O fim de uma história de 95 anos em Joinville. Fecha a Farmácia Minancora

Funcionários foram informados nesta sexta-feira de que seria o último dia de funcionamento

Sandro Alberto Gomes
Sandro Alberto Gomes


Joinville

Fotos Carlos Junior/ND
Farmácia Minancora funcionou por 95 anos na Rua do Príncipe, ao lado do principal cartã-postal de Joinville, a Rua das Palmeiras
 
Artista plástico Juarez Machado, que retratou a Farmácia Minancora em 1982 (o quadro na parede), lamenta o fim de mais um ícone de Joinville
 
Fabrica que produz os famosos produtos Minancora, como a pomada, continuará funcionando no distrito de Pirabeiraba
 

Ele acabara de chegar a Joinville e recebeu a notícia avassaladora, sentida como uma facada que dói só quando se respira. Assim o artista plástico Juarez Machado se refere ao comunicado repentino e sem cerimônias da Minancora, sobre o fechamento de sua quase centenária farmácia, retrato de “tradição e confiança desde 1914”, como diz a placa em sua fachada. Instalada na rua do Príncipe, ao lado do principal cartão-postal de Joinville, a Rua das Palmeiras, nesta sexta-feira (13) a pantográfica desceu pela última vez, para a surpresa dos joinvilenses, inclusive de seu principal artista, inconformado.  

Em nota enviada por sua assessoria de imprensa, a empresa atribui o encerramento das atividades à concorrência cada vez mais crescente, que aos poucos dilapidou o mercado e inviabilizou a manutenção das atividades entre gigantes do segmento. De acordo com a diretora comercial e financeira da Minancora, Lourdes Maria Doria Duarte, bisneta do fundador da empresa, Eduardo Gonçalves, “o fechamento é uma conseqüência da concentração do mercado em grandes redes farmacêuticas, uma tendência que aumentou nos últimos anos, inviabilizando  financeiramente a manutenção de uma única loja, como era o caso da Minancora, no centro de Joinville”.

O prédio histórico onde estava localizada a farmácia desde 1929 - antes ela funcionava em outro endereço - será locado para outro estabelecimento comercial, possivelmente do mesmo segmento, conforme a nota da assessoria de imprensa. Na sexta-feira, de todos os funcionários da farmácia, a única que se arriscou a admitir que as lágrimas rolaram foi a caixa Letícia de Quadros dos Santos, 20 anos, que há um mês estava no emprego. Ela contou que à tarde a gerente comunicou a novidade, sem mais delongas. A tristeza estampada no silêncio era notória, mais ainda numa farmacêutica e na atendente com mais de 12 anos de casa.

Diretores da empresa informam extraoficialmente que ainda não há definição sobre a manutenção dos empregos. “É uma pena. A cidade vai perder um ponto de referência”, diz a gerente, sem se identificar ou permitir fotografia. Ela lamenta pelo episódio, principalmente pelo clima familiar vivido na farmácia. “Está todo mundo triste. A gente tem uma relação afetiva aqui. A empresa tem um clima muito bom de trabalho. É uma referência da cidade e nacional”, diz.

Fábrica continua "firme e atuante" em Pirabeiraba

Apesar da farmácia fechada, a diretora Lourdes Duarte destaca que a Minancora e Companhia Ltda., o outro empreendimento da família Gonçalves Doria,  responsável pela fabricação de medicamentos e cosméticos com a marca Minancora, permanece “forte e atuante” no mercado. A fábrica está instalada em Pirabeiraba desde 1993 e a administração transferiu-se para lá  há dois anos. “Desde janeiro de 2011, nossos produtos são distribuídos  e comercializados pela Sanofi Aventis Comercial e Logística Ltda., maior indústria farmacêutica do país e uma  das maiores do mundo”,  destaca. Lourdes Duarte.

A história da farmácia

A farmácia Minancora foi fruto do sucesso da pomada de mesmo nome, criada no início do século 20, após o farmacêutico português Eduardo Augusto Gonçalves chegar ao Brasil. Em Manaus, quando trabalhou na fabricação do Polvilho Antisséptico Granado, ele conheceu a diversidade da fauna e da flora brasileira e encontrou ali matérias-primas que mais tarde serviriam para a produção de seus remédios populares.

Em 1912, o farmacêutico chegou a Joinville para trabalhar como gerente da Farmácia Doelith, a primeira da cidade. Lá conheceu a jovem Adelina Moreira, com quem se casou dois anos mais tarde. Ao lado de Adelina começou a fabricação caseira de uma pomada antisséptica, à base de cânfora, cloreto de benzalcônio e óxido de zinco, que batizou com o nome de Minancora. O nome é um acróstico dos nomes Minerva, a deusa grega da sabedoria, e âncora, que aludia à sua permanência definitiva em solo brasileiro.

Há quem diga que a fórmula da pomada foi trazida da Europa e não foi registrada oficialmente. Coisa que Eduardo fez em 1915, registrando a fórmula da pomada Minancora no Departamento Nacional de Saúde Pública. Depois, passou a viajar pelo Brasil para popularizar a pomada milagrosa, capaz de curar uma série de enfermidades, desde frieiras e escaras até espinhas e pequenos ferimentos superficiais, inclusive os causados pelo barbear, como ainda hoje se estampa em sua embalagem. 

