancha levava caixões funerários para a Vila da Glória. Certa vez, por causa da neblina, fomos parar na ilha do Cação, com um caixão a bordo”.

Desde 2006, Braga leciona na EEB Annes Gualberto, no seu querido bairro Paulas (entre os alunos, está o filho João Vítor, 12 anos). Dedicado ao esporte, tem respeitável galeria de troféus em sua sala no colégio, ganhos tanto com os alunos quanto por clubes. Neste ano, foi campeão sul-brasileiro de futsal sub-13 e vice no sub-12, categorias com as quais também disputa as competições da Liga Joinvilense.

Para manter a forma, Braga joga futebol pelo time master do Atlético. Além das conquistas no esporte, se orgulha de outras duas - uma profissional: “Completei 20 anos de magistério no Dia do Professor, 15 de outubro”, e outra pessoal: “Em 2013 ganhei o título de Cidadão Benemérito de São Francisco do Sul”.

 

 

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Professor Marcelo com sua família, no momento em que recebeu o título de Cidadão Benemérito de São Francisco do Sul

 

 

“...o que nós, professores,