Perfil

Marcos Fritzke herdou o dom do tio, Alitor, e o sucedeu na cozinha da tradicional Harmonia-Lyra

Ele sonhava ser engenheiro mecânico, mas os caminhos o levaram para a cozinha, e hoje ele é um dos ecônomos mais solicitados da cidade
Rogério Souza Jr./ND
Ele foi garçom, auxiliar de cozinha, inovou quando inaugurou, há cerca de 20 anos, o 3 Pratos, e hoje comanda a D'Marcos Buffet

 

 

Até meados dos anos 90, eventos sociais e gastronômicos realizados na Sociedade Harmonia-Lyra, em Joinville, tinham a marca registrada de Alitor Fritzke (falecido há dois anos), ecônomo da tradicionalíssima entidade durante mais de três décadas. Já durante os anos dourados da Lyra, Alitor preparava a sucessão. Por ali andavam, como garçons, auxiliares de cozinha e aprendizes, o filho Dagoberdt, o Dago, e o sobrinho Marcos. Ambos chegaram a suceder o pai e o tio, e Marcos está lá até hoje, agora como proprietário da D’Marcos Buffet, atendendo eventos na própria Lyra, na Expoville e onde seus serviços forem requisitados. “Há uns dois anos, encaramos um desafio de logística num evento para cerca de 1.000 pessoas em Balneário Camboriú”, exemplifica – na ocasião, uma das maiores incorporadoras do balneário trouxe a atriz Sharon Stone como garota-propaganda.

Mas, se dependesse dos sonhos de adolescente, Marcos Fritzke seria hoje engenheiro mecânico. “Cheguei a me formar técnico mecânico na ETT [Escola Técnica Tupy]”, conta. Nascido há 48 anos em Joinville, Marcos se criou no bairro Anita Garibaldi, nas proximidades da atual rodoviária. “Joguei muita bola ali pelos campinhos, com um irmão mais velho e o Gílson”, relembra, citando Gilson Bohn, hoje empresário, dono da loja Olívia Modas.

Após concluir o ensino fundamental no colégio Elias Moreira, Fritzke foi em busca da realização do sonho de ser engenheiro mecânico. O primeiro passo era o curso na ETT. Só que, para ajudar a pagar o colégio, precisava trabalhar. E aí...

 

“O ano passado, de final 13,

teve só um casamento em maio;

para o mês que vem, já temos sete.”


Mudança de rumo e exclusividade

 

“Eu reforçava o orçamento e pagava parte do curso trabalhando na Lyra, com o tio Alitor.” Lavando pratos, servindo a freguesia e, principalmente, auxiliando na cozinha, Fritzke foi pegando o jeito e gostando da arte culinária. Resultado: formado técnico mecânico, foi fazer um curso de culinária em São Paulo e continuou trabalhando com o tio. “Tinha uma aptidão natural para a cozinha, tanto por ter precisado ajudar em casa, quanto por acompanhar meu pai, que além de alfaiate era churrasqueiro muito requisitado.”

Em 1992, com uma boa bagagem profissional, partiu para o negócio próprio, e abriu o restaurante 3 Pratos, ao lado de casa, na rua Concórdia. “Era uma proposta nova para a época, de ser um restaurante executivo e rotisseria, a partir de três opções de pratos”, conta, justificando o nome do empreendimento. “Durante muito tempo, a feijoada foi o carro-chefe do 3 Pratos.”

Dez anos depois, Fritzke fechou o restaurante (hoje mora lá, após uma reforma) e retornou à Lyra, agora na qualidade de ecônomo. “A realidade era outra, a sociedade já não promovia os eventos, mas locava o espaço para terceiros.” Com um contrato de exclusividade, em 2005 o chef-empresário criou a D’Marcos Buffet, comprou o primeiro caminhão-cozinha e foi rodar a região. Chegou a comandar algum tempo os espaços gastronômicos do Sargentos e da Piazza Itália e, atualmente, além da base na Lyra e da cozinha itinerante, é o ecônomo da Expoville. “O maior desafio até agora foi a convenção nacional dos lojistas, em 2003, quando atendemos mais de 3.000 pessoas.”

Ao primeiro caminhão, soma-se a mais um, além de veículos de apoio. E a tradição familiar se mantém: enquanto Fritzke encabeça a administração, a mulher, Valvete, cuida do financeiro e o filho Bruno se encarrega da Expoville. “Nesse ramo, a atualização, tanto tecnológica quanto de conhecimentos, é constante. O aprendizado não para nunca”, garante Marcos Fritzke, mostrando uma foto em que ele e a mulher posam ao lado de outros empresários da gastronomia joinvilense durante uma feira realizada em Las Vegas, no mês passado. “O melhor de tudo é que aqui não há rotina”, conclui, encerrando a entrevista para recepcionar uma família que veio ao restaurante da Lyra para uma degustação do que será servido no casamento dos filhos.

 

 

Serviço

D’Marcos Buffet para Eventos

Rua 15 de Novembro, 485 (ao lado da secretaria da Lyra)

Telefone 47/3433-0118 / 3422-2119

Email: contato@dmarcosbuffet.com.br


Família Erzinger comemora data como nos velhos tempos, com união, fé e chocolates

Para a matriarca Norma, a Páscoa ainda tem sabor de infância e família. E a reunião, pelo menos até o almoço de domingo, é sagrada
Rogério Souza Jr./ND
Norma Erzinger já está com a casa preparada e as guloseimas para presentear aos familiares

 

 

Guardar silêncio sexta e sábado, levantar bem cedo no domingo, assistir ao culto das 7h, voltar pra casa, procurar a cestinha, curtir o almoço com a família reunida, comer os ovinhos e coelhinhos de chocolate aos poucos, para que durem o máximo possível. “O problema era que o Mópi era um danado, acabava logo com os dele e avançava nos chocolates dos irmãos.”

Com a divertida ressalva feita ao mano, Norma Lütke Erzinger relembra as Páscoas de antigamente, passadas com a família no Rio da Prata. Muito das tradições, ela procura hoje, aos 73 anos, conservar. Sua casa, no centro de Pirabeiraba, tem enfeites pascoalinos, algumas cestinhas estão prontas e, no quarto, os mimos para a família só esperam o domingo para ser distribuídos. Só entre adultos, por enquanto: “Os filhos e os netos já estão criados, mas espero que logo venham os bisnetos”, ressalva, apresentando filhos, genros, noras e netos num grande quadro na parede.

As lembranças da infância são nítidas na memória de Norma, segunda dos quatro filhos de Max Lütke e Elisa (nascida Hardt). “Eu fiz o primário numa escola isolada perto de onde morava. A estrada ainda era rota de carroções que desciam a serra. Eu ainda era criança quando minha mãe morreu, mas ela ainda teve tempo de me iniciar na arte da costura. Fiz curso e trabalhei muito costurando roupas.” Norma só parou de costurar para fora quando se casou com Adomir Erzinger, em 1962, e foi morar com os sogros, na rua Conselheiro Pedreira, no centro do distrito.

“Conheci meu marido numa domingueira, acho que foi no salão Brüske”, puxa pela memória. O casal tem dois filhos, Leila e Sandro, ambos à frente da empresa da família, a Erzinger Indústria Mecânica, dedicada à fabricação de máquinas e equipamentos para pintura industrial. Dos quatro netos, dois também trabalham na empresa (que fica na rua Miguel Erzinger, tio de Adomir).

 

 

Reprodução/ND
Foto da família, de um passado recente e de data desconhecida, do tempo em que os netos, hoje adultos, ainda eram crianças

 

 

Lembranças da Páscoa

 

No dia da entrevista, dona Norma aguardava a reportagem com uma folha, escrita em bela letra cursiva, onde conta como é a Páscoa da família. Muito ainda é parecido com aquelas passadas no Rio da Prata, com os pais Max (o Opa Max, falecido em 1993) e Elisa e os irmãos Nelson, Norberto (o Mópi, também falecido) e Asta. “Gosto muito de escrever”, salienta, mostrando o texto reproduzido a seguir:

 

“Nós gostamos de festejar a Páscoa em família. No Domingo de Páscoa vai a família toda no culto para louvar a Deus, pelo seu grande amor por nós. Isso começa às 6h da manhã. É um culto em que a igreja fica cheia, tem coros cantando e tocando instrumentos musicais. Depois do culto é servido um gostoso café com doces e salgados na casa da comunidade. A continuação é em casa, todos ainda têm que procurar ovos de chocolate. Isso serve pra aumentar a alegria da Páscoa. Mas o verdadeiro sentido da Páscoa é Jesus ressuscitado, é reunir nossa família sempre neste dia na nossa casa. Filhos, netos e a vó Minka. A família todo ano aumenta, graças a Deus. Meio-dia almoçamos todos juntos. Depois, cada um pode fazer seus programas, visitar afilhados, etc. Este é o nosso jeito de comemorar a Páscoa, como muitas famílias ainda fazem. É muito gostoso festejar datas especiais com a família em casa.”

Com esta mensagem, dona Norma e o ND desejam Feliz Páscoa a todos os leitores.

 

Perfil sugerido pelo pastor Carlos Krüger, da paróquia luterana de Pirabeiraba


Joinvilense Dennis Prants se orgulha de ser o primeiro atleta profissional brasileiro de football

Quando poucos haviam ouvido falar, ele decidiu investir no futebol americano, conquistou profissionalização e muitos títulos, mostrando que além de pioneiro é um vencedor
Henrique Porto/Avante/Divulgação/ND
Denis à frente do Jaraguá Breakers

 

Dennis Prants tinha 19 anos quando pegou, pela primeira vez, uma bola de futebol americano. “Foi um americano que morava perto do Fluminense que me apresentou ao football. Desde então, a bola oval passou a fazer parte da minha vida e hoje, além de me proporcionar um bom currículo, o esporte é minha profissão.”

Aos 42 anos, Prants se orgulha de abrir o currículo com a expressão “primeiro atleta profissional do país” no esporte – além, claro, de listar uma invejável coleção de títulos, tanto pelos clubes pelos quais passou, quanto individualmente (foi várias vezes eleito MVP, “most valuable player”, ou melhor jogador).

Criado no Itaum, Prants iniciou a carreira escolar no colégio Monsenhor Scarzello. Sonhava ser goleiro do São Paulo, quando conseguiu uma bolsa de estudos no Elias Moreira. “Pelo Elias, onde fiquei até concluir o ensino médio, fui goleiro, joguei basquete e vôlei e pratiquei atletismo. Cheguei a ter índice no salto em altura para disputar os Jasc, mas a essa altura já estava fascinado pelo football.”

O fascínio só aumentava à medida que Prants mais aprendia sobre o esporte. “Na época, mal sabia alguma coisa em inglês, e não havia as facilidades de hoje, com programas de tradução online. Eu ia até a Biblioteca Pública com as obras e regras sobre o esporte e traduzia com a ajuda de dicionários.”

O início, baseado no empirismo, foi se transformando em conhecimento acumulado. A prática, em parte, foi executada perto de casa: “No CSU do Itaum havia um time de rúgbi, e ali comecei a ensinar a rapaziada a jogar futebol americano”. Resultado: a equipe trocou o rúgbi pelo football e, em 1991, nascia o Joinville Blackhawks (falcões negros), primeiro time brasileiro de football na grama.

 

“O futebol americano é mais técnica do que força.

O atleta precisa ter integridade, caráter, coragem e classe.”

 

Uma potência chamada Panzers

 

Em 1994, já com boa experiência, Prants mudou o nome do clube para Panzers, mais adequado à tradição germânica da cidade (panzer é uma abreviação de "Panzerkampfwagen", termo alemão para "veículo blindado de combate"). Tal e qual um tanque, o time passava por cima dos adversários: de 1998 a 2002, foi três vezes campeão do Torneio Integração (e Dennis Prants foi MVP nas três edições), seguindo-se o campeonato sul-brasileiro de 2003 (invicto, Prants novamente eleito melhor jogador), Troféu Joinville em 2005 e tricampeão catarinense de 2006 a 2008.

Especializado na posição de “quarterback” (o jogador encarregado de executar os lançamentos), Dennis Prants abriu a primeira escola de football do Brasil, em 2004. Em 2007 foi convocado para a Seleção Brasileira e, no ano seguinte, assinou contrato profissional com o Arsenal, de Cuiabá. Nos dois anos em que morou na capital mato-grossense, trabalhou também na escola de futebol americano mantida pelo Sesi local. Precisou encerrar a carreira como jogador em 2009, com um joelho estourado (“Já quebrei um monte de ossos, e tenho o corpo cheio de parafusos e pinos”, acrescenta, mostrando as cicatrizes). Assumiu então a direção técnica do Brasil Breakers, de Jaraguá do Sul, já ostentando o título brasileiro – invicto – de 2013.

“Mais que força, como muitos pensam, o football é um esporte de muita estratégia e raciocínio. Como quarterback, aprendi a lançar a bola sempre analisando a posição da defesa adversária, e não apenas a dos atacantes do meu time. A estratégia traçada pelo nosso time pode exigir uma mudança total, dependendo do posicionamento tomado pelo adversário. E as decisões precisam ser tomadas em alguns segundos.” Como treinador, Prants valoriza ao máximo a prática de fundamentos. “Quando jogava, eu saía dos treinos com o braço dolorido, de tanto executar lançamentos. Você pode até nascer com um dom para o esporte, mas jamais terá destaque se não aperfeiçoar os fundamentos.”

 

 

Divulgação/ND
Dennis à frente da seleção brasileira: carreira de jogador foi encerrada em 2009, mas como técnico ele ainda tem muito fôlego para ir em busca de mais títulos

Valdir Batista se dedica aos produtos orgânicos, um ofício que surgiu com a aposentadoria


Rogério Souza Jr./ND
Valdir Batista no sítio da Estrada Neudorf, onde ele encontrou um novo sentido para a vida ao descobrir um mercado em crescente expansão

 

Morador da rua Valentim Montibeller, perto do terminal de ônibus do bairro Vila Nova, Valdir Batista passa a maior parte do tempo na Estrada Neudorf, periferia da região onde é produzido arroz irrigado, a cultura economicamente mais forte do meio rural de Joinville. Em sociedade com um amigo, é dono de um sítio de 300 mil metros quadrados (90% cobertos de mata atlântica), onde cultiva maracujá, aipim, abacaxi, cana-de-açúcar e banana. A produção é absorvida por uma freguesia fiel, daquela que se pode chamar de carteirinha.

O interesse pelos produtos de Batista tem bom motivo: tudo é cultivado sem uso de agrotóxicos ou adubos químicos. “Daqui, só sai produção genuinamente orgânica. E freguês é o que não falta”, destaca.

A freguesia do produtor da Estrada Neudorf deverá aumentar ainda mais, pois ontem ele e mais sete agricultores de Joinville receberam o Certificado de Conformidade Orgânica, expedido pela Rede Ecovida, entidade credenciada pelo Ministério da Agricultura para estimular a cadeia de produtos livres de agrotóxicos e adubos químicos. “Vale dizer que esta conquista é importante por nos abrir as portas de todos os comércios da cidade que trabalham com produtos orgânicos”, salienta.

 

Trajetória profissional  


Nascido há 51 anos em Ilhota, Batista passou a infância em Guaramirim, onde a família dedicava-se ao ramo agrícola. Foi nesse tempo que afeiçoou-se à terra e apaixonou-se por plantas medicinais cultivadas pela avó paterna.

Ainda menino, mudou-se para o bairro Vila Nova, na zona Leste de Joinville, onde continua até hoje. Sua trajetória profissional teve início aos 15 anos, ao arrumar emprego numa olaria. Posteriormente, trabalhou em um abatedouro de bovinos, de onde saiu aos 20 anos, ao ser aprovado em concurso público para a admissão de soldados da Polícia Militar. Ao todo, foram 25 anos de farda, com a qual começou como soldado e chegou a subtenente. 

Ao fazer uma retrospectiva do tempo de policial, Valdir não esconde uma pontinha de orgulho. “Por ser muito disciplinado, dediquei-me com afinco para conquistar o posto máximo entre os praças. Coroei com brilho minha trajetória nas fileiras da Polícia Militar”, enfatiza.

Dos tempos de farda, lembra com saudade o período de oito anos e quatro meses em que comandou o então destacamento da Polícia Militar em São Francisco do Sul. Também fala com carinho especial da Companhia de Proteção Ambiental de Joinville.  “Por me identificar com o mundo da roça solicitei transferência para a Companhia de Proteção Ambiental, de onde saí 13 anos mais tarde, ao me aposentar. Conheço todo o interior de Joinville como a palma da mão”, garante.

 

Novo começo com capacitação técnica


Com a aposentadoria, Batista decidiu que era hora de recomeçar em alguma atividade que continuasse lhe dando prazer. Foi assim que transformou-se em agricultor de produtos orgânicos, entre os quais destaca-se uma horta medicinal. “Antes de começar nessa nova etapa tratei de buscar capacitação técnica por meio de cursos na Fundação Municipal 25 de Julho e na Epagri. Sem isso, não teria sucesso”, ressalta. 

Além da produção orgânica, o sítio tem trilhas na mata e funciona como sede campestre do grupo de escoteiros do bairro Vila Nova, ao qual ele presta apoio desde sua fundação.

Com disposição invejável, veste calção uma por semana para jogar bola com os amigos na Sociedade Palmeiras. De quebra, também participa de um grupo teatral. No momento, está deixando a barba crescer para encarnar a figura de um sacerdote, papel que desempenhará durante a encenação da Paixão de Cristo que será realizada na Semana Santa por um grupo de atores amadores ligados à paróquia Nossa Senhora Medianeira. “Quando há organização, é possível fazer inúmeros trabalhos sem atrapalhar a agenda”, salienta o ex-policial.


Nos campos e na vida pública, o araquariense Paulino Travasso procura dar sempre o melhor de si

Criado em meio à natureza, o hoje secretário de Turismo, Esporte e Lazer de Araquari destaca que levar lazer aos bairros é uma de suas bandeiras. Também não descuida do esporte, sempre em busca de um artilheiro tão talentoso como ele ainda é
Fabrício Porto/ND
Paulino continua vestindo a camisa do seu time, o 7 de Setembro, que também preside

 

 

De todos os sentimentos que preenchem o coração de Paulino Sérgio Travasso, nenhum é maior que o amor por sua terra. Ainda que, em seus registros, conste Joinville como local de nascimento, é Araquari que ele considera seu “ninho”. “Nasci na Darcy Vargas por força das circunstâncias, era a maternidade mais próxima. Mas fui criado em Araquari, aqui estou construindo minha vida e a família, e tudo que faço é pensando no bem da minha cidade”, garante Paulino, que na semana passada, como secretário de Turismo, Esporte e Lazer, concentrava esforços nos últimos detalhes da programação dos 138 anos de emancipação do município, comemorados dia 5. Paulino nasceu em 1968.

Primeiro filho de um agricultor de Massaranduba e de uma professora araquariense, criou-se em meio à natureza, jogando pêca, nadando no rio Parati e, principalmente, jogando bola, muita bola. “Por aqui, nunca faltaram campinhos e pastos, e jogar era o que eu mais gostava”, assegura. Bom de bola, tornou-se artilheiro pelos times que defendeu, usando as camisas 9 ou 7.

A carreira começou – e continua – no Sete de Setembro Futebol Clube. “Comecei no infantil, no então chamado ‘Setinho’. Um dia, após um amistoso contra o JEC, o professor Afonso me convidou pra jogar lá.” Paulino ficou três anos no Tricolor, contabilizando o título da Copa São Paulo infanto-juvenil, em 1985. “Marquei o gol do título, na vitória sobre a Ponte Preta por 2 a 1”, frisa, mostrando a foto do time com as faixas, ganhas numa preliminar do JEC no Ernestão e lamentando não estar ali: “Cheguei atrasado e não saí na foto”. Chegar na hora, por sinal, era uma das obrigações de Paulino – ou “Paulinho”, como o chamava a mãe – no tempo de JEC. “Entrei com 13 anos no Banco do Brasil, como menor aprendiz. Precisava conciliar o trabalho, os estudos no colégio Almirante Boiteux e os treinos em Joinville. Algumas vezes, perdi o ônibus e precisei ir de bicicleta até o Ernestão.”

Aos 17 anos, aprovado em concurso interno, foi efetivado no banco e precisou deixar o JEC. Tomou conta, então, da camisa 9 do Sete, agora no time principal. Passou depois pela Tupy (campeão da Primeirona), júnior do Atlético Paranaense, Atlético de São Francisco (campeão e artilheiro da Liga Francisquense) e assinou seu primeiro contrato como profissional, no Juventus de Jaraguá, onde passou a temporada de 1990, disputando o Catarinense da 2ª Divisão. “Ganhamos o primeiro turno e fomos vice-campeões, subindo para a 1ª Divisão. Mas aí não dava mais para conciliar o futebol e o emprego no banco, e desisti do profissionalismo.”

Como amador, Paulino ainda jogou pelo Continental de Rio Negrinho, pelo Amizade de Guaramirim, pelo Caxias e encerrou a carreira no seu querido Sete de Setembro. Assumiu cargos na diretoria e, desde 2010, é o presidente do clube – além, claro, de camisa 9 do time master.

 

 

Reprodução/ND
Paulino quando defendeu o Juventus, de Jaraguá do Sul

 

 

Carreira pública

 

Casado com a barra-sulense Rosilda, Paulino é pai de Andréia, 23 anos, Paulo, 19, Andressa, 12, e Amanda, 10. Também contabiliza muitas conquistas em nível comunitário: “Fui um dos fundadores da Apae, fui presidente da APP do Colégio Almirante Boiteux, da AABB, do Corpo de Bombeiros Voluntários e coordenador da Festa do Maracujá”.

Pelo PMDB, foi vereador de 1992 a 2004; naquele ano, pelo PSDB (do qual é o atual presidente do diretório municipal) elegeu-se vice-prefeito; e desde a primeira gestão do prefeito Woitexen é secretário de Turismo, Esporte e Lazer. “Uma de nossas bandeiras – comenta – é levar esporte e lazer aos bairros. Para isso, contamos com diversas parcerias entre poder público e entidades do município.” Entre elas, a escolinha de futebol do Sete de Setembro. Talvez surja ali um novo artilheiro.


Do outro lado do mundo

Made in Taiwan. Simone Chuang faz carreira como intérprete em mandarim
Gisella Müller/ND
Outro sotaque. Formada em turismo, Simoni vislumbrou nicho de mercado e abriu a CHW (iniciais do seu nome) South America Trade Estúdio, com serviços de intérprete e aulas particulares de mandarim

 

Imagine você, leitor, nascido em Joinville ou qualquer outra cidade da região, trocando sua cidade, aos 15 anos de idade, por um lugar no lado de lá do planeta. A China! Outra cultura, um idioma quase impronunciável, a necessidade de sobreviver e, como apoio, alguns conhecidos para dividir moradia e dar algumas dicas. Pois foi exatamente essa a experiência vivida por uma jovem, há 17 anos, mas em sentido inverso. Chuang Hsiao Wen deixou sua cidade-natal, Zhang Hua, no Oeste de Taiwan, a principal ilha do país que se desmembrou da China em 1949 e se tornou a China Nacionalista. “Rebatizada” por uma amiga como Simone (a pronúncia mais próxima de Hsiao Wen, seu prenome), tornou-se uma referência em Joinville como intérprete do idioma mandarim. “Consegui me adaptar muito bem aos costumes locais, faço um trabalho que me realiza e ainda pude trazer minha mãe e um irmão para cá”, diz, com um sorriso contagiante e num português quase impecável. “Só falta dizer ‘capaz’! pra virar joinvilense”, brinca – mesmo que a língua insista em trocar R por L.

Simone – chamemo-la assim, já que desse modo está em seu cartão de visitas – nasceu em 1982 em Zhang Hua (ou Changhua), no litoral Oeste, região central da ilha de Formosa. “Não tínhamos praias, já que a maior parte da ilha é rochosa. Só há praias no Sul, longe de onde minha família morava. A principal opção de lazer para as crianças de lá são os parques de diversões, muito comuns em Taiwan.”

Quando fez 15 anos, Simone atravessou o mundo em direção a Joinville, onde residiam alguns conhecidos. “Demorou uns seis meses até aprender alguma coisa em português. Aí continuei os estudos, nos colégios Germano Timm e Rui Barbosa”, conta, guardando boas lembranças de uma “república taiwanesa” criada no Saguaçu, local em que morou.

 

Fotos Acervo pessoal/Divulgação/ND
Recordações. Em 2009, em uma loja típica de chineses em Taiwan

 

Mais recente. Em 2001, quando acompanhou empresários brasileiros em evento de negócios na China

 

Da feirinha às grandes empresas
Artesã desde a infância, Simone fez de uma barraquinha na feira de artesanato seu primeiro ganha-pão em Joinville. Especializada em macramê, faz belas obras, principalmente remetendo à cultura oriental. Depois da barraca, investiu numa loja, mantendo durante três anos a Casa Oriental, na rua São Paulo.

Há dez anos, formada em turismo pela Faculdade Cenecista, viu na função de intérprete um novo nicho. “Com a abertura da China continental, muitas empresas passaram a fazer negócios e importar equipamentos. Foi o caso do meu primeiro trabalho, na Schulz, servindo de intérprete entre o pessoal local e os técnicos chineses que vinham instalar equipamentos.”

Simone domina o mandarim e conhece vários dos inúmeros dialetos derivados do idioma. À Schulz seguiu-se a Embraco, ela foi ficando cada vez mais conhecida e os trabalhos não pararam de aparecer. Há três anos Simone abriu sua empresa, a CHW (iniciais do seu nome) South America Trade Estúdio, com serviços de intérprete e aulas particulares de mandarim. O cartão de visitas, bilíngue, teve a colaboração da irmã artista, o irmão juntou-se ao negócio e a agenda fica cada vez mais cheia (a entrevista ao ND, por exemplo, precisou ser marcada para uma manhã de sábado, pois desde fevereiro Simone dá expediente integral na ArcelorMittal Vega, em São Francisco do Sul, de segunda a sexta, ministrando um treinamento).

A cultura oriental, além do idioma e do artesanato, logo estará se manifestando de outra forma: “Em maio vou abrir um restaurante vegetariano e vegano oriental”. Assim que a casa estiver pronta, Simone Chuang promete convidar os joinvilenses. “Quero receber as pessoas tão bem quanto fui recebida aqui.”


Médica Marilin Garcia Baran se aposenta após dedicar mais de 40 anos à saúde pública

Ela ousou e resolveu dedicar a vida à medicina quando a presença de mulheres era bem rara nesta profissão
Rogério Souza Jr./ND
Marilin não é mulher de planos, ela sempre deixou a vida lhe levar, e agora, com mais tempo para dedicar a si própria, continuará neste mesmo ritmo

 

Ao iniciar o ensino médio, com 15 anos, Marilin ainda não decidira qual profissão seguiria. “Antes de terminar o científico, porém, eu já sabia que seria médica. Ainda que muitas pessoas argumentassem que não era a profissão mais adequada para uma mulher, fui em frente, estudei, me dediquei e agora posso garantir que valeu a pena”, diz a médica Marilin Terezinha Garcia Baran, agora aposentada, após completar 70 anos – os últimos 37 dedicados ao serviço público, em Araquari. “Pelo calendário, ainda sou uma mocinha”, brinca, aludindo ao fato de aniversariar no dia 29 de fevereiro.

Foi na cidade paranaense de Ponta Grossa que Marilin passou a infância e parte da adolescência. Tinha 14 anos quando a família mudou-se pela primeira vez, em função do emprego do pai, funcionário do Banco do Brasil. “Fomos morar na cidade de Goiás. Há quem chame de ‘Goiás Velho’, mas o nome do município é Goiás mesmo”, frisa. Entre as lembranças da pequena cidade, diverte-se com as diferenças de sotaque. “Os colegas ficavam esperando a chamada, quando eu respondia ‘presente!’, pronunciando todas as letras, e não ‘presenti’, como os outros”, conta, ainda preservando o forte acento paranaense – reforçado com os anos que passou em Curitiba, após uma breve passagem por Florianópolis.

De Curitiba, em 1964 Marilin retornou à capital catarinense, desta vez sozinha, para fazer a faculdade de medicina na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). “Criamos lá um ‘paraíso do estudante universitário’, que depois virou a Casa do Estudante, da qual cheguei a ser presidente.” Também foi líder estudantil, participou do diretório acadêmico, cantou no coral e jogou vôlei pelo time da medicina. No terceiro ano, após integrar uma missão do Projeto Rondon à Amazônia, decidiu se especializar em saúde pública.

 

 

Arquivo Pessoal/ND
No diário, recortes de fotos que mostram Marilin e colegas partindo em missão do Projeto Rondon

 

 

Carreira como sanitarista

 

O tal alerta de que “isso não é profissão para mulher” foi transformado em obstinação. “Até então, de fato, eram raras as mulheres fazendo medicina. Mas na minha turma éramos dez moças. Hoje, como se pode constatar, a presença feminina é forte na profissão.”

Durante as missões do Projeto Rondon, que também a levaram ao vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, Marilin constatou uma realidade diferente da que se habituara a ver: “Vi como eram duras as condições de vida nas palafitas às margens do rio Solimões, e o sofrimento das populações indígenas.” Sua expedição à Amazônia está relatada num diário, com fatos e fotos da aventura.

Ainda na faculdade, Marilin participou de ações sociais promovidas pela Polícia Militar e chegou a trabalhar – “Ganhando salário!” – no hospital da PM, em Florianópolis. E não desperdiçava convites para viagens: “Aproveitava todas as oportunidades, tanto para aprender mais, quanto para conhecer outros lugares”. Formada em 1970, passou um ano no Instituto de Higiene de São Paulo, antes de retornar a Curitiba, onde ingressou no serviço público. Casou-se, teve quatro filhos e, em meados dos anos 70, topou novo desafio: “Como já tinha feito um curso de administração hospitalar, assumi a gestão do hospital de São João Batista, incluindo o posto de saúde de Canelinha”. Também atendia num consultório, o que exigia dedicação quase integral. Decidiu que era hora de se mudar novamente a partir de um episódio. “Estava com a família na ceia de Natal, quando vieram me chamar para atender uma emergência. Fui tirar chumbinho da bunda de um sujeito flagrado por um marido enfurecido. Ali decidi procurar um trabalho diferente”, diverte-se.

 

“Eu não sou muito de fazer planos,

gosto de ir levando, vivendo um dia

de cada vez. Tempo é questão de preferência.”

 

O destino, então, foi Joinville, a serviço da Regional de Saúde. Instalou-se no bairro Costa e Silva, no mesmo endereço em que ainda reside, e pegou outro desafio: “A Regional abrangia desde Porto Belo até Porto União. Viajei muito!”. Em 1977, assumiu a gestão do Hospital Senhor Bom Jesus, em Araquari, passando depois para a Secretaria de Saúde, onde exerceu sua profissão de sanitarista até a aposentadoria, ao completar 70 anos.

Agora, espera ter mais tempo para viajar, dedicar-se à pintura de quadros, alimentar os pássaros que povoam o pomar que cerca a casa, cuidar da cachorrada...


O talentoso sapateiro Neso relembra o título que conquistou pelo Caxias: Campeão Catarinense de 54

Eufrásio Pereira de Mira vive entre as lembranças dos campos de futebol e o trabalho diário na sapataria do bairro Guanabara

Fotos Rogério Souza Jr./ND
Maria, a eterna namorada, junto com o marido: uma relação que eles nem lembram mais quanto tempo faz, mas está prestes a completar sete décadas

 

Revirar o improvisado arquivo de fotos, muitas delas já reproduzidas e ampliadas, é um prazer para Eufrásio Pereira de Mira. Ali estão imagens dos campos de futebol e dos times nos quais ele jogou, conhecido como Neso. “Faz 60 anos que fui campeão catarinense”, orgulha-se, mostrando a foto do elenco do Caxias F. C. já com as faixas de campeão catarinense de 1954 – mesmo ano em que o clube adotou o pinguim como mascote e ganhou o apelido “Gualicho”, nome de um cavalo preto com mancha branca, papão de páreos nos hipódromos brasileiros.

Recentemente, a reportagem do ND voltou à sapataria do Mira, no Guanabara, cinco anos depois da primeira entrevista – o Perfil do sapateiro, devidamente emoldurado, está pendurado logo na entrada. Desta vez, ele está usando a camisa do JEC, ansioso pela final do campeonato, que acompanha pela televisão. “Me deu uma artrose no joelho, e é difícil ir à Arena”, justifica, mostrando a perna direita enfaixada.

Agora, como há cinco anos, a entrevista é constantemente interrompida para que o sapateiro atenda os fregueses que não param de entrar, trazendo sapatos e tênis para consertar. “Esse fica por 5 pilas, pode pegar amanhã cedo. Ah, quer pagar adiantado? Então já fica pronto hoje no fim da tarde”, diz Mira, entregando o troco ao cliente que trouxe um tênis para consertar.

Outra presença constante na sapataria, como uma segurança particular, é a cadela Perla, “o único cachorro que ri”, como garante o ex-meia do Caxias. Logo em seguida chega Maria, a companheira inseparável há 68 anos. Surgem controvérsias quanto à data do casamento. “Foi logo após a Segunda Guerra, em 1947”, informa o marido, nascido em 15 de maio de 1926. “Que nada, faz 68 anos que aguento ele”, corrige Maria, nascida Cidral, em 19 de junho de 1928. “Isso aqui era caminho de roça, tinha só uma vendinha ali adiante”, relembra Maria, olhando pela janela para o bairro Guanabara, onde nasceu e foi criada. “Meu pai era carroceiro da Buschle & Lepper, e eu trabalhei numa fábrica de celulóide”, lembra, provavelmente se referindo à Fábrica de Celulóide João Hahmann. Foi justamente na época da fábrica que Maria conheceu Neso.

Ele conta: “Além da sapataria, eu tinha uma barraquinha de garapa, onde o pessoal da fábrica fazia lanche. Ela era a mais bonita de todas”. O elogio não é cascata de marido apaixonado, e pode ser comprovado numa foto de Maria no esplendor da juventude. “Veja como ela era mesmo linda”, derrete-se a filha, também Maria, uma dos sete filhos do casal – de cinco anos para cá, a quantidade de netos aumentou para 17 e de bisnetos, para 18.

 

Arquivo Pessoal/ND
"Ela era a mais bonita de todas", diz o apaixonado marido, sobre sua eleita

Lembranças dos campos

 

A trajetória de Neso pelos campos de futebol começou no juvenil do Caxias, em 1940, passando pelo Flamengo (clube que tinha sede social no Bucarein, onde hoje é o Círculo Operário), Floresta (o campo ficava onde atualmente se ergue o ginásio Florestão), Estiva e Santos da avenida Cuba. Em 1953 e 54 foi profissional, bicampeão catarinense pelo Gualicho. “Estas são as melhores recordações da carreira”, diz o ex-camisa 10, referindo-se ao bicampeonato. Já veterano, ainda jogou pelo time do Moinho (na época Samrig), onde trabalhou.

Assim como em setembro de 2009, ele está otimista com o JEC: “Vamos ser campeões!”.


Valdir Steglich divide-se entre a medicina, as aulas, o Bolshoi e a família

O atleta que virou médico conheceu a dança por causa da filha, que acabou se formando médica, e hoje preside o conselho administrativo do Bolshoi no Brasil
Rogério Souza Jr./ND
Valdir Steglich, gaúcho de Ijuí, tem uma agenda atribulada, mas com espaço para o Bolshoi

 

Se hoje Valdir Steglich pode comemorar conquistas alcançadas na profissão, houve um tempo em que as honrarias vinham em forma de medalhas. “Era apaixonado por atletismo, especialmente as provas de fundo, e virei ortopedista justamente para me manter ao lado do esporte”, diz o médico, recordista gaúcho dos 1.500 metros no tempo de estudante – além de bom jogador de vôlei, outra de suas paixões.

Agora, aos 58 anos, a atividade física se resume ao necessário para manter a saúde e a boa forma. Ficou, porém, o amor pelo Grêmio, ao qual se somaram a mulher, a filha, a profissão, Joinville, o JEC, o Bolshoi... “A agenda diária é bem pesada, mas procuro me organizar para que tudo tenha seu tempo.”

Nascido a 13 de setembro de 1955 em Ijuí, no Noroeste gaúcho, o primogênito dos três filhos dos Steglich teve uma infância típica de uma então pequena cidade do interior: “Era um piá ativo, gostava de esportes e de leitura, hábito estimulado por meu pai”. A carreira estudantil foi feita no Colégio Evangélico Augusto Pestana, onde também se destacou como atleta: “Participava de tudo que era competição estudantil, sempre com destaque para o atletismo e o vôlei. Cheguei a ser campeão e recordista gaúcho dos 1.500 metros”.

Foi como estudante secundarista que Steglich teve despertada a vocação para a medicina: “Ainda que minha bisavó vaticinasse que eu não seria um bom médico, decidi seguir essa carreira. Queria ser ortopedista”.

 

 

Arquivo Pessoal/ND
Na formatura, junto com a mulher, Eoda, "a morena bonita" que despertou paixão imediata durante uma aula de anatomia

 

Paixões no campus

Aprovado no vestibular da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), Steglich morou durante um tempo numa pensão, antes de se mudar para um apartamento adquirido pela família, quando os irmãos iniciaram a vida universitária. Nos fins de semana, graças aos pouco mais de 170 quilômetros de estrada, o destino era a cidade-natal.

Durante a faculdade, o esporte seguia lado a lado com os estudos. “Entrei para as seleções universitárias de atletismo e vôlei, participei de competições internas e também em nível nacional."

Mas logo a agenda precisou abrir mais espaço, ao surgir uma nova paixão. “Foi numa aula de anatomia. Eu me sentava logo na entrada, e vi quando entrou uma linda morena. Foi paixão imediata!” A morena em questão se chamava Eoda, vinha de Faxinal do Soturno e também cursava medicina.

Entabulado o namoro, casaram-se em setembro de 1981, último ano do estágio – que Valdir fez no Hospital Independência (atual Ulbra), em Porto Alegre. Em 1983, nasceu Raquel, hoje dermatologista como a mãe (“Ela fez residência no mesmo hospital da mãe”, frisa Valdir). Quatro anos depois, nasceu Gustavo, que chegou a jogar nas categorias de base do JEC e, profissionalmente, no Piacenza da Itália.

Valdir Steglich veio a Joinville pela primeira vez em 1991, para participar de um congresso. No ano seguinte voltava, em definitivo, ao aceitar um convite para trabalhar no IOT, o Instituto de Ortopedia e Traumatologia. Trouxe a família em 93, tornou-se sócio e hoje é diretor administrativo do instituto. A ligação dos Steglich com o Bolshoi começou quando Raquel, bailarina desde os cinco anos, ingressou na escola. Formada, passou uma temporada na Rússia, até se decidir pela medicina.

Steglich assumiu a presidência do Conselho Administrativo em 2006, e desde então divide a agenda entre o IOT (dirigindo e clinicando), o Bolshoi, o Hospital São José, a Univille (dá aula uma vez por semana) e a família. “Quem manda na minha agenda são as mulheres”, brinca, referindo-se a Eoda, Raquel, secretárias do IOT e da Univille e à diretora-administrativa do Bolshoi, Célia Campos.


Maikon esteve entre os alunos pioneiros do Bolshoi e agora, professor, formará a primeira turma

Um convite inusitado, feito na escola onde estudava, aos sete anos, o jogou no mundo da dança
Rogério Souza Jr./ND
Professor Maikon vive a expectativa de formar a primeira turma, de dez meninos

 

 

O título deste Perfil pode ser interpretado de duas formas por Maikon Renan Golini, funcionário da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, há quase cinco anos: “Fiz parte do primeiro grupo a se formar no Bolshoi, em 2009, e no mesmo ano fui convidado a permanecer na escola, como professor. No final de 2014, vou formar minha primeira turma, de dez meninos”. O sorriso constante e o carisma comprovam o quanto Maikon gosta do que faz e como é respeitado pelos alunos.

A história começa em 11 de abril de 1992, quando nasceu o primeiro dos cinco filhos dos Golini. “Nasci em Joinville, fui criado no Boa Vista e moro lá até hoje. Aos 5 anos, minha família mudou-se para Belo Horizonte, em função do trabalho do meu pai, mas retornamos dois anos depois”, conta Maikon, que fez a carreira escolar nos colégios Castello Branco e Germano Timm.

Ele era aluno do primeiro ano do Castello, no final de 1999, quando uma interrupção na aula mudaria toda a sua vida. “Vieram perguntar quem gostaria de fazer teste para entrar na Escola Bolshoi, que seria aberta no ano seguinte. Até então, com sete anos, eu não tinha a menor ideia do que fosse balé, muito menos de uma companhia chamada Bolshoi. Após a apresentação, porém, acabei me inscrevendo, só pra ver no que dava.” No teste, feito no próprio colégio, a surpresa: “Passei em nono lugar!”.

 

 

Arquivo Escola/Ricardo Akam/Divulgação/ND
Maikon Golini dá os primeiros passos na dança: ele nem imaginava que sua vida estaria para sempre ligada a ela

 

 

A dança o levou pelo mundo

 

Em março de 2000, Maikon e um colega de colégio faziam parte da primeira turma de 40 alunos da única escola do Bolshoi fora da Rússia. “Simplesmente, não sabíamos nada daquilo. Mas, após a primeira aula, voltei para casa maravilhado e decidido a aprender o máximo possível.” O biótipo favorável e o empenho nos estudos logo mostraram que ali estava um talento a ser lapidado.

“Devo muito aos meus professores, especialmente o Carlos, que já não está mais aqui, e ao Denys, mesmo que fosse difícil entender o que ele falava”, agradece Maikon, referindo-se ao professor russo Denys Nevidomy, hoje seu colega no corpo docente.

Os primeiros tempos foram de muitos desafios. “Eram praticamente três turnos de estudos: de manhã no colégio, à tarde no Bolshoi e à noite dividindo tarefas escolares com exercícios de dança.” Veio, também, o inevitável preconceito: “Bem no começo não havia problema, até pela pouca idade dos colegas. À medida que crescia, porém, precisava assimilar e superar os comentários irônicos”. Tudo superado: “O respeito veio naturalmente, principalmente após as apresentações públicas”.

O primeiro espetáculo, claro, ficou gravado na memória. “Foi em Brasília, em 2001, no Teatro Nacional. Já começou com a primeira viagem de avião, conhecer a capital federal, um dos mais importantes teatros do país... O frio na barriga foi grande”, admite Maikon, que dançou um trecho do “Quebra-Nozes”, um pas-de-troix (ele e duas bailarinas). “A sensação de ser aplaudido por aquela plateia vai ficar para sempre na lembrança!”

No ano seguinte, novo batismo de fogo, agora “em casa”, perante a família e os amigos. “Ali tive a certeza de ter superado o preconceito e de que estava na carreira certa.” Em 2003, Maikon pisava em outro país: “Participamos de um festival em Magdeburg, na Alemanha, e antes passamos por Paris”. Três anos depois, a primeira viagem à Rússia, dançando novamente o “Quebra-Nozes”, no palco do Teatro Bolshoi de Moscou. Maikon ainda ficou uma semana a mais, num estágio na matriz. Em 2009, enfim, logo após a formatura, a surpresa: “Fui convidado para ser professor! Aceitei, claro, e acabei descobrindo uma nova vocação”.

Para este ano, duas grandes expectativas: o professor Maikon vai entregar os certificados de conclusão de seus primeiros dez alunos; e o bailarino garante que vai sentir novamente o frio na barriga quando pisar no palco, em novembro, na estreia da encenação completa do “Quebra-Nozes”. Desafios não faltam: “Sinto que ainda tenho muito que crescer e me aperfeiçoar. Mas tenho certeza de que fiz a escolha certa. Sou feliz!”.


Helena Richlin desvenda segredos do alfabeto gótico e traz à luz o conteúdo de documentos e cartas

Tradutora, que trabalha no Arquivo Histórico de Joinville, é uma das raras pessoas de Joinville que domina este conhecimento

Rogério Souza Jr./ND
Helena dedica várias horas do seu dia ao trabalho de tradução de documentos inscritos em alemão com o alfabeto gótico: técnica, muita dedicação e paciência

Traduzir um texto de um idioma para o outro já é uma tarefa difícil (quem duvida, tente fazer isso no google para ver o que sai). Quando esse idioma está escrito em um alfabeto rebuscado, que já não é usado há décadas, a tarefa assume contornos mais complexos. Mas há quem tope o desafio. Aos 45 anos, a joinvilense Helena Richlin traduz textos do alemão, redigidos no alfabeto gótico, para o português e traz à luz conteúdos esquecidos em documentos e cartas antigas.

Desenvolvido na idade média e comum até o século 19, o alfabeto gótico foi deixando de ser usado a partir daí. Em Joinville, pessoas com idade mais avançada ainda conseguem ler nessa escrita, mas quanto mais jovens, mais rara é a habilidade. Entre os pesquisadores da cidade, não mais que cinco dominam esse conhecimento – e o usam em suas próprias pesquisas.

Formada em letras e dedicada à tradução há cerca de 20 anos, Helena é uma dessas raras pessoas. Além de trabalhar no Arquivo Histórico de Joinville, ela traduz cartas e documentos particulares de famílias que querem conhecer um pouco mais de sua própria história.

O primeiro contato com esta escrita ocorreu na adolescência. Nascida em uma família com ascendência suíça e alemã, ela e os irmãos mais velhos aprenderam alemão em casa. Embora esta prática tenha sido coibida a partir do Estado Novo e muitos dos descendentes germânicos não saibam mais a língua dos antepassados, os pais, Werner e Helena Richlin, decidiram mantê-la presente na família. “Foi consciente. Eles queriam nos dar a oportunidade de aprender outra língua, uma outra cultura”, explica.

Com cerca de 15 anos, Helena tinha ganho quatro volumes de um romance, em gótico, que era lido para ela pela mãe, todos os dias. Um dia, uma vizinha queria ler livros antigos de receitas em gótico e pediu ajuda. “Minha mãe entendia, lia e traduzia. Aí, nós duas pensamos em aprender. Ela topou e aprendemos a técnica de leitura.”

Mais tarde, Helena estudou e se formou em alemão no ICBA (Instituto Cultural Brasil Alemanha), que tinha parceria com o Instituto Goethe, cursou letras - português/inglês na antiga Furj, hoje Univille, e em 1996 fez concurso para o Arquivo Histórico de Joinville, onde não são poucos os documentos com a grafia gótica. Paralelo ao trabalho no arquivo, ela se dedica à tradução para particulares – uma demanda que cresce à medida em que a quantidade de pessoas com essa habilidade diminui.

Traduzir um texto do gótico para o português é como montar um quebra-cabeças. Se for manuscrito, a dificuldade é ainda maior, já que cada um tem uma caligrafia diferente. “É um trabalho meticuloso, que começa com a identificação do padrão de escrita de cada pessoa. Quando muda o escritor, começa tudo de novo”, revela Helena, sobre os manuscritos. Uma vez identificado o padrão, ela parte para a transcrição. Muitas vezes, esbarra em trechos que parecem indecifráveis. No decorrer do trabalho, com a compreensão do contexto e a crescente familiaridade com cada caligrafia, estas lacunas são preenchidas. Somente após a transcrição, é feita tradução para o português. Uma página pode levar em média três horas para ser transcrita. Hoje, além do expediente no Arquivo, ela dedica de três a seis horas por dia à atividade.

Para dar conta de tarefa que exige, além de conhecimento, muita pesquisa, concentração e paciência, é preciso paixão. E isso, Heleninha Richlin tem de sobra: “O 'barato' é a reconstrução. Eu tenho que fazer esta reconstrução para começar a traduzir. E quanto mais difícil esta descoberta, maior o 'barato'”, ressalta.

 

Rogério Souza Jr./ND
A tradução de documentos e cartas ajuda as famílias a entenderem aspectos do passado

O que é a escrita gótica

* Escrita ou letra gótica (ou escolástica, ant.) é o nome pelo qual é chamada o tipo de letra angulosa e com linhas quebradas, originada entre os séculos 12 e 13, a partir do fraturamento paulatino das formas manuscritas da escrita carolíngea.

* Foi usada na Europa ocidental desde 1150 até 1500. Este estilo caligráfico e tipográfico continuou a ser utilizado em países de lingua alemã até o século 20.

Fonte: Helena Richlin


No campo, no salão e na praia, o treinador Zé Couto é referência em São Francisco do Sul

Diretor de Difusão de Eventos Esportivos da Secretaria de Esportes do município, ele faz exatamente o que gosta: promover o esporte
Rogério Souza Jr./ND
Onde tem esporte, Couto está por perto: queremos ser polo nacional, anuncia ele sobre os torneios de futsal e de beach soccer

 

 

Até os 21 anos, ele jogava bola e até sonhava em ser profissional. Aí, quebrou o tornozelo e virou treinador e promotor de esportes. Hoje, Zé Couto é diretor de Difusão de Eventos Esportivos da Secretaria de Esportes de São Francisco do Sul, onde faz exatamente o que gosta: promover o esporte. Além disso, não recusa convite para treinar algum time de futebol, futsal ou beach soccer. “Um dos nossos orgulhos são os campeonatos de futsal e de beach soccer promovidos durante o verão, que vêm tornando São Francisco uma referência no Estado. Ainda queremos ser um polo nacional!”, anseia Couto, satisfeito com os resultados dos recém-encerrados torneios Notícias do Dia de Futsal e RIC Record de Beach Soccer.

Nascido José de Oliveira Couto, em 1956, criou-se no bairro Água Branca, onde ainda mora. “O local de diversão preferido da gurizada – relembra – era o campinho do mato, onde hoje fica a sede do Lions. Dali saiu muita gente para os times de futebol e futsal da região.” Penúltimo de meia dúzia de irmãos, Couto fez carreira escolar nos colégios Stela Matutina, Santa Catarina e Francisquense – as aulas preferidas, sempre, foram as de educação física, já anunciando o futuro profissional do moleque.

“Eu jogava no Água Branca, e era mais do que metido, era bom mesmo”, admite, sem falsa modéstia. Mas o possível horizonte dentro de campos e quadras foi interrompido pela contusão aos 21 anos. A essa altura, já funcionário do Bradesco, restou abraçar o ofício de treinador para não ficar longe da bola. A lista de equipes começou pelo próprio Água Branca, seguido do time da Cocar (atual Cidasc), onde também trabalhou, e pela Cohab. “Trabalhei em diversas categorias, tanto no campo como no salão, além da areia, antes da explosão do beach soccer.”

 

Tricampeão pelo Ypiranga

 

De família tradicionalmente ypiranguista, foi no auriverde que Couto comemorou um tricampeonato francisquense (seu pai era secretário quando o Ypiranga ganhou o campeonato catarinense profissional, em 1940). Paulistinha, Iperoba e Arrumadores foram outros times que treinou. “Pelo Arrumadores – continua – disputei o estadual de amadores de 1990. Naquela década também fui técnico do Bandeirantes de São Bento e do Catarinense de Vitor Meireles.” Pelo Catarinense, uma conquista: “Fomos campeões da Liga Vale-Norte, eliminando o Atlético de Ibirama” – atualmente, o Atlético Hermann Aichinger disputa o estadual da primeira divisão de profissionais.

Profissional, por sinal, foi a categoria pela qual Couto nunca passou. Não que faltassem convites. “Felizmente, na minha carreira, fiz muitos amigos e recebi convites, mas preferi ficar no amador”, diz, comprovando as amizades com fotos e relatos de situações passadas junto a gente como Fernando Ferretti, Falcão, os atuais jogadores da Krona e dirigentes como o industrial Wandér Weege, que  por muitos anos patrocinou a campeã Malwee Futsal.

Outra boa lembrança vem de 1968, quando foi técnico do Paulistinha. “Em 78 anos de história, foi a primeira vez que o Paulistinha foi campeão francisquense, ganhando a final do Corinthians.”

Couto diz ter renascido em 2004, quando sofreu um acidente no caminho da Enseada, com a família. Ainda exibindo cicatrizes, hoje se permite brincar, grato ao médico Ari Santangelo: “Quase assinei o livro lá no portão do São Pedro”.

Na época, dirigia o Iperoba – pelo qual, claro, foi campeão. Provavelmente, o porteiro do céu permitiria sua entrada, pelo currículo: além de toda a atividade no futebol, sempre foi um batalhador pela comunidade, tendo participado da fundação da Apae e do Lar de Idosos de São Francisco. “Minha riqueza está dentro de mim”, conclui, admitindo que o acidente lhe trouxe nova visão da vida.


Magali Rosa coleta, trata e usa água da chuva no dia a dia da casa, num exercício de economia

Convicta de que a água é uma riqueza que cai do céu, ela acredita que está fazendo sua parte pelo bem do planeta e do próprio bolso
Rogério Souza Jr./ND
Magali Terezinha Rosa mostra a água da chuva, que ela trata em uma caixa de água em casa e usa para limpeza e lavação de roupas

 

 

Quem disse que riqueza não cai do céu? Às vezes cai, sim, e a gente deixa escorrer pelo ralo. Mas este, definitivamente, não é o caso da dona de casa Magali Terezinha Rosa, 48 anos. Há cerca de 15 anos ela coleta, trata e usa a água da chuva no dia a dia. Usa na limpeza geral, para regar o jardim e até para lavar roupas – só não usa para consumo humano, como beber ou fazer comida. Com isso, embora em sua casa morem de seis a oito pessoas, ela não chega a gastar os dez metros cúbicos, que é a taxa mínima mensal de fornecimento cobrada pela Companhia Águas de Joinville, empresa responsável pelo tratamento e distribuição de água na cidade. “Pago a taxa, mas não gasto isso. O consumo aqui varia de quatro a oito metros cúbicos mensais”, constata.

A ideia de coletar a água da chuva surgiu da observação da quantidade que ia parar nos drenos a cada chuva. Nascida em uma família de produtores rurais, onde o aproveitamento de todos os recursos era rotina, ela se inquietava ao ver toda aquela água jogada fora. Resolveu, então, colocar um tonel de 25 litros na saída da calha e constatou que bastavam poucos minutos de chuva para que ele transbordasse. E usava a água para lavar o chão ou molhar as plantas.

Como não falta chuva em Joinville, logo percebeu a economia que a medida gerava. E resolveu melhorar o sistema de coleta. “Devagarinho, fui aprimorando a ideia”, conta Magali, que buscou informações na antiga Casan, em livros, palestras, programas de TV e com pessoas que tinham piscina em casa. Sempre com o objetivo de evitar o desperdício.

Depois do tonel, usado por cerca de dois anos, instalou uma caixa d´água de 2.000 litros na saída da calha, que tem 15 metros de extensão e capta o que cai no telhado. Magali ressalta que a água da chuva é limpa, mas a calha e o telhado, não. Então, era preciso pensar em um sistema de tratamento. O jeito foi desenvolver seu próprio método. Uma peneira de cozinha (destas usadas para escorrer os legumes) foi colocada na entrada da caixa d'água para reter os resíduos maiores. “Deixo a água repousar por uns dois dias. Depois, abro a tampa e dou um giro na água”, explica. Este “giro” é feito com uma vassoura limpa e faz a água circular. Com isso, a sujeira vai para o fundo. Magali, então, aspira os resíduos com a ajuda de um “aspirador” - nada mais que um cano de PVC acoplado em uma mangueira larga, que serve como sifão e suga as impurezas. Por fim, coloca uma pedra de cloro. Todo o processo não leva dez minutos e é feito no máximo duas vezes por semana, dependendo da quantidade de chuva. “O mais importante é não deixar água parada”, ensina.

A princípio, ela colocou uma torneira na saída da caixa d'água e usava baldes e regadores. Com o tempo, foi aperfeiçoando o sistema. Instalou uma caixa de água na laje e uma bomba com motor para mandar a água para cima. A esta caixa foi conectada a torneira do tanque. “Esta água dá pressão e eu posso usar a mangueira”, mostra Magali, que não para de procurar novas possibilidades de captação, tratamento e aproveitamento de água. “Já fiz o teste: se você colocar uma folha de telha de amianto no muro, recolhe litros e litros de água”. Para encher a caixa de 2.000 litros, 30 minutos de chuva moderada são mais que suficientes.

Com isso, o desabastecimento é preocupação que não existe para a dona de casa. Em fevereiro, durante a seca e calorão que atingiu a cidade, seus reservatórios estavam cheios e havia água até para molhar o jardim. “Economizei também, mas não faltou água para o jardim, a limpeza e a roupa. Nunca falta.”

 

 

Magali também passou a usar o óleo de cozinha descartado por ela e vizinhos para produzir sabão

 

Sabão artesanal

 

Reutilizar e reaproveitar são realmente verbos de ação na casa de Magali. Além da coleta e tratamento da água da chuva, ela também produz sabão artesanal com óleo usado em casa e na vizinhança, dando sua contribuição para evitar que este óleo vá parar nos rios, além de produzir todo o sabão que consome na família. “Com água e sabão, você faz uma boa limpeza, tem uma casa limpa”, resume.


Terezinha Flores, uma das pioneiras da Rede Feminina de Combate ao Câncer de São Francisco do Sul

Há 30 anos vestindo rosa, a voluntária que também traz flores no nome, lembra do empenho incansável para estruturar a instituição
Rogério Souza Jr./ND
Terezinha vive feliz, vendo os frutos da família e do trabalho que cultivou em paralelo

 

 

Claro que nem todo o vestuário de Terezinha da Silva Flores é cor-de-rosa. Assim como indica o sobrenome que acrescentou quando se casou, colorido não falta em seu guarda-roupa. O rosa, no caso, é a cor da missão a que se propôs, voluntariamente, há três décadas, quando participou do nascimento da Rede Feminina de Combate ao Câncer de São Francisco do Sul – e à qual se dedica até hoje. “É uma forma de colaborar com a sociedade e ajudar as pessoas”, justifica a voluntária, diversas vezes tesoureira e ainda componente do conselho consultivo da entidade.

Terezinha nasceu há 69 anos, em São Francisco, criou-se no Rocio Pequeno e fez toda a carreira escolar no colégio Victor Konder, até o curso complementar, equivalente ao atual ensino médio. Caçula de três irmãos, admite: “Fui criada para ser mãe e dona de casa”.

Tanto que casou-se no dia 22 de dezembro de 1962, dez dias depois de completar 18 anos. Doze meses depois tinha o primeiro dos cinco filhos (que já lhe deram nove netos e três bisnetos). As lembranças são nítidas. “Comecei a namorar com o Neuci, um tijucano, numa domingueira no antigo Salão Maringá, no galpão do João Quirino. Como eu era Silva, e ele Silva Flores, só precisei acrescentar Flores ao sobrenome.” Terezinha ainda não imaginava que, duas décadas depois, a rosa seria a flor a simbolizar sua dedicação a uma causa social.

 

Terezinha convida Terezinha

 

“Eu ainda nem sabia que havia uma Rede Feminina de Combate ao Câncer nascendo em São Francisco do Sul, quando uma amiga, Terezinha Costa, me convidou a participar. Então, estou praticamente desde o início”, conta a voluntária. Ela se recorda da dificuldade encontrada na época, para tornar a rede uma realidade: “Das primeiras reuniões, com salas cheias, ficaram sete mulheres, formando o núcleo inicial. Foi um tempo de muita dedicação, trabalho duro para consolidar a rede, muitos mutirões e apoio inestimável de famílias abnegadas”.

Entre tantos agradecimentos, Terezinha faz questão de destacar a compreensão dos maridos e filhos das voluntárias. “Quantas vezes passávamos horas fora de casa, em busca de recursos para manter a rede em pé. Por isso, agradeço ao meu marido por entender a importância do nosso trabalho.”

Foi em maio de 1984 que as primeiras voluntárias prestaram o juramento protocolar. A oficialização, considerada a data de comemoração do aniversário, deu-se no dia 3 de setembro do mesmo ano. “No início, a rede funcionava numa sala do posto de saúde. Íamos de casa em casa pedir doações. As voluntárias usavam seus próprios carros para levar as mulheres para exames e tratamento em Joinville.”

Hoje, instalada há uma década em sede própria na rua Coronel Oliveira, 204, a rede conta, entre outros benefícios, com 50 voluntárias, sete profissionais contratados, ambulatório equipado para todos os exames e uma van para conduzir as pacientes em tratamento ao Hospital São José – único com setor oncológico na região.

Destes 30 anos de voluntariado, não faltam lembranças para Terezinha, testemunha de muitas histórias. “Uma das mais marcantes – lembra, emocionada – foi de uma senhora que tinha o corpo todo tomado por tumores. Íamos à casa dela todos os dias, refazer os curativos. Infelizmente, ela morreu há uns 20 anos.” Hoje, Terezinha prefere comemorar as conquistas, especialmente as proporcionadas pelo crescimento da entidade. “Tudo valeu a pena”, conclui.


Euclides criou-se no Iririú quando bairro se chamava Guaxanduva e foi um dos craques do Juventus

"Eu vi este bairro crescer em torno da nossa casa", diz o aposentado, um dos laterais-esquerdas mais talentosos da história do futebol joinvilense

A família Brito da Maia tem uma ligação profunda com o Iririú, desde que o bairro se chamava Guaxanduva. “Meu pai era dono de toda essa área, numa época em que era quase uma região rural. Nossa família cultivava diversas culturas, e todos precisaram engraxar o cabo da enxada antes de ir trabalhar fora. Eu vi esse bairro crescer em torno da nossa casa”, diz Euclides Brito da Maia, traçando com as mãos um grande círculo em torno da sede do Juventus Futebol Clube. Foi ali, vestindo a camisa grená, que ele virou o Quido, ou Quidinho, lateral-esquerdo que marcou época no futebol amador joinvilense. Bom de bola, garante: “Comigo, ponta-direita não se criava!”.

 

 

Luciano Moraes/ND
Presidente de honra do Juventus, Quidinho lembra que seu pai doou a área para a sede do clube

 

 

Por pouco, Euclides não foi registrado com outro nome: “Nasci no dia 26 de dezembro de 1943. Se a parteira tivesse me trazido ao mundo um dia antes, eu seria Natalino, com certeza”. Não foi, e o Euclides logo virou Quido, aluno da antiga Escola Reunida Guaxanduva, atual E. M. Annes Gualberto. “Fiz o ginásio no Germano Timm e o científico no Elias Moreira. Até comecei a faculdade de ciências contábeis, mas no segundo ano vi que aquilo não era pra mim.”

Quido gostava mesmo era de correr atrás da bola nos campinhos do bairro. “Nosso campo preferido ficava ali, onde hoje é o estacionamento da Milium”, lembra. Aos 14 anos, a bola precisou dividir o tempo com o primeiro emprego, na Consul, onde Quido ficou sete anos. Em 1967, passou num concurso para a Prefeitura, que recrutava gente para fazer um levantamento de todas as propriedades do município. “Foi a partir desse trabalho – conta Quido – que se começou a calcular o IPTU.” Ele acabou ficando no serviço público até 1997, aposentando-se como chefe da equipe de atendimento ao público (o pai, Hermógenes, fora funcionário público durante 50 anos). Quido ainda trabalhou alguns anos numa empresa de agrimensura, do engenheiro Dilson Brüske (falecido em fevereiro de 2012).

 

Campeão no Juventus

 

Hermógenes, pai de Quido, estava entre os fundadores do Juventus F. C., em 1947. Ele conta: “O primeiro campo era onde hoje fica o posto de gasolina, perto da Caixa. O nome foi dado em homenagem à Juventus de Turim, mas as cores ficaram as mesmas do Juventus de São Paulo. Em 1960, meu pai doou a área para a construção de um novo campo e da sede. Por isso, o complexo se chama H. de Brito”.

Quido começou a jogar nos juvenis do clube na adolescência e ficou até 1973. Entre muitas conquistas do “moleque travesso do Iririú”, a mais marcante foi o título da Primeirona, em 1964. “Tínhamos realmente um timaço!”, garante, identificando cada um na foto histórica. Quido foi campeão novamente em 1972, mas na Segundona, levando o clube de volta à divisão principal. Antes disso, em 1969, havia sido campeão da segunda divisão, mas defendendo a Veterana do Jardim Iririú. “O Juventus me emprestou, só pra subir”, ressalta.

Depois de parar, Quido ainda defendeu o master do Juventus em jogos festivos. Atualmente, seu compromisso é com um grupo de amigos que joga futsal na quadra do Colégio Santo Antônio, toda quinta. No Juventus, é presidente de honra.

Participar das reuniões é fácil: Quido mora na travessa Maria Brito da Maia (nome da sua mãe), quase uma continuação da servidão que liga a rua Iririú ao campo que tem o nome do pai Hermógenes.

Antes de encerrar a entrevista, Quidinho pede para acrescentar que participa, desde 1964, do time da Vila que enfrenta o da Chácara. “A Vila é pra cá, e a Chácara, pra lá”, explica, colocando o trevo da Milium como divisão geográfica. Trata-se de uma confraternização de fim de ano, reunindo pessoas ligadas ao Juventus, sem disputa de troféu, apenas para relembrar os velhos tempos do Guaxanduva.

 

 

Perfil sugerido pelo leitor Roberto Dias Borba


A história de empreendedorismo de Lerina, engenheira química dedicada à confecção de aromáticos


Carlos Junior/ND
Lerina transformou a admiração pela química e pelos difusores aromáticos em negócio

 

 

Apaixonada por química, boa aluna no ensino médio, Lerina Mastruian tinha uma certeza sobre a carreira a seguir: “Eu queria ser engenheira química”. Determinada, formou-se, deu duro em estágios e hoje, aos 32 anos, exerce um cargo de chefia numa grande empresa. E foi além: nas horas vagas, pratica o aprendizado da faculdade fabricando difusores aromáticos – e ainda reforça o caixa doméstico comercializando suas criações.

Lerina era para ser Mastroiani, mas uma falha de registro num cartório de Bagé, na fronteira gaúcha, onde nasceu, mudou a grafia para Mastruian. Filha do craque Marco Antônio, mais conhecido como Caçapava, tornou-se torcedora do Guarany, assim como do também alvirrubro Internacional.

Aos 18 anos, morando em Pelotas, passou no vestibular para engenharia química da Fundação Universitária Federal da vizinha cidade de Rio Grande. “Eu ia todos os dias de Pelotas a Rio Grande. Mas no terceiro ano da faculdade me mudei, pois era muito cansativo.” No quinto ano, teve a primeira experiência profissional, como estagiária no porto de Rio Grande. Formada em 2005, novo estágio, na Memphis Industrial de Porto Alegre, uma empresa de sabonetes, onde se efetivou como analista de processos. Quando morava na capital, Lerina foi pela primeira vez ao Beira-rio. Por ironia do destino, não torceu pelo Inter: “Era justamente um jogo contra o Guarany de Bagé. Torci pelo meu time de infância”. O emprego seguinte, em Guaíba, foi na Melitta.

Atenta aos ventos do mercado e no desenvolvimento profissional, em 2008 Lerina desembarcava em Joinville para trabalhar na Whirlpool, onde atuou como engenheira de produto. Em 2010, nova mudança: “Atravessei a rua e fui trabalhar na Schulz”. Além dos desafios normais de uma nova empresa, num ramo diferente, veio outro. “Assumi a supervisão de produção da Pintura Automotiva, liderando uma equipe de 150 homens.” Desafio que vem sendo vencido: “Nunca enfrentei qualquer preconceito, e a empresa dá todas as condições de desenvolvimento profissional”.

Há pouco mais de um ano, casou-se com um joinvilense, com quem mora num condomínio no Costa e Silva, pertinho da Schulz e da Embraco, onde trabalha o marido.

 

Química caseira

 

Um dos cômodos do apartamento de Lerina é ocupado por sua “oficina-laboratório”, onde produz difusores aromáticos. “A ideia de criar difusores surgiu quando eu queria comprar alguns pra mim, e vi como eram caros. Aí, com os conhecimentos da faculdade e de diversos cursos, comecei a produzir em casa.”

A atividade virou negócio, Lerina abriu uma microempresa individual, batizou-a de Anirela (seu nome ao contrário, acrescido de um A) e hoje comercializa, além dos difusores, águas perfumadas, sabonetes artesanais, escalda-pés, sachês perfumados e lembrancinhas personalizadas para noivas, nascimento, chá de bebês, fim de ano, aniversário... Além disso, a gaúcha vem recebendo convites para feiras e outros eventos, como o 1º Craft Ideas, realizado no ano passado em Joinville.

As matérias-primas, como álcool de cereais, fragrâncias e embalagens, geralmente vêm de São Paulo; outras, como os palitos de madeira que dispersam os aromas, são encontradas em Joinville mesmo. A divulgação, além do tradicionalíssimo boca-a-boca, é feita nas redes sociais e anúncios pontuais. Para as embalagens, Lerina tem parceria com a designer Graziele Caetano. E as contas da empresa são geridas com um software de gestão financeira desenvolvido pela joinvilense Conta Azul, além do imprescindível – e gratuito – apoio do Sebrae.

Para este ano, o planejamento pessoal de Lerina Mastruian tem duas frentes: “Pretendo aproveitar todas as oportunidades de desenvolvimento proporcionadas pela empresa em que trabalho e, comercialmente, tornar a Anirela conhecida nacionalmente”. Tudo com muito perfume difuso no ar.

 

Serviço

Os produtos da Anirela Aromas e Sensações podem ser encontrados no site elo7.com.br/anirela e no Facebook anireladifusores. Contato com Lerina pelo email anireladifusores@gmail.com e pelo telefone 8857-8252.


Pé-de-Ferro, o artilheiro que deixou sua marca nos campos de Joinville e região

Aposentado, Arriola não se desligou nunca do futebol, e hoje é secretário da Associação Atlética Serrana
Rogério Souza Jr./ND
Tímido, Arriola continua de alguma forma ligado ao futebol, e só lamenta não ter um descendente também apaixonado pelo esporte para continuar escrevendo esta história de amor

 

 

Na juventude, Aloísio Arriola infernizava os beques, deixando a marca de artilheiro por onde passasse. Era, então, o Pé-de-Ferro, apelido herdado do pai Abílio, zagueiro respeitado. Hoje, aos 65 anos, aposentado, Aloísio continua ligado ao futebol, como secretário da diretoria da Associação Atlética Serrana. “Ficaram muitas boas lembranças do tempo em que jogava. Fui artilheiro por onde passei, fiz amizades e hoje acompanho tudo fora das quatro linhas”, diz, mostrando algumas fotos dos tempos de Pé-de-Ferro.

Terceiro de quatro irmãos, Aloísio mal conheceu os pais, falecidos quando ele tinha dois anos. Foi criado pelos tios, a quem sempre considerou pai e mãe. Vivendo no Bucarein, o que não faltava era lugar pra brincar e jogar bola. “Tinha um campinho onde hoje é o Operário, na rua São Paulo, nosso preferido. Também jogava nos campos do Estrela e do Santos, na avenida Cuba, de onde vi saírem craques como Correca, Piava e Fontan.” Seu pai, Abílio, ganhara o apelido Pé-de-Ferro pela determinação com que disputava as divididas, defendendo os alvinegros Caxias e Figueirense. “Quando parou de jogar, meu pai foi diretor e várias vezes técnico interino do Caxias, onde ficou 25 anos.”

Depois de fazer o primário no Colégio Rui Barbosa, Aloísio foi para o Colégio Agrícola de Araquari e, em 1968, formou-se técnico pela Escola Agrícola de Camboriú – ainda que jamais tivesse exercido qualquer função na área agrícola, como se verá a seguir.

 

 

Reprodução/ND
Em 1969, jogando pelos aspirantes do América, Pé fez o gol da vitória sobre o Caxias, na preliminar dos times principais de Gualicho e Galo, no Ernestão. Em pé, da esquerda: dr. Cassou, Cabeção (filho de Cocada), Badeco (irmão do craque da Portuguesa), Miltinho, Mauro e Djalma; agachados: Hélio, Pé, Sete, Edson, Barra Velha e Josias

 

 

Do Gualicho para o Galo

 

Foi nas peladas, pelos campinhos do Bucarein, que Aloísio angariou o prestígio que levou o Caxias a convidá-lo para os juvenis. Jogava com a 9 do Gualicho quando conseguiu o primeiro emprego, na Lepper Veículos, revendedora Volkswagen (sucedida pela Delta). Formado pela escola de datilografia de Nelson de Miranda Coutinho, foi trabalhar na área contábil-administrativa.

Ao estourar a idade no juvenil do Caxias, foi-lhe oferecido contrato no profissional. Não topou. “O Piava, o Emílio e o Mazico assinaram, mas eu não quis, pois o salário na revenda era melhor.” A essa altura, já carregando o mesmo apelido do pai, Aloísio preferiu ficar jogando pelo time da Levesa (Lepper Veículos S. A.) no campo e pelo Guarani no salão.

Foi quando surgiu um conflito familiar: “Curt Meinert, então presidente do América, me convidou para jogar lá, oferecendo um bom contrato. Quando contei em casa, meu pai, caxiense fanático, ficou uma fera e disse que eu podia arrumar a trouxa. Meu irmão Perácio acabou convencendo-o, e logo ganhei a camisa 9”.

Profissionalizado, Pé-de-Ferro ficou três anos no Galo da zona Norte. Em 1970, balançou ante nova oferta. “Fui convidado para trabalhar e jogar na Tigre.” Convite aceito, reverteu de categoria para o amador e foi para a Tigre. “A estreia – lembra – foi num festival promovido pelo Baependi, em Jaraguá. O técnico Alírio de Lima me deu a camisa 9 do titular, que era o Jura (Jurandir Moreira, sambista falecido em 2011). Fiz três gols e ganhei a posição.”

Pé disputou diversos campeonatos pela Tigre, ganhou títulos, foi artilheiro e só interrompeu a carreira em 1971, com os ligamentos do joelho estourados. “Naquela época – acentua – não havia tantos recursos como hoje. Foi um ano de sofrimento, me tratando aqui, em Curitiba, em Criciúma e até em São Paulo, com o Mário Américo, massagista da Seleção.” Recuperado, jogou até 1973 na Tigre, conquistando o tricampeonato da Primeirona. Ainda jogou um ano pelo Ferroviário de Corupá e outro pelo Botafogo de Jaraguá, até pendurar definitivamente as chuteiras, oprimido pelo joelho baleado. Não deixou um Pé-de-Ferro 3º: “Só tenho uma filha e um neto de 16 anos que não quis saber de bola”. Há oito anos, assumiu a secretaria da Serrana e também frequenta o Juventus do Iririú, onde tem muitos amigos.

 

Perfil sugerido pelo leitor Roberto Dias Borba


Elder Fiamoncini transformou um banhado em um campo de futebol em sua propriedade no Jativoca

E graças ao entusiasmo dele, que comprou a área para os pais, o bairro tem há anos um local para lazer e um time de futebol com coleção de troféus
Luciano Moraes/ND
No sítio que comprou para os pais, hoje Elder Fiamoncini abre o espaço para as brincadeiras infantis ao lado da netinha Vitória, além de cuidar pessoalmente e com muita técnica da grama do campo, sempre verdinha e sem buracos

 

 

Participante do processo que transformou o Jativoca em área urbana densamente habitada, Elder Fiamoncini desfruta de grande popularidade entre os moradores daquele lugar da zona Oeste de Joinville. Quem não conhece o Elder sabe muito pouco sobre a história da nossa comunidade, comenta-se em qualquer esquina do Jativoca.

Dono do Complexo Esportivo e Recreativo Severino Fiamoncini (o nome é uma homenagem a seu pai), Elder agradece o elogio.  “Popularidade se conquista com trabalho e com ações centradas no bem coletivo da vizinhança”, filosofa bem-humorado.

Nascido em Rio do Oeste, no Vale do Itajaí, Elder mudou-se para Joinville em 1973, estabelecendo-se no bairro Boa Vista, onde foi trabalhar na Fundição Tupy. Pouco tempo depois virou vendedor da antiga Prosdócimo para em seguida dedicar 14 anos à profissão de motorista de ônibus na Penha e posteriormente na Catarinense.

Foi nesse tempo de andanças de ônibus que Elder comprou, em 1981, uma área de 100 mil m2 no Jativoca para os seus pais. “Comprei porque na época o Jativoca era área tipicamente rural, bem ao gosto dos meus pais”, detalha.

Meses depois, transferiu-se com a família para o sítio a fim de cuidar do casal. Passados uns dois anos, Elder percebeu que algumas propriedades agrícolas estavam virando loteamentos e que a juventude local não tinha opção de lazer. Foi quando teve a ideia de aproveitar um banhado do sítio para transformá-lo em campo de futebol. Com a ajuda do então vereador Osmar Schopping, o terreno foi drenado e em alguns meses o projeto transformou-se em realidade. Ato seguinte, Elder fundou em parceria com outros moradores o Esporte Clube Recreativo Jativoca.

“A inauguração foi no dia 10 de outubro de 1983, com uma festa que é lembrada até hoje!”, conta, entre boas risadas. Apesar do estádio que surgiu de um banhado pertencer à família de Elder, o Esporte Clube Recreativo Jativoca continua jogando no local, onde entre outras conquistas levantou o bicampeonato 1999-2000 do Copão Curt Meinert.

O campo também é alugado para outros times da cidade. Em média, são de cinco a seis jogos a cada fim de semana (ao preço de R$ 120 por partida) e mesmo assim o gramado é um dos melhores de Joinville. “Fui agricultor e por isso tenho a manha para deixar o gramado sempre verde e sem buracos”, gaba-se.

Hoje, o Complexo Severino Fiamoncini é meio de sustento de Elder, que toca o empreendimento em parceria com a mulher, um filho e uma nora.  Além do campo de futebol, no local funciona um parquinho para crianças, um galpão para 200 pessoas sentadas, com estrutura de banheiros, vestiários e chuveiros para os futebolistas.

 

 

Reprodução Luciano Moraes/ND
Nos anos 80, foi fundado o time do Jativoca, que conquistou muitos prêmios na década de 90

Ações sociais

De espírito solidário, Elder abre o parque para as crianças sem cobrar ingresso. Lá também já foram realizados muitos eventos para ajudar pessoas necessitadas. “Já fizemos uma festa que garantiu dinheiro suficiente para operar as cataratas de um senhorzinho”, lembra.

De olho no crescimento do Jativoca, Elder já realizou 95% das obras de um novo campo de futebol. “Já podia estar pronto, mas há oito meses estou esperando liberação da Fundema (Fundação Municipal de Meio Ambiente)”, reclama.


Viver para servir e ensinar, a missão da jornalista e alfabetizadora Maria de Lourdes Vasconcelos

Ela criou uma biblioteca comunitária no bairro Aventureiro e também, como voluntária, dá aulas e ensina a população e ler e a falar corretamente
Luciano Moraes/ND
Na biblioteca na casa de Maria de Lourdes, 3.000 títulos à disposição da comunidade

 

Quando se fala no nome de Maria de Lourdes Pacheco Vasconcelos, a primeira coisa que vem à mente é o “Lucius’s Clube de Leitura”, uma biblioteca que ela criou há sete anos no Aventureiro para incentivar o hábito de leitura entre os moradores da região. Mas a atuação comunitária é bem mais ampla. Como uma formiguinha que leva e traz boas ações, esta jornalista paulistana de 69 anos, que passou boa parte da vida no Rio de Janeiro e há 14 anos se apaixonou por Joinville, sempre encontra uma maneira de ajudar o próximo.

Já alfabetizou adultos no bairro onde mora, recolhe doações e as encaminha para quem necessita, e este ano começou a dar aulas de arte e reforço escolar em uma escola pública da região. Sempre com um sorrisão no rosto e a certeza de que a sua missão de vida é, sim, ajudar o próximo. Seja de que forma for. “Deus fez de mim uma ponte. Eu ganho aqui e levo para lá. Vim para servir e tenho prazer nisso”, constata.

Esta doação ao outro permeou a sua vida e começou em casa. Nos anos 70, Lourdes tinha vida agitada. Trabalhou no jornal “O Dia” e “A Notícia”, do Rio de Janeiro, no governo do Estado nas duas gestões do governador Chagas Freitas, se formou na Escola Nacional de Belas Artes e cursou o Instituto de Belas Artes do Parque Lages – instituições renomadas na área. Ao mesmo tempo, junto com a mãe, criava a sobrinha pequena. Quando a irmã, doente, precisou de ajuda no início dos anos 80, ela também estava lá, pronta para cuidar.

Nos anos 90, já longe das redações e morando em Niterói (RJ), queria descansar. Mas quem disse que conseguia ficar parada? Um amigo tinha uma rede de bancas de jornais e ela foi trabalhar com ele. Um dia, um jornaleiro ficou doente e Lourdes assumiu a banca de Piratininga, na região oceânica de Niterói. Ficou dez anos, exercitou o seu jeito comunicativo, revolucionou o local e ficou conhecida em toda a região. “A banca era enorme. Coloquei vasos de plantas, fiz um mercado de figurinhas e trocava com as crianças. Tripliquei o movimento e fiquei famosa”, brinca.

 

Joinville a encantou desde que se mudou para a cidade, no ano 2000

 

Um dia, o companheiro veio trabalhar na Tupy e Lourdes veio junto. “Vim e trouxe minha mãe”, conta ela, que chegou no ano 2000, se encantou pela cidade e nem pensa em sair daqui. Para quem foi ativa a vida toda, ficar em casa era algo inimaginável. “Tenho que fazer alguma coisa”, pensou. Colocou uma placa na porta oferecendo aulas de pintura e começou a pintar camisetas, que vendia em uma loja perto de casa. Aos poucos a clientela aumentou e as aulas começaram a aparecer. Chegou a ter uma turma com 15 meninas.

O contato com a comunidade foi se estreitando, mas uma coisa chamava a atenção: a forma como as pessoas falavam, comendo os “s” ou errando a concordância dos verbos. Ao conversar com a sobrinha sobre isso, em 2005, surgiu a solução: “Ensine-as!”. Como? Ora, emprestando livros, incentivando as pessoas a ler mais. Nascia, assim, a ideia da biblioteca comunitária.

Antes dessa ideia sair do papel, porém, havia uma outra demanda. “Nessa época, dava aulas de alfabetização de adultos em casa”, conta. Diante da constatação de que aquelas pessoas, não sabiam ler, começou a lecionar em casa, tirando xerox dos próprios livros e reproduzindo os exercícios. Formou uma turma com 16 senhoras e um rapaz. Um dia, a moça que trabalhava na xerox lhe falou de um programa da Secretaria de Educação, que tinha esse objetivo. Lourdes foi lá, fez a capacitação, recebeu material de apoio e continuou seu trabalho voluntário.

A biblioteca tomou forma em 2007. A sobrinha, Lúcia, e o marido, Lúcio, por anos mantiveram um espaço cultural chamado “Além da Imaginação”, em Niterói, e enviaram caixas de livros para a nova biblioteca. O “Lucius's Clube de Leitura” (em homenagens aos dois) também recebeu doações diversas e, aos poucos, foi estruturado. Chegou a ter cerca de 4.000 títulos. Hoje, após uma boa seleção e a definição do foco, tem aproximadamente 3.000. “Agora só tem literatura. As pessoas sentam, leem ou levam para casa. As crianças vêm sempre – algumas todos os dias – e procuram os gibis”, comenta ela, que em 2011 recebeu pelo trabalho a medalha de “Mulher Cidadã Joinvilense”, concedida pela Câmara de Vereadores.  “Meu orgulho maior.”

Este ano, Lourdes começou a dar aulas de reforço escolar e artes em duas escolas públicas, integrando um programa federal. E, para o futuro, pretende manter sua diretriz de vida, ajudando a quem precisa, sem fazer muitos planos.


Motorista Allan Kardec, do Iririú, exercita a cordialidade e conquista o carinho dos passageiros

Com menos de dois meses na função de motorista de ônibus, Allan Kardec acredita na máxima que gentileza gera gentileza e vai espalhando sua simpatia por aí
Gisela Müller/ND
Estreando na profissão de motorista, Allan Kardec acaba mudando o dia dos passageiros com um discurso de não mais do que 30 segundos, onde dá as boas-vindas e informa o itinerário do ônibus

 

 

“Boa tarde! Tudo bem? Esse é o ônibus Norte Iririú/via Saguaçu, com destino ao Terminal do Iririú, com saída às 15h06 e previsão de chegada às 15h25. Sejam bem-vindos a bordo e tenham todos uma boa viagem.” Não, esta não é a fala do comandante de algum voo. É a maneira com que o motorista Allan Kardec Camargo Nogueira, 27 anos, recebe seus passageiros em cada uma das, em média, 17 viagens que faz por dia pelas ruas de Joinville desde janeiro deste ano. Com tanta cordialidade e atenção, ele logo conquistou o carinho das pessoas que usam a linha e ganhou espaço nas redes sociais quando uma passageira filmou a mensagem de boas-vindas e postou no Facebook. E de lá para cá, foram tantos comentários, fotos, vídeos, e-mails e telefonemas ao jornal sugerindo um perfil com o motorista de ônibus que faz a diferença que o ND foi conferir quem é esta pessoa tão carismática.

E Allan Kardec não decepciona. Ele é mesmo o "rei da simpatia". O nome também chama a atenção. “Minha mãe é espírita e quis homenagear um dos expoentes do espiritismo, Allan Kardec.” Católico, ele também acredita na doutrina espírita e dela retira a forma atenciosa de ser. Porém, destaca que o hábito de ser gentil com todos vem de casa e foi levado para a vida profissional. Ele trabalha desde os 16 anos, sempre lidando diretamente com pessoas.

Ainda adolescente, foi bolsista na secretaria de uma escola pública. Depois, cursou pedagogia e lecionou para o ensino médio, com alunos que tinham quase a sua idade. Um pouco mais tarde, ingressou no comércio, onde trabalhou nas principais redes varejistas da cidade e chegou a ser gerente de uma loja – sempre em contato com o público. “Cada pessoa tem suas necessidades”, explica ele, que está sempre atento a elas.

No ano passado, decidiu buscar um novo caminho profissional. O comércio já não estava tão bom e ele tinha um fascínio de infância pelos ônibus. “Quando viajava para a casa da minha avó, em Minas, ia na cabine do motorista”, recorda ele, que buscou uma vaga na Transtusa. Com seu jeito comunicativo, começou a se destacar já na fase de treinamento. “Eu ia brincando com o pessoal e no início alguns ficaram com o pé atrás. Mas depois começaram a me chamar de vereador Allan Kardec”, diverte-se, explicando que o bom humor vem do fato de estar fazendo o que queria, o que gosta.

A ideia de falar com os passageiros ocorreu no primeiro dia de trabalho, no dia 21 de janeiro. Ele explica que os terminais são divididos em plataformas com quatro ou seis ônibus em cada uma delas. Muitas vezes, o passageiro chega com pressa, preocupado, e acaba pegando o ônibus errado. “No primeiro dia, percebi esta dificuldade. Aí cheguei na catraca, cumprimentei o pessoal e passei as informações.”

As boas-vindas não duram mais que 30 segundos, e não atrasam as partidas. Mas surpreendem os passageiros que muitas vezes estão voltando para casa cansados, depois de um dia inteiro de trabalho. Algumas vezes, acrescenta mais alguns palavras, deseja boa sorte a quem está procurando emprego, bom descanso a quem já terminou sua jornada diária. “Me fiz amigo do passageiro”, constata.

As reações dos passageiros são as mais variadas. De seu banco, lá na frente, às vezes Allan Kardec ouve o burburinho das pessoas, surpresas, comentando sua atitude. Uma vez, um senhor puxou uma salva de palmas e os demais o acompanharam. O motorista custou a entender que era para ele. “Pensei: será que alguém está de aniversário? Mas aí ele disse que nunca tinha visto isso em Joinville”, recorda. De outra vez, quando chegou ao terminal foi surpreendido por uma estudante universitária que bateu em sua porta e disse: “Você iluminou o meu dia”. E já tem cliente ligando para a empresa para conferir em que horários ele estará no volante.

Feliz com o reconhecimento que vem tendo, Allan Kardec agora pretende continuar exercitando a gentileza no dia a dia e contribuindo para trazer um pouco de bem-estar a quem pega o seu ônibus.


Neto de sambista, Bola garante que o terceiro reinado de momo foi uma despedida da função

O sambista e puxador do samba-enredo da Unidos pela Diversidade vai continuar cantando e cozinhando, suas outras grandes paixões
Divulgação/Secom/ND
Leonardo dos Santos Passos, o Bola, recebendo pela terceira vez a coroa e o cetro de rei do Carnaval de Joinville, em concurso realizado no dia 22 de fevereiro

 

 

“Sou neto da Jovelina, mais conhecida como dona Nair, uma espécie de matriarca do samba do Rio de Janeiro. Com ela, eu respirei cultura desde criança, e o sangue de sambista da vovó corre nas minhas veias.” Com uma justificativa dessas, não é para menos que Leonardo dos Santos Passos tenha ostentado pela terceira vez a coroa e o manto de rei momo do Carnaval joinvilense. Bola, como é mais conhecido nos meios sambistas e gastronômicos de Joinville, demonstra em qualquer bate-papo a jovialidade e a animação características de um legítimo rei momo. Ele conquistou o tricampeonato em eleição realizada no dia 22 de fevereiro, representando a Escola de Samba Unidos pela Diversidade e comandou a folia em Joinville, além de puxar o samba-enredo de sua escola. A face carnavalesca, todos que gostam da folia conhecem. Mas, afinal, quem é o Bola nos outros meses do ano?

O gingado, o jeito de falar e quase tudo em Bola logo levam a crer tratar-se de um carioca da gema. Ainda que a origem dos Santos Passos esteja efetivamente na Cidade Maravilhosa, Leonardo é candango: “Minha avó trabalhava na cozinha do Palácio do Catete, sede do governo federal quando o Rio de Janeiro era a capital. Com a fundação de Brasília, em 1961, ela foi junto, e trabalhou até o governo Figueiredo. Meus pais, funcionários públicos, também se transferiram para o novo Distrito Federal, e foi lá que nasci, em 1975, no Hospital Santa Helena”.

Criado entre Brasília e o Rio, para onde sempre ia em períodos de férias escolares, Leonardo, caçula de cinco irmãos, ficou na capital até dar baixa no serviço militar. “Eu servi na Polícia do Exército, mas acabei fazendo o curso de cabo no BGP”, conta, ressaltando a intensa rivalidade que existia entre a PE e o Batalhão da Guarda Presidencial. “Naquele tempo – salienta – eu estava longe de ser o Bola. Era magricela. Foi depois de sair do Exército que a glândula tireoide começou a dar problemas e ganhei volume. É genético, mais dois irmãos sofrem disso.”

 

De uma visita ao irmão, a decisão de mudar-se para Joinville

 

Bola veio pela primeira vez a Joinville em 1992, visitar um irmão. Ficou seis meses, voltou a Brasília para o serviço militar, fez algumas andanças e retornou em 1999, para ficar. Trabalhou algum tempo produzindo o informativo da Igreja Universal do Reino de Deus. Foi depois trabalhar no departamento técnico do SBT, migrando para a RIC Record. Após um período em Florianópolis, retornou a Joinville, disposto a se dedicar à gastronomia, outra de suas paixões – além, claro, do samba.

A linha de produção da Cipla foi o novo local de trabalho, entremeado por bicos como cozinheiro. “Até cheguei a iniciar o curso de gastronomia no Senai, mas usei minha experiência e o que aprendi com minha avó. Cozinhei para fora, atendendo inicialmente amigos. Também passei pelo Picanha Bistrô e pelo Divino Fogão, no Garten Shopping.” Atualmente, devido a problemas de saúde, está afastado do trabalho, mas continua exercitando os dotes culinários junto ao grupo de mãe Jacila.

Torcedor da carioca Portela, Bola é fã do samba de raiz, e se orgulha de já ter cantado com Marquinhos Diniz, entre outros sambistas. Depois de defender a Escola Príncipes do Samba – pela qual foi rei momo em 2010 e 2012 –, desde o ano passado Bola desfila pela Diversidade, a escola que obteve o 2º lugar no Carnaval deste ano, quando foram retomados os desfiles competitivos. “Fui segundo intérprete em 2013, e neste ano passei a primeiro intérprete. Não tive como recusar o convite da escola para representá-la no concurso de rei momo”, diz o sambista. Mas o  tricampeão já deixa o recado: “Essa é minha última participação como rei momo. É hora de deixar espaço para gente mais nova”. Bola fica com o samba, mas só cantando – e cozinhando.


Como o garoto que vendia linguiça se tornou um empreendedor e leva o nome de Joinville pelo mundo

Marcos Alexandre Boettcher Sebben criou a Design Inverso e se dedica ao desenvolvimento de projetos dos mais sofisticados aos mais simples
Carlos Junior/ND
Marcos Alexandre Boettcher Sebben na sede de sua empresa, uma antiga marcenaria no Bom Retiro: criatividade a mil

 

 

Por que inverso? “Eu tinha vontade de questionar o mercado, de não ser apenas um provedor de serviços, mas de colocar o ser humano no centro do próprio negócio.” Essa é uma das justificativas de Marcos Alexandre Boettcher Sebben para batizar seu empreendimento, um estúdio de design industrial, de Design Inverso (invertendo até mesmo a palavra inicial no logotipo).

A própria trajetória do jovem profissional se deu numa lógica meio invertida: foi só ao entrar na faculdade que ele descobriu a vocação. “Eu não sabia mesmo o que queria. Só sabia do meu desejo de inovar”, admite. Ainda que um tanto inversa, a escolha se revelou acertada: hoje, seu estúdio é reconhecido além das fronteiras joinvilenses – e até brasileiras, o que pode ser comprovado nas dezenas de prêmios amealhados nos principais polos internacionais do design industrial.

A vida de Marcos foi uma sucessão de lições. Já começou agitando o Réveillon da família, ao escolher o dia 31 de dezembro de 1977 para vir ao mundo. Nasceu no Hospital e Maternidade Sagrada Família, em São Bento do Sul, onde a mãe trabalhava no Banco do Brasil. Mas se considera joinvilense: “Eu tinha 5 anos quando minha mãe se transferiu para a agência central de Joinville, e fui criado entre o Costa e Silva, onde meus pais moravam, e a rua Santa Catarina, na casa do opa e da oma”.

Foi lá, com os avós Boettcher, donos de um açougue tradicional a uns 250 metros do km 4, que Marcos aprendeu muito sobre empreendedorismo. “Passei boa parte da infância com eles e devo muito aos meus avós. Mais do que cuidar de mim enquanto meus pais trabalhavam, eles me ensinaram o valor do trabalho.”

Entre outras lições, Marcos lembra que a oma Dora lhe passava tarefas: “Quando eu pedia dinheiro, ela me dava um fardo de linguiças e eu ia vender pela redondeza, de bicicleta. Aí, ganhava uma comissão”. Mais tarde, estudando, defendia alguns trocados vendendo picolé.

Como gostava – e sabia bem – de desenhar, Marcos foi cursar mecânica na Escola Técnica Tupy. “Nada a ver – admite hoje, com bom humor. – Eu era ruim em matemática, e não concluí o curso, fiz só o suficiente para me formar no ensino médio.” Mas nem tudo foram espinhos “Aprendi, na ETT, como as coisas funcionam, e tirei muitas lições para a vida.”

 

“Acabei me encontrando logo que iniciei o curso.

A afinidade com o desenho e a vontade

de inovar me mostraram o rumo.”

 

Ele vendeu linguiça e carrregou sorvetes, mas a realização veio no design

Picolés – e sorvetes – voltaram a fazer parte da vida de Marcos Sebben em seu primeiro emprego, na Paviloche. Em pouco tempo, mais uma lição: “Era trabalho duro, braçal, carregando sorvete para os caminhões. Aprendi ali a importância da logística”. Depois, um estágio na Fábio Perini e o contato inicial com projetos de máquinas e equipamentos. Trabalhou com montagem e venda de computadores, até pensou em cursar ciências da computação, mas acabou optando pela recém-aberta faculdade de design gráfico na Univille. Aluno da primeira turma, viu, enfim, acender-se a luz da vocação.

Após alguns estágios em estúdio, agência e uma indústria, Marcos juntou-se a dois colegas na criação de sua própria agência, gestada na incubadora tecnológica Senai-Midiville. “Foi um processo complicado aprovar nosso plano de negócios, mas conseguimos!” No dia 25 de maio de 2001, nascia a Design Inverso, um estúdio voltado a projetos de design industrial. Marcos formou-se em 2002 e, depois de cinco anos sediado no Senai, montou o estúdio numa casa alugada.

Há pouco mais de dois anos instalou-se em sede própria, num amplo galpão (antiga marcenaria) na rua José Gerard Rolim Filho, 211, no bairro Bom Retiro. O time de profissionais se dedica à criação de formas para produtos nas áreas de transportes, eletrônicos, máquinas e equipamentos, mobiliário, acessórios, eletrodomésticos e utilidades. No variado portfólio, há desde uma prosaica embalagem de medicamento até lanchas.

Além da gestão da empresa, Sebben exercita sua arte em projetos (alguns pessoais, como uma cadeira que fica no hall de entrada), viaja o mundo em busca de inovação, profere palestras e é diretor regional da Abedesign (Associação Brasileira de Empresas de Design). Mais que os prêmios, um fato lhe dá orgulho: “Colocamos Joinville no cenário nacional do design”.


