Joinville ocupa o primeiro lugar no ranking de furtos e roubos de carro no Estado

11% dos veículos furtados e 5% dos tomados de assalto no Estado estão na cidade

Thaís Moreira de Mira
Thaís Moreira de Mira


Joinville

Rogério Souza Jr./ND
Rogério Souza Jr./ND
Guilherme teve seu carro roubado na rua Conselheiro Arp, no Centro

Levantamento feito pela DEIC (Diretoria Estadual de Investigação Criminal), da Polícia Civil de Florianópolis, coloca Joinville na liderança em número de roubos e furtos de veículos em Santa Catarina. De acordo com a listagem, 11% dos veículos furtados e 5% dos tomados de assalto no Estado estão na cidade. Uma das vítimas dos ladrões foi o vendedor Guilherme, 23 anos. Há cerca de um mês o jovem lembra que saiu do serviço por volta das 19h, mas ao chegar à rua Conselheiro Arp, no Centro, onde havia estacionado seu Corsa ano 1995, se deparou com a triste surpresa.

“Sempre deixava em frente a uma clínica, mas aquele dia não tinha vaga. Dei quatro voltas e estacionei na última vaga antes do sinaleiro, onde não tem muito movimento de pessoas. Quando voltei, o carro não estava ali, olhei para minha mulher e disse que roubaram o carro, ela achou que fosse brincadeira”. Guilherme chegou a conversar com a mulher que estava estacionada atrás de seu carro. Ela não viu o furto, porém, disse ter deixado o veículo no local às 14h30 e que o Corsa do vendedor ainda estava ali.

Guilherme ligou para a PM e foi orientado a registrar boletim de ocorrência na delegacia de plantão, na rua Marquês de Olinda. Ele reclama que não conseguiu ser atendido e comunicou o crime apenas pela manhã do dia seguinte, na Delegacia da Mulher. “Fui na delegacia que estava de plantão, estava fechada. Vi que o ar condicionado estava ligado, tinha gente, mas toquei a campainha e nada. Até buzinei com o carro do meu pai. Quando a gente precisa de ajuda quem deveria ajudar não está nem aí”.

O jovem nunca mais recuperou o veículo. Ele não possuía seguro e precisou pagar dez parcelas para quitar o automóvel. “No início fiquei brabo, depois bateu a tristeza de olhar para a garagem vazia”. Guilherme comprou outro carro, mas agora prefere ir trabalhar a pé. “Não deixo mais estacionado na rua, prefiro pagar três reais em um estacionamento, mas venho de ônibus que é mais barato. Deixo o carro na garagem para o final de semana ou para ir em outros lugares”.

Oportunidades atraem ladrões

Seus cerca de 530 mil habitantes e uma extensão territorial de 1.130,878 quilômetros quadrados não são os únicos atributos que fazem de Joinville líder na lista de furto e roubo de veículos no estado. A localização geográfica, próximo a centros como Curitiba e a rodovia BR-101 e BR-280, por exemplo, também serve de atrativos para os criminosos. “Por possuir diversas rotas de saídas o controle da polícia torna-se mais complexo, dificultando o combate ao crime”, diz o presidente do SindsegSC (Sindicato das Seguradoras Previdência e Capitalização de Santa Catarina), Paulo Luckmann.

O delegado regional Dirceu Silveira Jr., destaca, além da posição geográfica, o grande número de veículos em circulação na cidade. A frota joinvilense é de exatamente 329.377,00. “Joinville é a maior frota de veículos circulando no Estado, isto já é um diferencial”. Em Santa Catarina. 7.833 veículos foram furtados e 4.822 tomados de assalto entre setembro de 2012 e fevereiro passado. No ranking dos dez municípios que encabeçam o rol de incidência em ambos os crimes estão ainda Itajaí, Florianópolis, Balneário Camboriú, Criciúma, São José, Chapecó, Blumenau, Brusque e Palhoça, respectivamente.

Em relação a furtos, se Joinville registrou em seis meses 880 ocorrências, Itajaí vem na sequência com 690. Na Cidade das Flores foram roubados ainda 275 veículos contra 211 em São José, que aparece na segunda posição. O índice de recuperação destes veículos é baixo, segundo estatística da própria DEIC. De 12.655 casos de roubos ou furtos neste último semestre, em apenas 4.492 houve retorno do veículo para a mão de seus proprietários. Em Joinville, foram 491 de 1.155.

