Encenação da Paixão de Cristo, um momento que reúne fé, arte e cultura

Comunidades católicas ensaiam as representações teatrais da via-sacra, um dos momentos mais emocionantes da semana cristã que inicia

Ana Paula Keller
Ana Paula Keller


Joinville

Gisela Müller/ND
Fernando Fossile, Antônio Carlos Rabello Jr., o ator Rodrigo Vargas, este na pele de Pilatos, Rogério Aparecido e Elton Furlan: unidos na fé, eles se preparam para as encenações que marcaram a Sexta-feira Santa em diferentes comunidades de Joinville, vivendo Jesus Cristo

 

 

Considerada a maior festa dos cristãos, a Páscoa confunde a história, a religião, a cultura e a arte. Durante séculos, a Paixão de Cristo vem sendo reproduzida no cinema, nas encenações artísticas e nas telas de pintores renascentistas e contemporâneos. Em Joinville, até o próximo domingo (20), a Semana Santa vai movimentar a cidade com programação religiosa e teatral. No contexto histórico, Jesus foi crucificado no ano 1 depois de Cristo, quando chega à cidade de Jerusalém. À época, o Império Romano buscava ocupar mais nações, porém o primeiro imperador a professar o cristianismo juntamente com a igreja católica foi Constantino Magno, 300 anos d. Cristo.

Na passagem bíblica da crucificação há 15 estações, desde quando Jesus é condenado à morte frente à Pôncio Pilatos até o momento da ressurreição. A maioria das igrejas não encena a último texto. Embora a representação seja cultural e religioso são os elementos artísticos que enriquecem as encenações. O figurino usado pelas comunidades é pesquisado, assim como o texto é retirado da Bíblia para não perder a veracidade. Filmes, entre eles, “A Paixão de Cristo”, dirigido de Mel Gibson, ajudam a compor o roteiro com cenas adaptadas. Outros elementos artísticos e importantes na representação são o cenário e o figurino também usados para comover as pessoas. E neste contexto está vinculada a história, a religião, a cultura e a arte.

Para a doutora em artes visuais Nadja Lamas a encenação da Paixão de Cristo não é artística. “Vejo como uma manifestação cultural e religiosa embora haja um texto poético com presença de cenário e vestuário”. Nadja, que leciona na Univille (Universidade da Região de Joinville) relembra as pinturas como manifestação da arte. “Apesar das pinturas serem subsidiadas pela igreja elas são representações artísticas porque os pintores acabam transgredindo a religião”, avalia. Entre os grandes nomes da arte mundial que pintaram momentos deste período está o pré-renascentista italiano Giotto di Bondone, os renascentistas Michelangelo Bounarroti e Michelangelo Merisi da Caravaggio. Ainda figuram na listas de pintores o alemão expressionista Matthias, Grünewald, o surrealista Salvador Dali, O neo-classico William A. Bouguereau e o mais contemporâneo o boliviano Fernando Botero, figurativista.

 

Representação que reafirma uma crença

 

Para a historiadora Valdete Daufemback Niehues, a representação teatral para continuação da cultura é importante porque traz as raízes de uma prática de séculos, também reafirma uma crença. “Ela serve para unir as pessoas como cultura de aproximação”. A professora diz que neste aspecto podem surgir reflexões e transformar a sociedade para melhor. “Essa representação pode inspirar uma pessoa, depende da sua fé”. No entanto, ela avalia que há uma cultura de domínio neste contexto. “O ser humano precisa de uma autoridade acima de si, podendo ser divida ou não, para continuar a sua vida. Recorrer a essa representação para entender que é merecedor da sua própria condição de vida”.

Aos católicos, a Semana Santa é o ápice da quaresma e a Páscoa é considerada a maior festa do cristianismo. “Muitos pensam, que é o Natal, não, é a Páscoa”, reforça o Dom Irineu Roque Scherer, bispo da Diocese de Joinville. Inicia com o Domingo de Ramos (13) e marca a entrada de Jesus na cidade de Jerusalém, à época havia sido recebido em festa. “Os mesmos que gritaram ‘glória ao filho de Davi’, foram mesmos que disseram ‘crucifica-o, crucifica-o’”, explica o bispo. Dom Irineu faz uma relação com os dias atuais dizendo de que as pessoas continuam sendo traídas. Na segunda-feira deu-se a prisão de Jesus e na terça o cumprimento de promessas. Já a quarta é considerada o dia de trevas.