Mais que uma paixão, a dança do ventre permeia a vida de Ticiana Valle, a bailarina Adma Mirage

A cultura que vem da alma transformou a vida da farmacêutica e a impulsionou à busca do conhecimento
Gisela Müller/ND
Ticiana Alexandra Valle, a Adma Mirage, no estúdio que se tornou uma espécie de templo feminino para a dança que melhor representa a mulher

 

 

Uma paixão! Algo que vem da alma, se revela nos movimentos e extrapola os limites, impulsionando a ampliação do conhecimento e permeando os mais diversos aspectos da vida. Essa é a relação da bailarina Adma Mirage com a dança do ventre. Mais que uma manifestação artística completa em si, ela faz da prática um mergulho na cultura árabe e uma busca pelo redescobrimento do “feminino”, muitas vezes deixado de lado na correria do dia a dia.

Adma Mirage é o nome artístico de Ticiana Alexandra Valle, farmacêutica formada pela UFSC, com pós-graduação em homeopatia, especialização em farmácia de manipulação e mestrado em saúde e meio ambiente, que durante todo o dia pode ser encontrada à frente de sua farmácia, no bairro Anita Garibaldi.

A bailarina e a farmacêutica são dois lados da mesma moeda, que se complementam ainda com os papéis de mãe de quatro filhos (dois biológicos e dois de coração, que vieram com o segundo casamento), mulher, filha, dona-de-casa e integrante da diretoria da Anacã Joinville – Associação de Grupos Dança.

O gosto pela dança vem desde a infância, como ocorre com grande parte das meninas. Com nove, dez anos, mesmo sem poder fazer aulas formais, ela brincava de dançar com as amigas que faziam jazz, na hora do recreio. A brincadeira chamou a atenção da escola, que logo convocou o grupo para participar das homenagens e festas cívicas. Com a adolescência e os esforços para entrar na universidade – e depois sair -, a dança ficou de lado.

Um dia, porém, estava voltando para casa, em Florianópolis, passou em frente a uma loja que vendia fantasias e viu um traje de dança do ventre. A afinidade foi imediata. “Parei na frente da vitrine e fiquei encantada. Tinha que fazer aquela dança”. Mas era hora de se concentrar na conclusão do curso, focar na carreira.

 

“O meu grande sonho é resgatar

a dança do ventre como dança

oriental árabe, para que se quebre

o vínculo que se formou com o lado sexual.

É trazer seriedade e respeito à dança

do ventre, assim como temos com

o balé, o tango, o sapateado e o samba.”


Ticiana se formou em 1998, voltou para Joinville, começou a trabalhar. E só então pode buscar as tão sonhadas aulas de dança do ventre. “Aí, me descobri. A dança era uma identificação de alma. Não podia ficar sem ela”, revela.

A partir daí, começou a desenvolver duas vertentes: de um lado a farmacêutica, que se especializava em sua área, abria seu próprio negócio, consolidava uma carreira. De outro a bailarina, que mergulhava nos estudos práticos e nos livros, e buscava materiais importados dos Estados Unidos e, principalmente, do Egito, que possibilitassem o aperfeiçoamento.

Os dez anos seguintes foram de muitas mudanças e aprendizados. Nasceram os dois filhos e um problema de saúde em 2007 a deixou de cama por quatro meses. “Foi um ano de aprendizado. Depois disso, passei a valorizar mais os filhos, a casa, a profissão, a dança. Me deu forças”, analisa.

Forças, inclusive, para investir em sua paixão pela dança. Em 2008, foi para o Egito para participar do Festival Internacional do Cairo. Quando voltou, começou a dar aulas de dança do ventre e abriu seu estúdio – ainda que de forma modesta. “Montar esse espaço foi a realização de um sonho de infância”, comenta, brincando que o estúdio é um “templo do feminino”, pois não entra homens, só mulheres. “Dar aulas é o meu momento de pura alegria”, afirma. Mais que a dança do ventre, Adma vive uma imersão na cultura árabe. “No meu carro, só toca música árabe. Estou estudando árabe. Quero entender essa cultura, tão envolvente.”

Com tudo isso, ela ainda arruma tempo para dar sua contribuição ao fortalecimento da dança em Joinville, participando ativamente da Anacã. Além de ser tesoureira na atual gestão, participa dos eventos “Dança Joinville”, promovidos pela associação. Para Adma, Joinville é a capital da dança, mas não tem espaço para os grupos – por isso a necessidade de se unir para batalhar pelos objetivos comuns.

Para o futuro, a bailarina/professora/farmacêutica sonha com uma maior valorização da dança do ventre e a quebra de preconceitos que ainda rondam a modalidade.


Valdirene, a menina criada no Lar Abdon Batista que conquistou o posto mais alto do Carnaval

Mais do que a bela rainha da folia de 2014, título que conquistou pela terceira vez, ela é considerada a rainha da obstinação
Rogério Souza Jr./ND
Candidata da Unidos pela Universidade, Valdirene brilhou na avenida no Carnaval de Joinville

 

Era uma vez...

... uma criança nascida em berço pobre, deixada aos cuidados de um lar provisório. Adotada por uma família rica de coração, encontrou um lar acolhedor e definitivo. Sonhou, desejou, planejou, lutou e venceu. E vive feliz.

O que parece a sinopse de um conto de fadas é, na realidade, o resumo da vida de uma joinvilense chamada Valdirene Cristina. O sonho de criança, ser profissional da dança, transformou-a na Val Bernardi, bailarina, promotora de eventos e, pela terceira vez, rainha do Carnaval de Joinville. Logo no início da conversa, ela transforma o repórter em biógrafo ao alertar: “Minha história daria um livro”. Como se verá a seguir, de fato dá um livro; daqueles de contos de fadas, com provável final feliz – pois a história ainda está sendo escrita.

Valdirene nasceu em 1981, em Joinville, no seio de uma família humilde. “Fui a quinta de sete irmãos, numa casa pobre. Sem condições de proporcionar uma vida digna, meus pais me entregaram aos cuidados do Lar Abdon Batista. Foi um lugar que pude chamar, realmente, de primeiro lar.” Pela proximidade, Val iniciou a vida escolar no vizinho colégio Celso Ramos. “Eu admito que era rebelde, mas com 7 anos eu já sabia o que queria na vida.” E o que era? Primeiro, claro, um lar mais próximo do convencional; depois, ser bailarina. “Eu queria dançar!”

A primeira parte do sonho materializou-se aos 8 anos, quando Sueli Maria Bernardi, educadora a serviço da Prefeitura, decidiu adotar a menina que já havia alfabetizado. “Ela e o marido, Dante, não podiam ter filhos. Então, demonstrando a total ausência de preconceito, me adotaram.” E Valdirene Cristina ganhou o sobrenome Bernardi.

 

O segundo sonho a realizar

 

Da segunda série em diante, até concluir o ensino médio, Val foi aluna do colégio Osvaldo Aranha, no Glória. E o sonho de se dedicar à dança ficou cada vez mais recorrente. “No tempo do lar, eu já saía na ala infantil da escola de samba Unidos do Boa Vista no Carnaval. Tinha o samba nas veias. Com 11 anos, decidi que minha vida profissional seria ligada à dança.”

A materialização do sonho teve início em um curso de dança da Casa da Cultura. Não faltou drama em meio à animação. Os olhos de Val brilham ao se recordar da primeira professora, a saudosa Karin Busch. Depois, teve um professor de Curitiba, chamado Ademir, morto por uma bala perdida. “Perdi meu leme”, emociona-se. Mas, daquele tempo, o principal foi a paixão que Valdirene logo sentiu pelo jazz. “Foi amor mesmo, eu adorava dançar jazz!”

Certo dia, convidada por uma amiga, foi até a Fenachopp assistir a uma apresentação de dança de alunos do Grupo Paiee (Programa de Apoio e Incentivo ao Esporte Educacional), criado pela ex-bailarina Fabíola Bernardes. “Gostei muito e logo entrei no grupo. Depois fui para a Comdança, também da Fabíola, a pessoa que me lapidou.” Dali para a frente, muito trabalho: “Participei de várias edições do Festival de Dança com a Fabíola, com quem fiquei até 2001, e também dei aulas no Paiee. Quando a Comdança acabou, fui para a Andança e, desde 2005, estou no grupo do bailarino e coreógrafo Fernando Lima.”

Em 2006, Valdirene formou-se em educação física pela Univille. Já integrou, como bailarina, várias bandas, e atualmente está no Portal do Som. Também trabalha com eventos, promovendo performances de samba em casamentos e ensinando coreografias para noivos (contato pelo 9635-9893).

O reinado de Val Bernardi no Carnaval começou em 2008, representando a Liga; dois anos depois, nova vitória, pelo bloco Manda Brasa. Em 2012, não participou, mas a vitória veio de outra forma: “Nasceu minha filha, Maria Luiza”. Agora, em 2014, Val aceitou o convite da Unidos pela Diversidade. E não deu outra: tricampeã (sempre tendo como rei momo o amigo Leonardo Santos – veja o perfil do “Bola” na edição de amanhã).

Uma continuação feliz para a menina pobre que se tornou rainha da obstinação.


Ah! Se os fuscas do Serjô falassem...

Colecionador dispensa às suas miniaturas de carros a dedicação de uma criança
Gisela Müller/ND
Serjô se dedica ao hobby há seis anos e tornou-se um aficcionado por miniaturas. O New Beetle azul, de plástico, motivou a coleção que não para de crescer

 

 

Nenhum das dezenas de Fuscas da coleção de Serjo Renato Passos Lisboa, o Serjô, fala. Em compensação, há outros carros que roncam e aceleram igual a um bólido de verdade. Há viaturas com sirene e até um “rádio-player-automóvel” que sintoniza AM e FM, tem entrada USB e um poder de som suficiente para animar uma festa. “Comecei a colecionar automóveis há pouco tempo, mas virou febre. Não consigo passar direto por uma vitrine que tenha modelos expostos, e cuido de cada um deles como se fosse único”, diz o colecionador – sob o olhar conformado da companheira Sirlei, que admite: “Primeiro perdi uma estante, agora foi a sala inteira. Pelo menos ele cuida sozinho dos carros”.

Na então pequena cidade de Pelotas, onde nasceu há 62 anos, os carrinhos de brinquedo de Serjô eram iguais aos de qualquer criança. “Éramos quatro irmãos, meus pais não tinham condições de dar presentes sofisticados. Então, ganhávamos no Natal ou no aniversário algum carrinho de plástico. Junto com a gurizada, improvisávamos brinquedos com a sucata disponível.”

A condição modesta da família obrigou Serjô (“Meu nome era pra ser Sérgio, mas a escrivã errou ao preencher a certidão de nascimento”, explica) a pegar no batente muito cedo. Com 11 anos já trabalhava num escritório de contabilidade, mesmo emprego onde teve o primeiro registro formal em carteira, aos 19. Na juventude, as brincadeiras de criança foram substituídas pela presença constante no estádio Bento Freitas, torcendo pelo Grêmio Esportivo Brasil – paixão ainda mantida à distância, dividida com o JEC e o Flamengo.

Aos 20 anos, descobriu a vocação de vendedor. “Comecei na antiga Ibraco, sem experiência alguma, mas me saí bem, tanto que logo assumi a chefia. Depois, pela Imcosul, então uma das maiores redes gaúchas de lojas de eletrodomésticos, implantei filiais em Cachoeira do Sul, Tubarão, Criciúma e Florianópolis.”

Em 1983, a Imcosul inaugurou uma loja em Joinville, na rua 9 de Março, e lá estava Serjô à frente. “O prefeito Wittich Freitag cortou a fita. Em 1986, quando a Imcosul fechou, fui trabalhar na Lojas Freitag.”

Depois disso, Serjô ainda passou por outras redes e, há dez anos, está no departamento comercial da Fibrasca, fabricante de travesseiros, sediada em Pirabeiraba.

 

Até mesmo um exemplar em madeira, esculpido por um amigo que sabe da paixão dele por fuscas foi incorporado à coleção

 

O primeiro Fusca a gente nunca esquece

 

Serjô nem cogitava ser um colecionador quando certo dia um filho lhe mostrou uma lembrança que viera na cesta de fim de ano da Milium, onde trabalhava: era um modelo em plástico, azul, do New Beetle, o sucessor do Fusca. “O carrinho me despertou interesse e tomei posse na hora! Isso foi há seis anos, e marcou o início da minha obsessão por miniaturas”, conta.

No início, o alvo se concentrava nos Fuscas: “Comecei a comprar tudo que via de miniatura. Aí, os amigos passaram a me presentear com outros modelos e a variedade aumentou”.

Há algum tempo, a coleção ganhou um incremento, quando Serjô descobriu na Casa das Revistas da avenida Getúlio Vargas, ponto de parada entre Pirabeiraba e o Petrópolis, onde reside, a coleção “Carros Inesquecíveis do Brasil”, lançada pela Editora Altaya. São fascículos mensais, cada um abordando um modelo e trazendo uma réplica. Atualmente, 40 miniaturas vão se empilhando na prateleira. “A previsão era lançar 50 fascículos, mas a editora já avisou que vai estender até 75, e não me surpreendo se chegar a 100.” Além de contar com seu exemplar sempre reservado pelo amigo Rogério na banca, Serjô se atualiza pelo site da editora. Os modelos nacionais já estão ganhando concorrência de outra coleção, formada somente por Ferraris. Também há frotas de Kombis, bólidos estrangeiros e até um precioso Fusca esculpido em madeira por um amigo.

Cuidados com a coleção não faltam: com exceção da coleção “Carros Inesquecíveis”, acondicionada em caixinhas plásticas, todos os demais são limpos diariamente, meticulosamente. “Só eu posso fazer isso”, adianta o colecionador.


Desde criança, Mariza Santos da Silva Vazquez sabia que seu caminho passaria pela escola

"O magistério é a minha vida", se emociona a professora no dia de sua aposentadoria. Agora, ela quer se dedicar à música

“Mesmo após 35 anos de carreira e aposentada como coordenadora, sempre vou me considerar professora. O magistério é minha vida.” A declaração resume o sentimento de Mariza Santos da Silva Vazquez, professora durante a maior parte da carreira em Araquari, onde nasceu, e aposentada desde o dia 5 de fevereiro. No dia do adeus, em homenagem feita por colegas e pela Secretaria de Educação do município, ela deixou claro o sentimento de dever cumprido. “A partir de agora – disse, durante o evento – vou me dedicar à segunda paixão, que é a música. Já comprei um cavaco e vou cantar e tocar muito.”

 

 

Fabrício Porto/ND
Aposentada, Mariza visita a Escola Municipal Rosalvo Fernandes, em Araquari, uma das últimas em que deu aulas

 

 

Primogênita de três filhos, Mariza nasceu em 1957: “A parteira Justina foi quem me trouxe ao mundo, na casa do meu bisavô, ali onde hoje é a secretaria da Paróquia Senhor Bom Jesus”. Desde pequena, Mariza tinha o sonho de ser professora. Marca genética não faltava: “Minha mãe, Zaida, era alfabetizadora. Trabalhou no Grupo Escolar Almirante Boiteux e dava aulas particulares em casa, na cozinha”. Ao lado da mãe, a futura mestra já aprendia alguns segredos da profissão.Mariza fez o ensino fundamental – na época primário e ginásio – no mesmo colégio Almirante Boiteux, mas não foi aluna da mãe. “Minha professora, no primário, foi a irmã Edite, de quem tenho lembranças muito carinhosas. Uma das matérias de que eu mais gostava era música. Pena que foi retirada do currículo”, lamenta.Terminado o ginásio, Mariza passou a fazer a ponte rodoviária com Joinville, cursando o segundo grau (atual ensino médio) no Colégio Celso Ramos. Já a partir do segundo ano, ingressou no preparatório ao magistério, certa da vocação e da carreira a seguir. Antes mesmo de concluir a formação, aos 17 anos estreava em sala de aula.“Foi um grande desafio, lembro até hoje do frio na barriga ao passar para a frente da sala, com a turma toda olhando pra mim. Assumi como professora, em período de experiência, na Escola Isolada Corveta. As classes eram multisseriadas, ou seja, com crianças de várias séries na mesma sala. Além de dar aulas, eu era cozinheira e também fui coordenadora.” 

 

“Após 35 anos de magistério,

parafraseando Guimarães Rosa,

‘...eu quase nada sei,

desconfio de algumas coisas’.”


Amor pela profissão 

No pequeno colégio da Corveta, Mariza demonstrou o amor pela profissão. “Eu ia de manhã para o Celso Ramos e à tarde, de ônibus, até a escola. A volta para casa era a pé!”, recorda. Da Corveta, assumiu uma vaga na Escola Municipal Lacy Luiza da Cruz Flores, no Itinga, em Joinville, onde ficou nove anos. Formou-se em pedagogia pela ACE, em 1980, e foi dar aulas nos colégios Barão de Antonina e Gustavo Friedrich, em Mafra, chegando ao posto de supervisora.Do Planalto Norte, além de mais experiência (enriquecida com três pós-graduações), Mariza trouxe uma aliança na mão esquerda. “Nós nos conhecemos no prédio em que morávamos, e nos casamos no dia 31 de julho de 1988”, detalha o marido, o uruguaio José Vazquez (hoje professor de espanhol e presidente do Corpo de Bombeiros Voluntários de Araquari).

Da união nasceram Bárbara, há 23 anos, e Vítor, 21 (com deficiência mental, Vítor levou a mãe a dedicar boa parte da carreira ao ensino para crianças com dificuldade de aprendizagem). Mas mesmo com deficiência, Vítor mantém atenção constante à entrevista, até mesmo relembrando a mãe de algum detalhe.De volta a Araquari, Mariza deu aulas na Apae de Joinville, na Escola Municipal Amaro Coelho e da Rosalvo Fernandes, de sua cidade, dividindo a sala com a supervisão. Os últimos cinco anos foram dedicados à coordenação pedagógica, na Secretaria da Educação.

Agora, como adiantou no dia da homenagem, Mariza quer dedicar mais tempo à música e ao terno de reis que fundou no colégio Amaro Coelho. Mas ainda sobra tempo para matar a saudade do magistério. “Minhas colegas vivem me ligando para pedir consultoria.”


As mãos de ouro de Traudi, a bordadeira e tricoteira

Ela começou a carreira aos 12 anos e vem se especializando ao longo dos anos, por isso, nem pensa em parar
Fabrício Porto/ND
Traudi tem uma rotina incansável: produz peças para decoração e roupas, sem nem mesmo precisar tirar as medidas

 

 

Quando tinha apenas cinco anos, a pequena Traudi gostava de “ajudar” a mãe, Helga, a fazer tricô. “Meu irmão mais velho ia brincar na rua. Pra mim, restava ficar dentro de casa. Eu gostava muito de ver minha mãe tricotando e ficava desenrolando o fio, brincava com as agulhas. Minha mãe me ensinou a tricotar e nunca mais parei.”

Hoje, aos 63 anos, Edeltraud Wiener Mühlhausen é considerada “mãos de ouro” pela imensa clientela que fez na cidade – e até no exterior. Considera-se tricoteira profissional há 42 anos e bordadeira há 22. Em sua casa, numa tranquila rua do bairro América, há peças encomendadas, como roupas tricotadas, entre tapeçarias, cortinas, bandôs, panos de prato, toalhas... “Todos os meus dias são tomados pelo trabalho. Começo de manhã e só paro à noite, e já tenho encomendas para o ano todo”, diz a artista.

Só há um período em que as mãos trocam as agulhas e fios por xícaras, talheres e quitutes: as tardes de terça são reservadas para o café com as amigas, um autêntico “stammtisch”, sempre na casa dela. Durante estes encontros, as amigas também decidem para quem doar muitas das peças elaboradas pelo grupo.

“Nasci em dia de eleição, 3 de outubro de 1950. Minha mãe votou na Maternidade Darcy Vargas”, brinca Traudi, que passou a infância no Glória e a adolescência no Floresta. “Fiz só o ensino fundamental, e lembro-me da professora Nilsa, da pequena escola do Glória onde fiz o primário. Precisei começar a trabalhar cedo, e a vida me deu a faculdade.”

De fato, tudo foi precoce na vida de Traudi: aos 12 anos iniciava no primeiro emprego, na Fábrica de Massas Steuernagel (fechada em 1986); alguns meses depois foi para o balcão da Chapelaria Moderna (de Estanislau Woiski). Foi nessa época que vendeu sua primeira peça tricotada: “Até então, só fazia roupinhas e xales para minhas bonecas, até que tricotei uma peça sob encomenda para o dono de uma relojoaria que havia em frente à Catedral”.

 

Depois da oração, é hora de se dedicar ao trabalho

 

Traudi trabalhou na chapelaria até se casar com Ivo Mühlhausen, em 1967. “Nós nos conhecemos na matinê do Cine Palácio”, lembram, quase simultaneamente. A união gerou os filhos Ivan, 45 anos, e Elise, 43 (pastora da Igreja Quadrangular, que toda a família frequenta); os netos são quatro, entre eles Guilherme, que no time de basquete de Joinville era o pivô “Tanque”.

Depois de casada, Traudi ainda trabalhou um tempo no Magazine Zanella, até se decidir pelo tricô. “As encomendas cresciam, exigindo cada vez mais tempo. Minha filha tinha um ano quando adotei o tricô como profissão.” Vinte anos depois, Traudi incluiu no trabalho o bordado – que aprendeu sozinha.

“Meu dia sempre começa com uma oração, pois sem Deus ficamos sozinhos. Aí, começo a trabalhar.” O trabalho, porém, sempre tem um tempo reservado para a produção familiar, desde peças de decoração (o tema do momento é a Páscoa) até roupas para a família (como o elaborado casaco tricotado para a neta que vai para o Canadá). Na produção de vestuário, Traudi dispensa moldes e não precisa tirar as medidas das pessoas. “Só de olhar já sei qual é o tamanho”, garante, com a experiência de já ter sido manequim de moda na juventude.

As nove frequentadoras dos cafés terça-feirinos também praticam alguma arte manual (duas foram alunas de bordado da anfitriã). As peças executadas durante os encontros são sempre destinadas a doações para pessoas carentes, de preferência idosas.

Ainda que tenha seguido outra profissão, a filha Elise também leva nas veias o sangue de artista, dom comprovado nas belas tapeçarias enfeitando as paredes da casa dos pais. “Esse é um trabalho que precisa ser feito com amor”, conclui Traudi.

 

Serviço

Para conhecer o trabalho de Traudi – e encomendar peças – é só ligar para 3422-4626, em qualquer horário.


Susana Vargas usa a pintura em tecido na decoração dos vestidos das rainhas das festas de região

Com muita criatividade, ela mantém a tradição, aliando-a com os bordados, em busca de mais beleza e leveza
Rogério Souza Jr./ND
Susana realiza na atividade todos os sonhos de menina, quando dava vazão à criatividade pintando os objetos da casa

 

A artesã Susana Vargas brinca com as tintas desde menina. Mas há cerca de seis anos, resolveu levar suas técnicas e pincéis para uma nova “tela”: os vestidos das rainhas das festas típicas da região. Antes confeccionados em tecidos encorpados e bordados à mão, eles ganharam leveza e um colorido especial com os ramos de flores - e ficaram mais acessíveis às jovens que sonham em participar de concursos e festas das sociedades regionais. Com isto, ela dá sua contribuição para que a tradição seja mantida, e, ao mesmo tempo, renovada.

Susana conta que a mãe já pintava panos de prato e ela, com cinco anos, queria pintar também. Um dia, ganhou um cachorrinho de louça, que a cada dia ganhava uma nova cor. “Foi verde, azul... pintava com guache, lavava e pintava de novo”, comenta ela, que aos nove anos fez o primeiro curso de pintura em tecido. “E me deixaram pintar de verdade”, brinca.

Em 1991, aos 14 anos, um fato marcou definitivamente a sua vida: foi eleita a Rainha da Festa do Colono, da Sociedade Rio da Prata. Na época, não tinha vestido para alugar, como ocorre hoje. O jeito foi buscar a ajuda de uma costureira para fazer o traje sob medida e depois levá-lo a São Bento do Sul, para ser bordado à mão. De veludo preto e ornamentado com flores bordadas, o vestido era lindo, mas pesado, quente - e caro. “Ainda bem que era julho”, lembra ela, que ainda conserva o traje.

A partir daí, Susana não se desligou mais da Sociedade Rio da Prata. Hoje, participa do grupo de Atiradores e coordena o concurso da Festa do Colono, um dos pontos altos do tradicional evento. Além disso, é secretária do Sindicato Rural, atua nos grupos de Desenvolvimento da Mulher Rural e é presidente do grupo da Casa Krüger, que reúne cerca de dez mulheres da área rural que comercializam seus produtos. Neste caso, os vestidos são deixados de lado e entram em cena panos de prato, caminhos de mesa, camisetas e enxovais para bebês.

Unir à pintura aos trajes das rainhas e princesas é algo mais recente. Há anos Susana conhece Carmen Gehrmann, referência na confecção deste tipo de vestimenta. Mas só há cerca de seis anos é que a pintura começou a dividir espaço com os bordados.

A adoção da técnica trouxe mudanças às roupas. Para começar, os tecidos já não precisavam mais ser tão encorpados – ganharam leveza e ficaram mais frescos. O tempo de confecção diminuiu. Um vestido pode levar até três meses para ser bordado. Para ser pintado, até duas semanas. “Ficou mais acessível”, garante a artesã, que faz de quatro ou cinco vestidos novos por ano, principalmente para a Festa do Colono e para a Festa da Colheita, da Sociedade Dona Francisca. A quantidade pequena de novos vestidos tem uma explicação: embora o uso seja maior, a maioria das meninas prefere alugar os trajes.

As pinturas também podem ser observadas na Festa das Flores, que a contrata para ornamentar os vestidos. “As rainhas das Festas das Flores têm dois jogos: um pintado e um bordado”, conta, revelando as que as faixas da “realeza” já usam o recurso da pintura há mais tempo.

Para ela, mais que uma atividade profissional, ornamentar os vestidos é um grande prazer e uma forma de contribuir para a realização dos sonhos de muitas jovens “É uma realização ver eles 'dançando'. As meninas curtem e a gente também”, revela.

Para o futuro, a meta é continuar envolvida nas atividades do Sindicato Rural, onde é responsável pela divulgação e organização de diversos cursos de profissionalização. Um deles, em parceria com a Fundação 25 de Julho, ocorrerá em 5 de março na Sociedade Rio da Prata e será uma feira de produtos coloniais e artesanais, todos produzidos na área rural de Joinville. “Posso dizer que estou mais focada em incentivar e divulgar esse tipo de trabalho... Ajudar mais pessoas a se profissionalizar e gerar renda através de suas possibilidades aqui mesmo na nossa região”, afirma.


Jules Soto concretiza no Museu Oceanográfico da Univali de Piçarras sua fixação pela vida marinha

Colecionador nato desde que catou a primeira conchinha à beira-mar, ele é um dedicado pesquisador que agora vê seu sonho tomando forma
Rogério Souza Jr./ND

 

Jules Soto encontrou no trabalho a extensão o que a princípio era um hobby e agora prepara o que anuncia que será o maior acervo da América Latina sobre vida marinha

 

Quando Jules Marcelo Rosa Soto juntou na areia sua primeira peça de coleção, uma singela conchinha, tinha apenas 5 anos. Ali, naquele gesto de guardar a concha, nascia um museólogo hoje respeitado no país. “Eu guardava tudo que me despertasse interesse. Aos 12 anos, minha mãe me deu um ultimato: ou me desfazia das coleções, ou arrumava outro lugar para acondicioná-las. Doei tudo para museus.”

Tudo? “Menos os espécimes marinhos, pois eu tinha uma verdadeira fixação pela vida marinha.” Tal paixão está prestes a se transformar na realização de um sonho, quando for inaugurado, ainda neste ano, o Museu Oceanográfico Univali, ocupando os quatro pavimentos do prédio da Universidade do Vale do Itajaí em seu campus de Balneário Piçarras. “Será o maior museu do gênero na América Latina!”, orgulha-se.

Aos 43 anos, esse gaúcho de Caxias do Sul vem pautando a vida em torno das coleções. “Eu me criei em Porto Alegre, e foi lá que encontrei a primeira concha”, conta, mostrando a relíquia ainda preservada. “Rato de museu” assumido, desde a adolescência Soto se dedicava à leitura e ao aprofundamento dos conhecimentos sobre a vida marinha. “Mesmo durante o ensino médio, eu convivia muito com alunos de pós-graduação e era frequentador assíduo do Museu Anchieta, em Porto Alegre. Admirava o trabalho dos cientistas Carlos de Paula Couto e Jeter Bertoletti” (Couto, 1910/1982, foi um dos maiores paleontólogos do país; Jeter Jorge Bertoletti é biólogo e museologista, fundador e diretor do Museu de Ciências e Tecnologia da PUC-RS).

Quando recebeu o tal ultimato da mãe, aos 12 anos, aproximou-se ainda mais do Museu Oceanográfico de Porto Alegre. Como sua coleção só crescia, viu a necessidade de criar uma ONG. Assim, em 1987 surgiu o CBCLIN (Centro de Estudos Biológicos Costeiros Liminológicos e Marinhos).

 

União com a Univali

Foi também em 1987 que Jules Soto iniciou suas andanças, primeiramente passando dois anos no Parque Nacional de Fernando de Noronha, onde se formou mergulhador. Iniciou a faculdade de biologia em 1990, na PUC gaúcha, logo abandonada devido aos deslocamentos. Em busca de uma universidade para tutelar seu acervo, viu opções no Paraná, no Ceará e no Rio Grande do Sul.

Acabou optando por uma quarta via, quando descobriu o recém-instalado curso de oceanografia da Univali, em Itajaí. “Foi como juntar a fome com a vontade de comer”, diz, contando que passou em primeiro lugar no concurso da instituição (quando era uma fundação municipal). Começou o trabalho em 1993, logo acomodando seu já valiosíssimo acervo da vida marinha. Seis anos depois, enfim, formou-se... mas em geografia.

Desde que chegou à Univali, Soto não parou de trabalhar no Museu Oceanográfico. Em princípio, funcionando como apoio para a faculdade de oceanografia, a ideia de transformá-lo em museu aberto ao público veio em 2002, com a abertura do campus de Piçarras. Em 2008 começou, efetivamente, a transformação do prédio em sede do museu.

Naturalmente, ele foi nomeado curador e passou a ocupar uma sala no térreo. Num passeio pelas salas ainda em fase de acabamento, é fácil constatar o orgulho do colecionador, que traz nos olhos o brilho intenso da satisfação ao ver o sonho realizado. E não é só o Museu Oceanográfico: em Piçarras mesmo, no Centro Cultural, logo na entrada da cidade, está outra das coleções de Jules, com objetos referentes a Copas do Mundo.

“Sou torcedor de sofá mesmo, prefiro ver jogos no conforto de casa”, admite, declarando-se colorado; também tem simpatia pelo itajaiense Clube Náutico Marcílio Dias – até porque mora ao lado do estádio Dr. Hercílio Luz. Também é curador do Ecomuseu de Porto Belo e do Museu Naval de Bombinhas e colaborador do Museu da Marinha Imperial de Florianópolis, que tem inauguração prevista para 2015. Coleciona obras de arte, selos (parte do acervo está no Museu Oceanográfico), livros... Como sempre fez, desde a primeira conchinha.


Uma bocha (e um bailinho) lá no Braz, o bar que é ponto de encontro na Estrada do Forte

Local já se tornou uma referência. Além da bocha e da sinuca, lá pode-se encontrar até um disco club estilo anos 70

A rotina de muitos moradores de Ubatuba, Itaguaçu, Capri e praia do Forte, assim como de veranistas, inclui uma passadinha no Braz Bar, seja para uma partida de bocha ou dominó, seja só pra tomar um aperitivo, saboreando uns petiscos e jogando conversa fora. Verdadeiro “senadinho”, o estabelecimento já é um ponto de referência na estrada do Forte. “Aqui se juntam pessoas da região e grupos de amigos de São Chico e de Joinville. O ambiente é familiar. Conheço a freguesia há muito tempo. Agora, então, durante a temporada, o movimento é maior ainda”, comemora o dono, Genésio Henrique Braz, que toca o bar com a ajuda do filho Murilo, 25 anos.

 

 

Rogério Souza Jr./ND
O descontraído Braz rodou pelo país até encontrar, há 20 anos, sua verdadeira vocação

 

Antes de abrir o bar, Braz se dedicou a várias atividades. Nascido há 64 anos em Joinville, penúltimo de meia dúzia de irmãos, criou-se nas imediações da rua Guarapuava, no Floresta. “Meu pai veio de Ilhota, minha mãe de Itajaí, e acabaram se casando em Joinville”, conta Braz, que fez carreira escolar no Colégio Dom Pio de Freitas. “Quem me marcou muito foi a professora Ladi Coelho”, relembra.

Ainda adolescente, começou a ajudar o pai, dono de uma empreiteira de calçamentos. “Meu pai calçou a avenida Getúlio Vargas e os pátios de empresas como Tupy, Consul e Embraco. E eu ajudei.”

Na juventude, bom de bola, jogou pelo time do Ferroviário Mirim, que tinha campo nas imediações da estação. “Joguei com Parucker, Emílio e Alceuzinho, entre outros que acabaram fazendo carreira nos campos. Mas parei cedo, devido a uma espécie de reumatismo. Fiquei oito meses com o tronco engessado, até que o doutor Duda descobriu o problema e me curou”, conta, referindo-se ao médico Karl Duda, que fez fama durante os muitos anos em que trabalhou no Hospital São Luís, em Campo Alegre.

Em busca de futuro profissional, Braz formou-se mecânico ajustador pelo Senai, mas nem começou a atuar profissionalmente. “Em 1982, me mudei para São Paulo e fui vender calçados e roupas nas ruas do centro antigo.” Doze anos depois, casado, descasado e pai de um par de filhos, retornou a Joinville.

 

O Braz Bar

 

Ainda dedicado ao comércio, Braz tornou-se viajante. Casou-se novamente há 26 anos, com Maria, e teve mais dois filhos, o já citado Murilo e o caçula Manoel, 13. Do primeiro casamento, tem um neto.

Há 20 anos, cansado de contar quilômetros pelas estradas, Braz comprou um bar na estrada do Forte, um quilômetro antes da praia que circunda a instalação militar. Construiu a casa nos fundos, aumentou o bar, fez cancha de bocha, colocou seu nome na fachada e encontrou-se com sua verdadeira vocação. “Aqui me sinto realizado. Faço o que gosto, tenho uma família maravilhosa, sou amigo dos clientes e ainda me divirto.”

Durante a temporada, o bar abre todos os dias (fora do verão, folga às segundas) às 9h30 e não fecha enquanto tiver freguês. “Mesmo que só tenha um, só fecho quando fica vazio. Todo cliente merece respeito”, garante. Ali costumam se encontrar, às terças e sextas, os 26 componentes do Grupo de Bocha de Ubatuba – do qual Braz faz parte. “Tem gente daqui, de São Francisco e de Joinville. Tudo é rachado entre o grupo, menos em dia de aniversário, quando o aniversariante paga a despesa. Também promovemos viagens com a família pelo menos uma vez por ano.”

Não faltam atrativos para quem prefere outros tipos de diversão. Frequentemente, Braz promove bailes e encontros. Para os bailões dos anos 70, seus preferidos, transforma o ambiente num típico disco club, com direito a músicas da época, jogos de luzes e até o imprescindível globo giratório. Agora, a decoração é carnavalesca, à espera do primeiro “grito de Carnaval”.


O Maceiozinho cresceu, mas mantém suas raízes em São Francisco do Sul

José Ferreira do Nascimento, da família de múltiplos Maceiós, se divide entre a sua Mocidade da Água Branca, o trabalho no porto e o futebol

“Comecei a sair no Carnaval com 12 anos, no bloco Dengosos da Água Branca. Aos 18, estava entre os fundadores da Mocidade, com o Nininho e o Ernesto. E estou até hoje!” O pequeno resumo mostra o envolvimento de José Ferreira do Nascimento, o Maceió, com o samba e o Carnaval. A poucos dias da folia, o sambista tem pouco tempo de folga, dividido entre o trabalho no Porto de São Francisco do Sul e os preparativos para o desfile, no dia 2 de março.

"Precisamos nos preparar, o desfile sai de qualquer jeito”, garante Maceió, que guarda parte dos adereços da Mocidade Independente da Água Branca num pequeno galpão em sua própria casa, na mesma rua em que nasceu e foi criado.

 

 

Rogério Souza Jr./ND
Ali, no mesmo endereço onde nasceu e se criou, ele também cultivou sua família e um casamento de 42 anos: raízes trazidas pelo seu Aristides

 

 

“Nasci na casa dos meus pais, aqui na esquina, e depois construí a minha ao lado”, conta o mais novo dos quatro filhos homens – também há quatro mulheres – de Aristides do Nascimento, o primeiro Maceió da família.

“Meu pai – explica – era natural de Maceió mesmo. Como eu vivia ao lado dele, me chamavam de Maceiozinho, que acabou virando Maceió, assim como meu irmão Joel” (ex-cronista esportivo).

Maceiozinho também teve sua passagem pelo futebol: “Com 12 anos, eu comecei no Atlético. Era meia-esquerda bom de bola”, admite, convicto do talento. Alguns anos depois, chegou a treinar no joinvilense Caxias e no curitibano Ferroviário, mas preferiu seguir amador no Atlético: “A essa altura, como estivador eu ganhava bem mais do que me ofereceram nos clubes. Naquele tempo, jogador de futebol não recebia as fortunas de hoje”. Atualmente, além de torcer pelo Vasco (“Meu filho foi àquele jogo da pancadaria na Arena, e ainda levou meu neto; na hora da porrada, caiu fora”), Maceió é o treinador do time master do Atlético (também já foi presidente do clube).

Se o Maceió pai foi trabalhador marítimo, o filho preferiu ficar em terra. “Fui marcador de madeira, trabalhei na antiga Sucam, fiquei na estiva durante 35 anos, e há seis trabalho no porto.” Durante 15 anos, Maceió presidiu o Sindicato dos Estivadores. “Comandei diversas paralisações e conseguimos muitos benefícios para a classe.”

Também teve uma passagem pela política: “Fui presidente do diretório do PMDB. Cheguei a ser candidato a vereador, mas desisti no meio da campanha. E mesmo nem eu mesmo votando em mim, consegui uns 300 votos”.

 

Inspiração na Mocidade de Padre Miguel

 

Quando a escola de samba foi fundada, em 1966, a escolha de nome teve um motivo: “Sempre fui admirador da Mocidade Independente de Padre Miguel, do Rio, por isso batizamos nossa escola também de Mocidade. Foi a primeira escola de samba de São Francisco do Sul”.

Maceió se considera um pé-quente. “Estive no Rio assistindo ao desfile em 1996, justamente quando a Mocidade foi campeã pela última vez.” Já com relação à congênere francisquense, espera mais sorte: “No ano passado, perdemos para a Imperadores por três décimos de ponto”. Neste ano, espera superar. A Mocidade vai para a avenida com o enredo “Forró da Paraíba”.

Casado há 42 anos com Ana Maria, Maceió tem quatro filhos e sete netos. “Dois netos, o João Vitor e o Leonardo, já saem na escola”, orgulha-se o vovô-coruja.

Desses anos como sambista-carnavalesco, Maceió guarda boas recordações. Algumas prosaicas: “Quando morreu o Bichinho, presidente da escola, no velório rolou um couro (batucada, pagode) durante a madrugada toda, até o enterro. O que se dizia era que mais um malandro tinha abotoado o paletó”.

 


Daniele Haak sabe tocar vários instrumentos, mas encontrou no piano a sua verdadeira paixão

Agenda cheia e muita disposição para popularizar sua arte fazem parte da vida da dinâmica artista

Fabrício Porto/ND
Vinda de uma família musical, Daniele aprendeu flauta doce, teclado, violino, acordeon, órgão, mas o piano tem a preferência

A música entrou na vida de Daniele Haak bem cedo. Aos quatro anos, o pai, também músico, a levou para fazer aulas de flauta doce no Conservatório de Vany Knoll. A partir daí, não parou mais. Estudou teclado, violino e, na adolescência, se dedicou de vez ao piano, seu principal instrumento. Hoje, aos 26 anos, Daniele também toca acordeon e órgão, participa de pelo menos três grupos musicais e está na linha de frente dos “Domingos Musicais”, na Casa da Memória, além de ser vice-presidente da Comunidade da Igreja da Paz. E, ao som do piano e com um sorriso franco no rosto, encanta com sua música.

O amor pelo piano não foi imediato. Com as aulas de flauta doce, ela foi construindo uma base sólida para o aprendizado da linguagem musical e partiu para o novo instrumento. Tinha sete anos, achou as teclas pesadas e não se adaptou de imediato. “Desisti do piano”, recorda.

Mas não da música. Procurou outros instrumentos e interessou-se pelo violino. Mas ainda não era o que queria. “Fiquei um ano e não gostei. Não me dedicava.” Então, começou a estudar teclado. Logo sentiu as limitações do instrumento e não quis mais. Começou a alternar aulas de teclado com de piano, até que, aos 13 anos, migrou definitivamente para o seu companheiro de hoje. “Comecei firme no piano, com escola clássica, aos 13 anos.” Estudou piano avançado na Casa da Cultura por dois anos, mas não chegou a pegar diploma. Atualmente, toca mais o popular que o erudito, ajustando o repertório das apresentações ao que as pessoas querem ouvir.

O pai, o bandoneonista Germano Haak, a incentivava a seguir em frente, a estudar, a se dedicar. “Ele perguntava: 'Já estudou hoje? Pelo menos uma hora?'”, recorda ela, que hoje perde a noção do tempo quando está com o instrumento. “Tem dias que não consigo tocar. Mas nos fins de semana, ou à noite, eu me perco”, revela.

 

“É tão bom ser livre

para tocar o quiser.”


Daniele tem uma agenda cheia. Integra o “Festmusik”,grupo  focado em música alemã; o “Instrumental da Paz”, com repertório dirigido às celebrações da Igreja Luterana; coordena o grupo “Cantores do Espírito Santo, na Catedral Diocesana; e é diretora de Eventos da Sociedade Cultural Alemã de Joinville, onde organiza os “Domingos Musicais”. Toca em eventos, casamentos e festas e ainda dá aulas de música à noite.

Apesar de hoje viver da música, para o futuro ela tem outros planos. Em 2014, forma-se em direito e pretende atuar na área. Atualmente, faz estágio no Ministério Público Federal, com o procurador Davy Lincoln Rocha. “Me identifico com as duas áreas. O direito é muito bonito e não achei que iria gostar tanto”, destaca.

A música vai continuar a fazer parte de sua vida. Mas de uma outra forma, com foco na área social. “É a música com um fim social. Como um meio”, explica ela, que toca em lares de idosos há anos e no ano passado realizou o projeto “Musicando nos Centros de Educação Infantil”, patrocinado pelo Simdec, da Fundação Cultural de Joinville, que levou música a crianças de até quatro anos, da rede pública de ensino. No projeto, três músicos fizeram apresentações de 40 minutos para um público que, na maioria dos casos, estava tendo o primeiro contato com este tipo de música e descobrindo os instrumentos musicais – inclusive podendo colocar a mão neles. “Quem convive com música desde pequeno não faz ideia de que tem muita gente que não a conhece”, constata ela, que pretende continuar com a iniciativa em 2014, e sonha com um ensino de música qualificado para a criançada no futuro. “A escola tem que se preocupar em formar ouvintes. O ensino de música é mais individualizado”, defende.

E o piano? Este, é claro, vai continuar sempre na pauta do dia.


Casal abre mão do conforto da aposentadoria para criar abrigo para dependentes em São Francisco

Na Comunidade Divina Misericórdia, eles transformaram seus sonhos em realidade e oferecem um lugar para recomeçar

Acordar com o canto de galo, o alarido da passarada, marrecos, porcos... Passar o dia na lida, alimentando a bicharada, cortando grama, levantando um galpão, separando material reciclável... À noite, um bate-papo, comidinha caseira e o sossego de uma boa noite de sono. Cenário típico de uma fazenda? Quase. Esse é o dia-a-dia da meia centena de internos da Comunidade Terapêutica Abrigo Divina Misericórdia, em São Francisco do Sul.

 

 

Fabrício Porto/ND
Eduardo e Maria Lúcia no abrigo onde procuram, com muita disciplina e oração, transformar a vida de dependentes de drogas lícitas e ilícitas

 

 

Ali se busca desintoxicação e recuperação de dependência química – drogas e álcool. “Sentimos que Deus nos deu uma missão, de restaurar vidas. Deixamos para trás uma vida confortável e nos entregamos à tarefa, aplicando terapia, disciplina e oração”, diz Maria Lúcia de Freitas, fundadora do abrigo com o marido Eduardo Luís do Rosário.

Foi a religião que aproximou o casal, há quase 40 anos, durante um encontro de jovens. Eduardo, o Dado, nasceu em Garuva, em 1956, e criou-se entre Joinville, onde se formou técnico mecânico pela ETT, e São Francisco. Lúcia é francisquense, tem um ano a menos que o marido e concluiu os estudos no Colégio Técnico Joinvilense. Seu pai, Luís Carlos de Freitas, foi presidente da Associação de Aposentados e Pensionistas de Joinville.

No casamento, há 38 anos, o que não faltava era cunhado. “Tenho sete irmãos, e o Dado, seis. Quem nos casou foi o padre Carmo, no Sagrado”, conta Lúcia (com duas passagens pelo Santuário Sagrado Coração de Jesus, hoje dom Carmo João Rhoden é bispo de Taubaté/SP).

O casal passou por Joinville, São Bento e São Paulo, por causa do trabalho de Eduardo, antes de se estabelecer definitivamente em São Francisco e se dedicar ao comércio. “Administramos o Restaurante Popular, na área portuária, durante 25 anos”, informa Dado.

 

Do albergue ao abrigo

 

O casal ia bem com o restaurante, tinha dois filhos e uma vida confortável. Tudo começou a mudar quando se envolveram com a gestão de um albergue, no bairro Acaraí. “Era – lembra Lúcia – para ser uma casa de passagem, mas muitos espertinhos se aproveitavam e não saíam mais, especialmente quem frequentava o ‘Rabo Azedo’. Foi quando o padre Everton (na época pároco de São Francisco) decidiu fechar o albergue e nos lançou o desafio de criar um abrigo.”

Dado e Lúcia toparam a empreitada: venderam restaurante e casa e adquiriram um amplo terreno na rua do Cemitério, no bairro Saí, com cerca de 2 mil metros quadrados – parte deles uma reserva indígena. “Era para ser um hotel-fazenda, mas estava abandonado. Fizemos muitas melhorias. Levantamos construções e transformamos neste abrigo”, reforça a tesoureira da ONG (o marido é o presidente). No próximo dia 25 de maio, a Comunidade comemora a primeira década de missão.

Para se manter e crescer, o abrigo conta com recursos do próprio casal, de uma verba mensal da Prefeitura, doações da Receita Federal oriundas da Feira da Partilha, venda de material reciclável e ofertas particulares; também se beneficia de isenções fiscais, por ser entidade de utilidade pública municipal e estadual. Nada é cobrado das pessoas internadas – apenas homens adultos. Além do casal e do filho Carlos Eduardo, 30 anos (outra filha, Luciane, de 37, mora em Osasco), trabalham no abrigo duas psicólogas e uma assistente social. Está em construção um ambulatório para atendimento médico e odontológico.

Com capacidade para 60 internos, a comunidade está com 51 no momento. Todos são envolvidos nas atividades diárias, e ficam o tempo necessário – geralmente um ano – para se livrar totalmente do vício. Há quem permaneça além disso, como Antonio Lauri Rosa, há sete anos morando ali, hoje como voluntário.

 

Serviço

A Comunidade Terapêutica Abrigo Divina Misericórdia fica na rua do Cemitério, bairro Saí (perto do acesso à praia do Ervino, na BR-280).

Telefone: 3442-5393

Email: abrigodivinamisericordia@hotmail.com

Site: www.abrigodivinamisericordia.com

 

Perfil sugerido pela leitora Maria Marlene Klein Rossi


Ana Gern resgata conhecimentos do passado e dá a eles uma roupagem contemporânea

Seu projeto “Chão Amado”, inspirado nos “tipitis” usados nos engenhos de mandioca, ficou entre os três melhores do 3º Paraty Eco Fashion, mostra com designers do país todo
Fabrício Porto/ND
Mergulhada em formas, cores e texturas proporcionados pelo crochê, Ana faz uma releitura de peças antigas em seu trabalho

 

 

Houve um tempo em que as moças bordavam a mão seus enxovais, as senhoras faziam crochê com as amigas para enfeitar a casa, e os alimentos que chegavam à mesa, como a farinha, eram produzidos em engenhos familiares na área rural. Estes conhecimentos, aos poucos, foram sendo deixados de lado e substituídos por outros, no nosso dia a dia. Mas ainda há quem busque nessas antigas práticas uma inspiração.

A joinvilense Ana Gern resgata esses antigos saberes e os recria com uma roupagem contemporânea e colorida. Une o presente e o passado em peças únicas, artesanais, repletas de histórias e significados. Um trabalho que começou há seis anos e que já é reconhecido no País: no fim do ano passado seu projeto “Chão Amado”, inspirado nas formas dos “tipitis” usados nos engenhos de mandioca, ficou entre os três melhores do 3º Paraty Eco Fashion, uma mostra que reuniu designers do país todo.

Joinvilense, ela desde pequena cultivou o gosto pela arte e aprendeu a valorizar a história.

Filha da artista plástica Cláudia Gern e de Raul Gern, um engenheiro agrônomo fascinado por antiguidades e que ao longo da vida montou variadas coleções, Ana cresceu em uma casa onde conservar os objetos, reaproveitá-los ou dar uma nova utilidade era rotina.

Estes conceitos foram sendo interiorizados pela menina e hoje se traduzem em sua arte, que tem dois fortes pilares: a história e a sustentabilidade. “É mostrar que essas histórias ainda existem e precisam ser conhecidas, valorizadas e preservadas”, explica ela, que até se formou em psicologia e atuou na área durante 13 anos antes de decidir largar tudo e se dedicar às suas criações. “Fui para a psicologia, porque não via na arte uma possibilidade profissional, mas ela não me realizava”, conta.

Em 2005, decidiu que era hora de apostar no que realmente gostava. Incentivada pelo marido e com a parceria da mãe, que já “crochetava” e a introduziu no mundo das agulhas, Ana Gern montou tempos depois uma coleção com colares que mesclavam bordados e crochê.

Buscar aprimoramento foi uma consequência natural. Ana fez pós-graduação em criação e gestão de moda na Univali e descobriu que suas peças eram autorais e mereciam uma assinatura. Em 2009, surgia a primeira coleção com a marca Ana Gern – artesanal, sustentável, repleta de significados: “Jardim do Amor” era dedicada à mãe, falecida pouco tempo antes.

Depois dos colares vieram almofadas, pufes, cestos, objetos de decoração... O crochê ganhou cores novas, vibrantes, e passou a ser tecido com tiras de malha que sobram das indústrias têxteis. Reaproveitar é uma das palavras-chave e Ana hoje conta com o apoio da RVB Malhas, de Brusque, que doa as tiras de malha, e da Doehler, em Joinville, que doa as sobras de tecidos usados em testes para a base dos pufes. “É uma forma de fazer um trabalho sustentável”, explica.

 

Bordados e “tipitis” : novos ares para antigos saberes


Resgatar e preservar os antigos saberes são outras marcas do trabalho de Ana Gern. Nessa busca, ela já coordenou o livreto “Entrelaçando Histórias”, realizado pela Sociedade Cultural Alemã de Joinville, com apoio da Lei de Incentivo à Cultura, ao Turismo e ao Esporte, de Santa Catarina, que procurava recuperar a expressão cultural do bordado, por meio de sua história e as suas técnicas. Depois dele, realizou o projeto “Retratando Joinville”, que teve a proposta de desenvolver uma coleção de panos de prato, tendo como referência os tradicionais “Wandschoner” e a Estação da Memória de Joinville.

E em 2012, abriu os “baús” do Museu da Imigração, com o projeto “Desvelando Histórias – pesquisa exploratória sobre o bordado em Joinville a partir do acervo do Museu Nacional de Imigração e Colonização”, viabilizado pelo Simdec, da Fundação Cultural de Joinville.

Atualmente, Ana Gern pesquisa os “tipitis”, antigos cestos feitos de taquara trançada e usados nos engenhos de mandioca da região. Recriados em crochê com fitas de malha, eles foram inspiração para a coleção premiada no 3º Paraty Eco Fashion e agora a designer-artesã pretende resgatar a técnica de traçagem, praticamente esquecida. “A proposta é resgatar isso, documentar e fazer uma releitura nas peças”, afirma, sempre mantendo o foco nos conceitos de conhecer, preservar e dar novos usos, novos olhares.

 

Para conhecer um pouco mais das criações de Ana Gern, é só entrar no Facebook e buscar “Ana Gern Acessórios”:

https://www.facebook.com/pages/Ana-Gern-Acess%C3%B3rios/178196288944965?ref=br_rs.


Depois de mais de 20 anos atuando em comércio exterior, Cláudia Merkle ousou mudar de vida

Ela hoje ganha a vida de uma forma muito doce: tornou-se uma verdadeira artesã do açúcar, confeccionando delícias
Rogério Souza Jr./ND
Cláudia uniu o talento que vem de família com o conhecimento técnico e descobriu uma nova carreira, em meio às delícias da gastronomia

 

 

Quem nunca olhou pela janela do escritório e, em meio às tensões da vida corporativa, sonhou em abrir seu próprio negócio, ganhar a vida com algo que lhe dê muito prazer, ser senhor de seu próprio tempo? Formada em direito e em comércio exterior, com pós-graduação em logística empresarial, a joinvilense Cláudia Merkle há quase quatro anos deixou para trás a segurança ilusória da carteira assinada e está dando forma a esse desejo. Acreditou em um talento que vem de família, investiu em cursos de aperfeiçoamento e entrou de vez na cozinha, para se dedicar a uma nova atividade: a confeitaria artesanal.

Os doces fazem parte de sua trajetória há muito tempo. No início dos anos 90, com 23 anos e recém-formada em administração, já trabalhava na área de comércio exterior, mas decidiu abrir uma casa de chá no bairro Bom Retiro. Com a cara e a coragem, mas com poucos recursos, comprou cinco quilos de farinha de trigo, três quilos de açúcar, se uniu à mãe e ao noivo, contratou uma confeiteira e abriu o estabelecimento. Trabalhava durante o dia em sua área e à noite e aos fins de semana na casa de chá, de segunda a segunda, sem dia para descansar.

Foram cinco anos de atividades, até que a falta de capital de giro colocou um ponto final no empreendimento. Foi um golpe duro, difícil de absorver. “Encaixotar a louça foi como encaixotar um sonho, um projeto de vida. Naquele dia pensei: 'nunca mais vou trabalhar com isso'”.

Naquela época, os doces ficavam a cargo de mãe, Erika Merkle, e de uma profissional  contratada. Um dia, porém, a confeiteira faltou. Apesar de ter crescido cercada pela mãe, as tias e a avó - todas cozinheiras de mão-cheia -, Cláudia não costumava fazer doces. “Minha mãe falava: ‘sai da cozinha que você não tem jeito para isso'. Mas a confeiteira nos deixou na mão e tive que fazer. Foi um exercício de superação”, lembra. O resultado foi surpreendente e ela descobriu um novo talento. “Vi como a Cláudia era prendada e tive que fechar a boca. Ela tinha um dom. Em um instante, fazia coisas muito melhores que eu”, conta Erika, a mãe.

 

"Aprendi a ter equilíbrio entre trabalho e a vida social.

Posso pegar a filha na escola e ir ao cinema à tarde,

fazer coisas que o trabalhador não faz na semana,

e sacrificar o sábado para dar conta de tudo.

Posso fazer meus horários."


O retorno à confeitaria começou com um revés. Em 2010, depois de anos em uma empresa, Cláudia foi demitida. Era recém-formada em direito, mas já tinha certeza de que não queria atuar na área. Era hora de repensar a vida, a carreira, o futuro. Um dia, pediu que a mãe lhe ensinasse a fazer strudel. Uma prima provou, adorou, e perguntou por que ela não vendia. E ela, que havia jurado nunca mais trabalhar na área, pensou na possibilidade. Nessa época, conheceu o Espaço Solidário, do Consulado da Mulher, e começou a participar. “Foi um teste para saber se era isso mesmo que eu queria.”

A experiência a agradou e ela decidiu investir em formação profissionalizante. Fez um curso técnico de um ano e meio no Senac e recentemente participou de um intensivo em São Paulo, na escola de Diego Lozano, um expoente da confeitaria nacional. E abriu a Fuxico Doce, apostando na Confeitaria Artesanal, onde tudo é feito à mão, sem produção em série, pela própria doceira/artesã.

Fácil não é. Ela sentiu de perto o preconceito e teve de rever os próprios conceitos. Um dia, um ex-frequentador de sua casa a viu de touca e avental no Espaço Solidário e fingiu que não a conhecia. Outros amigos ou parentes tentam levá-la para um emprego formal novamente. “A vida está me ensinando a ter paciência”, constata ela, que tem rotina pesada: trabalha de nove a 12 horas por dia, em pé na bancada, com forno quente por perto.

Mas os ganhos são muitos – alguns difíceis de mensurar. “O cansaço físico, uma noite bem dormida resolve. Aprendi a ter equilíbrio entre trabalho e a vida social. Posso pegar a filha na escola e ir ao cinema à tarde, fazer coisas que o trabalhador não faz na semana, e sacrificar o sábado para dar conta de tudo. Posso fazer meus horários”, revela, destacando que para essa nova forma de trabalhar e viver, a disciplina é fundamental.

Se esse é o final da história? Ainda não. “Não tem que ser para sempre. É enquanto ficar bem”, afirma.

 

Contato: https://www.facebook.com/pages/Fuxico-Doce. Telefone: 3422-6662


Socióloga descobre nas charges uma forma de estimular crianças e adolescentes a ver o mundo

Maria Rosa de Miranda Coutinho lança livro com uma linguagem simples, apostando também nas linhas leves das ilustrações
Fabrício Porto/ND
Maria Rosa com seu último livro “Minhas Charges – Aos chatos com bom humor”, uma abertura para crianças e adolescentes observarem o mundo e refletirem de forma mais crítica

 

 

O traço simples e o texto amigável não foram escolhidos por acaso pela socióloga Maria Rosa de Miranda Coutinho. Ao fazer uma das charges que integram seu último livro “Minhas Charges – Aos chatos com bom humor” ou na hora de escrever uma das várias histórias que já conquistaram prêmios ou figuram em antologias como as da Confraria do Escritor, ela usa uma linguagem fácil para chegar perto de seus jovens leitores – e, com isso, levar crianças e adolescentes a refletirem de forma crítica sobre a realidade em que vivem.

O olhar incisivo sobre o mundo levou esta joinvilense bem cedo para a Faculdade de Ciências Sociais da UFSC – e de lá para o mestrado na UFSCar (SP). Foi a campo estudar sobre os índios Guaranis que vivem na Grande Florianópolis, observando a cultura, o dia a dia, a forma como eles vivenciavam a própria identidade nos grandes centros. Sentiu de perto, porém, a aridez do discurso acadêmico que prima pela consistência, mas se distancia do público. “Queria trabalhar de forma mais literária, mais solta”, explica ela, que chegou a lecionar em universidades e ainda hoje, aos 33 anos, compartilha seus conhecimentos com os alunos do ensino médio.

Em 2007, conheceu um grupo de escritores de Joinville, que formaria a Confraria das Letras. Mais, que isso, percebeu que podia, sim, enveredar por um outro caminho para alcançar seus objetivos. “Achei que podia transformar o meu conhecimento social em literatura, com uma escrita mais leve”, lembra.

Dois anos depois, em 2009 se deparou com um concurso de contos infanto-juvenis dirigido a escritores de  países do Mercosul. O tema era uma festividade importante em seu país e Maria Rosa decidiu enfocar o Carnaval brasileiro sob uma ótica social. Criou a história de um menino carioca, morador do morro da Mangueira, que convivia diariamente com todas as mazelas que ficam ofuscadas pelo brilho das fantasias nos quatro dias da festa popular: pobreza, marginalidade, violência, falta de acesso aos serviços básicos... No desfile, entretanto, o menino era visto, sentia-se grande, sentia-se rei. Mas passado o Carnaval, voltava para o seu dia a dia de invisibilidade – as mesmas pessoas que o aplaudiam na passarela não o enxergavam na vida real.

Conquistou o prêmio, junto com dois outros escritores latino-americanos e viu o seu primeiro livro “O Dia de Carnaval” ser publicado em uma edição bilíngue que consta na Biblioteca Municipal Rolf Colin e pode ser lida pelos joinvilenses.

Junto com a publicação do livro ganhou ânimo para continuar escrevendo. E não parou mais. Hoje já tem mais três títulos publicados na internet, um caminho para novos autores exporem seus trabalhos: “A Bola e o Vento”, “Gracejos - Contos e Causos” e “Na real – Poesia e Sociedade”. E participou de duas edições das coletâneas da Confraria dos Escritores.

 

Um traço, um desenho, uma história

Um dia, o desenho entrou em sua vida. Embora tenha alimentado a imaginação com gibis e desenhos animados durante toda a infância, desenhar era algo fora de seu universo. Bem fora. Na verdade, achava que desenhava muito mal e não se aventurava além das imagens conhecidas. Mas sempre havia se encantado pelas charges, que unem a crítica ao bom-humor e chegam diretamente ao leitor.

De traço em traço, sem técnica específica ou muitas pretensões,  surgiu “Minhas Charges – Aos chatos com bum-humor”, lançado no final do ano passado. Uma forma simples de levar temas como preconceito, ditadura e paz a crianças e adolescentes. O que vem sendo feito na divulgação do livro, diretamente pela autora nas escolas públicas e particulares de Joinville.

Para quem começou no meio acadêmico, transita pelas salas de aula, escreve e desenha, buscar uma definição não é tarefa simples. “Sou uma educadora literária”, resume Maria Rosa, que em 2014  já promete uma nova criação: as ilustrações do livro da escritora Rita de Cássia Alves, “Sem pressa, vamos à Biblioteca?”, que conta com o patrocínio do Simdec.

 

Para saber mais sobre os livros:

Acesse https://clubedeautores.com.br e faça uma busca pelo nome de Maria Rosa de Miranda Coutinho


Aos 95 anos, Alice Hillbrecht é um capítulo vivo da história de Corupá e Balneário Piçarras

A determinação e os múltiplos talentos moldaram uma mulher forte, que ainda hoje diz que cuida dos filhos, dos netos, dos bisnetos, dos trinetos...
Rogério Souza Jr./ND
Alice no aconchego de seu lar, em Balneário Piçarras, onde se dedica ao crochê e mantém a pele boa, à base de pomada Minancora, como faz questão de frisar

 

 

Alice Hillbrecht nasceu em Joinville, mas grande parte de seus 95 anos de vida foram passados em outros municípios da região, em especial Corupá e Balneário Piçarras. É no balneário, onde mora há mais de três décadas, na mesma casa numa tranquila rua que desemboca na praia das Palmeiras, que dona Alice volta os olhos ao passado e garante: “Trabalhei muito na vida, não devo nada a ninguém e até hoje cuido dos meus filhos”. Ao seu lado, Otto e Ingrid concordam (ele mudou-se de Joinville para Piçarras há cinco anos; ela mora com a mãe).

O nome Otto, por sinal, é uma característica dos Hillbrecht, desde o pioneiro Otto August Herbert, fundador de Hansa Humboldt. O imigrante alemão chegou, com o filho Otto Carl Wilhelm, em 7 de julho de 1897 à região, batizada em homenagem ao naturalista alemão Alexandre von Humboldt.

Os Hillbrecht haviam desembarcado em São Francisco, e subiram pelo rio Itapocu, único acesso até 1900. Desembarcaram na confluência dos rios Humboldt e Novo, seguiram por um picadão, hoje a avenida Getúlio Vargas, até o galpão dos imigrantes, onde foram recebidos pelo agrimensor Eduard Krisch. O galpão não passava de um rancho feito de troncos, tendo cobertura de folhas de palmito. O nome do município mudou para Corupá em 1944, na época da Segunda Guerra Mundial (mais detalhes da história podem ser conferidos no site www.corupa.sc.gov.br).

Seguiu-se Otto Richard e o último dos Ottos, antecedido pelo nome Ingbert. Ele conta uma peculiaridade: “Na juventude, quando precisava preencher alguma ficha, começava pelo meu nome, Ingbert Otto Hillbrecht; local de trabalho: Hansen; endereço: rua Gothard Kaesemodel. Era um tal de soletrar que não acabava mais”.

 

Reprodução/Rogério Souza Jr./ND
Alice ficou viúva muito jovem, mas não quis casar novamente, decidiu arregaçar as mangas, inovar, trabalhar e cuidar da família

 

Lojista, administradora, atriz, corretora...

 

Alice, da família Wunderlich, nasceu a 13 de outubro de 1918. Primogênita de quatro filhos, estudou no Colégio dos Santos Anjos. Trabalhou na Malharia Arp, onde o pai era gerente financeiro, e depois foi caixa na empresa de Carl Hoepke. Artista nata, foi atriz de teatro e violinista (“Puxei esse dom da minha avó”, diz uma das três netas, Henriette, perfil no dia 9 passado).

Quando se casou com Otto Richard Hillbrecht, foi morar em Corupá, onde trabalhou na loja do sogro, Otto Carl Wilhelm, aprendendo as manhas da escrituração. Demonstrando a memória ainda afiada, define sem tropeçar: “Escrituração mercantil é a arte de escriturar metodicamente as contas do comércio”. Foi correspondente bancária e abriu a primeira agência da Caixa Econômica Federal em Corupá. Mais tarde, sua experiência foi valiosa quando se tornou administradora do Hospital Jaraguá.

Da união com Otto Richard, falecido em 1957, teve os filhos Otto e Ingrid, três netos, três bisnetos e outra trinca de trinetos. “Depois que meu marido morreu, não quis saber mais de me casar, e me dediquei a cuidar dos filhos. E ainda cuido!”, garante.

Há 35 anos, Alice resolveu se fixar em Piçarras, na rua Tainha, onde a sua foi a primeira casa. Foi corretora imobiliária. “Trabalhei muitos anos vendendo casas. Ia a todos os lugares com meu Fusca 73, e testemunhei o crescimento da cidade.”

Com boa saúde, apenas a audição deficiente é o que mais atrapalha dona Alice, que mantém a expansividade e o bom-humor – ainda que às vezes se empolgue e desande a falar em alemão. Sua principal distração é o crochê, que resulta em coloridas filigranas em panos de prato. Em parte, a boa saúde tem explicação no saco plástico cheio de remédios, que ela pega de baixo da mesa e vai enumerando, até chegar à inconfundível latinha laranja e fazer uma propaganda: “Mantenho a pele boa assim, passando pomada Minancora todos os dias”.


Educadora musical Marilia Scheffer consolida carreira iniciada na infância, quando tocava lira

A paixão que começou na fanfarra na Banda Municipal de Campo Alegre agora é repassada para seus alunos
Rogério Souza Jr./ND
Marília aprendeu piano na famosa Escola de Música Donaldo Ritzmann, de São Bento do Sul e agora prepara para grande concerto para marcar os 60 anos da instituição

 

 

“No tempo de colégio, eu tocava lira na fanfarra e flauta-doce na Banda Municipal de Campo Alegre. Uma das atividades da banda era ficarmos escondidos quando os turistas iam visitar a cascata, e surgíamos de surpresa, tocando.” Encantar os visitantes do principal ponto turístico da cidade era só uma das atribuições de Marília Scheffer, uma profissional dedicada à música praticamente desde que teve idade para trabalhar. Hoje, aos 31 anos, é pianista, soprano, coralista, professora, maestrina e, acima de tudo, uma amante da música.

Filha da também artista Nédia Scheffer, professora de educação artística em escolas e na Fundação Educacional de Campo Alegre, a Fecampo, Marília teve aulas de teatro com a mãe. “Minha formação escolar foi feita em São Bento, e foi lá que comecei a me interessar seriamente pela música, influenciada em grande parte por meu irmão, Rafael, aluno de piano da professora Córdula Maria do Valle”, conta Marília.

Da lira de fanfarra (instrumento de percussão, uma espécie de vibrafone), passou para a flauta-doce na Bamuca (Banda Musical de Campo Alegre), aquela que aparecia de surpresa encantando os turistas que visitavam a cascata.

Foi também em São Bento que Marília aprendeu piano, na famosa Escola de Música Donaldo Ritzmann. “No início – admite a hoje consagrada musicista – eu pensei em desistir, assim que passou a empolgação da coisa nova. Comportamento típico de criança que logo quer trocar de brinquedo. Mas os meus pais insistiram, até que fui pegando gosto e percebi que meu caminho era mesmo pela música.”

 

Musicista profissional formada na Embap

 

Já decidida a tornar a música seu modo de vida, Marília concluiu o ensino médio e foi pensar em faculdade. A mais próxima era a Embap (Escola de Música e Belas Artes do Paraná), em Curitiba, e lá foi ela em busca da realização do sonho.

Ainda durante o curso, no ano 2000, Marília enfim debutava como musicista profissional, ensinando piano e teoria musical na Escola de Música e Artes Lourdes Tascheck, em São Bento, e dando aulas particulares em Campo Alegre.

Bacharelada em piano em 2003, assumiu também o ensino de técnica vocal na Escola Donaldo Ritzmann. “Até então eu era contratada, mas em 2012 passei a ser concursada”, acrescenta (a escola integra a Fundação Cultural de São Bento do Sul). Na escola, ela também coordena o Grupo Camerata.

Marília fez curso de canto erudito com a soprano Josiane Dal Pozzo Zuliani, em Curitiba, e participou de vários workshops e cursos, como o Encontro Anual da ABEM (Associação Brasileira de Educação Musical), em Minas Gerais, durante o curso de Música, Movimento e Comunicação, com a professora canadense Joan Russel, em 2005, e o 2º Encontro de Inverno da Associação Brasileira de Professores de Piano, em 2001.
Em sua cidade-natal, é maestrina dos corais infanto-juvenil e adulto. Numa sala anexa ao cartório, dá aulas de musicalização infantil (crianças de 2 a 5 anos), piano, flauta-doce e técnica vocal. “Tenho 45 alunos, e há mais três professores, pois sobra pouco tempo para as aulas particulares”, argumenta, citando ainda a direção de peças teatrais encenadas pelos alunos, contextualizando a música na arte e no cenário cultural.

Em 2010, ela dirigiu o espetáculo "Brasil - O Fio da Música", orientando alunos de técnica vocal e instrumentos na interpretação de peças da música erudita e popular brasileira. No ano seguinte, atuou como solista cantando o tango “Frente al Mar”, sob regência da maestrina Denise Mohr, com a Orquestra de Câmara de São Bento do Sul e Coral da Escola Donaldo Ritzmann, durante o concerto "Uma Noite em Buenos Aires" em São Bento do Sul. No ano passado, atuou como soprano no musical “Musica Dall’Italia”, em São Bento (a peça teve como “artista convidado” o filho de Marília, Estevão, 9 anos, cantor e instrumentista).

Para 2014, duas metas se destacam: “Quero me dedicar mais ao violino e à preparação do concerto de aniversário da Escola Donaldo Ritzmann” (a instituição comemora 60 anos em março).

 

PERFIL SUGERIDO POR MARICLER VIRMOND


Rolf Müller só guarda boas lembranças dos ofícios de artesão e de bombeiro em Joinville

Entre a arte e o fogo, aos 82 anos ele mantém com orgulho as recordações das vidas que salvou com seu trabalho, junto às belas peças de artesanato que confeccionou
Luciano Moraes/ND
Müller com a tradicional machadinha: testemunha da dedicação aos bombeiros e ao voluntariado. Atrás, a réplica de navio que construiu

 

Hoje, as mãos de Rolf Benno Müller já demonstram o peso dos 82 bem-vividos anos. Mas elas já produziram muita coisa boa, como pode ser comprovado na casa que ele construiu há mais de meio século, na ainda tranquila rua Rezende, no bairro Bom Retiro, em Joinville, rua que ele viu crescer à sua volta. “Daqui, antes de ter esses prédios, dava pra ver boa parte do bairro. Tinha só algumas casas em meio à mata”, diz o latoeiro e bombeiro aposentado, apontando o panorama que se descortina dos fundos de sua oficina, hoje silenciosa.

No local onde trabalhou durante tantos anos, assim como na casa onde mora sozinho desde a morte da mulher, Irmgard, há pouco mais de um ano, o visitante pode ver uma amostra do que as mãos de Müller já produziram: embarcações detalhadamente reproduzidas em metal e belas pinturas nas paredes são o resultado de sua arte; medalhas, fotografias e duas machadinhas testemunham a dedicação de 45 anos ao Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville. Atualmente presidindo o Conselho da Equipe Tradição, ele brinca: “Nas reuniões, sou o que mais falo. Digo ‘boa-noite’ no início e ‘até a próxima’ no fim”.

Amante de literatura sobre embarcações, aviões e fatos da 2ª Guerra Mundial, Rolf Müller viu sua vida mudar devido ao conflito. Natural de Hansa Humboldt (atual município de Corupá), ele estava com a família em um hotel de Florianópolis, em 1939, prestes a embarcar rumo à Alemanha, de onde viera o pai. “A família – conta – ia se mudar para a Alemanha. Nossa bagagem já estava a bordo do navio ‘Monte Olívia’, quando a guerra tomou a Europa e todos os embarques foram cancelados. O jeito foi pegar as malas de volta e retornar a Jaraguá, onde morávamos na época.”

 

No fim da guerra, uma vida nova em Joinville

 

Em fevereiro de 1945, três meses antes do fim da 2ª Guerra, os Müller experimentaram nova mudança, se estabelecendo em Joinville, onde o pai de Rolf conseguira um emprego, na Usina Metalúrgica Joinville, quando a empresa funcionava perto do Mercado Público. “Morávamos no alto da rua Visconde de Mauá, e ali fiquei amigo do Romeu Dressel, de quem éramos vizinhos. Brincávamos muito nos pastos e campinhos, onde hoje é o bairro América. Na rua Araranguá, no lugar onde começou a Consul, não passava nem carroça”, lembra Rolf, que mantém até hoje a amizade com Romeu Ernesto Dressel (também da Equipe Tradição, Perfil em 29/8/13).

Aos 14 anos, Rolf virou colega do pai, Jorge, na Usina Metalúrgica. “Poucos anos depois, meu pai montou uma funilaria e fui trabalhar com ele. Fabricávamos peças de latão e ferro, como canecas, baldes e outros utensílios domésticos.” Foi nessa época que Rolf desenvolveu a habilidade artesanal, começando a construir os barcos (um deles, um imenso navio de passageiros do início do século passado, já esteve exposto no Hotel Colon).

Em 1968, outra habilidade artística levou Rolf Müller a envergar a farda dos bombeiros: “Entrei na banda dos bombeiros, como trombonista. Fiquei até acabar a banda, em 1974, e aí passei para a brigada”. Como os demais veteranos, Müller logo se recorda do período mais complicado, dos incêndios criminosos que assolaram a cidade em meados dos anos 70: “Naquele tempo, praticamente não dava pra tirar a farda, era estado de prontidão permanente. Fui obrigado a comprar um telefone, pois já não dava mais para ouvir a sirene tocando no quartel”.

A última vez em que Müller entrou em ação foi em dezembro de 2007, quando um incêndio destruiu um depósito de fumo no Distrito Industrial. “O telhado caiu, e precisávamos entrar quase rastejando pra apagar o fogo”, lembra.


Os pioneirismos e as conquistas de Therezinha Foitte em sua Campo Alegre

Neta de prefeito, ela foi a primeira vereadora do município e a primeira mulher a presidir uma Câmara no Estado
Rogério Souza Jr./ND
Therezinha Foitte na sala de casa, com as tapeçarias com que passa o tempo, entre as boas lembranças da vida política e comunitária

 

 

Em poucos minutos de conversa, percebe-se uma característica em Therezinha Souza Freitas Foitte: é uma pessoa que ama profundamente sua cidade-natal, Campo Alegre. Primeira vereadora do município e também, segundo os registros, a primeira mulher a presidir uma Câmara em Santa Catarina, Therezinha é uma realizadora. “Hoje, a idade pesa, já não dá mais para dedicar tanto tempo às atividades comunitárias. Mas tenho orgulho de tudo que fiz e do legado que ficou”, diz ela, que, aos 77 anos (faz 78 no Dia Internacional da Mulher, 8 de março) ainda se destaca nos jogos da terceira idade, ostentando o título de campeã microrregional na canastra, título conquistado em abril do ano passado, em Mafra, com a parceira Marli Cubas. No momento, Therezinha aguarda com ansiedade a cirurgia de catarata, que fará em breve – o que lhe permitirá, além de ver melhor as cartas, voltar às tapeçarias, outro de seus passatempos.

Therezinha nasceu em Faxinal, interior do município, onde a família tinha uma pequena fazenda. Caçula de oito irmãos, mal chegou a conhecer os pais: “Minha mãe morreu quando eu tinha só dois meses e meu pai, quando eu tinha 3 anos. Como os avós não tinham condições de criar tantos netos, fomos adotados por famílias de São Bento. Eu fui criada por Antonio Kaesemodel”, conta, referindo-se ao industrial e líder político que hoje dá nome à principal via de acesso à cidade. Seu avô paterno, Veríssimo de Souza Freitas, foi prefeito de Campo Alegre (1919 a 1922) e também é nome de rua no município.

 

Volta às raízes

 

Em São Bento, Therezinha estudou no tradicional Colégio São José e casou-se com Arnoldo Alfredo Foitte (ela acredita que a grafia original do sobrenome seria Voigt). O casal morou um tempo em Rio Negro, antes de se fixar em Campo Alegre, em 1970, e fundar a fábrica de móveis Cascata – que funcionou até a morte de Arnoldo, há 15 anos.

Depois disso, Therezinha ainda foi don do restaurante Reino Natural, especializado em comida caseira e famoso pela carne de coelho. O casal teve cinco filhos (“Três deles morreram num período de seis anos”, lembra dona Therezinha, segurando as lágrimas), dez netos e, até o momento, três bisnetos (com ela mora a agitada Heloísa, 5 anos).

Therezinha se destacou como líder comunitária, foi catequista e ministra na paróquia (parou no ano passado, após 32 anos de dedicação), fundou um grupo escoteiro, foi presidente do Lions Clube e da Casa da Cidadania, criou o clube de mães e, sua maior realização, o horto medicinal. “Vinha gente de muitos lugares em busca das ervas medicinais. Infelizmente, não teve continuidade”, lamenta.

A carreira política de Therezinha Foitte começou em 1989, como suplente de vereador. “Exerci o cargo durante alguns meses, e daquela gestão a maior conquista foi a capela mortuária”, conta, destacando que chegou a lavar defuntos antes da melhoria.

Em 1993, em nova tentativa, elegeu-se vereadora pelo PFL (atual DEM) e chegou a presidir a Câmara. “Naquela gestão, inauguramos a nova sede da Câmara e criamos as sessões itinerantes, levando as reuniões às comunidades afastadas do Centro.” Encerrado o mandato, em 1996, deixou a política.

Pela casa de Therezinha, na principal avenida da cidade, espalham-se as tapeçarias que aprendeu a bordar na Fecampo (Fundação Educacional de Campo Alegre). Além, é claro, das medalhas conquistadas nos jogos da terceira idade: “Sou cinco vezes campeã da canastra!”.

 

Perfil sugerido por Maricler Virmond


Secretário Antônio Roberto da Borba revela todo seu amor por Barra do Sul

Ele diz que nasceu na beira da água, e por lá foi criado. Foi um dos incentivadores e membros da comissão que lutou pela emancipação e criou a bandeira do município
Fabrício Porto/ND

 

À beira-mar. Borba nasceu em Barra do Sul, e nunca quis se afastar de sua terra. Na foto, está com a bandeira do município, que criou polêmica por trazer um surfista no brasão

 

 

Muitos do que frequentam ou moram em Balneário Barra do Sul têm ideia da luta que foi para sua emancipação, há 22 anos. Mas Antônio Roberto de Borba sabe muito bem as dificuldades e o trabalho que foi para que, em 1992, o distrito se desligasse de Araquari e se tornasse um dos balneários mais procurados do Litoral Norte durante a temporada de verão. Foi Borba quem liderou a movimentação para transformar Barra do Sul em município.

Sempre ligado às causas comunitárias do local, em 1990, quando era presidente da associação de moradores do então distrito de Barra do Sul, Borba e mais oito pessoas formaram uma comissão para tratar dos assuntos da emancipação do lugar. "Tínhamos muitas dificuldades de acesso à sede, estávamos esquecidos aqui. Então, surgiu a ideia da emancipação. Tínhamos que caminhar com as nossas próprias pernas, porque Barra do Sul já tinha vida própria, sem depender muito de Araquari", explica.

Após o plebiscito, realizado em 1991, onde os moradores foram favoráveis ao desmembramento, foram reunidos documentos e formado o processo que deu entrada na Assembleia Legislativa para emancipação. Após análise e visitas técnicas, o processo foi encerrou com parecer favorável e, em 9 de janeiro 1992, foi criado o município de Balneário Barra do Sul, que viria a ser instalado oficialmente no ano seguinte, já com prefeito, vice e vereadores eleitos. Borba fez parte da primeira Câmara de Vereadores da história do município, na condição de presidente.

Isso fez com que, em 1995, quando o prefeito, vice e quatro vereadores tiveram os mandatos cassados, Antônio Roberto de Borba se tornasse o prefeito de sua querida Barra do Sul por dez dias. Neste período, conta, conseguiu uma coisa inédita, em apenas um dia montou um projeto, aprovou na Câmara e autorizou a criação de um loteamento na cidade. "Acho que isso nunca existiu, em apenas um dia conseguimos tudo isso, mas foi válido, pois resolveu um problema para diversas famílias na época", relembra.

Além de toda a luta pela emancipação, Borba participou da criação de diversas entidades, entre elas a Associação de Surfe, de quem foi presidente, e o Corpo de Bombeiros Voluntários do município. "Sempre trabalhei para o coletivo, desde o grupo de jovens, sempre quis trabalhar para as causas comuns a todos", disse.

 

"Isso aqui é a minha vida,

quero que os que morem aqui

e os que nos visitam tenham mais

qualidade de vida, que sejam felizes

em estar aqui, é para isso que trabalho."


Bandeira

Outro orgulho de Borba é a bandeira de Balneário Barra do Sul. Foi dele a ideia que está estampada até hoje. Lembra que o desenho gerou polêmica na época, mas também teve apoio de diversas entidades ligadas ao surfe do mundo todo. "Tem um surfista no brasão. Isso deu bastante discussão, mas também divulgou Barra do Sul para o mundo."

Borba recebeu até um telefonema do surfista catarinense Teco Padaratz, que na época disputava o circuito mundial de surfe, apoiando a ideia. "Nem acreditei quando atendi o telefone, ele disse que apoiava nossa ideia e que ajudaria no que for preciso. Depois disso recebemos cartas de apoio de associações de surfe do país todo e até da ASP (Associação de Surfistas Profissionais), o que nos orgulha muito."

 

"Nasci na beira d'água"

Aos 54 anos, Antônio Roberto de Borba se orgulha de ter nascido em Barra do Sul. "Muitos dizem que são de Barra do Sul, mas nasceram na (maternidade) Darcy Vargas, em Joinville. Eu nasci aqui, na beira d'água, com a parteira", lembra. Com duas irmãs e um irmão, Borba nunca quis sair de sua terra, optou por ficar perto dos pais, de quem cuidou até a morte. "Meus irmãos foram casando e saíram, eu quis ficar e não me arrependo. Hoje, todos os meus irmãos voltaram."

De vereador a prefeito por dez dias, Borba não largou a vida pública, sempre vivendo Balneário Barra do Sul intensamente. Após passar por cargos no governo do Estado e na Assembleia Legislativa, hoje contribui com o município como secretário municipal de Planejamento, Desenvolvimento Econômico, Meio Ambiente, Urbanismo e Habitação.

 

 


Pai e filho trazem a música no sangue desde a infância e fazem sucesso no trio Cristiano e Camargo

Antonio Amadeus Camargo evita comparações com Mozart, apesar do Amadeus no nome, e se divide entre a carreira de operário e de músico, ambas divididas com o filho

Rogério Souza Jr./ND
Cristiano e Antonio Camargo: de manhã, expedição, à tarde e à noite, música

Quando era criança, lá na pequena cidade paranaense de Santa Izabel do Oeste, onde nasceu há 45 anos, Antonio Amadeus Camargo ganhou um presente. Como mais velho, podia escolher entre uma bicicleta e um violão. “Escolhi a bicicleta, enquanto meu irmão Célio ficou com o violão. Só que ele não se interessou muito, e eu comecei a gostar do instrumento.” Resultado: a bicicleta acabou encostada, Antonio Amadeus pediu que o pai lhe desse uma gaita, aprendeu a tocar sozinho e, algum tempo depois, fazia dupla com o irmão.

Hoje, fazendo jus ao nome do meio (“Não tem nada a ver com Wolfgang Amadeus Mozart”, garante), Camargo dedica o tempo em que não está na Expedição da Tupy aos ensaios e apresentações do trio Musical Cristiano e Camargo, em que faz parceria com o filho e com o amigo Adilson Junior.

Primogênito de seis irmãos, Camargo teve uma infância dividida entre a escola, as brincadeiras ao ar livre e a lida na roça: “Toda a filharada precisava ajudar, com a enxada ou nos afazeres domésticos”.

Sempre gostou de música, e a vocação só se confirmou quando aprendeu a tocar acordeon sozinho, “de ouvido”. À dupla com o mano Célio seguiu-se a banda Sol de Verão, com mais dois irmãos e um amigo. “Eu tocava gaita e teclado, o Célio guitarra e os outros irmãos, baixo e bateria. Tocávamos em eventos, bailes e onde fôssemos chamados.”

 

 

Divulgação/ND
Pai e filho se uniram ao músico Adilson Junior no bem-sucedido trio musical Cristiano e Camargo

 

 

Nova banda e nova carreira em Joinville

A Sol de Verão se apagou quando toda a família Camargo deixou Santa Izabel rumo a Joinville, em busca de novas oportunidades. Lá se vão 20 anos. Já casado, Amadeus trouxe os filhos Cristiano, então com 6 anos, e Cristiane, com 5. Depois de um ano trabalhando como porteiro de uma pequena empresa, empregou-se na Tupy, adquiriu um terreno pertinho da empresa e construiu a casa onde mora há 17 anos.

Há oito anos, Cristiano também enverga o uniforme azul-amarelo da Tupy, trabalhando na Fundição B. Como ambos são do primeiro turno, sobra a tarde para os ensaios, no pequeno estúdio montado num dos cômodos da casa.

“Cristiano demonstrou ouvido para a música desde criança, sempre cantou muito bem e aprendeu também sozinho a tocar acordeon”, informa o orgulhoso pai-parceiro.

A carreira musical dos Camargo em Joinville começou no Bar do Orlando, no Boa Vista. “Eu tocava acordeon e o Cristiano, então com 7 anos, cantava. Logo começamos a ser convidados para animar eventos, especialmente na Tupy.” O tempo foi passando, Cristiano se aperfeiçoando, até que, há uns dez anos, chamaram o amigo Adilson Junior e formaram o Musical Cristiano e Camargo.

Dos bares e dos eventos da empresa, a agenda do trio foi ficando mais carregada. “Tocamos em bailes, festas e o que vier, inclusive em cidades próximas”, acrescenta Camargo. No sábado, a banda animou o Bailão da Sílvia, na praia do Ervino. Na sexta (17), o compromisso é no Recanto Jaboticabal, no bairro Cubatão, em Joinville. Pelos próximos meses, quase todo fim de semana eles têm agenda. Além das apresentações, o ano de 2014 tem outro importante compromisso. Camargo está confiante no êxito da empreitada. “Queremos gravar nosso primeiro CD.”

 

Serviço

Contatos com o Musical Cristiano e Camargo podem ser feitos pelos telefones 47/3432-2314 e 8813-8798 ou pelo e-mail musicalcristianoecamargo@hotmail.com.


Cavilha e Cavilhinha, os talentosos jogadores que são o orgulho da família

Irmãos se destacam como laterais no futebol amador de Joinville jogando em times adversários. Mas a rivalidade só fica dentro do campo
Rogério Souza Jr./ND
Os pais, Celso e Isolene, com os filhos-atletas e suas namoradas: uma família que vive dedicada ao esporte e trabalha unida na sorveteria da família

 

 

Edson e Jefferson, além de irmãos, têm mais uma característica em comum: no futebol, ambos podem dizer que têm o coração alvirrubro. O mais velho, o lateral-direito Cavilha, foi campeão da Primeirona pelo vermelho-e-branco Pirabeiraba; Cavilhinha, lateral-esquerdo, conquistou em 2013 o título da Copa Norte pelo vermelhão América (coincidentemente, cada um vencendo o irmão nas respectivas finais). “Neste ano, nossa intenção é jogar no mesmo time”, antecipa Edson – ambos já defenderam os mesmos clubes no passado, mas em épocas diferentes.

A história começa na cidade de Taió, no Alto Vale, onde nasceu Celso Cavilha, pai dos laterais, em 1959. Ainda que tenha similaridade com o idioma português (cavilha é uma peça de madeira), a origem da família está na Itália. “Meu tetravô veio da Itália, mas até agora não conseguimos desenterrar as raízes exatas da família”, diz Celso, esclarecendo que a grafia original do sobrenome seria Caviglia.

Ele mesmo poderia ter feito carreira nos campos: “Eu era goleiro do time da Volta Grande, localidade do interior de Taió, mas parei de jogar aos 19 anos, devido a um acidente”.

A família já trocara Taió por Indaial quando Edson, nascido em 1983, começou a usar chuteiras e tênis. “Eu jogava futebol de campo pelo 15 de Outubro e salão pela CME de Indaial. Em 2003, cheguei a fazer testes no Guarani de Campinas e no Primavera de Indaiatuba”, conta o Cavilha mais velho. Seu primeiro título veio nos Jogos Abertos de 2004, no futebol de campo, defendendo Brusque: “Ganhamos a final do Joinville”.

 

Início no JEC/Irineu

 

Em 2004, a família se mudou para Joinville e Edson logo envergou a camisa 2 nas categorias de base da Academia JEC/Irineu. No mesmo ano, teve uma passagem pelo Passo Fundo, onde era conhecido como “Indaial”. De volta a Joinville, decidiu dar um tempo no futebol e se dedicar aos estudos: concluiu o ensino médio e fez a faculdade de educação física (formou-se pela Univille há dois anos, e hoje trabalha na Academia Roldão, no Aventureiro, e é auxiliar do técnico Fabinho nas categorias de base do JEC).

Mas Cavilha não largou a bola. Em 2005, foi campeão da Primeirona defendendo a Sercos; em 2007, foi para o América; no ano seguinte, novo título, agora pela Serrana; de 2009 a 2011, ficou no Juventus do Iririú (de lá, ficou como lembrança uma cicatriz pertinho do olho direito, resultado de uma cotovelada que o levou a nocaute). Desde 2012, veste a camisa 2 do Pirabeiraba.

Canhoto, Jefferson nasceu em 1989, em Indaial. Dos 6 aos 15 anos jogou futsal pela CME, sob o comando do técnico Marinho. Aos 13, já era lateral-esquerdo e meia do infanto do Santa Esmeralda. Assim que a família estabeleceu-se em Joinville, seguiu os passos do irmão e jogou no JEC/Irineu, onde ficou até os 20 anos. “Tive – conta – uma rápida passagem pelo futsal da Krona e fiz testes no Atlético Paranaense e no São Paulo, mas preferia o campo.” Já com o inevitável apelido de Cavilhinha, jogou no Juventus e, desde 2012, é lateral-esquerdo do América. E não esconde o desejo: “Espero jogar com o meu irmão agora em 2014, de preferência no América”.

Enquanto Cavilha trabalha ligado ao esporte, Cavilhinha prefere seguir pela administração. Ele, assim como a mãe Isolene, a namorada Jéssica e a futura cunhada Lilian, trabalha com o pai na Sorveteria Ki-Moni (fundada em Indaial há duas décadas).

No mesmo endereço, na rua Jacupiranga, no Aventureiro, ficam a sorveteria (de produção própria) e a residência dos Cavilha. “Tenho muito orgulho desses dois guris, honestos, trabalhadores e bons de bola”, derrete-se o Cavilha pai.


Henriette Hillbrecht nasceu com o dom para a música e não se cansa de aperfeiçoá-lo

O doce som embala a vida da musicista de múltiplos talentos, que foi apresentada à música ao ganhar uma flauta doce, aos cinco anos

Entre tantos adjetivos utilizados para definir os sentimentos evocados pela música, a doçura é dos mais comuns. Mas, no caso de Henriette Hillbrecht, o conceito vai além: “Eu tinha 5 anos quando minha avó me deu uma flauta-doce, meu primeiro instrumento musical. Foi com ele que me apresentei pela primeira vez em público, na igreja luterana, e a partir dali tracei meu caminho, estreitamente ligado à música”.

Hoje, Henriette Hillbrecht é um nome consagrado no meio musical catarinense, como uma das expoentes na execução do fagote, secular instrumento de sopro e um dos muitos que ela domina.

 

 

Rogério Souza Jr./ND
Henriette sempre direcionou sua vida para a música, e domina vários instrumentos

 

 

A vida de Henriette só podia mesmo ter trilha sonora. “Meu pai tocava acordeon e minha mãe, piano. A música fazia parte da minha vida desde que nasci.” Isso aconteceu no dia 30 de janeiro de 1967, em Curitiba, EM uma das paradas do seu pai, funcionário da Cervejaria Antarctica. “Nem cheguei a conhecer Curitiba. De lá, a família mudou-se para São Paulo, depois Corupá, Salvador e Joinville, onde de fato fixei raízes.”

Trineta de Otto Hillbrecht, fundador de Corupá, Henriette é também neta de Willy Gessner, primeiro prefeito do município. Foi justamente quando residia na cidade que Henriette aprendeu a tocar piano, com a professora Else Gabler (outra que virou nome de rua em Corupá).

Quando os Hillbrecht se estabeleceram em Joinville, Henriette estudou no Colégio dos Santos Anjos e formou-se em Geografia pela Furj (atual Univille). “Mas a faculdade só me serviu para aprimorar conhecimentos, pois nunca tive a pretensão de dar aulas. O que eu queria mesmo era aprender música”, admite.

 

Pupila de Vany Knoll

 

Foi no Conservatório de Música de Vany Knoll que Henriette começou seu aperfeiçoamento, formando-se em flauta-doce, piano, teoria e solfejo musical. Chegou a fazer parte dos cursos de licenciatura em música e bacharelado em fagote, interrompidos pelas constantes mudanças. Diversas escolas e seminários da região de Joinville tiveram-na como professora de flauta-doce, piano, teclado, teoria e solfejo, além de música de câmara, história da música e saxofone (outra de suas paixões). Viveu em Londrina de 1992 a 94, período em que foi fagotista concursada na Orquestra Sinfônica da Universidade de Londrina.

Em seguida, passou 14 anos na Alemanha. “Morei dois anos em Langenhagen, cidade-irmã de Joinville, depois em Bonn”, conta Henriette, que no país europeu casou-se pela segunda vez (o primeiro marido, joinvilense, era violonista; o segundo, alemão, maestro).

Lá, deu aulas e participou de diversas formações musicais, tendo fundado uma escola de música em Bonn. “Na Alemanha,pude viajar muito e participar de eventos, e ainda gravei meu primeiro CD, integrando a Internationale Philharmonie”, conta a instrumentista, folheando álbuns onde guarda com zelo fotos, recortes e programas de todos os concertos em que tocou.

De volta a Joinville há dois anos, Henriette tem uma agenda cheia: participa de eventos no Estado e fora, é instrutora de instrumentos de sopro e de palheta e saxofonista da banda do Corpo de Bombeiros, dá aulas na escola Arte Maior e em casa, toca nos grupos Festmusik, Instrumental da Paz, Compassolivre, Quarteto de Sopros Joinville, nas orquestras de Jaraguá e de São Bento e faz duo com a organista e pianista Lucy Mary Leão.

Selecionada no ano passado como fagotista na futura Orquestra Cidade de Joinville, tem a esperança de ver, agora em 2014, a orquestra se tornar realidade.

Para dar conta de tanta atividade, Henriette não tem segredos. Dedica-se ao aperfeiçoamento todos os dias e aplica uma máxima que aprendeu com um de seus mestres, o maestro norte-americano Arthur Weisberg: “Tudo tem que sair facilmente; se sair difícil, está errado”.


Referência na Prainha, Trindade e família tocam um dos points preferidos na praia dos surfistas

Ele nem lembra mais o motivo, mas quando trabalhou em lanchonete em Joinville, ganhou o apelido de Jacaré, que até hoje o acompanha
Rogério Souza Jr./ND

 

Trindade, com Renilda e Alessandro, se tornou um exemplo de família que trabalha unida

 

Na virada do ano de 2010 para 2011, uma forte ventania castigou algumas praias do Litoral Norte catarinense, entre elas a Prainha, em São Francisco do Sul. “O vendaval derrubou minha lanchonete e deu um belo prejuízo. Mas também deu força pra repor tudo em pé e tocar a vida”, relembra Adilson Manoel Trindade, proprietário da Lanchonete Prainha, um dos pontos de referência da praia preferida dos surfistas.

Conhecido em Joinville como Jacaré, na semana anterior ao Natal Trindade supervisionava o descarregamento de um reforçado estoque de bebidas, antevendo o bom faturamento da temporada. “Esse caminhão deixou metade da carga aqui e metade em outra lanchonete. Se tudo correr bem, espero que ele volte daqui a uma semana”, comentava, enquanto o filho Alessandro concluía a transação com o fornecedor. Ao lado, na cozinha, a mulher, Relinda, já atendia o primeiro freguês com um suculento hambúrguer.