Além da Minancora, o farmacêutico vendia outros medicamentos de sua autoria, como o Xarope Doméstico, o Lombrigueiras e o Remédio Minancora contra a Embriaguez. Durante suas viagens, Adelina fabricava os produtos artesanalmente.

Em 1929, foi construída a sede da empresa, que abrigou a farmácia até esta sexta-feira. O prédio também servia de moradia à família e para a produção dos remédios. Hoje, o prédio de dois andares é patrimônio histórico-cultural joinvilense, motivo pelo qual a fachada foi preservada, de acordo com o que estabelecem o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Joinville e a Fundação Catarinense de Cultura.

No site da empresa lê-se que após a morte de Eduardo, em 1977, sua filha Lady Gonçalves Dória assumiu a presidência da Minancora. Em 1992, Lady convidou a neta e advogada Lourdes Maria Dória para exercer um cargo executivo na empresa, que até então fabricava apenas a já consagrada Pomada Minancora.

Depois que Lourdes Maria assumiu a direção comercial da companhia, a Minancora iniciou um novo momento em sua história. Com a decisão da advogada de profissionalizar a administração e de diversificar a produção, contratou-se um corpo gerencial com vasta experiência no segmento de farmácias e cosméticos. Em 1994, inaugurou a unidade industrial da Minancora em Pirabeiraba (distrito de Joinville) e iniciou o desenvolvimento de pesquisas para o lançamento de novos produtos.

Assim, desde 1997 a Minancora coloca no mercado novos produtos para as diversas necessidades da família brasileira. A Minancora hoje tem mais de 95 anos (desde o registro da pomada) de tradição e qualidade. “Sempre buscando inovação e o aperfeiçoamento, a Minancora cresce atravessando o tempo e visando o bem-estar da família brasileira”, diz a página de apresentação.

"A cada vez que chego na cidade, vejo ela mutilada"

“Que chato isso. Fico muito triste com esta notícia. Lamentável esta perda para nossa história. Isso me deixa aborrecido, em saber que mais um monumento histórico se perde. O que a cidade vai me dar em troca? Porque já destruíram muitas casas, palacetes maravilhosos desta cidade e não foi dado nada em troca. É uma certa crueldade da própria vida, essas destruições. Fico realmente chateado, porque a cada vez que chego na cidade, vejo ela mutilada”, comentou Juarez Machado, logo após chegar da viagem a Florianópolis e receber a notícia.

Ele, seu irmão Edson Machado – ex-presidente da Fundação Cultural de Santa Catarina - e sua mãe, Leonora, falecida ano passado, eram assíduos frequentadores da farmácia desde muitos anos. “Minha mãe, eu e toda a Joinville”, diz ele, que em 1982, com base em fotografias pintou um quadro no Rio de Janeiro, em que retrata a fachada da farmácia e do antigo Clube de Joinville, onde aconteciam animados bailes de carnaval. Por este motivo o quadro também traz máscaras.

“Guardo em tintas a memória de minha Joinville, porque todos estão fazendo de tudo para destruir. Sinto como se tivesse levado uma facada em minha alma. Mas só dói quando respiro”, diz o artista, que recebeu a reportagem em seu apartamento, no edifício Juarez Machado, onde o quadro está guardado. A obra compôs uma exposição em Nova York sobre a arquitetura de Joinville, em 1982.

Juarez lembra que por seu amor aos edifícios antigos de Joinville chegou a salvar o palacete Niemeyer da destruição, prestes a ser demolido. Depois de tanto espernear, o Banco do Brasil comprou e restaurou o prédio. Ele lembra que antigamente a pomada Minancora era a “salvação da pátria”, porque “naquela época não existia desodorante” e a pomada resolvia o problema de axilas vencidas. 

"Tudo vai acabando"

Uma amiga da família proprietária da marca lamenta o fechamento da farmácia, mas não se identifica. Ela lembra que a antigamente havia um bercinho de vime sobre o balcão para pesar os bebês. A beleza estava presente em cada detalhe. Depois os balcões de madeira maciça foram substituídos. “Foi tudo desmontado e ficou moderno. Acabaram com a tradição”, lamenta.

Além da farmácia, ela também lamenta o fechamento de outros ícones da arquitetura joinvilense, a exemplo da Polar, que era uma sorveteria na rua 15 de Novembro, onde era possível saborear a salada de fruta especial. Era o ponto de encontro da juventude da época. Também recorda da Confeitaria Dietrich, na esquina das ruas do Príncipe e Princesa Isabel. “Era famosíssima. Tudo vai acabando, enquanto em outros países conservam as tradições, aqui tudo se acaba”, diz.

"Mais uma coisa antiga que some de Joinville"

“A farmácia era muito bonita. Chamava a atenção pela beleza. Pelos móveis escuros, o balcão, os armários. Era uma farmácia bonita. Mais uma coisa antiga que some de Joinville”, diz dona Jutta Hagemann, que tem lembranças da farmácia desde seus dez, onze anos de idade. Hoje, aos 86, ela ainda tem lembranças do velho farmacêutico criador da famosa pomada.

“Me lembro vagamente do Eduardo Gonçalves e de sua esposa. Era gente muito imponente, de andar muito reto. Depois que a filha Lady assumiu a farmácia, o casal mudou para Curitiba”, observa. Segundo dona Jutta, dona Lady morreu beirando aos 100 anos de idade, tão longeva quanto a própria farmácia, que agora se despede. “Que pena que vai fechar”, lamenta.

Publicado em 14/07/12-05:37

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