Instituto Porta do Sol oferece aulas gratuitas de música para crianças em São Francisco do Sul

Alunos precisam ter bom desempenho escolar para participar


Fabrício Porto/ND
Cordas. Keith Caroline Cidral (E) e Alice Moraes de Paula frequentam as aulas de violino

 

À beira da Baía da Babitonga, a pequena Alice Moraes de Paula arranha os primeiros acordes no violino. Ainda lhe falta manejo com o instrumento, mas tudo dentro da normalidade para quem está a apenas alguns meses em contato com a música. “Eu nunca tinha visto um violino antes, só na televisão, com o André Rieu”, conta a menina, com uma surpreendente maturidade para quem tem apenas oito anos. E, enquanto ela falava, era possível ouvir sons de outras cordas pressionadas por dedos iniciantes.

Alice é uma das 50 crianças atendidas pelo Instituto Porta do Sol, em São Francisco do Sul. O projeto é privado, criado pelo Tesc (Terminal Portuário de Santa Catarina), mas quem estuda lá não paga nada: além da música, as dezenas de alunos ganha refeição, transporte, uniforme e aulas de reforço escolar. Tem sido assim desde 2008, quando um dos responsáveis pela empresa percebe que as aulas de música da filha tinham tornado-a muito além de uma instrumentista.

A professora na ocasião era Cilene Sluminsky Gums, hoje orientadora pedagógica e professora de violino e viola do Porta do Sol. “Eu dei aula para a menina durante 12 anos. O pai, quando viu o resultado, disse ter vontade de estender essa benfeitoria para outras crianças, daí demos início ao projeto”, relembra. O empresário que investiu na criação do Porta do Sol prefere não ter o nome revelado – o foco principal são as crianças, seus talentos e a transformação de uma cada uma delas num cidadão.

A casa no Centro Histórico de São Francisco do Sul foi alugada, os violinos, violas, violões e violoncelos comprados, mas ainda faltava os alunos. Num primeiro momento o Porta do Sol atendeu estudantes da Escola Municipal Ida Beatriz, numa das regiões mais carentes da Ilha. Como o trajeto até o Centro Histórico passava por outros bairros, logo foram integrados alunos das escolas Doutor Rogério Zattar, Franklin de Oliveira e João Germano Machado.

Alice Moraes de Paula está no Porta do Sol desde março. Aluna da Escola Doutor Rogério Zattar, ela hoje divide a sala com a amiga Keith Caroline Cidral, também de oito anos, que estava apenas na terceira aula de violino. Uma ajuda a outra no aprendizado. “Elas aprendem desde a postura com o violino, conhecimento das cordas até a leitura de partituras”, explica a orientadora pedagógica Cilene Sluminsky Gums. 

As meninas violinistas afirmam que, antes da aula, nunca tinham sequer chegado perto de um violino. “Eu não sabia que tinha um projeto assim, por isso me interessei em participar para conhecer mais sobre música”, explica Alice. “Ainda está muito no começo, mas eu estou gostando bastante. Fico ansiosa pelas aulas”, completa Keith.

Para participar do Instituto Porta do Sol há apenas dois pré-requisitos. É preciso ter média igual ou superior a 7,0, tanto na escola regular como nas aulas com os instrumentos, como dita o Método Suzuki, empregado no projeto. Os participantes têm ainda apoio pedagógico constante, para o caso de estarem com alguma dificuldade nos ensinos. Em alguns casos a própria família é acionada, e se mesmo assim o aluno não corresponder, ele perderá a vaga para um outro interessado. “Nosso grande desafio é fazer com que eles tenham o hábito do estudo, que sintam prazer em aprender. O resultado tem sido bem positivo”, avalia a pedagoga Ana Denise de Oliveira.

A excelência técnica também é importante. Por ano, os alunos fazem anualmente duas grandes apresentações públicas, para mostrarem à comunidade o resultado de tanto empenho. Em julho o espetáculo foi reservado para a música erudita, enquanto a apresentação prometida para dezembro deverá ser focada no folclore brasileiro, sempre com formações em quarteto. “Esse ano iniciamos ainda com outro projeto, no qual todos os meses um grupo vai até locais públicos para levar a música”, frisa orientadora Cilene Sluminsky Gums. “Nosso principal objetivo é tornar essas crianças bons artistas e bons cidadãos.”

Na sala ao lado, Jéssica Machado mostra toda a virtuosidade de quem já é praticamente uma veterana no Porta do Sol. Com 13 anos, sendo quatro deles dentro do projeto, a jovem afirma que há algum tempo seu único contato com a música era exclusivamente ouvir rádio. “No começo foi bem estranho, até porque eu não conhecia um violino. Achei que nunca iria conseguir tocar direito”, diz.

Hoje amante de música erudita, em especial as composições do alemão Johann Sebastian Bach, Jéssica é um exemplo de como o trabalho desenvolvido pelo projeto pode transformar vidas. “Hoje eu sei que sou uma pessoa melhor por causa da música. Me dá vontade de me empenhar e estudar mais”, conclui. Já no violoncelo, uma das alunas é Sarah Boegernhausen, de dez anos, que chegou ao Porta do Sol no ano passado. “Pra aprender é preciso se dedicar. Mesmo quando não estou aqui eu reservo um tempo em casa para continuar estudando”.

A faixa etária dos 50 alunos é entre 8 e 14 anos, a idade do participante que é a mais tempo atendido pelo Porta do Sol. Por enquanto, os responsáveis não pensam em limites. “Eles têm dois anos para cumprir cada livro do Método Suzuki, mas depois podem continuar. Quem sabe alguém não saia daqui para trabalhar ou fazer alguma faculdade de música?”, prevê Cilene. “Por isso não adianta só saber tocar em alto nível, é preciso ir bem na escola.”

 

 

 

 

Publicado em 22/09/12-07:00