O contato com o público sempre fez parte do trabalho deste gasparense nascido há 55 anos. “Eu me considero joinvilense, pois a família se estabeleceu na cidade quando eu tinha 7 anos. Meu pai tocava uma fábrica de móveis. Criei-me no (bairro) Floresta e estudei no colégio Rui Barbosa.”

Trindade, porém, não seguiu o ofício do pai. Mas não deixou de usar a habilidade manual em seu primeiro trabalho, produzindo artesanato para vender na feira permanente da praça da Biblioteca. “Fui, junto com o Peninha, um dos fundadores da Associação Joinvilense de Artesãos”, conta, dando o devido crédito ao fotógrafo Peninha Machado.

 

Da primeira lanchonete, na praça Nereu Ramos

 

Trindade já comercializava artesanato há uns 15 anos, quando um convite inesperado o levou a mudar de profissão. “O Ari Menegheti, na época proprietário da Lanchonete Quiosque, na praça Nereu Ramos, convidou-me a trabalhar com ele. Topei a parada e fiquei uns nove anos atendendo na lanchonete. Foi quando me apelidaram de Jacaré, nem sei mais por que.” Uma das mais conhecidas “bocas malditas” da cidade durante bastante tempo, a lanchonete traz boas lembranças: “Era muito bom trabalhar, o ponto era ótimo e eu conhecia quase todo mundo. Ali se podia eleger ou derrubar um governo”, brinca.

Mas decidiu mudar de vida em 1990, quando conheceu a Prainha. “Gostei na hora do lugar. Naquele ano mesmo arrendei um barzinho para as temporadas, e fui ficando.”

Em 1994, o barzinho virou lanchonete, ainda arrendada, até que Trindade juntou as economias, comprou um terreno e ergueu a atual Lanchonete Prainha, na esquina da avenida Brasília (a Beira-mar) com a rua Maceió – a família mora nos fundos –, quase em frente ao posto de salva-vidas, no meio do agito do famoso recanto do surfe.

A clientela, porém, não se limita aos surfistas: “Durante a temporada vem veranista de todo lugar, e compensa a falta de movimento durante o ano”. Enquanto no verão a lanchonete funciona todos os dias, das 10h até o início da madrugada, fora da temporada eles só abrem aos sábados, domingos e feriadões.

A equipe, formada por Adilson e Alessandro na administração e atendimento, e Renilda na cozinha, é reforçada com garçons de agora em diante, pelo menos até o Carnaval. Aos 13 anos, o francisquense Alessandro já é um “veterano” na lanchonete.

“Ele assumiu com 11”, informa Adilson (pai também de duas joinvilenses). E o surfe? “Quando dá tempo, pego onda”, arremata o filho, logo após acertar as contas com o pessoal do caminhão de bebida.

 

Perfil sugerido pelo radialista Eli Francisco, vizinho e freguês de Adilson Trindade na Prainha


Sempre ajudando o próximo, Ivete Brugnago Moraes faz a diferença em bairro de Barra Velha

"Primeiro, nós demos o peixe. Depois, passamos a ensinar a pescar", resume a líder comunitária do São Cristóvão

“Primeiro, nós demos o peixe. Depois, passamos a ensinar a pescar.” Esse é o resumo da atuação de Ivete Brugnago Moraes no bairro São Cristóvão, em Barra Velha, onde fundou uma cozinha comunitária e hoje preside o verdadeiro centro comunitário em que se transformou a Associação Cozinha Comunitária Iolanda Brugnago (nome de sua mãe).

Além de oferecer cursos e atividades esportivas e fornecer cestas básicas, o complexo social abriga um núcleo de assistência social da Prefeitura, atendendo à população do bairro. “Aqui, nós temos votos suficientes para eleger um prefeito”, brinca Ivete, enaltecendo a capacidade eleitoral do São Cristóvão, quase uma pequena cidade no lado de lá da BR-101.

 

 

Luciano Moraes/ND
Ivete apresenta o Complexo Social do bairro, que surgiu graças à sua determinação e hoje é um ponto de encontro e de muitas atividades

 

 

Neta de italianos, Ivete nasceu, há 59 anos, no município paranaense de Matinhos, mas se criou em São João do Itaperiú, na época distrito barra-velhense, hoje município, emancipado desde 1992. Aos 14 anos, mudou-se para Joinville. “Trabalhei na Tigre, na Tupy e nas residências de João Hansen e de Dieter Schmidt, pessoas que aprendi a admirar.” Antes de retornar a São João do Itaperiú, em 1985, Ivete casou-se com Osvaldo Moraes – “Um amor de infância, lá de São João” – e teve três filhos.

Quatro anos depois, a família estabeleceu-se no São Cristóvão. “Viemos morar no morro do Colchão, que tinha esse nome por causa da proliferação do capim-colchão, muito comum por aqui”, diz ela, apontando em torno e abarcando a área hoje ocupada pelo aglomerado urbano, antes um descampado.

 

O sonho de ajudar

“Sempre tive o sonho de ajudar o próximo”, diz Ivete, justificando sua vocação para a liderança comunitária. De fato, seu primeiro trabalho foi na Casa de Passagem mantida pela municipalidade, destinada ao abrigo provisório de menores em condição de alto risco, durante as gestões dos prefeitos João Luzia e Walter Zimmermann.

Disposta a estender a ação em prol da comunidade, Ivete decidiu “dar o peixe” e criou a cozinha comunitária. “No dia 9 de junho de 2001, servimos a primeira sopa, usando a estrutura da Igreja Brasil para Cristo. Mais tarde, o doutor Samir Mattar, antes de ser prefeito, nos ajudou a construir um galpão. No dia da inauguração, preparei uma dobradinha para as autoridades.”

A estrutura – na mesma rua José Alberto dos Santos, em que ela mora – foi crescendo e ganhando novas construções. Veio também a horta comunitária, graças à qual as crianças do bairro aprenderam a comer verduras. Os recursos para as ampliações vinham do envolvimento de Ivete e do grupo de voluntários que ia arregimentando. “Promovíamos bazares, vendíamos artesanato, produzíamos estopa a partir de restos de pano... O dr. Samir e o Tito, dono de uma incorporadora, nos doaram um carro, e o radialista Juvan (o jornalista Juvan Souza Neto) criou nossa comunicação”, resume Ivete, dando o devido crédito a algumas das pessoas e empresas que colaboraram, como a Cebrace, uma apoiadora desde que se instalou em Barra Velha.

Com a diversificação das atividades, a cozinha comunitária foi desativada – ainda é usada para o preparo de refeições para quem faz cursos –, dando lugar a salas de cursos, quadra de esportes, miniacademia, mesas, quiosque e um centro de atendimento da Secretaria de Bem-estar Social. Ivete preside a associação, escudada pelas amigas Helenice Visintainer (vice), Clotilde Afélis (a Tide, também vice), Dilcicléia de Barros (diretora de Eventos), Maria Helena de Oliveira e Nilma de Melo Strei.

Já homenageada com o título de Cidadã Benemérita, Ivete não para com o trabalho: “Fico feliz quando vejo o fortalecimento dos laços comunitários”.


Professor Marcelo Braga divide-se entre a profissão e a crítica expressa em cartas para a imprensa

Ele se indigna com situações que vão contra os interesses da comunidade. Também defende com unhas e dentes o magistério
Rogério Souza Jr./ND
Braga, na sala de educação física, em que reúne a vasta coleção de troféus e medalha

 

 

“Sei que minhas posições provocam ranger de dentes e despertam rancor, mas não vou deixar de externar minha opinião quando achar que alguma situação contraria os interesses da comunidade, principalmente quando disser respeito à educação ou ao esporte.” É assim, com determinação, que o francisquense Marcelo Roberto Vieira Braga, professor de educação física, justifica seu hábito de escrever quase todos os dias para periódicos, quase sempre com críticas a algum desvio de conduta ou apontando caminhos para o aprimoramento da educação.

Campeão de presença na seção de e-mails e cartas do ND – posição dividida com o comerciante joinvilense Verli Antonio Araújo (Perfil em 18/5/12) –, Braga é, acima de tudo, um apaixonado pela profissão e inimigo de qualquer tipo de corrupção. “Escrevi a primeira carta aos 14 anos, para uma revista, e nunca mais parei.”

Braga nasceu em 1968 e se criou no bairro Paulas. “Meu pai, conhecido como Mário Cebola, jogava no Atlético e tinha um restaurante ao lado da estação ferroviária. Conheceu minha mãe quando ela veio à cidade para trabalhar na Babitonga. Estudei no Colégio Francisquense, e sempre fui apaixonado por esporte”, conta.

Era um guri chegado a estripulias, como uma que ele resgata dos arquivos da memória: “Eu tinha uns 7 anos, e na época era bem loirinho. Um dia, sentei-me numa canoa de pescador, na beira da praia, e não percebi que o movimento da maré começou a me levar pra fora. Foi um desespero para as pessoas quando sumi, até que alguém viu a cabeça branca se destacando na canoa, a essa altura longe da praia”.

 

 

Divulgação/ND
Estímulo aos pequenos alunos no futsal e algumas conquistas no currículo

 

 

Experiência no JEC

Adolescente, durante um tempo Braga pegava a litorina todos os dias até Joinville. Da estação, ia ao Ernestão. “Cheguei a jogar no sub-15 do JEC, e disputei a Taça São Paulo de Juniores, em 1983. Mas não era bom o suficiente pra sonhar com uma carreira profissional, e preferi focar a atenção nos estudos.” Iniciou a faculdade de geografia na Furj (atual Univille), mas não se graduou. Era sua segunda opção; a primeira era educação física, mas, por incrível que pareça, não foi aprovado no teste prático, exigido na época. “Até hoje não sei o que aconteceu”, admite.

A sonhada faculdade foi iniciada na Universidade de Passo Fundo, onde morou por seis anos. “Enquanto estudava, trabalhei numa creche, num bairro pobre, ensinando as crianças a jogar futebol. Reforçava o orçamento jogando na equipe de futsal da Cooper Passo Fundo e ensinando basquete na escolinha da universidade.” De volta a São Francisco, concluiu a faculdade na Univille, em 1994.

Trabalhou na Academia Armazém do Corpo, coordenou as escolinhas de futebol do Atlético e do Ipiranga, foi preparador físico em vários clubes e, em meados dos anos 90, junto com Jorge Cevinski, criou o projeto Ginástica na Praia, na Enseada.

Em 1996, enfim, Braga iniciou a carreira de professor de educação física no colégio Carlos da Costa Pereira, no Acaraí. Seguiu-se um período de dez anos na escola João Alfredo Moreira, na Vila da Glória, onde chegou a diretor. Dessa época, guarda muitos “causos” das travessias: “Muitas vezes, a lancha levava caixões funerários para a Vila da Glória. Certa vez, por causa da neblina, fomos parar na ilha do Cação, com um caixão a bordo”.

Desde 2006, Braga leciona na EEB Annes Gualberto, no seu querido bairro Paulas (entre os alunos, está o filho João Vítor, 12 anos). Dedicado ao esporte, tem respeitável galeria de troféus em sua sala no colégio, ganhos tanto com os alunos quanto por clubes. Neste ano, foi campeão sul-brasileiro de futsal sub-13 e vice no sub-12, categorias com as quais também disputa as competições da Liga Joinvilense.

Para manter a forma, Braga joga futebol pelo time master do Atlético. Além das conquistas no esporte, se orgulha de outras duas - uma profissional: “Completei 20 anos de magistério no Dia do Professor, 15 de outubro”, e outra pessoal: “Em 2013 ganhei o título de Cidadão Benemérito de São Francisco do Sul”.

 

 

Divulgação/ND
Professor Marcelo com sua família, no momento em que recebeu o título de Cidadão Benemérito de São Francisco do Sul

 

 

“...o que nós, professores,

esperamos é que nossos vencimentos

também estejam no mesmo nível

de países do primeiro mundo.”

(trecho de carta do professor Marcelo Braga na edição de 24/12/2013 do ND Joinville)


Sílvio Moreira, o Tico, se divide entre a barbearia e a música desde criança

Barbeiro conhecido do bairro Petrópolis, ele oferece aos clientes uma atração a mais: a música das inseparáveis gaitinhas de boca
Rogério Souza Jr./ND

Por um momento, Tico larga a tesoura e tira as preciosidades da maleta para se dedicar à música

 

Pessoa conhecida e respeitada no bairro Petrópolis, Sílvio Moreira é falante, como se espera de um bom barbeiro, daqueles que conhecem todos os fregueses pelo nome. Na Barbearia do Tico, dentro da associação de moradores, conversa-se sobre qualquer assunto, do recente quebra-pau entre atleticanos e vascaínos às necessidades do bairro. “Sou quase um zelador aqui, pois sei da importância que a associação tem para os moradores.”

Mas há ocasiões em que, da boca do barbeiro, só sai um sopro. É quando ele assume um lugar nas gravações ou apresentações do grupo musical Harmônicas de Joinville, com sua gaita de boca. “O grupo – informa – foi fundado em 1951 por Günther Pfuetzenreuter, Roland Pueschel, o Mico, e Eduardo Miers. Eu participo há mais de 30 anos.”

Nascido em Joinvillem em 1947, Moreira se criou nos campinhos do bairro Anita Garibaldi. Único menino entre quatro irmãs, ganhou delas o apelido, e relembra com saudade de uma Joinville bucólica e tranquila. “Moramos muitos anos na rua Independência, e joguei bola num campinho onde depois foi a fábrica da Tigre e hoje é um condomínio industrial.”

O ofício de barbeiro foi ensinado por um profissional, Ervino Pabst, amigo de seu pai. “Eu tinha 12 anos quando aprendi a arte de cortar o cabelo e fui trabalhar com o mestre. Com 14, já contribuía para a Previdência Social.”

Com 18 anos, Tico empregou-se na Nylonsul, onde trabalhou como motorista até o fechamento da empresa. “Aí comprei um caminhão e passei 17anos na estrada, a serviço da Tupiniquim. O mais longe que viajei foi Vitória da Conquista, na Bahia.”

Durante os anos 70, as estradas vez ou outra eram trocadas pelas pistas de motociclismo. “Fui bicampeão catarinense na 125”, conta, recordando os duelos travados com o hoje empresário Paulo César Machado, conhecido como “Paulo Louco” no circuito motociclístico.

Há 15 anos, enfim, Tico trocou a boleia do caminhão pelo salão de barbeiro, numa volta às origens.

 

 

Reprodução/ND
Décadas de cantorias e sucesso sempre garantido por onde passa no Harmônicas de Joinville

 

 

Companheira desde a infância

 

A gaita de boca, ou harmônica, acompanha Tico desde a infância, quando ganhou o primeiro exemplar e aprendeu a tocar sozinho, além de ter se aperfeiçoado com o instrumentista Ronald Silva, criador do grupo Harmônicas de Curitiba. Antes de ingressar no Harmônicas de Joinville, grupo com o qual já gravou dois CDs, integrou por uma década o Joinville Serenaders.

Quando não está na barbearia do Petrópolis, Tico também pode ser encontrado nas missas do Santuário Sagrado Coração de Jesus, tocando em parceria com Antonio Bernardino, o Zico (Perfil dia 26/12). Também faz dupla com Alcides Raimondi, músico da banda joinvilense Pop Band. E ainda, nestes tempos natalinos até o Dia de Reis, 6 de janeiro, participa do terno de reis Canção e Paz.

“Obrigado, vá com Deus e tenha um feliz Natal!”, desejava Tico, na manhã do dia 23 deste mês, quando mais um freguês saía com o cabelo cortado. “Esse – comentava – eu conheço desde criança. Já tive que dar uns pitos quando aprontava, mas hoje é um trabalhador.” O movimento na barbearia era contínuo, os clientes – e amigos – chegando ou apenas marcando um horário, na certeza de que seriam atendidos, sem necessidade de anotação em agenda. Tico se permite uma rápida interrupção apenas para abrir a maleta onde guarda parte de suas preciosas harmônicas. Pega uma para as fotos e, claro, para tirar umas notas.

Perfil sugerido por Antonio Bernardino, o Zico


De menino abandonado, Cláudio Penha chegou ao comando dos bombeiros voluntários de Araquari

Ele cresceu vendendo balas na Central do Brasil, foi operário e vendedor de bugigangas, até decidir tomar a luta pela vida como uma missão
Rogério Souza Jr./ND
Cláudio se orgulha da missão que recebeu ao se entrosar na comunidade de Araquari

 

 

“Para ser bombeiro, primeiro precisa ter nascido com o dom. Depois, Deus ajuda a capacitar.” No caso de Cláudio Renato de Lima Penha, o conceito se aplica perfeitamente. Afinal, apenas quatro anos depois de ter vestido uma farda pela primeira vez, ele chegou ao comando do Corpo de Bombeiros Voluntários de Araquari. Até chegar a este posto, porém, a vida dele teve muitas voltas e reviravoltas.

O dramático roteiro teve início no dia 6 de dezembro de 1958, quando Penha nasceu, no município fluminense de Volta Redonda. “Meu pai morreu quando eu tinha apenas três meses. Como já tinha nove filhos, minha mãe não viu possibilidade de criar mais um, e me abandonou. Fui encontrado e criado por outra família, que me registrou como Wilhamar. Lembro-me de que eu ajudava minha mãe adotiva a costurar; ela tinha um problema nas pernas, e eu acionava o pedal da máquina de costura.”

Cláudio/Wilhamar soube de sua condição de adotivo quando tinha uns 8 anos. Aos 10, foi adotado por outra família, e foi morar em Petrópolis, ao pé da serra. Ali começou a aprender as duras lições da sobrevivência: “Eu ia de trem até o Rio de Janeiro e vendia um pouco de tudo na Central do Brasil, de gilete a pente e naftalina”. Outros locais aonde o pequeno camelô levava suas mercadorias eram os estádios de futebol, especialmente São Januário, do Vasco do coração.

Aos 18 anos, foi prestar serviço militar. Graças à interferência da madrasta, técnica de enfermagem na Companhia Siderúrgica Nacional, conseguiu vaga na Academia Militar de Agulhas Negras, de onde saiu com as divisas de cabo, quatro anos depois.

Chegava a hora de enfrentar de verdade o mercado de trabalho, muito mais exigente que o comércio de chicletes e balas na Central do Brasil ou no portão do Maracanã.

 

 

Luciano Moraes/ND
Acostumado às adversidades da vida, o comandante Cláudio se orgulha de vestir a farda

 

 

Da CSN para a Vega

 

Foi inscrito em um curso técnico na mesma CSN da mãe adotiva. Formado maquinista de locomotiva e operador de guindaste, conseguiu emprego. “Foi aí que descobri que tinha dois registros de nascimento. Obrigado a optar, preferi o Cláudio original.” Foram 19 anos operando locomotivas e guindastes na CSN, seguidos de outros 12 na Ormec Engenharia, prestadora de serviços industriais, siderúrgicos, ferroviários e metalúrgicos e fabricante de produtos metálicos.

Em 2001, quando a Ormec estabeleceu parceria com a então Usinor, para a instalação da Vega do Sul em Santa Catarina, ele se candidatou. “Eram mais de 18 mil operários, e eu estava entre os escolhidos”, orgulha-se. E veio para São Francisco do Sul.

Há uns sete anos, saiu da Ormec e foi ganhar a vida novamente como vendedor. “Primeiro, vendia coco verde, depois, a Caninha 101.” Trazendo a experiência da brigada de emergência da CSN, também passou a atuar como voluntário nos bombeiros de Araquari.

Há seis anos, porém, quando um dos 13 filhos foi morto num morro carioca, decidiu se dedicar exclusivamente à missão de lutar pela vida. “Eu tinha feito um curso de resgate, e me achava com experiência suficiente para ser bombeiro profissional”, conta o bombeiro, que agradece o apoio recebido do então vice-prefeito de Araquari, Paulino Travassos.

Começou a carreira de efetivo na central, atendendo chamados, passou a subcomandante e, há três anos, o presidente da corporação, José Antonio Vasques, o nomeou comandante. Hoje, estão sob seu comando 62 bombeiros voluntários, além de 81 bombeiros-mirins aprendendo o ofício. Unido mais uma vez (“Nunca me casei de papel passado”, ressalta), é pai de Igor, de 2 anos. Dedicado ao trabalho, é grato à Durín, empresa que doou uma ambulância aos bombeiros, substituindo uma viatura queimada em outubro (o comandante precisou usar seu próprio carro em emergências), além de mais um carro de combate a incêndio.

Sua expectativa de Cláudio e de sua equipe é pela construção da nova e espaçosa sede da corporação: “Só falta destravar alguns empecilhos ambientais”, garante, mostrando o projeto.


A história de Zico, o canhoto que queria aprender a tocar bandolim e virou professor

Ele está convicto que nasceu para a música
Fabrício Porto/ND
Zico nem sonhava, mas no dia em que a mãe optou por lhe presentear com um violão no Natal, também estava direcionando seu futuro

 

 

Imagine uma criança que descende de portugueses, um povo conhecido pela musicalidade. Filho de uma cantora de coral; aos 6 anos ganha um violão de presente; aos 12, se encanta com Bera e seu bandolim... Dificilmente vai ficar longe da música. Foi o que aconteceu com Antonio Corrêa Bernardino, hoje um reconhecido professor de música, multi-instrumentista e eterno apaixonado pela arte.

Zico, como é mais conhecido, já integrou vários grupos musicais – inclusive do ídolo Bera –, foi auxiliar do maestro Tibor Reisner e hoje mantém, em parceria com a pianista Tânia Mattos, a escola de música Prodmus (Projeto de Musicalidade Social), sediada no salão paroquial do Santuário Sagrado Coração de Jesus – onde coordena as atividades dos grupos musicais.

Nascido em Joinville em 1961, criado no Itaum, Bernardino herdou o apelido do pai, conhecido como Zizico. Primogênito de quatro irmãos, estudou no colégio João Colin, de onde guarda boas recordações: “Tive professoras do quilate de Maria Laura, Isabel e Herondina, que não só ensinavam, como ajudavam a educar as crianças. Havia mais envolvimento, e quem não acompanhasse o ritmo era arrastado”.

A mãe, integrante do coral da igreja, deu um violão de presente quando Zico tinha 6 anos. “Depois, ela me contou que, na hora de escolher um presente de Natal, ficou entre o violão e uma bicicleta.” Se fosse consultado, talvez o menino optasse pela bicicleta, mas hoje é grato à mãe pela feliz escolha.

Canhoto, Zico já se acostumara a trabalhar as dificuldades, num mundo feito para os destros. “Na hora de escrever, só precisava cuidar para não ir passando a mão e borrando tudo.”

 

Sempre aprendendo


Aos 12 anos, Zico viu pela primeira vez um bandolim, tocado pelo músico Bera, líder de um grupo que marcou seu nome na história da arte joinvilense. “Foi paixão imediata; passei a sonhar em, um dia, tocar aquele instrumento que tinha uma musicalidade toda própria.” O primeiro aprendizado foi com o amigo músico Maneca, conhecido como Iéia, que lhe ensinou a tocar cavaquinho: “Ele inverteu as cordas, adaptando o instrumento á minha necessidade”.

Aos 17 anos, Zico foi ao Rio de Janeiro, onde tinha parentes, em busca de mais conhecimento. De volta, matriculou-se na Casa da Cultura, onde teve aulas com o professor Agnaldo, foi colega da hoje maestrina Fabrícia Piva e conheceu o maestro Tibor Reisner, então regente da Orquestra Filarmônica da Sociedade Harmonia Lyra. “Fui tocar percussão na orquestra e auxiliava o maestro, na função de copista (encarregado de copiar os trechos dos arranjos para cada instrumento da orquestra), o que me ajudou muito a conseguir aperfeiçoamento. Ele só me chamava de Antonio, e varamos muitas noites preparando concertos.”

Fazendo bicos para pagar os estudos, Zico enfim passou a se dedicar apenas à música. Tocou com vários grupos, entre eles o Regional do Bera (“Aprendi, enfim, a tocar bandolim!”), Unidos do Itaum (grupo do sambista Jurandir Moreira, o Jura, falecido há dois anos), Couro e Corda, Urca Show e Protegidos da Liga.

Em 1993, Zico abriu sua escola de música, além de dar aulas em outras escolas, como a Arte Maior. O ano 2000 ficou marcado: “Foi quando me reencontrei com a Igreja e passei a tocar no Sagrado. Tocava com músicos como Bira Agra, Alcides Raimondi e Julinho Amaral”.

Naquele ano, Zico ocupou uma sala no Sagrado, onde se instalou com a Prodmus. Ali, ele e a parceira Tânia ensinam percussão, bandolim, piano, teclado, canto, violão, guitarra, baixo, viola caipira e cavaquinho.

Entre seus projetos, Zico pretende arregimentar mais músicos para a paróquia e reunir ex-alunos e outros músicos para formar novos grupos. Além de instrumentista, Zico é compositor, e algumas de suas canções estão no CD gravado pelo grupo Samba na Cadência, um dos projetos já consolidados da Prodmus.

 

Prodmus – Projeto de Musicalização Social

Anexo ao Santuário Sagrado Coração de Jesus, rua Inácio Bastos, esquina com São Paulo, bairro Bucarein

Telefones: 3804-3105 e 9985-5617 (Zico); 3028-2772 e 9915-9052 (Tânia)

Email: acbernardino@bol.com.br e taniamattosr@hotmail.com


Elaine Gonçalves firmou raízes em Joinville graças à dança e aos rumos do seu coração alegretense

“Comecei na arte há 35 anos, e nunca parei”, diz Elaine, mais uma artista que conheceu Joinville graças ao festival e ficou
Rogério Souza Jr./ND
Elaine, a menina que foi baliza, dedica toda a sua vida à dança em todas as suas vertentes

 

“Não me perguntes onde fica o Alegrete...”

“Segue o rumo do teu próprio coração...”

As placas vão se sucedendo, cada uma com um verso da canção composta por Neto Fagundes e imortalizada na interpretação do grupo Os Serranos, até a entrada de Alegrete, na fronteira Oeste do Rio Grande do Sul. A cada vez que passa por lá, o coração de Elaine Pereira Gonçalves bate mais forte. Foi no Alegrete que nasceu, em 1959, a professora e idealizadora do primeiro curso técnico de dança do Sul, destaque entre as várias atividades do Grupo A.Z Arte. “Comecei na arte há 35 anos, e nunca parei”, diz Elaine, mais uma artista que conheceu Joinville graças ao Festival de Dança e por aqui ficou.

Elaine viveu até os 9 anos em Alegrete, quando a família se mudou para Santa Maria.Neta de músicos, pegou gosto pela arte muito cedo: “Minha avó materna era cantora, e lá na fronteira ouvíamos muito tango, devido à proximidade com a Argentina. Fui baliza de bandas e fanfarras e participei muitas vezes de programas de auditório, cantando e dançando. Também integrei o grupo folclórico Chaleira Preta”.

Em Santa Maria, Elaine estudou balé clássico e praticou ginástica olímpica, chegando à Seleção e se tornando técnica da modalidade. Acabou unindo a arte e o esporte na faculdade, formando-se em educação Física com especialização em jazz, pela UFSM (Universidade Federal de Santa Maria). Fundou então a primeira academia de dança de Santa Maria, a Andança.

Dançando em Joinville

Elaine conviveu com o Festival de Dança desde as primeiras edições, assistindo às apresentações e participando de quantos cursos fosse possível. Por aqui, acabou conhecendo Wily Gonçalves, com quem se casou em 1989. “Meu primeiro trabalho em Joinville foi na Academia Podium, dando aulas de ginástica e dança. Uma das minhas colegas era Fabíola Bernardes, também recém-chegada a Joinville.” Algum tempo depois, Eliane foi para a Comdança – Companhia Joinvilense de Dança –, fundada pela amiga Fabíola. “Na Comdança também dancei com Haroldo Marinho, outro mineiro como Fabíola, que chegou via festival”, completa Elaine.

Em 1992, já mãe de Jessica (bailarina até os 14 anos e hoje publicitária), Elaine refundou a Andança, junto com Manoel Batista. “Participamos do Festival de Dança e projetamos na cena brasileira o grupo Streeter’s Tribe, que executava street dance com uma história, um roteiro, aproximando-se do jazz.” As performances do grupo renderam uma pilha de troféus e o reconhecimento ao trabalho pioneiro de Elaine.

Em 2009, Elaine se desligou da Andança, já pensando num projeto mais amplo. Os planos se concretizaram em 2011, com a fundação do grupo A.Z Arte Atividades Complementares. “Escolhi o nome justamente para dar a conotação de um amplo espectro da arte, de A a Z”, justifica. A grade de cursos, variada, tem acrobacia, diversos gêneros de dança do clássico ao contemporâneo, idiomas (espanhol e inglês), treinamento funcional e o inédito técnico em dança. Uma equipe de 20 professores atende hoje cerca de 200 alunos, em horários do contraturno escolar. Para 2014, Elaine já planejou disputar as seletivas do Festival de Dança para o Meia Ponta, com jazz, e na competitiva de street e jazz com o grupo sênior do A.Z Arte.

Além do dia-a-dia na escola, Elaine ainda participa do Grupo Folclórico Italiano Le Belle Amice, do bairro Vila Nova, e foi escolhida para integrar o Conselho Municipal de Cultura, como representante da dança (assume em agosto de 2014). O ano prestes a se iniciar traz mais planos: “Queremos expandir a escola e levar os professores para dar aulas em outras cidades, pois já temos muitas solicitações”. Assim, como faz há 35 anos, Elaine não para, seguindo o rumo do seu próprio coração.


Os 50 anos de sacerdócio de monsenhor Helmuth Berkenbrock, pároco do Vila Nova, em Joinville

De origem humilde, o religioso que descobriu a vocação ainda menino conseguiu formar-se na Alemanha, onde rezou sua primeira missa
Fotos Luciano Moraes/ND
Monsenhor Helmuth hoje dedica-se a professar a religião católica na região do bairro Vila Nova

 

- Mãe, pai, quero ser padre!

Quantas crianças e jovens já disseram essa mesma frase para os pais, mudando apenas uma ou outra palavra (ou variando a entonação)? Pois foi assim mesmo, de supetão, que o pequeno Helmuth, então com 12 anos, descobriu e comunicou sua vocação. A certeza da opção tomada estará, mais uma vez, comprovada neste domingo, dia 22 de dezembro, quando monsenhor Helmuth Berkenbrock comemora 50 anos de ordenação sacerdotal.

A história começa no dia 25 de maio de 1936, quando nasceu o primeiro dos sete filhos dos Berkenbrock, na pequena localidade de São Luís da Vargem do Cedro, no interior do município de Imaruí, no Sul do Estado. “Meu pai era primo-irmão de Albertina Berkenbrock, e falava muito dela”, conta o monsenhor, referindo-se à menina morta aos 12 anos e beatificada em 2007. A Helmuth não faltou o traquejo do trabalho duro na roça, ajudando na criação de porcos e no cultivo de milho e feijão. Tinha 6 anos quando a família migrou para Presidente Getúlio, no Alto Vale, estabelecendo-se na localidade de Serra dos Índios. “Nós nos sentíamos em casa, pois lá já residiam muitas famílias de Vargem do Cedro. Quando eu tinha 12 anos, o padre Conrado Rech, irmão do meu avô, me acendeu a faísca da vocação, durante a catequese.” Decisão tomada e comunicada, Helmuth iniciou o ginásio no Seminário Nossa Senhora da Salete. Depois, o curso superior de filosofia em Viamão, na grande Porto Alegre. Formado, retornou a Salete para dar aulas, exatamente quando o seminário era transferido para a vizinha Taió.

Foi então que o noviço levou dois sustos. Ele conta: “O reitor do seminário era o padre Tito Buss (ex-bispo de Rio do Sul, falecido em abril deste ano), e ele um dia me deu um susto, dizendo que eu deveria sair do seminário. Antes que eu dissesse qualquer coisa, ele explicou que o bispo diocesano, dom Gregório, determinara que eu deveria cursar Teologia em Roma!”.

Atravessando o Atlântico

Em 1959, o menino de São Luís da Vargem do Cedro embarcava num navio, rumo à Itália. O idioma não foi problema: “O grupo em que eu estava ficou no colégio Pio Brasileiro. E a faculdade fiz na Universidade Gregoriana, onde só falávamos latim, idioma que aprendi no seminário”. Durante a estada em Roma, padre Helmuth aproveitou o tempo livre para conhecer os principais pontos turísticos e religiosos. A emoção aflora ao recordar a visita à igreja da Santa Cruz de Jerusalém, onde estão expostos fragmentos da cruz de Cristo.

Quando Helmuth se formou, nova surpresa envolveu a sua ordenação: “Dom Gregório estava em Roma, para o Concílio Vaticano 2º, e me avisou que a ordenação seria em Munique, na Alemanha, em agradecimento aos recursos que a Igreja alemã havia destinado à minha formação. Como era longe, meus pais e irmãos não puderam ir; em compensação, compareceram vários Berkenbrock do Norte da Alemanha”. Também lá estavam amigos do tempo de seminário, entre eles o atual monsenhor Bertino Weber, que estudava na Suíça.

 

 

Paróquia Nossa Senhora Medianeira, no Vila Nova, em Joinville, obra idealizada pelo monsenhor, que hoje também mora no bairro

 

Helmuth rezou sua primeira missa na igreja de São Sebastião, na Westfália, região Noroeste da Alemanha. De volta ao Brasil em 1964, como padre secular (a serviço da diocese, sem pertencer a uma ordem específica), foi designado auxiliar de dom Gregório Warmeling. Daí em diante, sua carreira foi pontuada pelo trabalho de instalar novas paróquias, como a de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, no Boa Vista (“Eu pedi para que fosse projetada uma igreja grande, em formato circular, pois previa o crescimento do bairro”). Depois de sete anos em Indaial, assumiu a coordenação diocesana de pastorais, passou pelas paróquias Nossa Senhora de Fátima (Glória), São José Operário (Floresta), Nossa Senhora Aparecida em Blumenau e, desde 2011, está na paróquia Nossa Senhora Medianeira, no Vila Nova, onde também reside. Foi nomeado monsenhor em 1997.


Paula Campos, a locomotiva da comunidade da Estrada Jativoca, prefere ensinar a pescar

Líder comunitária se destaca pela disposição em ajudar ao próximo, orientando-o para ser responsável pelo seu próprio destino
Luciano Moraes/ND
Maria Paula Campos (D) e a irmã Neide preparando os presentinhos que as crianças da comunidade receberam no Natal

 

 

Maria Paula Campos é alguém que, no seu dia-a-dia, como voluntária a serviço da comunidade, coloca em prática a velha máxima de que “melhor que dar o peixe é ensinar a pescar”. Como coordenadora da capela Nossa Senhora Aparecida, na Estrada Jativoca, vem exercendo um papel de liderança, especialmente junto ao Clube de Mães, que ela fundou há duas décadas. “Antes de pensar em assistencialismo, objetivamos a capacitação das mães, despertando nas famílias a consciência da partilha e da colaboração.”

Partilhar e colaborar são atitudes que fazem parte da vida de Paula desde que ela nasceu, há 58 anos, na localidade de Santa Cruz, interior de Barra Velha. Terceira de sete irmãos, garante que o trabalho duro na lavoura não prejudicou ninguém. Ao contrário, ajudou a forjar pessoas fortes e incansáveis: “Nossa família plantava arroz, e todos ajudavam no cultivo”. Com o tempo, em busca de novas perspectivas, os filhos homens começaram a migrar em direção a Joinville e à indústria. Em 1973, enfim, toda a família se instalava no bairro Nova Brasília, então um pequeno aglomerado de casas ao longo dos trilhos.

Com a morte prematura do pai, vítima de infarto, coube à mãe, Teresa, tomar as rédeas e encaminhar os filhos mais novos na vida. “Mamãe está com 80 anos, e até há pouco tempo ainda participava das atividades comunitárias, fazendo e ensinando crochê”, diz a irmã dela, Neide Marize, 55, que mora com a mãe num dos sobrados que a família construiu – dois deles estão alugados por mercados no piso térreo.

 

Das novenas ao Clube de Mães

 

Paula participava das novenas natalinas da paróquia São José Operário, nas quais os paroquianos arrecadavam roupas e outros donativos, para distribuir entre famílias pobres. “Um dia – conta – o padre Helmuth, nosso pároco, me sugeriu conhecer a capela do Jativoca, onde poderia realizar um trabalho comunitário mais amplo, numa região muito carente. Não havia nem igreja, tudo era feito num pequeno galpão.” Paula acatou a sugestão – e o apoio – das amigas Diva Pisetta e Verônica Delabenetta e fundou, em 1993, o Clube de Mães da capela Nossa Senhora Aparecida.

“Na primeira reunião que convocamos – lembra – não veio ninguém. Insistimos, e no segundo encontro compareceram cinco. No fim do ano, 15 mães faziam parte do grupo. No terceiro ano, já éramos 80!” Reforçando o aspecto da capacitação, o clube ensina atividades artesanais, como crochê, bordado e pintura. “Assim, oferecemos às mulheres a possibilidade de exercer um ofício e reforçar o orçamento familiar com a venda das peças por elas produzidas.”

Com o tempo, Paula foi assumindo mais responsabilidades, trouxe Neide, buscou recursos para construir a igreja (inaugurada há uma década), foi catequista, conseguiu tornar o Clube de Mães uma organização social de utilidade pública com direito à subvenção e há um ano acompanha as obras do novo e amplo salão paroquial.

“Há dez anos, o padre Jorjão me convenceu a assumir a coordenação da capela”, acrescenta, referindo-se ao padre Jorge Luiz da Silva, atual pároco. “Padre Jorjão, sim, é ‘o cara’. Graças à sua obstinação e empenho, hoje temos essa bela igreja”, reconhece.

Paula também guarda palavras de carinho e reconhecimento a outras pessoas que ajudaram ou ainda ajudam, como o ex-vereador Dentinho, responsável direto pela instalação do postinho de saúde, além do ex-prefeito Tebaldi e a mulher, Dilamar, e o ex-deputado e secretário Eni Voltolini.

Quando o salão estiver concluído, em março, serão retomadas as atividades do Clube de Mães, com espaço também para a orientação de crianças e adolescentes. Na terça da semana passada, Paula e Neide estavam na expectativa pela visita de estudantes da Faculdade Cenecista, que pelo segundo ano iriam levar presentes para a comunidade, graças ao projeto de “adoção” de cartinhas das crianças do Jativoca. “As crianças são conscientes. Em vez de brinquedos pedem coisas úteis para suas famílias.” Ainda assim, brinquedos não vão faltar neste Natal, graças às doações voluntárias de pessoas e empresas amigas.

RECONHECIMENTO

Paula Campos já ganhou, entre outras, as distinções Mulher Cidadã, da Câmara de Vereadores, e Medalha Antonieta de Barros, da Assembleia Legislativa.

 

* Perfil sugerido pelo leitor Ivanir Simeoni


Dari Kappke poderia se aposentar, mas gosta mesmo é de conciliar dois amores: trabalho e futebol

O gaúcho fanático por futebol e um eterno apaixonado pelos times das cidades em que morou, agora aposta todas as fichas no São Luís
Fabrício Porto/Divulgação/ND
Kappke no campo do São Luís: muitos planos para melhor a sede do clube que vem despontando no futebol local: diversão e incentivo ao esporte

 

O gaúcho Dari Kappke sempre foi um fanático por futebol, seja jogando, seja torcendo para os times das diversas cidades em que morou – e sempre pelo Internacional. Por isso, foi com tristeza que, há uns três anos, precisou abrir mão dos joguinhos das terças e quintas. “Pesaram a idade e um problema crônico no joelho”, justifica, aos 61 anos. Porém, a paixão continua, pelo Colorado e pelo JEC, “adotado” há 14 anos, quando chegou a Joinville.

“Também sou torcedor fanático do São Luís”, acrescenta, atualmente exercendo pela segunda vez a presidência do clube. Da mesma forma que o campo, para ele é difícil deixar a rotina do trabalho na Cromoville, empresa que fundou logo que se estabeleceu na cidade: “Eu havia decidido que, ao completar 60 anos, começaria a transição, folgando às segundas. Mas os filhos já nem perguntam mais o que estou fazendo lá. O hábito é muito forte”.

Kappke começou a rotina do trabalho ainda guri, ajudando a família na lavoura de fumo no distrito de Formosa, em Santa Cruz do Sul, principal polo nacional da cultura. “Plantávamos de tudo um pouco para subsistência e fumo como fonte de renda. Toda a produção era adquirida pelas processadoras, especialmente a Souza Cruz.”

Na vila, se divertia jogando bola pelos campinhos. Aos 13 anos foi fazer o ginásio na sede do município, onde chegou a envergar a camisa alvinegra do Santa Cruz, nas categorias de base (“Era apenas esforçado, não passei do infanto-juvenil”).

Aos 20 anos, formado torneiro mecânico pelo Senai, assinava pela primeira vez a carteira de trabalho, como projetista na Agrale e depois na Pigozzi, empresas de Caxias do Sul. Mudança de cidade, nova paixão: “Torcia para o Juventude”. Também começou a se envolver com organização esportiva, coordenando as competições internas na Pigozzi e a participação dos times da empresa nos torneios sesianos.

Mas a grande paixão conquistada em Caxias do Sul se chama Ivani, com quem se casou em 1975. Em 1989, nova mudança de cidade – e mais um time no coração. “Fui trabalhar na Sulcromo, em São Leopoldo, e virei torcedor do Aimoré.” A proximidade com Porto Alegre proporcionava, também, mais oportunidades de frequentar as arquibancadas do Beira-rio e torcer pelo Inter.

 

Em Joinville, se firmou como empresário

 

Dari Kappke desembarcou em Joinville em junho de 1999, para montar e dirigir uma filial da Sulcromo. Pouco tempo depois, com a decisão da empresa encerrar as atividades da subsidiária, ele adquiriu imóvel e maquinários e virou empresário, fundando a Cromoville. “Só mudamos de camisa, a equipe continuou a mesma. Meus filhos e minha mulher trabalham comigo.”

A empresa se dedica ao beneficiamento do cromo duro industrial, o elemento mais duro da natureza depois do diamante (uma camada superficial de cromo metálico é aplicada galvanicamente nas mais variadas peças, sendo um revestimento com alta dureza e elevada resistência ao desgaste).

Mesmo morando no Floresta, perto da empresa, durante muitos anos Kappke atravessou a cidade para jogar society no Planet Ball, no Espinheiros. “Em 2005, comecei a sentir dores nos joelhos, devido à rigidez do sintético, e descobri o São Luís.” A partir de então, pelos cinco anos seguintes, Kappke fez parte da turma que batia bola duas vezes por semana, na grama natural. Integrado ao clube, a partir de 2007 começou a fazer parte da diretoria, atualmente na segunda gestão como presidente. “Temos hoje 33 sócios patrimoniais e uma dúzia de sócios-atletas. Disputamos o Copão (o clube foi campeão em 2005) e promovemos a Copa São Luís. Estamos investindo agora na transformação do antigo campo de areia em sintético”, informava Kappke, enquanto o ecônomo Jarbas, responsável pela manutenção do clube (e presidente do Atlanta, campeão da Terceirona), já se dedicava aos preparativos para a festa de encerramento das atividades no ano, onde se deliciariam com uma costela-de-chão. Mas todas as segundas, à exceção das férias, Kappke deve estar no lugar de sempre, na sala da direção de sua empresa.

 

Perfil sugerido pelo leitor Ademir Batista, o “Karatê”


Heraldo Valle foi o primeiro secretário de Planejamento de Joinville, na administração Bender

“O protagonista foi o prefeito Nilson Bender. Nós éramos coadjuvantes”, diz com a modéstia que lhe é peculiar. Ele ainda vem à cidade dar expediente alguns dias por semana

Rogério Souza Jr./ND
Valle mora desde 1981 em Florianópolis, mas passa alguns dias da semana em Joinville, atendendo em seu escritório da rua Dona Francisca

 

“O protagonista foi o prefeito Nilson Bender. Nós éramos coadjuvantes.” A modéstia impede que ele assuma qualquer mérito, mas na história recente de Joinville o registro é claro: Heraldo Valle foi o principal artífice do plano de governo da gestão Bender (1967-71), como primeiro titular da então nova Secretaria de Planejamento.

Consultor e empresário de sucesso nos ramos de administração, construção civil e incorporações imobiliárias, Valle guarda zelosamente alguns exemplares do “Plano de Ação” que resultou no choque de gestão legado por Bender (falecido em maio deste ano).

No grosso calhamaço estão textos, planos, projetos, plantas, gráficos e outros detalhes das várias obras executadas naqueles quatro anos. Hoje morando em Florianópolis, Heraldo Valle mantém os laços com Joinville, dando expediente três dias por semana em sua empresa, a Valle Empreendimentos e Participações.

Heraldo Ribeiro Silva do Valle nasceu em Niterói, na época capital do Estado do Rio de Janeiro, em 1937. Sonhando ser engenheiro civil, aos 16 anos foi aprovado no concorrido exame de admissão ao Colégio Naval. “Eu já havia sido aprovado em primeiro lugar, anos antes, no exame de admissão ao ginásio do Colégio Salesiano de Niterói, e novamente passei entre os primeiros no Colégio Naval em Angra dos Reis”, orgulha-se. Concluído o segundo grau, transferiu-se para a Escola Naval do Rio de Janeiro, formando-se guarda-marinha. “A viagem de instrução – conta – durou uns oito meses, numa verdadeira volta ao mundo.”

A parada seguinte foi na Escola de Aprendizes Marinheiros de Florianópolis, onde se formou em Economia pela UFSC. Botafoguense fanático, bom de bola, na capital catarinense Valle descobriu o futebol de salão. “Joguei pelo Bocaiúva e fui bicampeão estadual. O título de 1961 foi conquistado contra o Paula Ramos, nas finais disputadas em Joinville, no Palácio dos Esportes.” De volta ao Rio de Janeiro, encerou a carreira na Marinha, com a patente de capitão-tenente.

 

Raízes em Joinville

 

Quando Nilson Bender venceu a eleição para a Prefeitura, em 1966, convidou Heraldo Valle a criar e comandar uma assessoria de Planejamento. “A intenção do prefeito – recorda Valle – era promover uma ampla reforma administrativa, já prevendo o crescimento que Joinville experimentaria nas décadas seguintes. Ele foi um visionário, e procurou se cercar de pessoas comprometidas e especializadas nas funções determinadas.”

Além do plano de governo (elaborado com consultoria do Instituto Brasileiro de Administração Municipal, o Ibam), outra incumbência de Heraldo Valle foi implantar uma faculdade de Filosofia, o que o levou a uma espécie de “benchmarking” na PUC do Paraná, de onde trouxe o modelo que se consolidou na Fundaje – Fundação joinvilense de Ensino (precursora da Furj e da atual Univille). Paralelamente à função pública, Valle dava aulas na faculdade de Ciências Econômicas.

Ao deixar o governo, no fim da gestão, Heraldo Valle permaneceu em Joinville, onde já criara raízes. Criou uma empresa de consultoria, a Planac, prestando assessoria em administração pelo estado inteiro. Em 1974, associado a Dieter Schmidt, adquiriu o controle da Keller Técnica, empresa fundada pelo sogro, atuante no segmento da construção civil. “Erguemos várias obras, como o Hotel Tannenhof e projetos habitacionais, como o Belvedere (primeiro condomínio horizontal da cidade) e o Parc de France.” Seguiu-se a HV Empreendimentos Imobiliários, sucedida pela atual Valle Empreendimentos e Participações. Em Joinville, Heraldo Valle tornou-se torcedor do JEC, do qual chegou a ser diretor, e costumava promover animadas partidas de futebol no campo ao lado de casa, no Saguaçu. Desde 1981 morando em Florianópolis, vem toda semana ao escritório de sua empresa na rua Dona Francisca.

Do tempo de vida pública, ficaram saudades da verdadeira “revolução administrativa” promovida na gestão Bender. Mais que prefeito, para Heraldo Valle ele foi um amigo. Restou um derradeiro momento de emoção: “No aniversário dele, em fevereiro deste ano, dei de presente uma gravata azul e preta. Ele foi enterrado com ela”.


Maria Laura Garcia Packer festeja o pioneirismo da Casa de Yoga, que completa 25 anos em Joinville

Da filosofia oriental, ela compartilha conhecimentos e cultiva hábitos como o vegetarianismo e o veganismo
Fabrício Porto/ND
Maria Laura tem como uma de suas marcas a calma inabalável, em um ambiente em que a leitura e um estilo de vida saudável são fundamentais

 

“Durante estes anos, pude compreender a profundidade do yoga e a importância de manter atitudes como a meditação e hábitos como o vegetarianismo.” O tom de voz suave e a calma inabalável pontuam toda a conversa com Maria Laura Garcia Packer, fundadora da Casa do Yoga, que completou 25 anos em 2013, pioneira em Joinville na difusão da filosofia oriental. Praticante, incentivadora e instrutora, Laura é também uma promotora de viagens, levando pessoas a lugares místicos – atualmente, divulga um roteiro programado para o Peru, em maio do ano que vem.

Viajar pelo mundo, por sinal, é uma realização de um sonho acalentado desde que ela resolveu, ainda adolescente, aprender inglês. Sexta de oito irmãos, Maria Laura nasceu em Joinville há 54 anos. Criada no bairro Floresta, estudou nos colégios João Colin (onde conheceu a famosa xará, a diretora Maria Laura Eleotério, falecida em março de 2012: “Ela era realmente rigorosa”, confirma) e Elias Moreira (“Fui da primeira turma de informática, numa sala em que o computador ocupava quase uma parede inteira!”). Foi na época do ensino médio que resolveu se matricular no Centro Cultural Brasil-Estados Unidos, para aprender inglês e realizar o sonho de viajar pelo mundo. De 1980 a 83 morou em Florianópolis, onde fez a faculdade de Letras com especialização em inglês. Durante o período na capital, uma nova luz surgiu em seu horizonte, com a descoberta do vegetarianismo e do veganismo (vegetarianismo é o regime alimentar que exclui todos os tipos de carne; veganismo é uma filosofia de vida motivada por convicções éticas com base nos direitos animais, excluindo a carne e qualquer derivado animal, como leite ou mel).   Do veganismo ao yoga   Em 1984, de volta a Joinville e casada com o dentista Gilmar Packer, Maria Laura começou a praticar o yoga. Dois anos depois passou a dar aulas, utilizando o espaço da Associação Colon de Judô. Em 1988, enfim, fundou a Casa de Yoga Shanti Om (que significa “paz universal” em sânscrito), inicialmente instalada na rua Eugênio Moreira e, há quatro anos, na Valdemaro Maia, 130, no Bucarein (mesma rua onde Gilmar tem consultório odontológico e onde o casal mora). “O yoga – diz Laura – permite abrir a mente para vários níveis de espiritualidade. É como uma cebola com suas camadas, aumentando a densidade à medida que é descascada.” A partir de 1990, com a primeira passagem pela Índia, Laura começou a realizar o sonho de conhecer o mundo. Vai com frequência aos países orientais onde a filosofia budista é mais forte, devotando especial predileção pelo Butão, “um pequeno, mas muito espiritualizado país, onde as tradições ainda são mantidas”. Também já fez cursos nos Estados Unidos e promove excursões a terras místicas. Em 1992, fundou a Chacarananda Ashram, num sítio em Campo Alegre, um local de retiro, meditação, estudo e prática de yoga e autoconhecimento. Na Casa de Yoga, com mais dois professores, são dadas aulas e cursos de formação de instrutores, além de terapia ayurvédica, shiatsu, reiki e terapia natural. Os cursos também são dados em outras cidades dos estados do Sul, do Nordeste e de São Paulo. Desde 1996 Laura edita o Jornal do Yoga, hoje uma revista semestral. Também já lançou três livros: “Vegetarianismo – Sustentando a Vida” (2007), “A Senda do Yoga” (2008) e “Viver Vegetariano” (2010). Para 2014, além da excursão ao Peru, a programação da Casa do Yoga tem agendada a visita do monge hindu Swami Omkarananda, pela primeira vez em Joinville.       Yoga ou ioga?   Maria Laura Packer esclarece: “A forma hindu é ‘o yôga’, e o termo aportuguesado é ‘a ióga’. Ambos podem ser utilizados”.     Contato Casa de Yoga Shanti Om: rua Valdemaro S. Maia, 130, Bucarein, 3433-3706 / 9995-2676. Chacarananda Ashram: Campo Alegre, 9270-2001 / 9245-2001 / 3455-0374, www.chacarananda.com.br / contato@chacarananda.com.br

 

“Durante estes anos, pude compreender a profundidade do yoga e a importância de manter atitudes como a meditação e hábitos como o vegetarianismo.” O tom de voz suave e a calma inabalável pontuam toda a conversa com Maria Laura Garcia Packer, fundadora da Casa do Yoga, que completou 25 anos em 2013, pioneira em Joinville na difusão da filosofia oriental. Praticante, incentivadora e instrutora, Laura é também uma promotora de viagens, levando pessoas a lugares místicos – atualmente, divulga um roteiro programado para o Peru, em maio do ano que vem.

Viajar pelo mundo, por sinal, é uma realização de um sonho acalentado desde que ela resolveu, ainda adolescente, aprender inglês. Sexta de oito irmãos, Maria Laura nasceu em Joinville há 54 anos. Criada no bairro Floresta, estudou nos colégios João Colin (onde conheceu a famosa xará, a diretora Maria Laura Eleotério, falecida em março de 2012: “Ela era realmente rigorosa”, confirma) e Elias Moreira (“Fui da primeira turma de informática, numa sala em que o computador ocupava quase uma parede inteira!”). Foi na época do ensino médio que resolveu se matricular no Centro Cultural Brasil-Estados Unidos, para aprender inglês e realizar o sonho de viajar pelo mundo. De 1980 a 83 morou em Florianópolis, onde fez a faculdade de Letras com especialização em inglês. Durante o período na capital, uma nova luz surgiu em seu horizonte, com a descoberta do vegetarianismo e do veganismo (vegetarianismo é o regime alimentar que exclui todos os tipos de carne; veganismo é uma filosofia de vida motivada por convicções éticas com base nos direitos animais, excluindo a carne e qualquer derivado animal, como leite ou mel).   Do veganismo ao yoga   Em 1984, de volta a Joinville e casada com o dentista Gilmar Packer, Maria Laura começou a praticar o yoga. Dois anos depois passou a dar aulas, utilizando o espaço da Associação Colon de Judô. Em 1988, enfim, fundou a Casa de Yoga Shanti Om (que significa “paz universal” em sânscrito), inicialmente instalada na rua Eugênio Moreira e, há quatro anos, na Valdemaro Maia, 130, no Bucarein (mesma rua onde Gilmar tem consultório odontológico e onde o casal mora). “O yoga – diz Laura – permite abrir a mente para vários níveis de espiritualidade. É como uma cebola com suas camadas, aumentando a densidade à medida que é descascada.” A partir de 1990, com a primeira passagem pela Índia, Laura começou a realizar o sonho de conhecer o mundo. Vai com frequência aos países orientais onde a filosofia budista é mais forte, devotando especial predileção pelo Butão, “um pequeno, mas muito espiritualizado país, onde as tradições ainda são mantidas”. Também já fez cursos nos Estados Unidos e promove excursões a terras místicas. Em 1992, fundou a Chacarananda Ashram, num sítio em Campo Alegre, um local de retiro, meditação, estudo e prática de yoga e autoconhecimento. Na Casa de Yoga, com mais dois professores, são dadas aulas e cursos de formação de instrutores, além de terapia ayurvédica, shiatsu, reiki e terapia natural. Os cursos também são dados em outras cidades dos estados do Sul, do Nordeste e de São Paulo. Desde 1996 Laura edita o Jornal do Yoga, hoje uma revista semestral. Também já lançou três livros: “Vegetarianismo – Sustentando a Vida” (2007), “A Senda do Yoga” (2008) e “Viver Vegetariano” (2010). Para 2014, além da excursão ao Peru, a programação da Casa do Yoga tem agendada a visita do monge hindu Swami Omkarananda, pela primeira vez em Joinville.     (box)   Yoga ou ioga?   Maria Laura Packer esclarece: “A forma hindu é ‘o yôga’, e o termo aportuguesado é ‘a ióga’. Ambos podem ser utilizados”.     Contato Casa de Yoga Shanti Om: rua Valdemaro S. Maia, 130, Bucarein, 3433-3706 / 9995-2676. Chacarananda Ashram: Campo Alegre, 9270-2001 / 9245-2001 / 3455-0374, www.chacarananda.com.br / contato@chacarananda.com.br

Osmari Correa se transforma no palco para dar vida a Kiko e Cesar em sua versão ventríloquo

Foram meses na frente do espelho, até que artista, que se dedica também ao ukulelê, se sentisse preparado para enfrentar uma plateia com seus personagens
Fotos Luciano Moraes/ND
Correa e Cesar diverte crianças da rede municipal: criatividade em um mundo a ser desvendado

 

 

Nascido há 49 anos em Joinville, Osmari Cesar Correa dedica-se a duas atividades incomuns na cidade. Músico de profissão, ele ensina a tocar ukulelê, instrumento parecido com o cavaquinho, que desfruta de grande popularidade nas ilhas do Havaí. De quebra, ele é também ventríloquo profissional, técnica de falar sem praticamente mover os lábios.

Dono de fala mansa e invariável bom humor, Correa se orgulha de nunca ter ficado um dia sem emprego depois de completar 15 anos. “Comecei como entregador de flores, depois passei pelo escritório da Hansen, por um banco e até por um laboratório.”

Paralelamente a tão diferentes trabalhos, Correa fazia calos nos dedos de tanto tocar violão e outros instrumentos de corda. Tamanha dedicação revelou-se compensadora. Hoje, ele é professor de ukulelê e violão na Casa Brasil Sul, da Fundamas (Fundação Municipal Albano Schmidt). Informa que o ukulelê, apesar de bem parecido com o cavaquinho, é um instrumento de quatro cordas, mas de nylon, e por isso o som que emite é bem diferente.

A carreira de ventríloquo surgiu bem depois da música. Sem segurar uma boa risada, Correa conta que seu interesse por esse tipo de arte popular foi despertada por uma novela mexicana. “Eu me apaixonei com o desempenho de um que aparecia na tela da televisão. Com dois bonecos no colo, ele fazia a plateia de um circo se entortar de tanto rir. Gostei daquilo e botei na cabeça a ideia de que um dia haveria de ser um bom ventríloquo”, assinala.

Plano traçado, começou então a ensaiar na frente de um espelho por horas intermináveis durante longos meses. Já com boa técnica, ainda esbarrava num problema: faltavam os bonecos para dar vida a dois personagens saídos de uma imaginação.

 

 

Com o sisudo personagem Kiko, boneco trazido do Recife, ele completa o trio que diverte gerações

 

 

A salvação da lavoura  partiu de uma colega de trabalho. “Ao visitar a cidade de Recife, ela me trouxe o boneco Kiko. Aqui em Joinville, o professor e artista plástico Valério confeccionou o Cesar. Assim, comecei a fazer show na cidade. Hoje sou convidado a me apresentar com Kiko e Cesar em todo o Litoral Norte catarinense”, destaca, com uma pontinha de orgulho.

Com os dois bonecos, o artista está sempre pronto para fazer apresentações em Joinville e arredores. “Parte dos shows é de caráter social, não cobro nada de comunidades crentes. Minha grande recompensa é ver crianças de famílias simples soltando a risada de graça”, enfatiza.

Ele aproveita para dar características da personalidade de Kiko e César. “O Kiko é sisudo, chega a assustar as crianças com seu jeito fechado. Mas é só aparência. Com muita irreverência, ele conquista a simpatia em poucos minutos. Já Cesar é do tipo engraçado, que antes de abrir a boca já cai nas graças de todos. É com essa dupla que vou fazendo um trabalho que pincelei de uma novela mexicana”, diz o popular artista.

 

Interessados em contratar os serviços do ventríloquo podem fazer contato pelo fone 8482-0013

 


Primeiro ortopedista de Joinville, aos 86 anos Hans Werner Baschung continua na ativa

Recém-formado e disputado em uma área ainda incipiente, ele optou pela cidade natal para fazer carreira e se orgulha das conquistas e do pioneirismo
Fotos Fabrício Porto/ND
Baschung em seu consultório, onde concentra os materiais e equipamentos de uma carreira prestes a completar 59 anos

 

 

“Medicina não é só técnica;

é arte e sacerdócio.”

 

“Em 1955, não havia serviço especializado em ortopedia e traumatologia em Joinville. Os médicos precisavam se superar quando atendiam casos de fraturas. Hoje, vemos com satisfação o Hospital São José como uma referência no setor – ainda que as dificuldades tenham aumentado.” Foi naquela época, há 58 anos, que o médico recém-formado Hans Werner Baschung decidiu se especializar no ramo em que foi o pioneiro na cidade e no qual ainda hoje, aos 86 anos, continua atuando.

Criado numa Joinville pouco urbanizada, Baschung jogou bola, pescou e se divertiu nos campos e pastos da região onde hoje começa o bairro Costa e Silva, na rua Guilherme, antes que a família se mudasse para a rua Ipiranga (atual Plácido Olímpio). “Um dos locais onde a gurizada brincava muito era nos campinhos que ficavam atrás da Ambalit, empresa fundada por meu pai, Teóphilo.”

Estudou na Escola Alemã, a Deutsche Schulle, no Conselheiro Mafra e no Bom Jesus, antes de se transferir para Curitiba, onde fez o ensino médio como interno no Colégio Paranaense. “Minha vocação – conta – despertou quando estava no 3º ano do científico e morreu meu irmão Paulo, com apenas 24 anos, de uma suposta infecção hepática. Ali decidi que seria médico, para enfrentar situações como aquela.”

Aprovado logo no primeiro vestibular, formou-se em medicina pela Universidade Federal do Paraná, em 1954. Ainda sem uma decisão tomada quanto à especialização, no 4º ano começou a participar de cirurgias, dissecando cadáveres. “Numa de minhas férias – relata – estava, como sempre, dando uma mão na enfermaria do Hospital São José, na época gerido pelas irmãs da Divina Providência e tendo na provedoria Otto Richter. Auxiliando o dr. Aluísio Condeixa, um cirurgião de mão cheia, verdadeiro mestre nas suturas, percebi a carência na traumatologia, e resolvi me especializar nessa área.”

 

“Estágio” em Pirabeiraba

 

Formado, Hans Baschung decidiu fazer uma espécie de “estágio voluntário em Pirabeiraba”, antes de encarar o São José e suas dificuldades. “Passei meses lá, com duas maletas onde levava instrumentos e fazia esterilização. Aprendi a suturar com um alfaiate. E durante a carreira percebi que se conhece a delicadeza de um cirurgião pela qualidade das suturas.”

Entre as muitas situações que enfrentou, Baschung se emociona ao relembrar dos partos que realizou. “Teve um que me marcou, no final da estrada Quiriri. Fui, com o farmacêutico Zuege, de táxi até um trecho, e depois de carroça. Tudo correu muito bem”, lembra.

Assim que, como diz, “criou asas”, Baschung foi trabalhar no Hospital São José. Especializou-se em traumatologia no Hospital das Clínicas de São Paulo e em ortopedia no Pavilhão Simonsen, na Santa Casa de Misericórdia (onde conheceu a enfermeira Abigail, com quem se casou em 1958. Falecida há cerca de um ano, Abigail Baschung foi uma das fundadoras do Banco de Olhos).

Baschung foi o primeiro ortopedista de Joinville, estabelecido desde 1957. “Depois de mim, vieram Mário Techy, Argemiro Boehm (perfil dia 28/11) e Niso Balsini (perfil em abril de 2010).” Além do São José (“Atendíamos tudo, desde picada de cobra”), Baschung trabalhou na Casa de Saúde (hoje hospital) Dona Helena e foi um dos fundadores da Unimed e da Sociedade Joinvilense de Ortopedia e Traumatologia.

Uma de suas marcas registradas é o desenho da fratura sobre o gesso, nos pacientes. Mora com três dos quatro filhos e ainda atende, três vezes por semana, na Clínica Balsini, com a filha Bárbara como secretária. Adepto de pescaria e fotografia, Baschung faz um balanço positivo da carreira: “Sou um otimista, sempre gostei de semear, não de colher. Cumpri minhas obrigações, não guardo qualquer mágoa e tenho orgulho do meu trabalho, que ajudou a ortopedia joinvilense a alcançar um alto nível de qualidade.”

 

Na parede do consultório, o diploma da Universidade do Paraná, com data de dezembro de 1954

 


Sensei Marcos Tavares Junior comemora 20 anos da introdução do aikidô em Joinville

Leveza, paz e harmonia caminham juntas com as orientações de defesa pessoal na prática milenar

“O aikidô, assim como as artes marciais orientais, ensina a prática da defesa pessoal e enfatiza a disciplina. Porém, mais que isso, valoriza a empatia, a humildade e o prazer de servir.” Com essa definição, o sensei (mestre ou professor) Antonio Marcos Tavares Junior justifica a movimentação diferente vista na manhã de sexta passada no dojo (local de aprendizado) do Instituto Tachibana de Aikido.

Em vez de movimentos de defesa pessoal, os alunos se empenhavam em atividades como lavar janelas, tirar pó e limpeza geral, como as donas de casa costumam fazer às sextas. “Segundas e sextas – explica o sensei – são dias em que todos participam da faxina e arrumação, demonstrando que assimilam os conceitos do aikidô.” Ele próprio dá o exemplo em casa, auxiliando nas tarefas domésticas e nos cuidados com as filhas, Alexandra e Marcela.

 

 

Fabrício Porto/ND
Tavares no doio, o local de aprendizado, onde as orientações vão bem além do movimento, pois mostram a importância da humildade em todos os momentos da vida

 

 

Disciplina e humildade são virtudes que nunca faltaram na formação de Tavares Junior, nascido há 38 anos em Joinville e criado entre os bairros Espinheiros e Boa Vista. “A família morava em São Francisco, e mudou-se para Joinville quando meu pai foi trabalhar na Tupy. Estudei nos colégios Adventista e Albano Schmidt, joguei muita bola nos campinhos do Boa Vista e comecei a trabalhar aos 9 anos, carregando caixas num supermercado. Não faltavam manchas roxas, mas aquilo me ajudou a mostrar o valor do trabalho”, conta.

Aos 14 anos, já empregado na Peixaria do Roque, fez curso técnico no CIS (Cento Interescolar de Segundo Grau), no Itaum, de olho no florescente mercado da informática. “Naquele tempo, um computador com memória de 10 megabytes valia mais que um carro”, compara, enquanto copia algumas fotos para o minúsculo pen drive de 4 giga do repórter.

Junior trabalhou 12 anos na área, foi analista de suporte, mas no íntimo nutria o desejo de se dedicar às artes marciais. “Desde a adolescência eu era apaixonado por artes marciais, e comecei com 14 anos, praticando full contact, o precursor do MMA.”

 

Fabrício Porto/ND
Tavares Junior hoje dá treino até mesmo para policiais, enfatizando a filosofia oriental

Dedicação ao aikidô

 

Depois de aprender hapkidô, capoeira e jiu-jitsu, Junior foi prestar o serviço militar – na Marinha, como o pai – e, no retorno à vida civil, conheceu o aikidô. “Meu instrutor foi o sensei Fernando Pilz, que veio de São Paulo, onde treinou com o sensei japonês Maruyama. Em 2000, o Fernando pediu que eu continuasse com as atividades. Fiz curso de massoterapia e abri a Associação Maruyama de Aikido em 2003, funcionando na Academia Colon.”

Em 2004, ele foi fazer a faculdade de educação física na Univille (formou-se em 2008), e no mesmo ano inaugurou a primeira academia de aikidô em Jaraguá. Em 2010, lançou-se na maior empreitada de sua carreira, construindo a casa onde instalou o Instituto Tachibana, na rua Xanxerê, entre os bairros Saguaçu e Iririú. “No dia da inauguração, veio até o mestre japonês Kitahira Shihan, que batiza o nosso dojo”, conta, ressaltando que os alunos ajudaram nas obras (fato comprovado nas fotos que ilustram um banner).

O instituto, além de oferecer aulas de aikidô (hoje são 110 alunos em Joinville e 25 em Jaraguá), se dedica a obras sociais. Em 2012, foi iniciado o projeto Defense Police, que ensina técnicas de defesa pessoal a policiais militares. Neste ano, Junior adaptou o curso para a área da saúde, e amanhã forma a primeira turma de enfermeiros e técnicos da ala psiquiátrica do Hospital Regional. Além disso, dá palestras em empresas, escolas e outras entidades e, toda quarta, abre o dojo para aulas gratuitas destinadas a policiais. Faixa preta de 3º grau, quer fazer mais, mas para isso precisa de apoio para adquirir equipamentos. “Um simulacro de arma custa até R$ 1.200”, exemplifica.

No ano que vem, quando o aikidô completa duas décadas em Joinville, seu principal incentivador quer comemorar com festa mas, sobretudo, com a ampliação dos projetos sociais. O objetivo final é alcançar e levar paz e harmonia, bases da filosofia do aikidô.

 

Perfil sugerido pelo leitor Cláudio Montenegro


Com criatividade e sensibilidade, Carmen Gehrmann é a mais requisitada para fazer trajes típicos

Moradora de Pirabeiraba, ela é conhecida como "a costureira das rainhas", assinando criações para as soberanas das festas da região
Rogério Souza Jr./ND
Carmen busca na natureza e nas flores que a cercam a inspiração para os caprichados bordados

 

Rainhas e princesas de festas típicas germânicas têm em comum, além da beleza e do carisma que as torna vencedoras, uma produção caprichada, que passa pelo traje típico, pela maquiagem e por eventuais coreografias. Em Joinville, quando se fala em traje, logo vem à lembrança o nome de Carmen Pries Gehrmann, a “costureira das rainhas”.

Das roupinhas de bonecas da infância aos elaborados vestidos, Carmen vem construindo uma reputação tão sólida quanto o muro em forma de amurada de castelo que delimita sua casa, na região central de Pirabeiraba. “Quando comecei a costurar e bordar, nem imaginava fazer disso um meio de ganhar dinheiro. Era apenas pelo prazer”, diz. O prazer, por sinal, continua o mesmo, a julgar pela empolgação da artista e pelo detalhismo dos belos vestidos.

Carmen nasceu há 53 anos e se criou no finalzinho da estrada do Pico, em meio à exuberante natureza da região. “Meu avô ajudou a abrir a estrada. Nossa família plantava de tudo um pouco, e meu pai também comercializava madeira. Tenho uma irmã mais velha e um irmão caçula, e nossas brincadeiras eram geralmente ao ar livre.” Um dos passatempos, porém, era exercitado dentro de casa: a confecção de vestidos para as bonecas. “Naquele tempo não havia tanta facilidade para comprar brinquedos, e a gente precisava usar a criatividade. Muito era improvisado.”

O dom da costura Carmen puxou da avó Alvina, uma das melhores da região. Mas a neta não teve aulas: “Crianças não podiam atrapalhar os adultos. Eu só podia olhar de longe e depois tentar repetir”. A matéria-prima, pelo menos, era farta: “Meu pai ganhava muitos retalhos da Lumière. Aí, eu pegava agulhas e linha da minha mãe, sem ela perceber, e fazia as roupinhas”.

 

Vestir a filha como princesa

 

Carmen fez o primário numa escola da localidade de  Rio da Prata e concluiu o ensino fundamental no colégio Olavo Bilac, no centro de Pirabeiraba, para onde a família se mudou quando ela tinha 15 anos. Seu primeiro e único emprego foi na antiga Malharia Bozler. “Fui bordadeira durante oito anos, e aprendi muito na firma.”

A carreira foi interrompida após o casamento com Victor Gehrmann, em 1984. Mas o sangue de costureira e bordadeira continuava correndo nas veias, à espera de um choque. Ele veio após o nascimento da primeira filha. “Eu queria vesti-la como uma princesa, e voltei a costurar e a bordar, agora para uma boneca de verdade.”

A empolgação veio com tudo, e Carmen resolveu buscar aperfeiçoamento, fazendo um curso de costura na Fundação Municipal 25 de Julho. “Mas era só para consumo doméstico, nem pensava em ser profissional”, esclarece.

Outro choque de incentivo surgiu nas competições de tiro da Sociedade Rio da Prata, das quais os Gehrmann participavam. “Quando vinham as festas de rei e rainha, era um trabalhão ir atrás de trajes típicos. Em Joinville, apenas J. Moser e a dona Marina faziam, mas era uma produção em série, feita em máquinas. À mão, só em São Bento. Foi aí que resolvi costurar e bordar à mão os vestidos.” Lá se vão uns 20 anos, e Carmen não parou mais.

A fama da costureira chegou aos ouvidos da jornalista e cerimonialista Nelci Seibel (perfil dia 16 passado), então trabalhando na Secretaria de Turismo. “A Nelci passou a encomendar todos os trajes para mim, desde a Fenatiro, a Fenachopp e hoje a Festa das Flores.”

Para a “corte” da principal festa do calendário joinvilense, Carmen confecciona seis vestidos, três pintados e outros três bordados. “Na festa desse ano, precisei contratar bordadeiras para me ajudar”, reforça. O trabalho não para, independentemente da demanda, e extrapola a cidade. “Esse vestido – explica, mostrando o modelo utilizado para a foto desta matéria – foi utilizado numa festa de Schroeder. E já entreguei um também para um baile do chope neste sábado, em São Bento.”

A inspiração para os belos ornamentos não saem da internet ou de revistas. “Eu observo os detalhes à minha volta, como flores ou os detalhes de uma cortina.”

 

Perfil sugerido por Nelci Seibel


Argemiro Boehm, o terceiro ortopedista a atuar em Joinville, não pensa em parar tão cedo

Mesmo aposentado, ele diz que diariamente se renova a vontade de ir para o consultório. E ele a segue
Fotos Fabrício Porto/ND
Argemiro gosta de viver assim, estudando, clinicando e desvendando o corpo humano na profissão que escolheu por sugestão de irmãos maristas

 

 

“Enquanto continuar sentindo vontade de vir para a clínica, não enxergo a reta final da aposentadoria.” É com essa disposição que, diariamente, o médico ortopedista Argemiro Boehm chega cedo à Clínica de Ortopedia e Traumatologia, onde comanda uma equipe de especialistas.

Um dos mais antigos ortopedistas em atividade em Joinville, já aposentado do serviço público, o médico faz questão de demonstrar o amor à profissão, escolhida graças ao olhar atento dos irmãos maristas de um dos colégios em que estudou.

Nascido em Joinville em 1943, Argemiro pertence ao extenso clã dos Boehm enraizado na cidade. “Otto Boehm era primo-irmão do meu avô”, informa ele, por sua vez primo em variados graus do comerciante Getúlio Boehm (falecido há dois anos), da colunista social Lucinda e do músico Dario, todos já perfilados no ND.

“Passei a infância nas imediações da rua Marechal Deodoro, no Centro, jogando bola nos campinhos e tomando banho nos rios que desciam do morro da Antarctica.” No Ginástico, Argemiro jogava basquete, tendo atuado pelo infantil do Palmeiras, junto com os amigos Udo Döhler, Ingo Doubrawa e Roberto Keller, entre outros. “Alguns, como Krelling, Buba e Mima, deram grandes glórias ao basquete joinvilense”, elogia (os três também já foram personagens do Perfil).

“Fiz o primário – continua a contar sobre sua trajetória – num colégio particular, perto do Germano Timm, com a professora Irma. Sílvia Fallgater era da minha turma.” O ginásio foi feito no Bom Jesus, após ser aprovado no exame de admissão, “graças ao curso feito com a professora Ana Maria Harger”. O ensino médio, na época denominado científico, foi cursado num internato marista, em Curitiba. “O Emir era colega lá”, lembra, referindo-se ao oftalmologista Emir Amin Ghanem.

Foi naquele colégio que a vocação de Argemiro Boehm para a medicina foi despertada. “Os irmãos maristas tinham realmente olho clínico para descobrir vocações. Até então, eu nem pensava em ser médico”, admite.

 

 

Álbum de Família/Divulgação/ND
Recém-formado, ele tinha convites para trabalhar em várias cidades do País, mas escolheu a sua Joinville para consolidar carreira

 

 

Formado, fez o caminho de volta para casa

 

Sem sucesso no primeiro vestibular, Argemiro fez um ano de cursinho, no Bardahl, na capital paranaense. Na segunda tentativa, passou logo na Federal e na Católica do Paraná, optando pela primeira. A opção pela ortopedia surgiu durante estágio no pronto-socorro do Hospital Cajuru. “Na verdade, os mais veteranos é que trabalhavam, eu só ficava olhando”. Formado, prestou residência no Hospital das Clínicas em São Paulo, seguida de estágio no HC da USP, onde completou os estudos em traumatologia.

Assim que se sentiu preparado, ainda que tivesse convites para permanecer na capital paulista e em outras cidades, já havia tomado a decisão de se estabelecer em Joinville. “Fui o terceiro ortopedista, me juntando aos médicos Hans Baschung e Mário Techi. Foi um tempo de muito trabalho. O Hospital São José não tinha plantão, e éramos chamados em casa a qualquer hora para atender emergências.”

O São José, por sinal, tem um lugar especial no coração do médico: “A melhor época foi quando era gerido pelas irmãs. Foi um hospital-escola fabuloso!”.

Paralelamente ao hospital, atendia num consultório na esquina das ruas Blumenau e Max Colin. Em 1972, em sociedade com Niso Balsini (Perfil em abril de 2010), abriu a clínica, que cresceu, foi se subdividindo e, desde 1992, está no atual endereço, na rua Rio do Sul, 91.

Boehm também trabalhou no Hospital Regional, foi um dos fundadores da Unimed na cidade, presidiu a Sociedade Joinvilense de Ortopedia e Traumatologia e fez especializações em Viena, Munique e Zurique.

Casou-se há 40 anos com Mércia, na época enfermeira no São José, com quem tem três filhas (uma delas médica), que lhe deram quatro netos.

Da profissão, mesmo lamentando que os médicos, hoje, “foram transformados em burocratas”, guarda as melhores lembranças. E a disposição para fazer de cada dia uma nova jornada.


Aposentado que tem nome de ícone da Jovem Guarda, declara-se para Joinville, cidade que o acolheu

Vanderlei Cardoso insiste em dizer que nome é apenas uma coincidência, mas o que o irrita mesmo é ser chamado de "galinha gorda", para diversão dos amigos

Por conta do nome recebido na pia batismal, rara é a semana que ele não se obriga a dar uma explicação que virou rotina há décadas. “Meu nome não é uma homenagem ao cantor Wanderlei Cardoso, um dos ícones da Jovem Guarda, mesmo por que sou mais velho do que ele. Também nunca tentei ser cantor nem me interessei em aprender a tocar qualquer tipo de instrumento musical”, esclarece, entre risadas. 

Dono de conversa fácil e de tiradas espirituosas, Vanderlei Cardoso nasceu há 62 anos – ele pensa que é mais velho que o cantor Wanderlei Cardoso, mas o músico nasceu em 10 de março de 1945 e, portanto, tem 68 anos - em Lauro Müller, no Sul do Estado, de onde veio para Joinville em 1970 após passagem pelos bancos escolares da SATC (Sociedade de Assistência aos Trabalhadores do Carvão). “Nem cheguei a exercer a profissão de mineiro, por ter optado por Joinville ao completar 19 anos”, lembra.

 

 

Luciano Moraes/ND
Sempre de bem com a vida, Vanderlei dá ração para as aves na casa de um amigo. Ele só desconversa quando o questionam sobre o apelido "galinha gorda"

 

 

Aqui chegado Vanderlei começou a trabalhar na fábrica de geladeiras Consul, época em que a empresa ficava na rua Araranguá, onde virou auxiliar de modelista mecânico. Na mesma função, teve passagens pela Buscar, Docol e Embraco, onde se aposentou como ajustador mecânico.

Aposentado, segue trabalhando para reforçar os proventos e para se manter na ativa. Em dias alternados, Vanderlei trabalha para a Orbenk, empresa terceirizada no monitoramento do pátio de estacionamento de automóveis na rodoviária de Joinville.

Nos dias de folga,é encontrado no conjunto habitacional Irineu Bornhausen, no bairro Vila Nova, onde mora com a mulher, Lúcia, desde dezembro de 1996.  Simpático e comunicativo, diverte vizinhos e amigos das redondezas com as histórias engraçadas vividas por ele em Joinville.

Apaixonado pela cidade, no seu dizer “uma potência pelo que produz e pela simplicidade do seu povo”, Vanderlei garante que nem pensa em trocar de lugar. “Nem por um caminhão carregado de dinheiro eu teria coragem de virar as costas para esta cidade que me acolheu tão bem”, enfatiza.

 

A história da galinha gorda

 

Bonachão e corpulento, Vanderlei conta já ter sido “vítima” de apelidos, que nunca vingaram para valer, por ele não se incomodar com brincadeiras desse tipo.

Lembra que um dos apelidos mais engraçados surgiu durante um jogo de futebol no bairro Guanabara. Quando o técnico mandou que entrasse no lugar de um colega lesionado, Vanderlei se empolgou e saiu correndo e balançando o corpanzil de um lado para o outro. Um gaiato sapecou um comentário que arrancou sonoras gargalhadas da torcida e dos demais jogadores. “Olha só, olha só, o tristinho está ou não está correndo igual a uma galinha gorda?”, trombeteou o espirituoso.  Pronto. Por uns tempos, Vanderlei só era chamado de galinha gorda.

Nas horas de folga, vez por outra visita um amigo que mantém uma criação de galinhas, patos e marrecos. Além de tirar bons dedos de prosa, aproveita também para dar quirera aos penosos do amigo. Saudades do apelido de galinha gorda?  Manhoso, ele muda de conversa para se livrar da provocação. 


Montenegro descobre no tai chi chuan a solução dos problemas físicos e mentais

Hoje, morando novamente em Joinville, Cláudio Lacerda Montenegro Chaves usufrui o equilíbrio que a prática proporciona e atua como instrutor
Divulgação/ND
Montenegro com seus alunos, incluindo a mãe, Helena, na rua das Palmeiras: preferência por prática ao ar livre

 

O menino Cláudio era tímido. Além disso, enfrentava dores lombares por causa da postura exigida pelo trabalho. Acabou resolvendo os dois problemas graças à prática de uma milenar arte marcial das tantas que o Oriente legou ao mundo: o tai chi chuan. “Ao equilíbrio físico e mental alia-se a disciplina que toda arte marcial exige. Tenho mais qualidade de vida e me sinto preparado para encarar desafios”, observa. Um deles foi vencido no ano passado, na China, na forma de duas medalhas de ouro num evento mundial de tai chi chuan.

Cláudio Lacerda Montenegro Chaves tinha tudo para se realizar como engenheiro elétrico, a vocação que seguiu em princípio. Nascido em Recife no dia 12 de outubro de 1967, morou na capital pernambucana apenas cinco anos, mudando-se para São Paulo. Um ano depois, para Joinville, onde o pai, Luiz Montenegro, viria a ser superintendente da Tupy; a mãe, Helena, tornou-se uma das locomotivas das artes plásticas (Perfil no dia 4 passado).

Criado nas imediações do Centro, Montenegro estudou no Bonja, no Colégio de Aplicação da Univille e fez dois anos de mecânica na Escola Técnica Tupy. “Desisti quando tive a certeza de que meu caminho passava pela elétrica e eletrônica. Fiz o terceirão no Dom Bosco em Curitiba e a faculdade de engenharia elétrica na UFSC, em Florianópolis.” Formado em 1990, trabalhou na Weg Automação e se especializou em desenvolvimento de software.

Casou-se com a joinvilense Edilene, engenheira civil, e foi para São Paulo. Em 1995, o casal se mudava para Atlanta, nos Estados Unidos. Dois anos depois retornava a São Paulo, onde nasceu a primeira filha, Sabrina, hoje com 15 anos. Ele trabalhava na Perfil Tecnologia, em Florianópolis, quando a empresa foi encampada pela Datasul.

Em 2005, a família retornou definitivamente a Joinville. Aqui nasceu Gabriel, 9 anos, e ele hoje trabalha na engenharia de pesquisa e desenvolvimento da Totvs, que comprou a Datasul.

 

 

Divulgação/ND
O instrutor, segundo na primeira fila, em competição realizada na China, de onde trouxe medalhas

 

Concentração e relaxamento

 

“Desde adolescente, sempre gostei de artes marciais, e pratiquei judô, caratê e aikidô. Além do condicionamento físico, me atraía o aspecto emocional das várias modalidades”, diz Claudio Montenegro, justificando seu dom para as artes orientais. Foi em sua primeira passagem por São Paulo que descobriu o tai chi chuan e se apaixonou. “Tenho um desvio de coluna, agravado pela postura a que o trabalho sempre me obrigou. O tai chi chuan, aliando rigidez e leveza de movimentos, me ajudou a corrigir o problema”, conta.

Além disso, admite que venceu a timidez graças à prática do tai chi, especialmente quando passou a ser instrutor. “Quando retornei a Joinville, não encontrei lugar para continuar praticando. Fiz então um curso de formação para ser instrutor, pela Sociedade Brasileira de Tai Chi Chuan. Acabei tomando gosto por dar aulas”, diz, dando o devido crédito aos professores Roque Enrique Severino e Angela Soci, diretores da SBTCC.

Atualmente, Montenegro é instrutor de tai chi chuan tradicional da família Yang (uma das vertentes da arte) na academia do Instituto Tachibana de Aikido, no Saguaçu. “Tenho 28 alunos, desde uma garota de 12 anos até os 68 da minha mãe.” Até o ano passado, além da academia (onde é cobrada mensalidade), dava aulas grátis no jardim do Museu de Arte de Joinville aos domingos. “Ainda que o tai chi possa ser praticado em qualquer espaço, o ideal é ao ar livre, pelo contato com a natureza”, acrescenta.

Graduado no nível 3 (a escala vai até 9), no ano passado integrou uma delegação brasileira que participou de um evento em Taiyuan, na região central da China. Do torneio promovido entre os visitantes, trouxe medalhas de ouro em sua categoria (40 a 49 anos) nas modalidades mão livre e sabre.

 

Serviço

Cláudio Montenegro, instrutor de tai chi chuan tradicional da família Yang. Contato: 9941-8007, claudio@sbtcc-joinville.org.


Com a cara, a coragem e muita determinação, Lauro Camilo vem superando desafios

Ele chegou a Joinville há dois anos só com a mulher e R$ 400 no bolso. Hoje, tem filho, trabalho, moto, reconhecimento profissional e a casa própria está perto de se tornar realidade
Rogério Souza Jr./ND
Lauro Camilo teve que abandonar o sonho de ser jogador de futebol, mas é feliz trabalhando como técnico em enfermagem e como cuidador de idosos, em um residencial destinado exclusivamente ao público da terceira idade

 

 

Ele tem apenas 28 anos de vida, mas uma pesada – e valiosa – bagagem de experiências, em que os itens de destaque são a superação e a determinação. “Minha mulher e eu chegamos na rodoviária, deixamos as malas guardadas e fomos em busca de lugar para morar e de trabalho. Hoje, posso afirmar que valeu a pena, tanto pelo que conquistamos, quanto pela acolhida que tivemos em Joinville”, resume Lauro César Mateus Camilo, técnico em enfermagem e cuidador dedicado – dos pacientes e da comunidade, à qual cuida como voluntário.

A história de Camilo começa na pequena Cananeia, cidade do litoral sul de São Paulo, onde nasceu. “Meu pai era marinheiro, e trabalhou muitos anos na balsa que faz a travessia entre Cananeia e o continente”, conta. Bom de bola, ele sonhava fazer carreira no futebol, talvez com a camisa do seu Corinthians do coração.

“Quando eu estava no 5º ano – conta – passei alguns meses jogando na escolinha da Ponte Preta, que mantinha um núcleo em Pariquera, ali pertinho. Mas aí o professor morreu e a escolinha acabou.” Junto, foi-se o sonho do garoto, que passou a jogar pelo time de Cananeia, em competições escolares.

Ao concluir o segundo grau, era hora de pensar numa profissão. “Eu queria fazer a faculdade de educação física, mas não tinha como o meu pai pagar. Então, fiz um curso de técnico em enfermagem no Instituto Técnico do Vale do Ribeira, em Registro. Trabalhava durante o dia, no que desse: fui servente de pedreiro, trabalhei no cais, remendei rede. À noite, o ônibus da Prefeitura levava a ‘estudantada’ até Registro.”

Dois anos e meio depois, formado, os bicos continuavam: “Não havia campo profissional em Cananeia. Precisava sair”, conta. Em 2009, um novo passo. Ele casou-se com Sabrina, a quem conhecera num acampamento da Igreja Adventista. Dois anos depois, ouvindo falar de vários conterrâneos que se estabeleceram em Joinville, o casal pegou a estrada.

 

Superando desafios

 

Saindo da rodoviária, onde deixaram as malas, Camilo e sua Sabrina foram parar no Boa Vista. “Tínhamos uns R$ 400 no bolso, para pagar moradia e nos alimentar. Conseguimos alugar uma quitinete e saímos em busca de trabalho. No primeiro dia, bem cedo, fomos até a RH Brasil, na rua Blumenau, mas não imaginávamos que precisasse chegar mais cedo ainda. Não havia mais senhas” , recorda.

Sempre batendo pernas pela cidade, toparam com um panfleto de uma empresa de jardinagem, onde ele se empregou, enquanto Sabrina arranjava vaga como zeladora em uma clínica. Para reforçar o orçamento, à noite ele ia lavar ônibus na garagem da Reunidas. Perdeu o emprego e voltou aos bicos. Em pouco tempo, conseguia outro trabalho fixo, como monitor na escola adventista. O currículo – ainda magrinho – se espalhava.

Nova virada veio há dois anos e meio, quando nasceu João Victor. Ao mesmo tempo em que abençoava o lar e criava a primeira raiz joinvilense, a chegada do bebê obrigou Sabrina a ficar em casa. Mas a persistência foi recompensada, conta o marido: “Uma professora do colégio adventista me indicou para o marido dela, Edivaldo, dono da Veiga Home Care, que precisava de um cuidador. Finalmente, comecei a atuar na área em que me formei”.

Em dois anos como cuidador, guarda com especial carinho o período em que esteve ao lado de Pedro Gofferje, falecido há seis meses. “Ele e a dona Sônia foram como pais para mim”, emociona-se. A recíproca é verdadeira: “O Lauro é um exemplo de determinação, uma pessoa muito especial”, elogia Sônia.

Há dois meses, arranjou mais um emprego, no Residencial Ventura (prédio destinado à moradia de idosos), onde já cativou os moradores.

Hoje, a família mora num apartamento mais confortável, no Comasa. Camilo já adquiriu uma moto e tem um planejamento sólido: “Guardamos dinheiro para comprar nosso imóvel e realizar outro sonho, de fazer um curso de instrumentação cirúrgica.”

Nas horas vagas, ele pode ser encontrado na igreja adventista do Boa Vista, onde participa de atividades comunitárias no Clube dos Desbravadores. “Nosso maior esforço é tirar crianças da rua, dando-lhes ocupação e orientação.” Em tudo, Camilo coloca sua determinação para superar desafios.

 

Perfil sugerido pela leitora Sônia Gofferje


Onde está a Udesc, lá está o mascote Udescão, dando uma força às equipes

Motorista Maurílio João de Souza Filho se desdobra em animador de torcida a encarnar personagem inspirado em cão adotado pela universidade

Oficialmente, no organograma da Udesc Joinville, Maurílio João de Souza Filho é motorista. Mas ele também pode ser auxiliar de marcenaria ou de mecânica, orientador, psicólogo... Acima de tudo, um amigo de muita gente; e não são poucos que cabem no seu coração imenso. Tão grande quanto ele mesmo, que fica ainda maior quando enverga a cabeça de buldogue que o transforma no “Udescão”, o mascote que agita jogos, gincanas e outros eventos da instituição.

“Gosto de participar de todas as atividades da Udesc. Sou amigo dos alunos, dos professores... Sinto prazer em ver os outros felizes”, diz Maurílio, com seu característico bom humor, curtindo a privilegiada vista que desfruta de sua casa, nos altos do Guanabara, de onde se descortinam o Centro e partes do Itaum, do Petrópolis, do Fátima e até do Adhemar Garcia, além, claro, do próprio bairro onde mora desde que se casou, há 30 anos.

 

 

Fabrício Porto/ND
Maurílio festeja conquistas da Udesc em diferentes projetos e competições esportivas

 

 

A história de Maurílio começa em 1959, em Tubarão, onde nasceu. “Mas – esclarece – me considero joinvilense, pois meu aniversário de um ano já passei aqui, no Bucarein. Meu pai veio trabalhar na Tupy e logo trouxe a família toda, em 1960.” Maurílio foi um dos tantos alunos da irmã Celeste, na Creche Conde Modesto Leal, antes de ir para o Colégio Rui Barbosa.

O principal lazer, na infância, era jogar bola no campinho em frente à Ambalit, perto de onde morava. “O que não faltava era lugar pra brincar. Campinhos, então, sobravam, quando a atual avenida Procópio Gomes nem era calçada.”

O tempo de diversão, porém, precisou ser interrompido aos 15 anos, quando o pai morreu precocemente, de infarto. Penúltimo de sete irmãos, Maurílio trabalhou um tempo como engraxate e, concluído o ensino fundamental, teve o primeiro emprego, como fresador na Ciser. “Não fiquei muito tempo, pois era meio descabeçado”, admite, sempre esbanjando bom humor.

A responsabilidade, porém, falou mais alto. E logo Maurílio se empregava novamente, na Meister. De lá foi ser montador de móveis na Salfer e na Casas Buri (que lhe deu um curso de montagem de móveis em São Paulo). A carreira de motorista foi iniciada no Besc, continuou no Departamento de Água e Esgoto e, em 1991, passou para a Udesc – na época Ferj.

 

Surge o Udescão

 

Maurílio é motorista da direção da Udesc, mas isso não o impede de participar de outras atividades na instituição. “Sempre participo do projeto do Baja, ajudando os alunos na construção, na busca de patrocínio e no transporte. Nesse ano, ganhamos a etapa regional” (a equipe Udesc Velociraptor venceu a Competição Baja SAE Brasil – Etapa Sul, realizada em outubro em Gravataí /RS, e se classificou para a fase nacional, em 2014, em Piracicaba/SP).

Voluntário convicto, também acompanha as turmas da Udesc no Projeto Rondon. “Já fomos a diversas cidades catarinenses, sempre com o espírito de ajudar as pessoas”, acrescenta (neste ano, o projeto passou por Governador Celso Ramos).

Maurílio também ajuda a organizar os Jogos da Udesc, onde exercita seus dons de animador, fantasiado de Udescão, um dos mascotes mais conhecidos da cidade. “O personagem é baseado num cachorro de rua que adotamos na Udesc.”

Com tudo isso, ainda sobra tempo para participar da vida da Paróquia Santuário Sagrado Coração de Jesus, onde é ministro da eucaristia e da consolação. Há 30 anos, casou-se com Dejanira, hoje professora, com quem tem um filho e três netos. “Conheci a Dejanira quando ela trabalhava de caixa no supermercado Riachuelo e eu no Besc. Começamos a namorar numa domingueira no Vera, quando descobrimos que um havia sonhado com o outro.”

 

 

Divulgação/ND

 

“Udescão” com o craque Ramires, nos Jogos da Udesc

 

Com a palavra

 

“O Maurílio é um sujeito ao mesmo tempo tranquilo e animado. É prestativo, muito articulado, amigo e trata todos com respeito, o que faz com que também seja respeitado.” Leandro Zvirtes, diretor da Udesc


"Locomotiva do turismo" continua nos trilhos, com muita dedicação

Jornalista Nelci Terezinha Seibel é uma inquieta, sempre determinada a cumprir a missão a que se comprometeu, de "vender a cidade"

“Além de uma surpresa enorme, vejo essa homenagem como um reconhecimento e a certeza de que o trabalho em prol do turismo vem dando frutos.” A declaração é de Nelci Terezinha Seibel, uma das homenageadas pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina no dia da abertura da 75ª Festa das Flores, pelos serviços prestados ao evento. Jornalista, assessora, cerimonialista e escritora, Nelci teve na homenagem a coroação de uma carreira que a tornou conhecida como “locomotiva do turismo”, apelido dado pelo ex-prefeito Luiz Henrique da Silveira. Esta trajetória começou justamente em Joinville, onde ela chegou há 33 anos.

Sua história começa em 1940, na pequena cidade gaúcha de Tupandi (na época distrito de Montenegro), onde nasceu a primeira filha dos nove que formariam a prole dos Seibel. “Mal conheci minha cidade, pois aos 6 anos a família mudou-se para Bom Princípio, onde meu pai assumiu uma fábrica de laticínios. Produzi muito queijo e manteiga na vida”, conta Nelci, ex-aluna interna de um colégio de freiras em Porto Alegre, onde fez os quatro anos do ginásio.

 

Rogério Souza Jr./ND
No sossego da sua casa, Nelci mostra o livro sobre as construções históricas de sua cidade, a gaúcha Bom Princípio, que quando ela nasceu era um distrito de Montenegro

De volta ao lar, aprendeu a costurar e bordar e ajudou a criar os irmãos. “Quando nasceram os últimos, eu já era mocinha”. Casou-se com Estevão Arnhold (falecido em 1998), foi morar em Estância Velha, teve o primeiro filho, Cláudio, seguido de José Eduardo e Luís Gustavo, já em Novo Hamburgo. Formou-se em comunicação social pela Unisinos e, em 1980, desembarcava em Joinville.