 

O momento mais importante para o catolicismo

 

Na Quinta-feira Santa, quando encerra o período da Quaresma, inicia um momento importante para o catolicismo. É o Tríduo Pascal, os três dias correspondentes a Quinta-feira Santa, Sexta-Feira Santa e a Vigília Pascal, também chamado de Sábado de Aleluia. No primeiro são lembrados a instituição da eucaristia e o sacerdócio, uma alusão a função exercida pelos padres. Há neste dia a missa na qual se lavam os pés dos fieis, para representar o ato antes da última ceia. De acordo com o bispo o gesto é o símbolo de humildade, noite ao qual tem a traição. “Judas traiu Jesus por dinheiro, permanece vivo na nossa comunidade”, diz o Dom.

A Sexta-feira da Paixão de Cristo representa o mistério da morte, dia em que católicos jejuam e tem abstinência a carne. “A questão teológica mais profunda deste dia é o jejum do pecado.” O último dia do Tríduo Pascal é a Vigília Pascal quando é realizada a missa da Páscoa, no sábado à noite. “A missa de Páscoa no sábado é a mais importante do ano eucarístico, as de domingo são consequencia”. De acordo com o bispo toda a liturgia do ano é dirigida para essa celebração; é o momento de renovação da esperança e perseverança.

 

O teatro da Paixão de Cristo


Rodrigo Vargas, 30 anos, é ator há nove anos, membro da Cia. Stúdio em Cena. Há mais de dez anos participa das encenações da Paixão de Cristo, nesta edição interpreta Pôncio Pilatos. Ele é uma exceção porque os demais são amadores e não vivem do teatro. Antônio Carlos Rabello Jr., 33 anos, será crucificado na Comunidade Católica Arca da Aliança; Elton Furlan, 27 anos, encena Jesus na igreja São Sebastião; e Fernando Fossile, 19 anos, interpreta Cristo na Nossa Senhora de Fátima; Rogério Aparecido Amâncio, 35 anos, revive o messias na Cristo Ressuscitado juntamente com Vargas. “O teatro não foge da história que todo mundo conhece, mas sempre buscamos melhorar os detalhes visuais”, diz o ator.

Para quem ainda não assistiu ao teatro da Paixão de Cristo, a primeira passagem inicia com Jesus sendo condenado a morrer. Depois ele carrega a cruz e na sequência cai pela primeira vez; é assim que tem o encontro com a sua mãe Maria e logo após carrega a cruz no caminho hoje chamado Via Sacra. Na sexta passagem Santa Verônica enxuga o rosto do messias, mas ele cai pela segunda vez e, então, com discurso tem de consolar as mulheres de Jerusalém até cair pela terceira e última vez e ser crucificado. Depois as suas vestes são retiradas e ele é pregado na cruz. Antes de morrer, Cristo profere as palavras: “Pai, entrego em suas mãos o meu espírito”. Uma das cenas mais comoventes da encenação é a 13ª quando ele é retirado da cruz e colocado no colo de sua mãe Maria antes de ser sepultado e ressuscitar três dias depois.

Encenações

Sexta (19)

19h – Paróquia Cristo Ressuscitado encena Paixão de Cristo, rua Santa Catarina, 2297, e segue até a igreja na Waldomiro José Borges, 145, Floresta

19h30 - Paróquia São Sebastião encena o teatro da Paixão de Cristo, Iririú

19h30 - Comunidade Arca da Aliança encena o musical da Paixão de Cristo, Itaum

19h45 - Paróquia Nossa Senhora de Fátima encena Paixão de Cristo, Itaum

Celebrações com o Bispo

Domingo (13)

8h – 10h – 19h – missa com benção de ramos

Quarta (16)

19h - missa dos Santos Óleos, na Paróquia Nossa Sra. de Fátima, com o Dom Irineu Roque Scherer

Quinta (17)

19h30 – celebração penitencial, levar alimentos não perecíveis

Quinta

19h - missa de lava pés, com o bispo Dom Irineu Roque Scherer

Sexta

15h – celebração da paixão de Cristo, adoração da cruz e comunhão eucarística, com o Dom Irineu Roque Scherer

19h - procissão do senhor morto e via sacra

Sábado (19)

19h - missa da Vigília Pascal

Domingo (20)

8h – 10h – 19h – missa de domingo de Páscoa

Publicado em 14/04/14-19:40

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