“A recuperação se dá nas primeiras horas, depois fica difícil. As primeiras 24 horas são críticas, depois o veículo acaba indo para o desmanche ou até mesmo o comércio internacional”, afirma o delegado regional. Dirceu aponta que grande parte dos veículos subtraídos segue para desmanche, mas também há os que são empregados na prática outros crimes ou adulterados.

Indignação das vítimas

Outra vítima recente dos ladrões de carro foi o supervisor de produção F.H.C, 29 anos. Ainda indignado com a atuação da polícia, ele lembra que foi abordado por dois homens ao parar o veículo, um Vectra prata 2007, placas DUU-6802, na rua Marcílio Dias, no bairro América, em nove de janeiro. “Chegaram dois caras pela lateral do carro e colocaram a arma na janela pedindo que eu saísse. Um foi dirigindo e o outro armado n banco do carona. Começaram a rodar a cidade e pareciam não conhecer muito as ruas de Joinville”. 

A vítima conta que reagiu ao chegarem na rua Abdon Batista. Ele pulou sobre o cara armado e houve luta corporal. F. conseguiu escapar, mas levaram seu automóvel. “A polícia chegou dois minutos depois, Mas parecia não ter muito apoio para a equipe de policiais que atendeu a ocorrência, pois os bandidos perdidos conseguiram escapar. O que fica de indignação é como a polícia não conseguiu prender os bandidos se temos tantas câmeras na cidade?”, questiona.

F. se pergunta ainda se as câmeras espalhadas pelo município atendem as necessidades da polícia. Ele revela que no dia seguinte ao assalto foi até o Copom (Central de Operações da Polícia Militar) para verificar a gravação das câmeras instaladas na região onde foi abordado e ficou decepcionado. “Eu vi que não passa de gastos públicos desnecessários, um investimento em vão. Câmeras com baixa qualidade e que realizam mais de 12 movimentos, ou seja, pouca imagem para cada área monitorada. Resumindo, são inadequadas”.

A vítima, assim como Guilherme, também tentou registrar boletim de ocorrência na delegacia da rua Marquês de Olinda, que estava fechada à noite. As vítimas também reclamam das penas brandas aplicadas pela justiça. “Todos os policiais já conhecem os bandidos, se bobear até por nome, mas fazem a parte deles. O judiciário permite que os bandidos voltem para as ruas para cometer o mesmo tipo de crime. Deixa a polícia e a sociedade de mãos atadas”.

O supervisor de produção não possuía seguro e ainda precisa pagar dois anos do veículo, mesmo sem poder usá-lo. “O trabalhador paga altos valores de impostos, utiliza grande parte do tempo para o trabalho e dividi as conquistas com os bandidos. Vivemos presos em casa devido à insegurança enquanto a molecada que decide roubar anda solta por aí”.

Seguro até 6% mais caro

O título de cidade com maior índice de roubos e furtos de veículos em Santa Catarina pesa no bolso dos consumidores joinvilenses. Conforme o presidente do SindsegSC, Paulo Luckmann, o seguro para carros e motocicletas chega a ser até 6% mais caro no município. “O aumento do volume de furtos e roubos resultará em um impacto no valor do seguro. Este fato torna o seguro na cidade mais caro para determinados modelos”. 

O presidente do sindicato destaca que os veículos mais procurados pelos ladrões são os que já saíram de linha ou importados antigos, além de toda linha popular. “Os importados e fora de linha são muito visados por desmanches, para a reposição de peças”. Golpes contra a seguradora também ajudam para engrossar as estatísticas negativas. Luckmann comenta que é dever do mercado de seguros se prevenir e reduzir estas fraudes, já que possui equipes especializadas em identificá-las. “Elas contaminam o preço do seguro, reduzindo a propensão ao seu consumo”.

Outro fator importante que influencia o valor do seguro em Joinville, conforme Luckmann, é a alta taxa de acidentes de trânsito. “Não posso dizer que o número de acidentes em Joinville está acima da média, mas de média para alta. É uma cidade muito próxima a BR-101, tem um volume muito alto de veículos circulando sentido Curitiba, Florianópolis”. 

Publicado em 25/03/13-07:00


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