“Em busca de trabalho, levei um projeto de divulgação ao Hotel Tannenhof, que ainda era novo. Mário Lobo, que era o gerente, gostou e me apresentou ao Adolar Linzmeyer, então presidente do Sindicato dos Hotéis, onde comecei a trabalhar”, resume.

 

O esforço de “vender” a cidade


No sindicato, Linzmeyer lançou o desafio a Nelci: “Precisamos trazer turistas a Joinville”. A identidade puramente industrial era o principal obstáculo: “Não havia uma cultura do turismo, Joinville era simplesmente a ‘Manchester Catarinense’. Tive então a ideia de promover receptivos a jornalistas. O sindicato investiu pesado e trouxemos profissionais dos estados do Sul e de São Paulo. Foi um sucesso! Chorei de emoção ao ver matéria de página inteira até na ‘Folha de S. Paulo’”.

A agenda de Nelci, a partir de então, começou a pedir mais espaço: pelo sindicato, participava do máximo possível de eventos, adquirindo experiência; passou a assinar uma coluna de página inteira no jornal “Extra” e, em 1983, assumiu a área de cerimonial da Prefeitura, na gestão Wittich Freitag. “Daquele tempo aprendi muito com o Afonso Fraiz, chefe de gabinete. E o prefeito me conseguiu estágios nos governos de Santa Catarina e do Paraná.”

Com o fim do “Extra”, Nelci assumiu um espaço em “A Notícia”, onde ficou 17 anos. Passou pela Secretaria de Turismo, fundou e presidiu a seção catarinense da Abrajet (Associação Brasileira de Jornalistas Especializados em Turismo), viajou pelo país e pelo mundo e se envolveu com as entidades locais voltadas ao turismo. “Sempre ajudei no que podia na Festa das Flores, desde o cerimonial até os desenhos dos trajes das rainhas, em parceria com a costureira Carmem Gehrmann, de Pirabeiraba.” Em 1988, Nelci esteve ao lado de Laércio Beckhauser na criação da Fenachopp, evento pelo qual ainda sente muito carinho. Também atuou nos primeiros anos do Festival de Dança, no cerimonial e na divulgação.

Como escritora, além de diversos livretos e catálogos, Nelci Seibel é autora de três livros, o primeiro sobre o casario da cidade em que se criou, Bom Princípio, e os outros sobre São Francisco do Sul (casario e o porto). Hoje, além de continuar prestando serviços de assessoria, escreve para jornais de Balneário Camboriú e São Bento. A luta pelo incremento turístico é travada no Conselho Municipal de Turismo, como uma das representantes da comunidade. A locomotiva continua nos trilhos.

“Não havia uma cultura do turismo,

Joinville era simplesmente a ‘Manchester Catarinense’.

Tive então a ideia de promover receptivos a jornalistas.”


Maria Luiz transforma a argila em peças que são quase uma obra de arte

Artesã começou a mexer com o barro por curiosidade, mas se revelou uma pessoa criativa
Luciano Moraes/ND
Maria Luiz Ramos em seu atelier no km 25 da BR-101: ela resolveu seguir os passos do genro e se revelou uma artesã criativa e disposta e descobrir novas formas

 

Herculano Vicenzi

Especial para o Notícias do Dia


Nascida em Lauro Müller, no Sul do Estado, Maria Luiz Ramos é uma referência em Joinville na arte de modelar argila, transformando-a em peças de requintado acabamento. Com atelier instalado no km 25 da BR-101 (lado oposto do complexo Rudnick), suas criações estão espalhadas por toda a região do Litoral Norte catarinense. Muitas, adquiridas por turistas de outros Estados, estão bem mais longe. “Tenho trabalhos nas mãos de paulistas, mineiros, cariocas, gaúchos, baianos e por aí afora”, conta, faceira.

Estabelecida em Joinville há 38 anos, antes de entrar para o circuito do artesanato em argila Maria foi cozinheira, industriária e costureira. O artesanato surgiu quando a filha Daniela casou-se com o oleiro Paulo Mendes. Logo após o casamento, Paulo instalou seu torno no km 25 da BR-101 e deu início à produção de uma série de peças para abastecer o mercado da região.

Por achar o ofício do genro interessante, Maria cismou em aprender os segredos do torno de modelagem. Mas por mais que se esforçasse, não se adaptou ao maquinário. Embora contrariada, não desanimou da ideia de virar artesã.

Determinada, belo dia apanhou uma porção de argila e modelou uma bacia com as mãos. Concluído o trabalho, surpreende-se com os elogios da família e dos vizinhos. Foi o que bastou para se atirar de vez no artesanato manual. “Hoje, tem freguês que me chama de artista do barro e isso me envaidece”, relata.

Maria modela jarras, fonte de água, morangueiras, cestas, vasos e dezenas de outras peças. Parte da produção surgiu graças a sugestões de fregueses.  “Um dia, um freguês me pediu uma fonte de água. Pesquisei, bati cabeça, mas no fim a peça ficou tão bonita que logo surgiram outras encomendas e não parei mais”, detalha.

Maria diz que tanto ela quanto o genro Paulo trabalham com argila encomendada de três jazidas, uma de Joinville e as outras duas de Canelinha e Três Barras.  “A mistura das três argilas garante um material excelente para ser trabalhado no torno e com as mãos”, enfatiza.

O trabalho da artesã de Pirabeiraba é encontrado em lojas do ramo em toda a região e também no local onde ela trabalha. “Montamos aqui no km 25 da BR-101 onde vendemos no varejo e no atacado tudo o que Paulo e eu produzimos. Depois que abrimos o negócio, nossas peças estão indo para tudo quanto é lado do Brasil”, comemora Maria.

Sina de superar obstáculos

De bem com a vida e o ofício, Maria garante estar sempre disposta a topar qualquer tipo de desafio. “Quando alguém me pede alguma peça que nunca produzi, vou à luta até conseguir um bom resultado. Até hoje, não deixei ninguém de mãos abanando”, suspira.

 

 

 


Irmãos Batista dividem-se entre o futebol e o vôlei, sem esquecer as raízes, em Joinville

Inspirado pelo pai, Fabiano seguiu carreira no futebol, mas hoje é personal trainer e atua no esporte amador. Já Evandro se destaca no vôlei
Fotos Fabrício Porto/ND
Os irmãos Evandro, hoje no Vivo Minas, e Fabiano se orgulham das conquistas esportivas

 

 

Além de ser irmãos, Fabiano e Evandro Batista têm em comum a paixão que os levou a fazer carreira no esporte, no futebol e no vôlei. Além disso, comprovam a aptidão da família em produzir talentos: a avó, Nair Benkendorf, marcou seu nome no magistério (Perfil no dia 14 de outubro) e os pais, Ademir e Tânia, além de se destacar no esporte e na educação, hoje mostram talento no artesanato (também foram Perfil, no dia 25 de outubro). Nesta terceira passagem pelo recanto das famílias Benkendorf e Batista, no Itaum, o ND resume a carreira dos irmãos esportistas.

Fabiano nasceu no dia 1º de setembro de 1976. “Eu me criei aqui no Itaum. Estudei no colégio Oswaldo Cabral (escola que foi destacada no Memória Escola do fim de semana, 9 e 10/11/2013) e tive no meu pai o primeiro incentivador no futebol”, conta Fabiano, que aos 9 anos jogava na escolinha de futsal da Embraco, onde trabalhava o pai Ademir “Karatê”. Com 12 anos, os tênis foram trocados pelas chuteiras, no Fluminense do Itaum – treinado pelo pai. “Eu tinha 13 anos quando entrei no infanto do JEC e por ali fiquei, até chegar ao profissional. Vi fazer o mesmo caminho que eu jogadores como Edgar, Ramires, William e Douglas”, enumera Fabiano, que também chegou a disputar várias edições dos Joguinhos e dos Jogos Abertos de Santa Catarina, defendendo Joinville.

“Na transição do juvenil para o profissional, peguei aquela fase braba, em que o JEC caiu para a série C e acabou ficando sem série. Foi um tempo difícil, de constantes trocas de técnicos, ruim para pegar ritmo de jogo e se firmar.”

Ainda assim, Fabiano acabou despertando o interesse de empresários, e foi parar em Omã, nação da Península Arábica, onde ajudou o Ahli Sidab a fazer o caminho inverso do JEC, subindo da série B para a principal divisão. Foi um ano de desafios. “Era uma cultura totalmente diferente da nossa, desde a alimentação até a forma de se comportar em público. Mas me dei bem no time, e só saí quando o clube recusou um aumento salarial, após ganharmos o título.”

 

 

Jornal em árabe destaca a atuação do brasileiro Fabiano no Ahli Sidab

 

De volta a Joinville, dono do passe, Fabiano ainda jogou uma temporada pelo Caxias e encerrou a carreira. Formou-se em educação física, pós-graduou-se em musculação e condicionamento físico e hoje ganha a vida como personal trainer, atendendo nas academias Gringo’s, Coradelli e Benefit. E continua fazendo gols, defendendo o Atlético Pomerodense e o América na Primeirona joinvilense.

 

Paixão pelo vôlei

 

Cinco anos mais novo, Evandro seguiu os passos do irmão até o colégio Oswaldo Cabral, mas no esporte trocou os pés pelas mãos, inspirado na Seleção campeã olímpica de 1992 em Barcelona. “Eu não era bom de bola mesmo, e como já era alto desde a adolescência, preferi o vôlei”, relata Evandro, que iniciou a carreira defendendo o colégio Celso Ramos nos Jogos Escolares de 1994, a convite o técnico Marcolan.

Ainda era atacante quando o treinador Pena Chiaparini o levou para o Bonja, colocando-o como levantador. “O Pena me acompanhou a São Paulo, em 1999, quando passei pela peneira do Banespa”, lembra Evandro, que na capital paulista concluiu o ensino médio e ficou um ano, até se contundir e ser dispensado.

Novamente, o técnico Pena acreditou no seu potencial, levando-o para a Intelbras, de São José. Passou depois pela Unisul e pela Ulbra, onde foi campeão paulista defendendo o São Paulo F. C. Após defender o Bento e o Santander, atravessou o Atlântico para jogar pelo português Benfica. Seguiram-se a gaúcha UCS, o italiano Isernia, o português Vitória de Guimarães, o paulista Vôlei Futuro e, desde 2011, o Vivo Minas.

Vestiu a camisa amarela pelas seleções infanto, juvenil e adulta. “O Minas – elogia – é o clube com a melhor estrutura em que já joguei, e o técnico Horácio Dileo é como um pai pra mim.” Ainda longe de pendurar os tênis, Evandro planeja o futuro ligado ao esporte, especializando-se em quiropraxia (tratamento da coluna).

Nas folgas, como na recente interrupção da Superliga, Evandro corre para o seu Itaum, juntando-se aos avós, pais e irmão em torno de uma pizza no vizinho Nalos.


Café com sabor de roça e sossego no Cantinho da Ilca, na Estrada Bonita

Em uma das estradas rurais mais belas de Joinville, como o próprio nome diz, uma dona de casa produz delícias para um agradável lanche em família
Luciano Moraes/ND
Ilca produz as delícias que serve: "um café daqueles que antigamente eram oferecidos aos visitantes"

 

Berço do turismo rural em Joinville, Estrada Bonita é um sossegado recanto do distrito de Pirabeiraba, que recebe visitantes de perto e de longe, todos atraídos pelas belezas naturais e tentadoras opções gastronômicas que caracterizam o lugar. Sinuosa e asfaltada até quase no final do percurso, Estrada Bonita não tem saída no lado oposto, por terminar nos contrafortes da Serra do Mar, a exemplo do que acontece com outros 12 caminhos do interior de Joinville.

Percorrer aquele cenário de exuberante mata atlântica, emoldurada por um manancial de água cristalina, é de enfeitiçar qualquer um. O lugar, além de soberbamente lindo, caracteriza-se também pela presença de restaurantes da cozinha típica germânica, pontos de venda de produtos da indústria alimentícia artesanal, além de pousadas e lagos com estrutura de pesque-pague.

Dentre tantos atrativos, um se destaca pela simplicidade. É o Cantinho da Ilca, local em que a freguesia é recebida numa pequena edificação de estilo rústico cercada de flores por todos os lados. É nesse ambiente que Ilca Pollnow, dona do aconchegante cantinho recebe a todos com um largo sorriso e mesa farta de delícias preparadas por ela.

“Sirvo um autêntico café da roça, bem ao estilo daqueles que antigamente eram oferecidos aos visitantes. Aqui, tudo tem cheiro de roça”, assinala a bem-humorada proprietária do recanto situado nas proximidades do Restaurante Tia Martha.

Trabalhadora incansável e falante até pelos cotovelos, Ilca conta que deve este dom à sua mãe, Martha, (nome dado ao primeiro restaurante da história de Estrada Bonita). “Me criei aqui mesmo e aprendi com ela os segredos de fazer cucas, pães e outras delícias para servir num legítimo café da roça”, assinala.

Mãe de duas filhas, que criou sozinha, Ilca orgulha-se de sua biografia. “Trabalhei e continuo trabalhando muito, mas valeu a pena. Graças à força dos meus braços e ao cuidado de encaminhá-las no trabalho desde cedo, minhas filhas têm curso universitário e estão bem encaminhadas na vida”, comemora.

Brincalhona, Ilca assinala que o cantinho poderia ser rebatizado com o nome de Cantinho dos Reencontros. “Aqui, frequentemente se reencontram velhos amigos, que não se viam há muitos anos. Eu mesma reencontrei uma amiga de infância com a qual não tinha contato há 46 anos”, ilustra.

As portas do Cantinho da Ilca são abertas aos sábados, domingos e feriados. Inicialmente, o recanto foi erguido com a intenção de vender cucas e pães para serem levados para casa. Por sugestão de alguns fregueses, ela acabou abrindo o café da roça e o sucesso foi imediato. “Com propaganda de boca em boca, a freguesia não pára de crescer e por isso tenho de me desdobrar para dar conta de tudo”, diz, divertindo-se com a situação.

 

“Aqui, frequentemente se reencontram

velhos amigos, que não se viam há muitos anos.

Eu mesma reencontrei uma amiga de

infância com a qual não tinha contato há 46 anos.”


Mulher de fibra, Ilca ainda encontra tempo para trabalhar numa lanchonete no centro de Pirabeiraba. “De segunda a quinta-feira, pego no tranco às 18h e vou até meia-noite. Nos fins de semana e feriados, emendo a jornada aqui no cantinho. Comigo é assim mesmo, preciso estar sempre envolvida com o trabalho de bem receber e bem servir a freguesia”, revela.

O Cantinho da Ilca encanta pelo cenário multicolorido de canteiros de flores e um lago apinhado de peixes de diversas espécies, que não são incomodados por pescadores. “Anzol e tarrafa aqui estão proibidos. Os peixes estão aí para fazer a alegria das crianças, que não se cansam de jogar pedaços de pão só para ver o alvoroço que eles fazem.”

 

Visitas ilustres

 

O café da roça de Ilca faz sucesso até entre pessoas influentes da cidade. “Recebo visitas de empresários ilustres, acompanhados da família. Na saída, todos elogiam a simplicidade do ambiente e a autenticidade do meu café e acabam voltando. Até dom Irineu Scherer, dispo da Diocese de Joinville, esteve aqui e gostou do que viu e não poupou elogios à qualidade do café da roça”, relata a disposta moradora de Estrada Bonita. 

Reportagem de Herculano Vicenzi  


Bombeiro vive dois momentos de emoção: enquanto é homenageado, vê o terceiro filho se formando

Gráfico aposentado descobriu que ser bombeiro é uma espécie de missão para a vida toda
Luciano Moraes/ND
Edgar Seiler e o filho Éder, no dia em que o rapaz se formava no curso de bombeiros operacionais: mais um orgulho para o pai

 

O domingo, 3 de novembro, foi de dupla emoção para o gráfico aposentado Edgar Seiler. Uma já era esperada: a formatura do filho, Éder, no curso de formação de bombeiros operacionais. Outra, uma surpresa: na mesma solenidade, uma homenagem aos 46 anos que ele próprio completa como bombeiro voluntário.

A efetivação de Éder confirma a vocação dos Seiler para o combate ao fogo: “Foi um colega de trabalho que me incentivou, e ali descobri praticamente uma segunda profissão”, diz Edgar. Seus dois outros filhos, Edmar e Edson, também já serviram na corporação voluntária joinvilense.

Nascido em Joinville há 62 anos, Edgar Seiler criou-se nas imediações do América. “Eu gostava de jogar como goleiro”, diz o ex-camisa 1 de times amadores como Pinguim e Ipiranga. Mais tarde, dedicou-se ao tiro ao alvo, colecionando medalhas pela Sociedade Esmeralda.

Ainda adolescente, foi trabalhar na Impressora Ipiranga, onde ficou 34 anos; passou depois pelas gráficas Meyer e Divangel, onde se aposentou. “Eu ajudei a montar o maquinário da Ipiranga. Passei por quase todos os setores lá”, lembra com saudade.

Comprovando a ligação com o pai, também o caçula Éder, 28, trabalhou nas mesmas Mayer e Divangel – além de também atirar pela Esmeralda e jogar como goleiro (só desviou-se da paixão paterna pelo Santos, tornando-se corintiano).

O som da sirene ecoava pela cidade

Edgar Seiler deve a um colega de gráfica o incentivo a ser bombeiro voluntário: “Foi o Waldir Gorisch, que era bombeiro, que me convenceu a também me inscrever. Eu nem pensava nessa possibilidade, mas resolvi ver como era e acabei gostando. Hoje, não me imagino longe do quartel.” Ele entrou em 1967, quando a torre dos bombeiros era uma das mais altas estruturas da cidade. “Naquele tempo, sem esse mar de prédios de hoje, dava pra escutar o alarme de qualquer ponto.”

Seiler passou por todas as funções dentro do quartel, e testemunhou a evolução dos equipamentos e das técnicas. “O período mais complicado – admite, assim como os demais veteranos já mostrados neste espaço – foi o dos incêndios criminosos em meados dos anos 70. O estado de prontidão era permanente, nunca sabíamos onde seria o ataque.”

Hoje, compondo o Grupo Tradição, Seiler praticamente só participa de solenidades. Mas isso não impede que o sangue de bombeiro ferva ao presenciar uma emergência. “No mês passado – contava, no dia da entrevista –, precisei entrar em ação, quando passava pela rua Benjamin Constant bem na hora de um incêndio numa loja de lava-jatos. Chamei a guarnição e ajudei no primeiro combate” (uma loja de venda, assistência técnica e locação de lava-jatos, localizada no piso inferior de um sobrado na rua Benjamim Constant, no bairro Costa e Silva, foi destruída por um incêndio no dia 20 de outubro).

O filho Éder, prestes a se formar técnico em enfermagem (mesma profissão da esposa Carla) e trabalhando como cuidador, admite que sempre gostou de atender a emergências: “Isso me levou a escolher a profissão e a fazer o curso de bombeiro – além da influência do meu pai e meus irmãos, claro”.

Como se não bastasse, um tio, Bento Maliseski, também é bombeiro. Com o certificado na mão, Éder tem uma certeza: “Ser bombeiro era exatamente como eu esperava. Não vejo a hora de começar o estágio, próxima etapa antes de ser efetivado e fazer uma carreira dedicada como a do meu pai”. A comunidade agradece pelo empenho dos Seiler.

 

Perfil sugerido pelo leitor André Geiser (colega de Éder Seiler na turma recém-formada)


De volta a Joinville depois de 20 anos, artista plástica Helena Montenegro anuncia nova fase

Suas obras ainda estão espalhadas por importantes espaços da cidade
Carlos Junior/ND
Artista continua com a produção em alta, feliz pela volta à cidade que a acolheu com tanto carinho

 

 

“Renascendo.” Nenhuma palavra seria mais apropriada para intitular a mostra de pinturas da artista plástica Helena Montenegro, encerrada em outubro no Centro Cultural Brasil-Estados Unidos. “Para mim, o atual momento é de renascer, de retornar e de reiniciar”, diz Helena. A mostra foi sua primeira desde que retornou a Joinville, há cerca de um ano, logo após a morte do marido, depois de duas décadas morando em São Paulo. Foi aqui, onde chegou há 40 anos, que Helena alavancou a carreira, teve o terceiro filho, criou um amplo círculo de amizades e projetou seu nome no cenário artístico catarinense.

O modo de falar tipicamente joinvilense traz pitadas do sotaque paulistano e, em certas entonações mais agudas, as abertas vogais nordestinas da Recife onde essa carioca se criou. “Só não tenho sotaque carioca mesmo”, admite Helena, registrada Moura Lacerda de Melo, em 1945, no Rio de Janeiro. “Com 3 anos eu já estava em Recife, terra dos meus pais, e lá me criei.”

Terceira de meia dúzia de irmãos, já na escola ela percebeu o dom para a arte. “Não me lembro se era boa aluna, mas sei que gostava de transformar e rabiscar”, conta, resumindo a escultora e pintora que viria a ser.

A carreira começou efetivamente em Joinville, em 1973, quando ela, o marido Luiz Montenegro e dois filhos (um pernambucano e um paulista) deixaram São Paulo. “Meu marido foi convidado pelo então diretor da Tupy, Adolar Piske, a trabalhar na empresa. Aceitou o desafio e nos instalamos no América. Naquele tempo, a cidade só tinha dois prédios: o Manchester e o Boneville. Em 1977, nasceu o Leonardo, meu marido chegou a ocupar a superintendência da Tupy e eu me encontrei com a arte.”

 

“Cada amanhecer é uma oportunidade

de renascer e tudo na minha vida

me aproxima de Deus.”

 

A criação do Barro em Expressão

Helena Montenegro logo se integrou ao então efervescente movimento artístico de Joinville, se destacando com suas pinturas e esculturas. “Na Casa da Cultura, um dos polos das artes não só de Joinville mas do Estado, fui aluna de Mário Avancini e de Marli Schüster. Depois, assumi como professora, e na gestão de Albertina Tuma criamos o grupo Barro em Expressão, um dos mais atuantes na arte em porcelana do país”, lembra Helena, citando a importância da “madrinha” Maria do Barro na criação do grupo, ainda em atividade.

“Minha primeira individual – recorda Helena – foi numa casa enxaimel na rua Lages. Naquela mesma casa, que deu lugar a um prédio, foi fundada a Associação dos Artistas Plásticos de Joinville, a Aaplaj.”

Nos anos 80, Helena se destacava na escultura, variando da cerâmica para o barro e o concreto. A emoção umedece os olhos ao se lembrar do início profissional: “Meu primeiro trabalho vendido foi uma peça comprada pela Maria Cláudia para presentear o marido, Dieter Schmidt.”

Até 1991, quando a família resolveu se mudar para São Paulo, a produção de Helena foi prolífica, espalhando obras por todo o país. Em Criciúma, por exemplo, está o troféu João Hansen Júnior, criado por ela para premiar o campeão catarinense de 1989.

Com a morte do marido, no ano passado, Helena voltou para Joinville, onde ainda mora um dos filhos, Cláudio. Além de retomar o trabalho artístico, presta atendimento na área de terapêutica holística, na resolução de conflitos e na busca da automotivação. “O objetivo do meu trabalho – explica – é ajudar as pessoas a encontrar respostas em si mesmas.” Helena, dessa forma, divide com os outros seus próprios sentimentos de renascimento.


A vida muito bem-vivida de Orlando Gonçalves, o popular Correca, que festeja 90 anos

“A vida sempre foi muito boa comigo”, declara o aniversariante deste dia 2, uma das referências quando o assunto é a história do futebol de Joinville
Fabrício Porto/ND
Sentado em frente à casa onde mora com a filha Maristela, o genro José Agra e três netos, Correca faz planos para o futuro: uma casinha na Barra do Sul

 

“Passam-se os anos, apagam-se mais velas, mas ficam maiores os bolos e melhores os amigos.” O alto astral do convite antecipa como será a festa da noite deste sábado, quando familiares e amigos mais chegados do aposentado Orlando Gonçalves, o popular Correca, se unem para comemorar os 90 anos de uma vida que ele mesmo classifica como muito bem-vivida.

Nesta data, o mecânico aposentado que até pouco tempo ainda exercia algumas atividades para não ficar parado, estará acompanhado pela mulher, Maria Laura, 87, por seis irmãos com idades entre 70 e 90 anos, filhos, netos e agregados. Uma grande família que ele cultivou com muito amor e muito trabalho.

Além do feito de chegar aos 90 anos com tanta saúde e disposição, Gonçalves conseguiu outras proezas na vida. Uma delas foi a de ter completado duas bodas de prata. Com a primeira mulher, Iolanda Vinotti Gonçalves, teve os sete filhos. Mas ela morreu ainda muito jovem, na faixa dos 40 anos.

Três meses depois, o ainda jovem viúvo casou-se novamente, com a viúva de um amigo, Maria Laura Müller, que tinha três filhos já adultos. Foi ela quem o ajudou a criar os dois filhos mais novos, Maurício e Maristela. A união dura mais de 40 anos, e eles só não estão dividindo mais o mesmo teto por causa da avançada idade de ambos.

“Eles moravam no Floresta, mas ficamos preocupados com a segurança deles, eventuais lapsos de memória, e decidimos vender a casa. Agora, os filhos se revezam nos cuidados, em rodízio”, explica a caçula, Maristela, 46, que recebeu o pai em sua casa.

Maristela é a mais apegada e uma de suas maiores admiradoras do pai. “Ele é um anjo na minha vida, um verdadeiro tesouro. Eu tinha três anos quando minha mãe morreu, mas ele e minha ‘mãedrasta’ nunca deixaram me faltar nada. E como ela era mais sossegada, eu era a companheira inseparável dele para festas e viagens”, conta a filha. E é junto com esta filha que ele faz planos para o futuro, que incluem vender a casa onde moram no Itaum e construir uma em Barra do Sul.

 

Fabrício Porto/Reprodução/ND
Correca é o segundo à esquerda, em pé, com o bi-campeão Santos Futebol Clube de Joinville

 

Craque nos campos e nos salões

Mecânico aposentado, Correca passou a vida trabalhando muito. Foi sapateiro, pedreiro e uma espécie de faz-tudo. Mas suas maiores paixões, além da família foram mesmo o futebol e a música. Quem já ultrapassou a barreira dos 60 e viveu na Joinville dos anos 50 sabe bem que é o Correca. Embora deixe escapar que seu coração seja americano, em uma referência ao América joinvilense, e também revele admiração pelo Flamengo, ele é um dos mais assíduos torcedores do JEC. Faça chuva ou faça sol, Correca está lá na Arena junto com toda a família, todos envergando a camisa tricolor.

Mas o time mais amado mesmo é aquele que sobrevive somente em suas memórias e nas fotografias em preto e branco de meados da década de 50 – o Santos Futebol Clube, de Joinville. O irmão, Salvador Gonçalves, 71, o caçula da prole de 15 filhos de Francisco Vítor Gonçalves e Francelina Gonçalves, “os seis primeiros morreram logo ao nascer”, era ainda criança, mas lembra do desempenho do talentoso irmão nos campos de várzea de Joinville.

Nascido e criado na região da antiga avenida Cuba, no bairro Bucarein, Correca é um dos fundadores do Santos, junto com o pai e os incontáveis irmãos, primos, cunhados e amigos. O nome, ele nem lembra mais porque escolheu, mas acredita que além do bom momento que o time homônimo vivia, era também porque eles jogavam em um campinho na rua Santos.

E, como não podia deixar de ser, as melhores memórias do Santos joinvilense, campeão da 2ª Divisão nos anos de 1956 e 1957, e que revelou grandes craques do futebol local, incluindo Fontan, estão ligadas ao Santos de Pelé.

Foi na sede do clube, em terreno cedido pela família Colin, onde hoje há o Senai Sul, na avenida Procópio Gomes, que o time visitante foi recebido para um coquetel, depois de um jogo com o América, em fevereiro de 1957. “Recebemos o time e dirigentes no vestiário de madeira, que ficava em um elevado junto ao campo”, recorda ele.

"O Santos quis mesmo deixar o Pelé no América,

em troca do grande craque Euclides,

que formava com o Cocada a melhor dupla

de meio de campo do futebol catarinense,

até hoje imbatível."

E diz ser testemunha de uma história que hoje é considerada uma das lendas do futebol local, mas que garante ser muito verdadeira – a de que dirigentes do Santos cogitaram trocar o então franzino e ainda inexpressivo Pelé por aquela que Correca classifica como “a melhor dupla de meio de campo do Estado”, Cocada e Euclides, do América. E Correca vai além e garante que foi em Joinville que Pelé jogou pela primeira vez no time principal do Santos, um feito que ele se orgulha de ter presenciado.

Além dos campos, Correca também fez sucesso nos palcos, com o grupo Sete de Ouro, sem falar das noites de seresta entre os amigos, onde saiam pelas ruas cantando sucessos do Demônios da Garoa e conquistando corações.

 

Àlbum de família/ND
Com Iolanda Vinotti, um casamento na juventude, que rendeu uma Bodas de Prata e sete filhos, interrompido pela morte prematura dela

 

 

Àlbum de família/ND
Com Maria Laura, o amor que chegou com a maturidade e já resiste há 43 anos: apesar de estarem morando em casas separadas, sempre que podem eles estão juntos

O médico Mário Nascimento se tornou sinônimo de pediatria em Joinville

Doutor Mário, como é conhecido, foi um dos pioneiros no segmento na cidade

 

ROGÉRIO SOUZA JR./ND
Mário Nascimento soube aproveitar bem as oportunidades da vida e hoje se tornou uma referência para os demais profissionais da área

 

Depois de uma carreira de meio século dedicada à medicina, hoje o médico aposentado Mário Antonio do Nascimento investe o tempo a serviço da harmonia e do bem-estar familiar, no Cenef (Centro de Estudos e Orientação da Família), do qual ele foi um dos fundadores e é o atual presidente. “Sempre tive uma atuação voltada ao social, e aqui tenho a oportunidade de me manter ocupado e dar apoio às famílias que nos procuram em busca de orientação”, justifica um dos mais antigos pediatras de Joinville e pioneiro no serviço ambulatorial infantil na cidade.

Mário Antonio nasceu em julho de 1932 e se criou na região do Cubatão. Seu pai, Dorothovio do Nascimento, conhecido comerciante e líder comunitário, hoje é nome de rua no Jardim Sofia. “Minha infância foi passada ao ar livre, jogando bola nos campinhos do Cubatão”, lembra o conhecido doutor Mário, que chegou a defender as categorias de base do Aviação, do extinto Guarani do Cubatão e do juvenil do América, até pendurar as chuteiras nos aspirantes do Caxias. “Meu irmão Alcides – acrescenta – jogou como profissional no América. Eu também joguei vôlei e basquete pelo Palmeiras, mas só até o juvenil. Precisei parar quando chegou a hora da faculdade.”

Ele cursava o científico (atual ensino médio) no Bom Jesus, e estava determinado a parar por ali e encarar o mercado de trabalho. “Eu achava que o ginásio já era suficiente e queria trabalhar. Mas meu irmão mais velho, João, me convenceu a continuar. No segundo ano do científico, fui trabalhar na Farmácia Apolo, e ali senti o chamado da medicina.” Em 1952, se mudava para Curitiba, aprovado no vestibular da Universidade Federal do Paraná. Formou-se em 1957 e partiu para o Rio de Janeiro, onde se especializou em pediatria. “Fui residente e chefe de residência da pediatria do Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro, onde fiquei até 1960.”

 

 “No segundo ano do científico,

fui trabalhar na Farmácia Apolo,

e ali senti o chamado da medicina.”

 

Carreira em Joinville

Em 1961, Mário Nascimento montou seu consultório na rua Abdon Batista e foi dar aulas de higiene e puericultura no curso normal do Santos Anjos. “Quando iniciei a carreira aqui – conta –, só havia três pediatras: Jeser Amarante Faria, Valter Ferreira e Lea Silva Jardim. No início, trabalhei no ambulatório pediátrico do Hospital São José voluntariamente.” O ambulatório, primeira unidade pediátrica da cidade, foi criado em 1965, graças à insistência do jovem médico junto ao então prefeito Harald Karmann, também médico.

Convidado, mais tarde, a assumir a direção geral do hospital, matriculou-se num curso de administração hospitalar em São Paulo. Mas havia um problema: como se sustentar? “Eu trabalhava, na época, como pediatra do colégio da Tupy. Aí sugeri ao então presidente da empresa, Dieter Schmidt, que continuasse pagando meu salário, que eu devolveria na forma de trabalho quando voltasse. Ele foi além, e me pagou aquele ano como bolsa de estudos”, relembra, deixando rolar uma lágrima de gratidão pelo falecido empresário.

Além do São José, Mário Nascimento dirigiu o Hospital Regional, a Maternidade Darcy Vargas (onde tem seu nome no Centro de Estudos) e a Federação das Unimeds do Estado. Foi fundador da Unimed Joinville, do Ispere (Instituto Pedagógico de Reabilitação Infantil), da Sociedade Joinvilense de Pediatria e do Cenef (Centro de Estudos e Orientação da Família), sucessor do Movimento Familiar Cristão, do qual também foi um dos fundadores.

Feliz, lembra que a continuidade da profissão está garantida por, pelo menos, duas gerações. “Minha filha, Maria Beatriz, é pediatra, assim como o marido dela. E meu neto, Eduardo, é quartanista de medicina.”


Casa Padre Pio, administrada por Valdeir e Vanda, acolhe quem vem tratar da saúde em Joinville

Casal que se conheceu há 16 anos, trabalha unido para auxiliar parentes de pessoas que vêm em busca de tratamento e não tem onde ficar
Rogério Souza Jr./ND
Valdeir e Vanda estenderam o amor para a família que construíram desde que se conheceram, há 16 anos, e o ato de voluntariado que exercitam

 

 

Ter alguém da família às voltas com um problema de saúde já é um contratempo; não dispor de assistência médica perto de casa é um aborrecimento ainda maior, obrigando a família a buscar tratamento longe. Tão distante como os 580 quilômetros que separam a cidade de Maravilha, no Extremo-oeste catarinense, do Núcleo de Reabilitação Labiopalatal, o Centrinho, em Joinville, onde sexta-feira da semana passada finalmente foi operada a jovem Raquel, 16 anos.

Em todas as ocasiões em que veio antes, e agora, para a cirurgia, a mãe ou o pai de Raquel tiveram onde ficar, sem precisar gastar ainda mais com hospedagem: de graça e ainda com alimentação, os familiares foram atendidos na Casa Padre Pio, um local de passagem criado especialmente para estes casos. “Somos muito gratos ao pessoal da casa, que sempre nos recebeu bem, garantindo a tranquilidade enquanto dávamos atenção à minha filha”, agradecia Arlei Nunes Cabral, pai de Raquel, na véspera da cirurgia.

“É importante que as pessoas possam dedicar toda a atenção ao tratamento, sem preocupação com estadia, alimentação e qualquer outra necessidade”, argumenta Valdeir de Souza Paiva, criador, junto com a mulher Vanda, da Casa Padre Pio, em fevereiro de 2011.

Os caminhos do casal se cruzaram por acaso há 16 anos, no interior do Paraná. Nascido em São Gonçalo, estado do Rio de Janeiro, e criado entre o Paraná e São Paulo, Valdeir visitava os avós no interior paranaense.

Na mesma cidade, naqueles dias, Vanda dos Reis passava uns tempos com vovô e vovó. Conheceram-se, apaixonaram-se, casaram-se e se estabeleceram na Vila Paranaense, no Espinheiros. Se Valdeir tivesse seguido sua vocação, talvez hoje já fosse padre. “Vou me tornar diácono em 2016, quando terminar a faculdade de teologia na PUC do Paraná”, antecipa ele, que também cursa direito na Univille e é estagiário na Procuradoria da União.

Inspirados pela comadre

Dedicado ao trabalho voluntário desde que morava em São Paulo, Valdeir encontrou em Vanda também uma parceira nesta via. A inspiração para criar uma casa de passagem veio há uns três anos, quando acompanhavam uma comadre, que veio do Paraná se tratar de câncer. “Ali decidimos criar uma casa de acolhimento, para dar tranquilidade a quem vem em busca de tratamento”, lembra Vanda. Como exemplar acadêmico de direito, Valdeir tratou de cuidar primeiro da parte burocrática, providenciando todas as licenças e documentos. “Primeiro legalizamos, depois inauguramos. Até o pessoal da Vigilância Sanitária garantiu que era a primeira vez que liberavam uma entidade tão organizada”, orgulha-se o futuro advogado e diácono.

Hoje, a Casa Padre Pio dispõe de cozinha, sala de TV e leitura, banheiros e alojamentos para 18 pessoas, tudo de acordo com as exigências sanitárias. Conservação e limpeza ficam por conta de duas dezenas de voluntários, enquanto Valdeir e Vanda cuidam da administração.

Os recursos para manter a casa vêm da comunidade, de três formas: doação de alimentos ou contribuições em dinheiro, via conta de luz ou boleto. “Não aceitamos dinheiro vivo. Tudo que entra é comprovado e contabilizado”, esclarece o presidente Valdeir (Vanda é vice, enquanto a direção espiritual é exercida pelo padre Antônio, da Paróquia São Paulo Apóstolo). Além das doações, a casa organiza bazares e eventos, como a Noite do Pastel, marcada para 16 de novembro, na Paróquia São José, lá mesmo no Moinho de Ventos 2, onde fica a ONG. “Os pastéis serão produzidos por uma ex-acolhida da Casa, hoje também voluntária”, informa Vanda, convidando a comunidade a comparecer.

 

Como colaborar

Quem quiser ajudar a Casa Padre Pio pode levar doações ou se cadastrar para contribuir com auxílio financeiro na rua José Silveira Lopes, 1250, Moinho de Ventos 2, bairro Espinheiros. Os telefones são 3434-2188 e 9181-0181.

 

Padre Pio, um exemplo

Francesco Forgione nasceu em 25 de maio de 1887, em Pietrelcina, Itália, e morreu em 1968. Foi sacerdote católico da ordem dos capuchinhos, elevado a santo pela Igreja Católica como São Pio de Pietrelcina. Tinha o dom da bilocação (estar em dois lugares ao mesmo tempo) e estigmas (feridas nas mãos, nos pés e no peito, como as de Cristo). Comprovados diversos milagres, foi canonizado em 2002 pelo papa João Paulo 2º. Em 2008, seu corpo foi exumado, intacto, e colocado numa urna de cristal.


De bailarino a produtor cultural, o talento do joinvilense Deivison Garcia

Multiartista, que se revela um perfeccionista em tudo o que faz, traz para Joinville a mostra infantil de dança “A Noite é Uma Criança”, um sucesso em Florianópolis

Bailarino, coreógrafo, ator, produtor e professor de expressão corporal... Essas são as atividades realizadas – muitas vezes, simultaneamente – por Deivison Maicon Garcia durante metade dos seus 30 anos recém-completados, ainda que aparente muito menos, especialmente pela jovialidade e pelo riso fácil. “Virar produtor artístico foi uma consequência das várias atividades, pois sempre tive o dom para a gestão, e não suporto ver um trabalho com falhas”, diz Deivison, que no momento concentra esforços na mostra infantil de dança “A Noite é Uma Criança”, agendada para novembro, em Joinville. A mostra é uma extensão da que vem sendo realizada em Florianópolis e já está na 12ª edição.

 

 

Rogério Souza Jr./ND
A arte corre nas veias do menino que se criou no Profipo e ganhou o mundo com sua dança

 

A infância deste joinvilense, nascido no dia 22 de outubro de 1983, foi igual à de tantas crianças, pelos campinhos dos bairros Escolinha e do Profipo. “Como era bom colher jabuticabas no Ronco d’Água, pena que elas sumiram”, comenta Deivison, neto de Carmem Luísa da Conceição, famosa pela tenda de umbanda que mantinha no Profipo, muito antes de o loteamento virar bairro. Primogênito de quatro filhos, Deivison viu sua responsabilidade aumentar aos oito anos, quando o pai morreu: “Precisei ajudar minha mãe a criar os irmãos.”

A veia artística despertou aos 15 anos, no grupo de dança da escola João Colin. “Comecei na dança com a professora Joana Crestani, depois fui para o grupo Paiee (Programa de Apoio e Incentivo ao Esporte Educacional), Comdança e Escola Municipal de Balé da Casa da Cultura”, enumera, com palavras de carinho também para a ex-bailarina e coreógrafa Fabíola Bernardes e ao professor Marcos Sage.

Deivison participou de quatro edições do Festival de Dança, até se mudar para Diadema, no Grande ABC, onde ficou seis anos e precisou encerrar a carreira por causa de uma lesão.

De volta a Santa Catarina, foi cursar educação física, começando na Univille e concluindo na Udesc, em Florianópolis, sua parada seguinte. Lá iniciou carreira como coreógrafo, na companhia Ritmo em Movimento. Formado, atravessou o Atlântico e foi fazer mestrado em performance artística-dança pela Universidade Técnica de Lisboa (“Estou concluindo a tese agora”). Em Portugal, deu aulas em escolas públicas e academias de dança.

Volta a Joinville

Deivison retornou à cidade-natal no ano passado, mas permaneceu fazendo a ponte rodoviária com Florianópolis, já como produtor. “Minha carreira no teatro começou há uns dez anos, ainda em Joinville, como ator na companhia Circus Musicalis. Foi também quando tive a primeira experiência como produtor, ao perceber a vocação para a gestão. A desorganização, em qualquer circunstância, me causa urticária!”

O contato com a Capital intensificou-se neste ano, quando Deivison Garcia assumiu, em maio, uma cadeira no segmento de dança do Conselho Estadual de Cultura. Em Joinville, também administra a ONG Centro Cultural Cena Livre, dá aulas de educação física e expressão cultural na ONG Opção de Vida, é coreógrafo free lancer e está envolvido constantemente na produção de eventos e projetos. “Acabamos de lançar o enredo da Príncipes do Samba para o próximo Carnaval”, arremata Deivison, diretor artístico da escola de samba – onde o irmão, John, é o atual rei Momo.

O público joinvilense pode conferir o trabalho de Deivison nos dias 9 e 10 de novembro, na 1ª Mostra de Dança Infantil “A Noite é uma Criança”, no Teatro Juarez Machado. Escolas, academias, grupos e bailarinos de todo o Brasil, com idade entre quatro e 14 anos, estarão mostrando sua arte. “A Cidade da Dança não poderia ficar fora dessa”, conclui o produtor.

 

Divulgação/ND

Deivison numa Mostra de Dança realizada em 2007, no teatro do CIC, em Florianópolis


Após aposentadoria, casal de Joinville encontra no artesanato uma forma de ficar ainda mais unido

Ademir Manoel Batista, o Ademir Caratê, e Tânia Regina Benkendorf Batista acabam um sendo a extensão do outro na produção de peças para decoração

Ele trabalhou como mecânico ajustador em grandes empresas joinvilenses e se destacou no esporte, especialmente nas artes marciais. Ela foi professora da rede pública durante quase três décadas. Hoje, ambos aposentados, formam uma bem afinada dupla produzindo belos trabalhos artesanais, como uma forma de se manter ocupados e desenvolver suas habilidades.

Ademir Manoel Batista, 58 anos, mais conhecido como Ademir Caratê, e Tânia Regina Benkendorf Batista, 52, no momento concentram esforços nas mais variadas peças com motivos natalinos, que começam a ganhar os recantos de sua casa no coração do Itaum – além dos vizinhos pais de Tânia, de parentes e amigos.

 

 

Fotos Rogério Souza Jr./ND
Tânia e Ademir se distraem criando peças únicas que decoram seu lar e os dos amigos. Eles garantem que não têm pretensão de produzir em série, mas desde que a reportagem foi publicada no ND, na semana passada, a procura tem sido grande

 

 

“É apenas um hobby, não temos qualquer pretensão profissional com o artesanato”, frisa Ademir, responsável por dar formas à madeira e outros materiais, enquanto a mulher cria as peças e lhes dá o aspecto final.

Nascido e criado na região da rua Taubaté, no Guanabara, Ademir corria atrás da bola nos campinhos das redondezas. “O lugar preferido era o campo do Sulista, mas o que não faltava era lugar pra se divertir”, garante, trazendo na memória os ensinamentos das professoras Érica Alkmann e da tia Isabel Cidral, no colégio João Colin.

Depois de passar pelo Elias Moreira, formou-se técnico mecânico ajustador pelo Senai. “Comecei minha carreira na Máquinas Raimann, onde hoje é o Big da Getúlio Vargas, fiquei 20 anos na Tupy e me aposentei depois de 16 anos na fundição da Embraco.”

Jogando e competindo pela Tupy, ganhou o apelido Ademir Caratê, por causa das conquistas nesse esporte. No futebol, trabalhou nas categorias de base do Fluminense. “Tive a felicidade de revelar bons jogadores, como Chaveirinho, Anderson Pedra e meu filho Fabiano, todos com passagens pelo JEC.” Atacante, Fabiano foi da mesma geração de Ramires, e jogou também no Atlético de Ibirama e por países árabes; hoje, defende o América na Primeirona. Outro filho de Ademir e Tânia (que se casaram em 1980) é Anderson, levantador do time de vôlei do Minas.

Ademir mantém a forma física frequentando academia – sob a orientação do filho Fabiano, personal trainer – e batendo uma bolinha na paróquia luterana São Lucas.

Tânia Regina também nasceu em Joinville, no Rio Bonito, onde morou até os 8 anos. Filha da professora Nair Benkendorf (perfil no ND Joinville do dia 12/10/2013), decidiu seguir os passos da mãe, depois de ver frustrado um antigo plano: “Na verdade, eu queria ser médica. Com 15 anos, já trabalhava na administração do Hospital São José, mas desisti ao me sentir mal um dia, ao ver chegar uns acidentados ensanguentados ao pronto-socorro.”

Formada em pedagogia pela ACE – no mesmo ano da mãe –, debutou em sala no colégio Oswaldo Cabral (ambos os filhos foram seus alunos) e se aposentou após 26 anos, no colégio Geraldo Wetzel.

 

Habilidades artísticas despertam

 

“Eu já tinha habilidade em artes desde o colégio, e só precisei retomar a prática depois de me aposentar”, conta Tânia, que também aplicou o artesanato como uma terapia para se recuperar de uma depressão.

“Minha própria profissão me serviu para desenvolver a habilidade artística, servindo depois para fazer pequenas reformas em casa, até me associar à Tânia no artesanato”, acrescenta Ademir.

Ele comprou o maquinário necessário para dar forma às peças, como serra elétrica, enquanto Tânia cuida das tintas e outros materiais necessários. “A maior parte das peças sai da minha imaginação, coloco no papel, se for em madeira o Ademir recorta e depois pinto”, explica a ex-professora.

“Procuramos sempre manter a originalidade, com peças diferenciadas, sem produção em série”, reforça o ex-mecânico. Sorte das pessoas que forem presenteadas com enfeites de Natal.

 

 

Cada peça é única, pensada com muito carinho e com caprichado acabamento

 


Canã, o operário que se tornou craque do esquadrão vencedor da Tigre na Primeirona nos anos 70

De 19 anos em que Jair Sestrem trabalhou na empresa, 12 foram dedicados, apenas por amor à camisa, ao futebol

Nas fotografias e nas escalações do supertime da SER Tigre tricampeão da Primeirona nos anos 70, um detalhe não muda: o camisa 5 titular é sempre Canã. “Tínhamos mesmo um timaço, cheio de craques e muito entrosado. Era difícil nos vencer”, admite, cheio de saudade, o médio-volante que defendeu as cores da Tigre durante 12 dos 19 anos em que trabalhou na empresa. Hoje aposentado, Canã curte as boas lembranças dos campinhos da avenida Cuba, dos jogos do Caxias e da trajetória na Tigre.

Nascido em 1950, Jair Sestrem desconhece a origem do apelido: “Foi meu pai que começou a me chamar de Caná, talvez devido à parábola bíblica das bodas em que Jesus transformou água em vinho. Como ele morreu cedo, devido a um câncer, eu nunca soube ao certo. Quando entrei na Tigre o acento virou til e até hoje me chamam de Canã”.

 

 

Fabrício Porto/ND
Canã é uma figura conhecida nos campos de várzea joinvilenses: uma referência para os iniciantes

 

 

Criado no Bucarein, Jair dividia o tempo entre as aulas no colégio Rui Barbosa, o futebol nos inúmeros campinhos da região e as brincadeiras no porto de madeira, onde o pai era estivador. “O que não faltava era lugar pra jogar bola; qualquer gleba que aparecesse, se não fosse logo cultivada, já virava campinho”, garante Canã, penúltimo de seis irmãos (ele é primo dos irmãos Sestrem cegos que fizeram história no atletismo joinvilense). As primeiras camisas que defendeu foram dos times mirins do Santos (da avenida Cuba) e do Ferroviário (que tinha campo na esquina das ruas Leite Ribeiro e Anita Garibaldi, onde durante alguns anos funcionou um supermercado, hoje em ruínas). Sobre a famosa “avenida”, Canã faz uma correção: “Na verdade, era avenida Cubas, sobrenome da família proprietária das terras”. A rua, hoje, é chamada Emílio Cubas. De lá, verdadeiro celeiro de craques, Canã cita alguns como Vi, Paca, Piava, Tite, Maurinho, Orlando e, mais recentemente, Pingo, muitos deles brilhando com as camisas de América, Caxias e JEC.

 

Carreira na Tigre

 

Enquanto um irmão, Hélio, se profissionalizava no Caxias, time de toda a família, Canã se empregava na Tigre. “No velho Ernestão, quase sempre lotado, eu via os jogos espremido entre as pernas dos adultos, na antiga arquibancada de madeira, antes da reforma de 1976. Vi o grande Caxias de Norberto Hoppe e Fontan, dava gosto de assistir esses craques jogando”, diz, lamentando a atual situação de penúria do tradicional alvinegro.

O primeiro emprego com carteira assinada de Jair Sestrem, em 1970, foi na Cia. Hansen, na unidade da rua Bahia. Assim que se enturmou, logo foi convocado para o time da SER Tigre, que disputava a Primeira Divisão de Amadores. “Sempre joguei de médio-volante, com a função de proteger a defesa e ajudar na armação. Era o tempo do ‘rabo de vaca’, o volante ia de uma lateral à outra, cobrindo as subidas dos laterais. Naquela época os times tinham só um volante, não esse monte de hoje.” Viril, Canã não era de perder dividida, mas também não apelava para a truculência, virtude comprovada no currículo imaculado: “Em doze anos de Tigre, nunca fui expulso”.

A fase áurea começou em 1973, com o primeiro título da Primeirona, repetido nos dois anos seguintes. “Mesmo tendo ganhado três campeonatos seguidos, a vida da Tigre não era fácil. Fluminense e Tupy eram adversários duros de bater.” A preparação precisava ser conciliada com o trabalho: “Treinávamos depois do expediente. Terça, física; quinta, coletivo; sábado, apronto; domingo, jogo”. Dedicado e incansável, era comum Canã ser escalado na seleção dos melhores do campeonato. “Suava mesmo. Depois dos jogos, no vestiário, eu jogava a camisa e ela ficava grudada na parede.” E ninguém ganhava salário extra para jogar: “No final do ano tinha festa e uma gratificação da caixinha que era recolhida durante o ano”.

 

 

Fabrício Porto/Reprodução/ND
Time da SER Tigre campeão da Primeirona em 1974. Em pé, da esquerda: Nivaldo Nass (presidente), Gastão Wendell (diretor), Alire Lima (técnico), Anivaldo, Antoninho, Canã, Claudinho, Luiz, Lolo, Euzo, Euclides dos Reis, Chico e o massagista João; agachados: Idemar, Brás, Alci, Parucker, Osmar, Jurandir, Pingo, Chupim e Aleixo

Com 19 títulos literários e dez de conteúdo técnico, David Gonçalves vive de estimular a leitura

“O que vai sobrar de mim é a literatura”, resume o escritor, sobre a sua produção, reforçada pela editora própria
Rogério Souza Jr./ND
Desde que descobriu a literatura, David Gonçalves escolheu viver cercado pelos livros. O consumo e a produção são incansáveis

 

Para ele, a literatura é um dom. Algo que você tem que descobrir dentro de si, lapidar com o estudo incansável da língua e a leitura dos grandes mestres da escrita. Uma arte que tem o desafio de ir muito além do lazer... tem a função de despertar a consciência crítica, instigar a reflexão sobre o futuro e a própria existência. “Não pode ser poeira”, afirma David Gonçalves, que construiu uma obra que abrange 19 títulos literários (o vigésimo está no forno) e outros dez de conteúdo técnico.

Escritor, professor e consultor, ele hoje mantém a sua própria editora, realiza um trabalho quase missionário de estímulo à leitura entre os estudantes e ajuda a fomentar a produção local, à frente da Associação da Confrarias das Letras. “O que vai sobrar de mim é a literatura”, avalia.

Ser escritor era algo improvável para o menino nascido em 1952, em Jandaia do Sul, no Paraná. Terra roxa, vermelha, um laboratório étnico com migrantes e imigrantes das mais diversas raças e culturas, que vivia da cultura do café. Os pais, pequenos produtores rurais, praticamente não tinham estudo – sabiam o que era preciso para a vida na roça. Em casa, não havia livros. Dos nove filhos, apenas dois estudaram.

Mas, sabe-se lá como ou porquê, a literatura entrou na vida de David na adolescência. Com 12 ou 13 anos, pouco entendia do que os professores explicavam, ia mal na escola. Mas já sentia que queria ser escritor. Aos 14 anos, esse sentimento virou certeza e se materializou na conclusão do primeiro livro. “O Pote de Ouro”, como se chamava, era uma história de terror, com assombrações e muito medo. Nunca chegou a ser publicado, mas indicou um caminho .

A partir daí, sentiu que precisava ler mais, estudar mais, buscar mais. Frequentava a escola à noite e durante o dia ajudava os pais na roça. Em casa, não tinha luz elétrica e para ler era preciso contar com uma lamparina de querosene ou ficar até tarde na praça da cidade, aproveitando a luz dos postes. Porém, em um ano foram 152 livros devidamente devorados. “Lia o que me caía nas mãos, sem orientação”, recorda ele, que pegou uma gramática e foi estudar sozinho para entender os meandros da língua. Vivia entre os cadernos, escrevendo.

Aos 15 anos, o pai, que não havia terminado o primário, vendeu umas sacas de grãos e lhe deu o presente mais valioso que David poderia imaginar: uma máquina de escrever, daquelas Olivetti portáteis, com tampa.

 

“Foi o grande presente da minha vida."

 SOBRE A MÁQUINA DE ESCREVER QUE GANHOU DO PAI

 

David começou a beber nas águas dos grandes autores brasileiros. Monteiro Lobato (a obra adulta), José Lins do Rego, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos... “Quando encontrei Guimarães Rosa foi uma descoberta”, revela ele, que encontrou no universo do autor a sua própria vivência no sítio, na roça.

Dos 16 aos 18 anos escreveu o primeiro romance, “Bagaços de Gente”. Eram 252 laudas, datilografadas em espaço um para economizar papel, e repletas do realismo fantástico que permeava a cabeça do adolescente. O livro, ainda hoje guardado na propriedade da família, revela, em suas entrelinhas, o processo de descoberta, de formação, de um autor. “Anos depois, reli. Percebe-se, em cada capítulo, a influência dos autores que eu lia na época. Sou filho de toda essa gente”, constata.

A primeira publicação saiu em 1972, quando David já cursava as faculdades de letras e de administração. A edição foi feita pelo diretório acadêmico da faculdade e a temática principal, o racismo, já deixava vislumbrar a preocupação social que marcaria a trajetória a partir dali. O tema, porém, não era bem visto em um período de exceção como o daqueles tempos e a edição foi recolhida pela Polícia Federal.

 

Aos 23 anos, já era mestre

 

O título só seria relançado 16 anos depois e hoje está na 8ª edição. Foi no romance seguinte, “Geração Viva”, de 1976, que a temática agrária, o êxodo rural e a transformação do Brasil nos anos 60, 70 e 80 se consolidou em sua obra. “Aqui, sim, a minha literatura se firmou”, constata ele, que chegou em Joinville nessa época, aos 23 anos, já com mestrado em literatura brasileira e teoria literária.

Gonçalves já publicou no Rio, em São Paulo, em Curitiba. Tem livros que já estão na 16ª edição. Mas há alguns anos, resolveu ser dono da própria obra e abrir uma editora. Surgia a Sucesso Pocket. No ano passado lançou uma coleção juvenil, de contos, para estimular o hábito de leitura em alunos do 5° ao 9º ano. São cinco títulos, que podem ser requisitados gratuitamente por professores e escolas para trabalhar com a garotada. “É um trabalho missionário, que abre as portas para a literatura”, explica.

 

Para falar com o autor:

www.davidgonçalves.com.br

david.goncalves@uol.com.br


Vendendo peixe, Mi se tornou uma das figuras mais conhecidas no Mercado Público de Joinville

Sempre com um sorriso, ele está lá no balcão, às ordens
Fabrício Porto/ND
Mi começou adolescente, lavando caixas nas peixarias. Neste dia 17 completou 33 anos de idade, e os quase 20 de profissão foram sempre no mesmo lugar

 

Entre as virtudes que se esperam de um profissional dedicado às vendas, estão gentileza, simpatia, agilidade e, claro, que conheça o ofício e atenda às necessidades de quem compra. Tais qualidades são reconhecidas pelos clientes do Mercado Público Municipal, em especial os da Peixaria Classe A, em que todo o pessoal que fica atrás do balcão, desde os gestores Ronaldo e Gilmar, até o Super com sua bicicleta (todos já mostrados neste espaço), passando por todos os atendentes. Desta vez, o ND apresenta o perfil do balconista Mi, outro que muitos fregueses conhecem há tempo – ele completa 20 anos de trabalho em 2014 – e que, da mesma forma, chama os clientes pelo nome. “Cheguei aqui ainda adolescente. Aprendi muito com os colegas e hoje posso dizer que somos como uma família”, diz Mi, que completou 33 anos de vida neste 17 de outubro.

Ele nasceu em Joinville, foi registrado como Valmir Corrêa e se criou no Comasa. “Estudei no colégio Castelo Branco, mas precisei começar a trabalhar cedo, para ajudar no sustento da família”, conta Valmir, que aos 13 anos já trabalhava numa marcenaria. Mas não ficou muito tempo: “Não deu nem um ano na marcenaria. Meu cunhado, Zé Roberto, trabalhava aqui na peixaria e me arranjou uma vaga.” Aos 14 anos, Valmir se tornava o Mi, apelido que ganhou no novo emprego e pelo qual é conhecido até hoje.

 

Da lavação ao balcão

 

Mas o início do então adolescente Mi na peixaria não foi nenhuma moleza. “Comecei na lavação de caixas, passei por outras funções auxiliares e cheguei ao balcão. Devo muito ao Gilmar e a todos os colegas que já passaram por aqui, que muito me ensinaram”, agradece Mi, que até se tornar um conhecedor, só trazia a experiência de pescador ocasional, para os lados do Espinheiros. “Quando comecei, havia cinco peixarias no mercado, era tudo bem diferente. Nestes 19 anos aprendi muito, fiz amigos, criei meus filhos e acompanhei todas as transformações do próprio Mercado Público.”

Pai de Lucas, 15 anos, Vinícius de 12 e Vítor de 9, Mi aponta também com orgulho os troféus enfileirados numa estante da peixaria, conquistados nos torneios de futebol promovidos pelo Sindicato dos Comerciários. “Já formamos times bons aqui, ganhamos algumas competições dos comerciários, mas hoje só bato uma bolinha nos finais de semana, sem compromisso”, afirma o torcedor do São Paulo e fanático pelo JEC, sócio de não perder jogo na Arena.

“Eu era guri quando o JEC dominava o futebol catarinense, e aprendi a amar o tricolor”, diz, ainda esperançoso de uma sorte melhor do time neste Brasileiro. “Nunca foi tão fácil subir pra Série A. A diretoria montou um bom time, a torcida sempre apoiou, mas infelizmente faltou mais empenho do grupo”, lamenta. Outra distração de Mi, quando não está atrás do balcão, é encontrar os amigos para umas partidas de caneco ou dominó no Bar do Beto, no Boa Vista. “Moro ali em frente à igreja, e domingo é dia de missa e encontro de amigos.”

Amizades não faltam na vida de Mi, um sujeito simples e dedicado, que faz de cada dia uma nova jornada. “Gosto do meu trabalho, amo minha família, respeito todas as pessoas, tenho muitos amigos...”, resume.


Ex-lavrador vira padeiro e se torna referência no Rio Bonito

Família Neumann trabalha unida e é um exemplo de determinação, além das delícias que produz

MAURO ARTUR SCHLIECK/ND

Aldino, Cristian, Íria e Itamar vieram em busca de qualidade de vida e hoje são referência em panificação no Rio Bonito

 

Quando o casal Aldino e Íria Neumann trocou o Oeste catarinense pelo Litoral Norte, há 18 anos, vinha na bagagem o anseio de buscar melhores condições de vida e proporcionar mais opções de estudo para os dois filhos. Hoje, podem se orgulhar de ter alcançado os objetivos. São donos do próprio negócio, a prole – aumentada com mais um filho joinvilense – está bem encaminhada e eles criaram novas raízes na comunidade do Rio Bonito, onde sua panificadora vai se tornando uma referência.

“Podemos dizer que valeu a pena trocar a lavoura pela cidade grande. Vivemos num lugar agradável, com boa qualidade de vida e podemos oferecer conforto para a família”, afirma Aldino, o ex-lavrador que virou padeiro e empresário.

A origem da família está em Cunha Porã, no Oeste, município hoje com pouco mais de 10.000 habitantes, colonizado por alemães vindos do vizinho Rio Grande do Sul. Aldino nasceu em 1962, sétimo de 11 irmãos, de uma família dedicada à lavoura. “Plantávamos várias coisas, mas o principal era o milho. Todos os filhos engraxaram o cabo da enxada, como era comum entre as famílias do campo”, lembra.

Três anos mais nova, Íria Goering tinha apenas duas irmãs, e a família também via na agricultura a principal fonte de subsistência. Conhecidos desde crianças, Aldino e Íria acabaram consumando em casamento a paixão juvenil.

 

Novo começo em Joinville

 

Em 1995, já pais de Itamar (hoje com 28 anos) e Josimar (23), os Neumann fecharam a porteira em Cunha Porã e pegaram a estrada rumo a Joinville. “Eu tinha um cunhado morando aqui, e ele me convenceu a vir e começar nova vida”, conta Aldino, que instalou-se na Estrada Canela e conseguiu um emprego na Panificadora Lemke, no centro de Pirabeiraba. “Eu não sabia nada do serviço, entrei como aprendiz mesmo, e devo muito ao Gílson, que ensinou muita coisa”, agradece Aldino, citando o padeiro que foi seu mestre.

Empolgado com o novo ofício, tratou de buscar aperfeiçoamento, complementando o aprendizado no curso de panificação do Senai. Seis anos depois, já gabaritado no forno, Aldino investiu as economias no negócio próprio, abrindo uma pequena padaria na rua 15 de Outubro, no Rio Bonito, em imóvel alugado.

Com capricho, dedicação e o apoio da família, o empreendimento prosperou e, há dois anos, os Neumann inauguraram sua nova panificadora e minimercado em instalações próprias, ao lado de casa, na rua Ricardo Piske, uma das vias de ligação entre o centro do Rio Bonito e a BR-101.

Atualmente, além de Aldino, Íria e Itamar (o filho Josimar formou-se engenheiro químico e trabalha no Laboratório Kress), juntou-se à força de trabalho o filho mais novo, Cristian, 12 anos. “Ele ajuda no que for necessário, quando não está na aula”, explica a mãe, que se tornou uma confeiteira de mão cheia, responsável pela confecção de cucas e bolos, tanto para venda no balcão quanto para atender encomendas de festas. Itamar se responsabiliza pela administração, enquanto Aldino continua no forno. “Só que agora – complementa – posso levantar às 5h da manhã, pois temos mais dois padeiros; quando era só eu, pulava às 3h.” Completam a equipe, cinco balconistas, uma confeiteira e uma faxineira. Funcionando todos os dias do amanhecer ao anoitecer (domingo só até o meio-dia), a padaria também dispõe de mesas para quem preferir fazer o café ali mesmo. “Futuramente, pensamos numa ampliação, para oferecer mais espaço e colocar mais mesas”, antecipa Aldino.

Para o marketing, não é preciso muito mais do que ligar os fornos e transformar a massa em pães e doces: o cheirinho faz a propaganda, se espalhando pelo Rio Bonito.

 

Serviço

A Panificadora e Confeitaria Neumann fica na rua Ricardo Piske, 49, centro do Rio Bonito. Encomendas podem ser feitas pelo telefone 3464-1490.


Performances de Beto Break marcaram os anos 80 em Joinville e região

Ele aprendeu sozinho a dança das ruas e por onde passava era um show. Viveu a adolescência fazendo suas performances e ainda hoje é referência quando o assunto são as discotecas dos anos 80
Luciano Moraes/ND
Aos 44 anos, Floriano ainda guarda a agilidade dos tempos em que percorria Joinville e região dançado e inventando passos para o breakdance

 

 

Quem tem mais de 40 anos e foi adolescente nos anos 80 deve lembrar da febre que começou a tomar conta das ruas naquele período. Era o breakdance, um estilo de dança que fazia parte da cultura hip hop e virou fenômeno mundial. E quem era adolescente naquela época, em Joinville, deve lembrar do Beto Break, um jovem que desafiava os limites do corpo e se “quebrava” ao ritmo da música. “Sempre solito”, brinca Carlos Alberto Floriano, que hoje tem 44 anos e mora em Campo Alegre.

Ninguém ensinou Beto a dançar. Este aprendizado foi tão natural que é até difícil precisar quando começou. O certo é que em 1982, com pouco mais de 12 anos, ele assistia à novela “Partido Alto” na televisão e ficava encantado com algumas  passagens de break que eram mostradas. Um pouco mais tarde, começaram a aparecer os clipes de Michael Jackson – e o fascínio do adolescente foi aumentando. “Fui vendo na TV e aprendendo. Com os clipes, fui me aprimorando, aperfeiçoando o estilo próprio”, conta.

 

“Era mais que uma paixão. Vinha da alma.

Já dormia pensando em coisas novas.

Não tinha ensaio. Chegava e dançava.

Era tanto improviso que o pessoal dizia: '

você nunca dança igual'. Não dançava, mesmo.”


A princípio, a dança era na rua mesmo. “Dançávamos nas calçadas, no antigo Shopping Americanas. Pegava o rádio-gravador, aqueles microsystems que o pessoal levava como se fosse uma maleta, levava para a rua, ligava no volume máximo e... dançava.” Era a senha para que o público formasse uma roda para assistir ao show. Aos 14 anos, começou a frequentar as casas noturnas da época e a ficar mais conhecido. “Surgiu o Beto Break”, constata.

Nos bairros de Joinville, a moçada se divertia em salões como o Alvorada, o Floresta, a Sociedade Vera Cruz ou antigo Tamandaré, que depois se tornou a Metrô. Beto Break passava por todos, se “quebrando” ao som do hip hop e já cultivando fãs. Alguns o procuravam para aprender um pouco mais daquela dança e ele dava aulas para um ou outro conhecido.

Na metade dos anos 80, o que era uma diversão começou a tomar contornos mais sérios. Muitos observavam, aprendiam, imitavam. Ele conta que, nessa época, a Sociedade Dallas organizou um concurso de dança. Outros garotos também conhecidos pelo break – que a esta altura já era popular nos salões – também se inscreveram e a disputa foi acirrada. Os movimentos de Beto já eram conhecidos, mas naquele dia ele decidiu arriscar: “O diferencial foi um salto que os outros faziam, mas eu não. Um mortal para trás. Tinha medo, mas naquele dia fiz”. Levou o primeiro lugar, uma placa de bronze e um prêmio em dinheiro.

Ele até já tinha ganhado uns trocados dançando na rua, mas ainda não havia visto a atividade como forma de ganhar a vida. “Nunca olhei como algo que iria render dinheiro”, comenta. Mas foi o que ocorreu a partir daí. Participou de outros concursos, levou outros prêmios e foi dançar pela região. Garuva, Guaramirim, Barra Velha, Timbó, Indaial, Curitiba...

 

A fama abria as portas dos salões para o bailarino

 

A fama seguia na frente e quando Beto Break chegava já era recebido quase como celebridade. Não pagava entrada em nenhum salão. Ele conta com orgulho que chegou a ficar em segundo lugar no 1° Concurso de Break Brasileiro, na Danceteria 360°, em Curitiba, e em primeiro lugar no Sul-brasileiro, em Florianópolis. Não parou nem quando entrou no Exército, em 1987. Sempre que podia, rumava para os salões, para os concursos e para a dança.

O break pautou o início de sua vida profissional e a influencia até hoje. “Até 1999, ainda vivia disso. Era DJ, mas tinha parado de dançar. Achei que tinha passado a época.”

Depois disso, foi para Campo Alegre, onde trabalhou na rádio comunitária e em projetos nas escolas envolvendo... a dança, é claro. Hoje, traz um pouco do aprendizado daqueles anos de break para sua atividade no Hotel Fazenda Dona Francisca, no Alto da Serra, onde é recreador e animador.  A dança continua presente e ele lembra daqueles anos 80 com um brilho nos olhos.

Assista a um vídeo de uma performance de Beto Break:



Referência na educação, Nair Benkendorf dedicou três décadas ao ensino de Joinville

Ela iniciou carreira ainda menina e se aposentou muito jovem, mas o trabalho que realizou e a dedicação à igreja, que ainda realiza, são motivo de grandes alegrias

Luciano Moraes/ND

Depois de 30 anos de profissão, Nair vive na tranquilidade e aconchego de seu lar, dedicando-se a outros projetos

 

A verdadeira coleção de certificados de cursos de aperfeiçoamento, zelosamente guardados numa pasta, junto com os diplomas da formação regular, comprova uma das características mais marcantes da carreira de Nair Neitsch Benkendorf no magistério: a constante busca de aperfeiçoamento. “Sempre procurei me manter atualizada, acompanhando a evolução das técnicas e dos métodos de ensino, num tempo em que a escola era, mais do que nunca, um complemento da família”, diz a professora, aposentada há quase 30 anos, depois de outros tantos dando aulas e dirigindo estabelecimentos escolares em Joinville.

Nair é o típico exemplo de fruta que cai e frutifica perto do pé. Dos sete filhos da professora Joana, ela e as irmãs Alaíde (já falecida) e Erica (vizinha de muro no Itaum) seguiram carreira no magistério, assim como a filha Tânia (também já aposentada). Nascida em Guaramirim em 1939, quando a cidade se chamava Bananal, Nair só podia ser professora. Ela conta: “Meu avô foi o primeiro professor na família, e acabou influenciando minha mãe e duas irmãs dela, Ada e Grece. Mamãe também incentivou e viu três filhas seguirem a carreira” (Ada Sant’Anna virou nome de colégio, tema de reportagem na série Memória Escolas, no fim de semana passado).

Quando criança, na falta de brinquedos, Nair brincava de professora. Mas, em vez de bonecas ou de amiguinhas, tinha outros alunos. “Como meu pai criava galinhas, eu dava aulas para os pintinhos. Mas logo desapegava, pois sabia que acabariam parando na panela assim que ficassem adultos”. Quando não estava às voltas com eles, divertia-se pelas ruas ou descendo de zorra dos morros. “Sempre de carona com algum irmão”, frisa.

Ser professora aos 16 anos proporcionou aposentadoria precoce

Nair apenas cursara o primeiro ano do primário, quando a família se mudou para Joinville. Concluiu os estudos na escola Bupeva (hoje colégio João Costa) e, incentivada pela mãe, de quem também foi aluna, fez o curso regional, preparatório para o magistério, no Conselheiro Mafra. “Antes de me formar, com 16 anos, fui dar aulas na Escola Rural do Rio Bonito (atual Escola Municipal Costa e Silva), para as séries iniciais. Depois fiz o normal no Celso Ramos.” Nair ficou 16 anos no Rio Bonito, até ser transferida para o colégio que levava o nome da tia Ada, no Paranaguamirim.

A essa altura, já estava casada com Cláudio Benkendorf. Pedreiro aposentado, o marido conta: “Eu trabalhava numa farmácia no Rio Bonito e sempre a via passando de bicicleta para o colégio. Resolvi que iria me casar com a professorinha.”  Uniram-se em 1961 e tiveram os filhos Tânia Regina e Luiz Cláudio. Os netos são três: Fabiano (ex-jogador de futebol, hoje personal trainer), Evandro (jogador de vôlei, levantador do Vivo Minas) e Luiz Fernando, aluno da Escola Técnica Tupy.

Nair lecionava há um ano na E.M. Ada Sant’Anna da Silveira, quando foi promovida a auxiliar de direção, permanecendo mais cinco anos. Em 1979, assumiu a direção da escola do Jarivatuba (atual João de Oliveira). “Quando fui nomeada para a direção, fui fazer a faculdade. Junto comigo, duas outras diretoras recém-nomeadas, Helga e a tia Else.” Formada em 1983 pela Faculdade de Educação de Joinville (atual ACE), aposentou-se no ano seguinte.

Depois da aposentadoria, Nair e o marido passaram a se dedicar à igreja luterana, inicialmente envolvidos na Paróquia São Lucas e depois na igreja de Itapoá, onde tinham casa. “Fundamos e construímos a igreja de Itapoá”, conta Nair. “Atualmente, estamos levantando a casa pastoral”, completa o marido, uma vez pedreiro, sempre pedreiro.

Em casa, dedicam-se à chacrinha que mantêm nos fundos, cheia de árvores frutíferas. Do tempo de magistério, Nair só guarda as muitas boas lembranças: “A maior satisfação é ver ex-alunos bem encaminhados na vida.”

Com a história de vida dedicada ao magistério, de Nair Benkendorf, o ND homenageia todos os professores pelo seu dia, o 15 de outubro.


Repórter esportivo JP conquistou a torcida joinvilense com seu jeito irreverente e voz esganiçada

O chamado "repórter da galera" é uma figura inusitada, com história curiosa que o acompanha desde o nascimento
Fotos Leandro Ferreira/ND
Microfone na mão e bola no pé são as marcas registradas do repórter de voz “esganiçada”

 

 

JP é o tipo de repórter protagonista, que às vezes se destaca até mais do que os times em campo. Principalmente, se o jogo for do tipo sonolento. “Bom mesmo era o time do Ipiranga nos anos 50, com Pucita, Puciano, Patinho e Pedrinho”, recorda. Ele, na época, era o Pedrinho, ponta-direita típico, rápido, driblador. Foi o início de uma carreira profissional, interrompida pelo chamado mais forte do rádio. Pelos campos amadores de Joinville, não há quem desconheça o repórter magrinho, meio careca e de voz esganiçada que se desdobra na reportagem e nos comentários, hoje na Rádio Clube.

A história de João Pedro Furtado começou de forma inusitada já no nascimento, numa sexta-feira 13, de abril de 1945, na ilha de São Sebastião, litoral paulista. “Meu pai era o responsável pelo farol da Ponta do Boi. Como era tempo de 2ª Guerra, ele não podia abandonar o posto. Acabou tendo que fazer meu parto auxiliado por um marinheiro e um tenente telegrafista. Sou o único cara nascido num farol.”

João Pedro ainda era bebê quando a família mudou-se para Santa Catarina. Passou por Florianópolis e Laguna antes de se fixar em São Francisco do Sul, em 1946. “Me considero francisquense. Fui criado nas imediações da avenida Nereu Ramos, nadei nas praias Apaum e Mota, joguei bola no campo do Marquinho”, afirma, orgulhoso. Ainda hoje, os irmãos Walfredo e Vilma moram em São Francisco (ela é dona do Supermercado Praião, na Enseada).

Bom de bola, JP chegou a se profissionalizar no Ipiranga, mas ficou pouco tempo, e pendurou as chuteiras no Cruzeiro de Presidente Getúlio, já como amador – lá, jogou com o joinvilense Mickey, que viria a brilhar no Caxias e no Fluminense.

 

“Meu povo, são 14 horas”

 

João Pedro chegou ao rádio movido pela paixão que herdou do pai. “Papai ficava horas sintonizando estações do mundo todo num daqueles enormes rádios valvulados com umas 30 faixas de ondas curtas. De tanto ouvir, acabei gostando.”

Ainda no tempo de ponta do Ipiranga, foi até a Rádio Difusora pedir uma vaga. O coordenador da emissora, Francisco Renato Lemos, o “Chiquinho Cavadeira”, acabou convencido. “Sempre tive essa voz esganiçada. Então, o Chiquinho me passou a função de dar as horas. Assinei um contrato de seis meses. Mas logo também estava anunciando músicas. Foi quando acrescentei o bordão que sempre me acompanhou: ‘São 14 horas, meu povo!’. Foi meu primeiro pitaco, coisa que faço até hoje, pois gosto do improviso.”

João Pedro ficou na Difusora até 1973, quando se mudou para Joinville, já casado com Rosa Maria – de novo, foi diferente: “Foi o primeiro casamento realizado na capelinha do Rocio Grande.” Trabalhou na Tupy, concluiu os estudos no Celso Ramos, fez dois anos de direito na Univali e acabou se formando em pedagogia pela ACE. Mas nunca abandonou o rádio.

 

 

 

JP entrevista a torcida: ele foi um dos primeiros a dar vez e voz à galera

 

 

“Fiquei como uma espécie de correspondente da Difusora em Joinville, até ser convidado pelo Melo Filho para trabalhar na Rádio Camboriú”. De lá, passou rapidamente pela Difusora de Itajaí, até chegar à Colon AM, em 1996. Dois anos depois, na Difusora de Joinville, ganhou o apelido de “repórter da galera”, fazendo entrevistas no meio da torcida, no Ernestão. E virou JP ao narrar, pela primeira vez, uma corrida de patos: “Fui o criador da corrida na Festa do Pato da Sociedade União Mildau, em 2001.” JP passou três vezes pela Rádio Cultura, outras tantas pela Difusora e, há um ano está na Clube, totalmente dedicado ao futebol amador.

Teve uma passagem pela televisão, como jurado no programa Arnaldo Show. Deixou a TV há três anos, quando comandava o “Negócio da China”, um balcão de utilidades. Também teve fugaz passagem pela política, em 2008, como candidato a vereador. Hoje, quando não está em campo – ou na galera, JP bate uma bola com sua turma do futsal, toda terça-feira, e corre dez quilômetros por dia, para manter a forma.

 

Divulgação
JP e o colega Aires Zacarias, em 1976

 

Os Falcões

JP e o jornalista Aires Zacarias (colegas no extinto jornal “Hora H”) fundaram, em maio de 1976, a primeira torcida organizada do JEC, os Falcões Tricolores. “Em 76 – conta – levamos 50 ônibus lotados a Lages, num jogo contra o Inter.”

 

Divulgação


Guardião da história de Campo Alegre, Totó reuniu relatos que ouviu dos mais antigos em 3 obras

Um dia, Márcio Augustin teve dificuldades de aprendizado, superou e hoje é curador voluntário do museu de Bateias de Baixo

 

Fotos Luciano Moraes/ND
Totó cuida de todas as peças que vem arrecadando ao longo dos anos, valorizando a memória dos primeiros moradores da região em cada objeto

 

 

“Depois que comecei a escrever, o pessoal

começou a dar um pouco mais de valor

à história de Campo Alegre.”


Ainda menino, o pequeno Totó adorava sentar ao lado dos mais velhos e ouvir histórias. Mas nada de contos da carochinha ou livrinhos infantis. Ele gostava mesmo era das histórias de sua gente, da comunidade de Bateias de Baixo, em Campo Alegre. Os anos passaram, o menino cresceu. Superou a si próprio, aprendeu a ler, a escrever e decidiu compartilhar as muitas histórias que colecionou durante a vida. Hoje, aos 42 anos, Márcio Augustin, o Totó, já tem três livros publicados e mais um em fase final. Além disso, atua como curador voluntário do museu de Bateias de Baixo, que reúne centenas de peças do período de colonização, e dá palestras sobre acontecimentos como a Guerra do Contestado, entre outros. Com isto, está conseguindo, na prática, despertar o gosto e preservar um pouco da memória da localidade em que vive.

O hábito de ouvir os mais antigos começou cedo, ao lado dos avós e de pessoas como o já falecido Otto, o carroceiro. E na leitura de livros sobre a história de Santa Catarina – seus preferidos. “Ia na casa deles, sentava pertinho e ficava escutando”, recorda ele, que estudou até a quarta série, ficou cerca de dez anos fora da escola e depois rumou para a Apae, onde estudou por mais 12 anos. “Tinha dificuldades para escrever”, revela.

Um dia, o irmão Marcos o convidou para completar o ensino fundamental no Ceja (Centro de Educação de Jovens e Adultos). “Pois vamos nessa”, respondeu, sem titubear. Já tinha mais de 30 anos e cursava de noite o Ceja e de manhã, a Apae. O passo seguinte foi concluir o segundo grau, o que conseguiu em 2006.

Antes disso, Totó já tinha encontrado seu caminho. Em 1994, a Sociedade Cultural Brasil Polônia (Braspol) reuniu entre a população local inúmeras peças que marcaram os cem anos de colonização polonesa na região, e montou uma exposição no antigo seminário de Campo Alegre. Ao final da exposição inicial, muitos deixaram as peças e, de 1995 a 2004, elas ficaram expostas em duas salas do seminário. A partir daí, foi criado o museu e todo o material passou a integrar o acervo. Voluntário desde o início do projeto, Totó não só cuidava das peças como ia reunindo outras, muitas vezes comprando-as ou realizando trocas. “O pessoal não queria mais e doava ou vendia”, conta ele, que uma vez chegou a andar oito quilômetros para comprar uma máquina de costura antiga. “Para salvar do ferro-velho.”

Um dia, o amigo Afonso Wöllnnerr o chamou e disse que alguém precisava escrever a história de Bateias. “Vá lá em casa e leve um caderno”, teria dito. “Na hora, pensei 'o que ele vai querer comigo?' Mas ele me deu a ideia de procurar os mais velhos e entrevistá-los, assim como estava entrevistando ele.” Era o início de seu primeiro livro: “O que já foi Bateias”,  viabilizado no ano 2000 com patrocínios.  Hoje, Totó já tem três títulos publicados e não pensa em parar. O quarto livro está a caminho. Desta vez, é um pequeno glossário de expressões usadas na região e suas traduções.

Com os livros e os 18 anos de trabalho voluntário coletando histórias, Totó se orgulha de estar contribuindo para guardar um pouco dos relatos e vivências da região e chamar a atenção para a importância de preservar a própria história.

 

 

Totó com máquina de costura que ele salvou do ferro-velho, depois de uma empreitada que incluiu oito quilômetros de caminhada para comprá-la

 

 “Uma tradição perdida”

Uma das mais belas manifestações folclóricas de Campo Alegre, hoje perdida, era o Fandango de Tamancos, dançado em homenagem a São Gonçalo do Amarante. Eram formados grupos de 25 pessoas, com duas filas de dez dançarinos cada, posicionados em linha de frente, dois violeiros e três cantores. Um deles, com um pandeiro, era o mestre de dança. Batendo o pandeiro, ele determinava o lado que dançava batendo os tamancos e ia ao encontro à outra fila que, parada, virava os tamancos à espera da fila que avançava gritando “viva São Gonçalo”. Ao que a fila parada respondia: “Viva!”.

Fonte: “Campo Alegre, Contos e causos de nossa gente”, de Márcio Augustin


Primeira mulher a presidir a Sociedade Harmonia-Lyra, Elisa Rück chega aos 80 fazendo muita festa

A leveza, a forma descontraída de viver e de festejar os bons momentos são marcas de sua personalidade
Leandro Ferreira/ND
Elisa apresenta uma de suas obras prediletas: obviamente, a Sociedade Harmonia-Lyra, que ela transformou em uma espécie de extensão de sua casa, está em primeiro plano

 

 

Na noite de desta quinta (3), quando Elisa Rück estiver recebendo os amigos para brindar a chegada dos 80 anos, ela vai estar vivendo um dos momentos que mais gosta nessa vida. Festeira assumida, foi a primeira mulher a ser presidente da Harmonia-Lyra e, nos anos 90, esteve à frente dos tradicionais bailes da sociedade – uma época de glamour, ainda hoje lembrada com saudades por quem viveu aquela época.

“A Lyra sempre foi a minha segunda casa”, revela Elisa, que, nasceu em São Bento do Sul há oito décadas e só veio para Joinville em 1961, quando o marido Hermes Rück foi chamado para trabalhar na Tupy. Não demorou muito para que o casal passasse a fazer parte da vida social da cidade. Músico, Hermes começou a tocar seu contrabaixo na orquestra da Harmonia-Lyra ainda no início dos anos 60. Ao mesmo tempo, Elisa fazia doces “miúdos” para eventos como casamentos, delicadas esculturas modeladas com massa de leite-condensado, marzipã ou nozes. “Assim comecei a ficar conhecida na cidade e a frequentar as festas, principalmente na Lyra”, recorda ela que, a partir dos anos 70, teve uma vida social intensa e participou de entidades filantrópicas como a Associação Santa Luíza de Marilac, de amparo a idosos e crianças.

A esta altura, o marido já fazia parte da diretoria da Lyra e, entre 1986 e 1990, foi escolhido presidente. Depois veio a gestão de Norberto Schwartz e, em 1992, a surpresa: uma gestão feminina. Elisa Rück assumiu a sociedade com uma diretoria predominantemente composta por mulheres – algo ainda inédito na tradicional sociedade cultural.

Foram três mandatos consecutivos que tiveram como principal marca bailes como os de debutantes, de Carnaval, o já esperado Réveillon e as noites natalinas. Na época, a Lyra tinha mais de 600 associados, que chegavam a fazer filas na calçada da rua 15 de Novembro para garantir a reserva de uma boa mesa para o baile de fim de ano, um evento que começava por volta das 22h do último dia de dezembro e só terminava depois do primeiro amanhecer de janeiro. “Fazia parte da sociedade frequentar o clube. Era uma tradição que vinha dos avós, para os pais e os casais. E para a pessoa que vinha de fora era uma forma de fazer a integração social”, comenta.

 

 

Arquivo pessoal/ND
O ator Tony Ramos com as debutantes dos tradicionais bailes da Harmonia-Lyra

 

 

Glamour nos bailes de debutantes

 

Os bailes de debutantes eram um capítulo à parte. Eles reuniam dezenas de moças, vindas de várias cidades, com seus longos vestidos brancos, em um ritual de apresentação à sociedade que ia além da tão esperada noite. As meninas contavam com uma madrinha, que oferecia um coquetel para as “afilhadas” semanas antes da grande festa. “A madrinha as presenteava com uma joia”, recorda Elisa. Na véspera do evento, os pais e as debutantes participavam de um coquetel na boate da Lyra.

Na grande noite, cada moça era chamada ao centro e, com os pais, dava uma volta no salão e era oficialmente apresentada à madrinha e à sociedade. A primeira valsa era dançada com o pai. A segunda, com o par escolhido pela moça, que podia ser o namorado, o irmão ou um amigo. E por fim, para o delírio das meninas, as moças dançavam com um ator global, que recebia um cachê para participar. “Os bailes de debutantes eram marcantes”, lembra ela, comentando que até o ator Tony Ramos dançou nos salões da Lyra.

A atuação social rendeu à Elisa Rück o reconhecimento no Estado e uma coleção de troféus de destaque que ela guarda com carinho em sua sala de estar. Deixou também boas lembranças, que se revelam no olhar brilhante e no sorriso franco ao contar um pouco das suas muitas histórias.


Geraldo Pereira, o craque que deixou marcas na torcida tricolor e na cidade

Uma relação de amor que iniciou em 1985, foi reforçada com o título de 1987 e se estende até hoje
Rogério Souza Jr./ND
Geraldo com o filho Bruno, em recente encontro de ex-craques do JEC

 

 

A relação de carinho entre o ex-atacante Geraldo Pereira e a cidade de Joinville não se limita à sua passagem de sucesso pelo JEC. O ponta, que participou recentemente do reencontro de ex-jogadores, tem uma ligação mais profunda com Joinville: “Foi aqui – conta – que nasceu meu segundo filho, o Diego, e também foi onde o Bruno encerrou a carreira, jogando pelo América.”

Geraldo Pereira nasceu em 1958 em Vespasiano, cidade próxima a Belo Horizonte que gerou também os craques Éder e Buião. O primeiro, revelado pelo América, destacou-se em grandes clubes como Atlético, Grêmio e Palmeiras, e fez parte da inesquecível Seleção de 1982; Buião brilhou nos Atléticos mineiro e paranaense, no Corinthians e no Flamengo, e hoje é empresário na cidade-natal. Numa cidade que respirava futebol, era natural que todo garoto quisesse ser jogador. Geraldo, o sexto de nove irmãos, também: “Sempre joguei bola, e como Belo Horizonte era perto, costumava ir com meu pai ao Mineirão nos jogos do Atlético, o time de toda a família”.

Mas a carreira de Geraldo começou com a camisa vermelha do Valério, em Itabira, aos 16 anos. “Pelo Valério – relembra – tive meu primeiro momento de grande emoção, ao marcar um gol no Raul, que jogava pelo Cruzeiro.” Profissionalizou-se no América, da capital, e depois de um ano e meio estava no XV de Jaú. Ficou na cidade o tempo suficiente para ver nascer o primeiro filho, Bruno, e para despertar o interesse do Santos. “Infelizmente, minha passagem pelo Santos não deu muito certo, tive poucas oportunidades”, relembra Geraldo, destacando em seguida a melhor fase de sua carreira, iniciada no Botafogo. “Ali foi o começo da minha projeção, e jogando pelo Botafogo fui convocado para a Seleção de Novos (atual sub-21) e logo em seguida para a principal, pelo Carlos Alberto Parreira, tendo disputado a Copa América de 1983.”

Do alvinegro, Geraldo foi para o São Paulo, onde ficou dois anos e foi campeão paulista sob o comando do técnico Cilinho. E aí surgiu o JEC.

 

 

Arquivo pessoal/ND
Geraldo (C) na comemoração do título do Campeonato Catarinense de 1987, em pleno estádio Heriberto Hülse, do Criciúma

 

 

Campeão catarinense

Geraldo Pereira desembarcou em Joinville em 1985, com o passe emprestado ao JEC. E logo tomou conta da ponta-direita e do coração da torcida. “Foi amor à primeira vista, tanto pelo clube quanto pela cidade. Aqui fui campeão e vi nascer o Diego”, conta o ex-atacante, conhecido por suas arrancadas pela direita, os cruzamentos precisos e os muitos gols que marcou com a camisa tricolor.

Também ficaram famosas as rusgas com o ex-árbitro Dalmo Bozzano. “Na verdade – diz Geraldo – o problema do Dalmo era com o JEC. Ele não passava um jogo sem encrencar comigo, com o Paulo Egídio, com o Moreno... Comigo piorou quando, ao dar uma entrevista, disse que o único Bozzano que eu conhecia era a loção pós-barba. Rapaz, acho que ele ouviu a entrevista, e a partir de então aumentou a birra pra cima de mim.”

Terminado o período de empréstimo, Geraldo retornou ao São Paulo e passou pelo Coritiba e pelo Uberlândia, antes de voltar ao JEC em 1987 e ganhar o título catarinense na histórica final contra o Criciúma. Atlético Paranaense e Bahia foram clubes que Geraldo defendeu antes da terceira e última passagem pelo JEC, em 1990. A derradeira camisa foi a do Blumenau E. C., em 1995. Há onze anos Geraldo mora em Balneário Camboriú, onde trabalha na Geotesc, uma empresa de logística.

É também em Camboriú que mora o filho Bruno, ex-meia do Criciúma, onde jogou cinco anos e pendurou as chuteiras, vindo depois jogar a Primeirona joinvilense, defendendo América, Sercos e Serrana. “Fui campeão pela Serrana, mas sou torcedor do América”, admite Bruno, corretor de imóveis e formado em educação física e direito.


Dupla traduz a essência do tango e encanta plateias em Joinville

Maycon Santos e Francine Borges se transformam em um só corpo, um só ritmo, uma só paixão

Quando sobem ao palco, colocam-se frente a frente e olham nos olhos um do ou­tro para dar início à dança, Maycon Santos e Francine Borges se transformam em um só. Um só corpo, um só ritmo, uma só paixão. Uma emoção que passa para plateia e traduz de forma incontestável a essência do tango, uma dança forte, orgâ­nica, que nasceu nas classes mais populares na região portenha e tem no desejo por liberdade uma de suas principais característi­cas. “Não é só uma dança ou uma música. É uma maneira de ser”, afirma Santos, que é presidente da Anacã Joinville (Associação de Grupos de Dança) e, com Fran­cine, esta à frente do Studio de Dança Dois pra lá, dois pra cá.

 

Luciano Moraes/ND
Luciano Moraes/ND
Casal uniu a paixão e a técnica na dança que inspira e transborda desejo

 

 

Achegada dos dois aos palcos ocorreu por caminhos distintos. Santos começou a dançar para superar a timidez. Aos 19 anos chegou a ir para Brasília com o sonho de viver de sua arte. Sem o retorno que gostaria, voltou para Joinville. “Os meus pais sofriam com minha ausência e eu sofria sem grana e com saudades”, recorda. Logo estava empregado, com carteira assinada, turno e uni­forme. Fazia curso de informáti­ca e planejava ser programador. Só não estava feliz. Nesta época, a fundadora do Studio de Dança Dois pra lá, dois pra cá o con­vidou para fazer umas aulas. Foi decisivo: “Me deu um clique: vou dar aulas de dança.” Aesta altura, o emprego tinha ido para os ares.

Avida de Francine tinha outro roteiro. Ela até dançou por pouco tempo, mas era corretora de se­guros, estabelecida no mercado. Porém, no início dos anos 2000, sua família passava por um mo­mento difícil e a mãe precisava de uma atividade que a fizesse espai­recer. Juntas, foram fazer dança de salão também no Dois pra lá, dois pra cá. Lá, ela e Santos co­meçaram a namorar.

Este encontro ocorreu em 2002. Os dois formaram um ca­sal, mas não um par. Francine seguiu sua profissão e Santos dançava com a irmã, Morganna. Com Morganna, ele mergulhou no tango, fez cursos. Um dia, em uma aula com o mestre Marco To­niasso, o professor foi bem claro: “Vocês são irmãos e vão até um pedaço do tango. Não vão ter ele todo”, disse. “Fiquei indignado”, revela Santos, explicando que o que faltava era a relação homem-mulher, tão marcante no estilo.

Eles conseguiram a plenitude no estilo

 A relação do casal com o tango viria a partir de 2006. Morganna foi construir sua carreira de modelo e o irmão procurou novo par. Mas como levar a paixão exigida pelo estilo com outra parceira? Orisco era enveredar por uma dança técnica, fria. “Não iria dar certo com outra pessoa”, explica Santos, enquanto Fran completa: “É algo que exige entrega.” Uma entrega que se constrói com elementos típicos do tango e que cala fundo aos dois, como o abraço, a pausa, o silêncio. Que ocorre até nos momentos de conflito do casal, que já entrou (ou saiu) de cena “de mal”. Mas sem perder a autenticidade.

Ocasal investiu em aulas e muito ensaio. Em pouco tempo, equacionou a questão técnica. Os resultados não tardaram. Em 2008, estrearam um espetáculo solo e em 2010 foram co-realizadores do curso de qualificação profissional em tango-dança, com a Escola do Teatro Bolshoi em Joinville e certificado pelo Conselho Municipal de Educação. Agora, prepara para novo espetáculo, para uma temporada. “É uma energia verdadeira. Me coloca diante dos meus monstros e o outro é meu espelho”, analisa Santos


Dona Ina deixa por um momento a rotina cheia de afazeres e comemora 91 anos com muita disposição

Ao completar mais um aniversário, ela é uma prova de amor à vida
Fotos Leandro Ferreira/ND
Um sorriso animado revela a alegria de viver da senhora Maria Paulina Moreira da Costa, que está sempre de bem com a vida

 

“Não tenho ouro nem prata, mas tenho a vida que Deus me deu.” Esta frase, longe de grandes devaneios filosóficos, resume a relação de Maria Paulina Moreira da Costa com a vida. Neste dia 26 de setembro, dona Ina, como é mais conhecida, só alterou um pouco a rotina para agradecer aos inúmeros cumprimentos que recebeu pelos 91 anos. Entre uma visita e outra, acelerou a leitura do ND, tarefa obrigatória após o café da manhã. Outro compromisso diário na agenda é assistir ao programa “Tribuna do Povo”, da RICTV, após o almoço. Também há a leitura da Bíblia e de algum livro (no momento, lê “Getúlio Vargas – A Esfinge dos Pampas”) e também gosta de assistir a um jogo de futebol na TV ao lado do genro. “Ela é empolgada, e xinga mesmo”, atesta Dorival, líder comunitário no mesmo bairro Floresta onde sua sogra foi um dos pilares da Paróquia São Francisco de Assis.

A história de dona Ina começa na localidade de Ribeirão da Corda, na vizinha Araquari, onde ela nasceu. Primogênita de quatro irmãos, passou a infância dividida entre brincadeiras, escola e trabalho. “Meu pai tinha engenho de farinha de mandioca, e também plantava milho, melancia e outras variedades. Todos os filhos ajudavam na roça. Estudei só até o quarto ano, numa pequena escola na Corveta”, conta dona Ina, demonstrando uma memória privilegiada ao se recordar de fatos e datas.

 

 

Leitura faz parte da rotina de dona Ina. No momento, ela está lendo sobre Getúlio Vargas

 

Jovem viúva de dois amores

 

Maria Paulina casou-se cedo, com 19 anos. E também ficou viúva ainda jovem. “Dois anos depois do casamento, meu marido morreu num acidente de trabalho”, conta, preferindo não se ater muito a detalhes. Da união, ficou a filha Isolete, hoje com 71 anos.

Ina tinha 26 anos quando se mudou para a casa de uma tia, em Joinville, na famosa “avenida Cuba”, no Bucarein. “Depois, toda a família veio pra cá também.” Em sua carteira de trabalho, bem conservada, constam os dois únicos registros de emprego, na extinta Rodolfo Milcher & Cia. e na Ambalit, de onde saiu em 1954.

Dois anos antes, casara-se novamente, com o francisquense José João da Costa. “Ele era pensionista na casa de amigos, que acabaram nos aproximando”, acrescenta. Com José, Maria teve mais dois filhos, Evaldo, hoje com 58 anos, e Márcia, 43. Há nove anos morando com a filha, dona Ina viveu um ano sozinha, após ter ficado viúva pela segunda vez, há uma década, sempre morando no Floresta.

O bairro tem lugar especial no coração dela. “Trabalhei por 37 anos com o padre Juca, na Paróquia São José Operário, até fundarmos a São Francisco de Assis, onde fui ministra do altar.” Foi na Associação de Moradores São Francisco de Assis – fundada, entre outros, pelo genro Dorival – que dona Ina fez um curso de inclusão digital, aprendendo as manhas do computador e das redes sociais. Ainda hoje, garante o genro, ela é uma das maiores incentivadoras do curso. “Só que prefere jornal e livros.” Leitora contumaz – ainda que tenha perdido a visão do olho direito por causa do diabetes –, admira o jornalismo, e viu-se realizada quando a neta Letícia escolheu essa profissão (formada no Ielusc, ela trabalha na agência Mercado de Comunicação). Dona Ina tem nove netos, oito bisnetos e quatro trinetos.

 

 

Dona Ina cuida das plantinhas na horta. Ela está sempre procurando ocupar o corpo e a mente

Bandoch vestiu muitas camisas, mas a do JEC foi a principal de sua bem-sucedida carreira

Ex-jogador provou que a prata da casa é capaz de brilhar, e muito
Rogério Souza Jr./ND
Bandoch fazendo o que ele mais gosta, em mais um encontro de ex-craques do JEC

 

 

Diz o ditado que “prata da casa não faz milagre”. Na verdade, não é preciso ser milagreiro. Basta mostrar competência e conquistar um lugar por seu próprio mérito. Foi o que fez João Bandoch, até hoje lembrado com carinho pela torcida, tanto pelo bom futebol que o levou a brilhar também com as cores do Botafogo e do Fluminense, quanto pelo amor que sempre demonstrou pelo JEC. “Tive boas passagens pelo JEC, sou torcedor desde criança e grato pelas oportunidades que tive aqui”, dizia Bandoch no sábado, 14 de setembro, pouco antes de vestir mais uma vez a camisa tricolor, no encontro anual de ex-jogadores, do qual ele sempre participa.

O envolvimento de Bandoch com o JEC foi natural. Afinal, ele nasceu – em 1975 – e se criou no Nova Brasília, onde mora até hoje na mesma casa dos pais (seu pai, Félix, foi Perfil em agosto do ano passado). Sétimo de nove irmãos, além do JEC torcia pelo Flamengo, na contramão da maioria vascaína da família.

Dos campinhos do bairro foi parar na escolinha do JEC – foi mais uma cria do técnico Afonso, maior formador de atletas da história do clube. “Eu era baixinho, e gostava de jogar na ponta-direita”, revela, acrescentando que se inspirava no ponta Geraldo Pereira, que chegara ao tricolor em 1985, quando Bandoch tinha dez anos. Mais tarde, à medida que crescia e ganhava corpo, passou para o meio-de-campo.

 

A profissionalização o levou ao mundo

 

Já decidido a seguir carreira, em 1992 João Bandoch assinou o primeiro contrato profissional, a essa altura jogando como volante. Sua estreia no time de cima foi contra o Avaí, na segunda rodada do Estadual de 1995 (vitória por 2 x 0), já escalado pelo técnico Paulinho de Almeida como zagueiro. “Aquele time tinha uma turma boa da base, e a concorrência na zaga era grande, com Everaldo, Fonseca, Benson e Rondinelli. Com muita dedicação, ganhei espaço como titular.” Ainda em 95, jogando ao lado de Jairo Santos, Bandoch ajudou o time a ficar em terceiro lugar na série C do Brasileiro, garantindo acesso à B.

Foi no primeiro ano como profissional, 1992, que Bandoch fez a primeira viagem internacional: “Fui convocado para uma seleção do Sul, representada pelo Atlético Paranaense, e fizemos uma excursão para a Ásia”. Foi a primeira vez, também, que Bandoch vestia outra camisa.

Em 1998, a primeira – e frustrada – saída do tricolor. “Fui jogar no Alania, um clube da Rússia, mas só deu rolo, por causa do empresário. Nada do que ele tinha prometido foi cumprido.” Três meses depois, Bandoch estava de volta. Nem chegou a vestir a camisa do JEC, emprestado para o Comercial de Ribeirão Preto. Retornou no final de 98, a tempo de disputar a série B do Brasileiro e despertar a atenção do Botafogo.

“Meu passe pertencia ao Renato Gaúcho, e ele me levou para o Botafogo, treinado pelo Valdir Espinosa.” Antes, porém, Bandoch superou o desafio da primeira contusão grave: “Estourei meniscos e ligamentos num joelho. Em um mês já estava recuperado, graças ao ortopedista Marco Antonio Schueda e ao fisioterapeuta Cláudio Vezaro”. A estreia pelo alvinegro carioca não poderia ser melhor: um massacre de 6 x 1 sobre o Corinthians pelo Rio-São Paulo de 99, com o terceiro gol marcado por Bandoch.

Em 2000, de volta do empréstimo, sob Artur Neto, a conquista do Catarinense após 23 anos. “Foi o período mais marcante da minha carreira”, admite o beque. De 2001 em diante, andanças: Fluminense (revivendo a dupla com Teio), JEC de novo, Grêmio, CRB, Arábia Saudita, China e o encerramento da carreira, na Malásia, aos 33 anos.

Em 2009, começava a fase como auxiliar técnico, no Fortaleza (já campeão estadual). Desde 2010, Bandoch é o fiel escudeiro do ex-companheiro e hoje técnico Pingo (a passagem mais recente – “Frustrante”, resume – foi pelo Juventus de Jaraguá). Bandoch ainda disputou a Primeirona, em 2008, pelo Serrana, e hoje só defende o Master do JEC. Casado com a joinvilense Maria Amália, é pai do botafoguense e jequeano João Vítor, de 12 anos.


O menino que amava música e fez dela um instrumento de educação, depois de aposentado

Cultura. E que hoje leva essa paixão e conhecimento a estudantes da rede pública de todo o Estado
Rogério Souza JR/ND
Acordes. Ananias Almeida fez do violão e da música clássica seus instrumentos de contribuição para a educação; na foto, apresentação na Escola Básica Professora Jandira D'Ávila, no Aventureiro

 

Era uma vez um menino do interior que construía seus próprios brinquedos e deles extraía sons. A madeira bruta se transformava em instrumentos, as crinas de cavalo e tripas de animais se convertiam em matéria-prima para cordas e os acordes brotavam de seus dedos intuitivamente - ou “de ouvido” como muitos dizem. Um conhecimento que ele não sabia de onde vinha, mas que já indicava a grande paixão que permearia a sua trajetória: a música. O menino Ananias Almeida cresceu, ultrapassou os limites de sua cidade, estudou, construiu a própria vida. Descobriu o violão erudito, se aprofundou, aprendeu com mestres, fez saraus, recitais, concertos, gravou três CDs. Hoje, aos 64 anos, compartilha sua paixão com outros meninos e meninas, levando a cultura musical para as escolas da rede pública e despertando o gosto pelas obras eruditas. “Tocar violão, apreciar a música... Isso para mim é uma riqueza. E eu quero distribuir essa riqueza para essas pessoas”, diz o violonista clássico que há cerca de 10 anos realiza projetos musicais nas escolas e somente no ano passado realizou 142 concertos para um público de mais de 86 mil pessoas em mais de 20 cidades catarinenses.

Nascido na pequena Montalvânia, no extremo Norte de Minas Gerais, ele morava na roça e, sem saber, recriava conhecimentos antigos, como o uso crinas de cavalo e tripas de animais para fazer cordas e arcos de instrumentos. No final dos anos 60, ainda adolescente, tocava de ouvido os hits da Jovem Guarda e dava aulas para crianças na área rural. Em 1968, porém, foi para a “cidade” continuar os estudos e se deparou com um professor que ficaria marcado em sua história. Joanilson Carvalho de Moraes dava aulas de história, mas tocava violão – e muito bem. “Ele me ensinou a fazer os primeiros arpejos”, recorda o discípulo, que descobriu o dedilhado e uma infinidade de novas possibilidades com seu instrumento. “Esse ano modificou a música dentro de mim. Foi uma porta que se abriu”, avalia.

A vida o levou para longe de sua terra natal. Convidado por um grande amigo que morou um tempo em sua cidade, em 1972 veio conhecer Santa Catarina. E decidiu ficar. Morou por alguns anos em Urussanga até fazer concurso para a Caixa Econômica Federal e rumar para Florianópolis e, em 1976, Joinville, onde cursou economia e ainda hoje vive com a família. O violão, fiel companheiro, sempre ao seu lado.

 

 “Tocar violão, apreciar a música... Isso para mim é uma riqueza. E eu quero distribuir essa riqueza para essas pessoas”

 

Mergulho nas partituras

Em 1988 a música erudita entrou de vez nessa história. Ananias já tocava clássico de ouvido, mas ainda não tinha um estudo formal. Naquele ano, matriculou-se na Casa da Cultura e mergulhou em matérias como teoria musical, harmonia ou coral, ao mesmo tempo que se aprofundava em seu instrumento. “Eu era gerente da Caixa. Acordava cedo, ia para aula e depois levava o violão para o banco”, recorda ele que, não parou mais. O passo seguinte foi abrir o leque, participando de eventos como o Seminário Nacional de Violão do Conservatório Mozart (SP), e fazendo cursos com violonistas internacionais como o Fábio Zanon e David Russel, entre outros.  Começou a fazer saraus e depois concertos – muitas vezes acompanhado da filha Marluce Marques, pianista. Quando se aposentou, em 1997, uma nova carreira já estava delineada: a de violonista clássico.

Um dia, há cerca de 12 anos, a diretora de uma escola pediu que ele fizesse um concerto no local. Logo as apresentações se multiplicaram, gratuitamente. Surgiu então a ideia de ampliar este trabalho por meio de projetos viabilizados com editais de incentivo à cultura e que reunissem vários instrumentistas. Era o início do projeto “Música Instrumental nas Escolas” que, em dez anos, já teve três edições estaduais, duas municipais e uma federal, via lei Rouanet – a segunda já está aprovada e em fase de captação de recursos para começar ainda este ano. São centenas de escolas e milhares de crianças, professores, funcionários e pais não só ouvindo música, mas conhecendo um pouco mais sobre o universo erudito. Um presente para quem ouve – e para quem faz. “É uma gratidão com as pessoas”, afirma o músico, revelando o enorme prazer que a atividade lhe traz.

 

Mais informações sobre o projeto “Música Instrumental nas Escolas” pelo e-mail ananiasejo@yahoo.com.br



Atual comandante dos bombeiros, Heitor começou há 25 anos, e não se vê fazendo outra coisa na vida

O teste vocacional feito em idade escolar não falhou para ele
fabrício Porto/ND
Heitor admite que é muito difícil se desligar do serviço, pois a paixão é grande demais

 

 

Em algum momento, durante uma das últimas séries do ensino fundamental, durante um teste vocacional, o resultado para o aluno Heitor foi “aptidão para ser soldado ou bombeiro”. Ele até nem se preocupou muito, pois ainda era cedo para pensar na profissão que iria seguir. Três décadas depois daquele teste, uma certeza: “Estava certíssimo, pois eu não me vejo fazendo outra coisa na vida”, garante Heitor Ribeiro Filho, hoje respondendo pelo comando do Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville, auge de uma carreira iniciada há 25 anos.

A história de Heitor começa em maio de 1972, quando ele nasceu, em Vidal Ramos, Alto Vale do Itajaí. Penúltimo de sete irmãos, mal conheceu sua cidade-natal: “Saímos de lá quando eu tinha cinco anos, pois meu pai havia conseguido uma vaga na Prefeitura de Joinville. Pouco tempo depois, ele foi para a Casan, onde trabalhou até se aposentar.”

A infância de Heitor foi passada entre os campinhos do Aventureiro, onde mora até hoje, e os estudos na Escola de Educação Básica Jandira D’Ávila. “Naquele tempo – lembra – o Aventureiro ainda não era bairro, nem tinha ligação com a Santos Dumont. O que não faltava era espaço para brincar. De empresa, só tinha a Duque. Hoje virou praticamente uma cidade.”

Heitor tinha 16 anos quando um amigo o convidou para ser bombeiro. “Fui mais pra ver como era. Nunca tinha pensado em ser bombeiro. O argumento final foi descobrir que o responsável pelo pelotão mirim era chefe do meu pai na Casan.” Pois ali, em março de 1988, começava uma nova fase na vida de Heitor – e confirmava-se o acerto do tal teste vocacional.

 

Momentos de emoção

 

No princípio, ainda menor de idade, Heitor era um aprendiz voluntário. Logo depois iniciou no primeiro emprego, como apontador na Busscar. “Lá também fiz parte da brigada de combate a incêndios, e fiquei até 1994, quando fui para Timbó, trabalhar com um irmão.” O período longe de Joinville – e dos bombeiros – foi curto: em dezembro do mesmo ano Heitor retornava para a cidade. “Voltei também para o quartel, e o comandante na época, Arthur Zietz, me convenceu a assinar carteira profissional como funcionário da SCBVJ. Minha primeira função foi motorista.”

Algum tempo depois, Heitor passou para o serviço de vistorias, setor onde assumiu a coordenação em 1999. Os cargos seguintes foram coordenador operacional, subcomandante e comandante operacional até 2009, quando as funções administrativa e de operações foram unificadas e ele assumiu o comando geral.

Mesmo na principal função burocrática da corporação, Heitor não se afasta totalmente do operacional. “Sempre que é necessário, vou para a rua. O último trabalho de vulto de que participei foi o princípio de incêndio no Garten Shopping, há um ano”, relembra, acrescentando que hoje, felizmente, as situações envolvendo incêndios são mais raras do que antigamente. “Cerca de 70 por cento dos atendimentos, hoje, envolvem as ambulâncias, a grande maioria por causa de acidentes de trânsito.” Este, por sinal, é um problema que deve, na opinião do comandante, merecer uma atenção constante: “Infelizmente, a tendência é o crescimento dos índices, o que só pode ser revertido com um trabalho de conscientização e prevenção permanente”.

Nestes 25 anos, o drama que mais marcou Heitor foi a enxurrada de 1995, que deixou várias regiões de Joinville debaixo d’água. “Quando a barragem do rio Cubatão se rompeu, víamos a água subir rapidamente. Ficou marcado na memória o resgate que fizemos de uma senhora e dois filhos, no Jardim Paraíso. Quando já estávamos com a família no bote, ela ainda me pediu para voltar e fechar as janelas, vendo seus pertences boiando dentro da casa.”

Heitor só se desliga do serviço quando está com os amigos, batendo uma bola, ou curtindo a família. Mas se a sirene toca...


De geração a geração, família Rosa se firma no ramo da barbearia

O aprendizado passado pelo veterano José B. da Rosa, há 50 anos, e cultivado até hoje, é a principal fonte de sustento da família
Fabrício Porto/ND
Alberi e Guilherme da Rosa dão sequência ao ofício de barbeiro, aliando a tradição à modernidade em conhecido ponto do bairro Vila Nova

 

 

Nos bairros mais antigos de Joinville é até comum o funcionamento de barbearias populares cujas portas foram abertas há décadas. Algumas delas ganham destaque por continuar nas mãos de profissionais pertencentes à família do fundador. É o caso do Salão Central, instalado na rua 15 de Novembro, 7.158, no bairro Vila Nova, onde trabalham Alberi da Rosa e Guilherme da Rosa, respectivamente neto e bisneto de José B. da Rosa, o pioneiro da família a fazer uso da tesoura para se sustentar e criar os filhos. “Hoje, nós dois representamos a terceira e quarta gerações dos Rosa dentro de uma barbearia genuinamente familiar”, assinala Alberi.

A história dos Rosa barbeiros teve início em 1964, no bairro Boa Vista, onde José abriu um salão na rua Albano Schmidt. No local, além de formar uma grande freguesia, ele ensinou o ofício ao filho Valdir. Já experiente na profissão aprendida com o pai, em 1968 Valdir deixou o Boa Vista para abrir seu próprio salão na rua Otto Boehm, pertinho do Centro.

Alberi, filho de Valdir, relata que após uma temporada na rua Otto Boehm o pai fechou a barbearia e trabalhou de empregado no bairro Floresta e posteriormente no Salão Verde, instalado na rua do Príncipe.

Corria o ano de 1978 quando Valdir botou a cadeira de barbeiro na carroceria de uma caminhonete, decidido a abrir novamente um salão próprio,  dessa vez no bairro Vila Nova, onde se estabeleceu nas proximidades do posto de combustíveis da família Baumer.

Das proximidades do posto de combustíveis, Valdir mudou duas vezes de endereço até se fixar definitivamente perto do terminal de ônibus. Passado alguns anos convidou Alberi para trabalhar com ele.

Recentemente, foi a vez de Guilherme se juntar à equipe do Salão Central. Valdir, já aposentado, no momento passa a maior parte dos dias em Balneário de Barra do Sul.  “Deixei o negócio para o filho e o sobrinho, mas continuo dando minhas tesouradas nos fins de semana, especialmente aos sábados, quando o movimento fica mais intenso”, informa o veterano barbeiro.

Alberi e Guilherme aprenderam o ofício fazendo cursos de especialização, mas enfatizam que Valdir é o maior responsável pelo sucesso da dupla.  “Ele nos acolheu de braços abertos para exercermos a profissão, que parece estar no sangue da família. Além de nos acolher, nos deixou um legado valioso, que é a numerosa e fiel freguesia”, fala Guilherme.

 

Em breve, será meio século de ofício que chega à quarta geração da família

 

Em 2014, a ramada da família Rosa completa meio século de cortes de cabelos. Pelo jeito, essa história vai se alongar por muitas outras décadas, pois tanto Alberi quanto Guilherme nem pensam abandonar a profissão pela qual se apaixonaram por influência de seu José (de saudosa memória) e de Valdir.  “Nossa barbearia continua funcionado dentro do estilo popular, mas foram incorporadas algumas melhorias, como ambiente climatizado, para dar mais conforto aos fregueses”, observa Alberi.  

 

 

 

 


Rubia Porto sonha em representar Joinville no concurso Miss Santa Catarina Plus Size

Aos 26 anos, e com dois filhos, ela descobriu que não precisa ficar magra para ser feliz. E desfile sua beleza tamanho GG por aí

“A partir do momento que eu me aceitei gorda... Sou muito mais feliz!” Aos 26 anos, com 1,58m, 90 quilos e manequim 48, vendedora e assistente administrativa na Nilmix Estruturas em Alumínio, Rubia da Costa Porto já era feliz, mas decidiu ser mais feliz ainda. E, para isso, resolveu ignorar estigmas de que mulher bonita é aquela mais magra possível. Mais do que se assumir, agora vai sair desfilando sua beleza por aí.

Isso mesmo, ela resolveu aceitar um convite que lhe elevou a auto-estima às alturas e participar, no dia 25 de outubro, às 20h, do concurso de beleza que vai eleger a Miss Plus Size de Santa Catarina 2014. Agora, além do marido, Rosandro Bittencourt Alves, 31, seu principal incentivador, e dos filhos Herica, 11, e Lucas, 5, a torcida pela loira deve aumentar.

 

 

GISLANE DEBORA MENDES /DIVULGAÇÃO/ND
Ensaio fotográfico de Rubia, com uma das fotos que a credenciou a ser uma das selecionadas para representar Joinville no concurso de Miss Santa Catarina Plus Size 2014

 

 

“Sempre fui gordinha, mas teve uma época da minha vida, principalmente na adolescência, que fiz loucuras para emagrecer. Fiz isso para ‘aparentar mais bela’ e ficar como as moças com quem convivia”, conta ela, que além do peso a mais, como casou aos 14 anos e foi mãe aos 15, atravessou a adolescência cuidando da família.

Mas a briga com o espelho acirrou mesmo depois da segunda gravidez. “Após ganhar meu segundo filho, engordei bastante e quase entrei em crise. Foi quando eu conheci a história das modelos Plus Size e como elas se sentiam felizes com seu corpo”, conta.

Assim, Rubia decidiu ser modelo para ajudar outras mulheres a se sentirem bonitas como são. E foi buscar inspiração em outra bela de medidas GG, a Miss Brasil Plus Size, representante de Joinville, Aline Zattar.

Além da beleza, Aline e Rubia têm histórias em comum, como casamento cedo e dois filhos cada uma. Agora, no cartaz em que convida para o Miss Santa Catarina, que será realizado no Teatro Juarez Machado, a pergunta pela qual Rubia espera ansiosa pela resposta é: “Quem será a sucessora de Aline Zattar?”

“Inspirei-me muito na história da Aline e quis também ser modelo Plus Size. Quando soube do concurso, não hesitei e fui logo fazer a inscrição. A seleção foi feita através de fotos e para a minha surpresa fui selecionada para representar Joinville”, conta. Aline se tornou uma espécie de referência. “Sempre falo com ela pelo Facebook, para pedir conselhos e dicas.”

A experiência inusitada uniu ainda mais sua família. “Estamos mais unidos do que nunca.  Nunca vi meu esposo tão empolgado, meus filhos, então, nem se fala.” Para preparar-se, procura manter boa alimentação, cuidados diários com a pele e cabelo. Como sempre foi gordinha, e ela acredita que seja pela genética, procura uma alimentação saudável, mas não deixa de incluir doces e massas, confessa, rindo.

Ela também confessa que atividades físicas não são seu forte, mas de vez em quando faz caminhadas nos fim de semana. A possibilidade de ficar magra nem a atrai mais. “Não me vejo magra. Tentei por diversas formas e quando consegui me sentia mal por causa da quantidade de medicamentos. Agora, gosto de mim assim.”

 

Quando o GG é um PP, mas não é mais problema


Desfilando sua beleza por aí, Rubia nem se importa mais com aquelas lojas em que a cliente entra e observa que o modelo GG não passa de um 42. “A escolha de roupas sempre foi complicada, mas já existem lojas especializadas em modelos Plus Size e sempre procuro ir a essas lojas, para não me sentir frustrada.”

“Uso todos os looks possíveis, dependendo da ocasião, e encontro modelos que me agradam na Griff Modas, Exuberante e Modaville”, cita, enquanto se prepara para o concurso estadual, que será sua primeira experiência na passarela.

Os preparativos para o concurso também envolvem a busca por patrocínios. E ela ainda precisa de apoio. Por exemplo, ainda não conseguiu patrocinadores para sapatos e tratamento estéticos. Para roupas, a Griff Modas garantiu o look casual, Maison Center Noivas prepara o traje de gala, que foi desenhado pela estilista Nivia Miranda especialmente para a ocasião. A Elegance vai oferecer um look a ser usado na concentração, Avanti Silver garantiu os acessórios  e Serena Cabeleireira vai cuidar do visual.
Quem quiser ajuda Rubia pode ligar nos telefones: 47/3424-1790 e 47/9940-7767.


Comerciante do bairro Vila Nova diverte família e amigos com imitações de trinados de aves

Mas ele avisa que as apresentações são "exclusivas" para família e amigos mais chegados
Luciano Moraes/ND
Sandro adota um estilo divertido de viver, mas o que mais chama a atenção mesmo é quando ele começa a fazer os sons característicos das aves

 

 

Presentear o Esperidião Amin (ex-governador , ex-senador e atual deputado federal catarinense, que é careca) com um pente seria um agrado inútil, observou o irreverente Jô Soares, arrancando sonoras gargalhadas de toda a plateia. Ao lembrar-se do comentário do consagrado humorista, um morador do bairro Vila Nova afirma que dar de presente apitos de passarinhos ao seu amigo Sandro Brenneisen também seria um gesto de rematada inutilidade.

O bem-humorado comentário faz sentido se levadas em consideração as diferenças entre os dois personagens. Esperidião Amin dispensa pente por motivo óbvio. Sandro dispensa apitos de passarinhos por saber produzir trinados, pios e assobios de diversas espécies de passarinhos da fauna regional fazendo uso só do gogó e dos lábios. De curió a inhambu, ou de bem-te-vi a sabiá laranjeira, é com ele mesmo a arte de imitar com perfeição o canto destes habitantes das nossas florestas.

Habilidoso, caso Sandro resolvesse se postar no lado de fora de uma casa para abrir o gogó passarinheiro, por certo quem estivesse lá dentro acreditaria na chegada de inesperada visita de um passarinho. De quebra, Sandro diverte os amigos fazendo também imitações de figuras públicas como Silvio Santos, Clodovil, Lula, Pelé, Romário e por aí afora.

Aos 41 anos, Sandro é sócio de um bar na rua São Brás, no lado do terminal de ônibus do bairro Vila Nova, mas a freguesia raramente é brindada pelas suas imitações.  “Gosto de fazer essas brincadeiras somente em reuniões com a família e com amigos mais chegados.”

Tranquilo e de conversa cativante, Sandro descobriu cedo a habilidade para imitar o canto de passarinhos. “Sei imitar mais de uma dúzia deles. Mas se me dedicasse mais, por certo reproduziria o canto de algumas dezenas de passarinhos comuns em nossa região”, enfatiza.

De bem com a vinda e com os negócios, ele nunca pensou em fazer dessa habilidade um meio de ganhar uns trocados. “Faço por puro prazer, só para divertir amigos e parentes”, destaca, com uma risadinha marota.

Antes de ingressar no comércio, Sandro foi motorista profissional. Na boleia de um caminhão, dedicou alguns anos de trabalho ao transporte de autopeças e madeira no Litoral Norte catarinense.

 

Cavalos, uma paixão que não deu certo

 

Uma história engraçada do imitador de passarinhos Sandro Brenneisen ocorreu no tempo em que ele era apaixonado por cavalos. Em uma ocasião, gastou uma pequena fortuna para ser dono de um puro sangue encilhado com arreios adornados com prata.

Todo prosa, ao fazer uma cavalgada pelo bairro Floresta o animal desembestou e saiu numa carreira alucinante. Ao tentar conter o galope, os tentos do freio romperam-se e aí o estrago foi inevitável. Descontrolado, o cavalo passou rente a um poste, onde Sandro bateu com o ombro e se esborrachou na calçada de cimento áspero. Com uma clavícula quebrada e escoriações generalizadas, no dia seguinte ele saiu do hospital e foi procurar o cavalo. Encontrou-o perto de onde acontecera o acidente. Mas o bicho estava sem a sela prateada e os demais apetrechos. “Levaram tudo. Deixando a montaria só com uma corda no pescoço. Aí desanimei e encerrei a promissora carreira de cavaleiro”, conta o irreverente comerciante da rua São Brás.    


Vilde Florêncio se integra ao grupo dos apaixonados por pássaros e fotos

Em três anos, ele já postou mais de 900 imagens no Wikiaves, a enciclopédia brasileira online de aves
       

 

Luciano Moraes/ND
Vilde à espreita, em busca de mais um flagrante em meio à natureza: ele acabou se especializando em aves e fotografia

 

Um dia, Vilde Florêncio foi passear na Vila da Glória, em São Francisco do Sul, e se encantou com as gaivotas que sobrevoavam o local e mergulhavam em busca de alimento. Pegou sua máquina fotográfica, daquelas compactas que a gente leva na bolsa, e começou a clicar, tentando guardar para sempre aquele instante. “A gente jogava a cabeça de camarão e elas vinham”, recorda ele, que, sem se dar conta, acabara de descobrir uma paixão. Hoje, três anos depois daquele dia, Vilde já fez dezenas de milhares de imagens de aves da região, - mais de 900 delas, de 300 espécies diferentes, devidamente postadas no Wikiaves, a enciclopédia brasileira online de aves. E este ano conseguiu realizar sua primeira exposição em Joinville.

Nascido em Tijucas há 52 anos, ele mudou-se para Joinville ainda menino. Da infância, veio o gosto por entrar no mato, curtir a natureza, observar passarinho. Depois daquele dia na Vila da Glória, este encantamento ressurgiu. Navegando pela internet, se deparou com o site “Viva Cachoeira” e passou a olhar mais atentamente as aves ao seu redor. Quando avistava alguma interessante, enviava a dica para o local. Ali, descobriu o Wikiaves – e um novo mundo se abriu. “Peguei as fotos que fiz em Vila da Glória e postei”, recorda.

 

 

Divulgação/ND
A colorida Saíra-militar

 

 

A partir daí, não parou mais. A maquininha compacta já não atendia às suas necessidades. Comprou uma câmara digital um pouco melhor, mas ainda amadora, e foi atrás de informações que o ajudassem a conhecer, a identificar melhor o que a sua lente capturava. “Fiquei um ano fazendo fotos e postando”, conta.

Logo descobriu que isto ainda não era suficiente para o que ele queria, e se aprofundar no assunto foi uma consequência natural. Fez curso de fotografia e adquiriu uma câmera profissional. Investiu na aquisição de livros tanto de fotos quanto de identificação de aves. “Li muito e fui me empolgando”. Motivos para isso não faltavam. Além dos pássaros mais comuns na região, ele começou a flagrar espécies já ameaçadas e raras, como a Maria-catarinense (Hemitriccus kaempferi), por exemplo, que é endêmica no Brasil, mas corre o risco de desaparecer.

A princípio, saía por aí sozinho. Com as postagens no Wikiaves, entretanto, começaram a surgir parceiros, outros apaixonados por aves que compartilhavam informações. Em busca das melhores imagens, dos pássaros que ainda não conhecia, ele integrou a observação de aves à sua rotina. Atuando na área de seguros, Vilde trabalha “na rua” e sempre carrega o equipamento fotográfico no carro. Com isso, consegue fotografar praticamente todos os dias. Embora a estrada Arataca e a região do Roseiral, no Piraí, sejam os lugares onde mais fez registros, ele percorre a cidade para descobrir novas aves. “Vou empoeirando o carro por aí, em tudo que é lugar”.

 

 

Divulgação/ND
O imponente Cacicus haemorrhous

 

Há cerca de seis meses, começou a abastecer um comedouro na estrada Arataca para atrair as espécies da região. Pelo menos três vezes por semana passa por lá, leva bananas e quirera. Com isto, conseguiu atrair belezuras como a saíra-preciosa (Tangara preciosa) ou o cais-cais (Euphonia chalybea), que já está ameaçado. Atrai também os beija-flores –uma paixão à parte e um desafio para todo fotógrafo da natureza. “O que mais gosto é beija-flor. É complicado, é difícil”, explica.

Para quem não larga o equipamento, já tem uma coleção de espécies em seu portfólio e está sempre olhando para o alto, o desafio agora é melhorar os próprios registros. E buscar o flagra, o passarinho cantando, o momento único. “É este o tipo de imagem que eu quero fazer.”

 

 

Divulgação/ND
A Maria-catarinense, que corre o risco de desaparecer

Sílvia Kiehn faz do ponto-cruz uma expressão de seu dom artístico

Artesã é conhecida como "a artista das agulhas" pelo esmero com que se dedica à produção
Fotos Luciano Moraes/ND
Sílvia fez questão de bordar o título da reportagem para ser impresso no ND, no Perfil dela publicado no fim de semana de 7 e 8 de setembro

 

 

O dom para a arte é inato, mas o aperfeiçoamento vem com a prática. Essa premissa é a que melhor define o trabalho de Sílvia Finotti Kiehn, uma verdadeira artista das agulhas. “Aprendi a bordar com a minha mãe, uma bordadeira por excelência, e me desenvolvi de forma autodidata. Procuro colocar os meus sentimentos em cada trabalho”, diz Sílvia, que costuma reproduzir obras de arte, desde trabalhos de artistas aclamados, até diminutas ilustrações que ela transforma em belos quadros em ponto-cruz ou petit point (do francês pequeno ponto, uma técnica que utiliza a lã).

“A produção de uma tela pode levar de alguns meses até mais de um ano, dependendo da complexidade e da riqueza de detalhes”, explica Sílvia (às vezes, algumas horas bastam, como no título desta matéria, bordado por ela).

Mineira de Uberlândia, Sílvia já rodou o Brasil em seus 68 anos de vida. Órfã muito cedo (“Minha mãe morreu quando eu tinha nove anos, logo depois de me ensinar os primeiros pontos no bordado”), estudou em colégio interno de freiras na cidade próxima de Tupaciguara. O ensino médio fez em Goiânia, pensando em cursar medicina. “Mesmo sem ter feito a faculdade, passei quatro anos assistindo às aulas, pela bondade de um amigo professor que me levou para trabalhar na universidade”, lembra, com emoção.

 

 

 

Sílvia vai muito além do simples bordar em tela em seus trabalhos. Ela usa técnicas especiais para reproduzir obras de arte

 

 

Há 32 anos, morando em Brasília, Sílvia conheceu o joinvilense João Henrique Kiehn, quando ambos trabalhavam numa concessionária Volkswagen na capital federal. Foi amor à primeira vista. A partir dali, o casal rodou o país, levado pelo ofício de reorganizador de concessionárias de João Henrique. “Em 20 anos, fizemos 23 mudanças, de Foz do Iguaçu ao Acre, até o João se aposentar”, enumera Sílvia.

“A grande marca dela é o desprendimento. Jamais reclamou por ter que se mudar, adaptando-se a todos os lugares pelos quais passamos”, elogia o companheiro. Em 1996, enfim, o casal se estabeleceu em Joinville, pois João queria ficar ao lado do pai, acometido de câncer. Manteve a banca Richlin por uma década, até se aposentar definitivamente.

 

 

Patchwork na feira

 

Ainda que seja uma virtuose no manejo das agulhas reproduzindo obras em ponto-cruz, petit point e bordado de Berlim (técnica que chega a incríveis 12 pontos por centímetro), é na confecção de toalhas de mesa e outras peças em patchwork que Sílvia tem sua principal fonte de renda. “Os quadros, por serem muito elaborados e necessitarem de grande investimento, já que quase todo o material é importado, ficam caros. Já o bordado é mais popular, e o custo é menor”, explica a artista, que costuma expor suas toalhas em barraquinhas, alternando-se em sábados, entre o Mercado Municipal e o Sábado na Estação, e uma vez por mês na Fipe, em Brusque.

Para as obras de arte, normalmente produzidas sob encomenda, Sílvia utiliza um software para desenhar o diagrama, depois reproduzido no tecido (importado da Europa, especialmente da França, a meca mundial do bordado). As agulhas e a linha também vêm de fora: “Infelizmente, a indústria nacional ainda não supre as necessidades”, lamenta.

Se um pintor mistura as cores na paleta, Sílvia se mune de tantas agulhas quanto forem as cores da tela. “Cada agulha fica com linha de uma cor. Se a imagem for de figura humana, começo sempre pelo rosto”, detalha a artista, mostrando seu trabalho atual. Suas obras hoje se espalham em diversos Estados, além de países como Estados Unidos, Alemanha e Japão. Em Joinville, um variado acervo pertence ao empresário e atual prefeito Udo Döhler.

 

Obra "A Pequena Lavadeira" exigiu um esforço extra de Sílvia. Somente no rosto foram 88 cores para chegar-se à perfeição dos detalhes e jogo de sombras

 

Contato

Sílvia Finotti Kiehn pode ser encontrada nas feirinhas do Sábado na Estação e no Mercado Municipal. Telefone para contato: 3454-7170, e-mail kiehn@terra.com.br.


Parapsicólogo e ex-halterofilista ensina a técnica do arco olímpico

Um dos maiores orgulhos do instrutor Édison da Rocha é ver seus alunos conquistando títulos. Atendimento personalizado é uma de suas marcas
Luciano Moraes/ND
Édison em sua atividade como instrutor de arco olímpico, modalidade em que é pioneiro

 

 

“Quando alguém se dispõe a aprender a técnica do tiro com arco, primeiro passa por um processo de avaliação e preparação física. Depois, vem a mentalização, com a conseqüente precisão, que faz um bom atirador.” É assim, mesclando a preparação física e mental, que Édison da Rocha resume como é a instrução de arco olímpico, modalidade em que ele é pioneiro em Joinville. Nada mais apropriado, já que, antes de se tornar instrutor, ele era halterofilista e já atuava profissionalmente como parapsicólogo e terapeuta em ciências mentais – formado pelo Instituto de Parapsicologia de Joinville.

O primeiro contato de Édison com o arco e a flecha foi igual ao de tantas crianças criadas numa Joinville ainda interiorana. Nascido em 1948, ele se criou nas imediações do Centro, onde não faltavam opções de diversão. “Quando eu morava na rua Alexandre Döhler, era amigo do Udo (o prefeito, Udo Döhler), e costumávamos brincar de patins. Outra diversão era subir o morro do Boa Vista em busca de varas de café-do-mato, para fazer estilingue e arco”, relembra Édison. Também continuam vivas na memória as atividades do dia a dia, como fazer compras no Tilp, assar pão nos fornos do Jerke e tomar sorvete na Polar.

Édison fez carreira profissional como representante comercial, até se aposentar e fazer o curso de parapsicologia, em busca de descobertas em si mesmo e de compreensão dos mistérios da mente humana. “Eu me defino como um capitalista espiritual”, diz, informando que tanto presta atendimento social gratuito no Instituto de Parapsicologia, quanto consultas e orientação mediante cobrança.

 

Técnica exige preparação especial e conhecimento do corpo

 

Édison da Rocha abriu seu “ginásio” de arco-e-flecha há 11 anos, já pensando numa atividade física para quando se retirasse do halterofilismo – o que aconteceu em 2004, como campeão brasileiro em sua modalidade. Um de seus primeiros alunos foi o arquiteto que projetou o estande, localizado nos fundos de sua casa, numa tranquila rua do Itaum. “Eu diria que as vidas me ensinaram a atirar com arco-e-flecha”, diz o instrutor, reforçando o lado mental de sua atividade.

Ele aprendeu inicialmente com o arco tradicional, ou “tiro instintivo”, como define. “Com o arco tradicional, não há mira ou equipamentos auxiliares. Você é guiado unicamente pelo instinto, como faziam nossos ancestrais cro-magnon, ou homo sapiens, que inventaram os instrumentos de caça à distância, como o arco e a flecha.” Do tradicional, Édison passou para o arco composto, um pouco menos sofisticado que o olímpico, e utilizado em competições domésticas. Finalmente, especializou-se no olímpico, o mais exigente em termos físicos (Édison foi instrutor também do casal Klaus e Carmen, hoje dedicados ao arco tradicional – perfil publicado em 19/8/2013).

Fundador do Gajo (Grupo Arqueiros de Joinville), Édison é um personal trainer, o que significa que suas instruções são dadas a apenas um aprendiz por vez. Um de seus alunos atuais é André Fiorelli, curitibano radicado em Joinville, que começou no fim do ano passado. “Nos três primeiros meses, fiz só preparação física, antes de empunhar um arco”, diz André, hoje já utilizando o arco, mas atirando num anteparo com algumas marcações, antes de passar para os alvos circulares.

A ratificar sua declaração, nas paredes espalham-se ilustrações do sistema muscular, indicando quais músculos são mais exigidos, e no “ginásio” há alguns equipamentos básicos de musculação, além de um simulador, último estágio antes do arco propriamente dito. “É como a preparação de um maratonista: antes de qualquer coisa, é preciso ensiná-lo a andar”, arremata o instrutor, num último raciocínio físico-mental.

 

Serviço:

Para saber mais sobre o arco olímpico, os contatos de Édison da Rocha são:

Telefones 3426-0764 e 8855-9075

Email gajo@expresso.com.br


A gula de saber de Edevaldo, que aos 22 anos prepara-se para cursar o terceiro curso superior

Formado em administração da produção e logística pela Univille e administração pública pela Unisul, agora ele quer cursar direito
Leandro Ferreira/ND
Edevaldo no balcão do bar que administra com um tio. Entre o atendimento a um cliente e outro, ele tira um tempinho para dedicar-se aos estudos, preparando-se para o vestibular de direito

 

 

Aos 22 anos de idade, Edevaldo Roberto Reiniack ostenta a fama de ter fome de saber e de querer sempre saber muito mais. Com duas faculdades concluídas - administração da produção e logística, pela Univille, e administração pública, pela Unisul - ele fez os dois cursos simultaneamente sem deixar de trabalhar como estagiário no INSS, emprego que lhe garantiu os recursos para manter-se e pagar as mensalidades escolares. 

Sem se incomodar nem um pouco com o rótulo de moço excessivamente estudioso, Edevaldo no momento divide com seu tio Sandro de Lima Brenneisen, o trabalho atrás do balcão do Bar do Garnizé, que a dupla toca em sociedade no bairro Vila Nova.

Enquanto atende mais um freguês, Edevaldo informa no próximo ano voltará aos bancos escolares, dessa vez para se formar em direito. “Não me vejo um dia atuando como advogado, mas vou fazer a faculdade para ampliar os horizontes do conhecimento. Saber tudo sobre os direitos do cidadão”, enfatiza.

Bem-humorado, conta que a parceria com o tio Sandro à frente do Bar do Garnizé deu-se por uma contingência. Valmor Ochener, proprietário do estabelecimento e seu amigo de longa data, viu-se na obrigação de se afastar do negócio para cuidar da saúde da mulher. “Assim que o problema estiver resolvido, se ele quiser voltar, o bar será seu novamente, conforme ficou acertado quando fechamos a negociação” esclarece.

Edevaldo informa que enquanto vai tocando o bar em sociedade com o tio aproveita para continuar estudando. Ele está de olho em concursos públicos que ofereçam bons empregos. “De preferência, gostaria de um dia voltar ao INSS, onde como estagiário me dei muito bem”, revela.

O jovem comerciante assinala que embora seja considerado excessivamente estudioso, sempre dispõe de tempo para o lazer e para uma boa conversa com os amigos. “Quem sabe organizar o tempo, consegue conciliar trabalho, estudo e lazer sem nenhum problema. Já aqueles que fazem da vida uma bagunça não encontram tempo para nada, ficam enrolados o tempo todo e nunca saem do ponto”, salienta, espirituoso.

Crítico, Edevaldo analisa que atualmente expressiva parcela da juventude é imediatista, preocupando-se só com o momento, sem nenhuma projeção para o futuro.  “É por isso que temos tantos jovens perdendo tempo com bobagens enquanto que poderiam aproveitá-lo para estudar a fim de pavimentar um futuro mais promissor.”

 

Eterna gratidão aos pais


Edevaldo agradece aos pais, Osvaldo e Maria Cecília, por tê-lo incentivado a se dedicar aos estudos e ao trabalho.  “Eles foram decisivos ao ensinar-me que nunca se deve querer as coisas de mão beijada. Graças à boa orientação recebida dentro de casa paguei meus estudos com muito orgulho e serei eternamente grato aos meus pais.”

Extravasando disposição, ele prova na prática que quem se organiza tem tempo de sobra para tudo.  “Estudo, trabalho, converso com os amigos e ainda sobra sempre um tempinho precioso para ler jornais, revistas e livros de aventuras.”


Vilmar Horlandi compara sua vida a um caso de amor à natureza

Ele encontrou na fotografia uma forma de superação pessoal para uma grave doença e de chamar a atenção para a destruição da mata atlântica

Luciano Moraes/ND
Horlandi tem uma alma incansável e insaciável, o que o tornou uma pessoa de multifacetas e profissões. No momento, a maior paixão é a fotografia

 

Ele já foi seminarista, escoteiro, bancário, livreiro. Quase se formou em engenharia, concluiu o curso de direito e cultivou uma paixão pelo paraquedismo e pelo motociclismo. Mas foi na fotografia da natureza que Vilmar Otávio Horlandi encontrou uma inspiração para os momentos difíceis na luta contra um câncer, e uma forma de chamar a atenção para a devastação da mata atlântica na região de Joinville. Em três anos, ele já fez mais de 24 mil imagens, grande parte delas de pequenos insetos que quase passam despercebidos aos mais apressados. E criou um grupo no Facebook, o Fotonatur – Fotografia Natureza e Turismo, onde compartilha um pouco de seu olhar ímpar sobre o meio ambiente.

O gosto pela fotografia vem desde a infância. No Exército, ele chegava a levar uma câmara escondida para fazer suas imagens. Mas a vida se encarregaria de levá-lo por outros caminhos. Nascido em Jaraguá do Sul, em 1957, Horlandi foi seminarista em Tubarão e assistiu ao incêndio no prédio em que estudava e à enchente que atingiu a cidade nos anos 70.

Na volta a Jaraguá, entrou na faculdade de engenharia, mas às vésperas de se formar fez três concursos públicos, passou nos três e escolheu seguir a carreira no Banco do Brasil. Foram 15 anos no banco, muitos cursos e uma grande inquietação. “Depois de 15 anos, me sentia vazio por dentro”, recorda. Neste momento, resolveu largar o emprego certo e realizar o sonho de abrir uma livraria.

Assim, em 1997, surgia a CD Books, focada em locação de livros e CDs, que chegou a ter cerca de 35 mil títulos, outro tanto de LPs e 15 mil CDs. Um acervo garimpado pelo próprio Horlandi em sebos de Curitiba e São Paulo, e que continha coleções completas de autores nacionais e internacionais, além de preciosidades da história local. O começo – como boa parte dos começos – foi difícil. Era preciso formar a clientela para um modelo novo, reinvestir no acervo e esperar que o giro de negócios começasse a produzir resultados. “Toda semana ia para Curitiba no sábado com uma lista de livros. O que ganhava, gastava no fim de semana”, conta. O negócio cresceu e se consolidou. “Vivia daquilo e doava muitos livros.”

Foram dez anos de trabalho, sonhos e investimentos em um modelo que deu certo. Mas um dia, nova inquietação surgiu. “Uma noite tive a intuição de que devia fechar a loja.” O porquê, nem ele sabia. A livraria era rentável e ia de vento em popa. Horlandi decidiu, então, fazer concursos públicos e buscar uma nova colocação. Passou para Caixa Econômica Federal, foi chamado e começou a trabalhar em São Bento do Sul. Deixou a loja aos cuidados da mulher e, a princípio, esperou uma transferência para Joinville. Mas ela nunca vinha. “Decidi fechar a loja. Era um ciclo que estava se encerrando.” Era 2005 e não demorou muito e a tão esperada transferência foi realizada.

 

Reprodução/Acervo pessoal/ND
Dependendo da região, ela pode ser chamada de lagarta, maranduvá ou taturana... provoca queimaduras, mas tem uma beleza incomum

 

Uma fonte de inspiração para uma vida diferente

 

Para Otávio Horlandi, o motivo da intuição só foi esclarecido cinco anos depois, quando descobriu que estava com câncer. Na loja, ele não tinha plano de saúde ou condições de se afastar para se tratar. “Era a resposta. Estava amparado nessa hora”, avalia ele, que passou por cirurgias, quimioterapia e ainda hoje luta contra a doença.

Longe do trabalho e debilitado, a vida mudou. Era preciso descobrir um novo motivo de inspiração, uma nova causa para se dedicar. “Nesse momento, você tem dois caminhos: se revoltar ou tentar levar a vida o mais normal possível”, avalia. A paixão pela fotografia ressurgiu e se aliou à indignação com a devastação da mata atlântica. Ao sair para registrar as inúmeras espécies animais e vegetais da região, constatou de perto a destruição deste ecossistema. “Só nos resta 7% de mata atlântica e ela é o segundo bioma mais importante do País. A destruição está acelerada em toda a área rural”, adverte ele, que criou um grupo no Facebook para compartilhar as imagens da região e de outros biomas e chamar a atenção para a necessidade de preservação. Também planeja montar uma exposição de fotos sobre o tema, que deve sair ainda nesse ano.

E em breve, quem sabe, realizar o sonho de anos e anos: Sair por aí, por esse Brasil imenso e depois pelo exterior, conhecendo e divulgando suas belezas. “Viajar para fotografar - e fotografar para poder continuar a viajar!”, resume.

 

Quer conhecer o grupo? Acesse http://www.facebook.com/groups/121205548023369/

 

Reprodução/Acervo Pessoal/ND
A perfeição da natureza flagrada em detalhes que só uma lente macro proporciona

 

 


Há 55 anos, ele se orgulha de vestir a farda dos bombeiros voluntários de Joinville

Para Romeu Dressel, quem foi uma vez bombeiro, sempre será um bombeiro
Fabrício Porto/Reprodução/ND
A carteirinha do Corpo de Bombeiros de Joinville é uma das relíquias que Romeu guarda

 

 

“Sempre gostei de ser bombeiro voluntário,

e hoje posso dizer que cumpri bem minha missão.”

 

 

“Um prédio de dois pavimentos desabou às 8h35 desta terça-feira em São Mateus, na zona Leste de São Paulo, e deixou ao menos seis mortos, 19 feridos e entre oito e dez vítimas soterradas, segundo o Corpo de Bombeiros. Do total de feridos, 11 já haviam sido resgatados a hospitais das imediações. O primeiro ferido foi resgatado às 9h07. Ao menos 20 veículos dos bombeiros e 60 homens estão no local, além de dois cães farejadores e dois helicópteros da Polícia Militar.”

Enquanto a TV mostra ao vivo os detalhes da tragédia, ocorrida terça-feira passada, do lado de cá Romeu Ernesto Dressel acompanha tudo. Não que tenha a possibilidade de haver algum parente ou conhecido entre as vítimas. Sua atenção é mais voltada ao trabalho dos bombeiros. Justifica-se o interesse. Afinal, ele dedicou boa parte dos seus 74 anos justamente a salvar vidas.

Em janeiro, Romeu completou 55 anos como bombeiro voluntário, o que lhe rendeu, entre outras homenagens, uma plaquinha comemorativa, colada à machadinha ganha quando fez 40 anos de serviço – tem ainda outra placa, alusiva ao cinquentenário. Além das homenagens, guarda com zelo as fardas, bonés, quepes e um capacete, utilizados durante a carreira.

Hoje, participando apenas do conselho deliberativo da SCBVJ, recorda-se com saudade e orgulho dos tempos de ação: “Sempre gostei de ser bombeiro voluntário, e hoje posso dizer que cumpri bem minha missão.”

Nascido e criado na região do atual bairro América, ainda hoje Romeu Dressel reside na rua João Pessoa, onde curte a aposentadoria e o amor do pequeno e inseparável Lucas, de um ano – o choro é sentido, quando Romeu vai até o portão se despedir do repórter e Lucas pensa que o “biso” vai sair.

Outras paixões do veterano bombeiro – e mecânico aposentado – são a Caravan 76 amarela e a Lambretta 62 ainda utilizada nos deslocamentos ao mercado ou ao quartel.

 

 

Fabrício Porto/ND
Outra paixão é a Lambretta 62, que ele sempre usa para deslocamentos rápidos

 

 

Usar farda sempre foi uma aspiração

 

Romeu Dressel era garoto e morava nas imediações da rua Araranguá quando viu a Consul se instalar por ali, em 1950: “Na volta da aula no Germano Timm, ficava na cerca tentando ver a fabricação de geladeiras, uma novidade na época.” Ele também viu o nascimento da Docol, em 1956, quando residia na Visconde de Mauá. Era um tempo de ganhar algum dinheirinho vendendo vidros para o Laboratório Catarinense: “Dava para ver como eles fabricavam frascos de vidro.”

Romeu trabalhava na Cia. Jordan, no setor de motonetas, quando foi convidado a ingressar no corpo de bombeiros. “Eu queria muito usar farda, e já tinha sido um decepção quando fui dispensado do serviço militar. Mas não pensava em ser bombeiro, pois não suportava o som da sirene. Mas os amigos insistiram muito e eu topei.”

E não se arrependeu, tanto que chegou a ser chefe de seção, escolhido pelos próprios colegas. “Naquele tempo, havia eleição para a escolha de chefe. A cédula tinha um nome, já indicado pela corporação, e um espaço com pontinhos, para quem preferisse outro. Acabei eleito, sem ser candidato.” Romeu também foi ajudante de ordens do comandante, mas o que o atraía mesmo era o combate: “Eu gostava de encarar o fogo, com a mangueira nas mãos.”

Como líder, tinha uma exigência: “Só chamava a atenção se visse alguém com as mãos nos bolsos, mesmo que não estivesse fazendo alguma coisa.” Das lembranças dos velhos tempos, as mais marcantes foram de uma onda de incêndios criminosos, em meados dos anos 70: “Faltavam viaturas, a estrutura não era tão completa e moderna como hoje em dia.” O que não vai mudar nunca, porém, é o orgulho de envergar a farda, ainda que seja apenas para umas fotos ou para comparecer a solenidades. “Uma vez bombeiro, sempre bombeiro!”


Pica-Pau supera limitação visual e pedala para conquistas no paraesporte

Mesmo com a visão afetada por toxoplasmose congênita, Luciano da Rosa encontrou no atletismo, em especial no ciclismo, uma motivação
Luciano Moraes/ND
Luciano adotou o personagem Pica-Pau como marca de sua carreira esportiva e vê semelhança no penteado de ambos

 

 

O mundo está repleto de exemplos de superação, de pessoas que enfrentam limitações e superam barreiras físicas com obstinação, habilidade e criatividade. “Eu decidi que não adianta ficar jogando âncoras e lamentando. E o esporte é o meio que escolhi para superar a limitação física”, diz o para-atleta Luciano da Rosa, que nas pistas de ciclismo vem colecionando conquistas com o apelido de Pica-Pau – justificado pelo corte de cabelo estilo “penacho” e reforçado pelo inseparável boneco do personagem de desenho animado.

Nascido há 38 anos em Joinville, Luciano teve identificada uma toxoplasmose, doença infecciosa, no caso dele congênita, causada pelo protozoário Toxoplasma gondii, que lhe afetou a visão. “Tenho só 5% de visão no olho direito e 10% no esquerdo”, explica, lembrando que a deficiência somente foi descoberta na escola. “Sempre precisei conviver e me adaptar às dificuldades da falta de visão. No meu tempo de colégio, não havia uma cultura como hoje, de inserção do deficiente na sociedade. Além de me sentar sempre na primeira fila, era comum eu ter que levantar para ver de perto o que estava escrito no quadro-negro.” Luciano destaca o apoio que sempre encontrou na mãe, com quem ainda mora: “Longe de ser superprotetora, ela sempre me incentivou, ajudando no que fosse necessário.”

 

“Não adianta reclamar. O importante

é não ter medo de tentar"

 

Prática iniciada aos 32 anos trouxe nova motivação à vida

 

As limitações também impediram que Luciano se dedicasse a esportes ou qualquer atividade física. Isso até que começou a defender a Ajidevi (Associação Joinvilense de Integração dos Deficientes Visuais) nas pistas de atletismo. “Comecei a praticar atletismo somente aos 32 anos, mas descobri no esporte uma nova motivação.” Disputando provas de meio-fundo (400, 800 e 1.500 metros), Luciano começou a juntar medalhas em diversas competições, como os Parajasc – a versão dos Jogos Abertos de Santa Catarina dedicada aos para-atletas.

Em três anos, colecionou 25 medalhas e chegou ao terceiro lugar no ranking nacional em suas especialidades. Em 2007, porém, uma séria lesão muscular o tirou das pistas. “Fiquei três anos parado, e só em 2010 retomei as atividades físicas, para evitar a atrofia dos músculos.”

Em abril passado, Luciano conheceu Luci Barros, técnica da Advir (Associação dos Deficientes Visuais de Itajaí e Região), que o convenceu a voltar ao esporte. Se não era mais possível correr, o ciclismo era uma opção. “Quando a Luci me convidou, faltavam 50 dias para a Copa Brasil de Paraciclismo.” Luciano (a essa altura apelidado de Pica-Pau pelos itajaienses) dedicou-se aos treinos e voltou de Curitiba, local da Copa, com duas medalhas de prata, nas provas contra-relógio e estrada, com o “piloto” Fábio Néri (no paraciclismo para deficientes visuais, a bicicleta é dupla).

O excelente resultado, mais que uma comemoração, foi motivo para um planejamento estratégico. As metas se estendem por quatro anos: “Em 2013, quero me manter entre os três primeiros do ranking nacional. No ano que vem, ser o primeiro e buscar projeção em provas internacionais. Em 2015, manter a liderança nacional e trazer medalhas do exterior. Para 2016, claro, a meta é ser convocado para defender o Brasil nas Paraolimpíadas do Rio de Janeiro”.

Para chegar lá, além da Fundação Municipal de Esportes e Lazer de Itajaí, Pica-Pau conta com o apoio da Academia Premiare Center, onde mantém a forma; da oficina Shadeck, fornecedora da bicicleta; e da Associação Joinvilense de Ciclismo, a Ajociclo. “Mais patrocínios sempre são bem-vindos”, adianta Pica-Pau, deixando seu telefone e emails para contatos: 8491-5111, lucianopicapau@outlook.com e luciano2010rosa@hotmail.com.


Comerciante do bairro Vila Nova lapidou carreira sobre pedras ornamentais

Do nome ao meio de vida, bom humor é uma das marcas de Hermenegildo Dalsasso
Luciano Moraes/ND
Hermenegildo Dalsasso, o conhecido comerciante Kiki, do bairro Vila Nova, de Joinville, entre as pedras de mármore de seu comércio

 

Morador do bairro Vila Nova, Hermenegildo Antonio Dalsasso, o Kiki, perdeu a conta de quantos convites recebeu e descartou para sair candidato a vereador, tamanha é a sua popularidade. Extrovertido, do tipo de sair cumprimentando desde crianças de jardins de infância até velhinhos encurvados, ele atribui a popularidade ao seu espírito bem-humorado e ao fato de estar em contato diário com a população há 30 anos.

Nascido em Rio dos Cedros, no Vale do Itajaí, Kiki trabalhou até os 18 anos na agricultura para, em seguida, virar motorista de ônibus em sua terra natal. Na chegada ao bairro Vila Nova, ele abriu em sociedade com um cunhado uma marmoraria. Depois de quatro anos, a sociedade foi desfeita para que cada um tivesse seu empreendimento. Surgiu, então, da parte de Kiki, a Marmoraria Dalsasso, na qual com uma equipe de 18 empregados e uma filial no balneário de Ubatuba, em São Francisco do Sul, são transformados mármores e granitos brutos em peças de refinado acabamento, como bancadas de cozinhas, pisos, churrasqueiras, lápides, escadas, lavabos e por aí afora. 

Kiki conta que é no Espírito Santo, a meca brasileira de mármores e granitos, onde busca a maior parte da matéria-prima. “Mas temos também material de jazidas localizadas em Santa Catarina e no Paraná e que são de muita boa qualidade. De quebra, importamos alguma coisa, pois o lema da empresa é fazer de tudo para satisfazer a clientela”, salienta.

De contagiante bom humor, Kiki é de uma família de 13 irmãos, todos criados no cabo da enxada. “De todos os 13, só um não ganhou apelido dentro de casa. Por isso, hoje meu nome de batismo é conhecido só pelos familiares e por alguns amigos mais chegados”, assinala, dando risadas.

Detalhe interessante do popular empresário do ramos de mármores e granitos é que o seu sobrenome  - Dalsasso -,  em italiano quer dizer da pedra. “Quis o destino que eu escolhesse o ramo das pedras para ganhar a vida e criar a família.”

 

"Meu nome de batismo é conhecido

só pelos familiares e por alguns

amigos mais chegados.”


Preservador das origens

Casado com Mércia, pai de três filhos (duas moças e um rapaz), Kiki  esbanja vitalidade aos 55 anos. Mesmo assim, já está encaminhando as rédeas do negócio para os filhos. “Uma filha cuida da parte financeira, enquanto o rapaz se encarrega do setor administrativo. É preciso preparar bem as coisas quando se quer dar boa continuidade a um empreendimento familiar”, enfatiza.

Fiel às origens do tempo da roça, Kiki não é de comprar ovos, nem carne de porco e galinha caipira. Ele mesmo cuida de um galinheiro e de uma pocilga para abastecer a despensa da família. De conversa fácil e entremeada de tiradas espirituosas, ele gosta também de reservar algumas horas por semana para jogar bocha e truco com os amigos. “É um santo remédio para evitar o estresse”, garante.


Aos 15 anos e habilidosa com pincéis,Taynara Elisa Lovison reproduz flores, pássaros e paisagens

Um hobby levado a sério. Jovem moradora do Copacabana não vê a arte como futuro, embora suas pinturas revelem um grande dom
Fotos Leandro M. Ferreira/ND
Aos 15 anos, a garota enche a casa de cores com suas produções e mostra determinação em relação ao futuro

 

 

Estudante do ensino médio do colégio Rudolfo Meyer, na rua Copacabana, Taynara Elisa Lovison é uma mocinha bem entrosada com os colegas da tradicional escola da rede estadual de ensino. Espevitada, não se nega a participar das brincadeiras e das competições esportivas levadas a cabo no local.  “Embora não seja lá essas coisas nos esportes, tenho até algumas medalhas no handebol”, conta.

Se nos esportes o desempenho é, no seu próprio dizer, bem ruinzinho, um detalhe que chama atenção nessa jovem estudante de sorriso cativante é sua habilidade na arte de produzir telas de cores harmoniosas, onde retrata pássaros, flores e paisagens campestres, seus temas preferidos.

Divertida, Taynara Elisa informa que até completar nove anos, seu passatempo preferido era escalar uma goiabeira no pátio do seu padrinho Norberto Hardt, na rua Anita Garibaldi, esquina com a Caxias do Sul. “Eu ia todos os dias de bicicleta da lanchonete dos meus pais até a goiabeira, aonde chegava com menos de 20 pedaladas. Antes de escalar a goiabeira, distribuía ao seu redor dezenas de bonecas que levava em sacolas penduradas no guidão e no bagageiro da zica, mania que me rendeu o apelido de “menina sacoleira”,  lembra, sacudindo-se de tanto rir.

Da goiabeira e das sacolas de bonecas, Taynara Elisa migrou para o universo da pintura por influência de uma coleguinha chamada Bruna, filha de Rose Cosseau, conhecida professora de artes plásticas, com ênfase para o óleo sobre telas. “Gostei dos trabalhos feitos pela Bruna e, por isso, dos nove aos 14 anos fui aluna da professora Rose, com a qual aprendi as técnicas básicas da pintura em telas”, destaca a jovem artista, hoje com 15 anos.

Com uma produção que já ultrapassa 50 trabalhos, Taynara Elisa assinala que embora não tenha a intenção de viver da arte, mais de dez quadros já não estão mais com ela. “Por insistência de coleguinhas e até de gente desconhecida, acabei vendendo algumas das minhas criações”, informa, com uma pontinha de orgulho.

De uma maturidade surpreendente para sua idade, Taynara Elisa adianta que embora não pretenda ser artista profissional, as telas e os pincéis estarão entre seus passatempos ao longo da vida. “Pintar é uma coisa que me deixa leve e feliz. Por isso, não vou largar essa prazer por nada”, avisa, cheia de determinação.

 

 

O irmãozinho ganhou uma tela em sua homenagem com diferentes tipos de bolas para cada esporte

 

 

Planos para o futuro envolvem o comércio

Sobre os planos para o futuro, Taynara Elisa tem a resposta na ponta da língua. “Além do 2º grau (ensino médio) estou fazendo também um curso técnico em administração de empresas. Quero seguir as pegadas dos meus pais, que são donos de um dos mais concorridos endereços gastronômicos do bairro Anita Garibaldi.”  

Espirituosa, acrescenta que pretende explorar um nicho comercial diferente daquele escolhido pelos pais. “Por enquanto, é segredo absoluto. Nem meus pais sabem de nada.”

E no dia em que esse misterioso projeto se concretizar, não será fim da carreira de pintora de telas?  “Mas é claro que não, trabalho e passatempo podem conviver em perfeita harmonia. Vou saber levar adiante as duas coisas sem uma atrapalhar a outra”, ressalta.    

 

 

 

 

 


Tiro ao alvo ganha variação, o chumbinho, e conquista novos adeptos

Bernardo atira desde adolescente. Hoje, dirige o departamento de tiro na AA Tupy

Carlos Junior/ND
Colecionando conquistas. Luiz Felipe Bernardo descobriu o tiro ao alvo na faculdade e hoje é um competidor premiado

 

 

"Queremos manter sempre viva a tradição do tiro ao alvo em Joinville, para que não aconteça o que houve com outras modalidades, como o bolão, que perderam muito espaço.” A determinação – devidamente ilustrada por uma coleção de medalhas e troféus – é de Luiz Felipe Bernardo, diretor do departamento de tiro ao alvo da Associação Atlética Tupy. Atirador desde a adolescência, ele exemplifica o esforço com a ativação, há alguns meses, de raias de tiro com chumbinho no estande da AAT, dividindo espaço com o tradicional tiro-seta. “Precisamos nos adaptar, pois o tiro-seta é uma modalidade bem regional, e o chumbinho vem ganhando espaço em nível nacional”, justifica.
Nascido há 30 anos em Joinville, Luiz Felipe Bernardo criou-se em Curitiba, onde formou-se no curso de secretariado executivo trilíngue (espanhol, francês e inglês), de olho na globalização dos mercados. “Sei me comunicar nos três idiomas o suficiente para não passar vergonha em países onde são falados, mas sempre estou buscando aprimoramento”, conta Bernardo, que iniciou há alguns dias um curso de aperfeiçoamento em inglês, mirando o desempenho profissional.
O interesse pelo tiro ao alvo foi despertado na faculdade: “Conheci um ex-capitão da Legião Estrangeira francesa, que havia combatido em conflitos recentes nos Bálcãs e no Oriente Médio. Ele me convenceu e me ensinou a atirar e também a conhecer as armas de fogo. Depois, quando fiz o NPOR, ganhei competições de tiro em todas as modalidades”. Já como tenente oficial de tiro, Bernardo serviu, em 2004, no Oeste do Paraná: “Em Cascavel, eu era instrutor e gerenciava o serviço de tiro em toda a região”. De volta à vida civil, foi terminar a faculdade e trabalhar, dando um tempo no hobby.

 


"Em 2011, decidi sair da instrução e

participar com afinco das competições."

 

Retomada e muitas conquistas pela Tupy

Em 2009, buscando mais qualidade de vida, Bernardo retornou a Joinville, logo se empregando como auxiliar de logística na Tupy; foi galgando posições e hoje é analista de vendas. E foi na empresa que retomou a prática do tiro ao alvo, agora com carabinas de pressão. “Comecei a treinar logo na primeira semana, portando-me como um aprendiz, mesmo tendo sido instrutor no Exército. Afinal, estava trocando as armas de fogo pela pressão.”
A evolução foi rápida, e já no primeiro ano Bernardo voltava a ser instrutor. Mas a sede de conquistas aumentava. “Em 2011, decidi sair da instrução e participar com afinco das competições.” Resultado: Bernardo conquistou as faixas e troféus de rei do tiro em 2011 e 12, tanto no torneio interno da Associação, quanto nos Jogos do Sesi. No ano passado assumiu a direção do departamento de tiro e retomou a instrução, mas sem deixar de competir. Neste 2013, com as disputas ainda em andamento, vem se mantendo no páreo, já tendo uma conquista: “Fui campeão do torneio-início do Citadino, numa competição de chumbinho realizada no Cruzeiro. A intenção é promover mais um torneio após o encerramento do Citadino”.
À frente do departamento de tiro ao alvo da Associação Atlética Tupy, ele vem intensificando os treinamentos entre os 41 atiradores atualmente inscritos, ao mesmo tempo em que procura atrair mais gente para a prática. “Queremos ver mais famílias praticando aqui e defendendo a Tupy”, diz, apontando o exemplo da família Chrispim (perfil em novembro de 2012).


Casal abre escola pioneira em Santa Catarina no ensino do arco e flecha tradicional

Arqueiros. Além de ensinar, dupla também participa de competições
Fabrício Porto/ND
Iniciativa. A brasileira Carmen e marido alemão Klaus Peter são fundadores da Escola Arqueiros de Joinville, pioneira no Estado

 

Além de ser conhecido como justiceiro, o ladrão que roubava dos ricos para dividir entre os pobres do condado de Nothingham, Robin Hood era, segundo a lenda, um exímio arqueiro. Tirando os exageros visuais, ele seria tão bom como o personagem interpretado nos cinemas por astros como Errol Flynn, Kevin Costner e Russell Crowe.
“Robin Hood é um personagem de ficção, mas os ingleses têm uma grande tradição no manejo do arco e flecha”, explica Carmen Schmidt, que, com o marido Klaus Peter Ammon, criou a escola Arqueiros de Joinville, pioneira em Santa Catarina e segunda no Brasil no ensino do arco e flecha tradicional.
“O arco tradicional, mais simples, difere-se do olímpico, que é sofisticado e mais equipado. O nosso se parece mais com aquele que os arqueiros dos filmes utilizavam”, acrescenta Carmen.
Sobrinha-neta de Albano Schmidt, um dos fundadores da Tupy, Carmem nasceu em 1956 em Amparo, interior paulista, mas ainda era criança quando sua família retornou a Joinville. Em 2002, conheceu o alemão Klaus, nascido em 1945 em Bad Neustadt, região do rio Salle, na Alemanha. Moraram na Alemanha até 2009, quando resolveram vir para Joinville. Carmen também acaba atuando como intérprete, já que o marido ainda não domina inteiramente o português.

A tradição do tiro incentivada

Klaus Ammon já era praticante de tiro ao alvo, esporte dos mais tradicionais na Alemanha. “Eu tinha uma carreira de 25 anos como instrutor”, conta, destacando sua admiração pela criatividade dos brasileiros, que conseguiram reduzir o custo do tiro ao alvo, graças à invenção da seta. “Tradicionalmente – ressalta Carmen, traduzindo as palavras de Klaus – o tiro é encarecido pelo custo da munição, tanto a de fogo quanto o chumbinho das armas de pressão. Já a seta, por ser reutilizável, torna o esporte mais acessível.”
Quando se estabeleceu em Joinville, o casal logo se filiou à Sociedade Cruzeiro Joinvilense, onde pratica seu esporte preferido. Como Klaus já trazia experiência também no uso do long bow (arco longo), decidiram unir o útil ao agradável, abrindo uma escola. “Conhecemos o Edison da Rocha, único instrutor de arco e flecha da cidade, que nos ensinou a técnica do arco olímpico. Há dois anos, descobrimos uma arqueria em Campo Largo, no Paraná, compramos os primeiros equipamentos e fomos buscar aperfeiçoamento”, relata Carmen.
Enquanto Klaus havia feito cursos na Alemanha, Carmen aperfeiçoou-se em programas da Confederação Brasileira de Tiro com Arco. O casal passou a participar de competições em Campo Largo e, em abril do ano passado, abriu sua academia de long bow. “Uma das primeiras alunas foi minha neta Dúnia, na época com seis anos”, conta Carmen, ressaltando justamente o caráter familiar do esporte. “Hoje, temos quase 30 alunos, muitos deles grupos familiares, alguns até de outras cidades.” Fazer o curso em família, aliás, tem mais uma vantagem: filhos não pagam. E também não precisam ficar no lugar do alvo, com uma maçã na cabeça, como o filho do lendário arqueiro suíço Guilherme Tell. “Até porque Guilherme Tell utilizava uma balestra e não um arco”, esclarece Carmen, referindo-se à arma também conhecida como besta ou balista. No curso Arqueiros de Joinville, por sinal, são respeitadas normas rígidas de segurança e preparação física.

Para aprender a praticar arco tradicional


Contato: (47) 3422-2896 / 9931-0689 – arqueiros,joinville@gmail.com – www.ctat-arqueria.com
O curso de introdução, de duas horas, custa R$ 40. O curso completo tem mensalidades de R$ 80 (homens), R$ 70 (mulheres) e  R$ 60 (estudantes). Se pai e mãe fizerem, filhos menores não pagam.


Girlei Soares atingiu seu sonho e deixou o nome gravado no esporte catarinense

Conquistas. O talento na ginástica olímpica, hoje artística, o fez várias vezes campeão dos Jogos Abertos. Hoje, ganha a vida como garçom
Leandro Ferreira/ND
Rumo. Encerrada a vida esportiva, a simpatia levou Girlei para outro caminho, e hoje ele é garçom

 

"Quando era adolescente, eu coloquei como meta ser um bom ginasta. Posso dizer que alcancei meus objetivos.” A constatação, comprovada por uma vasta coleção de conquistas – nem ele se lembra quantas foram –, é de Girlei João Soares, um dos expoentes da ginástica olímpica (hoje chamada artística) de Santa Catarina, várias vezes campeão dos Jogos Abertos, tricampeão catarinense individual.
Nascido em 1962 e criado no bairro Guanabara, segundo de sete irmãos, Girlei descobriu logo cedo sua vocação para a ginástica. “Quando eu estudava no colégio Ana Maria Harger, a professora de educação física Laura Teixeira identificou e despertou minha vocação. Como eu não era bom de bola mesmo, fui em frente e gostei”, conta Girlei – sobrinho do jogador Milton Fumo, revelado pelo Fluminense do Itaum e que chegou a jogar no Vasco.

Aos 14 anos, começou a treinar na academia da então Comissão Municipal de Esportes (atual Felej), sob a orientação do técnico Paulo César Bravo. “Treinávamos nas instalações da Univille, depois passamos para o ginásio Ivan Rodrigues e para a Sociedade Ginástica, quando passei a ser atleta do clube.”

 

Reprodução/ND
Vida de atleta. Girlei em foto de 1989, quando defendia o Olímpico de Blumenau

 

Em 1977, Girlei participou pela primeira vez dos Jogos Abertos, realizados em Florianópolis, iniciando uma carreira recheada de conquistas, que se prolongou até 1995. Durante este período, chegou a defender São Bento do Sul (1987 e 88) e Blumenau (1989 e 90). Por Joinville, além das medalhas nos Jasc. “Rapaz, não me lembro quantas foram”, admite. Também ganhou três vezes o campeonato estadual de ginástica artística (ou olímpica, como se chamava na época).
Girlei disputava as seis provas obrigatórias da ginástica masculina: cavalo, barras paralelas, barra fixa, argolas, salto e solo. Mas se especializou nas duas últimas: “Solo e salto sempre foram as provas de que mais gostei. Sou admirador do Diego Hypolito e da Daiane dos Santos. Aliás, como ainda acompanho a ginástica, também lamentei muito as falhas de ambos nas Olimpíadas. Eles se preparam durante quatro anos, vencem competições importantes, e quando chegam nos Jogos, erram. Na verdade, é muita pressão, tanto do público quanto dos próprios adversários”, analisa Girlei.
Ele mesmo admite: “Durante uma competição, os concorrentes secam mesmo. Eu também secava os adversários. Uma pequena falha basta para tirar alguém do páreo.”
Dos tempos de ginasta, Girlei guarda ótimas recordações. E momentos de tristeza, como a perda da amiga Neide de Fátima Lobermeyer, ginasta de São Bento, morta após uma queda, nos Jasc de 1992, em Joinville.
Hoje trabalhando como garçom na lanchonete Tempero Joinville, se mantém informado sobre ginástica e conhece os principais competidores, com especial admiração por Arthur Zanetti: “O que ele faz nas argolas não é humano!.”
Depois de deixar a ginástica, Girlei foi dançarino de street, jazz e contemporâneo, tendo integrado as companhias Andança, Tênis Clube e Ginástico. Pela Andança, disputou o Festival de Dança de Joinville em 1997 e 98. “Tudo tem início, meio e fim”, filosofaa. “Tanto a ginástica como a dança me proporcionaram aprendizado, disciplina e muitas amizades.”


Do tempo da machadinha de madeira

Bombeiro. Oswaldo Baumrucker recorda os melhores momentos dos 50 anos em que atua como voluntário em Joinville
Leandro Ferreira/ND
Lembranças. Oswaldo Baumrucker coleciona machadinhas, diplomas e uma infinidade de histórias dos 50 anos em que se dedica ao Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville

 

 

Entre as várias lembranças que Oswaldo Kurt Baumrucker guarda em casa, dos 50 anos de dedicação ao corpo de bombeiros voluntários, está uma machadinha de madeira, com uma espécie de coldre de couro e um cinturão já desgastado pelo tempo. “Faz muito tempo que não utilizamos mais esse equipamento. Agora, é peça de museu”, diz o veterano, envergando o paletó de gala e o quepe de plástico também já aposentados.

O que Oswaldo não aposenta é o espírito voluntário que sempre norteou sua atuação: “Agora faço parte da Equipe de Tradição, que congrega os mais antigos. Não preciso ir todos os dias ao quartel. Quando há necessidade, fico na retaguarda, enquanto os mais jovens vão pra linha de frente.”

Baumrucker nasceu em São Paulo, em 1938, mas considera-se joinvilense: “Eu tinha nove anos quando viemos para Joinville, terra da minha mãe. Morei muito tempo na rua Dona Francisca, onde hoje fica a Döhler, e concluí o ensino fundamental no colégio Olavo Bilac, em Pirabeiraba.”

Adolescente, aprendeu a arte da marcenaria, passando pela Móveis Cimo, Indústrias Schneider, Esquadrias Lauro Müller e Indústrias Colin. Depois, foi motorista de caminhão na Buschle & Lepper. A experiência ao volante foi útil, mais tarde, nos bombeiros.

 

“A cidade não era tão barulhenta, e dava para escutar a sirene até lá onde eu morava. Muitas vezes, quando eu chegava ao quartel, o incêndio já estava apagado, pois não havia quem não ouvisse o alarme.”

 

Sirene podia ser ouvida na cidade toda

Oswaldo Baumrucker tinha algum conhecimento de combate ao fogo, adquirido na Indústrias Colin. “Muitos dos bombeiros voluntários da época eram funcionários da Tupy, que ficava na rua Pedro Lobo, onde hoje é o Shopping Mueller. Quando a fundição foi para o Boa Vista, convocaram trabalhadores de outras empresas. Da Colin, que ficava no entroncamento da 9 de Março com a João Colin, fomos uns três ou quatro.”

A data importante está na ponta da língua: “Entrei para o corpo de bombeiros no dia 6 de março de 1963.” A essa altura, ele já era casado com Elsa Zietz, a quem conhecera num baile no salão de Afonso Voss, que também ficava no espaço hoje ocupado pela Döhler. “Minha esposa é prima de Arthur Zietz, durante muitos anos comandante do corpo de bombeiros.”

Entre tantas lembranças – recentemente, ele foi homenageado pelo meio século como bombeiro - destaca a forma como os voluntários eram chamados em emergências. “A cidade não era tão barulhenta, e dava para escutar a sirene até lá onde eu morava. Muitas vezes, quando eu chegava ao quartel, o incêndio já estava apagado, pois não havia quem não ouvisse o alarme.”

Não havia destacamento de prontidão no quartel durante a noite: “Ficava só o zelador, encarregado de soar a sirene e ligar os caminhões”, recorda.

A frota de 50 anos atrás tinha apenas três caminhões: um com a bomba d´água (o velho “Sete”, reformado e ainda parte do patrimônio da SCBVJ) e dois caminhões-pipa. “Não existia – continua o bombeiro – a rede de hidrantes, e os pipas iam e vinham, conforme a necessidade. A sorte era quando havia algum rio ou lagoa por perto; aí o Sete utilizava uma bomba de sucção e puxava a água direto.”

Atualmente, como integrante da Equipe de Tradição, Baumrucker participa mais de eventos. “A última vez que precisei entrar em ação – relembra – foi há uns dez anos, quando um caminhão caiu da BR-101 num barranco nas imediações da rua Copacabana e se incendiou.” O veterano se empolga com a formação de novos bombeiros. “O batalhão mirim é muito importante, assim como os cursos de formação de brigadistas, pois significam investimento na prevenção.”


Para ele, o esporte é o melhor meio de integração social

Referência. Reynaldo Deglmann lembra dos anos dourados das competições de remo e ciclismo, onde colecionou medalhas e amigos
Luciano Moraes/ND
Preciosidades. Reynaldo Deglmann guarda cuidadosamente as medalhas que conquistou em sua carreira esportiva, levada em paralelo com a carreira profissional na Tupy



“Praticar esporte era tanto uma forma de manter a boa forma física, quanto de promover integração social. Esse foi um dos aspectos mais marcantes, as boas amizades que fiz, muitas mantidas até hoje.” A constatação, como um balanço da carreira de esportista, no remo e no ciclismo, é de Reynaldo Deglmann, mais um dos remanescentes de uma era dourada das duas modalidades em Joinville.

Para comprovar, mostra fotos dos páreos disputados nos anos 60 e 70, dos congraçamentos que sucediam as provas e, em cores, lembranças de tempos atuais, em que antigos companheiros ainda se reúnem – como numa em que Deglmann aparece com Rolf Fischer e Ingo Hertenstein, comemorando o aniversário de um deles. “Eram tempos difíceis para a prática do esporte, mas muito prazerosos.”

Nascido em Joinville em julho de 1937, criado nas imediações do bairro Itinga, Deglmann trabalhou algum tempo no comércio, antes de iniciar longa carreira na Tupy. “Aqui, estão as lembranças da mãe Tupy”, brinca, mostrando as medalhas por tempo de serviço que colecionou ao longo de 39 anos e meio na empresa, até se aposentar, em 1993.

Hoje morando na casa que construiu no bairro Floreta, curte a companhia de João Victor, um dos netos – já encarregado de colar o escudinho da Confederação Brasileira de Desportos que se soltou de uma das medalhas ganhas pelo vô num campeonato nacional de remo.




Reprodução/ND
Registro. Momento de confraternização depois de uma regata, na década de 1950




Remando e pedalando


Deglmann começou a praticar o remo aos 17 anos, convencido por primos que já disputavam páreos pelo Clube Náutico Cachoeira. “Remei de 1955 a 1970, sempre pelo Cachoeira. A rotina de treinos era puxada, e só podia começar após o expediente e nos fins de semana. Como a Tupy ficava no Centro, onde hoje é o Shopping Mueller, era perto para irmos até a sede do clube, nas imediações da atual Prefeitura. Era comum termos que carregar os barcos pela rua ou atolados na lama do rio”, relembra Deglmann, que além do Cachoeira, só defendeu a camisa das seleções de Joinville e de Santa Catarina.

Como os demais remadores já entrevistados neste espaço, Deglmann tem saudade dos duros páreos disputados contra os remadores de Florianópolis, dos clubes Paula Ramos, Aldo Luz, Martinelli e Riachuelo. “Aqui, quando havia vento, tanto no rio Cachoeira quanto na lagoa do Saguaçu, as marolas vinham de frente. Mas lá, quando dava vento sul, as ondas vinham de lado, balançava muito o barco. Eles já estavam mais acostumados. Mas houve ocasiões em que regatas chegaram a ser canceladas, por causa da força do vento e das ondas altas.” Outro lugar que traz saudade é Blumenau, onde as regatas sempre terminavam em festa.

Deglmann destaca, dos bons tempos, a dedicação dos dirigentes, como as famílias Kaesemodel, Lepper e Schumacher, que investiam para dar um mínimo de estrutura às equipes. “As embarcações não eram baratas”, garante.

No meio da vasta coleção de medalhas, misturam-se as que Deglmann conquistou no remo e no ciclismo, outro esporte em que foi muitas vezes campeão, ao lado de amigos como Alex Theilacker e Gerhard Patzsch. Três medalhas são especiais, ganhas como vice-campeão brasileiro de remo, em provas disputadas na lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro.


A fé e o artesanato lado a lado na rotina de Carlinhos e Idir

Artesanato. Casal faz balaios, cestas e bolsas de tamanhos variados
Fotos Rogério Souza Jr/ND
Reciclar. Com técnicas de artesanato, Carlinhos e Idir reaproveitam papel-jornal para fazer utensílios, tabalho feito ao lado da capelinha instalada em casa

 

 

Manezinho da gema, João Carlos de Souza só trocou Florianópolis por Joinville devido a uma circunstância profissional. Chegou no dia em que a empresa onde trabalhava na Capital do Estado fez a sua transferência para que integrasse a equipe encarregada de implantar os fundamentos do prédio do hospital regional Hans Dieter Schmidt. João Carlos, ou Carlinhos como é conhecido, ao chegar imaginava que voltaria às origens tão logo o trabalho estivesse concluído.

Mais vai que na cozinha do canteiro de obras ele conheceu Idir Batista Ferreira, uma jovem viúva nascida na cidade de Capinzal.  Os olhares se cruzaram e a conversa fluiu fácil. Em poucos dias Carlinhos e Idir descobriram-se almas gêmeas. Alguns meses depois veio o casamento e por isso Carlinhos nunca mais sentiu vontade de retornar a Florianópolis.

Juntos e felizes há 32 anos, Carlinhos e Idir continuam apaixonados como no tempo em que se conheceram no canteiro de obras. “Sou um homem de sorte por  ter encontrado uma mulher como a Idir. Para mim, ela é tudo na minha vida”, diz Carlinhos. Dona Idir olha para o marido agradecida e devolve o elogio. “Eu era uma viúva jovem, mas com uma escadinha de nove filhos para criar. Ele os assumiu como se fossem seus filhos e assim conseguimos encaminhá-los muito bem na vida. Digo a todos que o meu Carlinhos é uma benção enviada por Deus”,  assinala emocionada.

A casa do simpático casal está sempre apinhada de familiares.   Compreensível. Dos nove filhos vieram 20 netos, que por sua vez já deram a Idir e Carlinhos dez bisnetos. “Estamos aguardando outros bisnetos, pois sempre temos tempo para dar carinho a mais um que aparecer”, avisa o Carlinhos enquanto desata uma boa risada.

Ambos aposentados, Carlinhos e Idir são admirados pela energia que move o cotidiano da dupla. No passado, para reforçar os ganhos e encaminhar a família, fora do expediente eles chegaram a vender caldo e cana-de-açúcar e pães caseiros. Atualmente eles se dedicam ao artesanato. Com papel-jornal eles confeccionam balaios, cestas e bolsas de tamanhos variados. Os canudinhos da matéria prima são preparados a quatro mãos, enquanto que o trançado fica por conta de dona Idir, enquanto que seu Carlinhos se encarrega da pintura com pistola spray ou aplicação de verniz com pincel. Revestidas com tinta ou verniz as peças ficam bonitas e resistentes, atraindo o interesse de crescente número de fregueses.

 

 

“Faça sol, faça chuva, toda sexta-feira nos reunimos às 15h para rezar e agradecer as graças recebidas”
Idir Batista Ferreira

 


Artesanato e religiosidade
Bem humorada, dona Idir conta que entraram para o ramo do artesanato para ter um passatempo. “Comecei fazendo uma cesta que ficou bem feinha, mas não desanimei. Ela está comigo até hoje, é meu talismã”, assinala  extrovertida.

Da cesta “feinha”  o casal fez progressos graças a muita persistência. Hoje “chove” pedidos de moradores do bairro Comasa (onde moram há muitos anos) e de outras partes da cidade. Para dar conta de tudo, Idir e Carlinhos de manhã cuidam da casa e de tarde vão para o atelier, instalado ao lado de uma capelinha erguida nos fundos da residência, onde o trabalho se estende até noite adentro.

Na sexta-feira os artesãos do Comasa tiram folga. Profundamente religiosos, nesse dia recebem amigos e parentes para rezar o terço na capelinha particular. “Faça sol, faça chuva, toda sexta-feira nos reunimos às 15h para rezar e agradecer as graças recebidas”, enfatiza dona Idir. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Paixão pelas quatro rodas

Em Joinville, empresário Gilberto Hempkemaier dá vazão à fixação por carros no Automóvel Clube, entidade que assumiu recentemente o comando

Apaixonado por carros desde a infância, Gilberto Hempkemaier vem realizando sonhos desde que trocou o planalto pelo litoral, há 25 anos. O mais recente foi a posse na presidência do Automóvel Clube de Joinville, cargo que vai exercer até 2017. “Queremos resgatar a paixão do joinvilense pelo automobilismo, prejudicada desde o fechamento do autódromo, há cinco anos. Estamos programando uma agenda de eventos, e entre as propostas da atual diretoria, está a construção de uma pista. Também queremos criar projetos sociais e realizar o sonho de todo clube, que é a sede própria”, antecipa Gilberto – também conhecido como Brás, uma associação com o nome de sua empresa, Braspó.

 

Rogério Souza Jr./ND
Gilberto sonha com o dia em que as competições automobilísticas vão voltar com força total a Joinville

 

Gilberto viveu até os 24 anos em sua cidade-natal, Otacílio Costa. Primogênito de cinco irmãos, foi o primeiro a sair, em busca de novos horizontes profissionais. “Depois que vim para Joinville, a família toda veio atrás”, conta. Ainda garoto, seu primeiro emprego foi numa oficina mecânica, onde aprendeu a dirigir e se apaixonou pelas quatro rodas. “Um dia – relembra – minha mãe levou o maior susto, quando cheguei em casa dirigindo um Dodge Dart. Era o carro de um cliente da oficina.” Além do Dojão, Gilberto gostava do Jeep Willys do avô – o modelo ainda viria a ser um marco em sua vida, como se verá adiante.
Em 1988, decidido a voar além das perspectivas agrícolas da pequena cidade do interior, Gilberto desembarcou em Joinville, disposto a aplicar seus conhecimentos como técnico químico. Trabalhou algum tempo numa empresa local, até juntar capital suficiente para realizar o sonho de ser empreendedor. “Abri uma fábrica de móveis metálicos, uma febre na época. Mas, como toda tendência passageira, logo deixou de ser um bom negócio. Como eu tinha uma unidade de pintura eletrostática, percebi um novo nicho de mercado, pois havia poucos fornecedores de qualidade no segmento.” Nascia assim, em 1999, a Braspó Terceirizações Ltda. – Pintura Eletrostática a Pó, instalada na rua Clodoaldo Gomes, 494, no Distrito Industrial.

Retomada de competições não é só um sonho

Realizado o sonho profissional, reacendia-se a chama das quatro rodas, iniciada ainda em Otacílio Costa, com um Fuscão 72. Gilberto adquiriu um jipe e foi para a lama, participar de competições. Percebendo que o carrinho tinha muitos aficionados em Joinville, juntou-se aos amigos Maurício Jauregui, Zé Roberto Stazak e Sérgio Henrique Veiga e fundou o Clube do Jipeiro, em 2002.
Com sede ao lado da Expoville, o clube começou com 14 jipeiros, e hoje reúne 65 amantes do veiculo concebido para o serviço militar. Hoje presidido por Luiz Zanotti, o clube organiza e participa de competições, além de fomentar a integração social: “Todas as quintas-feiras temos uma reunião, quando um sócio é encarregado da cozinha. As mulheres participam dos encontros, como convidadas”, conta.
Há uns quatro anos, Gilberto foi convidado a conhecer o Automóvel Clube de Joinville. Rapidamente integrado, viu na entidade, fundada em 1966, uma oportunidade de resgatar o esporte automotor na cidade. “Joinville ainda vai voltar a vibrar com as corridas, como nos bons tempos”, planeja.
Um evento já marcado para este mês é uma corrida de kart, tendo como pilotos representantes de diversas entidades. “Também vamos regulamentar o clube, atualizar o estatuto e fomentar outras atividades, em parceria com associações diversas”, conclui Gilberto. Além do Jipe 53, ele tem na coleção de raridades duas pick-ups, uma Ford 49 e uma Willys 62, conhecida como “nega maluca”. Para o dia a dia, utiliza um Stark, fabricado pela TAC (Tecnologia Automotiva Catarinense), da qual é um dos sócios-fundadores.


Futebol para integrar

Área rural. Criador do TIR ainda tem esperança de ver o resgate do torneio
Fabrício Porto/ND
Tempo de descansar. Hoje, Durival Lopes Pereira cuida de duas lagoas de peixe, próximas do Serra Verde, histórico restaurante da Vila Dona Francisca

 

Dono do Serra Verde, histórico restaurante da Vila Dona Francisca, Durival Lopes Pereira teve o estabelecimento arrombado na década de 1980. Os ladrões fizeram uma “limpeza” geral, levando marrecos recheados, sacos de batatas, aparelhagem de som, um centenário relógio de parede e até dois troféus “O Jornaleiro”, a maior premiação esportiva de Santa Catarina coordenada durante décadas pelo jornalista Joel Ferreira do Nascimento, o Maceió.  “Lamentei a perda do relógio, que fora trazido de Portugal pelo meu bisavô, mas o que mais doeu foi o sumiço dos dois troféus ‘O Jornaleiro’, que me foram conferidos por ter criado o TIR (Torneio da Integração Rural)”, assinala Lopes Pereira.

Vereador ao longo de 16 anos, o criador do TIR é lembrado até hoje por sua trajetória política. Além de vereador ele foi presidente do Poder Legislativo por dois anos e exerceu interinamente o cargo de prefeito pelo período de 15 dias. Na condição de vereador, ele deixou seu nome marcado por ter conseguido o primeiro curso do então 2º Grau (ensino médio) para Pirabeiraba e ter encaminhado a implantação dos primeiros trechos de iluminação pública em estradas rurais de Joinville. Lopes Pereira é lembrado também por ações singulares, como ter transformado um carro de sua propriedade em ambulância improvisada (na época não havia nenhuma no distrito) para transportar doentes à Florianópolis para sessões de quimioterapia.

Sempre que a conversa gira em torno da trajetória comunitária de Lopes Pereira, velhos eleitores de Pirabeiraba não se esquecem de mencionar seu empenho em promover o futebol amador no interior de Joinville. Sem nenhum apoio oficial, ele criou e comandou o TIR por 24 anos, período em que a modalidade viveu sua melhor fase.  “Na maioria das comunidades rurais os colonos disputavam o torneio e havia uma grande integração. Abríamos o campeonato com um torneio início muito animado. Havia escolha da rainha do TIR, muito churrasco e abertura com música da banda do 62º Batalhão de Infantaria”, descreve Lopes Pereira.

O criador do TIR lembra que a torcida, além de acompanhar os jogos, aproveitava as tardes de domingo para fechar negócios. “Enquanto a bola rolava, aparecia sempre alguém querendo vender ou comprar alguma coisa. Vacas, cavalos, porcos, carroças e arados acabavam trocando de mãos enquanto os agricultores jovens suavam a camisa dentro do campo,” recorda sem conter uma boa risada.

Depois de 24 anos, Lopes Pereira passou o bastão adiante. O TIR foi então assumido pela Fundação Municipal 25 de Julho, mas foi realizado só mais dois anos. Hoje o famoso torneio é lembrado como uma das boas coisas que desapareceram no interior de Joinville.

“Lamentei a perda do relógio, que fora trazido de Portugal pelo meu bisavô, mas o que mais doeu foi o sumiço dos dois troféus ‘O Jornaleiro.’”

 

Uma esperança

Afastado da política desde 1992, Lopes Pereira dedica parte do tempo no manejo de dois tanques de peixes para consumo da família. Aos 78 anos de idade ele é casado com dona Veloni, com a qual tem cinco filhos (três moças e dois rapazes). Avô de oito netos e bisavô duas vezes, ele continua sendo muito visitado por velhos companheiros que o levaram à Câmara de Vereadores. Nessas horas ele costuma se manifestar esperançoso a respeito do TIR. “Quem sabe alguém jovem e cheio de vigor volte a promover o torneio. Seria muito bom para as comunidades rurais”, enfatiza. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Coragem para recomeçar

Superação. Jovem haitiano recomeça vida em Joinville, após o terremoto
André Kopsch/Divulgação/ND
Marca registrada. O sorriso retrata a alegria de Nahum, que “renasceu” no Brasil, para onde quer trazer a família

 

 

 

Muitas histórias de superação foram iniciadas em 2010, quando um terremoto atingiu o Haiti, país-ilha do Caribe. Uma dessas histórias vem tendo continuidade em Joinville, para onde veio Nahum Thomas, hoje funcionário da Schulz. “Posso dizer que encontrei uma nova família aqui na empresa”, diz o jovem, em fase adiantada de adaptação aos costumes brasileiros (em junho, ele já foi tema de reportagem no Jornal Interno da Schulz, base para este perfil).

Reconstrução, assim como par tantos haitianos, é a palavra que melhor define o atual momento da vida de Nahum Thomas (pronuncia-se Tomá”), esclarece, com o forte sotaque ainda caracterizando sua cada vez melhor compreensão do português). Sua primeira data de nascimento foi em 1983, na pequena cidade de Aquin, a 140 quilômetros de distância de Porto Príncipe, capital do Haiti. Aos 23 anos mudou-se para a capital, onde concluiu o segundo grau e iniciou a faculdade de técnico em contabilidade. O curso foi interrompido pelo grande terremoto que quase destruiu o país caribenho em 2010. “Eu entraria na aula às 15 horas, mas pouco antes ocorreu o primeiro grande abalo, que destruiu minha casa”, lembra Nahum, que perdeu um irmão e um afilhado na tragédia – além de praticamente tudo que tinha. O que ele não perdeu em nenhum momento foi a coragem, que o levou a salvar muitas pessoas em meio aos escombros. O longo caminho da reconstrução pessoal começou na igreja em que Nahum ficou abrigado. Arranjou emprego num ateliê de costura e começou a guardar dinheiro.

 

Uma meta: vir para o Brasil

 

A oportunidade de um novo nascimento surgiu no final de 2011, quando um amigo de seu pai lhe emprestou a quantia necessária para iniciar uma longa viagem que terminaria no Brasil. “Eu sabia que muitos refugiados haitianos estavam sendo bem recebidos no Brasil, e coloquei como meta vir pra cá”, conta Nahum. A viagem passou pela República Dominicana, Panamá e Peru, até a chegada ao Acre. “Cheguei no dia 22 de janeiro de 2012, com mais dez pessoas”, recorda, citando os seis longos meses que demoraram para regularizar a documentação e seguir viagem. Em julho de 2012, o novo caminho para a felicidade começava a se abrir para o haitiano, levando-o à catarinense Rio dos Cedros, contratado por uma malharia. “Eu queria evoluir, trabalhar numa grande empresa e juntar dinheiro para ajudar meus pais e meus irmãos”, ansiava Nahum.

A busca por uma cidade em que existisse alguma igreja da religião que professa o trouxe a Joinville no final do ano passado. Ali, junto com o conterrâneo Jean, conheceu Fabiano Dell’Agnolo, coordenador da Qualidade na Fundição da Schulz. No dia 7 de janeiro deste ano, enfim, os dois haitianos iniciavam a primeira jornada de trabalho na Schulz, no setor de Macharia da Fundição.

Já conhecido pelo amplo sorriso que sempre o acompanha, Nahum não esconde a felicidade em, enfim, ter encontrado um novo rumo na vida. “Aqui na empresa eu tenho roupa, comida, assistência à saúde e ainda por cima ganho salário!” Seus planos são simples: “Quero aprender cada vez mais, crescer profissionalmente e ganhar dinheiro suficiente para trazer minha família para cá”.


Sílvia, uma das “meninas de ouro”

História. Ex-coordenadora relembra os primórdios do Festival de Dança
FABRÍCIO PORTO/ND
Ela fez e ainda faz. Silvia guarda boas histórias dos primórdios do Festival de Dança de Joinville e mantém a parceria com a produtora Albertura Tuma

 

 

Hoje mundialmente consagrado, considerado o maior do planeta, o Festival de Dança de Joinville teve sua gênese em condições bem diferentes das atuais. “Nas primeiras edições, abnegação e muito suor se aliavam ao profissionalismo. Sem muitos dos recursos de que se dispõe hoje, apostávamos no voluntariado para conseguir realizar o festival com sucesso. Varamos muitas madrugadas trabalhando para que os grupos pudessem se acomodar e dar o melhor de si nas apresentações.”

As recordações, com muita emoção e saudade, são da primeira coordenadora técnica do Festival de Dança, Sílvia Regina de Almeida Borges, uma das “meninas de ouro”, como a então diretora da Casa da Cultura, Albertina Tuma, chamava as funcionárias mais próximas.

Idealizadora do evento, junto com o professor de dança Carlos Tafur, Albertina atesta: “Graças a uma equipe formada por pessoas como a Sílvia, extremamente dedicadas, pudemos consolidar o festival”. Hoje, afastada do serviço público, Sílvia continua ao lado da mentora e amiga, na empresa de promoção de eventos de Albertina.

Até se fixar em Joinville, Sílvia marcou o mapa do Brasil de ponta a ponta. Tanto que não é pelo sotaque que alguém identifica sua origem: “Nasci em Recife, em 1955, mas mal cheguei a conhecer a cidade. Como meu pai era militar, suas transferências nos levavam pelo país inteiro. Morei em Curitiba, Rio de Janeiro, Pelotas, Belo Horizonte, Guaratinguetá e Brasília, antes de escolher Joinville”.

Formada em educação física, Sílvia acabou aportando em Joinville em 1982, convidada pelo então dirigente esportivo Tito Rosa. “O desafio foi montar uma escolinha de ginástica rítmica desportiva e de dança. As aulas eram dadas no Ginástico. Deu tão certo que, em apenas seis meses, tínhamos cerca de 500 alunas”, relembra Sílvia, que depois defendeu as cores do Joinville Tênis Clube em competições de ginástica.

 

No palco do Festival
Sílvia Borges participou duplamente das primeiras edições do festival: além de fazer parte da equipe organizadora, levou seu grupo de dança, Execução, ao palco, ganhando logo de cara um segundo lugar. “Minha formação em dança teve as mãos de grandes professores, que me fizeram amar a arte.” Naquele já distante 1983, o primeiro Festival de Dança dividia a atenção do público com a grande enchente que devastou boa parte de Santa Catarina – e que também afetou o Festival, pois alguns grupos não conseguiram chegar à cidade, enquanto outros ficaram ilhados em Joinville depois, impedidos de voltar aos lugares de origem devido à destruição de estradas. “Nos primeiros festivais – lembra Sílvia – fazíamos mutirões para deixar os colégios em condições de abrigar grupos, já que a rede hoteleira era reduzida. Cheguei a esperar jurados na rodoviária de madrugada, com flores e chocolates.”

A ligação de Sílvia com Joinville teve uma interrupção em 1988, quando ela se mudou para Londrina, onde participou da instalação da faculdade de dança da Unopar. De volta dois anos depois, reassumiu seu posto no festival, agora como coordenadora técnica, contratada pela Fundação Cultural, onde Albertina Tuma era diretora de Cultura. Esta passagem durou até 1994; no ano seguinte, Sílvia mudou-se para Ubatuba e passou a trabalhar com Albertina na área de eventos.

“O Festival de Dança é físico, ele não fica apenas na cabeça. Tem uma identidade, e nela deixamos nossas impressões. Tenho muita saudade daquele tempo de voluntariado, sem recursos financeiros mas com garra”, conclui Sílvia.


O entalhador poeta

Herança. Com fama de filósofo, o divertido Taroba se divide entre as poesias e a marcenaria
Divulgação
Espaço criativo. Lindomar na “cadeira do pensamento”, em seu atelier, uma construção bem peculiar, onde ele coleciona carrancas

 

 

Dono de conversa temperada por espirituosas tiradas filosóficas, Lindomar Giosale nasceu há 40 anos na comunidade de Anaburgo, nos arredores do bairro Vila Nova, onde mora até hoje. Apesar ter vivido sempre no mesmo lugar, são poucos os vizinhos que se lembram do seu nome. Para a maioria, ele é simplesmente o Taroba, apelido que o acompanha desde criança.

Além da fama de filósofo, Taroba é conhecido também por suas habilidades de marceneiro, entalhador e poeta. Bem-humorado, conta que as artes de marceneiro e entalhador fazem parte da família. “Está no sangue dos Giosale transformar madeira maciça bruta em peças de refinado acabamento. Atraído por essa veia familiar desde crianças, cheguei a gazetear aulas da primeira comunhão para ir trabalhar na marcenaria dos Trapp. Era divertido deixar as catequistas brabas”, assinala, entre muito riso.

Fluente no dialeto trentino trazido do Norte da Itália por seus antepassados, Taroba tem consciência de sua boa estrutura cultural, apesar de ter largado os bancos escolares ao terminar o antigo ginásio. “Devido à paixão pelo trabalho em madeira, regularmente estudei pouco, mas bons livros nunca deixaram de fazer parte do meu cotidiano, detalhe que compensou a troca dos bancos escolares pela marcenaria”, assinala.

Taroba atribui ao hábito de prestar atenção em tudo o que ocorre ao seu redor ao gosto de escrever poesias nas horas de descanso. “Quando sinto os braços pesados, sento na “cadeira do pensamento” (instalada na parte superior da marcenaria e ladeada por carrancas de sua lavra), onde deixo a vertente poética fluir à vontade”, diz, divertindo-se como uma criança espevitada.

De bem com o trabalho, Taroba é exigente na produção de suas peças. Só usa madeira maciça, como canela preta, peroba e imbuia, que chega até sua marcenaria por intermédio de fregueses de longa data. “Eles catam essas preciosidades em demolições de construções antigas, pois no comércio esse tipo de madeira não existe mais faz tempo”, enfatiza.

 

Brincalhão e exigente
Brincalhão por natureza, Taroba também é muito exigente. Ao ser procurado para esta entrevista, se prontificou em atender a reportagem desde que fosse publicada uma de suas dezenas de poesias. Algumas, guardadas num velho caderno. Outras, só na memória. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)

 

“Dignidade”
(Poesia que escolheu para sair no jornal)

Teremos de ser dignos a vida inteira
para que no decorrer da caminhada
nunca nos faltem estradas e caminhos,
sempre dentro da liberdade.

Que um dia com mais idade,
tenhamos a capacidade serena de
compreender o dilema de quem
nos ache fora de cena.

Com compreensão no coração
e humildade extrema, só então
teremos sabedoria extrema.  

 


Saudade dos bons tempos do remo

Na água. Dentista Walmor Ferreira praticou o esporte por clubes do Rio e de Florianópolis
Rogério Souza Jr/ND
Consultório. Walmor se orgulha, hoje, de atender clientes da terceira geração de uma mesma família

 

 

 

O Perfil vem resgatando, há três anos, a memória de uma época em que o remo era um esporte popular em Joinville, rivalizando com o futebol, o basquete e a ginástica. Dos anos 50 ao início da década de 70 do século passado, o rio Cachoeira era palco de acirradas regatas, envolvendo os dois clubes locais, Cachoeira e Atlântico, além de participações ocasionais de guarnições de Florianópolis. Era lá, na capital, o grande centro formador de remadores; e até hoje o esporte é praticado na cidade, revelando talentos como a atleta olímpica Fabiane Beltrame.

E foi ali, remando pelas raias das baías entre a ilha e o continente, que um corupaense marcou seu nome na história do esporte em Santa Catarina. Hoje dentista, radicado há mais de quarenta anos em Joinville, Walmor Ferreira recorda com emoção os velhos tempos: “Tenho muita saudade da época em que remava. Além de praticar um esporte e cuidar da saúde, fiz muitos amigos no remo”. Ao contrário dos ex-remadores já perfilados neste espaço, o dr. Walmor sempre defendeu clubes do Rio de Janeiro e de Florianópolis – foi adversário até do irmão, Orival (perfil em março passado).

Walmor Isidoro Ferreira nasceu em 1939, em Corupá. Adolescente, mudou-se para o Rio de Janeiro, junto com o irmão dois anos mais novo. Na Cidade Maravilhosa, naquela época, o remo era tão popular quanto o futebol. Os irmãos Ferreira conheceram e gostaram do esporte. Enquanto Orival defendeu o Guanabara, Walmor remou com a camiseta alvinegra do Botafogo. Mas sua passagem pelo Rio foi rápida, e já em 1960 ele desembarcava em Florianópolis, transferido pelo Ministério da Indústria e Comércio, onde trabalhava.

 

 

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Campeão. Em 1960, a guarnição do Aldo Luz sagra-se campeã estadual (Walmor é o segundo depois do patrão)

 

 

 

Campeão estadual
Já em seu primeiro ano na capital do Estado, Walmor sagrou-se campeão estadual de remo, defendendo as cores do Aldo Luz. “Eu trouxe para o clube a experiência do Rio de Janeiro, com algumas técnicas diferentes e macetes que os cariocas conheciam, da mesma forma que meu irmão fez em Joinville”, conta Walmor. Seu irmão, Orival, regressara a Santa Catarina em 1963, escolhendo Joinville. A essa altura, Walmor já não disputava regatas. “Remei somente durante dois anos, e aí parei por causa da faculdade. Não dava para ser dentista com as mãos cheias de calos”, justifica.

Formado em Odontologia em 1967, Walmor também se estabeleceu em Joinville. Na capital, deixou muitos amigos feitos nos barcos do Aldo Luz: “Entre todos, tinha um apreço especial por Ênio Sônego, um dos melhores remadores do estado”.

Em Joinville, instalou-se com consultório inicialmente na avenida Getúlio Varga e, desde 1976, mora e atende na rua Rio Grande do Sul, 408. “Quando eu vim para cá – relembra – a rua só tinha a sauna do Jaime Wiese e outro dentista. Construí minha casa ao lado da chácara do Eugênio Wegner.” Casado com a também corupaense Liara Orzechowski, Walmor teve um filho médico (falecido há 16 anos) e a filha Daniela, dentista da rede municipal de saúde. Dos dois netos, um está cursando medicina. Jubilado quando fez 70 anos, o dr. Walmor não tem planos em curto prazo de deixar a profissão. “Já estou atendendo a terceira geração de clientes. Quando minha filha se aposentar do serviço público, passo o consultório pra ela”, promete.


A dança como sentido da vida

Homenagem. Professora pioneira do Bolshoi agora é cidadã joinvilense
Arquivo pessoal/Divulgação/ND
No palco. Galina em dança folclórica quando era como solista do Teatro Bolshoi de Moscou

 

 

 

Pode-se afirmar, sem medo de cair no exagero, que a dança representa o sentido da vida para a professora Galina Kravchenko. “Muito cedo eu vi a dança como minha vocação, e aos 9 anos já estava na escola de balé do Teatro Bolshoi. Fui solista, dancei com grandes mestres e estou no Bolshoi até hoje, agora como coreógrafa e professora”, diz Galina, homenageada neste mês com o título de Cidadã Honorária de Joinville, em reconhecimento aos 13 anos de trabalho como professora na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil.

Galina Kravchenko nasceu em Moscou, capital da Rússia. Formou-se pela Escola Coreográfica Acadêmica de Moscou, onde entrou criança. Ainda mantendo um forte sotaque, ela busca na memória sua primeira apresentação como solista: “Dancei um dueto espanhol e o balé Chopiniana. Fiquei 21 anos como solista do Teatro Bolshoi de Moscou, e dancei todo o repertório do Teatro Bolshoi com grandes mestres russos”.

Galina se casou com um profissional do meio, o bailarino Aleksander Bogatiriev, um dos principais solistas do Teatro Bolshoi de Moscou e também o idealizador da Escola Bolshoi no Brasil. Diplomou-se no curso superior de dança do Instituto Estatal de Artes Cênicas de Moscou, especializando-se em direção de balé. Participou de turnês por toda a Europa, América do Sul, Estados Unidos, África e Ásia e atuou em concertos de gala com grandes nomes, entre eles Rudolf Nureyev. “Também conheci Mikhail Baryshnikov, mas não cheguei a dançar com ele”, ressalta Galina. Conviver com gente famosa, por sinal, era algo comum em sua vida: “Meu pai foi piloto e professor de pilotagem, tendo formado, entre outros, o astronauta Iuri Gagarin, primeiro homem a ir para o espaço”.

 

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Recordação. Com o marido, Aleksander Bogatiriev (E) e Rudolf Nureyev

 

 

Acervo Escola do Teatro Bolshoi do Brasil/ND
Prática. Professora na Escola do Teatro Bolshoi do Brasil

 

 

Vanderléia Macalossi/Divulgação/ND
Reconhecimento. Com Valdir Steglich (E), presidente da Escola do Teatro Bolshoi e o vereador Rodrigo Fachini quando recebeu o título de Cidadã Honorária de Joinville

 

 

Um novo desafio
O ano 2000 representou um divisor de águas na vida de Galina, quando ela se mudou para Joinville com o único filho, Vladimir, então com 10 anos (o marido falecera dois anos antes). O público joinvilense conhece a história: em 1995, o diretor artístico do Teatro Bolshoi, Alexander Bogatiriev, desenvolveu um projeto visando levar as características da Escola Coreográfica de Moscou para outro país. No ano seguinte a Companhia do Teatro Bolshoi realizou uma turnê no Brasil, com o 14º Festival de Dança de Joinville no roteiro. Impressionado com a receptividade do público e a efervescência da cidade em torno da dança, Bogatiriev começou a montar o projeto, prontamente “comprado” pelo então prefeito Luiz Henrique. O idealizador morreu em 1998, mas seu projeto seguiu em frente. No dia da abertura do 17º Festival de Dança, em 1999, Alla Mikhalchenko, primeira bailarina do Teatro Bolshoi, assinou o protocolo de intenções com o prefeito, culminando com a inauguração no ano seguinte.

Galina assumiu a função de professora residente nas áreas de dança a caráter, repertório e clássico. Em 2007 remontou o Ballet Chopiniana. Também é ensaiadora nas principais obras da Escola: Grande Suíte do Ballet Don Quixote, Suíte do Ballet Quebra-nozes, Príncipe Igor, Raymonda e Giselle.

“Estes anos em Joinville foram positivos sob todos os aspectos. Meu trabalho sempre se pautou no respeito pelos alunos, e isso se reflete no respeito que eles têm por mim. Tenho orgulho de ter formado bailarinos que hoje se destacam em companhias do mundo todo”, diz a professora, destacando os três que acabaram contratados pelo próprio Bolshoi russo, Bruna Gaglianone, Erik Swolkin e Mariana Gomes.

Já adaptada à cidade – seu filho, hoje com 23 anos, é aluno de comércio exterior na Univille –, Galina ressalta o sentimento de orgulho por ter recebido o título de Cidadã Honorária: “Joinville é uma cidade maravilhosa para mim, me traz muita felicidade e alegria, e agradeço por me receber de forma tão acolhedora”.


Talento familiar

Da viola feita artesanalmente à gaita de oito baixos, pai e filho reproduzem canções do gênero tradicionalista gaúcho tradicionalista
Carlos Junior/ND
Natural do Rio Grande do Sul, Batista toca hoje ao lado do filho Marquinhus. A dupla apresenta-se aos sábados e domingos em Joinville e região

 

 

Moradores do bairro Nova Brasília, Valdemar Batista, de 40 anos e seu filho Marcus Vinicius, de 13, formam uma dupla musical com crescente popularidade em rodeios crioulos, bailes, casamentos e aniversários. Batista & Marquinhus surpreendem pela afinação e pelo extenso repertório de valsas, marchinhas, vanerões e xotes. “Nossa vertente musical é a do gênero tradicionalista gaúcho, que, por desfrutar de grande aceitação em Joinville, nos garante bom espaço para trabalhar”, comemora Batista.

Detalhe de arrancar risadas é como teve início a carreira de pai e filho. Batista nasceu em Erechim (RS) e aos oito anos de idade botou na cabeça que haveria de se violeiro. Menino de família pobre da roça, o jeito foi confeccionar um violão para levar o projeto adiante. Com uns pedaços de tábuas de pinho e cordas de nylon conseguiu fazer um instrumento rústico, com o qual conseguiu aprender a tocar.

A trajetória de Marquinhus, coincidentemente, também teve início aos oito anos. Admirador da arte do pai, que nessas alturas além de violão tocava também teclado, ao passar na frente de uma loja de instrumentos musicais parou e abriu o verbo: “pai me compra aquela gaitinha de oito baixos que está aí na vitrine. Vou ser e vou ganhar a vida como gaiteiro”, disse  de supetão.

Batista não teve saída. Entrou e comprou o pequeno instrumento e não se arrepende. “Foi um tiro na mosca. Já na primeira semana ele conseguiu tirar uns bons acordes e desde então, passados cinco anos, nunca mais largou a gaita”, conta o pai do pequeno músico.

Violeiro e tecladista, Batista é músico que toca só de ouvido. Já o filho, começou há cinco anos do mesmo jeito, mas hoje as coisas estão mudadas. Ele está fazendo um curso teórico e prático com o professor Gilmar, ex-gaiteiro do Conjunto Estância Serrana. “Para me tornar um profissional consagrado preciso estudar música a fundo”, enfatiza Marquinhus, menino ainda tímido na conversa mas muito à vontade na hora de abrir os foles da gaita.

Apesar do sucesso, a dupla Batista e Marquinhus continua levando a vida bem pé no chão. Batista se dedica à profissão de pintor de paredes e de colocador de azulejos, enquanto que Marquinhus vai bem nos estudos. No começo da noite ensaiam pelo menos duas horas todos os dias. “Menos aos sábados e domingos, quando fazemos apresentações em Joinville e região”, esclarece o extrovertido Batista.

 

Apoio da família
Batista veio para Joinville em 1989, onde em 1997 casou-se com Priscila, com a qual além de Marquinhus tem uma filha, a pequena Amanda Aline. “Nós duas somos as principais incentivadoras da dupla. Os dois merecem nosso apoio pelo esforço e pela qualidade da música que produzem”, assinala Priscila sem disfarçar uma pontinha de orgulho pelo sucesso do marido e do filho.

Mãe coruja, Priscila conta que Marquinhus encostou a gaita de oito baixos a um bom tempo. “Agora ele toca outra maior, de 48 baixos. O próximo passo será comprar uma gaita de 80 baixos para ter condições de se aperfeiçoar cada vez mais”, comenta de olho na consolidação definitiva da carreira musical do filho. (Herculano Vicenzi,especial para o Notícias do Dia)

 


Em forma, com saúde

Bem-estar. Victor é precursor da ginástica calistênica outdoor em Joinville
Carlos Junior/ND
Performance.  No Parque da Cidade, Victor e seguidores praticam o cross fit, modalidade de ginástica calistênica

Para Victor Hugo Araújo Santos, saúde e boa forma física podem até parecer uma redundância, mas formam uma espécie de lema que guia seus passos. Personal trainer, é pioneiro em Santa Catarina no cross fit, modalidade de ginástica calistênica que leva os praticantes a conhecer seus limites de força a resistência, num mix de diversos movimentos e exercícios. Victor Hugo e seus seguidores podem ser vistos nas manhãs de sábados e domingos, geralmente em alguma praça da cidade. “Uma das características do cross fit – explica o instrutor – é a harmonia com o ambiente, daí a necessidade de praticar ao ar livre, sempre que possível.” Claro que numa cidade como Joinville, onde a chuva é companhia constante durante o ano todo, muitas vezes o jeito é adaptar-se ao confinamento de ginásios de esportes. Nestes casos, ladeiras são substituídas por arquibancadas e o canto dos pássaros dá lugar ao barulho da chuva no teto. De qualquer forma, os praticantes são exigidos ao máximo. “Sempre de acordo com as características e a resistência de cada um”, salienta o instrutor.

O esporte faz parte da vida de Victor desde que ele nasceu, há 38 anos, em Vitória, capital do Espírito Santo. “Meu pai era atleta, e desde pequeno me acostumei a correr atrás da bola e a gostar de ginástica. Cheguei a reprovar na primeira série, por dar mais atenção ao esporte do que aos estudos”, conta, espantado com a própria façanha. Dente-de-leite, disputou a Copa Gazetinha, o equivalente capixaba ao catarinense Garoto Bom de Bola. Mas o gosto pela atividade física não o limitou ao futebol – “Até porque não era lá muito bom de bola”, admite. O belo litoral do Espírito Santo o levou a praticar surfe, até ouvir o chamado das artes marciais. Começou pela bem brasileira capoeira, integrando-se ao conhecido grupo Beribazu assim que chegou a Joinville. Passou depois para os ringues e tatames, praticando boxe, judô (é faixa laranja) e jiu-jitsu (faixa marrom, campeão sul-americano em sua categoria).

Nova fase, em Joinville

Victor Hugo conheceu a cidade durante um evento esportivo, em 1999. No ano seguinte se estabeleceu e foi fazer a faculdade de educação física na Univille, formando-se em 2005. Seguiu-se uma pós-graduação, pela carioca Gama Filho, especializando-se em obesidade e emagrecimento. Tornou-se personal trainer e hoje trabalha nas academias The Best e Personal Health. E as orelhas amassadas não escondem: continua praticando o jiu-jitsu.

Há uns três meses, junto com o amigo e colega de profissão Rafael Kilipper, Victor iniciou as atividades do 1º Grupo de Calistenia Outdoor de Joinville. “Calistenia é uma série de exercícios físicos executados sem aparelhos, com a finalidade de produzir saúde, força, elegância e bem-estar geral.” Calistenia vem do termo grego “kallistenés” que significa cheio de vigor ou força harmoniosa (kallós = belo, sthenos = força). Atualmente, Victor é coach (treinador) nível 1, e aguarda a abertura de inscrições para prestar prova para a certificação internacional em cross fit.

Para participar do grupo, basta ligar para Victor Hugo (8802-4443) e confirmar presença, informando-se sobre locais e horários. Ele cobra R$ 10 (R$ 15, com camiseta) e muita disposição para levantar cedo sábado e domingo. “A atividade é puramente funcional, visando desenvolver o atleta da vida real”, explica o coach, que conta com a assistência da mulher Renata, nutricionista e praticante de jiu-jitsu e muai-tai. No momento, ela está afastada dos exercícios, pois está grávida de seis meses do primeiro filho do casal – mais um atleta na família, ou alguém duvida?

Perfil sugerido pelo leitor André Geiser.


Pela inclusão dos surdos

Dedicação. Rute é uma abnegada na defesa dos deficientes auditivos
Fabrício Porto/ND
Para se comunicar. Rute Freitas de Souza é professora de Libras e fundadora do Instituto Joinvilense de Assistência aos Surdos

 

 

 

“Ainda há muito por fazer pela inclusão das pessoas com deficiência auditiva, tanto no mercado de trabalho, quanto na sociedade, de um modo geral.” A constatação, seguida de exemplos e estatísticas, é de Rute Freitas de Souza, professora de Libras (Linguagem Brasileira de Sinais) e fundadora do Ijas (Instituto Joinvilense de Assistência aos Surdos). Adepta do voluntariado desde a infância, Rute vem se dedicando à causa desde que, há oito anos, assistiu a uma apresentação de um coral de surdos. “Conheço muitos surdos, em Joinville, que têm até o ensino médio, mas não sabem ler nem escrever. Foram ‘formados’ por pena, sem o devido acompanhamento e por despreparo da rede de ensino, que não tem professores que entendam a linguagem de sinais”, lamenta.

Paranaense de São José dos Pinhais, caçula de quatro irmãos – mais quatro primos que seus pais adotaram –, Rute começou a enfrentar desafios já ao nascer: “Minha mãe trabalhava fora e só descobriu a gravidez no quinto mês. Acabei nascendo três meses antes do prazo, num parto complicado”. Quando tinha apenas 8 anos, Rute sentiu o chamado do voluntariado: “Eu auxiliava no preparo de café e sopa para moradores de rua de Curitiba e ajudava pessoas idosas, limpando suas casas e indo ao mercado para elas”.

Vendedora por profissão, Rute desenvolveu no ofício o jeito expansivo e a facilidade de comunicação. Em 2004 chegou em Joinville, para onde o marido fora transferido.

 

 “A linguagem de sinais é uma arte, que expressa o sentimento das pessoas.”

 

Apelo de uma “canção”
Sempre dedicada às ações voluntárias, em Joinville Rute elegeu os órfãos. “Eu vendia cosméticos e aproveitei a parceria com a distribuidora Zanghelini para doar kits de higiene pessoal ao Lar Abdon Batista.”

Em 2005, uma nova luz surgia na vida de Rute: “Eu estava num culto da Igreja Batista, justamente num dia em que um coral de surdos se apresentava. Notei que, ao meu lado, um senhor se emocionava a ponto de chorar. Perguntei à esposa o motivo, e ela me explicou que ele era surdo, e que aquela era a primeira vez que ele ‘ouvia’ um coral. Também fiquei tocada, e dali em diante resolvi me dedicar aos deficientes auditivos”.

Rute foi aprender a linguagem de sinais e começou a colocar os novos conhecimentos em prática, fundando o Ijas em 2009. Tornou-se intérprete e empregou-se na Câmara de Vereadores, onde traduz as sessões solenes e os programas da TV (nas transmissões das sessões pela TV Câmara, é ela que aparece no cantinho da imagem, traduzindo na linguagem de sinais). Também é solicitada no Fórum e em hospitais. Formou-se em Serviço Social e épós-graduada em bilinguismo.

Atualmente, a maior parte do tempo de Rute é dedicada ao acompanhamento das reformas na sede do Ijas, que vai abrigar, a partir de agosto, a Casa Brasil Sublingue. Graças a um convênio com a Fundamas, serão oferecidos cursos de Libras a crianças surdas, assistentes sociais, profissionais da educação e famílias de surdos, além de manter a distribuição de cestas básicas a famílias carentes.

“Precisamos suprir uma grave carência de intérpretes na comunidade. Joinville tem hoje cerca de 21 mil surdos, e ainda não tem um curso superior de Letras em Libras. Posso garantir que 99,9 por cento das famílias não se comunicam com os parentes surdos. A inclusão no mercado de trabalho se limita ao cumprimento de cotas, e o surdo fica a vida toda trabalhando no chão de fábrica. Precisamos dar aos surdos a oportunidade de progredir, e isso só se faz com educação”, alerta Rute.


Um jeito de ficar perto do mar

Costume. Morador do Vila Nova, pescador na juventude, ainda faz tarrafas artesanais
Fabrício Porto/ND
Passatempo. Nas horas de folga do trabalho na portaria do condomínio, Maneca tece tarrafas de tamanho e espessura de malha que o cliente pedir

 

 

 

Homem de conversa mansa, Manoel Marcolino Nunes, o Maneca como é chamado por todos os conhecidos, já tem planos para outubro deste ano. “Vou me aposentar naquele e, como não gosto de ficar sem fazer nada, quero então acelerar a produção artesanal de tarrafas. É o tipo de trabalho que rende pouco dinheiro, mas me ajuda a dar uma aliviada na cachola e por isso me divirto muito enquanto vou tecendo as malhas”, diz bem humorado.  

Nascido há 64 anos em São Tomaz, lugarejo do interior de Imaruí, cidade do Sul do Estado, Maneca se criou revezando-se entre o cabo da enxada e as redes de pesca. “De dia trabalhava firme na roça e, à noite, reforçava os ganhos capturando camarões na lagoa de Imaruí durante algumas horas”, conta dando risadas.

Foi nesse tempo de agricultor e pescador que Maneca aprendeu a fazer tarrafas. “Aprendi o ofício só de olhar como dois cunhados meus faziam esse tipo de apetrecho de pesca. Em pouco tempo peguei os macetes e acabei me apaixonando por esse tipo de artesanato do qual não pretendo me afastar nunca”, avisa determinado. 

O experiente artesão mora em Joinville há 30 anos, onde já trabalhou em estabelecimentos industriais e comerciais. Atualmente é um dos porteiros do conjunto habitacional Irineu Bornhausen, no bairro Vila Nova.  “Desde que cheguei a cidade sempre trabalhei e nunca larguei as malhas das tarrafas por ser meu passatempo preferido”, enfatiza. Morador das vizinhanças do local do atual trabalho, quando Maneca está de folga aproveita parte do tempo para fazer tarrafas de qualquer tamanho. “Quem define quantas braças e o tamanho da malha é o freguês e aí eu mando bala”, diz espirituoso.

As encomendas de tarrafas artesanais são cada vez mais raras, lamenta. “As tarrafas produzidas em cadeia industrial são de qualidade bem inferior a essas que faço artesanalmente. Mas na hora da compra, a maioria se deixa levar pelo preço mais em conta da concorrência e por isso tarrafeiro artesanal é uma categoria que está em extinção.”

 

 

“Aprendi o ofício só de olhar como dois cunhados meus faziam esse tipo de apetrecho de pesca. Em pouco tempo peguei os macetes e acabei me apaixonando por esse tipo de artesanato do qual não pretendo me afastar nunca”

 

 

Brincadeira muito gostosa

Dito isso, o velho artesão dá de ombros, ressaltando que mesmo assim não pensa em largar a atividade. “Sempre aparece alguém que não abre mão de usar uma tarrafa bem acabada nos mínimos detalhes e com as malhas firmes. Vou até aumentar a produção depois de me aposentar. Se não tiver saída, paciência, vou guardá-las até aparecer um comprador. O importante é continuar me divertindo com essa brincadeira muito gostosa”, salienta.

Casado com dona Maria, pai de um rapaz e duas moças e avô três vezes, Maneca tem mais um sonho para quando se aposentar. “Gostaria de ir morar na beira do mar, para além de fazer tarrafas poder usá-las a fim de abastecer minha cozinha com peixes fresquinhos toda a hora que me der na telha”, comenta o artesão de um dos mais antigos equipamentos de pesca do mundo. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)

 


O defensor do tricolor

Carreira. Roberto Pugliese Jr. realiza o sonho de criança como advogado do JEC
Rogério Souza jr/ND
Na defesa. Influenciado pelo pai, Roberto optou pelo Direito, mas na área esportiva para conciliar com seus sonhos

 

 

 

O JEC contratou mais um zagueiro? Não. Por enquanto, a zaga tricolor está bem servida com Rafael, Sandro, Jussani e cia. Este defensor atua fora de campo. Mais exatamente, entre quatro paredes, sejam de seu escritório, sejam dos tribunais esportivos. Ele é Roberto José Pugliese Junior, o advogado que joga nos bastidores, que defende o clube em qualquer instância e que também, claro, é torcedor de não perder jogo. “Até cheguei a jogar no juvenil do JEC, mas minha vocação sempre foi o direito, especificamente o esportivo”, revela Pugliese (pronuncia-se “puliêse”), sucessor do pai na empresa Pugliese e Gomes Advocacia e sócio da Agôn Assessoria Esportiva, dedicada à consultoria em gestão e marketing esportivo.

“Nasci em São Paulo em 1978, bem no dia da final da Copa da Argentina. Mas me criei entre Cananeia e Itanhaém, no litoral paulista, onde meu pai trabalhou. Em 1990 já estávamos em Gurupi, no Tocantins. Três anos depois meu pai abriu escritório em São Francisco do Sul e viemos morar em Joinville. Meus pais se mudaram há alguns anos para Florianópolis, mas eu fixei raízes por aqui”, narra Pugliese, destacando a paixão pela cidade e pelo clube.

Roberto Pugliese pai formou-se advogado pela PUC paulista em 1974. Foi professor na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas de Gurupi (TO), da Faculdade de Direito da Unerj de Jaraguá do Sul e da ACE em Joinville. Na área esportiva, foi presidente da Junta Disciplinar Desportiva da Liga Francisquense de Futebol. Autor de diversos livros, em junho foi eleito para a Academia de Letras de São José (SC).

 

“Até cheguei a jogar no juvenil do JEC, mas minha vocação sempre foi o direito, especificamente o esportivo.”

 

Pugliese e o JEC
Roberto Pugliese Junior definira, desde criança, um caminho que levasse ao esporte. São-paulino roxo – o avô foi conselheiro do clube – via duas opções: “Ou seria jogador, ou jornalista esportivo. Mas acabei influenciado pelo trabalho do meu pai, e segui a carreira dele”. Formou-se em 2000, na ACE, e logo associou-se ao pai, inicialmente em São Francisco e, a partir de 2002, em Joinville, instalado no Edifício Hannover. É especialista em gestão e marketing no esporte.

A ligação profissional de Pugliese com o Joinville Esporte Clube começou em 2003, convidado por Mauro Bartholi e Antônio Carlos Poletini, na época presidente e diretor de futebol, respectivamente. “O convite deles representou o início da concretização do sonho de trabalhar com o esporte. Em 2004 assumi a diretoria jurídica, fiz uma especialização em gestão de marketing no esporte e não saí mais. Hoje sou gerente jurídico do JEC.” Além do tricolor, o escritório Pugliese e Gomes atende outros clubes e também atletas. Na Agôn, tem na equipe Douglas Strelow, bacharel em educação física; Luiz Gustavo Haas, bacharel em ciência do esporte; e o radialista Renan Pereira. A empresa presta assessoria e consultoria a entidades esportivas, atletas e empresas, atuando na captação de recursos, gestão de carreira, organização de eventos e desenvolvimento de programas de saúde e lazer, entre outros serviços, sempre na área esportiva.

Roberto Pugliese Jr. avalia da forma mais positiva possível sua carreira profissional: “Estou fazendo exatamente aquilo que pretendia, trabalho com pessoas competentes e ainda tenho muitos projetos a concretizar. Posso dizer que estou realizando meus sonhos”. No balanço das realizações à frente do setor jurídico do JEC, não tem dúvida: “A maior vitória jurídica foi a conquista da vaga na série C”.


Per una donna

Raízes. Vildi Minatti Beltrame foi a primeira mulher a ocupar o cargo de presidente do Circolo Italiano di Joinville
Rogério Souza Jr/ND
Orgulho. Conduzido por Vildi, núcleo italiano de Pirabeiraba participa do Circolo há nove anos

 

 

Criado para preservar tradições culturais, o Circolo Italiano di Joinville promove uma vez por mês a Noite do Associado, ocasião em que é servido jantar à base de polenta, galinha caipira, queijo, fortaia e radicci, tudo regado a vinho de boa procedência.  O jantar da Noite do Associado é preparado sempre por um dos nove núcleos de italianos que fazem parte do corpo associativo do Circolo. Dentre esses núcleos, um dos mais animados é o de Pirabeiraba, liderado pela família de Mario Minatti.

Falante e bem humorado, Mario desata uma boa risada e abre os braços ao contar como a família entrou no Circolo. “Fale ali com a minha filha Vildi, ela é a ‘culpada’ por estarmos nessa deliciosa brincadeira”, limita-se a dizer o patriarca dos Minatti.

Fazendo coro às risadas do pai, Vildi Minatti Beltrame conta que o núcleo de Pirabeiraba chegou ao Circolo em 2004 ao receber convite para participar de uma Noite do Associado. “Gostamos tanto da confraria que na mesma noite nos associamos ao Circolo e lá estamos até hoje, para o que der e vier”, avisa toda espevitada.

Vildi ressalta que atualmente entre filhos, noras, genros, netos, outros parentes e amigos, o núcleo do clã de Mario Minatti participa do Circolo com mais de 30 associados.  Ela comemora o fato, dizendo que “a entrada no Circolo ajudou a fortalecer o núcleo de Pirabeiraba, que por tradição já fazia encontros na casa dos meus pais para contar músicas folclóricas, falar em italiano, jogar caxeta e, é claro, saborear comidas típicas trazidas pelos imigrantes vindos da província de Trento.”

Fluente no dialeto trentino que aprendeu com os pais, Vildi não economiza elogios do Circolo Italiano di Joinville. “Graças a Moacir Bogo e outros entusiastas preservadores da cultura italiana, hoje Joinville se destaca por sediar um dos mais organizados e animados centros de cultivo da italianidade em Santa Catarina”, compara.

O empenho e o entusiasmo de Vildi na tarefa de inserir o núcleo de Pirabeiraba no Circolo lhe rendeu dividendos dentro da entidade. Convidada a integrar a direção do Circolo, ela acabou se tornando a primeira mulher a ocupar o cargo de presidente do Circolo, mandato que exerceu no período entre março de 2011 a março de 2013. “Foi uma honra ter sido eleita por aclamação a primeira mulher presidente”, enfatiza com uma pontinha de orgulho.

 

“Fazer trabalhos comunitários é gratificante por ajudar a melhorar a sociedade como um todo”

 

Empenho irrestrito

Na condição de atual vice-presidente do Circolo, Vildi comparece na sede da entidade pelo menos uma vez por semana. “Gosto de ir ao local por ser endereço certo de boa diversão e de ambiente bem família. Até acho que não saberia viver longe do Circolo”, deixa escapar.

Dona de uma disposição invejável, além do envolvimento com o Circolo, Vildi é conhecida em Pirabeiraba pelo empenho irrestrito a causas comunitárias há mais de 20 anos. “De fato tenho participado durante todo esse tempo d associação de moradores, do conselho de segurança e de trabalhos na Igreja Católica e em jardins de infância e escolas de Pirabeiraba. Fazer trabalho comunitário é gratificante por ajudar a melhorar a sociedade como um todo”, enfatiza.

Casada com Wilson Beltrame, mãe de duas moças e de um rapaz e avó de uma pequerrucha, Vildi conta que no momento está empenhada nos preparativos do 2º Jantar VinVeneto, que será realizado pelo Circolo em agosto. “Vai ser uma festa de arrombar”, garante a incansável preservadora da cultura italiana. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Das enchentes, um trampolim

Pirabeiraba. Quando as águas destruíram a estação de piscicultura, João Carlos Desordi migrou para complexo esportivo

Duas enchentes ocorridas num intervalo de cinco anos (uma em 1995  e outra em 2010) provocaram, em ambas as ocasiões, o transbordamento de uma estação de piscicultura na comunidade de Estrada Pirabeiraba. Ao todo, cerca de 60 mil quilos de peixes prontos para serem comercializados foram levados água abaixo, deixando o dono do empreendimento à beira da falência.  Ao contabilizar um prejuízo de mais de R$ 100 mil, ao invés de ficar lamentando-se ele preferiu botar a cara no trabalho a fim de diversificar suas atividades. Por conta disso, além da estação de piscicultura, hoje ele é dono de um belo complexo esportivo e está iniciando um projeto de criação e abate de ovelhas.

Essa história de superação de uma grande adversidade faz parte da biografia de João Carlos Desordi, gaúcho nascido há 54 anos na cidade de Encantado e morador de Pirabeiraba desde 1976, onde desfruta de grande popularidade. João conta que atualmente a estação de piscicultura já não e mais a sua principal atividade. “Hoje a produção de peixes é destinada ao abastecimento da cozinha do complexo esportivo e por isso é bem menor do que no tempo anterior à ocorrência das enchentes”, assinala.

Bem humorado ele informa que após as enchentes apertou o cinco, canalizando todas as reservas que lhe sobraram na construção do SC Futebol Society, complexo esportivo situado na SC-418 (antiga SC-301), perto da estação da Águas de Joinville. Inaugurado em 2007, na época o complexo representou uma inovação na área esportiva em Pirabeiraba.  “Foi a primeira praça esportiva do distrito a instalar um gramado sintético”, esclarece João.

 

 

 

Carlos Junior/ND
Desanimar, jamais. Ao lado da mulher Eliane , João Carlos mostra orgulho da sua propriedade, que transformou no SC Futebol Society, complexo esportivo  aberto ao público e para eventos fechados

 

 

 

Além de jogos de futebol society, o local dispõe de espaço para a realização de eventos, como casamentos, batizados e aniversários. “Temos uma área para acomodar até 110 pessoas sentadas, com boa estrutura de cozinha, banheiros, churrasqueira, área para costela de fogo no chão e serviço de bar”, destaca o dono do SC Futebol Society.

Casado com dona Eliane, com a qual tem três rapazes, João toca o empreendimento em parceria com a família. “Trabalhamos unidos e costumamos nos revezar nas tarefas para cada um dispor de tempo para tratar de assuntos particulares sem comprometer o bom atendimento ao público.”

 

Trabalhador incansável
De Encantado, a terra natal, João guarda poucas lembranças por ter migrado aos seis anos com a família para a comunidade de Linha Cachoeira, pertencente ao município de Palmitos, no Oeste catarinense. Lá ele se criou no cabo da enxada até completar 15 anos, quando se mudou para a casa do técnico agrícola Pedro Bello, no centro de Palmitos para fazer o antigo curso ginasial.

Corria o ano de 1976 quando Pedro Bello deixou Palmitos para se estabelecer em Pirabeiraba, onde arrumara emprego na Fundação Municipal 25 de Julho. João acabou vindo junto com Pedro Bello e terminou de fazer o curso ginasial no colégio Olavo Bilac.

Terminado o curso, depois de breve retorno a Palmitos, João retornou a Pirabeiraba, onde trabalhou na Fundação Municipal 25 de Julho de fevereiro de 1977 a julho de 1980, quando então pediu seu desligamento para ir trabalhar de contínuo nas empresas Rudnick. Esforçado, em 1987 foi transferido para a área de coordenação do restaurante, do qual pouco tempo mais tarde virou gerente, função na qual se manteve até o ano 2000 quando deu início à trajetória de empresário do ramo da criação e engorda de peixes. De bem com a vida, João não se esquece do técnico agrícola Pedro Bello e da família Rudnick. “Claro que sempre trabalhei muito, mas devo a essas pessoas boa parte do meu sucesso”, reconhece penhoradamente agradecido. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)

 

Serviço | Onde encontrar
O que: SC Futebol Society
Onde: SC-418 (antiga SC-301), em Pirabeiraba (logo após a estação de captação do rio Cubatão)
Atendimento: de segunda a sexta, das 18 às 22h; sábados e domingos, só para eventos fechados
Informações: 9924-3266


O Super do Mercado

Personagem. Segurança e entregador da peixaria conquista pelo carisma
Rogério Souza Jr/ND
Entrega ecológica. De bicicleta, Mário Super deixa as encomendas da peixaria na porta dos clientes

 

 

 

Ele não voa, não tem visão de raios-X, não é invulnerável... Mas cruza as ruas de Joinville pedalando sua bicicleta, procurando entregar as encomendas no menor prazo possível; conhece quase todos os fregueses da peixaria; e já precisou utilizar as habilidades de faixa preta em muai tai para retirar pessoas inconvenientes de lugares públicos. O nome dele é Márcio Venanncio Vieiras, mas no Mercado Público de Joinville é mais conhecido como Super. Suas funções vão desde abrir o estabelecimento e cuidar da segurança até fazer entregas para a Peixaria Classe A, onde é funcionário. Nos fins de semana, à noite, pode ser visto em casas noturnas, bares e locais de diversão, onde faz bicos como segurança. Carismático, não tem receita secreta para ser benquisto: “O importante é estar sempre disposto para o trabalho, sorrir, gostar do que se faz e, acima de tudo, respeitar todas as pessoas”.

“Manezinho do Sul” assumido, Super nasceu na localidade de Rio Maina, em Criciúma, em 1970. Primogênito de quatro irmãos, aos 14 anos aprendeu o ofício de soldador na Metalúrgica Pagé, de Araranguá. “Quando prestei o serviço militar – conta – fui encarregado da manutenção. Dei baixa como cabo.”

Antes de se estabelecer em Joinville, há oito anos, Márcio Venanncio foi um cidadão do mundo. “Passei a infância entre Rio Maina e Florianópolis. Morei em Curitiba, onde comecei a atuar como segurança pessoal. Depois fui trabalhar em São Paulo e no porto de Santos. Participei de espetáculos de vale-tudo, passei para o muai tai e cheguei a faixa preta.”

Mesmo com pouco estudo regular, Super se orgulha de ser poliglota: “Falo holandês, inglês e espanhol”. E como ele aprendeu isso? “Depois da experiência em Santos, passei quase três anos num dos maiores portos da Europa, o de Roterdã, na Holanda. Algum tempo depois morei em Boston, nos Estados Unidos.”

 

“O importante é estar sempre disposto para o trabalho, sorrir, gostar do que se faz e, acima de tudo, respeitar todas as pessoas”.

 

Ancoragem em Joinville
O primeiro contato do Super com Joinville foi há 13 anos, quando veio fazer um bico num show do maestro Mello, no Mercado. “Naquela época eu morava em Jaraguá, e vim substituir um dos seguranças. Acabei ficando amigo do maestro e admirador do seu trabalho.”

Em 2005, nas andanças por Joinville, Super conheceu um dos proprietários da Peixaria Classe A, Ronaldo Teixeira (Perfil em maio de 2012). Começava uma nova amizade e mais um registro na carteira profissional de Márcio Venanncio. “Eu sou o primeiro a chegar, todos os dias, e o último a sair. Além da segurança, sou encarregado da entrega ecológica, de bicicleta.” E por que Super? “O apelido foi dado num dia em que vim trabalhar usando uma camisa com a marca do Super-Homem. Pegou!” Hoje, o apelido se justifica mais pela prestatividade e esforço incansável, sem a necessidade de se fantasiar de Superman.

Já enraizado na cidade, Super se tornou jequeano de coração e costuma ir à Arena junto com o patrão e amigo Ronaldo. Orgulha-se de manter uma boa parceria com a Polícia Militar, em função do trabalho como segurança: “Os homens da bike e do GRT são muito prestativos e eficientes”, garante. Fã de pirão d´água com caldo de corvina, Super já demonstra bons conhecimentos do mercado peixeiro: “Se precisar, também vou pro balcão”. Morador do Boa Vista, tem no labrador canadense Fox Mulder um companheiro fiel, tal qual o Superman e seu fiel Krypto.

Precisou? Chama o Super!


Resistente como uma rocha

Ofício. Há 50 anos Guilherme Kersten trabalho no ramo da mineração, 40 deles na mesma empresa
Rogério da Silva/ND
Orgulho. Na Minérios Rudnick, Kersten comanda equipe com mais de 70 pessoas, desde motoristas a engenheiros

 

 

A história da arquitetura de Joinville está interligada com a mineração de rochas desde as primeiras décadas da fundação da cidade. No primeiro momento, os imigrantes ergueram casebres de pau a pique para, em seguida, utilizar pedras brutas na sedimentação dos fundamentos de edificações da linha enxaimel, modelo de construção sustentado por paredes de tijolos maciços encaixados em reforçadas armações de madeira. Com o passar do tempo, as pedras brutas deram lugar a material rochoso beneficiado por equipamentos de última geração presentes nas mineradoras que operam na cidade.

É nesse contexto que entra em cena Guilherme Kersten, um dos mais antigos agentes de mineração rochosa em Joinville. Ele está no ramo da mineração moderna há 40 anos. “E sempre na mesma empresa, a Minérios Rudnick Ltda”, assinala. Aos 69 anos de idade, mas com aparência de um atlético cinqüentão, Guilherme acrescenta que antes de ingressar na Rudnick trabalhou outros dez anos no segmento da mineração. “Desse tempo perdi a conta de quantos caminhões de saibro carreguei na pá, recheando as mão de calos”, relata bem humorado. Os calos produzidos pelo cabo da pá lhe renderam bons dividendos. Sabedor da experiência acumulada por Guilherme, Avelino Rudnick convidou-o para ser o gerente geral da Minérios Rudnick, função na qual permanece até hoje.

Franco e direto, o veterano minerador informa que apesar de aposentado tem dois motivos para não pensar em parar de trabalhar. “Gosto da mineração e tenho excelente relacionamento com a família Rudnick. Por isso não planejo comprar uma cadeira de balanço para me espreguiçar”, assinala espirituoso.

Guilherme tem contribuído para a evolução do setor de minérios rochosos em Joinville por dominar com a segurança de um catedrático todos os macetes que envolvem a atividade. Ao se referir à evolução do segmento, ele informa que ao entrar na Minérios Rudnick lhe foi confiada uma equipe de cinco homens, quatro pequenos caminhões e uma máquina equipada com pá carregadeira. “Hoje comando 70 homens (entre os quais figuram motoristas de caminhões, operadores de máquinas, geólogos, engenheiros de minas e biólogos), que com equipamentos de última geração me permitem liderar um trabalho no qual são gerados empregos e riquezas sem desrespeitar o meio ambiente”, ressalta.

 

 

“Gosto da mineração e tenho excelente relacionamento com a família Rudnick. Por isso não planejo comprar uma cadeira de balanço para me espreguiçar.”

 

A grande enchente

No dia 9 de fevereiro de 1995, Pirabeiraba sofreu a maior enchente de sua história. Dezenas de casas ribeirinhas foram destruídas e muitas lavouras e animais domésticos carregados pela fúria da correnteza. Passada a avalanche, o rio Cubatão ficou estrangulado em diversos pontos pelo acúmulo de seixo rolado, ameaçando perigosamente a população caso o fenômeno pluviométrico se repetisse.

Ao atender apelos da população para eliminar com urgência tais estrangulamentos, as mineradoras de Pirabeiraba botaram imediatamente suas equipes para operar. Para espanto e revolta da população, alguns empregados das mineradoras chegaram a ser presos sob a alegação de estar agredindo o meio ambiente.  “Foi a partir daquele episódio que as mineradoras de Joinville se profissionalizaram de vez, equiparando-se em maquinários e em equipes multidisciplinares ao que existe de mais avançado no universo da mineração rochosa”, salienta Guilherme.

Nascido em Estrada Bonita, berço do turismo rural em Joinville, Guilherme é casado com dona Maria há 48 anos, com a qual tem uma filha e três filhos. Avô duas vezes, ele é respeitado e admirado por quem conhece sua trajetória de minerador. Amigos mais espirituosos de Guilherme garantem que ele conhece a qualidade de qualquer pedra pela cor, espessura e, ufa, até pelo cheiro. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Bate, coração...

Saúde. Catarinense comemora vinte anos de transplante cardíaco

Há muita gente que pode afirmar ter nascido duas vezes, por diversos motivos. Osmar da Silva é uma dessas pessoas que comemoram dois aniversários: o primeiro, 11 de novembro, dia em que nasceu, no ano de 1951, na localidade de Escalvadinho, em Itajaí; o segundo, 24 de julho, dia em que, no ano de 1993, ganhou um coração novo. Um dos mais antigos transplantados cardíacos do Estado, Osmar superou, graças ao coração doado, um problema grave de saúde que poderia abreviar sua vida. “Eu nunca havia tido problemas de saúde, até começar a sentir dificuldade para respirar ao menor esforço. Quando o problema foi diagnosticado, o transplante era a única opção de cura”, conta Osmar, hoje aposentado e feliz por poder levar uma vida normal, comendo de tudo e só precisando prestar atenção aos horários de tomar os necessários e permanentes medicamentos.

Caçula de nove irmãos, Osmar mal conheceu a cidade-natal: “Viemos para Joinville quando eu tinha 9 anos. Meu pai, Chico Solano, trabalhou na Wetzel e na Prefeitura e eu me formei torneiro mecânico pelo Senai. Também trabalhei na Wetzel e depois na Consul, e me aposentei trabalhando na construção civil”. Osmar é apaixonado pelo Saguaçu, bairro em que passou a maior parte da vida e onde ainda mora. Foi ali que construiu a casa em que vive, com a esposa Maria Cristina, e onde criou três filhos – que já lhe deram dois netos. “Por coincidência eu cheguei a Joinville em abril de 1960, e a Cristina nasceu no mês seguinte.” Corações predestinados?

 

 

 

Luciano Moraes/ND
Entre os primeiros. Osmar da Silva comemora uma segunda data de nascimento no dia em que recebeu um novo coração

 

 

 

“O transplante foi um sucesso. Como era praxe não divulgar os nomes dos doadores, só fiquei sabendo que era um descendente de japoneses.”


 

Faltou bombeamento
Osmar estudava no Senai quando sentiu os primeiros sinais: “Eu tinha falta de ar, não conseguia acompanhar os colegas nas aulas de educação física. Lá pelos 36 anos, a dificuldade de respirar vinha ao menor esforço. Nunca tive problemas de saúde, e o dr. Orlando, médico da Consul na época, diagnosticou: meu coração tinha metade da capacidade de bombeamento. Passei a fazer tratamento com medicação, até que o cardiologista Valdomiro Barbosa percebeu que o problema era mais grave e sugeriu que eu fosse a São Paulo fazer exames mais detalhados.” Em novembro de 1992, após uma bateria de exames realizada no Hospital do Coração, Osmar soube que seu coração estava prestes a pifar de vez. Voltou em janeiro do ano seguinte, ficou mais trinta dias e entrou na fila para o transplante.

Em abril de 1993, Osmar conheceu um par de bons corações. “Eu estava no hospital, lendo o jornal em busca de alguma pensão pra morar. Uma enfermeira começou a conversar comigo e alguns dias depois eu estava hospedado na casa dela e do marido, um profissional da construção civil. Fiquei três meses com eles, e criamos uma profunda relação de amizade”, conta Osmar, que até hoje mantém contato com seus anjos da guarda, Geraldo e Maria dos Anjos.

Na primeira oportunidade de transplante, não deu certo porque Osmar havia ingerido um medicamento não recomendado – na verdade, um prosaico AS, para dor de cabeça. Quando surgiu outro coração compatível, houve resistência da família do doador. Um terceiro carregava riscos de rejeição. Na quarta oportunidade, enfim, Osmar foi chamado. Eram 23 horas de 23 de julho de 1993. Pouco antes do amanhecer do dia 24, um novo coração batia em seu peito. A operação foi chefiada por. Ricardo Pavanello, que fizera parte da equipe de Eurípedes de Jesus Zerbini, o pioneiro dos transplantes cardíacos no Brasil. “O transplante foi um sucesso. Como era praxe não divulgar os nomes dos doadores, só fiquei sabendo que era um descendente de japoneses.” Hoje, Osmar não precisa mais ir a São Paulo periodicamente, mas deve se medicar e praticar atividade física – o que faz em caminhadas diárias.

Mais uma prova de que o coração novo bate muito bem: no dia da entrevista, Osmar alertava para o risco de um desbarrancamento no terreno ao lado de sua casa, onde uma construção avançara perigosamente na retirada de terra; dois dias depois, o barranco veio abaixo, trazendo até a piscina da casa do alto. “Tomamos um susto, mas o coração suportou tranquilo”.


Histórias de amor que duram para sempre

União. Compromisso de adolescentes se torna convivência de 68 anos

Têm sido cada vez mais comuns, neste espaço, histórias de pessoas longevas, verdadeiras testemunhas vivas da história. Há aqueles que passaram dos 100 anos e também os casais que fazem jus ao “...viveram felizes para sempre”. Mais que um final de conto de fadas, a expressão simboliza um compromisso, uma aliança forjada em amor e respeito.

Nesta segunda situação, em que cada vez mais casais superam as bodas de ouro, estão João Batista Battisti e Infância Pinotti Battisti. Em abril eles comemoraram bodas de chumbo, 68 anos de união. Ele, mais conhecido como Joanin, nasceu em agosto de 1922 na localidade de Baixo Pitanga, interior de Nova Trento. Quinto degrau de uma escadinha de uma dezena de irmãos, criou-se na roça, onde forjou o caráter de honestidade e muito trabalho.

Infância nasceu em Brusque, em maio de 1925, e trabalhou durante 16 anos na Renaux, principal empresa têxtil do município. O destino do casal começou a ser ligado quando, aos 6 anos, Infância perdeu a mãe. Alguns anos depois seu pai casou-se de novo. “Minha madrasta – conta Infância – era da família Battisti, e foi assim que conheci o João.” As famílias já se conheciam, pois costumavam se encontrar nas peregrinações ao santuário de Azambuja. “Nós não tínhamos carroça, então íamos a pé de Nova Trento até Azambuja”, lembra Joanin.

 

 

Luciano Moraes/ND
Dedicação. Companheiros, João e Infância Battisti foram os primeiros moradores da rua Olinda, no Boa Vista

 

 

 

 

“Eu tinha 14 anos de idade, ele 17, quando me prometeu que me buscaria para casar quando eu completasse 20”.

 

 

Promessa cumprida
Infância relembra o compromisso firmado por João Batista: “Eu tinha 14 anos de idade, ele 17, quando me prometeu que me buscaria para casar quando eu completasse 20”. A promessa foi cumprida exatamente seis anos depois. O casamento, em abril de 1945, foi em Brusque, com direito a uma festa bem animada, como conta Infância: “Dançamos até domingo de manhã, quando embarcamos numa carroça e fomos para a casa dos meus sogros, em Baixo Pitanga”.

Dos 15 filhos do casal – mais dois netos que criaram –, 13 nasceram em Nova Trento e dois em Brusque, para onde a família se mudou devido a problemas de saúde. “No interior tinha muita malária, e não havia recursos médicos. Quando precisávamos levar uma das crianças ao médico, tínhamos que andar com a criança no colo por 28 quilômetros, para pegar um ônibus no centro de Nova Trento e ir a Brusque ou a Florianópolis, pois naquela época não existia carro no interior”, explica Infância.

De Brusque, em 1972 a família se mudou para Joinville, em busca de melhores oportunidades de estudo e trabalho para os filhos. Quando se estabeleceram, onde hoje é a rua Olinda, o Boa Vista ainda não era sequer o esboço da pujança de hoje. “Por aqui – conta a nona – era só mangue, a água chegava a entrar em casa. Fomos os primeiros moradores da rua."

Depois, com a chegada da Tupy, o bairro cresceu e se desenvolveu, e os Battisti fincaram raízes por ali. Raízes, por sinal, que se tornaram uma grande e frondosa árvore: além dos 15 filhos, hoje o clã contabiliza 47 netos, 22 bisnetos e dois trinetos – mais um aguardado para outubro próximo. A filha Terezinha, com quem os pais vivem, lista a fé, o amor e o perdão como ingredientes da receita da longa convivência dos pais. Seu Joanin, com deficiência respiratória, necessita do auxílio de um aparelho, mas de resto a disposição do casal é invejável. Católicos devotados, rezam o terço todos os dias e se orgulham da família unida. A felicidade, para eles, é viver cada momento.

Perfil sugerido pelo leitor Elmar Buttchewits


O artista das unhas

Arte nas mãos. Rodrigo Ramos usa seu dom na produção de unhas artísticas

Rodrigo Ramos nasceu com o dom para a arte; desejava, portanto, ser artista plástico, viver da sua habilidade com pincéis e tinta. Mas todos sabem como é difícil tirar sustento da arte. Então, Rodrigo foi à luta, trabalhando no segmento administrativo. Até surgir uma oportunidade de, enfim, colocar seu dom como principal fonte de rendimento. E surgiu o único manicure de Joinville. “Manicuro” – corrige Rodrigo, garantindo que o termo existe. De fato, ainda que não conste do Dicionário da Academia Brasileira de Letras, o vocábulo pode ser encontrado em outras fontes, como o site jurisway.org.br: "manicuro é a pessoa que se dedica ao tratamento da mãos ou das unhas das mãos. Feminino: manicura.A forma manicure, apesar de tida por galicismo pela gramática tradicional, já está incorporada ao léxico do português”. Pois então, está definido: Rodrigo Ramos é o único manicuro profissional de Joinville. “Eu, pelo menos, não sei de mais nenhum. E olhe que andei muito pela cidade, até encontrar um salão que aceitasse apostar num homem para cuidar das unhas da clientela”, diz Rodrigo, que achou há algumas semanas, no Spricigo Salão e Escola de Cabeleireiros, no Iririú, o ambiente adequado para desenvolver sua arte.

Até chegar ao atual estágio, porém, Rodrigo já construiu uma trajetória de muito esforço e realizações ao longo de seus 28 anos. Caçula de 15 irmãos, nasceu em Jaguaruna, no Sul do Estado, onde passou a maior parte da vida. Em 2007, já pai de duas meninas, veio parar em Joinville, onde morava cerca de metade dos irmãos. “O motivo de todos para a mudança foi o mesmo: busca de mais oportunidades profissionais e desenvolvimento pessoal”, justifica.

 

 

Rogério Souza Jr/ND
Em detalhes. Rodrigo encontrou nas unha decoradas uma forma de viver da arte e trabalha Spricigo Salão e Escola de Cabeleireiros, no Iririú

 

 

“O motivo de todos para a mudança foi o mesmo: busca de mais oportunidades profissionais e desenvolvimento pessoal.”

 

A sensibilidade da arte
Rodrigo trabalhou alguns anos na Multisom, casou-se em 2009 – “O filho joinvilense chega em agosto”, antecipa – e foi cursar a faculdade de Comércio Exterior na FCJ. Mas a vontade de tirar sustento do dom artístico não passou em nenhum momento. E nem a disposição: “Vi na pintura de unhas uma nova possibilidade. Comecei a pesquisar, fiz cursos on line e em outubro do ano passado iniciei uma nova fase , fazendo unhas em domicílio”.

Começou, também, a peregrinação por salões de beleza da cidade, em busca de trabalho fixo, que possibilitasse uma ancoragem e mais garantia de renda. Foi um período de frustrações: “Nenhum salão queria saber de um homem fazendo unhas”.

Até que, no final de maio, enfim Rodrigo encontrou quem apostasse em seu potencial, e começou a atender a clientela do Spricigo Salão e Escola de Cabeleireiro. “Nós acreditamos no diferencial do trabalho dele”, afirma Michele Spricigo, proprietária do salão, situado na rua Salto Veloso, 50, no Iririú. E a freguesia já vai se acostumando com a arte refinada de Rodrigo Ramos. “O trabalho dele é muito bom. Está aprovado”, dizia a cliente Sirlene Likes, enquanto deixava suas mãos nas do manicuro, no dia da entrevista.

Rodrigo pinta as unhas das clientes uma a uma, sem utilizar adesivos, baseando-se em ideias tiradas na internet, em sugestões das próprias freguesas e em sua imaginação. Uma tatuagem no braço – obra dele mesmo –, piercings e os cabelos longos (lembrando o ator Colin Farrell) lhe dão um visual moderno e bem apropriado a um artista. Agora, enfim, vivendo de seu dom.


Da roça para a indústria

Empreendedor. Bastaram 25 anos, sonhos e muita coragem para morador do Vila Nova erguer seu próprio negócio

Ao desembarcar na rodoviária de Joinville um dos pertences que ele trazia socado numa mala velha era o diploma de conclusão do antigo curso primário. Jovem e cheio de sonhos, saiu dali sabendo que para se dar bem na maior cidade do Estado teria de arrumar um emprego de imediato e voltar a estudar. Passados 25 anos, hoje ele exibe com orgulho dois diplomas, um de torneio mecânico e outro de administrador de empresas.

Esses detalhes fazem parte da biografia de Salésio Amandio, microempresário do ramo de zincagem estabelecido no bairro Vila Nova.  Dono da Galvanoplastia Vila Nova, empresa especializada no fornecimento de peças zincadas para metalúrgicas e serralherias, Salésio gera seis empregos e toca o negócio em parceria com a mulher, Simonia, com a qual tem uma menina. “Eu tomo conta da administração e da produção, enquanto que Simonia se encarrega da parte administrativa; formamos um casal bem afinado em casa e no trabalho”, assinala bem humorado microempresário.

 

 

 

Luciano Moraes/ND
Trabalho em dupla. Salésio e Simonia apostaram no ramo e agora dividem as tarefas na empresa

 

 

 

Nascido em São Lourenço do Oeste, na outra ponta do Estado de Santa Catarina, conforme gosta de frisar, Salésio conta que dos sete aos 18 anos trabalhou na agricultura produzindo milho, feijão, trigo e tabaco. Por não vislumbrar futuro promissor na roça, aos 18 anos pegou a mala e veio para Joinville, onde começou a trabalhar numa fábrica de tubos de concreto. Em seguida foi auxiliar de depósito numa empresa de material para construção. Ao conseguir uma vaga na têxtil Döhler, desempenhou então as funções de oficial de mesa de estamparia e analista de cores.

Bem adaptado na Döhler, em 1994 Salésio conheceu José Gorges (já de saudosa memória), dono da Galvanoplastia Vila Nova, que lhe ofereceu sociedade na empresa. Depois de uma boa pensada vendeu seu único bem, um terreno no bairro Iririú, e se tornou dono de 40% do empreendimento. Pelo sim, pelo não, nos seis meses seguintes Salésio continuou de dia na Döhler e, à noite, na galvanoplastia. “Ao perceber que o negócio de zincagem era bom fiz então um acordo e saí da Döhler e me atirei com tudo no que era meu”, assinala.

Passados cinco meses, Salésio fez empréstimo na rede bancária e comprou os outros 60% da Galvanoplastia Vila Nova, tornando-se assim o dono de todo o empreendimento. Salésio recorda que no tempo da Döhler aproveitou o período noturno para fazer o ensino médio e o curso de torneio mecânico. A faculdade de administração veio mais tarde, quando já era empresário bem sucedido. 

 

“Incentivar o futebol amador é bom por ajudar a tirar meninos das ruas; também é bom para fazer amizades sólidas.”


Futebol nas veias
Desde o tempo de agricultor, Salésio é apaixonado por futebol de várzea e por isso é um dos empresários de Vila Nova que mais apóia essa modalidade esportiva. Durante algum tempo ele manteve um time dentro da própria empresa, com o qual conquistou um bicampeonato no Copão Curt Meinert. Atualmente presta apoio financeiro ao time da Sociedade Palmeiras. “Incentivar o futebol amador é bom por ajudar a tirar meninos das ruas; também é bom para fazer amizades sólidas”, destaca o ex-agricultor que se tornou empresário ao meter a cara e a coragem no trabalho e nos bancos escolares.  (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Arpões artesanais

Década de 1940. Morador do bairro São Marcos fabricava armamento quando a caça a baleia era liberada
Rogério Souza jr/ND
Aposentado. A primeira casa dos pais de Herbert foi demolida para dar lugar a pista da BR-101, no início dos anos 1950; com a indenização, construiu a que ele herdou e ocupa até hoje

 

 

No final da década de 1940, Balneário Barra do Sul era um dos principais pontos de abate de baleias no litoral norte de Santa Catarina. Para fazer a matança utilizava-se arpão de cano de ferro oco recheado de dinamite e uma espoleta. Ao penetrar no dorso do animal, a carga explosiva da arma era acionada através de um fio interligado entre a espoleta e a bateria da embarcação baleeira.

Em Joinville quem conhece bons detalhes dessa história é Herbert Schneider, morador do bairro São Marcos. Aos 82 anos de idade ele é um dos últimos remanescentes da saga baleeira em Barra do Sul. Lúcido e disposto ele conta que, apesar de nunca ter caçado baleias, foi um dos protagonistas desse tipo de empreitada. “Eu fabricava os arpões e até desenvolvi uma espingarda propulsora para que eles penetrassem com maior profundidade no corpo dos grandes mamíferos marinhos”, conta.

O ex-fabricante de arpões recorda que em Barra do Sul a matança se concentrava em baleias fêmeas. “Elas eram atingidas pelos arpões ao se aproximarem da orla para parir. Lembro-me do abate de uma única baleia macho, que motivou uma grande festa entre os baleeiros por ter rendido grande quantidade de óleo”, relata.

Outra interessante história vivenciada pelo veterano morador do bairro São Marcos está relacionada à implantação da BR-101. Os trabalhos tiveram início em 1953, ano em que a casa dos pais de seu Herbert foi demolida para dar passagem à rodovia.  “Nossa morada ficava onde hoje está o viaduto da rua Ottokar Doerfell. O governo pagou pela terra e construiu outra casa aqui ao lado, que herdei dos pais e moro nela até hoje”, assinala.

Nascido em 1930, seu Herbert criou-se num ambiente tipicamente rural.  “Naquele tempo os bairros São Marcos e Atiradores não existiam. Toda a região era conhecida pelo nome de Salão Reiss e uma das principais atividades do lugar era a produção de leite. Minha família forneceu leite fresquinho ao Hospital São José por mais de 40 anos. Eu ajudava a engarrafar e levar o produto até o hospital, para onde ia de carroça em companhia com minha mãe”, relata.

Seu Herbert cresceu num tempo que as casas da região do Salão Reiss eram iluminadas com lamparinas e abastecidas com água de poço. “A rede de luz terminava no Cemitério Municipal e só foi estendida para cá quando os moradores pagaram os custos dos fios e dos postes para desfrutar dos benefícios da luz elétrica”, descreve.     
Casa do há 57 anos com dona Hildegard, com a qual é pai de oito filhos (cinco mulheres e três homens), seu Herbert e avô nove vezes. Tipo bonachão e bom de conversa, ele gosta de contar aos familiares e amigos coisas do tempo de menino. “Sou de uma época em que não havia um metro quadrado de rua com pavimento em Joinville. Sou também do tempo que caminhões e automóveis eram raridades e por isso auase tudo era transportado em carroças. Quando num mesmo dia passavam mais de quatro carros pela rua da nossa casa achávamos que o movimento estava intenso”, assinala desatando uma boa risada.

 

 

 

Arquivo pessoal/ND

 

Porta-retrato. O casamento de Herbert com Hildegard, realizado em 1956

 

“Minha família forneceu leite fresquinho ao Hospital São José por mais de 40 anos. Eu ajudava a engarrafar e levar o produto até o hospital, para onde ia de carroça em companhia com minha mãe.”

 

Participação comunitária
No verdor da juventude seu Herbert participou de movimentos comunitários, como a fundação da Sociedade Esportiva e Cultural Cruzeiro Joinvilense e de um time de futebol chamado Novo Horizonte, que hoje não existe mais. “A Sociedade Esportiva e Cultural Cruzeiro Joinvilense surgiu da fusão de dois clubes, um praticante do tiro ao alvo seta e o outro de tiro ao alvo real. O Novo Horizonte surgiu depois que arrancamos os tocos de uma pastagem onde hoje estão os galpões da madeireira Tacolindner e por isso o time foi apelidado de Arranca Toco. Tenho orgulho de ter participado do surgimento das duas agremiações”, enfatiza o disposto Herbert, que atualmente aproveita a aposentadoria para bater papo com velhos amigos e para viajar em companhia de sua inseparável Hidegard. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Filha de professor, mãe de professoras

Educação. Maria de Jesus é patronesse da biblioteca da escola que leva o nome do seu pai
Rogério Souza Jr/ND
Orgulho. Maria de Jesus foi alfabetiza e depois substituiu o pai,Plácido Xavier Vieira, em escola

 

 

Muitas famílias se perpetuam em determinada profissão, justificando o comentário popular de que o ofício “está no sangue”. É o caso de Maria de Jesus Vieira Bueno, professora aposentada, que comemora 85 anos neste sábado e curte as boas lembranças de uma vida passada em salas de aula, ensinando crianças. Do mesmo modo que seu pai, Plácido Xavier Vieira, e quatro de suas filhas. “Desde criança eu sentia que minha vocação era ser professora”, diz Maria, também conhecida como Santinha, apelido que traz da infância.

Plácido Xavier Vieira, hoje nome de colégio no bairro Santa Catarina, zona Sul de Joinville, nasceu em 1886 na localidade de Corveta, em Araquari. Era colocador de dormentes na via férrea, mas, como conta a filha, “era um homem muito inteligente”. Sem acesso à escola, alfabetizou-se com um senhor conhecido como Mestre Madeira. Mais tarde, a comunidade passava a procurar o próprio Plácido para que ensinasse as crianças do vilarejo. Ele fundou a primeira escola da Corveta e outra alguns anos depois, na localidade de São José do Itinga – onde nasceu Maria de Jesus. Aposentou-se em 1945, após trinta anos de magistério, sendo também catequista e fundador da paróquia local.

“Eu era auxiliar do meu pai no colégio de São José do Itinga. Quando ele anunciou a aposentadoria, veio o inspetor José Motta Pires, trazendo o nome da substituta. Imagine minha surpresa quando ele disse que eu seria a nova professora!”

 

 “Desde os 7 anos, quando meu pai me alfabetizou, nunca saí do lado dele, e ali aprendi a ser professora.”

 

Uma longa carreira
Começava então, de forma oficial, uma carreira que praticamente se iniciara na infância de Maria de Jesus. “Desde os 7 anos, quando meu pai me alfabetizou, nunca saí do lado dele, e ali aprendi a ser professora. As aulas eram dadas, na mesma sala, para as três séries iniciais do ensino fundamental”, acrescenta a professora Maria. Ela credita a perseguição política – “Eu era partidária do governo estadual” – a transferência para uma escola no interior do município de Itajaí. Mas ficou pouco tempo longe da sua terra: “Um tio, inspetor de ensino do Estado, conseguiu me transferir para um colégio na ilha do Mel, perto do Morro do Amaral, na baía Babitonga.” Também não foi um período fácil, pois como não havia acesso para o Morro do Amaral, era preciso ir de canoa do Espinheiros até o local do colégio.

Maria ainda lecionou um tempo numa escola da estrada Dedo Grosso, na região da atual Rodovia do Arroz, na divisa de Joinville com Guaramirim, até enfim assumir a cátedra na Escola Reunida Plácido Xavier Vieira, batizada em homenagem a seu pai. “Naquele tempo o colégio ficava bem no trevo do km 4.” Pouco tempo depois, a escola foi transferida para o endereço atual, na rua Roberto Lehm, 300 metros antes do trevo. A essa altura, Maria de Jesus já era formada no curso normal do Colégio Celso Ramos, de onde saíram muitos professores e professoras que fizeram história no ensino joinvilense. Aposentada em 1964, Maria ainda trabalhou dois anos na biblioteca da Associação Catarinense de Ensino.

Mas a vida ainda reservava mais um momento de emoção para a professora. “Em maio de 2008 fui convidada para ser a patronesse da biblioteca do Colégio Plácido Xavier Vieira.” E mais: na mesma solenidade foi lançado um CD com o hino do colégio, gravado por sua neta Thuise, então com 11 anos. Hoje, enquanto o retrato do pai aparece logo na entrada do colégio, a foto da professora Maria de Jesus orna a parede da biblioteca, onde centenas de livros dividem espaço com os indispensáveis computadores.

Neste sábado, todos os parabéns vão para a sempre professora Maria de Jesus, pelos 85 anos e por uma vida dedicada ao ensino.


Mais de 70 anos de namoro

Longevidade. Com disposição e muito amor, casal comemora bodas de vinho
Fabrício Porto/ND
Doce rotina. Guilherme, como um carinho a Elza, sempre ascende o fogão à lenha para aquecer a casa e cozinhar
Eles comemoraram bodas de vinho, 70 anos de casados, no dia 3 de março; no dia 23 do mesmo mês, ele fez 97 de idade; e ela comemorou 91 domingo passado; se fossem comemorar tempo de namoro neste 12 de junho, nem eles se lembram quanto tempo daria. Afinal, Guilherme e Elza se conheciam desde que nasceram, na pequena Botuverá, na época distrito de Brusque. “Nossos pais – conta Elza – eram sócios numa serraria, e as famílias sempre foram muito próximas.” Nada mais natural, portanto, que jovens dos dois clãs se apaixonassem e casassem – o que aconteceu duas vezes neste caso.

Guilherme Pavesi nasceu primeiro, em 1916. Neto de italianos, das tantas famílias que chegaram em 1876 à região, aprendeu cedo o valor do trabalho. Sua família habitava a localidade de Ribeirão do Ouro, e lá se dedicava à agricultura e, no caso do seu pai, à atividade madeireira. A necessidade de ajudar no sustento da família impediu que os filhos frequentassem a escola, mas lhes deu a fibra necessária para encarar os desafios da vida. Guilherme também ajudou o pai na serraria e aprendeu os ofícios de carpinteiro e pedreiro. Hoje às voltas com dificuldades de audição, capta trechos das conversas, mas ouve perfeitamente e repete a frase dita pelo repórter: “Trabalho não mata ninguém”.

Elza, da família Tabarelli, nasceu em 1922, também no Ribeirão do Ouro. Segunda de 11 filhos, teve a dupla missão de trabalhar na lavoura e ajudar a criar os irmãos mais novos. Não chegou a frequentar a escola regular, mas alfabetizou-se em casa: “Aprendi a ler com minha mãe, começando pelo a, e, i, o, u, até conseguir ler trechos da Bíblia”.

O namoro, lembra o casal, não era como hoje, quando os namorados se encontram a qualquer hora, em todo lugar. “Os pais eram rígidos, só se podia namorar nos fins de semana”, conta Elza. Quando enfim se casaram, em 1943, ele tinha 27 anos, ela 20. Os primeiros dos 14 filhos nasceram brusquenses; os demais, botuveraenses, quando o município se emancipou, em 1962 – coincidentemente, no mesmo dia do aniversário de Elza, 9 de junho.

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Recordações. Há cerca de 40 anos, ainda em Botuverá

Nova vida em Joinville

Dois dos filhos já trabalhavam na Tupy quando os Pavesi vieram para Joinville, há 45 anos. Estabeleceram-se inicialmente na Estrada Timbé, mudando-se alguns anos depois para o Aventureiro. “Nós praticamente vimos o bairro crescer”, diz a filha Marisa, que mora pertinho dos pais – os demais filhos se espalharam entre Joinville, Gaspar e Paranaguá. Dos 14, dois morreram precocemente e outro há pouco tempo. O ramo joinvilense completa-se com 44 netos, 45 bisnetos e cinco trinetos.

Além de Marisa, vizinha de poucos metros, os Pavesi só dividem a casa com Lili, uma pequena, dócil e sempre atenta vira-lata. A rotina do casal começa logo cedo, quando o nono Guilherme acende o velho fogão a lenha, com a dupla finalidade de cozinhar e aquecer – no dia do aniversário da nona Elza, a chapa quente também serviu para sapecar alguns quilos de pinhão.

Felizes com o que têm e com os mais de 70 anos de convivência, os Pavesi só têm motivos para ser felizes, vendo a prole se multiplicar e só pedindo a Deus saúde para deixar a vida levar.


De árbitro a “engenheiro”

No apito. Godzicki relembra os tempos como árbitro no futebol amador
Rogério Souza Jr/ND
Ainda perto dos gramados. Vilmar agora trabalha no setor de manutenção geral na Associação Atlética Tupy

 

 

 

Entre os tantos nomes que deixaram marcas no esporte amador joinvilense, o de Vilmar Godzicki certamente é um dos mais fortes. Árbitro durante mais de duas décadas, hoje se dedica a outra de suas ocupações, a manutenção geral. Ainda assim, permanece perto dos campos e quadras, como responsável pelos serviços gerais na Associação Atlética Tupy. Lá, mesmo sem jamais ter pisado numa sala de faculdade, é conhecido como “engenheiro”, pela habilidade na execução dos mais diversos tipos de serviço, da cobertura de um ginásio ao desemperramento de uma porta teimosa. Mas a saudade dos tempos de arbitragem é forte: “Foi um tempo bom, de muitas amizades e emoções”.

Quando Godzicki – ou Gode, como muitos o chamam – nasceu, em 1956 (faz aniversário no próximo dia 17) Joinville ainda mantinha o ar de cidade interiorana. “Eu me criei nas imediações da rua Paraíba, e costumava jogar bola no campo do Bonsucesso, onde hoje fica a Rodoviária. Um dos companheiros de então era o Romeu Conhaque.” Primogênito de sete irmãos, Gode precisou conciliar a escola, a diversão e o trabalho: “Eu ajudava no orçamento da família vendendo picolé e laranjas”. Apenas esforçado em campo, ainda jogou como goleiro no tempo do exército. Trabalhou na Cipla, na Impressora Ipiranga, na Transtusa e no Correio, até se especializar em serviços de manutenção e seguir por conta própria. Autodidata, Godzicki não recusava tarefa, e tem no currículo diversos trabalhos em ginásios de esportes, como o da Tigre e o Ivan Rodrigues. Sua atuação na Tupy começou como terceirizado, até ser contratado para coordenar todos os serviços de manutenção na Associação. “Aqui no ginásio – lembra – havia um problema aparentemente insolúvel de goteiras, até que consegui vedar as fixações dos parafusos com um produto utilizado em oficina mecânica.”

 

“Eu me criei nas imediações da rua Paraíba, e costumava jogar bola no campo do Bonsucesso, onde hoje fica a Rodoviária. Um dos companheiros de então era o Romeu Conhaque”

 

Pelos campos, com o apito
Godzicki já se conformara em não ser jogador de futebol, quando, em 1984, topou um convite para apitar: “Quem me convidou foi o Ideraldo Luiz Marcos, o melhor árbitro de futsal de Santa Catarina. Antônio Nascimento era o presidente da Liga, e reforçou o desafio. Topei a parada e descobri uma nova vocação”. Puxando pela memória, Gode arrisca apontar o jogo de sua estreia no campo: União Mildau e Estrada da Ilha, pela Segundona. A partir daí, foram mais de 20 anos apitando e bandeirando, tanto no campo como no salão.

Em alguns locais, Godzicki era figura fácil, como no campeonato de futsal do Vera Cruz, onde foi árbitro durante 17 anos. Também passou quatro anos a serviço da Liga Jaraguaense. “Tive um entrevero com o Nino”, justifica, referindo-se ao então presidente da Liga Joinvilense de Futebol, João Alves. Outros quatro anos foram dedicados à Federação Catarinense de Futebol, como auxiliar ou quarto árbitro. Pelo Sesi, dirigiu partidas de futebol de campo, de salão e suíço em competições locais e estaduais.

Admirador dos ex-árbitros Dalmo Bozzano, José Carlos Bezerra e Dulcídio Wanderley Boschilla (falecido em 1998), Godzicki se orgulha de ter deixado boas lembranças de sua carreira: “Naquele tempo, os campos amadores não tinham alambrado, e qualquer coisa era motivo para a torcida partir pra briga. Mas nunca precisei enfrentar brigões, e dentro de campo procurava impor autoridade sem ser autoritário”.

 

Muitos “causos”
Das várias histórias que protagonizou, uma que ficou marcada na carreira de Godzicki se deu durante uma ocorrência de trânsito, em que o carro em que ia de carona foi abalroado. “Quem estava no outro carro?”, perguntou o PM que atendeu à ocorrência. “O juiz ali”, apontou o motorista causador da batida. O policial derramou-se em mesuras, imaginando tratar-se de uma autoridade judiciária: “Magistrado, o senhor tem alguma identificação aí?”. Godzicki conta o final do caso: “Quando viu a carteirinha de árbitro da Liga, só faltou o guarda me levar em cana.”


Gauchão, o mestre assador

Tradição. Gauchão é um expert no legítimo churrasco dos pampas
Rogério Souza Jr/ND
Bico que virou negócio. Manoel Rogério largou o emprego em um banco para ganhar a vida como churrasqueiro

 

 

“Minha melhor propaganda é o aroma da fumaça se espalhando pela vizinhança.” A constatação, facilmente comprovada por quem passa nas imediações de sua lanchonete nos fins de semana, é de Manoel Rogério Gonçalves Vignaux. O nome aristocrático, com direito até a brasão dos ancestrais franceses, pouco significa para os vizinhos do Paranaguamirim, bairro onde mora nosso personagem. Por lá, e em diversos outros rincões, tanto de Joinville como de cidades próximas, ele é o Gauchão. “Acho que só a família me conhece pelo nome de batismo”, reforça, admitindo que o apelido faz parte do seu marketing, focado na imagem de expert na arte de assar o legítimo churrasco gaúcho.

Criado no bairro porto-alegrense de Teresópolis, onde nasceu em 1963, Gauchão aprendeu as manhas do churrasco com amigos. O aperfeiçoamento veio quando trabalhou no departamento comercial do jornal ”Zero Hora”. “Em todas as festas de fim de ano, eu era o assador. O período no jornal foi bom, também, porque me permitiu viajar pelo Estado inteiro, tomando contato com diversas formas de assar churrasco”.

Aos 37 anos, Gauchão trocou o rio Guaíba e os jogos do Grêmio pelas praias de Florianópolis, onde foi ser guia de turismo. Pouco tempo depois, aportou em Joinville, transferido pelo banco em que trabalhava. “Já são dez anos de Joinville. Aqui nasceu minha filha Juliana e já estou criando raízes”, admite.

 

 “Já são dez anos de Joinville. Aqui nasceu minha filha Juliana e já estou criando raízes”

 

Bico vira profissão
Gauchão começou a transformar seus conhecimentos de churrasqueiro em dinheiro ainda quando morava em Florianópolis, fazendo bicos nos fins de semana. A atividade continuou em Joinville, até que, há quatro anos, largou de ser bancário e abriu a lanchonete Gauchão na rua Éfeso, no Paranaguamirim, perto de casa. De terça a domingo, ele abre para o almoço, servindo comida caseira nas poucas mesas e embalando em marmitex. Mas é nos fins de semana que o marketing se espalha pelo ar, na fumaça azul que leva o aroma da carne assada. O pequeno pedaço de chão ao lado da lanchonete guarda as marcas das tantas costelas de chão assadas em todo segundo domingo do mês. Mas o espaço acanhado está com os dias contados: em breve a lanchonete vai ser erguida na esquina em frente, em local mais amplo. Ali, além das diversas variedades de churrasco e da costela, a freguesia vai poder saborear o porco no chão, outra das especialidades do Gauchão.

“O que mais me dá rendimento – admite – é trabalhar como assador em eventos. Atendo num raio de 200 quilômetros de Joinville, não importa o tamanho do evento. Já cheguei a assar oitenta costelas no chão, numa Festa da Solidariedade.” Dependendo do tamanho da tarefa, o mestre-assador conta com o apoio de uma equipe de 12 pessoas – além da esposa Ivonete, que se encarrega da lanchonete.

A renda é complementada pelos cursos de assador, abertos a quem quiser conhecer um pouco mais da arte. A sede oficial dos cursos é a Sociedade Ginástica, mas Gauchão leva seus ensinamentos onde for necessário: “Já dei cursos em Jaraguá, Blumenau e outras cidades, e agora vou a Florianópolis”.

Tradicionalista convicto, lançou em 2007 o jornal “O Gauchão – A Voz da Tradição”, atualmente abrigado no site www.jornaldogauchao.blogspot.com. Ali, além de propagandear sua empreitada, Gauchão abre espaço para o movimento tradicionalista gaúcho, divulgando eventos e linkando iniciativas do gênero.

Para este mês, Gauchão antecipa duas atrações em sua lanchonete: tainha na taquara e uma noite da paleta de ovelha.

 


Nos gramados amadores

Futebol. Durante 20 anos Ari Buehner vestiu a camisa do time da Sociedade Palmeiras
Fabrício Porto/ND
Um campeão. Ari exibe as faixas e troféu que conquistou  no Torneio da Integração Rural e Segundona da Liga Joinvilense de Futebol

 

 

Na história do futebol amador de Joinville existem algumas figuras que, apesar de terem pendurado as chuteiras há muito tempo, continuam desfrutando de grande popularidade. É o caso de Ari Buehner, o Nanico, morador do bairro Vila Nova, onde durante 20 anos vestiu a camisa do time da Sociedade Palmeiras. “Comecei na lateral esquerda, depois fui ponteiro canhoto e encerrei a carreira jogando de meio campo”, conta o veterano desportista.

Em duas décadas correndo atrás da bola, Nanico conquistou muitos títulos. “Tenho na minha galeria cinco faixas de campeão do Torneio da Integração Rural e uma de campeão da Segundona da Liga Joinvilense de Futebol. Alguns atletas do meu tempo conquistaram mais que isso, mas a maioria não chegou nem perto da minha marca”, assinala com uma pontinha de orgulho.

O ex-atleta do Palmeiras lembra que nunca ganhou nada para jogar. “Para mim, futebol amador é paixão e primoroso ambiente para fazer amizades sólidas, isso é o que importa”, enfatiza. Ele acrescenta que movido pela paixão conseguiu voltar aos gramados após ter todos os ligamentos do joelho esquerdo rompidos por uma entrada violenta.  “O doutor Mário Techi me operou e o massagista Juvêncio Corrêa fez o restante do trabalho, mas se não fosse minha força de vontade não teria nunca mais voltado a chutar uma bola”, diz sem conter o riso.

Hoje aposentado, aos 68 anos de idade Nanico nem pensa em se desligar do futebol amador. Atualmente dirige o Vila Máquina Palmeiras, um time criado por ele para disputar o Copão Curt Meinert. “Sou apoiado por muita gente nesse trabalho, como o Jorge Luís Carneiro, o Cinco de Ouro dos velhos tempos do JEC”, recorda.

Nascido no bairro Polaquia, na cidade de Indaial, no Médio Vale do Itajaí, Nanico começou a se envolver com o futebol amador aos 12 anos de idade. “Meu irmão e eu fundamos a Sociedade Recreativa Polaquia, time de futebol que está em atividade até hoje”, detalha. Aos 18 anos de idade, já titular absoluto do Polaquia, Nanico tomou uma decisão difícil: deixou o time para se estabelecer em Joinville. “Precisava pensar no meu futuro e por isso deixei o time e os amigos para trás”, justifica.

Na chegada em Joinville ele se estabeleceu no bairro Glória, virou tecelão da Malharia Arp e posteriormente abriu um comercio de secos e molhados. Ao fechar as portas do negócio foi trabalhar na Tigre, onde ficou por dez anos. Em seguida trabalhou como viajante durante duas décadas, quando então se aposentou.

 

“Para mim, futebol amador é paixão e primoroso ambiente para fazer amizades sólidas, isso é o que importa”

 

“Defender o Palmeiras foi uma bênção”
A chegada de Nanico no bairro Vila Nova ocorreu em 1967, onde foi convidado por Dagoberto Campos para defender o Palmeiras. “Entrei no time e logo em seguida conheci a Lya, filha de seu Dagoberto, com a qual estou casado há 40 anos. Defender o Palmeiras foi uma bênção: além de fazer muitos amigos encontrei minha cara metade”, diz bem humorado.

Além do Palmeiras, Nanico defendeu por algum tempo um time chamado Esquina do Pecado, que era dirigido por Antenor Ritzmann, na época dono de um bar no bairro Glória. “Esquina do Pecado era na verdade uma confraria de jogadores de diversos times da cidade que se reuniam para disputar  jogos em festivais. De umas 50 partidas que fizemos, só perdemos duas ou três. Foi uma fase divertida da qual sinto muita saudade”, salienta.

E o apelido, como é que ele surgiu. “Ora, ora, com 1,62 de altura você queria que apelidassem de gigante ?”, responde Nanico de bate pronto, para em seguida desatar uma retumbante gargalhada. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Rafaela Antonioli apresenta músicas de Clara Nunes em Joinville

Os shows ocorrem no Galpão da Ajote, na sexta-feira e sábado

Divulgação
Técnica. Rafaela morou nos Estados Unidos quando era criança, onde estudou música

 

 

 

Em abril de 1983, uma das mais marcantes intérpretes da música brasileira nos deixava. Hoje, passados 30 anos, Clara Nunes ainda encanta o público e os sucessos da guerreira, como ficou conhecida, ganha novas roupagens na voz de outras intérpretes. Uma delas é a joinvilense Rafaela Antonioli, que subirá ao palco do Teatro da Ajote (Associação Joinvilense de Teatro) para apresentar o show “Clara Mestiça”, nos dias 7 e 8 deste mês, às 20h.

O título do show, segundo Rafaela, remete à personalidade mestiça de Clara Nunes, que não se restringia a estereótipos e cantava o Brasil branco, negro e mulato. “Ela mesma dizia que cantava tudo o que há de mais puro na música brasileira”, comenta a artista joinvilense.

Essa personalidade mestiça é um dos elementos pelo qual Rafaela se reconhece na música de Clara. “Me identifico no caminho em relação à musica brasileira e passeio por estes gêneros dentro dela”, explica. É dessa ligação que surgiu escolha pela cantora mineira. “Sinto ela presente em mim. Sempre fui admiradora de seu trabalho, mas depois de estudar mais a fundo sua vida, percebi ainda mais ligações entre nós”, declara. Além disso, também na escolha os 30 anos da morte da Clara e os 70 anos do nascimento.

Para fazer a seleção do repertório, Rafaela ouviu todos os 16 discos lançados por Clara Nunes. Como o show precisava ter entre uma e uma hora e meia, ela escolheu 15. “Fui sentindo as músicas e escolhi as que mais tinham essa mestiçagem dela”, afirma Rafaela. Apesar de a “estrela ser Clara”, Rafaela promete um show com um toque próprio. “Eu carrego uma influência dela, mas vou dar a minha cara”, garante.

Durante a apresentação, Rafaela será acompanhada pelos músicos Guto (violão 7 cordas), Jean Boca (percussão), Karlinha Reis (percussão) e Fio José (cavaco). Ainda terá a participação especial de Vinícius Ferreira (acordeon), Jonas Nascimento (percussão), e Cadu Puccini (viola). “Todos os músicos são meus amigos, já tocamos juntos”, conta.

 

Cantando desde cedo

Rafaela começou a cantar ainda criança, começou a fazer aulas de música aos 5 anos. Aos 9, foi morar em Chicago, nos Estados Unidos, onde estudou canto, teatro, flauta transversa, teoria musical, e cantou em competições. Retornou ao Brasil com 14 anos, quando começou a cantar em casamentos, corais e na igreja.

Em 2010, quando tocava chorinho e flauta, se interessou por samba, conheci um dos integrantes do grupo Moendo Café e se tornou vocalista. “Tivemos vários projetos aprovados no Simdec. Foi então que dei continuidade ao trabalho com violão e voz apenas”, relembra. Um dos projetos foi “Samba na estação”. Outro foi a “Orquestra de Espetáculos”, apresentando “Trenzinho Caipira”, de Villa Lobos.

A cantora joinvilense conheceu Clara Nunes quando começou a pesquisar sobre a vida e carreira da artista. “Me identifiquei com as músicas e comecei a incluir no repertório das apresentações que fazia nas festas”, lembra.

 

 

O quê: show “Clara Mestiça”, de Rafaela Antonioli em tributo a Clara Nunes

Quando: sexta e sábado, às 20h

Onde: Galpão da Ajote

Quanto:  R$ 20 (inteira)


O “Tanque” das quadras

Versátil. Antes de manusear os espetos, Indaial foi craque nos esportes
Rogério Souza Jr/ND
Depois das quadras.  Há 19 anos, Indaial administra sua própria churrascaria e exibe distinções dos tempos de atleta

 

 

Por ser natural da cidade do Médio Vale do Itajaí, Ângelo Cunha ficou conhecido em Joinville como “Indaial”. Mas no tempo de multiesportista, correndo, nadando, jogando futebol de salão, vôlei, bolão ou basquete, o físico avantajado lhe deu o apelido de “Tanque”. Hoje, aos 74 anos, restam as boas lembranças dos tempos de atleta do Fluminense do Rio e, principalmente, de pivô do Palmeiras de Joinville, deixando sua marca ao lado de tantos outros que suaram a camisa verde, como Mima, Buba, Ivo, Aldinho, Aroldo e Beno – todos já foram personagens do Perfil.

“Tive a melhor infância do mundo!”, garante Indaial, evocando recordações do tempo de sítio, junto com os cinco irmãos. “O tempo era dividido entre a escola, as atividades no sítio da família e o esporte.” Aos 14 anos, porém, já pensando no futuro, o jovem Ângelo aceitou o convite para estudar numa escola têxtil em São Paulo. Nos quatro anos vividos na capital paulista, além de aprender as técnicas que viria a aplicar mais tarde, não descuidou da atividade física, praticando todos os esportes que fosse possível. “Entrei numa academia de caratê e ali conheci o valor da disciplina, que seria importante em todas as modalidades que pratiquei.” O aprendizado da escola têxtil foi aplicado nos três anos que Ângelo passou no Rio de Janeiro, onde trabalhou na famosa fábrica de tecidos Bangu. Servindo o exército, foi campeão brasileiro em corridas de fundo em 1959. Também defendeu as cores do Fluminense, como atleta e nas quadras de vôlei – “Sou tricolor até hoje!”, frisa.

De volta a Indaial, foi sócio da Malharia Tapajós. No esporte, outro motivo de orgulho: “Implantei o futebol de salão na minha cidade”. Dois anos depois, a parada seria na Manchester Catarinense, para trabalhar na Indústria Têxtil Joinville e, mais tarde, na Martric. Bons tempos: “Era impressionante a pujança do segmento têxtil em Joinville, assim como em muitas outras cidades da região. Acho que o declínio deste ramo se deveu à falta de atualização”. Mas Indaial mudou de ramo em 1969, muito antes da onda de fechamento das malharias, quando o sogro o levou para administrar a Churrascaria Familiar. Ficou até 1990, quando abriu sua própria churrascaria, chamada Indaial, já completando 19 anos no lado esquerdo da rua Tijucas, a poucos metros da esquina com a Orestes Guimarães.

 

 

Arquivo/ND
Para recordar. Os jogadores da Sociedade Recreativa União Palmeiras (em pé, à esq,), Gamanga, Stomier, Acir, Buba, Ivo e Indaial; agachados (à esq.), Batata, Mima, Adilson, Beno, Jaime, Marcos e Pedro Ivo (massagista)

 

 

Futebol de salão, vôlei e basquete
Em Joinville, Indaial jogou vôlei pelo Cruzeiro e futebol de salão pelo Guarani, além de continuar correndo, agora defendendo as cores de Joinville. “Disputei diversas edições dos Jasc, desde a primeira, em 1960, quando joguei vôlei pela seleção de Joinville. Em 1964, em Porto União, escapamos de uma boa. Deu uma tempestade e o vento derrubou o ginásio improvisado onde horas antes jogamos vôlei. Naquele tempo, o Palácio dos Esportes de Joinville era o único ginásio coberto do Estado. Jogamos muitos Jasc em galpões e em quadras de cimento ao ar livre.”

Foi Beno Rassweiler (Perfil em abril de 2011) quem levou Indaial, ou “Tanque”, para jogar basquete no Palmeiras. “Foram tempos de muitas alegrias, conquistas e amizades. Jogávamos pelo amor ao esporte, muitas vezes tendo que faltar ao trabalho para disputar jogos pelo campeonato estadual ou nos Jasc. Mas o balanço da carreira foi positivo”, conclui Indaial, ainda hoje um apaixonado pelo basquete, esporte que acompanha de perto. Ele já foi frequentador dos ginásios, quando seu filho, Moco, defendia o time de Joinville. Agora, prefere o conforto da televisão.

 

Perfil sugerido por Nelson Eisenhut, o Mima, contemporâneo de Indaial no Palmeiras.


Mais força de vontade, menos peso na balança

Vida saudável. Joinvilense perdeu 50 quilos sem remédios ou cirurgia e causou repercussão nacional
Rogério Souza Jr/ND
Rotina puxada. Maristela freqüenta a academia todos dos dias, em dois horários diferentes

 

 

Há um ano, Maristela Ferreira Dias tinha dificuldades para executar movimentos na aula de boxe. Mesmo assim praticava atividade física, tinha um namorado, um emprego e uma motocicleta. A rotina até parece de uma garota normal, mas estava muito longe de ser. Aos 23 anos e pesando 156 quilos, Maristela não conseguia pegar um ônibus porque não passava pela catraca; quando tomava banho, não podia fazer a higiene íntima pois a circunferência abdominal não permitia. Algo atrapalhava e deixava infeliz a menina que tinha somente mais dez anos de vida pela frente.

É que durante uma consulta ouviu dos médicos que só teria mais uma década de vida caso continuasse com os maus hábitos. A solução foi abandonar a velha rotina e renascer. Tirou forças da vontade de ter um corpo saudável e ser atraente e iniciou a transformação. Apesar de ter indicação para cirurgia bariátrica, Maristela optou por um método mais dolorido que o corte de um bisturi: a reeducação alimentar e o exercício físico. Mas antes, livrou-se do passado: deixou o namorado para ganhar mais tempo para si e abandonou os antigos conceitos sobre a vida. Sem auxílio de remédios, perdeu mais de 50 quilos em sete meses. Renovou o guarda-roupas e também as companhias. “Hoje meu círculo de amigos é formado por pessoas saudáveis, que cuidam do corpo e gostam de esporte.”

Por muitas vezes ela já tinha tentado fazer dieta alimentar. Na infância chegou a pesar quase 100 quilos e usava as roupas dos pais. Mas foi agora, na vida adulta, que conseguiu ter plena consciência do que estava fazendo com o próprio corpo. Para ajudar na difícil tarefa de perder peso, criou a Fan page no Facebook “Emagrecendo com Maristela”. O caso teve destaque nacional na programação da Rede Record e hoje mais de 17 mil pessoas de todos os cantos do planeta seguem e acompanham a dieta da joinvilense na internet. “Algumas pessoas veem as fotos do antes e depois, e duvidam que sou eu”, desabafa.

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Para crer. No ano passado, Maristela pesava 156 quilos

 

Diário virtual
Na página virtual, Maristela publica fotos e a nova rotina de vida. Ela levanta às 6h da manhã para ir à academia. Durante o dia, trabalha como secretária. À noite, retorna para a academia onde pratica o crossfit, um treino militar que virou moda para queimar calorias. Quando volta para casa, o cansaço bate, mas ainda é cedo para ir pra cama. Ela separa toda a alimentação do dia seguinte em pequenos potes e este é o momento que a jovem define como o segredo do emagrecimento. Maristela também pesa os carboidratos, proteínas, frutas e verduras, divide as porções em seis refeições ao longo do dia. “Fracionar a alimentação ajuda a manter o metabolismo acelerado, mas cada pessoa deve dividir de acordo com a orientação médica individual”, alerta.

Nem que queira Maristela pode desistir da dieta. O espaço virtual e a grande visibilidade atrairam uma série de patrocinadores e hoje muitos olhos estão atentos aos passos da garota. Mas ela confessa que a vontade de dar uma “escapadinha” é normal. Esta é, inclusive, a recomendação da médica dela, Luciana do Carmo. “Todos os domingos Maristela faz uma refeição à vontade, e foge da dieta”, afirma. Segundo ela, esta dica é importante para evitar o efeito platô, quando o organismo se adapta à baixa ingestão de calorias e para de emagrecer. Mas o objetivo da joinvilense ainda não foi atingido. Ela quer terminar o ano pesando 70 quilos e, até lá, não pensa em chocolates, nem em namorados. “Estou focada em emagrecer.” (Marcela Varasquim, especial para o Notícias do Dia)


Zica, lambretas e, agora, motos

Parafusos e graxa. No mesmo ano em que aprendeu o alfabeto, Geraldo Fock iniciou no ofício de mecânica
Fabrício Porto/ND
Em família. Geraldo e a mulher, Leonora, hoje cuidam da loja de peças para motocicletas em Pirabeiraba

 

 

Para Geraldo Fock, morador do centro de Pirabeiraba, o ano de 1954 é mais do que um marco trágico na história política do Brasil. “O presidente Getúlio Vargas cometeu suicídio, consternando milhões de pessoas de todo o Brasil. No meu caso, o que guardo mais nítido na memória são dois fatos pessoais. Naquele ano acabei de dominar o alfabeto e comecei a aprender o ofício de mecânico de bicicletas numa oficina que meu pai, Rodrigo, tinha na rua Olavo Bilac”, assinala.

Bem humorado ele acrescenta que praticamente se criou debaixo da bancada onde seu pai consertava bicicletas de toda a região de Pirabeiraba. “Com oito anos de idade comecei a fazer pequenos serviços, como lavar peças e varrer o chão da oficina. Foi desse jeito que iniciei uma história que já dura 60 anos”, esclarece o veterano mecânico. Em 1961, com 15 anos de idade e já bem enfronhado nos macetes de consertar bicicletas, Geraldo comprou sua primeira Lambretta e aí sua trajetória profissional mudaria de rumo para sempre.

De mecânico de bicicletas ele virou especialista no conserto de motocicletas. “Era a fase das lambretas e das vespas, equipadas com motor de dois tempos. Por conta própria aprendi todos os segredos de como desmontar e montar tais motores, tornando-me uma referência entre os motociclistas de Pirabeiraba na década de 1960”, comenta entre risadas. Com o declínio das lambretas e as vespas, que passaram a ser trocadas por motocicletas Honda e Suzuki, em 1977 Geraldo mudou-se para a rua 11 de Novembro, onde instalou sua oficina de consertos e abriu uma loja de reposição de peças.

Geraldo abre os braços e um sorriso largo ao falar a respeito da mudança para o novo endereço. “Ao contrário das velhas lembretas e vespas, as motocicletas modernas são equipadas com motor quatro tempos e por isso fui obrigado a me readaptar para me dar bem como mecânico. Cansei de esquentar a cabeça para dar conta do recado, mas no fim deu tudo certo e por isso continuei a merecer a confiança e a preferência de fregueses que aposentaram as lembretas e vespas para andar com motocicletas japonesas”.

Atualmente Geraldo se limita a fazer algumas reposições de peças, preferindo cuidar da loja em parceria com a mulher, Leonora. “Está na hora de aliviar o pé, deixar os consertos para mecânicos mais novos”, enfatiza com seu jeito espirituoso de ir levando a vida.

 

 “Com oito anos de idade comecei a fazer pequenos serviços, como lavar peças e varrer o chão da oficina. Foi desse jeito que iniciei uma história que já dura 60 anos”

 

Dono de relíquias
Pai de duas filhas e avô também duas vezes, o veterano mecânico de Pirabeiraba  atualmente anda pouco de motocicleta, mas tem seus caprichos. No lado de fora do balcão da loja ele deixa expostas duas motos CB-400 fabricadas em 1981 e 1984 e uma XLX ano 1985. “As três, apesar de antigas, são pouco rodadas e por isso estão praticamente novas. Vão ficar aí enquanto eu durar, pois não vendo, não empresto e nem alugo”, avisa em tom de brincadeira.  (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Raios me partam

Nascido duas vezes. Dono de recanto gastronômico virou personalidade na Vila Dona Francisca ao sobreviver a uma descarga de fenômeno natural
Rogério Souza Jr/ND
Um lugar só seu. Rusticidade do ambiente é uma das marcas do Recanto Gilson, aberto nas margens da SC-418 (antiga 301), em frente da capela São José

 

 

Dono de uma boa veia humorística, Gilson dos Santos diverte os fregueses do seu recanto gastronômico ao afirmar que tem o direito de comemorar dois aniversários natalícios. “O primeiro ocorre no dia 27 de junho, data em que minha mãe me deu à luz; o outro é no dia 26 de outubro, quando sobrevivi à descarga de um raio”, justifica dando sonoras risadas.

Nascido em Rio do Sul, Gilson morou dos 2 aos 20 anos no pequeno município de Mirim Doce, onde trabalhou na agricultura e posteriormente aprendeu o ofício de padeiro. Estabelecido há 23 anos em Joinville, aqui ele se dedicou à panificação ao longo de duas décadas. “Trabalhei na maioria do tempo na Padaria Lemke, no centro de Pirabeiraba. Além do ambiente de trabalho ter sido muito bom, descobri os encantos de Pirabeiraba e por isso nem penso em arredar os pés deste chão abençoado”, enfatiza bem humorado.

Embora gostasse da profissão de padeiro, Gilson acalentava um velho sonho de um dia abrir um recanto gastronômico à moda antiga para receber amigos. Incentivado pela família, há um ano e meio deixou de amassar pão e abriu o Recanto Gilson, na SC-418 (antiga 301). Instalado na frente da capela São José, perto da Vila Dona Francisca, o negócio do ex-padeiro se diferencia pela rusticidade do ambiente. Erguido com madeira bruta, no local a freguesia é atendida em espaço de chão batido, onde às sextas-feiras à noite são servidas iguarias como feijoada, dobradinha, mocotó e piavas fritas em disco de arado.

Gilson informa que o grosso da freguesia é dos arredores e de pontos mais distantes, como o bairro Boa Vista, onde ele tem muitos conhecidos. “Aqui chegam pessoas que preferem comida boa em ambiente simples, bem ao estilo de antigamente”, comenta sorridente.  De bem com os negócios ele acrescenta que não tem do que se queixar. “Minha freguesia é bem variada, desde agricultores e operários, até profissionais liberais e empresários”.

Sem conter uma risadinha espirituosa, Gilson aproveita para apregoar o possível potencial afrodisíaco do mocotó servido em seu recanto. “Dias desses descobri que alguns fregueses são incentivados pelas patroas para não perder o meu mocotó”, assinala entortando-se de tanto rir.

 

 “Consigo lembrar que o raio me puxou para cima; em seguida cai e fique descordado. Lembro também que estava com os cabelos chamuscados e com queimaduras em todo o lado direito do corpo.”

 

Um sobrevivente

No dia 26 de outubro do ano passado garoava forte em Pirabeiraba. Ao perceber o surgimento de uma goteira numa calha de alumínio, Gilson resolveu dar umas cutucadas com as pontas dos dedos para estancar o vazamento. Nisso a cabana foi atingida pela descarga de um raio. “Consigo lembrar que o raio me puxou para cima; em seguida cai e fique descordado. Recobrei os sentidos quando estavam me colocando na ambulância. Lembro também que estava com os cabelos chamuscados e com queimaduras em todo o lado direito do corpo”, descreve.

Levado ao hospital São José, Gilson saiu de lá inteiro. “Nos primeiros meses perdi um pouco a sensibilidade na mão direita e por isso deixava escapar as coisas. Agora estou quase cem por cento em forma”, comemora.

Ao falar do episódio, Gilson assinala que tem motivos de sobra para comemorar. “Três médicos que me atenderam no São José disseram que de cada mil pessoas atingidas pela descarga de um raio, só um sobrevive. Sou um desses privilegiados, diz enquanto bate com os nós dos dedos numa das mesas do seu aconchegante recanto gastronômico.  (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Viver para servir

Solidariedade. Cozinhas comunitárias alimentam 1.500 crianças por dia
Fabrício Porto/ND
Frutos colhidos. Além do carinho do povo, Fachini recebeu o títulos de cidadão honorário de Joinville e foi eleito uma das personalidades do século no ano 2000

 

 

O título desta matéria, “Viver para servir”, é o lema sacerdotal do padre Luiz Facchini. “Não é trecho de nenhuma passagem bíblica específica, mas o rumo que escolhi, baseado no exemplo de São Francisco de Assis”, explica o padre, um adepto devotado da Teologia da Libertação e do trabalho eclesial de base, o que lhe rendeu não poucas polêmicas e até desafetos nos meios religioso e político, mas também a admiração junto à comunidade. Criador do primeiro centro de defesa dos direitos humanos no Estado, Facchini alcançou notoriedade também com a criação das cozinhas comunitárias, oferecendo alimentação diariamente a milhares de crianças de famílias carentes de Joinville e cidades próximas. Além do carinho do povo, o reconhecimento público lhe rendeu os títulos de cidadão honorário de Joinville e uma das “personalidades do século”, escolhido pelos sindicatos dos jornalistas e dos radialistas no ano 2000.

Nascido em 1942 em Mirim-Doce, na época um distrito de Taió, no Alto Vale do Itajaí, Luiz é um dos três padres dos 13 filhos dos agricultores Maximiliano e Verônica Facchini. “Como todos os filhos de agricultores, também ajudei na roça. O trabalho duro não me fez mal; pelo contrário, ajudou a reconhecer o valor do esforço de tirar o sustento da terra.”

Ainda criança, sentiu a vocação para o sacerdócio e passou três anos num seminário em Irati, no Paraná. Em Salete e Brusque concluiu o ginásio e o ensino médio, até ingressar na faculdade de filosofia em Curitiba, onde dividia os estudos com o trabalho. Também trabalhou, como ajudante de pedreiro, quando cursava teologia em Fribourg, na Suíça. Naquele país foi ordenado e oficiou sua primeira missa, em 1969. No ano seguinte voltava ao Brasil, designado para a paróquia de São Francisco do Sul.

“Em 1971 o bispo dom Gregório me convocou para trabalhar na catedral, junto com o padre Bertino. Um ano depois assumi a coordenação diocesana de pastorais, cargo que exerci até 1975.” Coordenando as pastorais, Facchini se aproximou ainda mais dos caminhos da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiais de Base. “A paróquia é uma soma de pequenas comunidades”, justifica, citando a Casa de Acolhimento e Círculo da Bíblia que mantinha no bairro Floresta, embrião da paróquia Cristo Ressuscitado, fundada por ele em 1975. Ali ficou até 1999, quando criou mais uma paróquia, Nossa Senhora de Belém, no Escolinha.

 

As cozinhas comunitárias
Hoje, o padre Luiz Facchini dedica a maior parte do tempo à fundação que leva seu nome, onde coordena a criação e manutenção de cozinhas comunitárias e o projeto Cidadão do Futuro, com oficinas profissionalizantes e escolinhas de esportes para crianças de famílias carentes, no contraturno escolar. “A fundação nasceu em 1994, ano do meu jubileu sacerdotal, por inspiração do casal suíço Paulo e Marta Fischerzingg, médico e enfermeira com quem convivi, pessoas dedicadas aos ideais de solidariedade e amor à vida.” Em homenagem a eles, a fundação se chamou Pauli-Madi (apelidos de Paulo e Marta); em 2009, para evitar confusão com Madre Paulina, o nome foi alterado para Fundação Padre Luiz Facchini.

Hoje a fundação mantém 11 cozinhas e atende mais nove aldeias indígenas, fornecendo 1.500 refeições por dia. Vivendo de subvenções e, principalmente, de doações, a luta diária é por recursos. “Toda ajuda é importante, seja na forma de dinheiro, utensílios de cozinha ou do trabalho voluntário. Temos como objetivos principais despertar a solidariedade e não permitir que crianças passem fome.”

 

Como ajudar
Para auxiliar a Fundação Padre Luiz Facchini, com doações ou trabalho voluntário, basta ir até a sede, na rua da Solidariedade, 100, bairro Itinga. Telefone: (47) 3465-0165.
E-mail: contato@criancasemfome.org.br.


Alma de vendedor

Comércio. Jaime Lorenzi foi o mais famoso funcionário da extinta Loja May
Rogério Souza Jr/ND
Painel. Apaixonado pelo botafogo, Jaime coleciona chaveiros e outros materiais que contam a história do time carioca

 

 

Morador do bairro Floresta, onde carrega a fama de ter sido o mais popular vendedor externo da extinta Loja May, que vendia desde relógio até eletrodomésticos, Jaime Lorenzi é um pacato cidadão aposentado que destina parte do tempo ao cultivo de uma horta caseira na qual se destacam cebolinhas de cabeça e pimentas originárias da China. Outro passatempo do ex-viajante é aumentar o acervo de suas coleções de chaveiros, moedas e material sobre a história do Botafogo, time do seu coração desde o tempo em que Mané Garrincha, Didi e Nilton Santos figuravam entre os maiores ídolos da seleção brasileira.

Bem humorado, Jaime admite que na escala monetária suas coleções são apenas quinquilharias quase sem nenhum valor. Já na escala sentimental, para ele, a conversa é outra. “Elas representam um tesouro inegociável”, avisa sem conter uma boa risada.

Nascido há 72 anos na cidade de Rodeio, no Médio Vale do Itajaí, Jaime deu com os costados em Joinville em 1952 após passagens por Massaranduba e Garuva, estabelecendo-se junto com a família na região do bairro Vila Nova.  “Dos 12 aos 18 anos trabalhei em lavouras de arroz na Estrada do Sul (hoje Rodovia do Arroz), das quais saí ao arrumar emprego na Tupy. Em seguida trabalhei sete anos na Metalúrgica Schulz. Descobri minha veia de vendedor em 1968 ao ser contatado pela Loja May, de onde sai em 1985 quando a empresa fechou as portas”, relata sucintamente.

Loja May fechada, Jaime foi então para a Joalheria e Ótica Pérola contratado para o cargo de relações públicas. Saiu de lá em 1992 ao se aposentar na função de gerente. “A exemplo da Loja May, a Pérola está no meu coração. Em ambas as empresas o ambiente de trabalho era bom e por isso sinto saudade daquele tempo”, enfatiza.

   Do alto de seus 72 anos, Jaime bate no peito dizendo-se agradecido a Deus por ser dono de boa saúde. E motivos é que não lhe faltam para agradecer. Em 1986 ao sofrer um acidente na BR-101 ficou mais de uma semana em coma e por pouco não perdeu o braço direito. “Apesar da gravidade do acidente me recuperei bem e hoje posso me gabar de ter uma saúde de ferro”, assinala batendo com os nós dos dedos na mesa.

Casado com dona Eronides, pai de três filhas e avô outras tantas vezes, além de colecionador e horticultor, Jaime gosta de se reunir com os amigos para jogar dominó, tranca e caneco. “Nada melhor que isso para um velho guerreiro que já não tem pernas para correr atrás de uma bola como antigamente”, comenta muito do espirituoso. 

 

“Descobri minha veia de vendedor em 1968 ao ser contatado pela Loja May, de onde sai em 1985 quando a empresa fechou as portas”

 

As torres gêmeas
Além do susto ocorrido no dia que Jaime se acidentou na BR-101, a família Lorenzi enfrentou outro episódio de grande tensão. Foi por ocasião da derrubada das torres gêmeas, no World Trade Center, em Nova Iorque, no dia 11 de setembro de 2001. Uma das filhas de Jaime e Eronides morava em Boston e se deslocava constantemente de avião para Nova Iorque.

Por saber das constantes viagens da filha ao epicentro do atentado terrorista, Jaime e Eronides tentaram contato com a filha pelo telefone e pela internet e não conseguiram nada no dia da tragédia. A angústia aumentou no dia seguinte e se arrastou por quase três semanas. “Para resumir, só depois de 18 dias nossa filha conseguiu fazer contato conosco. Foi um teste coronário e psicológico de arrebentar a alma”, compara o disposto setentão do bairro Floresta. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Uma guia para os pequenos

Infância. Diretora do CEI do Morro do Meio completa 28 anos de atuação específica na educação infantil
Fabrício Porto/ND
No parque e jardim. Sidnei Ross Comper sente orgulho da escola bem cuidada, fruto da sua dedicação e carinho que tem pelos alunos

 

 

Esta segunda, 20 de maio, é uma data especial par a professora Sidnei Ross Comper.  Ela comemora 28 anos de envolvimento com a educação de crianças de até 5 anos de idade. Diretora desde 2001 do CEI (Centro de Educação Infantil) do bairro Morro do Meio, seus olhos brilham intensamente quando ela fala sobre sua trajetória de educadora infantil.  “É uma atividade apaixonante, não trocaria os meus pequenos por alunos de outras faixas etárias por nada deste mundo. Para mim, ensino infantil é tudo. É nessa fase que se pavimenta a base dos adultos do amanhã”, assinala. Sid, como é chamada pelas colegas de trabalho, acrescenta que trabalhar com crianças é fabuloso por elas serem puras, de uma transparência angelical. “Conviver com elas me revigora e me ajuda a praticar diariamente a benquerença e o altruísmo”, sintetiza.

Nascida em Barra Velha, professora Sid pode se considerar joinvilense da gema por ter sido trazida para a Cidade pelos pais quando tinha apenas três meses de vida. Sua história no universo da educação infantil começou em 1985, um ano de se formar na área do magistério. Ela começou como auxiliar de educadora num dos antigos Ceris (Centros de Educação e Recreação Infantil), administrados pela Secretaria do Bem-estar Social.

Em menos de dois anos foi efetivada professora, atividade na qual foi mantida no momento que os Ceris foram transformados em CEIs (Centros  de Educação Infantil) e passaram a ser tocados pela Secretaria de Educação.

Depois de se formar em 1995 na faculdade de pedagogia,  professora Sid acabou diretora da rede de ensino infantil de Joinville, com passagens por alguns CEIs até ser nomeada para tomar conta da unidade do bairro Morro do Meio. Instalado na rua do Campo, lateral da rua Pitaguaras, o CEI dirigido por Sid conta com uma estrutura de se tirar o chapéu. Com pintura impecável em todas as dependências do prédio, as 104 crianças que freqüentam o local são recebidas em quatro salas climatizadas.

A diretora conta como consegue manter o ambiente sempre bem cuidado.  “A climatização das salas foi conseguida por meio de um projeto enviado ao Instituto Cau Hansen, que nos atendeu de pronto. Já a manutenção do prédio é possível com recursos bem administrados que o CEI recebe da Prefeitura”, resume bem humorada.

Casada com Mauri Carvalho, mãe de uma moça de 32 e um rapaz de 27 anos, professores como ela, Sid não consegue segurar a risada quando fala da filha caçula, de 15. “Ela vive dizendo para não me preocupar, pois não será mais uma professora na família. Vamos esperar para ver se a fruta realmente vai cair longe do pé”, comenta espirituosa.

 

 “Para mim, ensino infantil é tudo. É nessa fase que se pavimenta a base dos adultos do amanhã.”

 

Ginásio de esportes
Moradora do conjunto habitacional Irineu Bornhausen, no bairro Vila Nova, do qual é presidente da Associação de Moradores, professora Sid aguarda com ansiedade a inauguração de um ginásio de esportes que o Sesc (Serviço Social do Comércio), que está erguendo no local - a inauguração está prevista para esta quarta (22). Ela conta que o projeto foi viabilizado com o apoio dos moradores do conjunto habitacional e pelo então vereador Jucélio Girardi. “O ginásio ocupa um terreno que devolvemos à Prefeitura, que por sua vez o repassou ao Sesc para construir o complexo.  Fico feliz por ter levado o projeto a bom cabo; um ginásio de esportes ao lado do Irineu Bornhausen valoriza o conjunto habitacional e todo o bairro Vila Nova, enfatiza a veterana educadora da área infantil.  (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


A pioneira do carrinho de cachorro-quente

Lembranças. Cida começou nas calçadas, até se tornar administradora
Rogério Souza Jr/ND
Sucesso. Há 12 anos Maria Aparecia comanda a recreativa do sindicato dos comerciários

 

 

Os joinvilenses mais antigos se lembram: antes de 1987, para comer cachorro-quente na cidade, as opções eram as lanchonetes ou comprar os ingredientes e fazer em casa. Foi naquele ano que apareceu a primeira barraquinha de hot dog, na esquina das ruas 15 e do Príncipe. A pioneira, Maria Aparecia Gomes Tofano, a Cida, criou moda, os carrinhos proliferaram e hoje são encontrados pela cidade toda. Muitos deles acabaram virando lanchonetes e até restaurantes. Cida seguiu outro caminho, tornou-se administradora e hoje é a responsável pela recreativa do Sindicato dos Comerciários. “Aquele foi um tempo difícil. A Prefeitura não dava alvará e a gente precisava trabalhar com um olho na freguesia, outro na fiscalização.”

O DNA do serviço de alimentação já estava no sangue de Maria Aparecida quando ela nasceu, há 55 anos, na pequena Santa Isabel do Ivaí, no Noroeste paranaense. “Meu pai era dono de um hotel e restaurante, e o ambiente era corriqueiro para os 12 filhos” conta ela, quinta da escadinha. Um de seus irmãos, Cícero, foi goleiro do Londrina, do Pinheiros e do Atlético Paranaense, e luta contra um tumor no cérebro. Para ajudar a custear o tratamento, o Londrina promove um amistoso do seu time máster, neste sábado, contra um selecionado paranaense (que terá no gol o joinvilense Jairo).

Cida tinha 10 anos quando a família mudou-se para Londrina, e ainda adolescente começou a trabalhar, como empregada e babá. Casou-se aos 23 e peregrinou alguns anos por cidades nordestinas, por força do trabalho do marido. “Quando morávamos em Londrina eu costumava vir a Joinville comprar roupas na Centauro, para revender lá.”

 

 

 

Arquivo pessoal/ND
Relíquia. O carrinho de pipoca e algodão-doce

 

 

“Aquele foi um tempo difícil. A Prefeitura não dava alvará e a gente precisava trabalhar com um olho na freguesia, outro na fiscalização.”

 

Panelada no fiscal
Em 1987, com a transferência do marido para Santa Catarina, a família, já com três filhos – duas londrinenses e um paraibano –, estabeleceu-se em Joinville. Cida, em busca de alguma forma de ajudar no orçamento doméstico, percebeu que não havia uma barraquinha sequer de cachorro-quente na cidade. Investiu num carrinho e nos equipamentos e foi à luta, instalando-se todos os dias, das 6 da tarde à meia-noite, na esquina da Príncipe com a 15 de Novembro, num recuo da calçada em frente ao Koerich e perto da saudosa Confeitaria Dietrich.

Sua luta diária era driblar a fiscalização: “A Prefeitura, na época comandada pelo Lula, não liberava alvarás para ambulantes. O jeito era trabalhar à noite. Mesmo assim, muitas vezes era preciso escapar. Uma vez precisei jogar a panela de salsichas num fiscal, enquanto minha filha dava no pinote com o carrinho”. Quando o equipamento foi apreendido, Cida já tinha mais um, utilizado principalmente em festas de aniversário. Três anos depois do início, transferiu-se para um ponto melhor, em frente ao Ginástico – local do episódio da panelada. Cansada de ser clandestina, Cida aceitou uma proposta do Strip Center Americanas, o primeiro shopping da cidade, e lá instalou um carrinho de pipoca e algodão-doce. “Só fiquei quatro meses, até ser convidada a assumir a lanchonete do Sesc, no tempo da rua Aubé. Aí começou uma fase boa, de estabilidade. Passei depois para a nova unidade da rua Itaiópolis e só saí em 2001, quando o Mazinho me convenceu a assumir a recreativa do sindicato.”

Desde então, Cida incrementou o restaurante, instalou cinco churrasqueiras e centraliza a administração da sede, auxiliada pela filha Cláudia. Além dos comerciários – que têm desconto – a recreativa está aberta à comunidade, para eventos.

Cida se emociona ao relembrar os tempos duros da barraquinha, quando tinha no apoio o filho mais novo, Carlos Henrique. “Eu não tinha onde deixá-lo, precisava levar junto. Mais tarde, ele me ajudou no Sesc. Hoje, é gerente da Caixa em Gaspar”, conta, com lágrimas de orgulho.

Perfil sugerido pelo leitor Nelson Eisenhut, o Mima.


Quando o Cachoeira tinha congestionamento

História. Ingo Hertenstein lembra os bons tempos do remo joinvilense
Fabrício Porto/ND
Recordação. Ingo guarda o brasão vermelho e branco do Clube Náutico Cachoeira

 

 

“Praticar remo, nos anos 60, era um prazer muito grande, proporcionava muitas amizades e era bom pra saúde. Mas também exigia muito sacrifício, como conciliar os treinos com o emprego e enfrentar os percalços das raias no rio Cachoeira. Um deles era desviar do intenso tráfego das chatas que traziam trigo para o Moinho Santista.” O relato, carregado de saudade, é do empresário Ingo Hertenstein, 72 anos, um dos remanescentes da era de ouro do remo joinvilense. Valoroso defensor do brasão vermelho e branco do Clube Náutico Cachoeira, guarda vivas na memória tantas regatas disputadas ao longo do rio, contra o grande rival Atlântico, assim como das competições estaduais e nacionais.

A ligação de Ingo com o remo começou logo que chegou a Joinville, com 16 anos, trocando a lavoura da família em Corupá por um emprego na Tigre.Tal como outros remadores, ele admite: “Eu era ruim de bola, então nem adiantava querer jogar futebol. Um colega me convidou para praticar remo no Clube Náutico Cachoeira, fui, gostei e fiquei quase vinte anos nas regatas”. Totalmente amador, o esporte exigia dedicação dos aficionados, que só podiam treinar e competir fora do horário de expediente ou nos fins de semana. Ingo, além da Tigre, onde aprendeu o ofício de ferramenteiro, passou pela Consul e pela Cipla, até se juntar aos fundadores da Akros, em 1977. Mais tarde, quando a empresa foi adquirida pelo grupo Amanco, Ingo assumiu a ferramentaria Fred Jung, posteriormente transformada na Herten Engenharia de Moldes, que administra com os filhos Edson e Jackson.

 

 

 

Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
Comemoração. Guarnição do Cachoeira cruza em segundo lugar na Regata Internacional de Florianópolis, em 1961: o timoneiro Frederico Hempel, Orival Ferreira, Rolf Fischer, Ingo Hertenstein e Herbert Theilacker

 

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
No Rio. Time joinvilense em frente à sede do Vasco, onde guardava suas embarcações no Campeonato Brasileiro de 1965: Theilacker, Orival, Balduíno, Deglmann, Rolf e Ingo; agachado, Luiz Gastão Diniz, presidente do Cachoeira

 

 

Treinar sem ver o sol
Ingo passou a disputar regatas pelo Cachoeira a partir de 1958, no início limitando-se aos duelos domésticos contra o Atlântico. Ele conta: “Os treinos precisavam ser feitos antes e depois do expediente. Com o Carioca, com quem mantive uma boa dupla, treinava o dois-com de manhã, antes de o sol nascer, e o dois-sem depois do trabalho, já anoitecendo”. Carioca era o apelido de Orival Ferreira (perfil em março passado); dois-com e dois-sem eram as modalidades com dois remadores, com e sem timoneiro.

O batismo de fogo de Ingo Hertenstein fora de Joinville se deu na Regata Internacional de Florianópolis, em maio de 1961, no quatro-com. “Lá sempre dava tremedeira. Nosso técnico, o Botafogo, me chamou e desafiou: ‘Novato, não vá jogar o páreo fora’. Pois chegamos em segundo lugar, só perdendo para os gaúchos.” Em novembro do mesmo ano, novamente na ilha, o primeiro título catarinense, com Orival Ferreira, no dois-com; no mesmo dia, o Cachoeira ficou em segundo no quatro-com. Para derrotar os remadores da capital em seus domínios, onde eram acostumados com as marolas do ambiente marítimo, Ingo e Orival treinavam na lagoa do Saguaçu em dias de vento, com ondas.

No currículo, Ingo contabiliza três títulos catarinenses, dois vices brasileiros e um vice nos Jogos Abertos de Santa Catarina, em 1969. Ainda foi três vezes campeão catarinense do interior, antes de encerrar a carreira, em 1970. “Como muitos dos companheiros, tinha pouco estudo, e o desenvolvimento da indústria em Joinville exigiu que voltássemos a estudar. Aí não havia mais como conciliar os horários”, justifica, lamentando que sua geração não tenha deixado seguidores. Mas o balanço é positivo: “Foi um tempo de muita dedicação, de treinar no escuro, sacrificar férias para competir, carregar o barco pela rua nos pontos onde o Cachoeira já estava assoreado, enfrentar a força política da capital... Mas o esporte trouxe saúde, muitas amizades e lições que aproveitávamos no dia a dia”.


Pela memória da mãe

Vitória. Ferramenteiro aposentado faz manifesto e impede a troca do nome de uma servidão do bairro Aventureiro
Rogério Souza Jr/ND

Um marco. Fabiano Weinrich na servidão Cemiramez Weinrich, no Aventureiro, que traz o nome da mãe

 

 

Morador do bairro Saguaçu, Fabiano Weinrich é dono de uma biografia singular. Nascido há 70 anos em Taió, no Alto Vale do Itajaí, ele trabalhou na agricultura até servir o Exército e por isso só estudou até o quarto ano primário. Mesmo assim é um fluente na oratória e na elaboração de textos. Ele conta que o dom da oratória é herança do pai, Antônio. “Apesar de ele ser um simples agricultor, sabia discursar muito bem em português, alemão, italiano e polonês. Puxei dele o gosto de falar ao microfone”, assinala.

Escrever textos diretos, bem ao estilo do bom jornalismo, é fácil para Fabiano. “Aprendi a escrever dessa forma depois de ler centenas de livros e estudar por conta própria; hoje coloco a oratória e a escrita a serviço da Igreja Católica, da qual sou ministro há muitos anos”, esclarece.

Fabiano deixou as lavouras após servir o Exército. Em busca de um futuro melhor teve passagens pelas cidades de São Paulo e Porto Alegre, onde até se deu bem no trabalho. Mas como o salário não era lá essas coisas, retornou a Taió e ao cabo da enxada. Em 1971 veio para Joinville atraído pela oferta de muitos empregos. Depois de fazer um curso técnico virou então torneiro de produção na Fundição Tupy.  Em seguida foi torneiro de ferramentaria na Metalúrgica Schulz, onde galgou o posto de supervisor de usinagem, no qual ficou até se aposentar.

Casado com dona Judita, pai de dois casais de filhos e avô quatro vezes, Fabiano se orgulha da família. “Eu não tive oportunidade de estudar, mas meus filhos, graças ao incentivo e o apoio que lhe demos, conseguiram diplomas universitários e por isso estão todos bem encaminhados na vida e só me dão alegria”, enfatiza.

Fabiano demonstrou as qualidades de bom redator durante um episódio ocorrido em 2006. Moradores da Servidão Cemiramez Weinrich (homenagem à sua mãe) lotaram o plenarinho da Câmara de Vereadores para pressionar o Poder Legislativo. Queriam que os vereadores trocassem o nome da via, alegando que era difícil de escrever e pronunciar Cemiramez Weinrich.

Indignado com a falta de respeito à memória de sua mãe, ele publicou na imprensa uma carta lapidar em defesa da manutenção do nome da servidão. Com uma argumentação de clareza linear, frisou que se o nome fosse trocado estaria sendo aberto um precedente para que centenas de outras ruas com denominações incomuns passassem pelo mesmo processo. “Teria sido um desatino se a proposta tivesse se concretizado. A troca do nome de uma rua, além de ser um flagrante desrespeito ao homenageado, acaba mexendo com todos os moradores. É preciso refazer tudo, desde alteração na escritura do imóvel até o cadastro bancário. Felizmente meu posicionamento acabou com a estapafúrdia proposta e assim o ovo da serpente morreu no ninho”, comenta aliviado por ter evitado que o nome de sua mãe fosse jogado na lata do esquecimento.

 

“A troca do nome de uma rua, além de ser um flagrante desrespeito ao homenageado, acaba mexendo com todos os moradores. É preciso refazer tudo, desde alteração na escritura do imóvel até o cadastro bancário.”

 

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Quem era. Dona Cemiramez em maio de 1983, nas Bodas de ouro

 

 

O musse da família Weirich
No tempo que Fabiano morou em Taió sua família ficou conhecida por produzir o melhor musse de laranja da comunidade de Ribeirão da Vargem, onde anos mais tarde foi construída a barragem Oeste para controlar enchentes do rio Itajaí.

Ao ser perguntado se havia um segredo para garantir qualidade diferenciada do produto, Fabiano esclarece que na verdade o principal ingrediente do musse de laranja era caldo de cana de açúcar.  “Tirávamos na moenda 16 latas de garapa, às quais acrescentávamos duas latas e meia de laranja. Depois era só cozinhar ao longo de seis horas para ficar uma delícia. Paciência e carinho era o segredo do musse dos Weinrich”, salienta bem humorado. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)

 

Nota do editor: A grafia está incorreta na faixa de identificação fixada no poste.

 

 

 

 

 


De bicicleta pra todo lado

Tradição. Dona Glorinha ainda faz parte da legião de ciclistas de Joinville

Rogério Souza Jr/ND

Transporte rápido. Dona Glorinha não se separa da sua zica, a bicicleta com que vai ao trabalho, faz compras e visita os filhos

 

Ir ao trabalho, no mercadinho, ao banco, passear, visitar os filhos... São atribuições da agenda diária de milhares de pessoas, em todos os cantos, seja de Joinville, Garuva, Araquari, Guaramirim ou qualquer cidade da região. Cada uma executa as tarefas da sua maneira, de acordo com seus horários e recursos. Lá para os lados do Espinheiros, Maria da Glória Jacinto Luz, mais conhecida como Glorinha, também faz tudo isso, mas sempre do mesmo jeito: pedalando sua bicicleta. Até tem carro na garagem, mas ele é pouco utilizado. “Pra falar a verdade, nunca aprendi a dirigir. Não precisa, a bicicleta me leva a todo lugar que eu quero ir. Se for longe, pego o ônibus”, afirma com convicção dona Glorinha, uma ciclista apaixonada. Aos 68 anos, mesmo aposentada há 15, ela continua ocupando sua função na Tupy, misturando-se aos tantos operários que colorem de azul os horários de trocas de turnos, naquela que continua sendo a maior concentração de ciclistas do cotidiano joinvilense.

A história de Glorinha, assim como a de tantos funcionários da Tupy, começa longe de Joinville. “Nasci em Tijucas. Sou a caçula de 19 filhos”, conta, ainda mantendo, e carregando, o característico sotaque da cidade do Vale do Rio Tijucas. O pai de Glorinha tinha uma processadora de café, onde quase todos os filhos trabalharam. Aos 18 anos, Maria da Glória casou-se com Saul da Luz: “Foi meu primeiro e único namorado. Comemoramos Bodas de Ouro em dezembro do ano passado”, conta Glorinha, hoje ainda mais dedicada ao marido, aposentado devido a problemas de saúde.

Há quatro décadas, veio a mudança para Joinville, graças a uma transferência de Saul, então funcionário da Empresul (concessionária de energia elétrica que antecedeu a Celesc). Junto, vieram os quatro filhos nascidos em Tijucas; a prole se completou com um joinvilense.

 

“Pra falar a verdade, nunca aprendi a dirigir. Não precisa, a bicicleta me leva a todo lugar que eu quero ir. Se for longe, pego o ônibus.”

 

A Tupy, um segundo lar
Glorinha conseguiu um emprego na então chamada Fundição Zero da Tupy (atual Fundição 1), no setor de macharia. Algum tempo depois, também o marido virou colega de empresa; como eletricitário experiente, foi trabalhar na subestação de energia. Quatro dos filhos também já passaram por lá, justificando o fato de Glorinha considerar a Tupy seu segundo lar. “Sempre foi bom trabalhar lá. Lembro-me bem do tempo do seu Raul Schmidt, uma pessoa muito boa, que se preocupava com os funcionários. Ganhamos muita cesta básica dele. Gostava também do seu Dieter. Acho que ele ainda ia ser governador”, aposta a veterana, referindo-se a Dieter Schmidt, morto em acidente aéreo em 1981, logo após deixar a presidência da Tupy e assumir a Secretaria Estadual de Indústria e Comércio.

Foi na Tupy que Glorinha tornou a bicicleta quase uma extensão do corpo. “Eu gostava de bicicleta desde criança, e me acostumei a fazer tudo com ela. Já tive quatro, duas foram roubadas”, conta. Além de se deslocar em duas rodas para fazer tudo, desde o trajeto de ida e volta ao trabalho até visitar os filhos, quase todos morando nas proximidades, Glorinha é participante assídua dos passeios ciclísticos promovidos pela Tupy anualmente. “No passeio do ano passado – acrescenta – fui sorteada e ganhei uma bicicleta e capacete. Só que não me adaptei ao modelo com marchas e freio de mão. Prefiro as antigas, com freio contra-pedal.”

Residindo há uns 30 anos no Espinheiros, Glorinha também tem boas recordações de quando o bairro era praticamente o lar de funcionários da Tupy. Por ali ela se sente à vontade, pode trazer os nove netos para brincar na rua, fez amizades entre a vizinhança e pode continuar pedalando todo dia para o trabalho, como faz há 37 anos. Ah, sim, um detalhe importante: “Nunca sofri um acidente!”.


Garimpeiro de talentos

Realização. Alfredinho concretiza sonho comandando escolinha da Veterana
Fabrício Porto/ND
Com a bola na mão. Alfredinho comanda a garotada da escolinha da Veterana, do bairro Iririú

 

 

Alfredinho até chegou a calçar chuteiras e entrar em campo, pela escolinha do JEC. Mas a posição que ele mais admirava não estava no ataque, tampouco na defesa ou no meio-de-campo. Ele ficava de olho era no único adulto em campo, o treinador. Era com aquela função que ele sonhava: “Desde criança eu tinha na cabeça que seria treinador, tanto que eu preferia pedir autógrafo de técnicos em vez dos jogadores. Fernando Ferreti foi meu primeiro grande ídolo”. Meta traçada,foi correr atrás da realização e hoje Alfredinho é o treinador da escolinha da Veterana, tradicional clube do Iririú, onde comanda a gurizada e exercita o olho de lince à procura de novos talentos – como Toró e Lucas, que estão em testes no Santos.

José Alfredo Silva nasceu em São Francisco do Sul em 1965, uma época em que o Santos dominava o cenário futebolístico brasileiro e Pelé vivia o seu auge. Tinha 6 anos quando o pai, ferroviário, foi transferido para Joinville, trazendo a família. Moraram um bom tempo na estação, e foi por ali que se criou Alfredinho, caçula de cinco irmãos. “No meu tempo de guri – lembra – o que não faltava por ali era lugar pra jogar bola. Logo surgiu o JEC, e o sonho da gurizada era vestir a camisa tricolor. Até cheguei a jogar na escolinha, mas ser técnico era meu verdadeiro sonho.” Alfredinho também torceu pelo futsal da Tigre, no tempo de Biro-Biro e Banana, entre outros craques, mas sua atenção se concentrava no banco, onde Fernando Ferreti iniciava a carreira que o levou à consagração. “Ferreti era meu modelo, era assim que eu queria ser. Eu ia aos jogos para vê-lo trabalhar.”

 

“Desde criança eu tinha na cabeça que seria treinador, tanto que eu preferia pedir autógrafo de técnicos em vez dos jogadores. Fernando Ferreti foi meu primeiro grande ídolo”.

 

Início na Cohab
Decidido a ser técnico, preferencialmente de crianças, Alfredinho foi a campo. Literalmente. Começou pela formação de garotos na Cohab Castelo Branco, participando da extinta Copa Big. Trabalhou na Amanco, onde foi campeão no campo e no salão treinando os times da empresa, e desde 2005 vem se dedicando profissionalmente ao esporte. Foi naquele ano que Alfredinho assumiu a escolinha da Veterana. “Meu sustento vem do esporte, das mensalidades pagas pelas famílias dos garotos. A Veterana cede os campos, de grama e sintético, e os uniformes para as competições”, explica Alfredinho, que também costuma emprestar jogadores para outras equipes que disputam campeonatos na cidade. Seu próprio time sub-12 compete representando São Francisco do Sul.

Alfredinho já treinou a escolinha do América e trabalhou no Projeto Jovem Cidadão. “Infelizmente  a administração anterior interrompeu o projeto.” Hoje, toda a atenção se concentra na escolinha da Veterana, onde Alfredinho comanda 110 crianças de 4 a 14 anos. “A maioria é daqui do bairro mesmo, e quase todos estudam no colégio Padre Valente Simioni. Estar na escola é condição imprescindível para participar do futebol, e também acompanho o desempenho escolar de cada um, o que acaba sendo um suporte para os pais.” Alfredinho conta, no dia a dia, com o auxílio da policial civil Clarice, outra aficionada pelas escolinhas.

Outro projeto que vem sendo desenvolvido na Veterana é uma escolinha de informática. Com sete computadores alugados, Alfredo e Clarice passam aos garotos as primeiras noções de informática ou um reforço para os já iniciados. “Logo vamos ter mais espaço e reforçar o equipamento”, anima-se o técnico-professor, anunciando as reformas que a Veterana vem fazendo em sua sede.

É no computador que Alfredinho mostra, orgulhoso, as fotos de sua recente passagem pelo Santos, onde foi acompanhar Toró e Lucas, de 12 e 13 anos, em testes no clube. “Além de conseguir vagas para os guris, ganhei duas semanas de estágio no Santos”, anuncia Alfredinho, ansioso para aprender mais no clube que dominava o cenário quando ele nasceu.

 

Perfil sugerido pelo jornalista Luiz Veríssimo.


Conquistado pelo mar

Artesão naval. Quando o ofício da pesca se revelou um equívoco, Mauro Gonzales descobriu o talento para a construção de barcos
Rogério Souza Jr/ND
Persistente. Gonzales junto às embarcações que constrói no estaleiro de Balneário Barra do Sul

 

 

Corria o ano de 1981quando Mauro Gonzales meteu os pés pela primeira vez na cidade de Balneário Barra do Sul, então ainda uma distrito de Araquari. Com 14 anos de idade ele chegou ao local em companhia de Sérgio Gonzales, seu pai, com a finalidade de conhecer alguma coisa do litoral catarinense. Um detalhe mudou par sempre a vida dos Gonzales. Ao comprar alguns quilos de camarões, o pai de Mauro notou que o valor do fruto do mar custava ali dez vezes menos do que nas peixarias de São Paulo.

Empolgado, o patriarca dos Gonzales deixou Mauá, no interior paulista, e se estabeleceu em Balneário Barra do Sul com a família para colocar em prática o projeto de comprar camarões para vender na cidade de São Paulo. A iniciativa, no entanto, acabou não dando certo. Mas isso não foi motivo para a família paulista desistir da pequena cidade do litoral Norte. Sérgio e seus filhos Mauro e Jaime viraram então pescadores artesanais para garantir o sustento da ramada dos Gonzales.

Ao relembrar aquele tempo, Mauro conta que ele, o pai e o irmão trabalharam na pesca artesanal ao longo de 15 anos. Foi aí que a vida deu uma nova reviravolta. Como o barco de pesca da família estava apresentando precárias condições, Mauro resolveu fabricar uma nova embarcação com as próprias mãos, apesar de não ter os mais rudimentares conhecimentos de carpintaria para colocar a empreitada em prática.

Mesmo assim aventurou-se no projeto depois de sucessivas e prolongadas observações em estaleiros artesanais para ver de perto como o trabalho era executado. Feito isso construiu o novo barco da família, revelando-se um excelente carpinteiro. De tão boa que a embarcação ficou, Mauro recebeu em poucos dias uma verdadeira penca de pedidos para construir barcos para a pesca artesanal.  Pronto, acabou-se assim a fase de pescador artesanal para virar carpinteiro naval.

Com o aumento progressivo de pedidos, Mauro obrigou-se a convencer o irmão Jaime a ajudá-lo no estaleiro instalado perto da boca da barra do canal do Linguado.  Passados 17 anos do ingresso no ramo, Mauro informa que com a ajuda do irmão construiu mais de 200 barcos e perdeu a conta que quantos já foram reformados em seu estaleiro.

Além de barcos pequenos para a pesca artesanal, o paulista de Mauá já fabricou embarcações de tamanho grande, como uma para transporte de passageiros em Paranaguá, com capacidade para 92 pessoas. “Foi a maior embarcações de todas. Trabalho é que não falta, tenho fregueses de todo o litoral norte catarinense e também em Paranaguá, Curitiba e Santos”,  revela.

 

“Trabalho é que não falta, tenho fregueses de todo o litoral Norte catarinense e também em Paranaguá, Curitiba e Santos.”

 

E as pescarias continuam
Casado com dona Elisangela, pai e uma filha, apesar de sempre atolado no serviço, Mauro leva a vida de bom humor, admitindo que construir barcos rende mais que pilotá-los em pescarias profissionais. Mas se apressa em dizer que continua gostando da antiga profissão e que por isso não deu as costas para o mar. “Meu freezer é abastecido com frutos do mar e peixes que eu mesmo continuo pegando. Sempre que o estoque começa a ficar baixo arrumo um tempinho para ir ao mar onde me reabasteço”, assinala o requisitado construtor de barcos artesanais.  (Herculano Vicenzi,especial para o Notícias do Dia)


Uma vez professor...

Carreira. João Pascoal passou a maior parte da vida na Escola Técnica Tupy
Luciano Moraes/ND
Estudar, sempre. Livros, artigos e protótipos ainda fazem parte da vida do professor Pascoal que se dedica agora a escrever uma cartilha sobre prevenção de acidentes

 

 

 

...sempre professor. Depois de passar 38 anos em sala de aula, ensinando desenho técnico a adolescentes, na Escola Técnica Tupy, João Pascoal de França dedica o tempo de aposentado para continuar ensinando, agora voltado a disseminar noções de prevenção de acidentes entre o público infantil. “A prevenção de acidentes deveria ser uma disciplina no currículo escolar fundamental”, diz Pascoal, que também gostaria de ver o xadrez sendo praticado nas escolas, assim como sonha em resgatar o civismo, com ações como a execução do Hino Nacional pelo menos uma vez por semana nos colégios. “Também gostaria muito – acrescenta, puxando a brasa para sua sardinha – que o desenho geométrico voltasse a fazer parte do currículo escolar.”

Nascido há 63 anos, Pascoal se criou no bairro do Paulas, em São Francisco do Sul, de onde saiu adolescente, para fazer o curso de mecânica na Escola Técnica Tupy. Na mesma instituição fez o técnico metalúrgico e formou-se em segurança no trabalho; é graduado no curso superior de formação de professores, especializado em desenho técnico mecânico e ensino de segundo grau. “A ETT – reconhece Pascoal – foi um marco na minha vida profissional e de centenas de jovens de famílias humildes que não podiam custear o ensino médio. O processo de seleção era rigoroso, o que só valorizava mais quem se formava lá.” Naquele tempo, também na ETT era comum o trote, quando os veteranos raspavam a cabeça dos calouros. Para Pascoal, porém, até isso tinha seu lado bom: “Era um orgulho sair pela cidade de cabeça raspada e usando o boné amarelo da Escola Técnica Tupy. Bom para a autoestima”. Durante o curso, Pascoal morou nos alojamentos da própria escola, como tantos alunos que vinham de outras cidades. Boas lembranças não faltam: “A limpeza era fiscalizada pelo mestre Bub, e o café da manhã ficava a cargo da dona Maria. Foi um tempo de muito café com chineque, principalmente nos fins de semana, quando as refeições ficavam por conta de cada um”.

 

 

Arquivo pessoal/divulgação/ND
Memória. Na formatura do então segundo grau, Pascoal recebeu o diploma das mãos do diretor da Tupy, Raul Shmidt, observado pelo mestre Silvio Sniecikovski

 

 

Professor Pascoal
Antes de assumir a cátedra, em 1971, Pascoal estagiou na função de monitor, assistindo por um ano as aulas de desenho técnico do professor Vitor Zimmermann Junior, e foi substituto do professor Mariano Costa. Ministrando desenho técnico mecânico, construiu uma fama de rigidez. Tal rigor lhe custou até um puxão de orelhas: “Em 1975 fui chamado o gabinete do diretor Theo Fernando Bub, que pediu esclarecimentos sobre minha tese a respeito de notas. Eu dizia, em sala, que nota dez era para Deus, nove para o professor e de oito para baixo para os alunos. Por mais que eu argumentasse, o diretor não se convenceu, e me deu um sermão. Só 25 anos depois, numa confraternização de ex-alunos, eu soube quem havia me denunciado”.

João Pascoal de França permaneceu 38 anos dando aulas na ETT, sigla que garante levar no coração. “Estudo, Trabalho e Técnica é a marca consolidada que move o espírito desta conceituada instituição. De todos que marcaram minha passagem pela escola, faço uma homenagem especial ao grande comandante Silvio Sniecikovski.”

Amante da pesca de garoupas nos parcéis (pedras submersas) de São Francisco, Pascoal lamenta a devastação da vida marinha em sua ilha, devido à pesca predatória e à falta de fiscalização. Quando não está pescando, debruça-se sobre artigos, estudos e anotações sobre prevenção de acidentes, preparando uma cartilha que sonha ver entre o material escolar de alunos dos ensinos fundamental e médio – assim como os livros de desenho geométrico.


O chapeiro de gravata

Dedicação. Rodrigues alcançou a realização graças ao esforço e à família
Carlos Junior/ND
Lanche saboroso. Ademar dá o exemplo: só trabalha de gravata

 

 

Se há algo de que Ademar Rodrigues tem absoluta certeza é de que o trabalho traz resultados e sentido para a vida. Essa constatação ele pode fazer ao avaliar como sua vida mudou desde que resolveu investir todo o esforço num negócio próprio. Hoje, pode comemorar o sucesso do seu empreendimento, Rodrigues Lanches, que em março completou 15 anos conquistando a freguesia na rua Max Colin, depois de rodar por diversos endereços. “Eu comecei a trabalhar ainda criança, na roça, e posso garantir que aquilo nunca me fez mal; pelo contrário, o trabalho duro na lavoura só me educou e me preparou para a vida.”

Rodrigues mal conheceu sua cidade-natal, Indaial, no Médio Vale do Itajaí, de onde a família saiu quando ele tinha apenas 6 anos. Da parada seguinte, Biguaçu, partiu após outra meia dúzia de anos, agora com destino a Jaraguá do Sul. Ajudou a família na roça, estudou somente até completar o ensino primário e aos 17 anos iniciou a fase decisiva, ao sair sozinho de casa em busca de novas perspectivas na vida. O destino: Joinville; a meta: trabalhar na indústria.

“Foi ali que minha vida começou pra valer. Saí de Jaraguá de litorina, com uma sacola e duas mudas de roupa. Desci na Estação Ferroviária de Joinville num domingo à noite, com muita chuva. Fui a pé até o terminal central e peguei um ônibus para o Boa Vista, onde sabia que ficava a Tupy. Achei uma pensão para ficar alguns dias, fiado, e no dia seguinte fui pedir emprego na fundição. Não consegui, porque era menor de idade.”

De volta à pensão, Rodrigues ouviu um fio de conversa, em que alguém reclamava de ter serviço, mas faltar mão-de-obra. Ali, conseguiu seu primeiro emprego, como servente, cavando valetas. Três meses depois, pagou o que devia na pensão, comprou roupas e topou nova empreitada, agora em São Francisco do Sul. Oito meses e muitas valetas depois, retornou a Joinville. E conseguiu o tão sonhado emprego na Tupy. Mas sua meta já era outra: “Eu queria ser dono do meu próprio negócio”.

 

“Eu mesmo construí a lanchonete, e divido o expediente diário com minha esposa, ela no atendimento, eu na chapa.”

 

O empresário Rodrigues

A primeira tentativa como autônomo foi a revenda de roupas compradas em atacadistas de São Paulo. “Até que ia bem, mas torrava todo o lucro na farra”, admite. Voltou para uma fábrica e recomeçou a guardar dinheiro. Os dias de farra terminaram quando conheceu a jovem Maristela, num baile dos comerciários, em 1980. Primeira namorada pra valer, tornou-se sua esposa dois anos depois.

Foi autônomo de novo ao comprar uma Kombi para buscar verduras em Curitiba. Outro golpe de azar: bateu o carro e perdeu tudo. Trabalhou como motorista de um mercado até o estabelecimento falir. Foi peão na obra da nova sede do Banco do Brasil, empregou-se na Ambalit e guardou mais dinheiro, o suficiente para comprar um terreno na rua João Pessoa e montar um carrinho de lanches. Contou com uma ajuda do cunhado, que lhe deu três caixas de cerveja, e começou a aprender os segredos da chapa. Na verdade, foi o que de melhor tirou do negócio, pois o ponto era péssimo. Passou por outros quatro locais, até chegar, em 1998, à esquina das ruas Max Colin e Marquês de Olinda.

Há cinco anos mudou-se para o endereço atual, na mesma Max Colin, ao lado da academia de tênis Hoppe. “Eu mesmo construí a lanchonete, e divido o expediente diário com minha esposa, ela no atendimento, eu na chapa”, conta Rodrigues, garantindo ser o único chapeiro da cidade que usa gravata. “Assim, já dou o exemplo, desencorajando quem chega mal vestido ou sem camisa”, justifica.

Toda essa trajetória de muito suor, dedicação e algumas trombadas é motivo de orgulho para Rodrigues. “Graças ao trabalho, pude dar estudo para os filhos, ter minha casa própria e um terreno na praia. Agora, só falta formar o filho caçula, ficar mais uns anos por aqui, me aposentar e ir trabalhar com construção civil na Enseada”, planeja. Grato à esposa, por tudo que representou em sua vida, conclui: “Minha grande empresa é a família”.

Perfil sugerido pela leitora Letícia Diefenthaeler.


Chegadas e partidas

Rodoviária. Ex-administrador da estação de Joinville exerceu várias funções dentro de companhia até chegar a motorista, um sonho de menino
Fabrício Porto/ND
Vai e vem dos ônibus. Carlos Alberto deixou de ser motorista de linhas para Curitiba ao assumir a administração do terminal de Joinville, função que exerceu durante 16anos

 

 

Em qualquer cidade grande ou pequena, a estação rodoviária se constitui em ponto de referência conhecido pela maioria da população. É comum encontrar nesses espaços de chegadas e saídas de passageiros, pessoas que se identificam com o local. Na história da Estação Rodoviária Harold Nielson um bom representante dessa estirpe chama-se Carlos Alberto de Almeida, o Carlinhos. Depois de se aposentar ele vai pouco à rodoviária, mas mesmo assim continua sendo lembrado por velhos companheiros de trabalho.

Nascido há 55 anos em Blumenau, Carlinhos começou cedo a se envolver com passageiros de ônibus. Com 14 anos de idade arrumou emprego de cobrador na Auto Viação Catarinense em sua cidade natal. Posteriormente, já agenciador de passagens, trabalhou em Florianópolis e Curitiba. Ato seguinte, a pedido da diretoria da empresa, foi comissário de bordo da linha Florianópolis-Curitiba.

Mas o sonho de Carlinhos era outro: queria ser motorista de ônibus. Por isso, às escondidas, vivia manobrando pesados veículos na garagem da Catarinense, em Florianópolis. Ao ser flagrado na boléia pelo inspetor José Vilas Boas por pouco não perdeu o emprego. “Envergonhado ao ser pego fazendo arte, pedi mil desculpas e ao mesmo tempo confessei a Vilas Boas que meu grande sonho era ser motorista. Além de não me despedir, nem me dar um gancho, ele acabou me ensinando os macetes para virar um bom profissional ao volante de um ônibus”, conta sem segurar a risada.

Algum tempo depois ao ser efetivado motorista, Carlinhos fez então a linha Florianópolis-Curitiba por quatro anos. Corria o ano de 1977 quando ele se desligou da Catarinense para trabalhar no setor administrativo da rodoviária de Joinville.

Passados alguns anos, Carlinhos foi surpreendido pelo prefeito Luiz Gomes, o Lula, ao receber convite para ser administrador da rodoviária.  Após a gestão de Lula ele foi mantido no cargo por Wittich Freitag e Luiz Henrique da Silveira. “Foram 16 anos como administrador, função que só deixei ao me aposentar”, destaca com uma pontinha de orgulho.

Casado com dona Teresinha, que conheceu dentro da rodoviária, Carlinhos é pai de três moças e avô de uma menininha. Extrovertido, sempre que ele bota os pés na rodoviária é recebido com festa por velhos companheiros de trabalho, que sentem falta de suas tiradas espirituosas, especialmente quando a conversa envereda para os lados da política e do futebol, seus assuntos preferidos  

 

Boas lembranças

Do tempo como administrador, Carlinhos tem saudades dos papos nas áreas gastronômicas na rodoviária e no bar de Florzino Borba onde, entre outros, reunia-se constantemente com Gerson Hoffmann, gerente da Catarinense; Sílvio Piazza, do Deter; Luiz Antônio Vilas Boas, também do Deter; José Bittencourt, o Bita, funcionário de um restaurante e Sebastião Benedito, do DNER. “Deixei na rodoviária uma penca de amigos. Se fosse para citar todos por certo tantos nomes não caberiam na página”, assinala bem humorado.  

Carlinhos é um apaixonado por uma rodada de dominó regada a cerveja e muita conversa solta. Da rodoviária sente saudade dos amigos, mas não do movimento atual. “No meu tempo o comércio local, especialmente nas lanchonetes, era muito mais forte. Quando tiraram a área gastronômica do piso térreo, colocando-as na parte superior do prédio, as coisas ficaram mornas. Hoje, comparado ao meu tempo, a rodoviária de Joinville é um local tristonho”, enfatiza o popular Carlinhos. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Saudades do jardim de lírios

Nova Brasília. Seu José cuidava das flores que eram o cartão-postal do bairro
Fabrício Porto/ND
No mesmo lugar. José passa todos os dias no seu antigo jardim, hoje local tomado pelo mato rasteiro

 



Há cinco anos a rua Minas Gerais destacava-se pela presença de milhares de lírios em ambas as margens. O espetáculo se estendia do viaduto da BR-101, na entrada do bairro Nova Brasília,  até cerca de um quilômetro adiante. O imenso jardim, orgulho da população do bairro, era cuidado por José Miranda, chefe de uma equipe da Prefeitura que instalava tubulação que ao ficar adoentado foi deslocado para o setor de jardinagem por ser um serviço menos pesado.
Com a aposentadoria de José Miranda, os lírios foram desaparecendo até sumir por completo. Em seu lugar hoje sobra lixo e muito mato habitado por ratos, cobras e outros bichos.
“Ao olhar para os dois lados da rua me dá vontade de chorar. Aquilo era tão lindo que um dia um turista de São Paulo chegou a pedir licença a Raul Bosse (primeiro goleiro da história do JEC) para subir no seu prédio a fim de tirar fotografias dos meus lírios”, recorda seu José.
Para matar a saudade do tempo que cuidava dos lírios, o ex-jardineiro guarda uma série de fotografias nas quais ele aparece em meio a cenário colorido de amarelo.
Querido por todos, seu José é, aos 75 anos de idade, um homem de admirável disposição. Seu passatempo preferido é caminhar. “Tem dia que vou do Nova Brasília até o centro da cidade até duas vezes para pagar umas continhas dos meus filhos. Caminhar é um santo remédio para conservar a saúde”, garante.
Casado com dona Deolinda, com a qual tem sete filhos (dois homens e cinco mulheres), seu José e avô 18 vezes e bisavô outras 13. De bem com a vida e irrequieto, além de caminhar ele gosta de trabalhar no bar do filho Toninho, instalado na rua das Missões. “No balcão não gosto de atender, mas lavar copos e varrer o chão é comigo mesmo. Gosto de trabalhar e desprezo sujeito vadio”, assinala franco e direto.

 

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Colorido. Seu José guarda as fotos que mostravam as margens da estrada de ferro cobertas por hemerocalis

 

 

Das lavouras de tabaco às flores
Seu José chegou em Joinville em 1976. Cansado de ser arrendatário para produzir tabaco no município de Rio do Sul, largou as lavouras e escolheu a maior cidade do Estado para morar. “Moço, acertei na mosca, todos os filhos estão bem encaminhados; posso me despedir desse mundo em paz, mas pretendo ficar por aqui ainda um bom tempo”, diz bem humorado.
Antes de entrar na Prefeitura, seu José trabalhou cinco anos na Cia. Hansen e mais algum tempo no Sindicato dos Arrumadores de Joinville. Na Prefeitura foram 14 anos, cinco deles no setor de jardinagem quando embelezou a entrada do bairro onde mora desde 1976. Ele ainda acalenta a esperança de ver o matagal da rua Minas Gerais eliminado para que outro jardineiro refaça os canteiros de lírios. “Seria maravilhoso ver novamente a entrada do bairro com flores”, enfatiza o popular José. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Atento ao mais belo

Plumagem. Joinvilense do Bucarein integra seleto grupo de juízes da ordem e federação brasileira de ornitologia
Fabrício Porto/ND
Em casa. Alexandre Dopke é respeitado pela criação de aves exóticas, como os agapornes

 

O quadro de juízes da OBJO (Ordem Brasileira de Juízes Ornitológicos) e da FOB (Federação Ornitológica do Brasil) é preenchido somente pelos mais renomados especialistas nacionais no segmento de criação de aves exóticas. O único joinvilense a integrar as duas entidades é Alexandre Dopke, 33 anos. Ele entrou para o seleto grupo há cinco anos ao passar por rigorosa prova de avaliação técnica.

Conhecido e respeitado pelos mais destacados criadores de aves exóticas no Brasil, Alexandre nasceu no bairro Bucarein, onde começou a se envolver com a ornitologia aos 5 anos de idade, quando ganhou do pai um casal de periquitos australianos.

Seu envolvimento definitivo com a atividade aconteceu ao conhecer Marcos Baumer, um dos mais antigos criadores de aves exóticas em Joinville. Por influência do velho criador, Alexandre se filiou a AJO (Associação de Ornitologia de Joinville), entidade da qual já foi presidente em duas gestões apesar de ainda ser um de seus mais jovens integrantes.

Com o objetivo de se destacar no universo ornitológico brasileiro,  Alexandre tornou-se em 2002 um criador exigente consigo. “Só com disciplina se consegue criar passarinhos de apurado padrão genético e por isso acabei virando meu próprio cobrador de bons resultados”, conta bem humorado.

A meta começou a aparecer em 2005, quando Alexandre conseguiu conquistar o troféu de campeão Sul Brasileiro na categoria agapornes. Posteriormente conquistou outros títulos em âmbito regional e estadual. Na sua galeria de prêmios aparece também um troféu de vice-campeão brasileiro. Apaixonado e estudioso de aves exóticas, ele enfatiza que seu ingresso no quadro de juízes foi fruto da dedicação. “Sem mergulhar fundo nas técnicas e nos macetes da ornitologia não se consegue chegar à condição de juiz”, resume.

De bem com a vida, Alexandre salienta que a ornitologia é coisa só para apaixonados. “Quem entra na atividade de olho no lucro, logo larga tudo, pois financeiramente não compensa. Muito ao contrário, criar passarinhos significa tirar dinheiro do bolso para ir tocando o hobby”, garante sem conter uma boa risada.

 

Combustível da paixão
O jovem juiz atualmente mora no bairro Vila Nova, onde ganha a vida como representante comercial em Joinville e em cidades da região do Litoral Norte catarinense. E a participação como juiz em campeonatos estaduais e de âmbito nacional quanto rende?  “Nada, os juízes só recebem o equivalente aos gastos com a viagem para fazer os julgamentos. Ornitologia é impulsionada pelo combustível da paixão”, reforça Alexandre.

Atualmente os filiados da Associação Joinvilense de Ornitologia criam cerca de 30 espécies de aves. Em âmbito nacional são criadas mais de 500, originárias de todos os continentes. “A ornitologia é uma atividade que está ganhando espaço e principalmente padrão genético em todo o Brasil”,  comemora Alexandre. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Mãos de muitos ofícios

Atiradores. Werner Willy Rosskamp foi agricultor, mecânico e até pintor mas sem deixar a tradição do tiro nas sociedades
Fabrício Porto/ND
Aposentado.  Werner em sua casa localizada nas imediações da rodoviária, onde mora desde criança

 

 

Na adolescência plantou arroz onde hoje está a estação rodoviária de Joinville; antes de servir o Exército, aprendeu o ofício de mecânico numa oficina onde hoje está o hotel Colon; com pouco mais de 20 anos foi eleito o primeiro presidente da Sociedade Esportiva e Cultural Cruzeiro Joinvilense; já homem maduro, pintou faixas de sinalização no solo de rodovias estratégicas como a BR-101 e a Via Dutra.

Essas são algumas passagens marcantes da biografia de Werner Willy Rosskamp, joinvilense de 85 anos de idade nascido, criado e morador até hoje nas imediações da estação rodoviária. Dono de uma memória extraordinária, se lhe desse a veneta de escrever sua história por certo o relato não caberia em um livro com menos de 200 páginas.

Moderado no consumo, mas apreciador de cerveja desde a juventude, seu Werner gosta de virar uns copos aos sábados quando sai de casa para conversar com velhos companheiros. Nessas horas ele encanta pessoas ao redor de sua mesa, relembrando belas histórias do tempo que as ruas centrais da Cidade eram ainda revestidas apenas com macadame.

É também do seu tempo de juventude o auge de memoráveis bailes perto do viaduto da rua Ottokar Doerfell, onde estava instalado o antigo Salão Reiss. “O salão era tão importante que emprestava seu nome a toda a área onde hoje estão os bairros Atiradores e São Marcos”, descreve.

Com saudade daquele tempo, ele conta que no Salão Reiss funcionavam dois clubes: o Cruzeiro do Sul, de tiro ao alvo real (balas de verdade) e o Tiro ao Alvo Joinvilense, que usava espingardas de pressão para disparar setas.  “As festas acabaram em 1942 quando o Brasil entrou na Segunda Guerra contra o eixo liderado pela Alemanha. Os dois clubes foram fechados juntamente outras agremiações que preservaram tradições germânicas”, assinala.

Terminada a guerra, os nomes dois clubes foram trocados (Cruzeiro do Sul virou Sociedade Serra Azul; Tiro ao Alvo Joinvilense virou a Sociedade de Tiro ao Alvo Joinvilense) e os sócios voltaram a fazer festas no Salão Reiss. Com havia muita amizade entre os membros das duas sociedades, surgiu então a ideia de fundi-las numa só. Surgiu então a Sociedade Esportiva e Cultural Cruzeiro Joinvilense, a única de Joinville a praticar tiro ao alvo real até hoje.

À custa de muitas festas a nova sociedade conseguiu erguer sede própria na rua Sehrwald, no bairro Atiradores. Seu Werner, que participou da comissão elaboradora dos estatutos da nova agremiação foi eleito o primeiro presidente apesar de ser muito novo.  “Até me assuntei quando a assembléia geral optou por meu nome”, diz sem conter uma boa risada.

Um detalhe da inauguração da sede é guardado com carinho por seu Werner. “A banda do 13º Batalhão de Caçadores animou o desfile no qual levamos do Salão Reiss para a rua Sehrwald os troféus e os estandartes dos dois clubes que deram origem à sociedade; foi uma coisa muito linda” , descreve.

 

“A banda do 13º Batalhão de Caçadores animou o desfile no qual levamos do Salão Reiss para a rua Sehrwald os troféus e os estandartes dos dois clubes que deram origem à sociedade; foi uma coisa muito linda”.

 

Fôlego para eleição a vereador
Casado com dona Alida, pai de três filhas e avô outras tantas vezes, seu Werner foi mecânico de automóveis, funcionário do DNER (Departamento Nacional de Estradas de Rodagem), de onde saiu ao se aposentar depois de fazer história como pintor de fixas de sinalização no solo de algumas das principais rodovias brasileiras.

Já um pouco entrado na idade ele teve pique para disputar uma eleição a vereador ficando na suplência. Com a morte de Curt Alvino Monich ocupou uma cadeira no legislativo de Joinville por oito meses.

Depois aposentado, seu Werner voltou à ativa ao ser convidado por Osni Piske, gerente regional da Casan, para cuidar do almoxarifado da empresa. Paralelamente ao trabalho de almoxarife-chefe ele ajudou na construção da sede recreativa dos funcionários da Casan em Joinville. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


A preferida das noivas

Moda. Ivone Buse mantém a tradição da alta costura, desde os anos 60
Fabrício Porto/ND
Paixão. Ivone pede até 12 meses de antecedência para fazer um vestido de noiva para ter certeza de que tudo vai ficar perfeito

 

 

Na galeria dos nomes que marcam a história da moda joinvilense, com certeza está Ivone Voigt Buse, a costureira preferida das noivas e de quem quisesse mostrar elegância nos eventos, desde os anos 60. Ainda hoje, aos 70 anos, Ivone continua produzindo vestidos de noivas e trajes femininos para a sociedade: “Não dá mais para costurar no mesmo ritmo de antes; mas também não dá pra parar, pois as encomendas continuam, e eu gosto disso”, afirma a costureira, acrescentando que precisa dividir o tempo entre o ateliê, o coral e as atividades no grupo da terceira idade que coordena na paróquia luterana São Lucas.
Ivone morou até os 18 anos na região do Rio da Prata, onde nasceu e aprendeu a costurar. Caçula de cinco irmãos, conheceu a dura rotina da roça, atividade principal da família. “Plantávamos cana, aipim e outras variedades, para subsistência e como atividade econômica. Todos na família precisavam ajudar na roça”, conta Ivone, que já naquele tempo começou a cantar no coral da igreja Cristo Salvador. A vocação profissional também já despontava: “Minha brincadeira preferida era costurar vestidos de bonecas. Com minha irmã mais velha aprendi a fazer roupas adultas; ela costurava e eu alinhavava. Fazíamos belos vestidos de 12 panos”.
Aos 18, trocou a lavoura pelo comércio, trabalhando na mercearia de um irmão, na rua Jaguaruna. Passou pela Coopertupy, antes de se empregar na Malharia Arp. “Trabalhei na modelagem, o que serviu para me aperfeiçoar. Aprendi muito na Arp.”

 

 “Minha brincadeira preferida era costurar vestidos de bonecas. Com minha irmã mais velha aprendi a fazer roupas adultas; ela costurava e eu alinhavava. Fazíamos belos vestidos de 12 panos”

 

Grife própria
Ivone ainda passou rapidamente pela Malharia Aracy, antes de criar sua própria grife, a Grão de Mostarda. A essa altura, já estava casada com Dário Buse, a quem conhecera num baile no saudoso Salão Russo. “Na Grão de Mostarda, que abri em sociedade com minha filha Janine, entre outras coisas produzíamos camisas com versículos bíblicos, que faziam muito sucesso.” A empresa foi vendida algum tempo depois, já que Ivone era muito requisitada para confeccionar trajes de noivas e de festas.
Além da Arp, onde também aprendeu a tricotar em máquina, Ivone é grata a Zuzu, a “costureira das madames”, com quem fez um curso de corte e costura (Auzuria Cunha, falecida no ano passado, aos 90 anos; Zuzu foi perfil em fevereiro de 2010). Ivone parou há pouco tempo com o tricô, e algumas de suas criações ainda podem ser vistas em sua casa no bairro Guanabara, como um blusão feito para a filha Jane.
Durante algum tempo, Ivone também produziu ternos, mas sua especialidade são mesmo os trajes femininos. “Algumas freguesas trazem o desenho do que desejam, outras dão apenas uma ideia e deixam por minha conta. Não gosto de modinha, que deixa todo mundo meio parecido. Quem usa um vestido produzido por mim pode ter a certeza de que não vai cruzar com alguém usando algo semelhante. Garanto a exclusividade!”
Como atual vice-presidente da Oase (Ordem Auxiliadora das Senhoras Evangélicas) da sua paróquia, Ivone também confeccionou as roupas para as integrantes do coral. “E também já fiz alguns talares para pastores”, acrescenta, referindo-se às vestimentas dos pastores luteranos.
Se você, jovem leitora, está planejando se casar, ligue para a Ivone no 3436-3177 e encomende seu vestido. Mas não deixe para muito em cima da hora: “Gosto de elaborar um vestido um ano antes, para garantir o capricho”.

O grão de mostarda
A passagem do grão de mostarda, considerada a mais curta parábola de Jesus, é assim contada no evangelho de Lucas (13: 18-19): “Disse, pois: A que é semelhante o reino de Deus, e a que o compararei? É semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e plantou na sua horta, e que cresceu e fez-se árvore; e as aves do céu pousaram nos seus ramos.”

Perfil sugerido pela leitora Carmen Silvia Effting


Desafio a serviço da vida

Dedicação. Maria Marlene superou uma doença e se dedicou ao voluntariado
Rogério Souza Jr/ND
Missão. Marlene na casa que abriga a Comunidade Terapêutica Rosa de Sarom

 

Iniciar um novo ciclo na vida logo após superar uma adversidade. Quantas pessoas já não passaram por essa situação? Marlene foi uma delas, e se reergueu depois de vencer uma luta pela própria vida. “Há vinte anos, um câncer estava consumindo meu organismo, com poucas chances de sobrevivência. Cheguei a ouvir uma voz dizendo que eu estava acabada. Mas ainda não era a hora, tinha uma missão a cumprir. Roguei a Deus, fui curada e estou realizando a missão.” É com os olhos marejados pela emoção que Maria Marlene Duarte Ritzmann relembra o período de sofrimento infligido pela doença, sua vontade de viver e a fé inabalável que lhe proporcionou a volta por cima. A missão começou a ser cumprida no dia 3 de março de 1993, quando ela fundou a Comunidade Terapêutica Rosa de Sarom, dedicada à reabilitação de meninas adolescentes dependentes químicas, restituindo-lhes a integridade física, moral e espiritual. Seu esforço teve uma retribuição da sociedade em março, quando foi homenageada com a Medalha de Mérito Mulher Cidadã Joinvilense, concedida pela Câmara de Vereadores.

A história de Marlene, neta de portugueses, começa em 1948, quando ela nasceu, em Joinville. Caçula de 14 irmãos, criou-se no Nova Brasília, com alguns sonhos de criança: “Minha família era da Assembleia de Deus, e eu sonhava ser pastora, tocar acordeon e aprender costura”. Depois de se casar, acabou virando empresária lojista, fundando com o marido Norberto o Magazine Ritzmann, durante muitos anos um ponto de referência em trajes de festa na cidade.

 

Divulgação/ND
Homenagem. Marlene com os vereadores Dorval Prtti e Levi Rioschi na sessão onde recebeu a Medalha de Mérito Mulher Cidadã Joinvilense

 

Voluntária pela vida
O primeiro chamado para o voluntarismo veio em 1982, quando Marlene foi visitar um jovem conhecido, cumprindo pena na prisão, na época em que o presídio ficava no complexo do Boa Vista. “Fiquei durante três anos realizando visitas ao presídio, levando a palavra de Deus. Foi quando senti a necessidade de criar uma instituição para ajudar as pessoas.” Da percepção para a ação, em 1984 Marlene fundou o Centro de Recuperação Shalon. Em 1992, desligada do Shalon, teve diagnosticado um câncer, que já se alastrava pelo organismo. “Fui desenganada, mas fiz um voto a Deus pela minha cura. Ele me ouviu, e ali surgiu a inspiração para criar uma nova instituição.” Com a ajuda da família, de amigos e de ex-presidiários, Marlene utilizou sua própria casa, vendeu a loja e fundou a Comunidade Terapêutica Rosa de Sarom, voltada à recuperação de jovens viciadas. Uma nova loja, dedicada à locação de trajes, foi aberta na avenida Getúlio Vargas, sob o comando de Norberto.

O início foi na residência dos Ritzmann, na rua Antônio Carlos, no mesmo Nova Brasília que viu Marlene crescer. Há alguns anos, graças ao esforço da própria família, de voluntários e de uma subvenção municipal, foi erguida uma nova sede num aprazível recanto na rua Wally Vollmann, no mesmo bairro. Com capacidade para receber até trinta adolescentes, a instituição oferece todo o apoio na recuperação de dependência química. A equipe, composta por vinte pessoas, tem médico, psicólogo (Antônio Siqueira, genro de Marlene), fisioterapeuta, professores e assistente social. Três funcionárias são pagas pela instituição, enquanto os demais são voluntários. A antiga casa onde tudo começou foi reservada para receber dependentes químicas adultas. Hoje, vendo o resultado de sua dedicação e contabilizando tantas jovens recuperadas, Maria Marlene tem uma certeza: “Meu sonho se realizou”.

 

Para ajudar
A assistente social Leila Regina Pereira, uma das voluntárias, faz um apelo para a comunidade: “Iniciamos uma campanha de arrecadação de donativos para montar uma brinquedoteca. Quem quiser abrir o coração, traga brinquedos e jogos educativos adequados para adolescentes”. Além desta campanha, que vai até outubro, a Rosa de Sarom sempre necessita de alimentos e material de higiene e limpeza.
O endereço: rua Wally Vollmann, 191, Nova Brasília
Telefone: 3426-2721

 

Com a palavra
“Passar pela casa fez toda a diferença na minha vida. Deixei para trás 15 anos de vício e hoje estou recuperada, vivendo feliz com meu filho. Marlene foi uma verdadeira mãe pra mim.”
Rosemari dos Santos, 40 anos, mãe de três filhos, que ficou um ano e cinco meses nas duas casas e hoje é um exemplo de recuperação


A segunda era do basquete

Cestinha. Claudinho foi campeão pelo JEC, pelo Sírio e por Joinville
Fabrício Porto/ND
Galeria. No dia do aniversário, Claudinho é só sorrisos junto aos troféus que colecionou

 

 

Nos últimos dois anos, o ND tem veiculado perfis de antigos jogadores de basquete de Joinville, dos dourados anos 50, 60 e 70. Por essas páginas passaram craques como Mima, Buba, Indaial, Ivo e tantos outros. Após aquela geração se aposentar, a história registra um lapso, quando Blumenau, Florianópolis e Lages dominaram a modalidade no estado. Uma nova era de conquistas veio nos anos 80, quando o principal time da cidade vestia a camisa do JEC, precedendo a criação da Abaj (Associação de Basquete de Joinville). Foi naquele tempo que despontou o talento do ala-armador Claudinho que, além do tricolor, defendeu União Palmeiras, o paulistano Sírio e as seleções joinvilense e catarinense. “Era uma fase de semiprofissionalismo, de transição. Aqui em Joinville tínhamos salário para jogar, mas não dava para sobreviver apenas do esporte, todos tinham empregos”, conta Claudinho, também um grande vencedor da Olimpíada Sesiana com a camisa da Embraco.

Cláudio Roberto da Costa Junior nasceu no dia 15 de abril de 1966, em Joinville. “Minha infância passei na rua Jaguaruna. Gostava de todo tipo de esporte, mas acabei optando pelo basquete aos 8 ou 9 anos, influenciado por um amigo, que me levou para a escolinha do Cruzeirinho, do professor Coutinho”, recorda Claudinho, referindo-se a Paulo César Coutinho, professor de educação física, que chegou a ser preparador e técnico do JEC, e hoje é comentarista esportivo em Criciúma, onde se radicou.

 

“Era uma fase de semiprofissionalismo, de transição. Aqui em Joinville tínhamos salário para jogar, mas não dava para sobreviver apenas do esporte, todos tinham empregos.”

 

Aprendizado no Sírio
Com o fim do Cruzeiro, Cláudio passou para o mirim do União Palmeiras. Ali, encontrou uma encruzilhada: “Eu também jogava tênis de campo, até que um técnico me desafiou a escolher, pois não dava para me dedicar aos dois esportes”. Claudinho – apelido que traz de casa, para diferenciar do pai Cláudio, também ex-jogador de basquete – optou pelo basquete. Fez bem: com 14 anos já integrava o time adulto de Joinville. “Nos Jasc de Itajaí, em 1982, Coutinho peitou todo mundo e me colocou no time titular”, orgulha-se. Um ano depois, Claudinho era titular também da seleção catarinense.

Aos 16 anos, já precocemente formado no ensino médio, arrumou as malas e foi morar em São Paulo, convidado a jogar no Sírio-Libanês, uma das principais forças da época no basquete brasileiro. “Fui morar num apartamento com mais dois jogadores. A estrutura do Sírio era fantástica, contrastando com a realidade de Joinville, com apenas dois ginásios.” Claudinho ficou três anos em São Paulo, jogando ao lado de craques como Marquinhos, Marcel, Mauri e Paulinho Villas-Boas. “Lá eu era o ‘Catarina’. Foi um grande aprendizado”, agradece hoje.

Ciente da carreira curta de atleta e disposto a estudar, em 1986 Cláudio retornou a Joinville. Jogou os Jasc daquele ano por São Bento e no ano seguinte vestia a camisa do JEC, onde ficou até 1994.

Formado em processamento de dados, sua paixão, trabalhou na Consul e na Embraco, passando depois pela Logocenter e pela Datasul. Desde 2003 é sócio da Euax (“bravo” em latim), empresa de consultoria empresarial na área de gestão.

No tempo de Embraco, Claudinho defendia o JEC no campeonato nacional e a empresa na Olisesi, a Olimpíada Sesiana, tradicional e acirrada competição. No balanço da carreira, Claudinho se mostra satisfeito: “Fui cestinha estadual duas vezes pelo JEC, campeão brasileiro juvenil pelo Sírio, quatro vezes campeão dos Jasc e muitas da Olisesi”. Hoje, continua jogando pelo menos uma vez por mês, com a velha turma, torce pelo time da cidade e pelo Los Angeles Lakers. E desfez a encruzilhada da juventude, jogando também tênis, só pra se divertir.


Nascida para evangelizar

Missão. Juliana Zopellaro dedica-se à disseminação da palavra de Deus
Rogério Souza JR/ND

 

Comunicação. Juliana é locutora e executiva na Rádio Arca da Aliança

 

Ela poderia se vangloriar de ser prima distante do papa, caso o cardeal brasileiro dom Odilo Scherer fosse o preferido no conclave do mês passado. Mas teve o privilégio de ganhar uma bênção particular de Joseph Ratzinger, quando ele era o papa Bento 16. A foto, exibida com orgulho em sua sala na Rádio Arca da Aliança, é como um símbolo do sentido da vida de Juliana Scherer Zopellaro. “Eu nasci para evangelizar”, afirma com convicção, honrada também com a Medalha do Mérito Mulher Joinvilense, concedida pela Câmara de Vereadores em março.

Ainda que tenha nascido em Rio do Sul, em 1972, Juliana se considera genuinamente joinvilense: “Com oito meses de idade eu já morava no Anita Garibaldi. Fiz toda a carreira escolar nos colégios do bairro, passei a infância por ali, fiz amigos e até a faculdade fiz no bairro”. Com vocação para ser professora, Juliana formou-se em pedagogia pela ACE. Seus ensinamentos, porém, não foram disseminados em sala de aula, estendendo-se a variadas formas de apostolado em torno da comunidade Arca da Aliança, onde ela mora há 22 anos. “Foi na comunidade que conheci meu marido, Miro, casamo-nos na capela e lá moramos com os filhos João Pedro, Maria Elisa, Beatriz e Luiz Augusto.”

 

 

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Audiência. Juliana recebeu a bênção do papa Bento 16, com o filho no colo

 

 

Divulgação/ND
Homenagem. Juliana com os vereadores Cláudio Aragão e Maurício Peixer quando recebeu a Medalha do Mérito Mulher Joinvilense

 

 

Ação do Espírito Santo
Juliana dedica seu trabalho voluntário a “uma ação do Espírito Santo, que me levou a exercitar o sentimento do coletivo”. Na Arca, entre outras atividades, Juliana participa do Centro de Espiritualidade, evangelização da juventude, artes sacras, promoção humana, orientação e direção espiritual, missões populares, centros educacionais, escolas de formação, pregação em retiros – o mais concorrido é o que ocorre durante o Carnaval, quando milhares de pessoas acorrem à Arca – e integração da juventude a partir de eventos esportivos. A Casa Marta e Maria, mantida pela Arca, acolhe pessoas ou famílias com vínculos rompidos, moradores de rua, migrantes em trânsito, e ex-apenados que não morem em Joinville.

Outra ferramenta importante no esforço de evangelização é a Rádio Arca da Aliança. Juliana já era locutora desde que a Arca apenas locava espaços na antiga Rádio Difusora, e atualmente responde pela direção executiva da emissora. O marido, Miro, é coordenador, músico e locutor. A própria Juliana divide as tarefas executivas com o estúdio, apresentando o programa “Crescendo na Graça”, dedicado à família; ela está no ar às quartas e domingos, às 16h30. “A rádio é um aliado forte no processo de evangelização, e eu me sinto à vontade diante do microfone”, diz a diretora-locutora. Juliana também é cofundadora e editora do jornal Arca em Movimento, já com 19 anos de circulação.

Um dos momentos mais emocionantes, para Juliana, foi o encontro com Bento 16. Ela conta: “Foi em 2005, logo que o papa foi nomeado. Viajei junto com o fundador da Arca da Aliança, diácono Elias, acompanhando o nosso bispo na época, dom Orlando Brandes. Fomos recebidos em audiência particular pelo papa. Eu pretendia me comunicar em italiano, mas o papa logo começou a falar conosco em português. Quando fui me ajoelhar para pedir a bênção, ele segurou meu rosto e me disse para ficar em pé mesmo. Foi emocionante demais, principalmente porque eu estava com meu filho no colo”.


Artista da palavra

Lançamento. Luiz Carlos Amorim lança sua 28ª obra na Feira do Livro
Mauro Schlieck/ND
Obra. “O Rio da Minha Cidade” é uma coletânea de crônicas

 

 

 

Cronista, contista, poeta, articulista... As múltiplas facetas fazem com que o escritor Luiz Carlos Amorim se defina como um artista da palavra. “Percebi que a escrita seria o vetor da minha carreira desde criança, quando venci um concurso de redação no colégio, com o tema ‘Portugal, meu avozinho’. Até então, sonhava em ser padre ou professor de português”, diz Amorim, que lança seu 28º livro nesta sexta-feira (12) na Feira do Livro de Joinville. “O Rio da Minha Cidade” (Edições A Ilha) é mais uma coletânea de crônicas: “São textos que dão mais a conhecer minha maneira de pensar como pessoa, como indivíduo, simplesmente”, define.

Nascido em Corupá em 1953, primogênito de nove irmãos, foi na cidade-natal que Amorim começou a carreira nas letras, escrevendo para o jornal local Hansa Humboldt (antigo nome do município). Na mesma época da adolescência, mantinha um espaço no “Correio do Povo”, da vizinha Jaraguá. Aos 18 anos, mudava-se para Joinville, em busca de oportunidades de trabalho e novos horizontes. Encontrou, trabalhando na Consul e no Bradesco e escrevendo colunas de música e literatura no “Jornal de Joinville” e depois em “A Notícia”.

Alguns anos depois, com a transferência da mãe para São Francisco do Sul, também o filho pediu ao Bradesco uma vaga na vizinha cidade. E lá foi Luiz Carlos Amorim iniciar uma nova fase na vida – a começar pelo emprego, ao ser aprovado em concurso do Banco do Brasil.

 

“Percebi que a escrita seria o vetor da minha carreira desde criança, quando venci um concurso de redação no colégio, com o tema ‘Portugal, meu avozinho’. Até então, sonhava em ser padre ou professor de português”

 

A Ilha, um sonho concretizado
Amorim fazia a ponte rodoviária com Joinville todos os dias, para comparecer às aulas na Faculdade de Letras da Furj (atual Univille). Foi naquela época que publicou seu primeiro livro, “Velhas Histórias Jovens”, de contos. Após mais três incursões como contista, experimentou a poesia. “Quem me convenceu a colocar meus poemas em livro foi o também poeta Alcides Buss, meu professor na Furj”, conta Amorim, que já contabiliza 28 livros, entre contos, poemas e crônicas. Em 1982 o escritor retornou a Joinville, e há 12 anos estabeleceu-se em Florianópolis, onde continua editando o suplemento literário A Ilha, que chega aos 33 anos.

O suplemento, por sinal, ocupa a maior parte do coração de Luiz Carlos Amorim. “Inúmeros escritores, de vários estados e de outros países, passaram pelas páginas do nosso suplemento”, comemora o fundador do Grupo Literário A Ilha. O grupo marcou presença durante muitos anos na Feira de Arte e Artesanato de Joinville, expondo seus poemas no Varal Literário.

Na crônica “O rio da minha cidade”, que dá título ao livro lançado na Feira (menção honrosa no prêmio literário Cidade de Manaus em 2011), Amorim escreve: “No poema ‘O Rio da Minha Cidade’, do livro ‘Meu Pé de Jacatirão’, publicado no início dos anos 90, eu já lamentava a morte do rio Cachoeira. (...) O rio está morto porque o veneno maior que é jogado nele é o desprezo, o descaso, a irresponsabilidade”.

Este livro e mais dois, “Nação Poesia” e “Borboletas nos Jacatirões”, serão lançados no 27º Salão do Livro de Genebra, na Suíça, em maio. Amorim vai aproveitar a viagem à Europa para visitar a filha Daniela, em Lisboa, onde cursa mestrado em dança; a outra filha, Fernanda, fisioterapeuta, mora em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Ambas são frutos das duas décadas que Luiz Carlos Amorim viveu em Joinville. Finalizando, ele antecipa: “Já está saindo do forno meu 29º livro, ‘Natal de Sempre’, com contos natalinos”.


Administrador em quadra

Campeão. Aldo fez carreira como executivo e ganhou títulos no basquete
Rogério Souza Jr/ND

 

Para recordar. Aldo exige troféus que colecionou ao longo da carreira

 

A biografia de Aldo Luiz Marquardt pode ser dividida em dois grandes capítulos: o executivo que fez carreira em diversa empresas de Santa Catarina, São Paulo e Paraná e o jogador de basquete integrante da primeira geração de ouro deste esporte em Joinville. “Defendi várias camisas, mas a primeira e que vesti mais tempo foi a do Palmeiras, com a qual alcancei as maiores conquistas”, conta Aldo, hoje aposentado e morando num tranquilo condomínio no bairro Vila Nova.

Nascido em Joinville em março de 1945, Aldo Luiz passou a infância no Bucarein, onde se encontravam as ruas São Paulo e São Pedro (atual Ministro Calógeras). Caxiense de terceira geração, também jogou bola pelos campinhos hoje existentes apenas na memória. Mas foi atraído pelo basquete e com 12 anos já integrava a equipe infantil do União Palmeiras, sob o comando do técnico – e jogador do time principal – Mima (que o leitor conheceu na edição do dia 1).

A carreira profissional de Aldo Luiz Marquardt começou aos 19 anos, em São Paulo, no extinto Banco Lar Brasileiro. “Formei-me em administração de empresas e iniciei a de direito, mas não concluí, pois meu avô e meu pai queriam que eu voltasse a Joinville para trabalhar na empresa da família.” Assim, em 1968 o jovem Aldo Luiz entrava na empresa de tecelagem Martric – Tricotagem Alfredo Marquardt. Dois anos depois, transferia-se para a Confecções Almar, empreendimento criado pelo pai. Passou ainda pela Embraco, Wetzel, a fabricante paulista de porcas e parafusos Arno Bernardes, a paranaense Batavo e a catarinense Wiest, até se aposentar e dedicar-se a serviços de consultoria.

 

“Tive o privilégio de ser treinado por meu pai e de jogar ao lado de feras como Buba, Strohmeyer e Mima. Além de Cruzeiro e Ginástico, deixamos para trás Vasto Verde e Ipiranga de Blumenau, Doze de Agosto e Lira de Florianópolis e o Diocesano de Lages.”

 

Talento com a bola
Já na primeira competição de que participou, o campeonato citadino infantil de 1958, Aldo foi campeão. “Jogamos contra Cruzeiro, Guarani e Glória. Neste último jogava Ivo Krelling, que depois veio para o Palmeiras”, informa. Quando morava em São Paulo, Aldo jogou pelo infantil do Instituto Mackenzie, onde estudava. No tempo da faculdade de administração, na Universidade Federal do Paraná, defendeu o Clube Curitibano. Como juvenil, foi campeão dos Jogos do Interior do Paraná pela seleção de Curitiba. “Participei também de diversas competições universitárias em São Paulo, antes de retornar a Joinville e ao União Palmeiras.”

Com a camisa verde-e-branca, foi campeão catarinense adulto em 1968, sob o comando do próprio pai, também chamado Aldo. “Tive o privilégio de ser treinado por meu pai e de jogar ao lado de feras como Buba, Strohmeyer e Mima. Além de Cruzeiro e Ginástico, deixamos para trás Vasto Verde e Ipiranga de Blumenau, Doze de Agosto e Lira de Florianópolis e o Diocesano de Lages.” No mesmo ano, Aldo jogou pela Seleção de Joinville, campeã dos Jasc disputados em Mafra.

Em 1970, Aldo e Ivo foram convocados para a seleção catarinense, para a disputa do campeonato nacional, no Rio Grande do Sul. “Um dos nossos companheiros era Aldo Kuerten, pai do Guga. O time de São Paulo era praticamente a base da seleção brasileira, com Vlamir Marques, Rosa Branca, Ubiratã e outras feras. Não era fácil ganhar deles.”

Aldo colecionou os títulos do citadino adulto, pelo União Palmeiras, de 1968 a 72. Seu último caneco foi pela Seleção de Joinville, nos Jogos Abertos de 1975, em Chapecó. “Atualmente  jogo todas as quintas-feiras, na Tigre, só para manter a forma e me divertir.”

 


Crochê sem óculos

História. Dona Wally vê, da varanda, o passado do seu bairro Glória
Luciano Moraes/ND
Moldura em amarelo. Wally passa tardes entre fios e agulhas, tecendo toalhas ou fazendo bainhas de crochê

 

 

A expressão é séria, compenetrada; a um passante desavisado, pode até parecer sisudez, mas é a atenção toda voltada ao rápido movimento das mãos, dando os pontos precisos em mais uma toalhinha ou outro enfeite de crochê. É o que ela mais faz nos dias atuais, para passar o tempo na varanda. Detalhe: ela não usa óculos, por mais delicado que seja o trabalho. E daí? O que há de mais em fazer crochê sem óculos? – poderia perguntar o exigente leitor. Detalhe número dois: no dia 1º de maio Wally Giffort Bibow vai completar bem vividos 94 anos. “Vierundneuzig jahre”, frisa, no alemão cada vez mais frequente em suas conversas, como numa volta ao passado, quando o idioma era o mais comum ali no Glória onde ela nasceu e passou toda a vida.

Durante a entrevista, é imprescindível a colaboração do filho Kurt, 71 anos, dando as informações e traduzindo as respostas de frau Bibow, quando só ela se lembra de alguns fatos. “De uns tempos para cá – reforça a nora Helena – ela só fala em alemão, e o pior é que eu também não entendo.” Tirando esta peculiaridade e a natural dificuldade para se locomover, dona Wally sempre gozou de boa saúde. “Acho que eu tomo mais remédios que ela”, brinca Kurt, irmão mais velho de Mário, únicos filhos de Ricardo e Wally Bibow, algo incomum numa época em que as proles generosas eram a regra – o pai de Kurt, por exemplo, tinha seis irmãos.

Kurt tem boas lembranças da infância, passada na casa ao lado de onde mora hoje, na esquina das ruas Marechal Hermes e Jaú, no coração do Glória, um dos bairros mais tradicionais de Joinville. “Por aqui – relembra – tinha a nossa casa e mais algumas, além da olaria do meu avô, onde eu e meu irmão costumávamos brincar. A família era dona de uma grande área por aqui, que foi sendo desmembrada aos poucos.”

 

 

Deutsche Schulle e coral da igreja

Wally estudou na Deutsche Schulle, que se transformou no Colégio Bom Jesus após a Segunda Guerra, quando o governo mandou eliminar qualquer referência à Alemanha. Nesse ponto, ela conta alguns detalhes, mas ressalta que a família Giffort não enfrentou tantos problemas, por causa do dialeto: “Falávamos o plattdeutsch, e a polícia não incomodava” (o baixo-alemão, niederdeutschplattdeutsch ou plattdüütsch, é um idioma regional falado no Norte da Alemanha e no Leste dos Países Baixos. É parecido com o inglês, o que confundia as autoridades na época da campanha de nacionalização). Em compensação, para os Bibow a situação ficou difícil: “Meu pai chegou a ser preso, só por falar alemão”, conta Kurt.

No processo de desmembramento das terras, o avô de Kurt, Frederico, doou o terreno onde se ergue a igreja luterana Cristo Redentor, no outro lado da rua. “Toda a família ajudou na construção da igreja, e até dois anos atrás, minha mãe ainda participava do coral. Atualmente, ela só vai aos cultos em alemão”, acrescenta Kurt.

Os dois filhos deram a Wally e Ricardo Bibow (falecido há 27 anos) quatro netos e cinco bisnetos. A família só lamenta ter que deixar, em breve, o local ocupado há cinco gerações, quando as obras de prolongamento da Max Colin passarem por ali. Restarão as boas lembranças da velha olaria e de uma Joinville que fica no coração. Enquanto isso, dona Wally vai tecendo seu crochê e deixando que sua mente volte ao passado – in deutscher sprache (em alemão).

Perfil sugerido pela leitora Marlene Seiler.


Jogada com vitória certa

Bom exemplo. Empresário empresta sua habilidade em favor de clube, do futebol amador e programa social para garotos
Carlos Junior/ND
Recompensa.  Pedro Medeiros exibe a bandeira do time do coração, o Pirabeiraba

 

 

Líder de um conglomerado empresarial caracterizado pelo mais autêntico regime familiar, Pedro Medeiros de Farias é bem visto em Pirabeiraba e outras partes de Joinville por sua habilidade nos negócios e por seu envolvimento com causas sociais e esportivas. Atual presidente da Sociedade Guarani e do Pirabeiraba Futebol Clube, ele consegue desempenhar as funções nas duas entidades sem atrapalhar os negócios da família. “Os negócios também não atrapalham meu desempenho como presidente do Guarani e do Pirabeiraba. O segredo para não prejudicar nenhuma das partes é trabalhar organizado e profissionalismo”, ressalta.

Envolvido há 22 anos com o futebol amador, Pedro admite já ter colocado mais de uma vez dinheiro do próprio bolso para ajudar o Pirabeiraba Futebol Clube. “Futebol amador é uma opção de lazer sadia e por isso me sinto gratificado em poder ajudar”, assinala bem humorado.

Ao assumir a presidência da Sociedade Guarani, em cujo campo o Pirabeiraba disputa seus jogos quando mandante, Pedro criou uma escolinha de futebol para garotos com idade entre 7 e 14 anos. “Precisamos afastar os meninos das ruas, onde o perigo das drogas é constante. Revelar novos jogadores é bom mas, o mais importante é ajudar a encaminhar nossos garotos  para a vida por meio do esporte”, enfatiza.

Empresário dinâmico, Pedro cunhou sua marca na Sociedade Guarani ao imprimir novo ritmo à agremiação. Com campo de futebol de tamanho oficial, dois campos de futebol suíço, duas piscinas (adulto e infantil), cancha de bochas, hidroginástica, natação e salão de bailes, de quebra no Guarani, de segunda-feira a sábado, é servido almoço com cardápio da cozinha colonial que tanto distingue a gastronomia de Pirabeiraba.  Em breve a agremiação vai oferecer sessões de hidroterapia - conjunto de exercícios na água essenciais em determinados casos para a recuperação física de pessoas de qualquer idade.

 

 “Futebol amador é uma opção de lazer sadia e por isso me sinto gratificado em poder ajudar”

 

Olaria edificou os negócios da família
A ramada dos Medeiros de Farias se estabeleceu em Joinville em 1968 quando patriarca Delfino Antônio Francisco, ou o Major, como era conhecido, trouxe a família de Tubarão para trabalhar em uma olaria que acabara de alugar na localidade de Morro Cortado, na rua Dona Francisca.  Com toda a família trabalhando junto, dois anos mais tarde Major conseguiu comprar a olaria.

Passados alguns anos Major e os filhos começaram a diversificar as atividades ao abrir a Terraplenagem Medeiros. Mais um pouco de tempo a olaria foi fechada, para em seu lugar entrar em funcionamento uma fábrica de artefatos de cimento. Hoje, além da terraplenagem e dos artefatos, os Medeiros de Farias contam com mais duas empresas: a Farias Administradora de Bens e uma fábrica de reciclagem do sólido da construção. “Foram cinco anos para conseguir todas as licenças ambientais, mas compensou o esforço; reciclar é sempre bom para melhorar o meio ambiente”, ressalta Pedro.

Para tocar os quatro empreendimentos Pedro trabalha em parceria com três irmãos e uma cunhada, cada um ocupando uma função estratégica no conglomerado familiar.   

Casado com dona Denise, pai de dois rapazes e duas moças e por enquanto avô de um menino, Pedro é, aos 57 anos de idade, um senhor que esbanja vitalidade. Por isso, quando na Sociedade Guarani o movimento fica mais apertado é comum encontrá-lo atrás do balcão ajudando a servir a freguesia com uma disposição de fazer inveja a muito marmanjo em pleno verdor da juventude.  (Herculano Vicenzi, Especial para o Notícias do Dia)


As mulheres do Leblon

Guerreiras. Duas gerações de mulheres comandam supermercado no Iririú
Mauro Schlieck/ND
No trabalho. Nagíbia, Valíria e a mãe, Noêmia trabalham juntas e dedicam ao empreendimento o mesmo amor de família, por isso, conhecem clientes pelo nome

 

 

Não, elas não são as meninas do Leblon, que não olham mais pra mim porque eu uso óculos, como reclamavam os Paralamas do Sucesso na canção “Óculos”. Estas mulheres enxergam todas as pessoas da mesma forma, usem óculos ou não. Elas são Noêmia Fortunato Rosa, 56 anos, e suas filhas Valíria e Nagíbia. Ou simplesmente Noema, Val e Nagi, as mulheres que comandam o Supermercado Leblon, um ponto de referência no bairro Iririú, pertinho da Sociedade Alvorada. “Nós temos amor pelo negócio que meu marido iniciou, e formamos uma equipe em família”, diz Noêmia, envergando, como as filhas, a camisa verde com detalhes em azul que identifica todos que trabalham no mercado.

A história dessas guerreiras começa na cidade de Armazém, no Sul do Estado, onde nasceu Manoel da Silva Rosa. Em 1975, já casado com Noêmia Fortunato, Manoel decidiu iniciar nova vida em Joinville. “Aqui – explica Noema, como era carinhosamente chamada pelo marido – havia melhores perspectivas de trabalho, diferente da nossa cidade, limitada à agricultura.” Em Joinville, Manoel logo arranjou emprego, primeiro no setor de verduras e no açougue do antigo Supermercado Riachuelo. Depois, trabalhou na quitanda de João Sell – ainda hoje em plena atividade na rua São Paulo (Sell foi Perfil em maio do ano passado).

Com a experiência adquirida nos dois estabelecimentos, Manoel decidiu partir para o negócio próprio, adquirindo o mercado Audi, pertencente à rede do Riachuelo e que operava no segmento mais popular. “O mercado ficava perto de onde morávamos, no Itaum, ao lado da Farmácia Coradelli. Demos o nome de Mercado Joinvilense. Depois tocamos um bar e lanchonete na rua Santa Catarina, perto da praça Tiradentes”, conta Noêmia. A essa altura, as novas raízes do casal se fortaleciam com as joinvilenses Valíria, nascida em 1976, Zulair, um ano mais nova, e a caçula Nagíbia, de 1985.

 

“Nós temos amor pelo negócio que meu marido iniciou, e formamos uma equipe em família”
Noêmia Fortunato Rosa

 

Rumo ao Iririú
Há 13 anos, a família dava um salto mais alto, montando um supermercado na movimentada rua Iririú, 1218, bem no coração do bairro. E por que o nome Leblon? Val explica: “Na verdade, meu pai queria um nome que juntasse sílabas dos nomes das minhas filhas, Bruna e Larissa. Mas Brular não soava bem. Então ele se decidiu por Leblon, por causa de uma novela que passava na época e era ambientada naquele bairro”.

Há cinco anos, a família sofria o abalo de perder o patriarca e empreendedor, vitimado por complicações cardíacas. Longe de se abater, porém, Noêmia, Val e Nagi, que já trabalhavam no mercado, decidiram seguir em frente – Zulair já seguia outro rumo profissional. “Mamãe ficou com a administração e nós duas nos revezamos entre escritório e caixas”, detalha Val. Seu marido Jerônimo divide o atendimento no açougue, com mais um funcionário; outras cinco mulheres completam o time de dez pessoas que torna o Leblon um dos mercados preferidos das famílias do Iririú. Nos finais de semana, a equipe recebe o reforço de Bruna, hoje com 16 anos, terceira geração de mulheres do Leblon. Larissa, com 7, e Victoria Noemi, de 5, filha de Nagi, por enquanto só se dedicam a ficar por perto quando não estão na escola – ocasionalmente, cuidam do controle de qualidade das guloseimas.

O Leblon é o típico mercado familiar de bairro, onde os clientes são conhecidos pelos nomes. “Temos até fregueses de caderneta”, complementa Val, atestando a fidelidade da clientela. O Leblon atende todos os dias da semana, das 8 às 20h (domingos até o meio-dia). E, como tradicional mercado de bairro, fecha das 12 às 14h, horário sagrado do almoço e do descanso das guerreiras.

Perfil sugerido pelo leitor Nelson Eisenhut.


Da avenida Cuba para o Sesc

Carreira. Adriano Pessoa completa vinte anos de atuação no Sesc Joinville
Luciano Moraes/ND
Segundo lar. Professor de educação física, Adriano chegou a gerente geral da unidade do Sesc de Joinville

 

 

Adriano poderia ser jogador de futebol profissional, já que talento e vontade não lhe faltavam. Desde criança, sempre correu atrás da bola, seja nos inúmeros campinhos que existiam na região do Bucarein onde se criou – especialmente os da “avenida Cuba” –, seja defendendo o São Luís ou o juvenil do JEC. Ainda hoje, já quarentão, joga futsal pelo menos duas vezes por semana, com grupos de amigos. “Chegou uma hora – conta o atual gerente da unidade joinvilense do Sesc – que eu precisava escolher entre a bola e a continuidade dos estudos.” Resultado: enquanto os campos perdiam um lateral-direito promissor, a faculdade de educação física da Univille ganhava mais um aluno.

Adriano Koenig Pessoa nasceu em 1969 e criou-se no Bucarein, onde os pais se estabeleceram ao deixar Tubarão. “Nem cheguei a conhecer meu pai, que morreu num acidente de trânsito quando eu ainda era bebê. Fui criado pela minha mãe e pela avó.” Filho único, considerava como irmãos os primos e os muitos amigos que angariou, tanto nos campinhos, quanto no Colégio Elias Moreira, onde fez toda a carreira escolar. Uma das primeiras camisas que Adriano envergou foi a do São Luís, clube que tinha seu campo ao lado do colégio. Adolescente, jogou nas categorias de base do JEC, no tempo de Pingo e Everaldo, companheiros de peladas na avenida Cuba (um prolongamento da rua Coronel Francisco Gomes). “Jogar no JEC foi a realização de um sonho, pois era o meu time do coração. Eu tinha 7 anos quando o clube foi fundado, e testemunhei parte da história, pois morava nas proximidades do Ernestão e era amigo do Roger, filho do Alcino Simas, o primeiro técnico tricolor”, relembra Adriano.

A carreira futebolística, porém, passou para segundo plano quando Adriano chegou à idade de escolher uma profissão que lhe garantisse o futuro. E este futuro não usava a camisa 2.

 

 “O mais prazeroso, para um professor, é ser reconhecido pelos antigos alunos.”

 

No Sesc, um novo lar
Numa época em que os computadores começavam a ser ferramenta comum de trabalho, processamento de dados parecia ser a carreira mais promissora. “Realmente – conta Adriano – eu pensava em aprender informática. Ao mesmo tempo, queria continuar ligado ao esporte.” Ele acabou optando por fisioterapia; passou no vestibular, mas nem chegou a iniciar o curso. Os acontecimentos se precipitaram: “Em 1993 comecei a trabalhar no Sesc, como auxiliar administrativo, responsável pelo ginásio, ainda no tempo da rua Aubé. Casei-me no ano seguinte e fui fazer educação física”.

Formado em 1999, Adriano deu aulas em alguns colégios, mas sem deixar as funções no ginásio do Sesc. “Acompanhei toda a construção da unidade nova, na rua Itaiópolis. Foi uma emoção mudar das acanhadas instalações da Aubé para este novo espaço, amplo e mais completo.” Na mudança, em 1997, Adriano assumiu a coordenação da parte esportiva. Em 2010, enfim, ocupou a sala de gerente geral da unidade. “Devo muito ao antigo supervisor, Manoel Goudinho, que me ensinou o trabalho e por quem sempre tive amizade e respeito.” Goudinho, figura conhecida nos meios esportivos da cidade, faleceu em 2009.

Satisfeito com o rumo da carreira, Adriano guarda boas recordações dos velhos tempos da rua Aubé e de quando dava aula. “O mais prazeroso, para um professor, é ser reconhecido pelos antigos alunos”, garante. Hoje, além de administrar o complexo do Sesc, Adriano também é usuário, batendo bola todas as sextas-feiras com o Grupo dos 16; às terças, joga com a turma do Saideira. Um dos companheiros de futsal é o filho Junior, de 15 anos. “O garoto é muito bom de bola!”, exalta o pai. Experiência para avaliar não lhe falta.

 

Recado
Adriano Pessoa avisa: o Sesc tem vagas no PES (Programa Esportivo Social), que mantém escolinhas de esportes para crianças de famílias carentes. E a unidade Joinville abre as portas para a comunidade aos domingos, com todas as atividades à disposição, de graça. Informações pelo 3433-3100.


O sentido da vida cristã nas ações

Religiosidade. Moradora do Vila Nova ensina que são nas atitudes que se mantem a paz e a harmonia
Luciano Moraes/ND
Altar em casa. Dona Lúcia é devota de Nossa Senhora de Lourdes, a padroeira de uma gruta, no Sul do Estado, onde participou de missa horas antes de se casar

 

 

Dois jovens de Treviso, cidade do Sul do Estado colonizada por imigrantes italianos, já estavam com as vestes de noivos algumas horas antes do casamento ocorrido no dia 11 de fevereiro de 1960. Movidos por fervorosa fé no cristianismo, antes de sacramentar a união, eles foram a uma gruta consagrada a Nossa Senhora de Lourdes onde participaram de uma missa. Terminada a celebração, dirigiram-se à igreja matriz, onde ao lado de outros dez casais de noivos ocorreu a cerimônia do enlace matrimonial.  Essa história é contada com saudade e bom humor por dona Lúcia Possenti Tasca, a noiva que foi à gruta de véu e grinalda ao lado do noivo, Olavio Tasca.  

Viúva de Olavio há nove meses, com o qual teve sete filhos, dona Lúcia conta que transmitiu à família os valores do cristianismo dando exemplos na prática. “Só da boca para fora não vale nada. O verdadeiro cristão pratica os ensinamentos do Evangelho com ações”, enfatiza.   Cristã da linha que preserva tradições como abstinência de carne vermelha na Sexta-Feira Santa, para ela a Páscoa é uma data tão importante quanto o Natal. “No Natal, celebra-se o nascimento de Jesus, enquanto que a Páscoa, sua ressurreição. Por isso, para mim são duas datas que se misturam e merecem muito respeito”, salienta.

Franca e direta, dona Lúcia ressalta que na atualidade os verdadeiros valores da Páscoa, assim como acontece com o Natal, são trocados pelos mais jovens por festas recheadas de exageros. “Boa parte da perda desses valores é culpa dos pais, que não estão sabendo transmitir aos seus filhos o que aprenderam quando eram moços”, assinala.

Dona Lúcia lembra que, quando seus filhos eram pequenos ,na Páscoa, preparava cestas com cascas de ovos recheadas de amendoim e comprava alguns coelhinhos de chocolate. “Mas meu Olavio e eu sempre ensinamos que o mais importante da Páscoa é rezar e agradecer a Jesus Cristo por ter vindo ao mundo para salvar a humanidade. Graças a esses ensinamentos tenho uma boa família, o que me deixa extremamente feliz”.

 

“Sempre ensinamos que o mais importante da Páscoa é rezar e agradecer a Jesus Cristo por ter vindo ao mundo para salvar a humanidade. Graças a esses ensinamentos tenho uma boa família, o que me deixa extremamente feliz”

 

Fé e disposição
Dona Lúcia e o marido se estabeleceram no bairro Vila Nova há 16 anos para ficar perto de cinco filhos já residentes em Joinville. Em breve uma filha, que mora em Porto Alegre também chegará a cidade. “Ela até comprou um apartamento aqui e por isso não vejo a hora de ela chegar para então ter todos os filhos por perto novamente”, comemora toda faceira.

Diabética e com um histórico de quatro fraturas no fêmur direito, dona Lúcia não se entrega. Embora caminhe com um pouco de dificuldade, ela não é de perder a missa dominical e muito menos as celebrações da Páscoa e do Natal.

De uma disposição invejável, aos 70 anos de idade ela continua cultivando uma horta de temperos para garantir deliciosas refeições da cozinha típica italiana. “Estar com os filhos na igreja e ao redor de uma mesa são coisas que me dão vontade de continuar vivendo com alegria”, diz a disposta nona do bairro Vila Nova.  (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Compromisso com a criança

Homenagem. Medalha coroa uma carreira de trinta anos a serviço do ensino
Luciano Moraes/ND
Educação. No CEI Dia Feliz, que fundou com o marido e hoje administrado pelas filahs, Olívia presta uma espécie de consultoria 

 

 

“Aqui temos dois compromissos importantes, que norteiam todo o nosso trabalho: educar e cuidar das crianças que os pais nos confiam, sendo um complemento do que elas recebem em casa.” É dessa forma que Olívia Michels de Souza define a filosofia de trabalho do Centro de Educação Infantil Dia Feliz, empreendimento criado por ela há quase 13 anos no bairro Paranaguamirim. No ano passado, Olívia aposentou-se do serviço público, depois de três décadas como professora e diretora de CEIs municipais. Tal dedicação lhe rendeu o respeito da comunidade e, no mês passado, a Medalha de Mérito Mulher Joinvilense indicada pela bancada do PT.

Natural de Salete, no Alto Vale do Itajaí, 51 anos, Olívia Michels de Souza não imaginava, quando criança, ser professora. Mas sempre cultivou o desejo de ser útil: “Todos os filhos ajudavam a mãe no trabalho da lavoura de subsistência, e os mais velhos cuidavam dos mais novos”. Oitava de 11 irmãos, também ela enfrentou estes desafios: “Foi uma infância de muito trabalho, mas também de diversão e responsabilidade”.

Adolescente, em 1979 Olívia chegava em Joinville, onde já morava uma irmã. Fez o então segundo grau no Colégio Bom Jesus, local de outra importante etapa da vida: “No colégio conheci um colega de classe, por quem me apaixonei. Foi meu primeiro namorado. Alguns anos depois, nos casamos”. Formada, Olívia fez um curso de telefonista e trabalhou algum tempo na recepção do Hospital Dona Helena. Mas o desejo da infância ainda ecoava: “Eu queria fazer algo que me tornasse mais útil perante a sociedade, que pudesse beneficiar as pessoas”. Decidida, fez a faculdade de pedagogia na ACE e foi dar aulas para as séries iniciais.

 

 

Divulgação/ND
Sessão especial. A professora Olívia quando recebeu a Medalha de Mérito Mulher Joinvilense, com os vereadores Lioilson Correia (E) e Manoel Bento

 

 

Sonhos realizados
Aprovada em concurso público da Prefeitura, Olívia fez sua estreia como professora na EM Ada Santanna da Silveira, no mesmo Paranaguamirim em que residia. Sete anos depois, foi para o Ceri (antiga denominação dos Centros de Educação Infantil) do Jarivatuba. Em pouco tempo, era promovida a diretora, inaugurando e assumindo o CEI do Paranaguamirim. Ali permaneceu vinte anos, até se aposentar, em janeiro de 2012.

Um passo decisivo na carreira foi dado em 2008, quando Olívia e o marido Acir Caetano fundaram o CEI Dia Feliz. Falecido há seis anos, em decorrência de um câncer, foi Acir quem escolheu o nome do estabelecimento. “Ele queria simbolizar no nome aquilo que as crianças deveriam ter sempre, dias felizes”, lembra Olívia.

Pós-graduada em psicopedagogia e especializada em psicanálise, Olívia hoje é uma espécie de consultora do CEI, administrado pelas filhas – e ex-alunas – Caroline, encarregada da secretaria, e Priscila, diretora (no dia da entrevista, Priscila estava numa reunião do Núcleo de Educação Infantil da Ajorpeme, que ela preside). “Assim como minhas filhas – diz Olívia –, há outras ex-alunas que hoje trabalham comigo. É um prazer imenso quando sou reconhecida na rua por pessoas que passaram pelas minhas salas de aula.”

A medalha concedida pela Câmara, para a professora, é “um reconhecimento ao trabalho de uma vida, um motivo a mais para me sentir valorizada profissionalmente”. Hoje, Olívia Michels de Souza e sua equipe de 15 pessoas recebem 93 crianças, a quem procura oferecer educação e ensino, tornando seus dias felizes.


Um homem de muitas funções

Experiência. Das lavouras para a construção e à enfermaria do Bethesda, e agora de volta ao campo, Marcos Letzner tem história para contar
Rogério Souza Jr/ND
Consideração. Marcos orgulha-se de todas as profissões que exerceu, mas tem carinho especial pelo Bethesda

 

 

Morador da margem esquerda da BR-101 no sentido Norte, Marcos Letzner é, aos 78 anos de idade, um disposto cidadão de uma biografia marcada por diversas profissões. Nascido na comunidade de Estrada Anaburgo, na região do bairro Vila Nova, no tempo em que o lugar era essencialmente agrícola, na adolescência ele foi produtor de arroz irrigado.

Ao sair das lavouras, aprendeu o ofício de pedreiro e trabalhou por algum tempo na cidade. Ao se casar, mudou-se para a Estrada Cubatão Raabe, em Pirabeiraba, onde pouco tempo depois largou o trabalho de pedreiro para retornar às lavouras, dedicando-se ao cultivo de cana-de-açúcar e corte de lenha.

Além de produzir, ele levava de carroça a cana-de-açúcar até a usina de Pirabeiraba. Nessa mesma época, picava a transportava lenha para abastecer fogões caseiros na região central de Joinville.

Foi na época de transporte de cana-de-açúcar e lenha que, ao ser solicitado pelos construtores do Hospital Bethesda , Marcos cortou e forneceu a madeira dos andaimes que possibilitaram o levantamento das paredes do prédio.

Bom de memória, ele lembra que, após o termino da cobertura, a construção ficou parada por algum tempo devido à falta de recursos. “Quando veio da Alemanha uma boa ajuda, as obras foram reiniciadas e, aí, fui convidado pelo amigo Leopoldo Kunde para ajudar na conclusão do hospital. Voltei à profissão de pedreiro e trabalhei durante um ano e meio até tudo ficar pronto, em 1969. Minha principal participação na obra foi a instalação do sistema hidráulico, inclusive com torneiras de água quente e fria”, descreve.

O Hospital Bethesda foi inaugurado em 1970. Passados alguns dias, Marcos foi surpreendido por Gisela Burger, irmã do pastor Hans Burger, ao convidá-lo para trabalhar no setor de enfermaria. Após um curso intensivo de treinamento, trabalhou por quatro anos e meio na área. Paralelamente, terminado o expediente na enfermaria, ele continuava mais algumas horas no hospital para fazer a manutenção das instalações.

Com tanto trabalho, acabou se sentindo estressado. Por sugestão de Gisela Burger, saiu da enfermaria para ficar na manutenção as instalações e, paralelamente acumular trabalhos burocráticos, como percorrer a rede bancária para receber e fazer pagamentos.  Ele se manteve em ambos os serviços até se aposentar há oito anos. 

 

“O Bethesda é minha segunda casa”
Dono de uma saúde de ferro, Marcos não quis saber de ficar parado após a aposentadoria. Desde então, administra uma granja se suíno pertence ao seu filho Romildo, veterano farmacêutico de Pirabeiraba. “Temos um plantel médio de 500 animais de boa linhagem genética, que vendemos a particulares e a abatedouros quando eles  atingem peso de 90 quilos. É porco de qualidade para ninguém botar defeito”, garante bem humorado. 

Casado com dona Angélica, pai de um casal de filhos, avô três vezes e bisavô outras tantas, Marcos se orgulha de todas as profissões já exercidas.  Mas gosta em particular de falar sobre sua trajetória no hospital. “O hospital  transformou-se em referência no cuidado carinhoso dos nossos doentes. Por ter trabalhado na sua construção, na enfermaria, na manutenção e na parte administrativa, para mim o Bethesda é  minha segunda casa”, assinala. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Seja agricultor, pedreiro, enfermeiro ou administrador, Marcos Letzner tem é história para contar


Rogério Souza Jr./ND
Marcos administra uma granja com plantel de 500 animais de boa linhagem

Morador da margem esquerda da BR-101 no sentido Norte, Marcos Letzner é, aos 78 anos de idade, um disposto cidadão de uma biografia marcada por diversas profissões. Nascido na comunidade de Estrada Anaburgo, na região do bairro Vila Nova, no tempo em que o lugar era essencialmente agrícola, na adolescência ele foi produtor de arroz irrigado.
Ao sair das lavouras, aprendeu o ofício de pedreiro e trabalhou por algum tempo na cidade. Ao se casar, mudou-se para a Estrada Cubatão Raabe, em Pirabeiraba, onde pouco tempo depois largou o trabalho de pedreiro para retornar às lavouras, dedicando-se ao cultivo de cana-de-açúcar e corte de lenha.
Além de produzir, ele levava de carroça a cana-de-açúcar até a usina de Pirabeiraba. Nessa mesma época, picava e transportava lenha para abastecer fogões caseiros na região central de Joinville.
Foi na época de transporte de cana-de-açúcar e lenha que, ao ser solicitado pelos construtores do Hospital Bethesda, Marcos cortou e forneceu a madeira dos andaimes que possibilitaram o levantamento das paredes do prédio.
Bom de memória, ele lembra que, após o termino da cobertura, a construção ficou parada por algum tempo devido à falta de recursos. “Quando veio da Alemanha uma boa ajuda, as obras foram reiniciadas e aí, fui convidado pelo amigo Leopoldo Kunde para ajudar na conclusão do hospital. Voltei à profissão de pedreiro e trabalhei durante um ano e meio até tudo ficar pronto, em 1969. Minha principal participação na obra foi a instalação do sistema hidráulico, inclusive com torneiras de água quente e fria”, descreve.
O Hospital Bethesda foi inaugurado em 1970. Passados alguns dias, Marcos foi surpreendido por Gisela Burger, irmã do pastor Hans Burger, ao convidá-lo para trabalhar no setor de enfermaria. Após um curso intensivo de treinamento, trabalhou por quatro anos e meio na área. Paralelamente, terminado o expediente na enfermaria, ele continuava mais algumas horas no hospital para fazer a manutenção das instalações.
Com tanto trabalho, acabou se sentindo estressado. Por sugestão de Gisela Burger, saiu da enfermaria para ficar na manutenção das instalações e, paralelamente, acumular trabalhos burocráticos, como percorrer a rede bancária para receber e fazer pagamentos.  Ele se manteve em ambos os serviços até se aposentar, há oito anos.

“O Bethesda é minha segunda casa”

Dono de uma saúde de ferro, Marcos não quis saber de ficar parado após a aposentadoria. Desde então, administra uma granja de suínos pertencente ao seu filho Romildo, veterano farmacêutico de Pirabeiraba. “Temos um plantel médio de 500 animais de boa linhagem genética, que vendemos a particulares e a abatedouros quando eles atingem peso de 90 quilos. É porco de qualidade para ninguém botar defeito”, garante. 
Casado com dona Angélica, pai de um casal de filhos, avô três vezes e bisavô outras tantas, Marcos se orgulha de todas as profissões já exercidas. Mas gosta mesmo de falar sobre sua trajetória no hospital. “Transformou-se em referência. Por ter trabalhado na sua construção, na enfermaria, na manutenção e na parte administrativa, para mim, o Bethesda é minha segunda casa”, assinala.


Um “bairro” que desapareceu

Memória. Jackson Edir Becker guarda lembranças de quando o Atiradores e o São Marcos absorveram a área do Salão Reiss

Rogério Souza Jr/ND

Marco. Jackson junto a Sociedade Cruzeiro Joinvilense, que no passado foi palco para os antigos freqüentadores do salão que deu origem ao nome da antiga localidade

 

Nascido perto do viaduto da rua Ottokar Doerffel, no tempo que a região hoje ocupada pelos bairros Atiradores e São Marcos se chamava Salão Reiss, Jackson Edir Becker é uma boa fonte de consulta para interessados em conhecer detalhes da história daquela parte de Joinville. Criado atrás do balcão de um bar e mercearia da família, Jackson cresceu vivenciando a evolução do lugar. “Com a criação dos bairros Atiradores e São Marcos, no papel o Salão Reiss desapareceu oficialmente; mas não na memória da população, nem nos ônibus circulares que depois da criação dos bairros transitaram por décadas com a identificação ‘Salão Reiss’”, descreve.

Jackson acrescenta que o antigo nome do lugar originou-se do Salão Reiss, espaço de memoráveis bailes na rua Ottolkar Doerffel onde hoje fica o acesso a uma das unidades da empresa Buschle & Lepper. “Aquele salão foi alugado por muitos anos por duas sociedades, a Serra Azul e a Sociedade Joinvilense,  que mais tarde se fundiram , surgindo desse modo a Sociedade Cruzeiro Joinvilense, que hoje com sede na rua Doutor Sehrwald, no bairro Atiradores, se destaca por ser única da cidade onde é praticado tiro ao alvo modalidade seta e o tiro ao alvo com balas  de verdade”, detalha Jackson, bom conhecedor  da história da agremiação, da qual foi inclusive presidente no biênio 2006/07.

Sempre de bom humor, ele recorda que aos 14 anos de idade deixou o comércio dos pais para ir trabalhar no setor de expedição da Ciser. Mais tarde formou-se contador no colégio Elias Moreira e exerceu a profissão por algum tempo da Contábil Elmo. Foi nesse tempo que Jackson descobriu que sua vocação: vendas. Há mais de 20 anos na atividade, começou a trajetória no ramo de transportes de cargas, onde se mantém até agora. “Comecei na Transville e hoje estou na Transportadora Plimor”, assinala.

Por ser cria da região do antigo Salão Reiss, Jackson desfruta de grande popularidade entre as famílias tradicionais dos bairros Atiradores e do São Marcos. Na atualidade, são raras as pessoas que não o conhecem devido seu envolvimento com a Sociedade Cruzeiro Joinvilense e com a igreja luterana Castelo Forte, da rua Bagé. No caso da igreja, ele é o coordenador há mais de 25 anos dos famosos churrascos servidos em festas populares daquela comunidade.

 

Motivo especial para comemorar
Casado com dona Élia, pai de um casal de filhos, Jackson tem um motivo especial para comemorar. Por questões genéticas e de alimentação errada, ele enfrentou problemas de sobrepeso desde a adolescência, chegando a pesar 158 quilos. Há um ano e três meses ele se submeteu a uma cirurgia de redução do estomago e hoje está com 90 quilos. “Já tirei das costas 68 quilos e me sinto leve e solto como um passarinho. O excelente resultado, que fique bem claro, não é nenhuma mágica. É fruto de rigorosa obediência às orientações de uma equipe multidisciplinar do hospital regional Hans Dieter Schmidt, que dá assistências a portadores de obesidade mórbida, uma doença que não tem cura, mas que pode ser controlada”, enfatiza.

Jackson faz um alerta às pessoas que estão pensando em se submeter a cirurgia de redução de estômago. “É preciso se preparar psicologicamente e seguir as orientações médicas. Sabe-se que algumas pessoas que não levaram isso em conta acabaram descambando para a rede das drogas devido problemas de depressão. A cirurgia opera o estômago, não a mente, que deve estar bem preparada para se obter bons resultados como venho colhendo”,  ressalta o popular Jackson.  (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


A superação pela fé

Renascimento. Marlene Frade deu a volta por cima e hoje é uma vencedora

Carlos Junior/ND

Novo caminho. Hoje Marle coordena o escritório do Curso Bíblico Internacional Encontro com a Palavra e faz a leitura e triagem das cartas enviadas aos programas da rádio FM 107,5, emissora mantida pela Assembleia de Deus

 

Muitas pessoas encontram dificuldades na vida, sucumbem ao fracassar ante obstáculos aparentemente intransponíveis e chegam ao fundo do poço. Mas há muitos que, ao encontrar o fundo, utilizam-no como impulso para subir novamente; ou escalam as paredes e saem do poço. Marlene Frade pertence ao segundo grupo, dos que voltaram à superfície e reiniciaram a vida após uma série de reveses. Na escalada, ela se valeu da fé. “O vício do álcool levou à destruição da família e a uma vida sem sentido”, admite Marlene, que chegou a minar a própria resistência do organismo a ponto de ser hospitalizada. Amparada por fiéis da Assembleia de Deus, reavaliou hábitos e crenças e descobriu um novo sentido na vida. Hoje, coordena o escritório do Curso Bíblico Internacional Encontro com a Palavra e faz a leitura e triagem das cartas enviadas aos programas da rádio FM 107,5, emissora mantida pela Assembleia de Deus. Seu esforço de superação foi reconhecido no início de março, quando Marlene ganhou a Medalha de Mérito Mulher Cidadã Joinvilense edição 2013, concedida pela Câmara de Vereadores, indicada pela bancada do PSC.

Descendente de portugueses e italianos, Marlene Frade nasceu em Presidente Prudente, interior de São Paulo, em 1951. “Eu tinha 2 anos quando meu pai, que era comerciante, decidiu mudar-se para a capital”, conta Marlene, criada entre os bairros Tatuapé e Pompeia. Trabalhou algum tempo em escritório, até se casar. A essa altura, o vício já atrapalhava sua vida. Ela admite: “Eu era católica, mas relaxada, não frequentava a Igreja, não enxergava a palavra de Deus. O alcoolismo destruiu meu casamento, impediu que fosse mãe e estava acabando com a saúde”. Separada, mudou-se para uma pequena chácara que havia adquirido em Itajubinha, município de Barra Velha. Mas a queda para o fundo do poço era cada vez mais rápida.

Um renascimento
Hospitalizada, Marlene foi visitada por um grupo da Assembleia de Deus. “Foi Deus quem mandou aquelas pessoas me descobrirem”, afirma com certeza. Ali começou o renascimento: em 1998 Marlene vendeu a chácara, comprou uma casa no Fátima, em Joinville, e quatro anos depois conheceu uma pessoa que faria muita diferença em sua vida. “Fui apresentada ao pastor Pedro Paulo, que me mostrou um novo caminho na vida”, conta, referindo-se a Pedro Paulo Fernandes, pastor da Assembleia de Deus que atuou quase três décadas em Santa Catarina e hoje dá nome a um instituto.

Com o pastor, Marlene iniciou seu trabalho evangelizador, participando de grupos de visitas a hospitais e, principalmente, pregando entre os apenados na penitenciária industrial de Joinville. “Foi um período de grande aprendizado o tempo que passei levando a palavra de Deus aos presos. Muitos saíram de lá e iniciaram uma nova vida, como eu”, salienta. Com a morte de Pedro Paulo, em 2006, Marlene, que era sua “segunda”, assumiu funções de coordenação e o escritório da escola bíblica, na avenida Procópio Gomes. “No final do ano passado – acrescenta – precisei deixar os trabalhos de visitas, pois as funções no escritório absorvem a maior parte do tempo.” Ali, Marlene supervisiona a montagem e distribuição de Bíblias e lê as cartas encaminhadas à rádio. Já com os longos cabelos que caracterizam as mulheres da Assembleia de Deus, Marlene é grata aos “irmãos” que a acolheram e deram um novo significado a sua vida. “Foi o encontro com a palavra de Deus que fez a grande diferença na minha vida”, conclui Marlene, ainda emocionada e orgulhosa com a medalha ganha na solenidade do Dia Internacional da Mulher.


Folha de mamão vira chapéu

Homenagem. Dona Jóve ganha medalha pelas conquistas na escola da vida
Mauro Schlieck/ND
Devota. Dona Jove na capela da igreja São João Batista

 

 

“Trabalhar na roça não é fácil, meu filho. Na minha casa, todos precisaram engraxar o cabo da enxada. E se não tinha chapéu pra todo mundo, cobríamos a cabeça com folha de mamão.” É assim, com muito bom humor, que dona Jovercina Miranda da Silva Lopes relembra a dura infância trabalhando a terra em Barbacena, interior de Minas Gerais, onde nasceu há 91 anos. Os últimos 34 ela vem passando em Joinville, sempre no Jardim Iririú, onde angariou respeito da comunidade pela dedicação às causas sociais, especialmente na pastoral da família da paróquia São João Batista e na cozinha comunitária. Tanto empenho rendeu a dona Jóve, como é mais conhecida, a Medalha de Mérito Mulher Cidadã Joinvilense edição 2013, concedida pela Câmara de Vereadores.

Jovercina foi a terceira filha da prole do casal Miranda da Silva, que se dedicava ao cultivo agrícola em Barbacena; depois dela, ainda vieram mais cinco, completando o time de 11 irmãos (seis mulheres e cinco homens). “Meus pais – relembra dona Jóve – sempre foram arrendatários, trabalhando nas terras de outros. Éramos pobres, mas ninguém tinha medo do trabalho.” A necessidade de mão-de-obra familiar acabou impedindo que Jovercina pudesse sequer completar o estudo primário, mas forjou um caráter honesto e solidário, além de uma fibra invejável.

Quando ela tinha 24 anos, a família foi tentar a sorte nos cafezais do Paraná, estabelecendo-se em Sertaneja, cidade próxima de Londrina. “Lá o trabalho era melhor, rendia mais. Eu subia no pé de café e cantava”, lembra Jovercina. A lavoura cafeeira proporcionou melhores rendimentos à família, que alguns anos depois pôde comprar um sítio na cidade de Francisco Alves. Foi lá que Jóve se casou com Otávio Vicente Lopes, também filho de agricultores.

 

Da lavoura para a Tupy
Em 1979, o casal fez o mesmo caminho de tantos migrantes, trocando as plantações pela linha de produção de uma fábrica – a Tupy, como era comum naquele tempo de grande expansão industrial. Além da pouca bagagem, vinham seis filhos e alguns genros e noras. Uma das filhas, Maria Justine, já morava em Joinville com o marido Alexandrinho Comandolli. “Além de sogra muito querida, dona Jóve é minha comadre, pois é madrinha do meu filho Ademir”, acrescenta Alexandrinho, que visitava a sogra no dia da entrevista.

Os sete filhos deram a Otávio e Jovercina 17 netos e nove bisnetos, a maioria morando por perto da casa construída há 33 anos. Otávio morreu há 13 anos, e desde então dona Jóve mora com uma filha.

Católica devota, a mineira de Barbacena se integrou à comunidade do Iririú logo que chegou. Em 1995, o loteamento em que moravam se tornou o bairro Jardim Iririú. “Fiz parte da pastoral da família, chamada Canaã, desde que a paróquia São João Batista estava na igreja velha”, conta Jovercina, acrescentando que a família, obviamente, ajudou na construção do novo templo. Foi na paróquia, também, que ela se envolveu na instalação da cozinha comunitária da Fundação Pauli Madi.

Sobre a Medalha de Mérito Mulher Cidadã, dona Jóve se mostra grata pela lembrança do seu nome, pela bancada do PMDB, e tem uma certeza: “Foi a primeira que ganhei, e considero uma medalha ganha na escola da vida”.

 

Com a palavra
“A medalha é uma justa homenagem à dedicação solidária da dona Jovercina, tanto à própria família quanto sendo mãe e avó de tantas crianças atendidas na cozinha comunitária.”
Padre Luiz Facchini, criador e gestor da Fundação Pauli Madi


O Brasil de ponta a ponta

Bagagem. Como vendedor e promotor de publicidade, joinvilense percorreu cidades de 25 Estados
Mauro Schlieck/ND
Desfez as malas. Com o fim das viagens pelo país, Geraldo Furtado dedica-se a agência de publicidade Toolbox

 

 

Debruçada por sobre as margens do rio Araguaia, Babaçulândia é uma cidade com menos de três mil habitantes distante 400 quilômetros de Palmas, a capital do Estado de Tocantins. Mais detalhes sobre aquela cidade do Planalto Central podem ser obtidos com o joinvilense Geraldo Furtado. Dono da agência de publicidade Toolbox e construtor de imóveis, Geraldo é o que se pode chamar de especialista em singularidades que caracterizam grandes e pequenas cidades brasileiras. Com 30 anos de bagagem nas áreas de vendedor e promotor de publicidade, ele só não conhece um Estado do Brasil, Roraima, a terra dos ianomâmis.

Curioso e bom de memória, Geraldo é capaz de falar horas seguidas sem se repetir, descrevendo particularidades de riquezas naturais e culturais desconhecidas pela maioria dos brasileiros. Do rio Araguaia ele conta, por exemplo, que na época de estiagem o nível da água abaixa vários metros, formando-se então inúmeras ilhas, onde são montadas estruturas para explorar o ramo turístico. “São erguidos complexos onde se destacam restaurantes, bares e até espaços para shows musicais. Quando começa a temporada da chuva, tudo é recolhido para ser remontado no ano seguinte; é desse jeito que muita gente, ao longo do Araguaia, garante o sustento e prospera”, descreve Geraldo.

O experiente conhecedor de singularidades relembra que há muito tempo perdeu a conta de quantas cidades visitou pelo Brasil afora. E acrescenta que nunca se interessou muito em conhecer locais badalados pela mídia. “Sempre preferi conhecer particularidades pouco divulgadas, como um show de músicas típicas numa praça publica de São Luís, no Maranhão. Os tocadores de bumbo acendem no local pequenas fogueiras para secar o couro dos instrumentos a fim de lhes garantir melhor sonoridade. Acho aquilo fantástico, até parece  um ritual religioso”, narra  sem conter o riso.

Leitor voraz de livros clássicos, Geraldo aproveitava as viagens de trabalho para se deliciar também com o linguajar regionalista.  “É uma riqueza de se tirar o chapéu. Só para melhor explicar, palavras que são comuns no Rio Grande do Sul, soam estranhas no Pará. Em contrapartida, expressões corriqueiras no Pará, são completamente desconhecidas pelos gaúchos. Isso se chama diversidade lingüística, uma riqueza da qual o Brasil é um verdadeiro campeão por suas dimensões continentais e por ter recebido gente do mundo inteiro,” observa.

 

“Sempre preferi conhecer particularidades pouco divulgadas, como um show de músicas típicas numa praça publica de São Luís, no Maranhão.”

 

Revista 4 Rodas era o GPS
Geraldo destaca que em 30 anos de corre-corre pelo Brasil chegou a fazer 15 voos em pequenos e grandes aviões em apenas 17 dias. “Mas, o mais difícil era o deslocamento por terra. Naquele tempo o GPS dos viajantes era a revista 4 Rodas”,  relata sem conseguir segurar uma boa gargalhada.

Aos 56 anos de idade, Geraldo é casado com dona Sandra, pai de dois filhos e avô três vezes (dois pequerruchos e uma menininha).  Espirituoso e de conversa cativante, para ele viajar continua sendo um de seus passatempos preferidos “Viajo todos os fins de semana de Joinville até Barra Velha para aproveitar a praia em companhia dos familiares,” esclarece muito do divertido. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


De volta aos tempos do gasogênio

Sem lixo. Inventor de Joinville desenvolveu equipamento que transforma resíduos em combustível para automóvel
Rogério Souza Jr/ND
Engenhoca. Arno Streit ao lado da sua velha F-75 Ford Willys, onde está adaptado o processador de lixo que transforma lixo em gás

 

 

Sem destino para os sapatos velhos? Que tal abastecer o carro com eles e sair rodando por aí? Melhor: que tal encher o tanque com o lixo da cozinha? No filme “De Volta para o Futuro”, que fez um sucesso estrondoso nos anos 90, o ator Christopher Lloyd interpreta o doutor Emmet Brown, que impressiona o jovem Marty McFly, personagem de Michael J. Fox, quando põe cascas de banana numa turbina para gerar energia ao DeLorean, uma máquina do tempo em forma de automóvel. À época a cena parecia espetacular demais para ser verdade. Não para o inventor joinvilense Arno Streit, 80 intensos anos de idade.

De certa forma, ele e o doutor Brown têm muito em comum. Além da disposição, raciocínio rápido e inúmeros inventos, como um abridor de portas, há 30 anos ou mais seu Arno dedica os dias a aperfeiçoar o gasogênio instalado em sua velha F-75 Ford Willys, que vive guardada num galpão aos fundos de sua casa, na silenciosa rua Capinzal, bairro Saguaçu. Na engenhoca, bastante rudimentar mas eficiente, tudo vira combustível, com exceção de lixo molhado. Desde sapatos até sabugo de milho, semente de sombreiro, pneus e borracha, cavacos de madeira ou lixo seco, tudo se transforma em gás após dois minutos de combustão.

A invenção do dispositivo remonta aos anos 20, mas se popularizou na 2ª Guerra Mundial, quando houve escassez de combustível líquido, principalmente gasolina. Até os ônibus e carros de corrida usavam o esdrúxulo equipamento para rodar. Com o fim da guerra, o jovem Arno, então com 12 anos, plantou a idéia de construir seu próprio gasogênio, o que começou a fazer aos 50 anos. “Eu não inventei, modifiquei”, resigna-se.

Agora, três décadas depois, ele pensa na queima como a melhor alternativa para eliminar o lixo no futuro. “Pelo alto calor, que chega a 1000ºC, até a cinza vira gás. Lixo só serve para juntar mosca, barata, rato. É um criatório de doenças. Por isso aperfeiçôo o gasogênio, para ajudar a humanidade”, argumenta.

 

 

"Quero mostrar para o mundo e para o Brasil que é possível transformar todo tipo de material sólido em combustível, em gás, sem causar danos à natureza.”

 

De olho no futuro

Arno Streit prevê que o petróleo irá acabar e a mesma escassez vivida durante a guerra poderá causar transtornos novamente. “O futuro é a eletricidade. Já pensei em fazer um carro elétrico”, diz ele, que por enquanto se contenta com suas pesquisas e aperfeiçoamentos, principalmente para reduzir ainda mais a taxa de monóxido de carbono liberada pelo invento na atmosfera. Segundo ele, a emissão do gás poluente é baixíssima: 0,033%, conforme laudo da Universidade Federal de Santa Catarina.

Além de estudantes catarinenses, universitários da Flórida (EUA), também já teriam visitado a casa do inventor joinvilense para conhecer o gasogênio, que foi tema de documentário em um programa especializado sobre veículos. “Quero mostrar para o mundo e para o Brasil que é possível transformar todo tipo de material sólido em combustível, em gás, sem causar danos à natureza”, aponta, informando que a única desvantagem da combustão da lenha, por exemplo, é a geração de alcatrão. A cada 100 quilômetros é preciso “sangrar” a turbina.

 

Eureka

Quando sua mulher morreu, há três anos, seu Arno deixou o gasogênio de lado. Passou por depressão, solidão brava. De repente ... eureka, a luz se acendeu e ele voltou à vida novamente. Agora dança nos bailes, três vezes por semana. Sempre com a namorada, 21 anos mais nova. Por hobby, dedica-se à pesquisa do biogás e, principalmente do gasogênio. “Hoje tenho a energia dos meus 20 anos”, comenta, cheio de gás para “despoluir” o planeta.

Além das invenções, seu Arno também foi caminhoneiro por 30 anos e mecânico. Já curou um câncer de pele e foi o quarto brasileiro a implantar partes de osso do quadril na coluna, com fixação feita por grampos de platina, uma cirurgia cara, bancada do próprio bolso. Isso sem falar na cirurgia de catarata que também lhe consumiu recursos consideráveis.   

Ah, só para citar, seu Arno jura de pés juntos que sua F-75 é o único carro do Brasil com documentação para rodar com o gasogênio. Só não conseguiu patentear suas modificações para poder engarrafar o gás, o que está em seus planos para o futuro.


No rastro dos irmãos

Rádio. Operador de som se encantou e aprendeu o ofício ainda criança em uma emissora de São Francisco do Sul
Rogério Souza Jr/ND
Controles. Gelson Pedro nos estúdios da FM 105,1, que funciona junto ao Centreventos Cau Hansen

 

 

Algumas pessoas descobrem a profissão ainda na infância. Foi o caso de Gelson Pedro de Oliveira, o Negretin, operador de som de rádio há 41 anos. Nascido na cidade de São Francisco do Sul, ele se encantou com as cabines de rádio aos 10 anos e conta como isso ocorreu. “Meus irmãos Érico e Elisa eram os operadores da rádio Difusora, de São Chico, onde eu costumava ir constantemente para dar uma espiada no trabalho dos dois. Foi assim que me apaixonei pela profissão”, relata bem humorado.

Hoje com 53 anos de idade, Negretin lembra que sua estréia em cabine de som aconteceu de forma inesperada aos 12 anos de idade quando a irmã Elisa fraturou uma das clavículas e ficou impossibilitada de mexer com a aparelhagem. Para não ficar temporariamente afastada do serviço ela então confiou a Negretin a tarefa de manejar os equipamentos. “Ela mandava que eu fosse fazendo as coisas, como abrir o microfone, botar o disco e mais isso e mais aquilo. Atendo, eu fazia tudo direitinho e assim, bem antes de ela se recuperar do acidente, aprendi os macetes da profissão”, relembra entre risadas.

Já experiente operador de som, em 1975 Negretin mudou-se para Joinville ao ser contratado pela Rádio Cultura por indicação de seu irmão Érico, que estava na emissora já a um bom tempo. Depois da fase na Cultura, Negretin teve passagens pelas rádios Difusora e Colon. Em seguida trabalhou na Rossi Locadora de Som e na Pop Band. Na fase da Rossi e da Pop Band, paralelamente fez som para a Prefeitura de Joinville. Atualmente ele está nos estúdios da FM 105,1, onde trabalha ao lado de Paulo Martini, Rui Ferrari, Jeferson Correia e Adriana Freitas entre outros colegas. “São bem mais novos que eu, mas me dou muito bem com todos eles”, garante alegre como uma criança sapeca.

 

 

Do tempo dos transmissores a válvula

Do início de sua trajetória em cabines de rádio em Joinville, Negretin se sente orgulhoso por ter participado de uma das melhores fases da história radiofônica de Joinville. Ele trabalhou ao lado de profissionais da estirpe de Ildo Campello, Vilson França, José Eli Francisco, Ismael Pieper, Manduca, Jota Montês e por aí afora. Temeroso de se esquecer de algum colega daquele tempo, Negretin prefere não citar nomes para não cometer injustiças, mas ressalta que foi um privilégio trabalhar com tanta gente competente.  “Naquele tempo locutor era locutor, comentarista era comentarista. Hoje são obrigados a fazer isso e ainda sair pela rua a fim de vender espaços e fazer cobranças; esse é um dos motivos do rádio não ter a mesma qualidade daquele tempo”, compara.

Negretin lembra que no começo de sua carreira os transmissores eram a válvula, que mais tarde foram substituídos por equipamentos transistorizados. “Hoje está tudo digitalizado, o que facilita o trabalho, mas se não houver paixão, isso de pouco vale”, assegura o velho operador.

Casado com dona Conceição há 36 anos, Negretin tem com ela três filhos (duas mulheres e um homem). Avô de um casal de pequerrucho, ele conta que encontrou sua cara metade no Colégio Conselheiro Mafra onde ambos estudavam.

 

 

O apelido e momentos históricos

O apelido de Gelson Pedro de Oliveira foi obra do radialista Vilson França. Por achá-lo parecido com um menino escurinho e esguio, que num quadro do humorista Chico Anísio era chamado de Negretin, França não perdeu a oportunidade de pregar o apelido no amigo. “Sou grato ao França, o apelido virou marca registrada da qual tenho orgulho”, assinala sem conter o riso.

Negretin cita dois momentos históricos de sua carreira: “Fui o operador de som que colocou pela primeira vez no ar, em caráter experimental, a rádio Cultura FM, a pioneira do segmento em Joinville. Tive igualmente o prazer de ter sido o operador de som do primeiro Festival de Dança de Joinville, realizado na Sociedade Harmonia Lyra e no Ginásio Ivan Rodrigues”, relata o operador de som de muitas histórias divertidas para se ouvir em qualquer lugar. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Da música uma missão

Sonoridade. Instrumento encontrado ao lado de lixeira levou menino ao universo do sopro, cordas e canto
Carlos Junior/ND
Música. No momento Sergio Paulo se dedica ao violão, instrumento com o qual faz parceria com o gaiteiro Genésio Catafesta nas apresentações do coral Cavalieri Cantanti

 

 

Ao avistar uma gaitinha de boca atirada ao lado de uma lixeira, menino nascido e criado em Florianópolis pegou o pequeno objeto e o enfiou no bolso. Horas depois, ao se encontrar com o pai, ele disse que haveria de aprender a tocar aquele instrumento. O pai, cantador de Ternos de Rei, sensibilizado o incentivou comprando-lhe uma gaitinha de boca nova e com mais recursos daquela encontrada por acaso.

Foi assim que teve início a trajetória musical de Sergio Paulo Araújo, hoje fiscal da Companhia Águas de Joinville. Paralelamente às andanças por toda a cidade para desempenhar as funções profissionais, Sergio Paulo se desdobra para dar conta de compromissos na área musical, que não são poucos.

Formado em teoria musical pela Casa da Cultura, ele é regente de três corais da cidade: o Cavalieri Cantanti (de músicas folclóricas italianas), o Voz da Água, da Companhia Águas de Joinville, e o Vozes de Moriá, da Igreja Presbiteriana Independente.

Sergio Paulo garante que apesar de atarefado o dia inteiro com o trabalho de fiscal não tem dificuldade de arrumar tempo para reger os ensaios dos três corais, dos quais é também o arranjador.  Bem humorado, enfatiza que com organização é possível levar a cabo todos os compromissos sem a necessidade de sacrificar momentos de lazer com a família.

Além de tocador de gaita de boca, Sérgio Paulo tem igualmente intimidade com outros três instrumentos: violão, saxofone e flauta transversa. “E dizer que tudo começou ao achar aquela gaitinha ao lado de uma lixeira, do incentivo do meu pai e, posteriormente de apoio de um amigo, que me deu de presente um violão”, assinala desatando uma boa risada.

No momento Sergio Paulo se dedica mais ao violão, instrumento com o qual faz parceria com o gaiteiro Genésio Catafesta nas apresentações do coral Cavalieri Cantanti.  Além de violeiro, regente e arranjador do grupo, e de quebra ele é cantor da ala dos segundos tenores.

Morador de Joinville desde 1976, quando trocou Florianópolis por Joinville para fazer o curso de cabo do Exército no 62º BI, Sérgio Paulo ficou pouco tempo na caserna. Técnico eletrônico, ele optou por um emprego na Telesc, onde ficou durante alguns anos.

Casado com dona Marisa Rosa, pai de três filhas e avô de três netas,  Sérgio Paulo se diz um bem aventurado. “Tenho sete mulheres ao meu redor, que se preocupam comigo, me dão todo o apoio para ir tocando a vida, o trabalho, a música e a religiosidade com muita alegria”, salienta.

 

 

Influência da bisavó

Manezinho da gema, como gosta de se apresentar, Sergio Paulo integrou-se ao grupo Cavalieri Cantanti por gostar de músicas folclóricas italianas desde o tempo de menino.  “Uma das minhas bisavós veio da Itália. Foi dela que herdei o gosto pela música e pela gastronomia da terra dos maiores gênios do berço da Renascença”, ressalta o experiente e disposto regente de 56 anos de idade. (Herculano Vicenzi, Especial para o Notícias do Dia)

 

 

 

 


Da lagoa Rodrigo de Freitas para o rio Cachoeira

Remo. Orival trouxe a experiência dos clubes de regatas do Rio de Janeiro
Carlos Junior/ND
Rato de rampa. Orival se orgulha da convocação para a Seleção Brasileira, com apenas 17 anos

 

 

Há algum tempo, após uma das tantas chuvaradas com vento que castigam Joinville, Orival Izidoro Ferreira soube que alguns barcos foram vistos boiando na lagoa Saguaçu, à deriva. Ele não hesitou em sair em disparada rumo ao Joinville Iate Clube, já temendo um desastre. Chegou a tempo, porém, de recolher e guardar novamente as embarcações que tanto levou ao longo do rio Cachoeira nos tempos em que compunha as guarnições de remadores do clube que tinha o mesmo nome do rio. “A tempestade acabou afetando o galpão onde os barcos estão guardados, e quase que Joinville perde uma parte importante de sua história esportiva”, conta Orival, hoje um bem sucedido empresário, mantendo vivo na memória o tempo em que o remo rivalizava com o futebol e com o basquete entre as modalidades preferidas dos joinvilenses. “Não perco a esperança de ver aqueles barcos ainda participando de competições”, diz, cioso de um capítulo importante nos anais do esporte joinvilense.

Nascido em Corupá em 1941, Orival queria ir além da perspectiva de se tornar agricultor, atividade mais comum na cidade. Adolescente, acabou se mudando para o Rio de Janeiro, então capital do Brasil. “Eu tinha 14 anos quando fui morar com parentes no Rio. Lá fiz um curso técnico mecânico na Fábrica Nacional de Motores, mais conhecida como ‘Fenemê’, que fabricava caminhões.”

 

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Memória. Em registro dos anos 50, os remadores (da esquerda para a direita) Frederico Hempel, Ingo Hertenstein, Rolf Fischer, Reynaldo Deglmann e Orival

 

 

“Não perco a esperança de ver aqueles barcos ainda participando de competições.”


O mais novo na Seleção
Logo que se ambientou à Cidade Maravilhosa, Orival conheceu e começou a praticar o remo, pelo Clube de Regatas Guanabara (já extinto). “Na época – conta – o remo era tão popular quanto o futebol, tanto que os principais clubes do Rio, como Botafogo, Flamengo e Vasco começaram como agremiações de remo e mantêm até hoje o nome ‘regatas’.” Pelo Guanabara, Orival disputou acirradas competições contra os outros grandes clubes, tendo ganhado fama de “rato de rampa”. Seu grande orgulho, além dos diversos títulos cariocas e brasileiros, foi a convocação para a Seleção Brasileira, com apenas 17 anos. “Eu era o atleta mais novo da Seleção!”

Em 1963, já desgostoso com o agito do Rio de Janeiro, Orival decidiu retornar a Santa Catarina. Como funcionário da antiga estatal Cobal – Cia. Brasileira de Alimentos –, acabou transferido para Joinville. Logo de cara, uma constatação feliz: por aqui também o remo era disputado! Não demorou para que Orival arrumasse uma vaga no Clube Náutico Cachoeira, que se revezava nas conquistas com o rival Atlântico. “Claro que era bom ganhar do Atlântico, mas nosso grande objetivo era bater os clubes de Florianópolis”, admite.

Colega de guarnição de Rolf Fischer (Perfil em agosto de 2012), Orival lamenta que o remo tenha sucumbido à falta de apoio. “Ninguém era remador profissional, todos tinham seus empregos, e poucos tinham a disposição de levantar-se às 4 da manhã, para treinar antes do expediente.”

Orival remou até o final dos anos 60, quando o esporte definhou e sumiu das águas de Joinville – até porque o rio Cachoeira já está longe de ser uma boa raia, assoreado e poluído. Ainda teve tempo de passar o amor – e preciosos ensinamentos – do esporte aos filhos Marcel e Jefferson. Hoje, porém, em vez de remos, eles empunham manches de aviões, um dos produtos da linha de montagem da Strauhs Tecnologia em Equipamentos, onde Orival trabalha há 45 anos e exerce a presidência.


O orgulho de ser Baptista

Origem ilustre. Bisneto de Abdon Baptista cultua a memória do ex-prefeito
Rogério Souza Jr/ND

 

Retrato de família. Alfredo junto a fotografia do bisavô, Abdon Baptista

 

Alfredo já está aposentado, pode curtir a vida sossegado, depois de muitos anos de trabalho. Os cuidados com a saúde exigem, além de outras precauções, evitar tomar sol em excesso; por isso, mesmo morando ao lado da Arena, prefere ver os jogos do JEC na casa do filho, na TV por assinatura. Mas de um detalhe ele não se descuida: demonstrar o orgulho de ser o único joinvilense a ostentar o sobrenome Baptista, descendente direto do médico, jornalista e ex-prefeito Abdon Baptista. “Claro que tenho irmãs, mas todas se casaram e adotaram os sobrenomes dos maridos. Baptista como meu bisavô, só eu, meus filhos e netos.”

Fernandes por parte da mãe Nelly, Alfredo nasceu em 1941, na mesma Joinville que seu bisavô escolhera na juventude, vindo de Salvador. “Nasci e me criei no centro da cidade. Nossa casa tinha o mesmo estilo do palacete episcopal, que depois abrigou o Hotel Anthurium, e era motivo de admiração pela beleza.” A casa, situada nas imediações de onde hoje se ergue o Hotel Germânia, foi demolida quando por ali passaram as obras de abertura da avenida Juscelino Kubitschek.

Por pouco o sobrenome Baptista não se encerrou com o próprio Abdon, pai de um homem e oito mulheres. Do avô Eudoro, Alfredo tem boas lembranças: “Eu passava muito tempo com meu avô, a quem eu estimava”. Para a família, porém, Eudoro Baptista deixou também algumas decepções: “Ele era um jogador inveterado, e perdeu quase todos os bens nas mesas de carteado, inclusive o sobrado onde ficava o Clube Joinville, hoje sede da Casa Sofia”. Felizmente, o pai de Alfredo, Antenor Douat Baptista, conseguiu preservar ao menos o palacete onde a família morou.

Segundo dos quatro filhos de Antenor e Nelly, Alfredo foi criado segundo rígidos preceitos católicos, e até hoje frequenta as missas na catedral. O moderno templo, por sinal, é outro motivo de orgulho: “Meu pai fez parte da comissão, liderada pelo doutor Sadalla Amin, de construção da catedral, substituindo a antiga, de madeira”.

Alfredo dividiu a vida profissional entre a Consul – onde se tornou amigo dos irmãos Eggon e Wittich Freitag – e sua firma de representação comercial.Vindo de uma longa linhagem de torcedores do América, adotou as cores do JEC, chegando a ser diretor de promoções do clube. Também atuou durante sete anos como funcionário do Lar Abdon Baptista, entidade que ainda procura ajudar, da forma que puder. Hoje, a maior parte do tempo pode ser dedicada aos cinco filhos e oito netos. E a colecionar memórias do ilustre bisavô.

 

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Álbum de família. Alfredo no colo da mãe Nelly (a irmã mais velha no colo do pai) e com o avô, Eudoro (embaixo)

 

“Nasci e me criei no centro da cidade. Nossa casa tinha o mesmo estilo do palacete episcopal, que depois abrigou o Hotel Anthurium, e era motivo de admiração pela beleza.”

 

Quem foi Abdon Baptista
Nascido em Salvador em 30 de julho de 1851, o jovem médico e jornalista Abdon Baptista escolheu para trabalhar a cidade de Joinville – que nascera apenas quatro meses antes dele próprio. Em Santa Catarina, iniciou a carreira política, tendo sido deputado estadual, deputado federal e senador – além, claro, de prefeito de Joinville duas vezes, de 1892 a 94 e de 1915 a 21. Foi 1º vice-presidente da província de Santa Catarina, nomeado por carta imperial de 22 de junho de 1889, tendo presidido a província interinamente de 26 de junho a 19 de julho de 1889. Foi também vice-governador do Estado de Santa Catarina, assumindo o governo de 28 de setembro a 21 de novembro de 1906, na ocasião em que o governador Lauro Müller ocupava o Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas no governo Rodrigues Alves.

Em sua homenagem foi batizado o município de Abdon Batista, situado na microrregião de Curitibanos, Meio-Oeste catarinense. Morreu no dia 15 de março de 1922.


A magia dos vitrais

Luz e cor. Judith Creutzberg transforma o vidro em telas luminosas
Mauro Schlieck/ND
Dom artístico. Judith no vitral que representa a passagem narrada no evangelhos de Lucas (18: 15,16)

 

 

Quem entra numa igreja ou numa capela, com as janelas ornamentadas com coloridos vitrais, às vezes não imagina a complexidade da arte de produzir aqueles vidros coloridos. Mais do que decorar, a função dos vitrais é comunicar, contar algo. “Quando produzimos um vitral, partimos de um tema, de uma ideia central, a partir da qual contamos uma história”, explica a vitralista Judith Schurt Creutzberg, exemplificando com a ilustração do trecho bíblico conhecido como “Vinde a Mim as criancinhas, pois delas será o reino dos Céus”. Citada nos evangelhos de Lucas (18: 15,16) e Mateus (19: 13,14), a passagem ganha forma e cor num dos belos vitrais que ornamentam a capela do Hospital Dona Helena. Aquele é um dos muitos trabalhos executados por Judith, em parceria com o marido Leonardo Creutzberg, pastor luterano aposentado, com quem mantém o Atelier Arte Múltipla, no Bucarein. Além da exposição de trabalhos, ali Judith também dá cursos.

Nascida em Rio do Sul em 1939, Judith começou a aperfeiçoar o dom artístico quando era aluna do internato salesiano Dom Bosco. “Mesmo sendo de uma família luterana, passei quase toda a vida escolar num colégio de freiras, onde cheguei a usar véu e ensinar  catecismo, como uma autêntica mariana”, conta Judith, creditando grande parte do seu desenvolvimento artístico a uma freira italiana que foi sua professora. Neta de um farmacêutico prático, Judith pensava em seguir na área da medicina ou da farmácia após concluir o ensino médio, em Blumenau. Mas os planos mudaram totalmente quando ela conheceu o jovem pastor Leonardo, que fazia estágio em Rio do Sul. Casaram-se em fevereiro de 1960. O trabalho como pastor os levou a Lages – onde nasceram três filhos –, Blumenau – o quarto da prole –, Assis e Campinas. “Foi em Assis que conheci a arte do vitralismo”, lembra Judith.

 

Carreira em Joinville
Desde 1978 morando em Joinville, somente a partir do ano 2000 Judith e o marido efetivamente iniciaram a carreira de vitralistas, ela criando e ele auxiliando no corte do vidro. “Comecei com peças pequenas, como abajures e lustres. O primeiro vitral fiz numa capela no interior de Rodeio”, recapitula Judith. A partir dali, sua fama foi se espalhando e os trabalhos aumentando, incluindo igrejas e capelas em Corupá, Pomerode, Jaraguá e Joinville, entre outras cidades. O portfólio elenca lustres, abajures, enfeites natalinos, fruteiras, peças decorativas e, claro, os vitrais, não só para templos religiosos, mas também residenciais. “No ano passado fiz vitrais para decorar o ambiente de uma piscina, numa residência em Joinville.”

Judith utiliza duas técnicas de vitralismo: a pintura diretamente no vidro, que substitui a tela, mais adequada para ambientes internos; e a chamada gemmail, uma justaposição de fragmentos de vidro coloridos, colados uns aos outros, formando composições translúcidas, técnica na qual ela é pioneira no Estado. O resultado de ambas as técnicas pode ser conferido na capela do Hospital Dona Helena: enquanto os vidros pintados ficam na parede interna, os mosaicos decoram as janelas externas, reluzindo aos raios do sol.

 

Serviço | Onde encontrar
Atelier Arte Múltipla
Rua Roberto Schmidlin, 71, Bucarein
Telefone 3422-2032
Email leo@creutzberg.org

 

Através dos tempos
Os vitrais originam-se entre os séculos 10 e 11, no Oriente, onde o vidro começou a ser utilizado para a confecção de peças para embelezar ambientes que, além da proteção, ainda providenciavam luz. Mas foi no Ocidente que a arte se firmou. Na idade média eram usados para reforçar a espiritualidade, utilizados na ornamentação de igrejas, uma vez que o efeito da luz solar conferia imponência e espiritualidade ao ambiente. A partir do século 19 o vitral se desvinculou do caráter temático exclusivamente religioso, para também se tornar uma opção decorativa.

 


Só do fundo do baú

Toca aquela... Grupo se dedica a resgatar as músicas brasileiras de raiz
Divulgação/ND
No ritmo. Os integrantes do grupo Getúlio (a esq. para a dir., em pé), Joaquim, Pelé, Carlinhos, Irineu (sentado) e Danilo

 

 

Carlinhos, Joaquim e Paulista gostavam de se reunir para tocar e cantar aquelas músicas tradicionais, tiradas, como se diz popularmente, “do fundo do baú”. Há cerca de 14 anos, num dos tantos encontros promovidos na escola de samba Majorca, em São Francisco do Sul, Carlinhos sugeriu: “Que tal montarmos um grupo para tocar em bares e animar bailes?” Ideia aceita, nem foi preciso matutar muito para batizar o conjunto. Do Fundo do Baú foi o óbvio nome escolhido. Desde a estreia, num baile na Sociedade Acaraí, passaram a animar bares e restaurantes com sua música brasileira de raiz, além de proporcionar embalo a casais em bailes pelos salões das redondezas – o mais recente foi no final de fevereiro, no baile de eleição da rainha da escola de samba Acadêmicos do Serrinha.

Os componentes são os mesmos desde o início: Carlos Miguel da Silva, o Carlinhos; Irineu Rodrigues, o Paulista; Joaquim Bertolino Ribeiro; os irmãos Getúlio e Danilo João Afonso; Roseleno Ribeiro, o Pelé; e Agnaldo Silva. Todos quarentões e cinquentões, profundos conhecedores e admiradores do estilo musical que adotaram. “Só tocamos música brasileira de raiz mesmo, no estilo dos Demônios da Garoa, tiradas lá do fundo do baú”, garante Paulista, radicado em Joinville desde 1996. Trazendo a experiência de sambista da escola paulistana Nenê da Vila Matilde, Paulista foi intérprete da francisquense Unidos do Paulas antes de chegar à Príncipes do Samba. Junto com ele, estão Carlinhos e Joaquim; os três, mais o sambista Odair da Conceição, assinam o samba-enredo que a Príncipes levou para a avenida neste ano, “Na Cidade dos Príncipes, das Flores ou dos Nossos Avós – Salve a Sociedade Kênia Clube,” um tributo à tradicional agremiação da rua Botafogo. Afinidade não falta: Paulista é casado com Lúcia Nara, a presidente da Príncipes do Samba.

 

O sonho do primeiro CD
O Fundo do Baú se encontra para ensaios na casa de algum dos integrantes, normalmente na residência do próprio Paulista, no Adhemar Garcia. “Com o tempo, conseguimos adquirir instrumentos e aparelhagem próprios”, informa Paulista, que revela o próximo grande sonho do grupo: gravar o primeiro disco. “Já temos dez músicas próprias, compostas pelo Getúlio em parceria com Odair da Conceição, além de algumas do Vicente de Aruanda”, completa. A gravação, claro, depende de patrocínio, pois o processo costuma ser caro. Parte dos recursos vai sendo levantada com as apresentações em bares, restaurantes e bailes.

 

Para conhecer
A próxima apresentação do Fundo do Baú será na festa de lançamento do DVD do amigo Zico, domingo (10), ao meio-dia, na SER Tigre

 

Para cantar
Veja um trecho de “Vou Buscar Você”, uma das obras próprias do Fundo do Baú

Vou buscar você
Esteja aonde estiver você vem comigo
Se não arranjo outra mulher
Vou buscar....
vou morar na lapa
lá no alto da favela
Vou batucar com os crioulos
e fazer versos pra Portela
Vou buscar....
você vai ter conforto
comer da minha panela
o meu barraco vai ser bom
com você na minha janela
Vou buscar
...

 


As boas vindas ao mundo

Nascimentos. Monica Cercal é remanescente do tempo das parteiras práticas da Maternidade Darcy Vargas
Mauro Artur Schlieck/ND
Prestes a se aposentar. Depois de 30 anos nas salas de parto, Mônica está prestes e pendurar seu avental de enfermeira



Ela ouviu o primeiro chorinho de mais de dois mil bebês em 30 anos de trabalho no hospital Dona Helena, na Maternidade Darcy Vargas e no Hospital Unimed. O detalhe dos chorinhos é um dos bons ângulos para sintetizar a biografia de Monica Cercal, a última parteira prática da história da maternidade Darcy Vargas, ponto de referência do Brasil na missão de garantir boa chegada aos bebês que há 65 anos nascem naquele local.
Joinvilense da gema, Monica nasceu na maternidade Darcy Vargas e começou a carreira na área da obstetrícia (parte da medicina que se ocupa da gestação e dos partos) no Hospital Dona Helena, ao ser contratada para desempenhar as funções de atendente de enfermagem e auxiliar nas salas de partos. Dedicada, em cinco anos virou parteira de mão cheia. “Aprendi com colegas mais antigas e com a equipe médica”, assinala agradecida. 
Do Hospital Dona Helena, ao passar em concurso público ela foi para a Maternidade Darcy Vargas, onde recentemente completou 25 anos de trabalho.  De quebra, durante dois anos e dois meses Monica desdobrou-se em dupla jornada de trabalho. De dia atendia na Maternidade Darcy Vargas e, à noite, no Hospital Unimed.
Ao completar 30 anos em salas de parto ela requereu recentemente a aposentadoria. Enquanto aguarda a publicação da portaria que vai oficializar o merecido descanso, Monica aproveita licença prêmio para ir à praia e para viajar, seus passatempos preferidos.
Atenciosa e de conversa cativante, Monica assinala que com sua aposentadoria se encerra o ciclo de parteiras práticas na Maternidade Darcy Vargas. “Hoje o exercício da profissão só pode ser feito por pessoas com faculdade de enfermagem e pós graduação em obstetrícia. Sou, por isso, a última representante de uma estirpe”, diz bem humorada.
Casada com Ivo Cercal, conhecido estofador do bairro Floresta, Monica é mãe de três filhos. “Um, nós o perdemos quando ele tinha dois anos e meio de idade. Foi uma das vítimas de um surto de meningite que em 1973 enlutou diversas famílias em Joinville”, conta ainda sentida com a irreparável perda.
Monica não se esquece de elogiar o esforço que a equipe da Maternidade Darcy Vargas fez nos últimos anos para humanizar o atendimento às parturientes. “Foi um trabalho fantástico, no qual me incluo humildemente. Quero registrar a liderança e o entusiasmo da médica Raquel Pereira nessa luta que rendeu à maternidade reconhecimento em âmbito nacional”, destaca.

 


“Hoje o exercício da profissão só pode ser feito por pessoas com faculdade de enfermagem e pós graduação em obstetrícia. Sou, por isso, a última representante de uma estirpe.”



Muitas histórias para contar
Com tantos anos em salas de parto sobram histórias para Monica contar. Algumas engraçadas, outras dramáticas, como essa: uma parturiente estava para dar à luz de parto natural quando o marido resolveu levá-la para outro hospital porque queria que fosse feita cesariana seguida de laqueadura. De nada adiantou o médico lhe explicar que não havia necessidade de fazer a cesariana, que a laqueadura seria feita mais tarde e que a criança estava para nascer a qualquer momento. Nervoso, o homem ia tirando a mulher da sala de parto  quando Monica interveio com jeitinho e o demoveu de levar a cabo tamanho desatino. “Ainda bem que ele ouviu meus apelos, caso contrário aquela criança teria nascido dentro do carro a caminho de outro hospital, pois acabou chegando minutinhos depois que ele desistiu de tirar sua mulher da sala de partos,” lembra a veterana parteira prática. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)


Fé e amor ao próximo

Vocação. Capelã do Hospital Dona Helena, Mayke se realiza como pastora
Rogério Souza Jr/ND
Apoio espiritual. Mayke agora tem dedicação integral na capela do hospital

 

 


“Tenho orgulho de ser uma pessoa de fé, no serviço de amor ao próximo.” É desta forma que a pastora luterana Mayke Marliese Kegel resume sua filosofia de vida e os vários trabalhos a que vem se dedicando desde que se formou, há 23 anos. A missão mais recente foi iniciada em janeiro, quando assumiu a capelania do Hospital Dona Helena – onde já atuava, assim como no São José, na assistência espiritual. No ano passado, Mayke foi uma das homenageadas com a Medalha de Mérito Mulher Cidadã de Joinville. “Partilho essa medalha com todas as mulheres luteranas que atuam em nossas comunidades, passando sobre seus limites, se esmerando em atender, acolher e amenizar a dor de quem nos procura”, diz, a respeito da homenagem.
Mayke nasceu em Timbó, no Médio Vale do Itajaí, há 49 anos, e cuidar de outras pessoas foi uma tarefa à qual se dedicou desde cedo: “Sou a irmã do meio de cinco filhos, e cresci num contexto em que cada irmão cuidava dos mais novos, para os pais poderem trabalhar. Além de cuidar de duas irmãs, ajudei na criação de filhas das vizinhas”. A vizinhança, por sinal, era bem ecumênica, integrando descendentes de alemães e de italianos, luteranos e católicos. Mayke é um exemplo dessa mistura: “Minha família era luterana, mas em casa falávamos italiano.”
Espelhando-se na mãe, muito religiosa e solidária, Mayke via seu caminho na área diaconal. Só que seguiu outro rumo, formando-se técnica em construção civil, com a intenção de ser arquiteta. No último ano do curso, pensou em fazer teologia, mas foi dissuadida por um pastor: “Ele alegou que havia muita disputa de linhas teológicas na faculdade, o que levaria a um desgaste emocional desnecessário”. Sem encontrar trabalho na área de arquitetura, foi admitida como recepcionista no hospital da Oase (Ordem Auxiliadora das Senhoras Evangélicas), de Timbó. “Só viviam me chamando a atenção, pois eu passava mais tempo visitando os pacientes nos quartos do que no meu setor.”

 

“Podemos viver em pequenas ilhas, como as comunidades paroquiais, mas não podemos viver isolados, sem contato com quem vive fora delas. Igreja é vida em comunhão, onde emergem todas as nossas igualdades e diferenças”.

 

 

Arquivo pessoal/ND
História. Em 1994, a pastora Mayke na paróquia Bom Samaritano, que ajudou a criar no Profipo


 

 


A vocação chama
Um dia, brincando com um pastor, dizendo que poderia ter sido sua colega, Mayke foi provocada: “Ele me falou que se eu não tentasse, nunca saberia se aquele era meu chamado”. Seis meses depois, ela ingressava na faculdade de teologia em São Leopoldo (RS). Formada em 1990, em fevereiro do ano seguinte foi trabalhar como assistente paroquial na Missão Roselândia, em Novo Hamburgo. Em agosto de 1991 o destino era Joinville, para atuar na Missão Profipo. “Um dos meus orgulhos foi ter participado da criação da comunidade Bom Samaritano.” Em 1999, passou para o departamento de diaconia da Comunidade Evangélica de Joinville. Já fez estágio na Alemanha, participa de movimentos populares e de pastorais, mas é no apoio aos doentes que Mayke se realiza. Só no Dona Helena, já é uma década de ativa participação, tanto visitando e levando assistência espiritual aos enfermos, como capacitando outras pessoas para a mesma função. Faz parte do comitê de estudos e pesquisa de bioética da Maternidade Darcy Vargas e da Associação Cristã de Assistência Espiritual Hospitalar do Brasil.
Mãe de dois joinvilenses e, desde janeiro, capelã em tempo integral do Dona Helena, a ex-futura arquiteta é, acima de tudo, uma pessoa realizada e feliz por ter seguido a vocação: “Podemos viver em pequenas ilhas, como as comunidades paroquiais, mas não podemos viver isolados, sem contato com quem vive fora delas. Igreja é vida em comunhão, onde emergem todas as nossas igualdades e diferenças”.


No clube das centenárias

Cem velinhas. Dona Tina comemora 100 anos, amanhã, com lucidez e disposição
Fabrício Porto/ND
Sorridente. Dona Albertina mora na mesma casa, construída há mais de 40 anos e que já passou por várias reformas, no bairro Itaum

 

 

Os números do último censo confirmaram, mais uma vez, a predominância da população feminina sobre a masculina em Joinville e nos municípios da região. Em média, são 52% de mulheres, ante 48% de homens. Uma coisa é certa, a julgar por este perfil, desde que o espaço foi criado, há pouco mais de cinco anos: todas as pessoas que chegaram aos 100 anos de idade, aqui entrevistadas, são mulheres. Neste dia 1º de março, mais uma se junta ao seleto clube das centenárias: Albertina Pereira Souza. “A receita para viver bastante é trabalhar enquanto o corpo aguentar, cuidar da saúde e ter harmonia familiar”, diz dona Tina.

Incrivelmente lúcida e antenada, ela pouco precisa da assessoria da filha Lauzimar durante a entrevista. Sentada pertinho do repórter, ouve praticamente tudo, pouco pedindo para repetir. A audição prejudicada e a dificuldade de locomoção, por sinal, são os únicos sinais evidentes da idade avançada e dos problemas normais por ela provocados. “A saúde é tão boa que só há alguns anos, num exame de ultrassom, foi constatado que mamãe tem só um rim”, diz a filha, garantindo que isso nunca trouxe qualquer complicação.

Dona Tina nasceu em Medeiros, no interior de Barra Velha. Primogênita de 14 filhos do casal Anastácio e Maria Alexandrina, aprendeu cedo a trabalhar para ajudar no sustento da família. “Meu pai tinha uma serraria e um engenho de farinha e açúcar, e todos os filhos trabalhavam, de acordo com o que as forças permitiam.”
A necessidade de trabalhar prejudicou a sequência dos estudos, limitados ao ensino básico, e retardou o casamento de Albertina, que tinha 35 anos quando se uniu em matrimônio a Fermino Souza, cinco anos mais novo. “Moramos durante vinte anos em Medeirinhos, que na época pertencia a Penha, e lá nasceram nossos seis filhos, quatro mulheres e dois homens”, continua relembrando dona Tina, que cuidava de um pequeno comércio, enquanto o marido se dedicava à principal atividade econômica da família, o engenho. “Era uma venda típica do interior, com um lado dedicado ao comércio de necessidades do lar, e a outra ponta do balcão para os homens tomar a pinguinha de todos os dias”, descreve.

 

“A receita para viver bastante é trabalhar enquanto o corpo aguentar, cuidar da saúde e ter harmonia familiar.”

 

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Imagem rara. Primeira foto de dona Albertina, já depois de casada

 

 

Nova vida em Joinville
A necessidade de aumentar a renda e de dar mais oportunidade de estudos para os filhos trouxe a família para Joinville, em 1968. “Sempre moramos aqui no Itaum, e nossa casa foi a segunda construída na rua Guarujá”, conta a centenária senhora, recordando os tempos de “televizinha” na única residência da rua que tinha um televisor. A casa ainda é a mesma, já várias vezes reformada e ampliada; dona Tina mora na frente, com a filha Lauzimar, enquanto outra filha reside nos fundos.

A televisão continua sendo uma de suas distrações preferidas, como conta a filha: “Mamãe tem preferência pelos programas jornalísticos e gosta muito de ler tudo que aparece pela frente”. Viúva há quase 25 anos, preferiu prosseguir sozinha, concentrando atenção e amor na meia dúzia de filhos, 11 netos e 11 bisnetos. De toda essa prole, mais os agregados e os amigos, cerca de duzentas pessoas são esperadas para a festa dos 100 anos, marcada para este sábado, na igreja de Medeiros. Lá, com certeza, entre os convidados estará a amiga Antônia, que Albertina reencontrou recentemente, depois de muitos anos; lembranças não vão faltar, já que a amiga tem 98 anos. Mais uma que logo entra no clube.
Parabéns, dona Tina, e vida longa!


Encantados pelas flores

Jardim. Casal da Vila Dona Francisca cultiva 15 mil metros quadrados exclusivamente para deleite próprio
Fabrício Porto/ND
Moldura. Geni e Norberto Seefeldt moram na mesma casa há 40 anos, desde que se casaram

 

Cercada de árvores por todos os lados, uma casa de linhas sóbrias da Vila Dona Francisca é visitada por turistas do Brasil e do exterior por conta de uma singularidade de rara beleza: centenas de espécies de flores originárias de diversas partes do mundo emolduram o local, enfeitiçando o olhar de qualquer pessoa sintonizada com os encantos da natureza.

O espetáculo se estende por uma área de 15 mil metros quadrados, onde é possível deparar-se com preciosidades como tulipas negras. O soberbo jardim pertence  a Geni e Norberto Seefeldt, casal perdidamente apaixonado por flores desde o verdor da juventude.

Dona Geni e seu Norberto moram no local desde que se casaram há 40 anos. Pais de três filhos (dois homens e uma mulher) e avós de um pequerrucho, os dois fazem o cultivo sem nenhum interesse comercial. “Nunca vendemos nada, fazemos tudo para deliciar nossos olhos”, diz dona Geni com singeleza cativante.

A incansável cultivadora de flores conta que bem antes do casamento ela já era apaixonada por esse tipo de hobby. “Quando começamos a namorar, o meu Norberto se dedicava ao cultivo de orquídeas, detalhe que ajudou a fortalecer nosso amor”, assinala sem conter o riso.

O casal informa que no começo da vida a dois o jardim era um tiquinho de nada, que com o passar do tempo foi sendo ampliado atá ganhar as dimensões atuais.  E os dois garantem que até gostariam de aumentar a área, mas não o farão devido a idade. “Somos dois setentões, está na hora de sossegar o pito”, brinca seu Norberto.

Percorrer o jardim dos Seefeldt é um privilégio de se fazer um agradável passeio por um cenário de cores e matizes de variedade impressionante. Só para ilustrar, além de flores, o jardim se caracteriza também pela presença de plantas ornamentais raras, como bananeira-laranja e gengibrinas de diversas espécies.

Sem maiores conhecimentos sobre botânica, dona Geni se diverte quando lhe perguntam o nome científico de alguma das centenas de flores. “Nós só conhecemos pelo nome popular, mas o que interessa é que sabemos os segredinhos de como se cultiva cada uma dessas belezas”, responde bem humorada.

Contramestre de tecelagem aposentado, seu Norberto se engajou definitivamente no jardim ao deixar de bater o cartão ponto. Ele reconhece que mesmo assim é dona Geni a responsável pela maior parte do trabalho. “De minha parte fico mais no orquidário, enquanto que ela nunca trabalha menos de quatro horas por dia para deixar tudo nos conformes”, diz em tom elogioso.

 

 “Quando começamos a namorar, o meu Norberto se dedicava ao cultivo de orquídeas, detalhe que ajudou a fortalecer nosso amor.”

 

Para além das fronteiras
Descobertos por um senhor joinvilense que mantém contato com pessoas do mundo inteiro aficionadas por flores e plantas ornamentais, dona Geni e seu Norberto já estão acostumados a receber visitantes da Alemanha, Itália, Suiça, Estados Unidos, Uruguai, Chile, Japão, Canadá e por aí afora. “Todos esses estrangeiros elogiam a diversidade do nosso jardim e saem daqui com a máquina carregada de fotos. Isso nos anima a continuar nesse tipo de trabalho enquanto a saúde estiver boa”, avisa dona Geni. (Herculano Vicenzi, especial para o Notícias do Dia)    


O corpo como moldura

Marcas. Luiz Felipe Ribas encara a tatuagem como parte da história de cada pessoa
Mauro Schlieck/ND
Na própria pele. Luiz Felipe tem mais de 50 tatuagens no corpo

 

 

Mais que um meio de sustento, um estilo de vida, uma forma de transgredir certos padrões da sociedade e seguir um caminho oposto ao de boa parte das pessoas. É dessa forma que o tatuador joinvilense Luiz Felipe Ribas, 24 anos, encara a tatuagem, que conheceu aos 18 anos. Junto com o sócio Nalvan Pereira, que cuida da área administrativa, ele abriu o próprio estúdio há quatro anos, a Corpo Fechado Tattoo Shop. “A tatuagem mudou totalmente a minha vida”, afirma Ribas. Ele lembra que quando teve o primeiro contato queria fazer parte daquilo tudo porque considerava algo diferente, enigmático. No entanto, conta que não entendia o mundo da tatuagem. “Não é só um desenho na pele, tem toda a história por trás, de porque fez isso, o simbolismo”, justifica. A partir daí, Ribas fez contatos e conheceu pessoas do mundo todo.
Mas nem tudo funciona tão bem, pois o preconceito e o estigma que cerca que os tatuadores ainda persiste. “Eu sinto que ando nos lugares e as pessoas pensam que não trabalho, bebo muito ou uso drogas,” lamenta. Ao contrário disso, Ribas é adepto do straight edge, estilo de vida que defende a abstinência de entorpecentes (tabaco, álcool e drogas ilícitas). “Muita gente se surpreende quando eu falo que não bebo e não fumo, porque as pessoas ainda esperam isso, olham e acham que tu és uma coisa,” relata.
Ao mesmo tempo, Ribas defende que a tatuagem não perca a mística e o romantismo. “O legal é olhar para a pessoa e se perguntar o motivo pelo qual fez aquele desenho, o que significa,” comenta.  “Isso que é tatuagem, ver e ficar curioso. Se desmitificar muito, perde a graça,” completa. Até por isso o tatuador acredita que a pessoa precisa estar preparada e pensar bem antes de fazer. “Muita gente vê como estética, mas acho que é muito mais profundo que isso,” alerta.

 

Descoberta de um mundo novo

Quando optou pela profissão de tatuador, Ribas começou a se especializar, fez um curso de desenho e tatuagem em estúdio. Não demorou também para que tivesse o próprio desenho marcado no corpo. Hoje, ele já não sabe mais ao certo quantas tatuagens tem, mas estima que passem de 50. “Quero continuar até não ter mais espaço, mas não tenho pressa,” observa.
Como tinha envolvimento com movimento punk e um estilo de arte mais underground, achou que tatuagem tinha muito a ver com aquele mundo com o qual já estava habituado. “Enquanto me tatuavam pela primeira vez, fiquei pensando: isso é uma coisa legal porque envolve a arte, envolve um trabalho manual,” relembra.
No começo, trabalhava em casa mesmo, tatuando no quarto, até que resolveu abriu a Corpo Fechado. O principal motivo pelo qual Ribas resolveu abrir o próprio estúdio era que ele enxergava uma forma de fazer tatuagem diferente dos outros lugares. “O negócio é de criação, fazer um desenho único e exclusivo para cada cliente que aparece na loja, essa é a minha proposta,” explica. Ele se orgulha de que a Corpo Fechado é a única da cidade a não usar uma pasta-padrão de desenhos. (Alexandre Perger, especial para o Notícias do Dia)


No tempo do cérebro eletrônico

História. Tupy comemora 50 anos da implantação do sistema de informática
Rogério Souza Jr/ND
Pós-aposentadoria. Mário reúne memórias em 11 volumes que abrangem sua história de vida, a trajetória na Tupy, a história da informática em Joinville e a disseminação do conhecimento

 

 

Há cinquenta anos, quando o Brasil ainda engatinhava na era da informática, os gigantescos “cérebros eletrônicos”, como eram chamados os computadores, ocupavam um espaço impensável para quem está habituado aos atuais micros, notebooks e tablets. Em Joinville, a Tupy instalava os primeiros computadores, no que se chamou de “seção IBM”, já que a marca era fornecedora de todos os equipamentos. “Fomos a primeira empresa da cidade a instalar um centro de processamento de dados”, orgulha-se Mário Karsten, hoje aposentado, responsável pela implantação da informática na Tupy, marco que completa 50 anos neste dia 26 de fevereiro.

Nascido em Jaraguá do Sul em 1940, aos 3 anos Mário estava em Rio do Sul, já órfão de pai. Passou por Guaramirim e tinha 10 anos quando sua mãe se estabeleceu em Joinville para trabalhar no Palácio Hotel. “Estudei no Santos Anjos e no Bom Jesus, além de jogar muita bola no campinho velho do Caxias”, relembra, justificando sua paixão pelo alvinegro da zona Sul. Decidido a trabalhar em alguma área administrativa, formou-se técnico contábil e foi trabalhar na Tupy, onde ficou 35 anos. Mais tarde, fez a faculdade de ciências econômicas e pós em administração de empresas. Outro motivo de orgulho é jamais ter faltado um dia sequer ao trabalho. “Na verdade, faltei só no primeiro dia, pois fui registrado em 1º de abril de 1958, um domingo”, brinca.

 

 

 

Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Memória. Na inauguração da seção de informática da Tupy, dia 26 de fevereiro de 1963, aparecem dirigentes da empresa e autoridades, entre eles Raul Schmidt, Gustavo Karmann, João Vict